ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128
Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra
São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015
A RETOMADA DE UM PROJETO MODERNISTA: INFLUÊNCIAS OSWALDIANAS EM
MEU QUERIDO CANIBAL
Bruna Lago Dourado (UEFS)
Este estudo aproxima aspectos das obras Pau-brasil e Manifesto
Antropófago, de Oswald de Andrade, do romance Meu querido canibal, de
Antônio Torres. O projeto modernista anunciado no título refere-se ao ideal de
refazer a história do Brasil, reinterpretar o passado nacional, estabelecer rupturas
com a cultura acadêmica e a dominação cultural estrangeira no Brasil e construir
uma outra ideia de identidade nacional, defendido na primeira fase do
modernismo brasileiro, principalmente por Oswald de Andrade. Sua retomada em
2000, ano que Meu querido canibal foi publicado, pode ser identificada pelo
momento de reflexão sobre os 500 anos do descobrimento do país, que foi
instaurado e que representou um diálogo com as ideias modernistas de revisão
crítica do passado colonial brasileiro. Já as influências, estão relacionadas com as
aproximações que podem ser estabelecidas entre a poesia Pau-brasil e o
Manifesto antropófago com o romance de Torres.
Iniciando o trabalho de estabelecer relações entre os textos de
Oswald de Andrade com o romance de Antônio Torres, é possível encontrar, em
ambos os autores, uma visão diferenciada da história do Brasil, com releituras de
textos dos cronistas do descobrimento e da colonização. Em Pau-brasil, “Pero Vaz
Caminha” é o título do poema que abre a sessão “História do Brasil” da obra. A
apropriação parodística da carta, efetuada pelo autor modernista, pode ser lida
como um texto de contração da própria história da pátria. Sem rodeios e
ornamentos, Oswald de Andrade recortou fragmentos do texto original, fez uma
nova disposição em versos e estrofes e os intitulou.
PERO VAZ CAMINHA
A DESCOBERTA
Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da páscoa
Topamos aves
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E houvemos vista da terra
OS SELVAGENS
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados
PRIMEIRO CHÁ
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
AS MENINAS DA GARE
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha. (ANDRADE, 2001, p.69-8).
A supressão da preposição “de” no título, uma referência a Pero Vaz
de Caminha, autor do dito primeiro documento literário a respeito do Brasil,
amplia as possibilidades de leitura do poema. Assim deslocado, o sobrenome
Caminha passa ria a funcionar como verbo, sugerindo uma polissemia: Pero Vaz
desloca-se, explora. Não só o título representa uma contração em relação ao
texto original, os subtítulos das partes que compõem o poema também
funcionam como elementos de ruptura e dessacralização. O primeiro deles, “A
descoberta”, coloca em questão a veracidade da história oficial no que diz
respeito à versão sobre o acaso no descobrimento do Brasil. O fragmento do
poema flagra o momento do choque cultural entre os índios e os colonizadores e,
de certo modo, sugere uma leitura crítica acerca do processo de
desculturação/aculturação aos quais os indígenas brasileiros foram submetidos. O
segundo subtítulo, de caráter ambíguo, pode se relacionar tanto com os
indígenas, em que selvagens podem ser lidos no sentido de inocentes e primitivos,
que temeram e se espantaram com a visão de uma galinha, quanto para
caracterizar os colonizadores, selvagens no sentido de grosseiros e violentos, com
suas técnicas de exploração e imposição cultural.
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Em “Primeiro chá”, é possível visualizar uma metáfora do que foi a
relação entre invasor e dominado. Assim como nas outras partes, Oswald de
Andrade faz um recorte do texto original e o ressignifica. Eis como o momento de
encontro dos indígenas com Diogo Dias é narrado na carta de Caminha:
[...] além do rio andavam muitos deles dançando e folgando,
uns diante dos outros, sem se tomar pelas mãos. E faziam-no
bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que
foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou
consigo um gaiteiro nosso com sua gaita.
E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles
folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da
gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão,
muitas voltas ligeiras e salto real, de que eles se espantavam e
riam e folgavam muito. E conquanto aquilo os agradasse e
segurasse e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de
animais monteses, e foram-se para cima. (CAMINHA, 2000, p.
45).
No texto do escrivão, os indígenas dançavam sem se darem as mãos,
num gesto de desarticulação social, que se altera quando Diogo Dias, com seu
jogo de sedução ao som de uma gaita, toma-os pelas mãos, depois riem e
dançam. Com direito a salto real, que pode ser interpretado como uma espécie de
apresentação circense, o almoxarife seduz os indígenas. Não é a toa que o
subtítulo do poema de Oswald de Andrade se chame “Primeiro chá”, que dentro
da proposta de leitura crítica do autor, pode simbolizar o primeiro chá de
sedução, de exploração e acumulação das riquezas encontradas na nova terra
pelo colonizador. Ou seja, “depois de dançarem”, de os indígenas estarem
seduzidos pela música do invasor, “Diogo Dias fez o salto real”, desestabilizando a
base cultural dos autóctones e tomando posse de suas terras logo no primeiro
contato.
Na última parte do poema, intitulado “As meninas da Gare”, é
flagrado o momento em que os colonizadores portugueses reparam na nudez das
índias, num jogo carregado de malícia, quando pensada na sociedade portuguesa
da época, na qual a nudez feminina era território problemático. Contrastando um
tempo histórico com o atual, o título da seção faz referência a Gare, afamada por
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se constituir como uma região de prostituição. Neste contraste, Oswald de
Andrade problematiza o fim que tiveram as índias, ou seja, a sua conversão em
prostituas. Desse modo, o poema denuncia não apenas a colonização do espaço
físico e geográfico da nova terra, mas também a exploração de seu habitante
tanto pelo trabalho escravo quanto pela servidão sexual.
Assim como Oswald de Andrade, a carta endereçada ao rei de
Portugal foi deglutida por Antônio Torres com pretensões similares à realizada
pelo escritor modernista. As apropriações em Meu querido canibal também
funcionam como elementos de contrastes em relação ao texto original. No texto
de Torres, os trechos que aludem à carta são utilizados ironicamente para a
caracterização detalhada de Cunhambebe: “Não o imagine apenas um edênico
bom selvagem – e nu, ainda por cima, sem nada a lhe cobrir as vergonhas etc”
(TORRES, 2007, p. 11) e ainda para descrever as índias com “os pelos pubianos
raspadinhos”. Tais apropriações funcionam como uma rasura para a visão
etnocêntrica europeia sobre os indígenas, principalmente quando classificaram a
mente dos autóctones como “tabula rasa” ou folha de papel em branco, imagens
que no romance também são invertidas: “Nem burros, nem broncos. Muito pelo
contrário. Eram inteligentes, argutos e raciocinavam com muita lucidez” (TORRES,
2007, p. 21).
O trabalho de revisão crítica do passado histórico brasileiro também
aparece nos outros poemas da seção “História do Brasil” de Pau-brasil. Seguindo
uma ordem cronológica dos acontecimentos dos fatos e, consequentemente, das
figuras relacionadas a eles, além de “Pero Vaz Caminha” aparecem os poemas:
“Gandavo”, “O Capuchinho Claude D’Abbeville”, “Frei Vicente do Salvador”,
“Fernão Dias Paes”, “Frei Manoel Calado”, “J. M. P. S.” e “Príncipe Dom Pedro”.
De forma sintética e, muitas vezes utilizando fragmentos do texto original, Oswald
de Andrade faz um convite para redescobrir o Brasil, para viajar pelo passado
nacional com o olhar de colonizado e satirizar a maneira como o país foi descrito
pelos primeiros colonizadores e viajantes que por aqui estiveram.
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Da mesma forma, ainda no tocante ao diálogo realizado com os
cronistas do descobrimento, encontra-se registrado em Meu querido canibal a
cena que descreve o momento de encontro entre Hans Staden e Cunhambebe, na
verdade, uma apropriação do texto do cronista, que anteriormente narrou tal
episódio em obra intitulada Duas viagens ao Brasil (1557). No texto de Staden,
são apresentados os elogios que ele teria feito a Cunhambebe, o quanto o
guerreiro se mostrou satisfeito com tais elogios e ao mesmo tempo como isso
serviu de estratégia para tardar a sua morte e, consequentemente, conseguir sua
libertação.
Na apropriação realizada por Antônio Torres, os valores se invertem,
uma vez que de esperto e com boa lábia para enganar os tupinambás, o cronista é
descrito como um medroso que fazia de tudo para escapar de ser devorado pela
tribo. Na verdade, era bastante difícil “crer que Cunhambebe quisesse de fato
comer a carne trêmula de Hans Staden. O alemão vivia rezando e choramingando
e se borrando de medo. Comportava-se mais como um europeu azarado nos
trópicos do que como um guerreiro vencido” (TORRES, 2007, p. 47),
comportamento que, segundo o texto de Torres, provavelmente teria feito
Cunhambebe libertar o prisioneiro.
Outra cena deglutida do relato do viajante é o momento em que
Hans Staden vê Cunhambebe com uma cesta cheia de carne humana e este lhe
oferece um pedaço, o que o deixa horrorizado e o faz questionar o porquê
daquele ato: “–Mesmo um animal irracional raramente devora os seus
semelhantes. Porque então um homem iria devorar os outros?”, questionamento
para o qual Cunhambebe responde: “– Sou uma onça. Isto está gostoso” (TORRES,
2007, p. 46). Se no texto de Hans Staden, a cena é descrita como uma marca de
barbárie, no texto de Torres, a resposta de Cunhambebe revela-se, num tom um
tanto cômico, certa sensação de prazer pela devoração da carne, inserindo, desta
forma, o canibalismo como uma prática cultural indígena, carregada de
significados.
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Assim como o diálogo com os cronistas, outros aspectos, defendidos
no Manifesto Antropófago, encontram-se presentes em Meu querido canibal.
Ambos os textos revisam a história do Brasil e fundamentam a antropofagia como
um impulso necessário para a construção de uma cultura preparada para
questionar seu passado colonial e enfrentar sua dependência cultural.
Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente.
Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de
todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas
as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that
is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe
dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem.
Lei do antropófago. (ANDRADE, 1997, p. 353).
O manifesto de Oswald de Andrade nega a possibilidade de
conciliação entre colonizadores e colonizados. O texto trabalha “contra todas as
catequeses” e valoriza o índio no seu estado natural, bruto, um “mau selvagem”.
Trata-se de um índio que prega a Revolução Caraíba: “Queremos a Revolução
Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas
eficazes na direção do homem [...]” (ANDRADE, 1997, p. 354). A palavra caraíba
designa tanto os primeiros povos indígenas, com os quais os colonizadores
estabeleceram contato, predominantemente nas regiões norte da América,
quanto a uma família lingüística a quem pertenciam algumas tribos brasileiras.
Para o autor modernista, a revolução caraíba representava a união de várias
tribos indígenas contra a presença colonizadora.
A proposta de revolução indígena também aparece em Meu querido
canibal por meio da narração da Confederação dos Tamoios, considerado o maior
movimento realizado por diversos povos indígenas brasileiros, contra a
dominação da colonização portuguesa, nas regiões de São Vicente, no litoral
paulista e em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Toda a narração do movimento no
romance é realizada a partir da relação intertextual estabelecida com a obra A
guerra dos tamoios (1965), de Aylton Quintiliano. Em ambos os textos,
encontram-se registrados os momentos decisivos da Confederação ou Guerra dos
Tamoios, desde os fatores que determinaram a sua formação até os
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acontecimentos que levaram ao seu fim. Segundo Aylton Quintiliano, o
movimento indígena ocorreu presumivelmente entre os anos de 1554 e 1555 e
significou um momento da história indígena marcado pelo forte desejo pela
independência e liberdade.
O posicionamento de indignação contra a presença colonizadora
também aparece no Manifesto Antropófago através da aversão à catequese e, por
consequência, à atuação jesuítica. “Contra o Padre Vieira. Autor do nosso
primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha
isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar
brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia” (ANDRADE,
1997, p. 355). Neste tópico, Oswald de Andrade faz referência à investida colonial
de exploração do açúcar maranhense, que em nada beneficiou a colônia. Além de
Vieira, a denúncia do processo de desculturação indígena através, principalmente,
da arte teatral, é representada pela figura de José de Anchieta: “Contra Anchieta
cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema – o patriarca João
Ramalho fundador de São Paulo” (ANDRADE, 1997, p. 359).
O padre José de Anchieta aparece em Meu querido canibal como
aquele que defendeu a guerra contra os índios rebeldes à catequização. Ele, assim
como o padre Manuel de Nóbrega, ganham papel de destaque na narração sobre
a Confederação dos Tamoios. No momento em que os indígenas pareciam vencer
a guerra e por um fim na exploração implantada pelos portugueses, os padres
foram acionados para tentar um acordo de paz com os confederados. Inicialmente
visitaram a aldeia de Coaquira, chefe indígena que, de algum modo, possuía certa
simpatia pelos padres. Depois, foram até os outros membros do conselho para
conseguir o acordo. Anchieta, descrito como um ser muito astuto, desde que
chegara, aprendera a língua, os costumes e até as fraquezas dos indígenas.
Utilizando-se de um poder de convencimento surpreendente, com sua “retórica
jesuítica”, acabou conseguindo a confiança da maioria dos chefes tamoios, apesar
de Aimberê, chefe indígena que ficou na liderança da Confederarão após a morte
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de Cunhambebe, ainda considerar os “pêros”, como chamava os portugueses,
covardes e traiçoeiros.
Assim como no manifesto, o texto de Torres trabalha no sentido
contra a catequização. Os padres são descritos como mentirosos. Apesar de
conseguirem o apoio de muitos chefes indígenas da Confederação dos Tamoios,
para o herói Cunhambebe, não eram dignos de confiança. Mesmo depois de
morto, tentou alertar seu filho sobre o perigo que corriam ao aceitarem o acordo
de paz com os portugueses:
- Filho – urrou a medonha voz. – Filho, deixe a barba crescer.
- Por que, meu pai?
- Para poder botar ela de molho.
- Mas por que, pai?
- Porque não vai ser nada disso que você está acreditando.
- E por que não, meu pai?
- Porque eles são mentirosos. Ouça o que eu estou lhe
dizendo. Eles sempre foram ferozes, traidores, covardes e
mentirosos. E não é agora que vão deixar de ser o que sempre
foram. Não seja tolo, meu filho. Não dá para acreditar numa
única palavra desse padreco. E, cá pra nós, que bicho feio,
heim? Branquelo, pequeno, corcunda... feio como a peste.
Ainda por cima tá empesteado, com o mal do peito.
- Deixa de implicância com o padre, pai. Ele passou muitos
dias com a gente. E se comportou como um santo homem. Até
nos ensinou muitas coisas boas.
- Treta. Tudo treta. Filho, não se deixe enganar pelas
aparências. Cuidado com esse papa-hóstia. É um mentiroso
igual aos outros. (TORRES, 2007, p. 88).
Além dos padres jesuítas, o texto de Torres retoma o ideal de ir
contra “o patriarca João Ramalho o fundador de São Paulo”, do Manifesto
antropófago, e abre um “rodapé” para trazer algumas considerações sobre este
personagem. Português proprietário de terras, João Ramalho ficou conhecido na
Europa pelo tráfico de índios, principalmente os guaianases e carijós. O
explorador português casou-se com Bartira, filha do chefe indígena Tibiriça,
inimigo dos Tupinambás. Embora tenha sido alvo dos confederados, o traficante
de índios conseguiu escapar de muitas batalhas, “viveu quase 100 anos. Um
fenômeno, para aquele tempo. E virou nome de rua em São Paulo e pelo Brasil
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afora” (TORRES, 2007, p.67). Através de exemplos como o de João Ramalho,
Antônio Torres denuncia o apagamento do lugar do índio na história do Brasil.
“Ou seja: aqui também a história só começa com a chegada dos portugueses”
(TORRES, 2007, p. 151).
Tanto o manifesto de Oswald de Andrade quanto o romance de
Antônio Torres, valorizam o índio natural, o habitante da “era da pedra lascada”.
O índio nu, numa clara “reação contra o homem vestido”; o índio que vivia feliz
antes da chegada dos colonizadores, porque “antes dos portugueses descobrirem
o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade” (ANDRADE, 1997, p.358). Ambos os
textos trabalham contra a ideia do índio ingênuo e dócil, que entra em íntima
comunhão com o colonizador, imagens que aparecem na ficção romântica,
principalmente nos romances indianistas de José de Alencar. Os dois textos
subvertem a ideia do bom selvagem e problematizam a entrega ou sacrifício do
índio ao branco, encenada por Peri e Iracema, nos romances de Alencar. “Contra
o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e
genro de D. Antônio de Mariz” (ANDRADE, 1997, p. 358). Para Haroldo de Campos
(2001, p. 44):
O “índio” oswaldiano não era o “bom selvagem” de Rousseou,
acalentado pelo Romantismo e, entre nós “ninado pela suave
contrafação de Alencar e Gonçalves Dias”. Tratava-se de um
indianismo às avessas, inspirado no selvagem brasileiro de
Montaigne (Des Cannibales), de “um mau selvagem”,
portanto, a exercer sua crítica (devoração) desabusada contra
as imposturas do civilizado.
Com este mesmo perfil indígena, em Meu querido canibal,
Cunhambebe é caracterizado como o mais corajoso de todos os guerreiros
tupinambás, afamado nas batalhas contra os inimigos tupiniquins. O herói,
escolhido como líder da Confederação dos Tamoios, é recriado como o mais
valente da região habitada e famoso por suas batalhas na defesa do seu povo
contra os colonizadores portugueses. Descrito como um canibal, o índio honra o
papel esperado do rebelde, que luta contra a presença do invasor.
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A Antropofagia de Oswald de Andrade fundou, sem dúvidas, uma
outra possibilidade de se pensar no problema da dependência cultural brasileira.
O movimento trouxe uma perspectiva de olhar para a história do país de forma
crítica, sem idealizações. Enquanto outras manifestações artístico-culturais
insistiram em negar a antropofagia, Oswald de Andrade persistiu em afirmá-la
como um traço positivo a ser ressaltado. O autor modernista via na antropofagia a
possibilidade de inserção do índio na história e na cultura brasileira, uma maneira
de estabelecer um diálogo com a tradição literária e cultural do Brasil e, ainda,
uma alternativa para o enfrentamento do problema da dependência cultural.
Em Meu querido canibal, o tema do canibalismo ou antropofagia
aparece como eixo central da obra, uma vez que é utilizado positivamente para
caracterizar o protagonista Cunhambebe, para assinalar o caráter antropofágico
do narrador em suas andanças na busca de vestígios que lembrem a história dos
tupinambás e de seu herói maior e, por fim, para assinalar o próprio processo
literário de escrita do autor, que recorreu a inúmeros referentes para compor a
sua trama. Encontram-se deglutidos na obra vários textos relacionados ao período
do descobrimento, inclusive aqueles em que aparece o chefe máximo dos
tupinambás; outros mais atuais, literárias ou não, que podem ser observadas por
meio de citações diretas, tornando-se, desta forma, fator recorrente no romance.
A análise comparativa entre os textos de Oswald de Andrade e o
romance de Antônio Torres, longe de querer identificar a migração de um
elemento literário de uma obra para a outra, revelou a existência de relações
mútuas nas duas propostas de literaturas diferentes, neste caso, uma modernista
e a outra contemporânea. É claro que a análise apresentada corresponde apenas
a uma parcela das aproximações que podem ser estabelecidas entre os dois
autores. No entanto, é possível reconhecer certo grau de importância nessa
retomada da antropofagia oswaldiana em Meu querido canibal.
A estética literária baseada na ideia de canibalismo cultural dialoga
com a crítica pós-colonial e os chamados Estudos Culturais, uma vez que pode ser
pensada como um estatuto de ponto de vista pós-colonial que sugere uma teoria
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brasileira preparada para o enfrentamento do atraso e da dependência cultural
do país. No caso de Meu querido canibal, é possível concluir que, ao realizar um
projeto de escrita fundamentado na ideia de “canibalismo literário”, o romance
aproxima-se do movimento da antropofagia e atualiza a estratégia de
recuperar/devorar as mais variadas inovações de diferentes matrizes culturais,
com o intuito de se pensar um fazer artístico com caráter de abertura, de
flexibilidade e de mistura.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Oswald de. “Manifesto antropófago”. In: TELES, Gilberto Mendonça.
Vanguarda europeia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais
poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972.
Petrópolis, RJ: Vozes, p. 353-360,1997.
ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. Obras Completas. 7. ed. São Paulo: Globo, 2001.
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta ao rei Dom Manuel. 3. ed. Rio de Janeiro: Ediouro,
2000.
MARQUES, Reinaldo Martiniano. As cartas de Caminha e os Modernistas:
releitura, reescrita e reinvenção das origens. Cadernos da Pós-Reitoria de
extensão da PUC. MG/ BH: PUC. MG, 1991.
QUINTILIANO, Aylton. A guerra dos tamoios. Rio de Janeiro: Reper, 1965.
STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil: primeiros registros sobre o Brasil.
[tradução Angel Bojadsen; introdução de Eduardo Bueno]. Porto Alegre: L∞PM,
2008.
TELLES, Gilberto Mendonça et al. Oswald plural. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1995.
TORRES, Antônio. Meu querido canibal. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.
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