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DE LETRAS DA BAHIA
Setembro de 2011, n. 50
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ISSN 1518-1766
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Copyright © by Academia de Letras da Bahia, 2011
ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA
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40.050-000 – Salvador, Bahia, Brasil
Telefax (71) 3321-4308
www.academiadeletrasdabahia.org.br
[email protected].br
Revista Anual de Literatura, Artes e Ideias
CONSELHO EDITORIAL
Myriam Fraga (Diretora)
Aleilton Fonseca
Evelina Hoisel
Ruy Espinheira Filho
Ficha Catalográfica
Revista da Academia de Letras da Bahia, n. 50, set. 2011
Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2011.
464 p.
Anual
INSN 1518-1766
1. Literatura brasileira -- Periódicos
–
CDU 860.0(05)
IMPRESSO NO BRASIL
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Sumário
ARTIGOS E ENSAIOS
11
A poesia de Castro Alves: uma construção
biográfica?
EVELINA HOISEL
25
A Selva – 80 anos depois (1930-2010)
WALDIR FREITAS OLIVEIRA
41
O conto e a novela de Xavier Marques
ARAMIS RIBEIRO COSTA
57
O biógrafo das criaturas de Jorge Amado
LUIS HENRIQUE DIAS TAVARES
63
A influência francesa na Arquitetura e Urbanismo
brasileiros
PAULO ORMINDO DE AZEVEDO
71
Presença do humanismo militante na poesia de
Jacinta Passos
FLORISVALDO MATTOS
87
Afrânio Coutinho, centenário: um testemunho de leitura
ADEÍTALO MANOEL PINHO
97
A expressão do indizível: Rosa, Meyer-Clason,
Wittgenstein
ANTONIO BRASILEIRO
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105
Descrença na palavra
CARLOS RIBEIRO
119
Mato virgem: um príncipe austríaco em visita a
Ilhéus, em 1860
CELINA SCHEINOWITZ
125
Destino, ação e sabedoria na literatura oral do sertão
ANTONIO SÁ DA SILVA
141
Dos estreitos limites do internato, fui salvo pelo mar:
O Padre Luiz Gonzaga Cabral e Jorge Amado
MANOEL DE NOVAES CABRAL
157
Subjetividades traçadas pela linguagem em dialogia:
nas relações institucionais e na vida cotidiana
ROSA HELENA BLANCO MACHADO
181
Em favor da criação da Academia de Ciências da Bahia
ROBERTO FIGUEIRA SANTOS
POESIA
191
Condição
RUY ESPINHEIRA FILHO
197
Cinco poemas autobiográficos
FERNANDO DA ROCHA PERES
201
Romance da volta de Ulisses
MYRIAM FRAGA
204
Poemas
CYRO DE MATTOS
208
Poemas
GLAUCIA LEMOS
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214
Poemas
MARIA LÚCIA MARTINS
219
Três bailarinas
ALEXANDRE BONAFIM
223
Poemas inéditos
MARÍA PUGLIESE
FICÇÃO
233
Durango Kid
HÉLIO PÓLVORA
243
Sinhá Quequé Lemina
UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO
251
As hienas
MYRIAM FRAGA
257
Ópera em Viena
CONSUELO NOVAIS SAMPAIO
DISCURSOS
269
Discurso de posse na Academia de Letras da Bahia
PAULO COSTA LIMA
299
Saudação a Paulo Costa Lima
EDIVALDO M. BOAVENTURA
309
Discurso de posse
JOÃO FALCÃO
327
Saudação ao ingresso de João Falcão na ALB
JOACI GÓES
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337
Travessias literárias. Discurso de posse
RITA OLIVIERI-GODET
347
Saudação a Rita Olivieri-Godet
ALEILTON FONSECA
357
Discurso de posse
MARIA BELTRÃO
369
Saudação a Maria Beltrão
EDIVALDO M. BOAVENTURA
387
Homenagem a Samuel Celestino
GERALDO MACHADO
399
Cláudio Veiga – vida, obra e Academia
EDIVALDO M. BOAVENTURA
411
Cláudio Veiga, professor de Francês
DENISE LAVALÉE
417
O desempenho da Academia de Letras da Bahia
de 2007 a 2011
EDIVALDO M. BOAVENTURA
DIVERSOS
435
Efemérides 2010
443
Quadro social da ALB
453
Endereços dos acadêmicos
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Artigos e Ensaios
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A poesia de Castro Alves:
uma construção biográfica?
Evelina Hoisel
Por que denominamos este ensaio de “A poesia de Castro Alves:
uma construção biográfica?” e não “A poesia de Castro Alves:
uma confissão biográfica?” Não seria confissão biográfica um
título mais apropriado para se falar da lírica de um poeta
romântico? Do ponto de vista interpretativo, qual a diferença
entre confissão e construção?
A poesia de um poeta romântico pressupõe um tom
confessional, uma correspondência entre o vivido e o expresso
literariamente. Em primeira instância, para esse tipo de poesia,
confissão parece ser a palavra mais propícia. Foi considerando a
literatura como expressão de um eu, confissão de um eu, que a crítica
do final do século 19 elaborou seus protocolos de leitura.
Apoiando-se no princípio de causalidade, na transparência entre
o vivido e o expresso literariamente, a biografia do escritor foi
sempre uma peça importante no jogo analítico: por ser a origem
da obra, a explicação do texto estaria na vida do autor. O poeta
romântico parece confirmar essa relação a partir de um projeto
de personalização que acentua a unidade entre poesia e pessoa
empírica, ao fazer da lírica de confissão um diário de situações
particulares do poeta-autor.
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A palavra construção, por sua vez, parece mais propícia para
refletirmos sobre a modernidade, sobre a lírica dissonante e sobre
a despersonalização do poeta, rompendo com a unidade entre
poesia e pessoa empírica. Os poetas da modernidade, desde
Mallarmé, Baudelaire, Rimbaud, Valéry, Poe, afirmam a vontade
da forma sobre a vontade da expressão, efetivando aquilo que
Hugo Friederich (1978, p. 40) denomina de poesia como
“construção arquitetônica”.
Assim, voltamos à nossa pergunta inicial: construção biográfica
não seria mais apropriada para definir a lírica moderna do que a
lírica de um poeta romântico dos mais exacerbados, como é
Castro Alves?
Construção biográfica, entretanto, situa o sujeito que
interpreta, caracteriza uma postura analítica, estabelece o lugar
daquele que olha e recorta o tecido textual a partir de
determinados instrumentos interpretativos do seu tempo. Mas
estes instrumentos não estão dissociados do objeto de
investigação. Aquilo que o intérprete lê, ele encontra no texto; é
ele que fornece os elementos direcionadores da sua própria
decodificação. Desse modo, se falamos de construção biográfica
em relação à poesia de Castro Alves é porque o projeto de uma
lírica confessional, como vigorava na segunda metade do século
19, não é totalmente cumprido pelo poeta; desloca-se. Mesmo
em um escritor romântico, podemos perceber o jogo entre
confissão e construção, o que nos autoriza a falar da lírica de
Castro Alves como uma construção biográfica ou autobiográfica.
Outra questão que se impõe aqui diz respeito à necessidade
de se elucidar o conceito de biografia, vez que não estamos usando
esta terminologia em seu sentido tradicional, através do qual se
constituiu um determinado gênero historiográfico e literário.
No contexto desta abordagem, recorremos às nossas reflexões
que configuram a biografia como traço característico da escrita
literária. (HOISEL, 2006). Nessa perspectiva, não a consideramos
apenas como uma tipologia, que adota determinados
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procedimentos de estruturação, submetendo-se a critérios de
veracidade e de autenticidade, de acordo com a concepção em
vigor nos estudos literários do final do século 19 e primeira metade
do século 20. Aqui, a escrita biográfica é resultante das marcas
de um sujeito que se inscrevem naquilo que ele produz. Os
pressupostos desta categoria estão na concepção moderna da
linguagem como cenário no qual forças antagônicas imprimem
suas marcas e podem ser apreendidas, lidas, na inscrição dos
seus traços. Definir biografia implica ainda em reconfigurar a
noção de drama. Se biografia não é uma tipologia historiográfica,
drama não se estabelece apenas como uma das formas literárias,
podendo ser compreendido como uma categoria mais ampla
que atravessa a constituição da própria linguagem, onde forças
atuam e acionam a produção dos signos, lugar de encenações
do sujeito. (HOISEL, 2006).
A modernidade acentua esta dramatização que se realiza através
da linguagem, independentemente de um período histórico. Ela
está na escrita de Sófocles, de Camões, de Shakespeare, de Fernando
Pessoa. Entretanto, é em Pessoa, como poeta da modernidade,
que os limites da linguagem transbordam, delineando o perfil de
um sujeito que se dispersa e se pluraliza. Descentra-se, no
descentramento dos signos que enformam o seu texto.
O escritor deixa seus rastros (as marcas que traçam o seu estilo)
no significante-texto. A escrita literária é, então, por excelência,
vida grafada dramaticamente no palco da linguagem.
Experimentação agônica, e até trágica, dos limites do sujeito e da
linguagem, a escrita literária se apropria dos referenciais,
reencenando-os no ato da produção, fazendo-os aparecer na
opacidade do desempenho linguístico de cada palavra.
A escrita representa, portanto, um pacto biográfico, ou
autobiográfico, independente de explicitar os vínculos que
afirmam a identidade entre autor-narrador-personagem, como
quer Philippe Lejeune, em seu consagrado livro O pacto autobiográfico
(2008). O pacto autobiográfico, segundo Lejeune, é a afirmação
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no texto dessa identidade, enviando, em última instância, ao nome
do autor na capa. Em contraposição ao pacto autobiográfico,
Lejeune define o “pacto romanesco” a partir de dois aspectos: a
prática patente da não identidade: autor e personagem não
possuem o mesmo nome; o testemunho da ficcionalidade; em
geral, é o subtítulo “romance” que preenche esta função.
Ampliando os limites desse pacto autobiográfico e procurando
recuperá-lo pela sua fecundidade enquanto expressão
terminológica, podemos afirmar que ele sustenta a produção da
escrita literária e da leitura poética, e prescinde de qualquer
identidade aparente – como a do nome próprio – entre autor,
narrador e personagem. Essa identidade se estabelece a partir de
um vínculo subjacente à produção dos signos que articulam a
escrita e autenticam uma relação inseparável entre o sujeito e a
linguagem, o sujeito e a palavra: ou seja, o sujeito tornado signo.
Nesse sentido, os elementos factuais são apenas indícios
capazes de convidar o leitor a desentranhar o significado de uma
das vertentes da escrita, pois não há sentido fora dos signos, não
há referente que, para ser representado, não passe pelo crivo da
linguagem e não seja incorporado pela textura sígnica, onde se
assinalam uma ideologia, uma ética, uma estética, um drama e
uma biografia. O factual, a história vivida na linearidade dos
acontecimentos, é apenas um fragmento de uma história mais
ampla, não aparente. E esta história não é recuperada pela
biografia, enquanto gênero historiográfico, configurado dentro
da tradição literária herdeira das concepções do século 19; na
ânsia de apreensão do acontecido, ela registra uma parcela da
história do sujeito: o nível do acontecido. A escrita biográfica
concebida na contemporaneidade situa-se no nível das
possibilidades não acontecidas da história de um sujeito.
Nos textos de Castro Alves, o projeto de uma poesia como
construção biográfica – vida grafada – é percebido desde “O livro e
a América” (ALVES, 1960, p.76-78), que traça um itinerário histórico
para a poesia, explicitando a sua função de eternizar um povo:
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Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.
[...]
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação. (p.78)
Destacam-se, neste fragmento, algumas palavras significativas
dessa concepção da literatura como vida que pulsa – ainda que
aparentemente inerte – no espaço em branco do livro. Palavras
como semeia, germe, fecundando dizem desse movimento que se
efetiva na escrita enquanto vida grafada, isto é, vida que se eterniza.
Castro Alves tinha consciência do poder que têm os signos de
enlaçar a vida, perenizar o sujeito, consagrá-lo na sua aventura
existencial, registar e reconstituir a história individual e coletiva.
Talvez por isso, ao intuir a proximidade da morte, ele recorreu à
literatura, fecundando cada palavra, inseminando de vida o gráfico
da escrita para eternizar-se e eternizar sua nação.
A repercussão desse projeto na obra de Castro Alves é bastante
ampla, pois, em “O livro e a América” já se anuncia o movimento
pendular que caracteriza a literatura: partindo da máxima
subjetivação, os signos que traduzem valores morais, históricos,
sociais, artísticos de um sujeito – o poeta enquanto produtor de
signos – define-se também o percurso de um sujeito, independente
de uma época ou de um espaço geográfico específicos. Nesse
sentido, os versos “Fecundando a multidão!... / Num poema
amortalhada / Nunca morre uma nação” têm uma conotação
ampla, pois não definem a poesia apenas do ponto de vista de
uma paidéia civilizacional; traduzem a capacidade que têm os signos
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poéticos de acolher a vida nas suas diversas nuances, com os
seus conflitos e os seus valores, individuais e coletivos.
Na lírica de Castro Alves, a biografia do sujeito poético elaborase em uma situação dialógica, em que o eu lírico assume diversas
faces: é D. Juan, Tasso, Romeu, do ponto de vista da lírica amorosa;
torna-se nômade, forasteiro, é Ahasverus, do ponto de vista da
construção do sujeito poético como ser desfiliado e errante. A
imagem do poeta romântico ocupa diversos espaços – como o
lugar da intimidade amorosa que o enrosca “num laço de fita”
(p.84-85), ou como o lugar que ocupa na praça pública, onde o
povo se torna força propulsora da atividade criadora, pelo desejo
obsessivo que tem o eu lírico de fazer sua inserção no social e no
histórico. O espaço dialógico que o eu lírico atravessa,
dramatizando sua história, mobiliza diferentes cenários, distintas
épocas, múltiplas máscaras: autografar-se é também grafar o outro.
Assim, pela biografia do outro, o sujeito poético pode também
autografar-se.
Castro Alves apropria-se constantemente de personagens
literários, míticos, históricos, e, através desse processo de
apropriação, pretende situar-se no plano da intemporalidade e da
universalidade, fazendo transbordar os limites temporais de sua
escrita. Ao traçar o perfil do poeta – um dos fios da tessitura de
sua lírica, encontrado em textos como “Ahasverus e o gênio”
(p.86-87), “Mocidade e morte”(p.88-90), “Poesia e
mendicidade”(129-132), “A Luís”(159-160) – Castro Alves
reafirma arquétipos que são atualizados pelo processo intertextual
(portanto dialógico) tão constante em sua obra. Através da
recorrência a figuras míticas, históricas e literárias, estabelece uma
linhagem à qual se filia. Nesse movimento, constrói sua genealogia,
sua estirpe, registrando seus parentes e contraparentes.
Ainda no que se refere a este processo de construção mediatizada
pela cena dialógica em que o eu lírico constitui a sua identidade
através do outro, recorremos à lírica amorosa do poeta onde
podemos flagrar uma pluralidade de exemplos desse movimento
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migratório. O diálogo entre particularidade e universalidade se
acentua à medida que a história do eu já está pré-escrita na história
do outro, que se atualiza no presente lírico, superpondo-se, assim,
temporalidades diversas e personagens distintas.
Na lírica amorosa de Castro Alves, tanto o amante quanto a
amada submetem-se a esse processo de construção. O poema
“Boa-noite” (p.122-123), por exemplo, apropria-se da cena
amorosa de Romeu e Julieta, de W. Shakespeare, e o objeto do
desejo erótico vai sendo gradativamente substituído, através da
superposição de nomes: Maria-Julieta-Consuelo. Esta técnica de
representação é interessante porque fornece diversos indícios
autobiográficos. Inicialmente, revela uma concepção de sujeito
fragmentado, múltiplo, capaz de assumir diversas máscaras. E cada
uma dessas máscaras contorna o perfil de um personagem que
busca afirmar uma identidade. Esta, todavia, só pode ser
demarcada transitoriamente, no universo da linguagem: é nela
que o personagem se reconhece na sua pluralidade.
Por outro lado, este processo explicita que, na demarcação
dessa identidade, o desvio pelo espaço da subjetividade do outro
é imprescindível para o sujeito reconhecer-se. O outro é o espelho
no qual eu/nós nos reconhecemos; não na sua superfície lisa,
mas na sua configuração labiríntica e imponderável. Na tensão
dialógica que aqui se recupera (a do poema “Boa noite”), encontrase um traço importante da biografia desse eu lírico que remete
explicitamente para uma característica da biografia do poeta
Castro Alves: a sua condição de leitor.
Leitor voraz, minucioso, atento, que faz questão de enxertar
no texto que cria os resíduos de sua atividade leitora. Onde estão
as leituras de Castro Alves? Que livros leu? Em que línguas leu?
As diversas epígrafes, personagens, temas, imagens, sonoridades,
ritmos de outros textos – literários ou não literários – estão na
poesia de Castro Alves e fornecem dados efetivamente
importantes do ponto de vista de sua biografia ficcional e
existencial. É desses aparentes rastros de sua atividade leitora que
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podemos erigir o perfil de Castro Alves como leitor voraz, pois,
o que são as epígrafes, os nomes de personagens e temas literários
presentes na sua escrita, senão vestígios, ruínas dessas diversas
leituras inglesas, francesas, espanholas etc?
A literatura como biografia se faz através de indícios e de
ruínas. São elas que fecundam, que fazem germinar outros signos,
dando origem a outros textos. O processo de constituição do eu
pela mediação do outro, através de personagens já inscritas na
tradição literária, mítica, histórica etc. acentua os signos da
supremacia de um eu que muitas vezes são encontrados na poesia
de Castro Alves: seu projeto de consagração histórica, através do
qual queria habitar o panteão dos gênios, consagrar-se, glorificarse. Tais marcas são frequentes na poesia desse poeta baiano e
revelam biograficamente o escritor romântico que os enuncia. O
projeto de autoconsagração histórica passa pelo veio da
intertextualidade, do distanciamento histórico, identificando-se
simbolicamente a um personagem já consagrado pela tradição.
É este traço que lhe dá universalidade e acena também para a
possibilidade do leitor autografar-se através dos seus textos. Essa
possibilidade provém do fato de que, como define a psicanálise
ou a antropologia, a estrutura do inconsciente, assim como a
estrutura dos mitos, pode ser vista como um significante vazio a
ser interminavelmente atualizado por novos significados de caráter
individual e universal. Cada leitor pode situar-se no espaço literário
e vivenciar, na diferença, a experiência do outro. E esta vivência
na diferença é também uma vivência suplementar, porque confere
sentido à vida factualmente vivida, estabelecendo-se ainda como
oportunidade de decifração e conhecimento de si.
Nesse sentido, pode-se pensar a função vivificante da literatura
enquanto biografia. Ela funda um porvir, projeto arduamente
perseguido por Castro Alves, do ponto de vista individual e
coletivo. É a regeneração, a revitalização, a ressurreição que
fundamentam e sustentam a escrita mobilizando os signos
poéticos. Castro Alves conhecia essa função da literatura que,
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nos seus textos, aparece constituindo uma utopia individual e
coletiva. O seu projeto libertário afirma essa oportunidade de
salvação, regeneração, ressurreição, que se realiza através da poesia.
E, mais uma vez, podemos entender sua pulsão desmedida,
erótica, que se manifesta através do ato criador.
Ao morrer, aos vinte e quatro anos, Castro Alves deixou um
conjunto de textos que nem todos os escritores que tiveram um
transcurso de vida maior conseguiram elaborar. Pois ele conhecia
essa função fabuladora da literatura de capturar a vida, entrelaçada
intemporalmente na constelação de seus textos, criando parentes
e contraparentes, recriando uma estirpe de poetas com os quais
pode também satisfazer sua pulsão dialógica, entabular conversa
com o outro. As epígrafes que aparecem em seus poemas, as
citações literárias, míticas, bíblicas que se disseminam e inseminam
seus poemas revelam esse desejo de vivificação e de construção
de uma genealogia, criando uma família, uma nação de poetas,
ofertando à humanidade, a cada ser, em cada época, a mim, a
nós, uma possibilidade de sermos nômades, forasteiros, errantes,
voluptuosos, moribundos, amorosos, libertários, utópicos,
românticos e universais.
Ao refletirmos sobre o projeto biográfico da poesia de Castro
Alves, elegemos um dos seus poemas antológicos, “Mocidade e
morte” (p.88-90), no sentido de observar como os traços dispersos
nos diversos textos nele se aglomeram, recuperando-se através
da sua leitura, os múltiplos e variados elementos que configuram
essa poética biográfica. A escolha desse poema é proposital, pois
ele sintetiza de maneira exemplar o conflito existencial vivido e
experienciado, de maneira trágica, no corpo físico do poeta. Esse
texto, por si só, afirma uma via crucis que os dados factuais do
poeta baiano apenas confirmam, explicitando em que nível efetivo
essa realidade foi experimentada. Mas, de alguma forma, a sua
leitura prescinde desses dados factuais, construindo-se de maneira
autônoma como uma realidade linguística que fala e que se ilumina
pelo movimento dos seus signos.
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“Mocidade e morte” constrói-se apelando para um processo
de dramatização do sujeito lírico, instalando uma pluralidade
de vozes conflituosas, acionadas por forças antagônicas: vida
(= mocidade) versus morte. No embate das palavras que
compõem o texto, circulam vozes que definem a condição
poético-existencial do sujeito. A voz da utopia, do desejo, do
sonho, da volúpia, do amor, da glória é enunciada
principalmente nas três primeiras estrofes e se contrapõe à voz
do sofrimento, da dor, da despedida, da morte que percorre as
demais estrofes. Todas as estrofes são intercaladas por um refrão
e cada refrão representa uma espécie de chamamento –
sarcástico, zombateiro – que anuncia cruamente a condição
trágica do eu lírico, sua dilaceração diante da presença da morte.
A perspectiva dialógica é percebida desde o título e expõe um
dos temas da poética de Castro Alves, espraiando-se através de
cada estrofe e de cada refrão, provocando uma cisão no eu lírico.
O caráter dramático do poema resulta da perda da unicidade
desse sujeito, perpassado por vozes distintas, projetando o perfil
de um ser dilacerado pela experiência de seus próprios limites,
e debatendo-se entre forças opostas: vida e morte, principio
do prazer e principio de realidade. O desejo erótico, vital, inscrito
na primeira estrofe, sustentado pelos signos de utopia libertária
do poeta romântico:
Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
– Àrabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida. (p.88)
transforma-se, na última estrofe, em uma cena de despedida
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e de aceitação da morte, compassadamente anunciada pela voz
funesta que ecoa desde o primeiro refrão:
Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos do meu pai nos teus cabelos.
Fôra louco esperar! Fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro – a terra,
Por glória – nada por amor – a campa. (p.90)
Assinalamos, desde logo, que o percurso desse eu através dos
signos termina constituindo-se em monólogo mediante o qual o
eu demarca um território existencial. A perspectiva da morte
atravessa dramaticamente o texto: inicialmente é um aviso funesto
(primeiro refrão): “Mas uma voz responde-me sombria: / Terás
o sono sob a lájea fria” (p.88); depois é uma voz sarcástica e
amedrontadora (segundo refrão): “E a mesma voz repete-me
terrível,/Com gargalhar sarcástico: impossível!” (p. 88);
posteriormente, introduzem-se os signos da realidade funerária:
“E a mesma voz repete funerária: – / Teu Panteon – a pedra
mortuária” (p.89). Contudo, paradoxalmente, o que alicerça a
construção do poema “Mocidade e morte” é a vida.
A voz lírica – que é também trágica – utiliza-se de diversos
recursos cênicos para dramatizar a morte, apelando para uma
concretude imagística capaz de dar visibilidade à morte prevista
e acentuando o pathos: pedra mortuária, lousa, sepulcro, cipreste.
Todos esses elementos são indícios de uma realidade
profundamente pressentida e sentida pelo eu lírico. A experiência
de uma via crucis acentua-se quando não apenas o eu se submete
a uma experiência dos limites, mas tempo e espaço também
registram a premência da hora fatídica, criando-se uma tensão
que diz de uma agônica realidade vivenciada pelo eu.
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E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, quìnda mesmo flórido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo – que vaga sobre o chão da morte,
Morto – entre os vivos a vagar na terra. (p.89)
“Mocidade e morte” revela um encenador bastante habilidoso
no que se refere à montagem dos elementos deste cenário de
despedida e morte, que sabe criar tensão, suscitar compaixão,
acentuar o pathos por meio de cada imagem que cria. O título
do poema aponta para esse aspecto. A palavra mocidade introduz
o traço gerador da dicção exacerbada desse sujeito que declara:
“Eu sinto em mim o borbulhar do gênio”(p.88), declaração que
tem, entre outras coisas, um efeito retórico. O projeto utópico
desse sujeito desmorona pela premência da morte como uma
realidade antevista e materializada através da contundência das
imagens utilizadas. Entretanto, a presentificação cênica do
espaço-tempo da morte é uma maneira do eu lírico demarcar
programaticamente para si a sacralização, a glória, que se
apresentam como um fio importante da tessitura da poética
biográfica de Castro Alves.
A representação dessa realidade que, em se tratando de um
poeta romântico, foi vivenciada agonicamente em seu corpo físico,
efetua-se no sentido de encontrar um território distinto daquele
que a voz espectral da morte lhe anuncia, pois já vimos como
para Castro Alves a poesia é um espaço de salvação e de utopia:
isto é, de vida e de glória. Utopia não como algo irrealizável ou a
se realizar apenas em um tempo prospectivo, mas no sentido em
que se edifica a arquitetura poética: o aparecimento de uma nova
ordem no universo linguístico; uma utopia que se torna realidade
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em cada constelação de signos que aparece e pode ser
experienciada no aqui e agora de cada leitura, e de cada leitor. É
este conhecimento, intuído ou claramente reconhecido pelos
poetas, que impulsiona a construção de uma nova realidade no
universo da linguagem.
Como excelente romântico, mas também como poeta maior,
universal e intemporal, Castro Alves sabe que a literatura é um
espaço que está aquém e além da morte, é onde o sujeito
desterritorializado pode territorializar-se, eternizando-se. Pois
literatura é isso: vida grafada na intemporalidade da história
individual e coletiva.
É por isso que, em “O fantasma e a canção” (p.95-96), poema
que registra o périplo do Rei Lear na sua tragédia existencial, o
sujeito lírico convoca o Rei deposto e clama:
– Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso – é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe – é púrpura extrema,
Último trono – é o poema!
Último asilo – a Canção!... (p.97)
Como biografia, a literatura constrói-se sobre as ruínas da vida
vivida e com os indícios das potencialidades não acontecidas na
história do sujeito. A vida que poderia ter sido e não foi deixa
seus rastros na linguagem poética, compondo uma história que
não seria apreendida na sua multiplicidade se não estivesse
enlaçada nos signos poéticos. “Adejar pelo infinito, / Qual branca
vela na amplidão dos mares” (p.88), como quer Castro Alves,
realiza-se na medida em que um projeto utópico concretiza-se na
encarnação da palavra: vivificar-se, perenizar-se nas palavras, é
esta a função da poesia que se faz de palavras. E “o que é para
ser, são as palavras”, como afirma João Guimarães Rosa, outro
viajante do infinito.
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REFERÊNCIAS
ALVES, Castro. Obra Completa. (Org. Eugênio Gomes) Rio de
Janeiro: Aguilar, 1960. FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da Lírica
moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
HOISEL, Evelina. Grande sertão: veredas – uma escritura biográfica.
Salvador: Assembleia Legislativa do Estado da Bahia/ Academia
de Letras da Bahia, 2006.
LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico – De Rousseau à
internet. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.
Evelina Hoisel é ensaísta, pesquisadora do CNPq, Professora Titular de Teoria
da Literatura na Universidade Federal da Bahia; tem diversos artigos e livros
publicados. Coorganizou, com Cássia Lopes, o livro de ensaios Poesia e memória:
a poética de Myriam Fraga (Salvador: EDUFBA, 2011).Desde 2005 ocupa a
Cadeira nº 34 da ALB.
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A Selva - 80 anos depois
(1930-2010)
Waldir Freitas Oliveira
80 anos depois de sua publicação, em maio de 1930, editado
no Porto, em Portugal, A Selva, romance escrito por Ferreira de
Castro, entre 9 de abril e 29 de novembro de 1929, continua a ser
uma das mais conhecidas obras literárias do mundo, traduzida
que foi para mais de uma dezena de línguas estrangeiras.
Persiste, contudo, a dificuldade de classificá-lo em qualquer
categoria de obra de ficção. A incapacidade dos esquemas até
hoje construídos com tal finalidade, torna-se evidente, uma vez
mantido o desejo de colocar-se à disposição dos interessados,
escaninhos encabeçados por denominações definidas, nos quais
possamos encaixar trabalhos como este, pouco fáceis de receber
tarjetas de identificação; situação que parece demonstrar, para
desgosto de muitos, não haver necessidade de assim proceder-se,
insistindo em agir como estando a rotular mercadorias oferecidas
a consumidores privilegiados – no caso, os leitores.
A Selva é, sem dúvida, um romance atípico, escrito por um
autor singular, vivendo um tempo estranho, do qual participou
somente por estar vivo, em um certo lugar, numa determinada
época, e desejar tornar-se escritor; havendo-o redigido quinze
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anos depois do seu regresso a Portugal, onde chegou, com apenas
dezesseis anos, a 28 de outubro de 1914, de regresso do Brasil,
vindo do seringal Paraíso, situado às margens do rio Madeira, no
Amazonas, onde vivera cerca de quatro anos.
Não foi A Selva, seu primeiro romance – outros menores em
qualidade, foram por ele publicados, entre 1921 e 1928, sendo
este último ano, o da edição de Emigrantes, obra assinalada pela
crítica literária, como o do início definitivo de sua carreira de
escritor, tendo sido, por sinal, logo a seguir, em 1930, traduzido
para o espanhol e publicado em Madrid.
Quanto a A Selva, esforçam-se alguns historiadores da literatura
portuguesa para definir a categoria onde possa ele ser incluído –
romance social (como se todos os romances não o fossem!);
romance neo-realista (o chamado neo-realismo somente iria surgir
em Portugal, nos inícios da década dos anos 40); romance
documentário (estranha denominação, desde que ficção e realidade
são posições que se opõem, jamais podendo, a nosso ver, ser
reunidas a fim de caracterizar um trabalho literário).
Passou, no entanto, A Selva, em tempos mais próximos, em
razão do surgimento de um mais apurado senso de análise e
observação, a ser considerado um exemplo de romance de tensão
crítica, categoria criada por Alfredo Bosi, que o considerou
possuidor de uma essência distinta da dos romances de tensão mínima,
dos romances de tensão interiorizada e dos romances de tensão transfigurada,
série de termos categóricos criados por esse professor da
Universidade de São Paulo, com referência expressa a quem tomou
por empréstimo, sua idealização, distintos, vale frisar, dos criados
por Lucien Goldman que propusera a existência de três tipos de
romance – “o romance do idealismo abstrato, caracterizado pela
atividade do herói e por sua consciência demasiado estreita em
relação à complexidade do mundo”; “o romance psicológico,
orientado para a análise da vida interior, caracterizado pela
passividade do herói e sua consciência demasiado vasta para
contentar-se com que o mundo da convenção lhe pode propiciar”,
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e, finalmente, “o romance educativo, optando por uma auto-limitação
que, embora constitua uma renúncia à pesquisa problemática,
não é, entretanto, uma aceitação do mundo convencional , nem
um abandono da escala implícita de valores” – havendo os termos
constantes desse seu esquema sido criados, como vimos, tomando
ele por base as categorias apresentadas em Pour une Sociologie du
Roman, por Lucien Goldman (Paris, Gallimard, 1964).1
Seriam romances de tensão crítica, segundo Alfredo Bosi, aqueles
nos quais “o herói opõe-se e resiste agonicamente às pressões da
natureza e do meio social”, formulando ou não “seu mal-estar
permanente”, baseando-se “em ideologias explícitas”.2 O que
pode parecer ter sido o caso de Alberto, personagem principal de
A Selva, cujo “mal-estar”, como lhe foi atribuído pelo autor, fora
o resultado da imensa pressão sobre ele exercida por uma floresta,
tão poderosa que se tornava capaz de anular o homem e
transformá-lo em algo parecido a um simples animal, com seus
atos comandados mais pelos instintos que pela razão.
E se as palavras finais do romance, pronunciadas por Tiago,
vale frisar, o único personagem negro do romance, que decidiu
atear fogo ao barracão onde se encontrava o dono do seringal,
Juca Tristão, sem lhe haver deixado qualquer possibilidade de
dali escapar, por lhe haver trancado a porta por fora, revelam,
sem dúvida, no contexto do romance, o amor pela liberdade e a
repulsa à escravidão: – “Eu sei o que é ser escravo. (...) Branco
não sabe o que é liberdade, como negro velho. Eu é que sei!”
Acrescentando – “Já não há escravatura! Negro é livre! O homem
é livre!” tais palavras não possuem, a nosso ver, vigor suficiente
para caracterizar uma ideologia; e supomos terem sido colocadas
no texto, para dar aos seus leitores, a impressão, na idealização
do autor, de un grand final para o seu romance – a de um imenso
incêndio provocado por um negro que se mantivera, contudo, até
aquele momento, praticamente ausente do desenvolvimento da
estória – visando de obter, através desses elementos de
construção, a própria absolvição por sua incômoda condescendência
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para com o erro e a injustiça cometidos pelos brancos na
Amazônia; desde que seria impossível para os leitores, absolver
Alberto, seu principal personagem, dúbio em suas ideias,
praticamente perdido entre suas antigas convicções monárquicas
e as novas ideias pregadas pelos republicanos portugueses; desses
mostrando-se descrente, ao ponto de considerá-los como
“retóricos perniciosos” que “ludibriavam” a população mais
humilde, acenando-lhe com a promessa “duma fraternidade e
dum bem-estar que não lhes davam nem lhes podiam dar”;
havendo chegado a declarar, em certo momento, desejar
perguntar-lhes “se era com aquela humanidade primária que
eles pretendiam restaurar o mundo”; mostrando-se, desse modo,
em nossa opinião, protegido por “sua epiderme de civilizado”,
integrado, plenamente, ao esquema que permitia aos
colonizadores, ali manter sua dominação sobre a terra e os
homens por eles conduzidos para os seringais, onde deveriam
permanecer praticamente reduzidos à condição de escravos.3
Não pomos em dúvida, contudo, o fato relevante de o exato
conhecimento que tiveram os brasileiros do que se passara na
Amazônia, durante o ciclo da borracha, lhes haver sido revelado
por Ferreira de Castro, nesse seu romance, conforme afirmou
Humberto de Campos, ao comentar “A Selva”, no artigo intitulado
“Um romance amazônico”; destacando a circunstância,
reconhecida por Ferreira de Castro, de naquela floresta, não ser,
em verdade, o exotismo que deveria interessar à literatura, mas
sim – “o homem, e, particularmente, o seringueiro e a sua
tragédia”.4
Este caráter de denúncia, fraca em sua análise, forte, contudo,
no realismo da sua narrativa, teria sido, pois, o mérito maior de A
Selva: – a exposição ao público, com todos os detalhes, do drama
vivido pelos seringueiros chegados do Ceará e do Maranhão,
atraídos pela falsa esperança de poderem, na Amazônia, livrar-se
da pobreza, enriquecer e regressar, um dia, ostentando, quando
do seu retorno, essa riqueza, frente aos de sua terra natal; vendo28 Revista ALB 50_finalizada.pmd
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se, no entanto, frustrados, ao se sentirem forçados a conviver
com o cruel desengano que a todos envolvia na selva que
“dominava tudo”; à qual, “o homem, simples viandante no flanco
do enigma, entregava a sua vida.” 5
Tornam-se, contudo, valiosos, em termos literários, muitos
trechos do romance, entre eles, o da descrição feita da floresta,
em cujo seio mostrou-se Ferreira de Castro capaz de escutar, de
modo estranho, paradoxal e poético: “um silêncio sinfônico, feito
de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio
extremamente suave da folhagem, tão suave que dir-se-ia estar a
selva em êxtase”.6
Silêncio este, singularmente rumoroso, sobre o qual voltaria a
falar, afirmando que iria afinal tornar-se música, surgindo mais
audível – “agora mais latente, mais vivo e alvoroçante”; enquanto
na mata, somente a água, presa nos lagos ou deslizando nos rios
e igarapés, quebrava, ao lado das clareiras, o panorama uniforme
de uma paisagem caracterizada, de modo enigmático e igualmente
paradoxal, tanto por sua uniformidade como por sua variedade;
posições opostas, que ali, no entanto, se completavam,
proporcionando à floresta, nessa sua uniformidade, uma soberba
visão de “variedade assombrosa, que a si própria impunha uma
única expressão, atropelando-se, engalfinhando-se em raiva surda
e evidente”.6
E a descrição que fez, a seguir, dessa mata, é, sem dúvida,
uma das mais belas dentre as que, algum dia, foram escritas, a
personalizar a floresta e a dar-lhe uma vida mágica, dela havendo
dito que:
“... de bárbara grandiosidade, dava uma só forte impressão de
beleza: a inicial, a que nunca mais se esquecia e nunca mais se
voltava a sentir. Solo de constantes parturejamentos, úmido,
fantástico na teima de criar, a sua cabeleira, contemplada por
fora, sugeria vida liberta num mundo virgem, ainda não tocado
pelos conceitos humanos: mas vista por dentro, escravizava e
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fazia anelar a morte. Só a luz obrigava o monstro a mudar de
expressão, revelando as suas pesadas atitudes”.7
Não se poderá, no entanto, esquecer que, antes dele, alguém
descreveu, com igual vigor e com o mesmo ar de insatisfação
declarada, as circunstâncias envolvendo a realidade trágica da vida
dos seringueiros na mata amazônica. Como Ferreira de Castro,
português de nascimento, esse autor foi um estrangeiro em relação
ao Brasil – o colombiano José Eustacio Rivera, autor da novela
La Vorágine, publicada em 1924, cuja ação se desenvolve nas
florestas do seu país de origem8 ; havendo quem a considere a
mais bela novela da literatura latino-americana; dela não havendo,
contudo, Ferreira de Castro, de modo provável, chegado a tomar
conhecimento.
Algo importante estabelece a diferença entre La Vorágine e A
Selva. Em A Selva, o seu autor viveu, realmente, as situações do
seu principal personagem, Alberto. Ferreira de Castro foi, de fato,
um seringueiro; enquanto José Eustasio Rivera foi tão somente
um viajante que colheu, tanto quanto lhe foi possível, informações
a respeito das penosas circunstâncias que envolviam a vida dos
seringueiros nas matas colombianas, quando as percorreu, na
região de Guaínia, província situada nas proximidades do alto
curso do rio Negro, afluente brasileiro do Amazonas, integrando
a Comissão do Governo colombiano encarregada dos trabalhos
de demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a Venezuela.
Não chegaria La Vorágine, contudo, a alcançar os mesmos
índices de aprovação com os quais os críticos literários da época,
anos depois, iriam aceitar A Selva, publicada em 1930. Podendo
isto ser comprovado pela pronta aparição, a partir da sua primeira
edição, das sucessivas de A Selva, em línguas estrangeiras, numa
sequência que se iniciou com a da sua tradução para o alemão,
em 1933, para o inglês, com edições nos Estados Unidos, no
Canadá e na Inglaterra, e para o italiano, em 1934; e para o francês,
em 1938; a essas edições havendo se seguido outras, em espanhol,
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romeno, checo, croata, holandês, sueco, norueguês, búlgaro e
eslovaco, tornando-se o romance de Ferreira de Castro uma das
obras mais traduzidas em todo o mundo.9
Voltemos, contudo, a falar de La Vorágine, tanto como a
respeito do seu autor, que somente viveu 40 anos, nascido que
foi em 1888, em San Marco (hoje denominada Rivera, em sua
homenagem), havendo falecido em New York, em 1928, para
tentar estabelecer laços que aproximem essas duas obras pioneiras
no trato de temas relacionados com a árdua e ingrata tarefa de
extração da borracha nas matas tropicais do Brasil e da Colômbia,
em princípios do século passado.
La Vorágine foi editada cinco vezes, entre 1924 e 1928 – a
primeira vez, em novembro de 1924, na Colômbia, pela Editorial
Cromos, a segunda e a terceira, em 1925 e 1926, ainda na Colômbia,
pela Editorial Minerva; havendo a sua quarta edição sido, em
verdade, uma reimpressão da terceira, desde que em pouco dela
difere. Havendo, a seguir, surgido, em 1928 as edições de New
York, pucblicadas pela Editorial Andes, identificadas como sendo
a quinta e a sexta, e, a seguir, a sétima, a oitava e a nona, em 1929;
todas elas, contudo, a partir da sexta, devendo ser consideradas
reimpressões da quinta, a que foi revista e corrigida pelo próprio
autor. 10
La Vorágine continuou, no entanto, a ser traduzida, após a morte
de José Eustasio Rivera, em 1928, em vários países do mundo,
alcançando o número de suas edições em países estrangeiros,
quase o mesmo número das de A Selva, havendo surgido em
alemão e francês, em 1934; em inglês e russo, em 1935; e, nas
décadas dos anos 40 e 50, em búlgaro, checo, esloveno, holandês,
romeno, italiano e chinês; e, finalmente, em português, no Brasil,
em 1982. 11
Da edição de que nos valemos para a releitura do romance,
publicada em 2006, sendo esta, provavelmente, a mais recente,
consta, organizada por Montserrat Ordoñez, uma coletânea de
textos expondo um considerável acervo de informações, tanto
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sobre José Eustasio Rivera como acerca do seu romance; da
qual destacamos a secção apresentada sob o título Historia de la
crítica de ´La Vorágine’”, cuja leitura se torna extremamente útil
para conduzir-nos à compreensão da novela.
Nele, a conclusão dos seus autores indica que
“como pocas obras, La vorágine se presta a estudios
interdisciplinares, a reflexiones sobre cultura e história, a estudios
sobre la fragmentación, la incoherencia, el engaño y el sujeto
descentrado, a las nuevas lecturas de contradicciones, anmbivalencias
y ambiguedades, dentro de una perspectiva de valoración de la
historia y de los relatos envolventes, y dentro de una persspectiva
de la lectura como proceso de construcción de la obra.” 12
E convém registrar que ao redigir o texto “Ciclo nortista”,
secção constante do capítulo “O regionalismo na ficção” em A
Literatura no Brasil, obra monumental publicada sob a direção de
Afrânio Coutinho, no Rio de Janeiro, pela José Olympio Editora/
e pela Universidade Federal Fluminense, em 1986, Peregrino
Junior, autor, por sinal, de Pussanga, um dos mais belos livros de
contos já escritos sobre a Amazônia, afirmou que José Eustasio
Rivera, em La vorágine,
“traz-nos da paisagem e da vida amazônica um quadro belo e
poderoso: aquela floresta agressiva, áspera, esmagadora:
aquelas águas, numerosas e traiçoeiras; aqueles homens
bárbaros e tristes, perdidos na selva sádica y virgen... Ele também
denuncia, como Ferreira de Castro, as torpezas e os crimes
que a floresta esconde. O seu livro é um libelo, é protesto, é
denúncia e grito de revolta contra o abandono do homem –
aquele pária jogado à mercê dos aventureiros, exploradores e
frios tiranos sem entranhas, criminosos e rapaces, que exploram
os seringais da Amazônia.” 13
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Diferem, porém, de modo sensível, os dois romances, quanto
ao modo como são considerados pelos seus autores, os indígenas
habitantes da floresta; e se tanto em um como no outro, os
índios aparecem como seres inferiores, quando são colocados
em confronto com os civilizadores, em La Vorágine, José Eustasio
Rivera ergue a sua voz para defendê-los; o que não acontece
em A Selva, onde os parintintins – a única tribo mencionada em
seu romance, por Ferreira de Castro, nos são mostrados como
sendo o terror dos seringueiros, apontados como possuidores
de uma enorme crueldade, capazes de realizar festas macabras,
durante as quais dançam em torno de varas, no topo das quais
se acham espetadas as cabeças decapitadas de seringueiros por
eles atacados, tidos, portanto, pelo autor, como uma ameaça
constante para esses seringueiros, que se mostram com a
disposição de exterminá-los à bala.
Torna-se, então, evidente, não haver, por parte de Ferreira de
Castro, qualquer tipo de preocupação com os povos indígenas
habitantes da floresta ou de reflexão sobre eles. Eles,
simplesmente, dificultam o trabalho dos colonizadores; e Alberto,
o personagem, sente dificuldade de aceitar a ideia de terem sido
eles, antes da chegada dos brancos, os donos das terras da
Amazônia; isso, apesar de Firmino, o seringueiro veterano que o
acompanhou durante a sua descoberta da floresta, lhe haver dito
que “os homens civilizados tomaram conta da terra deles” e que,
por isso, em ato de vingança, eles os atacavam “deitam fogo à
barraca e arrasam a mandioca e o canavial”. Havendo também
lhe dito que, por causa deles, os seringueiros tinham de “andar
sempre com um olho à frente e outro atrás”.14
Não parecendo, pois, haver Ferreira de Castro tido
conhecimento do que, antes de sua chegada ao Brasil, se passara
no vale do Putumayo, ao tempo do domínio daquelas terras pela
Peruvian Rubber Company de propriedade do peruano Julio Araña,
nem das denúncias feitas, com o relato das torturas aplicadas aos
índios huitoto, antigos habitantes das matas ali existentes, que foram
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por ele escravizados, pelo juiz peruano Carlos A. Valcácer,
pelo cônsul da Inglaterra, Sir Roger Casement, e pelo norteamericano Walter Ernest Hardenburgh, este em seu livro The
Putumayo – The Devil´s Paradise (1913); sendo tal assunto,
convém frisar, do conhecimento de José Eustasio Rivera, que,
a certa altura do seu romance, se referiu ao fato de haver
chegado ao seringal onde se encontrava, sem que se pudesse
explicar como, uma página do periódico La Felpa, que circulava
em Iquitos, editado pelo jornalista Saldaña Roca, do qual
constava.a descrição desses maus-tratos; havendo constado do
texto do seu romance, a informação de encontrar-se essa
página de jornal em péssimo estado de conservação, tantas
vezes já fora ela lida, circunstância que teria forçado os
seringueiros, para que continuasse a circular pelos seringais, a
remendá-la com a seiva úmida do caucho, e ocultá-la, a seguir,
a fim de que não viesse a ser descoberta pelos donos dos
seringais, no oco de um bambu que poderia vir a ser confundido
com o cabo da machadinha usada para golpear os troncos das
seringueiras.15
La Vorágine supera, a nosso ver, A Selva, como obra literária.
O romance de Ferreira de Castro é, contudo, brasileiro, em seu
cenário, apesar de haver sido escrito por um português; pelo que,
dentro dos quadros que limitam a nossa literatura, cabe evidenciarlhe os méritos e reconhecer-lhe a importância; e somente referirnos ao romance de José Eustasio Rivera, como complementação,
ou contraponto, no conjunto composto pelas obras que vieram a
for mar o que se convencionou denominar “romances
amazônicos” ou “romances da borracha”.
Voltemos, então, a comentar A Selva, realçando, mais que tudo,
o seu caráter de documentário; em seu texto havendo sido descrito,
com enorme precisão de detalhes, o cotidiano do seringueiro
abandonado às garras famintas da selva que irá devorá-lo. É
inegável essa sua feição; podendo o romance bem servir de base
para a reconstituição da vida na floresta dos que ali chegaram
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como “brabos”, vindos, principalmente, do Ceará, em vã tentativa
de construir um futuro melhor para eles próprios.
Vejamos, então, em primeiro lugar, destacando o cuidado
tido pelo autor, ao dar a sua informação, a discriminação, por
ele feita, do material constante da “lista do aviamento” – ou
seja, a relação do equipamento que cada seringueiro recebia à
sua chegada, devendo, peça por peça, ser paga, com o resultado
do seu trabalho, ao dono do seringal – “o boião para defumar,
a bacia para o latex, o galão, o machadinho, as tigelinhas de
folha, todos os utensílios que a extração da borracha exigia” – e
mais, “um quilo de pirarucu e uns litros de farinha, pois nos
primeiros dias nunca um brabo sabe como se caça a paca e a
cotia ou se pesca o tambaqui.” . E Ferreira de Castro informa,
então, ser aquele “o talão grande”, o que, depois de “somado às
despesas da viagem e mais empréstimos, prendia por muitos
anos ao seringal, em trabalho de pagamento, o sertanejo
ingênuo.” 16
E, a seguir, a descrição do modo como deviam agir os
seringueiros para a extração do látex, figurando no texto como
parte das instruções que foram dadas por Firmino, o primeiro
companheiro na floresta, de Alberto:
“– Olha você. Pega-se no machadinho e se corta assim... Está
vendo? Assim, que é para não arrancar a casca e não fazer mal
ao pau. Quando se arranca a casca, os empregados vão fazer
queixa de nós a seu Juca.
Levou o braço a um arbusto seco, em cuja extremidade, cortada
para o efeito, se emborcavam, enfiados uns nos outros, cinco
receptáculos de folha, que tinham base redonda e iam se
alargando até a boca, onde não caberia uma mão fechada.
– Isto são as tigelinhas. Se espeta a elas na seringa, pelas bordas.
Assim... é preciso ter cuidado para que a folha fique segura,
senão a tigelinha cai e o leite escorre todo para fora. Está
compreendendo?”
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A seguir, Firmino golpeou a árvore, em cinco pontos
diferentes, todos à mesma altura, em volta do tronco; e continuou
explicando:
“– Cada seringueira leva tantas tigelinhas conforme for a
grossura dela. Uma valente, como aquele piquiá, que você está
vendo, pode levar sete. Uma assim como esta, leva cinco ou
quatro, se estiver fraca. Veja: corta-se de cima para baixo, e
quando se chega abaixo, o machadinho volta acima, porque a
madeira já descansou.” 17
Finalmente, o trecho onde aparece a descrição do acerto de
contas, efetuado ao fim de cada semana. entre os seringueiros e o
dono do seringal, elaborada com traços reveladores de uma
crueldade extrema, no momento em que os seringueiros vão
receber, do patrão, no caso, Juca Tristão, o que lhes será necessário
para continuar vivendo sua penosa existência:
“Quando o seringueiro tinha saldo, vendia-lhe tudo quanto ele
desejasse; fosse loucura rematada ou objeto inútil, tudo dava
mais lucro do que passar-lhe, no futuro, um saque para ser
trocado por bom dinheiro na casa aviadora em Manaus. Mas se
o trabalhador, por curta estadia ali, por doença ou preguiça
não conseguira solver a dívida inicial, que rebentasse de fome,
pescasse ou caçasse, pois não lhe forneceria nada que fosse
além do valor da produção”
E do mesmo modo, aqui reproduziremos o diálogo que, pouco
antes, se dera entre eles, trágico em seu desenvolvimento:
“– Um paneiro de farinha? Não pode ser! Levas só dois litros.
– Mas que eu vou comer, seu Juca, na semana?
– Não sei. Deves mais de seiscentos mil réis. Trabalha!
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– Trabalhar mais, eu? A mim nunca seu Alípio ou seu Caetano
apanharam na rede. Bem puxo pela estrada, mas ela é que não
dá!” 18
Ao final do romance, contudo, quando já se preparava para
voltar para Portugal, depois de haver sido transferido do trabalho
de extração da borracha para o de escriturário no barracão de
Juca Tristão, revela-se, de modo pleno, quem era Alberto, em
verdade:
A ideia da próxima redenção, a esperança de que se lhe abrisse,
em breve, o caminho do regresso à vida, à sua vida, dominavalhe os mais poderosos instintos. Ia-se integrando em si próprio e
já tudo ali possuía, para ele, somente uma expressão efêmera. E
refletindo sobre tudo que havia lhe acontecido, ao lembrar-se de
tantos outros que, ao contrário dele, não haviam conseguido
libertar-se da selva (nem conseguiriam jamais ter a possibilidade
de fazê-lo), justificou-se, perante si próprio, quando reconheceu
que “os homens são bons ou maus conforme e a posição em que
se encontram perante nós e em que nós nos encontramos perante
eles”. 19 O que deixa perceber ter ele passado a acreditar que tudo
se torna, na hora da definição, somente um jogo de circunstâncias
– o que acontecera com ele... tanto quanto o que não aconteceria
com outros... sem que se mostrasse capaz, na hora próxima de
sua libertação, de dar a essas coisas, maior importância, ou
encontrar uma razão para terem elas acontecido. Tanto que,
naquele instante, declarou Alberto ao despedir-se de Juca Tristão,
somente estar a levar da sua vida cheia de agruras e desventuras
na Amazônia, um desejo vago e mal definido de “justiça
universal”, que acreditava dever vir, um dia, a realizar-se, desde
que nos dispuséssemos a “marchar à frente”; sem que houvesse,
contudo, apontado culpados pelo que ali acontecera e continuaria
a acontecer; nem declarado qual o rumo que deveria ter essa
marcha para diante por ele então sugerida.. E, concordamos, afinal,
com o que disse sobre A Selva, Humberto de Campos, o primeiro
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a comentar o romance no Brasil, fazendo-lhe algumas objeções,
mas deixando claro que elas não impediam que
“... A Selva, com os sentimentos de alta humanidade que
moveram a pena ao seu autor, e com alguns dos seus quadros
magistrais, como a pesca no igapó e a tempestade na floresta,
fique constituindo um dos subsídios mais preciosos e
autênticos para a compreensão da vida amazônica em
determinada hora de nossa evolução tumultuária”.20
Ai de alguém, contudo, que procure encontrar em A Selva,
um tipo definido de ideologia!.... De quem pretenda caracterizar
esse romance como uma obra engajada. Perderá seu tempo!...
Debalde será o seu esforço!... Apesar de haver Ferreira de Castro
afirmado, no “Pórtico” de A Selva, dever o seu livro “aos anônimos
desbravadores, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou
na brenha, gente sem crônica definitiva, que à extração da borracha
entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência”; e mais,
que a razão de escrevê-lo fora a de “registrar o sofrimento dos
humildes através dos séculos, em busca de pão e de justiça”.
E, mais, que
“a luta de cearenses e maranhenses na floresta amazônica é
uma epopeia assombrosa de que não ajuíza quem, no resto do
Mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num
automóvel com rodas de borracha – da borracha que esses
homens tiram à selva misteriosa e implacável...” 21
E mesmo reconhecendo não existir no romance, firmeza de
posições no campo das ideias, continuamos a afirmar que A Selva,
considerado o seu vigor descritivo, por sua imensa riqueza de
detalhes e sua envolvente poesia, mesmo nele soando fraco um ar
de denúncia e, mais que tudo, o de condenação a algum sistema,
caracteriza-se, sem dúvida, como uma das maiores obras da literatura
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portuguesa, não indo, contudo, em seu caráter, além de sua estrita
condição de uma estória bem contada, sobre um mundo injusto e
perverso, que não chegou a ser devidamente analisado e condenado.
Finalmente, no que se refere à preocupação demonstrada por
alguns, de encontrar, em seu contexto, vencedores e vencidos,
realcemos o fato de, no curso de sua narrativa, somente poder
constatar-se haver existido um vencedor: – a mata, sádica, tirana,
praticamente invencível!... E desejamos, sinceramente, que ela
continue a ser assim!....
NOTAS E REFERÊNCIAS
GOLDMANN, Lucien. Sociologia do romance. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1976, p. 10.
2
BOSI, Alfredo.História Concisa da Literatura Brasileira. 36ª edição. São
Paulo: Cultrix, 1994, p. 392.
3
CASTRO, Ferreira de. A Selva. 18ª edição. Lisboa: Guimarães & Cia,
1957, pp.43/44.
4
CAMPOS, Humberto de. “Um romance amazônico” in CAMPOS,
Humberto. Crítica: Segunda série. São Paulo: W M. Jackson Inc. editores,
1947, p. 429.
5
CASTRO, Ferreira de. Opus cit., p. 113.
6
Idem, p. 101
7
Idem, p. 113
8
Cf. RIVERA, José Eustasio. La vorágine. Edición de Montserrat
Ordóñez. Cátedra: Letras Hispânicas, Fernández Ciudad, S.L. España.
2006. Edição brasileira, sob o título A voragem. Tradução de Reinaldo
Guarany. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1982.
9
Cr. “Traducciones de ´La Vorágine`” in RIVERA, José Eustasio. Opus
cit., pp 67/68. Consta desse texto referência a uma tradução brasileira,
que teria sido feita por José César Borba, no Rio de Janeiro, em 1945,
que não conseguimos localizar.
10
Cf. “Historia editorial de La Vorágine” in RIVERA, José Eustasio.
Opus cit, ´pp. 14/16.
11
Cf. “Historia de la critica de ´La Vorágine`” in RIVERA. José
Eustasio Opus cit., pp.
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CASTRO, Ferreira de . Opus cit;, pp.7/9.
Peregrino Junior. “Ciclo nortista” in “O regionalismo na ficção”. In
COUTINHO, Afrânio (Diretor) A Literatura no Brasil.. Era realista.
Era de transição. Vol 4. Rio de Janeiro: José Olympio Editora/
Universidade Federal Fluminense. UFF-EDUFF, 1986, p. 246. E quanto
à expressão sádica y virgen, por ele referida, ela aparece no texto La
vorágine, na edição por nós utilizada, à página 297, no parágrafo que se
inicia desse modo – Esta selva sádica y virgen procura al ánimo la alucinacón
del peligro
14
CASTRO, Ferreira de. Opus cit., pp.114/115, 117/119, 101. Quanto
a John Hemming, referiu-se aos parintintins, dizendo que “essa tribo
belicosa de fala tupi (...) lutou com sucesso contra a fronteira da
borracha”; e que esses índios “despertaram o medo e a fúria dos
seringueiros”. Cf. HEMMING, John. Fronteira Amazônica: A derrota
dos índios brasileiros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2009, pp. 372/373.
15
RIVERA, José Eustasio. Opus cit., p.368.
16
CASTRO, Ferreira de. Opus cit., p. 97.
17
Idem, p. 116.
18
Idem, p. 96.
19
Idem, pp. 288-289.
20
CAMPOS, Humberto de. Opus cit., p. 466.
21
CASTRO, Ferreira de. Opus cit., pp. 18/19.
12
13
Waldir Freitas Oliveira é historiador, ensaísta e conferencista; é professor da
Universidade Federal da Bahia, e tem vários artigos e livros publicados. Desde
1987 ocupa a Cadeira nº 18 da ALB.
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O conto e a novela
de Xavier Marques
Aramis Ribeiro Costa
A prosa de ficção na Bahia, ao menos para os pesquisadores
mais rigorosos, não começa com Francisco Xavier Ferreira
Marques (Itaparica, BA, 03/12/1861 – Salvador, BA, 30/10/
1942). Há um ou dois nomes a serem mencionados antes dele,
como registra Sacramento Blake em seu extenso e quase esquecido
Dicionário bibliográfico brasileiro. Porém Xavier Marques é o primeiro
a dar relevo e permanência ao conto, à novela e ao romance
baianos, obtendo, com suas produções literárias, tanto as curtas
quanto as de fôlego, o difícil reconhecimento nacional, ao menos
em sua época. Da mesma forma, é o primeiro a fixar a paisagem
física e humana da Bahia, em particular da Capital e das ilhas
baianas, o arquipélago da Baía de Todos-os-Santos, em sua
produção ficcional. Assim, não será injusto nem equivocado
considerá-lo o fundador da prosa de ficção na Bahia e,
particularmente, o fundador do conto baiano. Aliás, é com o conto
e não com a novela ou o romance, que ele estreia na prosa de
ficção, num pequeno volume posteriormente excluído por ele
próprio da sua bibliografia, intitulado Simples histórias. É de 1886
esse livrinho de formato pequeno – quinze centímetros por dez
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– e oitenta e duas páginas, editado na Bahia pela Tipografia do
Jornal de Notícias, jornal que ele dirigia.
Trata-se, o volume, de doze textos, notadamente curtos em
relação aos contos que Xavier Marques produziria mais tarde,
porém, na sua maioria, não há como confundi-los com crônicas
ou qualquer outro gênero. Os núcleos ficcionais, ainda que muito
simples, a objetividade dos diálogos, a preocupação da síntese e a
permanência de estruturas fechadas, às quais se acrescenta o
cuidado com os desfechos, identificam um contista obediente
aos rigores de uma forma que hoje se diria clássica, levando-se
em conta que o gênero foi iniciado universalmente dentro desse
modelo.
São pequenos retratos, dramas e tragédias da sociedade, com
a linguagem elegante e correta usada numa determinada esfera
social, que reproduzem os costumes, o moralismo exacerbado,
os preconceitos, as limitações e as hipocrisias de uma época,
formando, no conjunto, um interessante mosaico da condição
humana, no tempo e no espaço recriados. É importante salientar
que esses cromos, delineados com a pena de um escritor que se
iniciava na ficção, apresentam, no estilo e na forma, a segurança
de um bom narrador. Não há uma paisagem inútil, uma fala
desnecessária, como se o contista obedecesse a uma precisão quase
matemática de espaço e de tempo em cada texto.
Apesar desse rigor formal e a despeito da linguagem rebuscada,
tão ao gosto do autor, onde se nota o uso frequente de vocábulos
eruditos e pouco usuais, bem como de expressões e formas verbais
tipicamente lusitanas – provável influência de Camilo, sua
confessada admiração – , há algo de moderno na concepção dos
enredos, pois não são anedotas que possam ser reproduzidas
oralmente com grande efeito, o que vale dizer que o interesse
despertado encontra-se bem mais na forma de narrar do que no
episódio narrado.
Em “Aves Migrantes”, por exemplo, o conto que abre o
pequeno volume, o autor apenas descreve uma paisagem, e nela
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um casal que se refugia numa casinha à beira-mar, para aí viver,
longe da reprovação da sociedade, a sua aventura amorosa. Nada
mais que isso. Na mesma linha, de simples descrição de uma
paisagem onde se insere uma circunstância, é “O Lavrador”, em
que um campônio vê aproximar-se do local onde trabalha a mulher
e o filho pequeno e, apesar do cansaço, sente-se enternecido.
Também apenas isso. O tema da tragédia ligada à criança, no
qual se pode perceber, ainda que de forma sutil, uma intenção
moralizante, é tratado em dois textos: “O Livro Fatal” e “O Crime
Duma Árvore”. No primeiro, uma cena doméstica: enquanto a
mãe é absorvida na leitura de um livro, o filho pequeno rodopia
na sala sem que ela perceba, até cair morto diante dela. No outro
a criança ilude a vigilância dos pais, deixa a casa, embrenha-se no
bosque e acaba afogado num tanque.
É possível, aliás, que a intenção moralizante, mais sutil ou mais
evidente, perpasse todo o volume como um sopro apascentador,
uma espécie de satisfação aos leitores, sobretudo às leitoras da
época. Em “O Primeiro Beijo”, outro desses pequenos contos,
vê-se retratada uma cena familiar que devia ser habitual àqueles
tempos: o pai dorme refestelado numa poltrona, enquanto, na
mesma sala, a filha mocinha experimenta, com um primo, a
emoção do primeiro beijo. Aqui, a moralidade é sutil. Mas já em
“Ovelha Desgarrada”, que apresenta um enredo um pouco mais
elaborado, porém nada original, a intenção é explícita: a moça
ignorante do interior se deixa seduzir pelo convite de uma dama
elegante para viver na Capital, e aí se perde.
Há, em Simples histórias, outros enredos tão elaborados quanto
“Ovelha Desgarrada”. Um exemplo é “Um Dia de Campo”, onde
um rapaz da cidade vai passar um dia no campo, e nesse pequeno
tempo seduz uma rapariga do lugar, a neta da senhora que o
hospeda. Igualmente melhor trabalhado, e mais complexo em
sua estrutura narrativa, é “A Cigana”, o mais denso dos contos
do livro, onde o marido, cego de ciúmes, arremessa o cavalo a
galope sobre a mulher e o rapaz de quem ela demonstra gostar,
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ambos sentados na grama, em sorrisos e encantamento, enquanto
o menino, filho do casal, brinca ali perto. A cena acaba em sangue.
Muito curioso, inclusive como um registro de época, é o conto
“Santa!”, onde o autor mergulha mais profundamente na
personagem. É uma moça bonita que, apesar disto, não casa e vê
a irmã mais nova casar, restando-lhe a amargurada alternativa de
tornar-se uma beata e ser considerada uma santa: – Macera-se,
coitadinha! É uma santa – os espectadores comentam das janelas,
ao verem passar a moça, com sua palidez assustadora, a caminho
da igreja. Embora a situação nada tenha de original, a forma de
contar conserva o encanto dos narradores bem sucedidos.
Completam o volume os contos “A Relíquia”, um texto mais
longo, embora um enredo pouco consistente, todo ele em torno
de um presente oferecido à mulher, na condição de relíquia, por
um marido que parte; “Entre Marialvas”, que se passa num frívolo
salão da sociedade, onde um caso é contado por um conviva a
outro a respeito de certa baronesa presente; e “Vocação
Contrariada”, o texto que fecha o volume, onde um rapaz sem
vocação é destinado pela família ao sacerdócio.
Os doze textos que Xavier Marques intitulou de Simples histórias
deixam, ao término da leitura, aliás, agradável e envolvente, mesmo
naqueles contos ficcionalmente mais fracos, a vontade de
concordar com o autor, e considerar as narrativas verdadeiramente
“simples histórias”, nada mais do que isso. Talvez esse mesmo
pensamento crítico o levasse não apenas a não reeditar o livro,
como a excluí-lo, nos livros seguintes, da relação da sua obra, à
semelhança do que também fez com o primeiro, Temas e variações,
de 1884, de poesias. Entretanto, as narrativas de Simples histórias
registram a estreia de Xavier Marques na prosa de ficção, e além
de serem fundamentais para o estudo evolutivo do autor,
constituem um importante documento da história da literatura
baiana. Raríssima e tão preciosa quanto os textos que ela guarda,
é a edição original e única, com sua apresentação gráfica modesta
e sua escrita de antes da reforma ortográfica de 1943.
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A experiência seguinte do autor com a ficção curta dá-se em
1899, e representa um salto notável no domínio da técnica
narrativa, na linguagem e no estilo. Na verdade é a sua mais famosa
produção ficcional, que suplantou, em notoriedade, até mesmo os
seus romances mais conhecidos. Trata-se da novela Jana e Joel. É
preciso observar que, nesse intervalo, de Simples histórias para Jana e
Joel, Xavier Marques publicara dois romances, Uma família baiana,
em 1888, e Bôto & cia., em 1897, este último refundido em 1921 e
transformado em O feiticeiro; publicara também, em 1889, um estudo
bio-bibliográfico intitulado Melo Moraes Filho, e um segundo livro
de poesias, em 1896, Insulares. Já não era, portanto, um autor
estreante, mas um escritor experimentado, em prosa e verso.
Jana e Joel, que ele, curiosamente, chamou de “idílio piscatório”,
surge como a síntese da sua fase romântica, e sua designação
aparece, nas primeiras edições, quase como um subtítulo, tendo
por nome de maior destaque a palavra “Praieiros”. Torna-se
evidente, porém, que esta outra denominação, de maior relevância
nas capas e nas folhas de rosto dos volumes, trazia a intenção de
um título geral, com o qual o autor pretendia denominar uma
série de novelas, tendo como ambientes as praias e o mar,
sobretudo as praias do arquipélago da Baía de Todos-os-Santos,
com sua gente lutadora e simples, em geral barqueiros e
pescadores, suas mulheres, seus filhos, seus parentes idosos. Tal
intuito evidencia-se em publicações posteriores de outras novelas,
onde o título comum “Praieiros” permanece. Sendo assim, o desta
primeira novela é mesmo Jana e Joel, “Jana” corruptela de Joana e
Joel certamente apenas para criar a eufonia entre os nomes. Os
personagens centrais, que formam o par amoroso, intitulam a
trama, lembrando a “pastoral” Paul et Virginie, de Bernardin de
Saint-Pierre, ou mesmo, numa referência mais remota, Dáfnis e
Cloé, romance bucólico de inspiração mitológica, atribuído ao
escritor grego Longus.
O enredo, passado na Ilha dos Frades, na Ponta de Nossa
Senhora e no bairro da Calçada, em Salvador, embora já muito
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distante daquelas “simples histórias” do primeiro livro em prosa
de ficção, permanece simples, como se acompanhasse a
simplicidade desambiciosa e satisfeita do viver daquela gente
praieira das ilhas da Bahia, naqueles tempos em que as distâncias
entre as povoações do arquipélago e a cidade eram
incomparavelmente maiores. Jana, a ilhoa de olhos verdes,
ignorante e rústica, é órfã de mãe, filha do barqueiro Anselmo,
irmã dos gêmeos Cosme e Damião e neta de Teonila, a velha
Teó, mãe de Anselmo. Joel, órfão de pai e mãe, marinheiro e
pescador, é protegido do mestre barqueiro, criado como um de
seus filhos, companheiro de infância e íntimo de Jana. Livres no
ambiente rústico da ilha, entre o mar e a montanha escarpada, os
dois convivem como irmãos, em divertimentos inocentes e
confidências. Um dia desembarca, para veraneio, uma senhora
da cidade, que se torna madrinha de batismo de Jana, e convence
o pai Anselmo e a avó Teonila a deixá-la levar a afilhada para
morar consigo, em sua casa, no bairro da Calçada. Nesse início
há a reincidência do autor no tema da mocinha simples que é
levada para viver na cidade grande, utilizado no conto já citado,
“Ovelha Desgarrada”. Mas o comportamento e o destino de Jana
são diferentes. Vive comportadamente com a madrinha, na casa
à beira-mar da Calçada. Mais adiante, já mortos Teonila e Anselmo,
Jana foge com Joel de volta à ilha, para afinal viverem a plenitude
do amor aos poucos descoberto e finalmente assumido.
A trama, com urdidura linear e discreta, como a canoa de Joel
a deslizar mansa e firme nas águas profundas do grande golfo
baiano, desenvolve-se em torno do amadurecer do sentimento e
da tomada de consciência desse mesmo sentimento entre os dois
personagens, que de ingênuos companheiros de infância, sem
malícia ou desejos, a se tratarem de “meu irmão” e “minha irmã”,
tornam-se adultos que se amam, um amor que abstrai o mundo
e redime suas vidas sacrificadas. A sequência é a mesma bastante
usada na literatura e, mais tarde, infinitamente explorada no
cinema: Jana tem Joel, Jana perde Joel, Jana recupera Joel. Da
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mesma forma, Joel tem Jana, Joel perde Jana, Joel recupera Jana.
Há, entretanto, na simplicidade dessa trama universalmente tão
explorada, além de uma condução ficcional coerente e agradável,
cenas e aspectos magistrais, que colocam esta novela no patamar
do que melhor se tem feito no gênero.
Por exemplo, logo no início, a cena mais forte do enredo: a
destruição do barco Tritão, de Anselmo, por uma feroz
tempestade, o desespero do mestre barqueiro ao se ver privado
do seu único instrumento de trabalho, a desgraça lhe chegando
do mesmo mar que lhe proporcionava e aos seus os meios de
viver. Um quadro de destruição e desespero que encontraria o
seu paralelo, na literatura baiana, muitas décadas mais tarde no
conto “Tempestade”, de Vasconcelos Maia, onde a fúria do mar
e dos ventos destrói as embarcações na pequena praia do Unhão,
em Salvador. Outra referência antológica de Jana e Joel – que
também iria encontrar o seu paralelo na literatura baiana trinta e
seis anos depois, na corrida de saveiros entre Guma e Mestre
Manuel, em Jubiabá, de Jorge Amado –, é a corrida de canoas, em
que a de Joel vence todas as demais. Pungentes são a partida de
Jana da sua ilha para morar na cidade, com a madrinha; a
demonstração da melancolia da moça, no ambiente para ela
estranho e desinteressante da nova morada; o recebimento das
notícias das mortes da avó Teonila e do pai Anselmo; e o feliz
reencontro de Jana com Joel.
Inesquecível e mesmo ousada para os padrões do romantismo,
aos quais, até então, Xavier Marques ainda se apegava, é a cena
em que Jana é surpreendida inteiramente nua por um homem, o
filho da madrinha, ao trocar de roupa no quintal da casa. Curioso
é o fato de não serem dados nomes à madrinha e aos demais
membros da sua família, com exceção do menino caçula, Carlito,
talvez como um artifício do novelista para deixá-los em segundo
plano. Curiosa, igualmente, a descrição do bairro da Calçada à
época, final do século XIX, um bairro tranquilo, de casas
assobradadas dispostas em fila à beira-mar, cujos quintais davam
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na praia, e de onde se podiam apreciar os vapores, os barcos, as
canoas, naquele tempo em grande número, a cruzar as águas da
Baía de Todos-os-Santos.
O conjunto dessas cenas e desses aspectos, magistralmente
construídos e encadeados, forma a excelência desta novela
pioneira da literatura baiana, que seria, já na sua época, o principal
trunfo do ficcionista Xavier Marques. De fato, nenhuma outra
obra de sua autoria, nem mesmo a consagrada biografia Vida de
Castro Alves, obteria tantas edições, nem teria a repercussão de
Jana e Joel, inclusive fora do país, tendo sido traduzida para o francês
em edição conjunta com Iracema, de José de Alencar.
A ficção curta, após a experiência inicial de Simples histórias,
encontrava, dessa forma, em Jana e Joel e a ambiciosa proposta
dos “Praieiros”, um veio original e rico a ser explorado. Nascido
em Itaparica, a ilha maior do golfão baiano, só aos vinte e um
anos de idade Xavier Marques passou a morar em Salvador. A
infância e a juventude foram vividos em contato com os ilhéus,
que eram os pescadores e os praieiros, aquela gente humilde e
vigorosa que vivia do mar. Aquele era o seu mundo, do qual
conhecia segredos e histórias. Mas a Cidade do Salvador e a
História, com “H” maiúsculo, essa interminável narradora da
trajetória humana, também o encantavam, e o romance o atraia.
E publicou, quase simultaneamente, dois romances, ambos em
1900: Holocausto e Pindorama. O primeiro por H. Garnier Editor,
do Rio de Janeiro; e o segundo – romance do descobrimento
premiado pela Comissão Baiana do IV Centenário do
Descobrimento do Brasil, em Salvador –, pelo Instituto
Geográfico e Histórico da Bahia, sendo impresso na Tipografia
Baiana, de Cincinato Melchiades. Porém o retorno à ficção curta
e ao tema dos “Praieiros”, a demonstrar a intensa produção do
autor nesse período, ocorreu em 1902. E veio com a insistência
no gênero novela.
O volume, publicado na Bahia, traz duas ficções: Maria Rosa e
O arpoador. Um “realista romântico”, no dizer de Érico Veríssimo,
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na sua Breve História da Literatura Brasileira (Berkeley, 1945), e mais
romântico que realista em Jana e Joel, Xavier Marques se apresenta
mais realista que romântico em Maria Rosa e O arpoador.
São duas ficções de estrutura narrativa aberta, de ritmo
acelerado – usual das narrativas curtas – , bem mais breves que
um romance e mais longas que um conto habitual, enredos que
se desdobram, como em Jana e Joel, mas sem se alongar
demasiadamente nem explorar tramas secundárias. Enfim, ambas
as narrativas dentro do modelo usualmente aceito para a novela,
ao menos no Brasil, um gênero polêmico, que desperta
controvérsias e antipatias dos estudiosos do assunto, mas que o
autor havia testado com grande êxito no “idílio piscatório”, o
que deve tê-lo animado bastante a seguir percorrendo esse
caminho. Como diferencial da experiência anterior, além da
predominância do realismo, apresentavam as novas narrativas
tramas mais densas e compactadas. Tal circunstância não excluiria
Maria Rosa da classificação de novela. Entretanto, não faltará quem
classifique O arpoador de conto longo, e esse é justamente o aspecto
polêmico do gênero novela, sempre havendo quem queira puxar
as narrativas para o domínio do conto, se são curtas, ou do
romance, se são mais longas. Mas isso são meras questões
didáticas, que não importam muito. O que importa é que são
duas ficções curtas primorosas.
Maria Rosa passa-se em Vera Cruz, povoado da grande ilha de
Itaparica. É “o maior arraial da redondeza”, mas, ainda assim,
“não passa de um arruamento de telheiros e palhoças”, e é uma
“estância de pescadores” que o autor logo classifica de humildes,
dos que vivem do que o mar pode oferecer nas proximidades da
terra. Aí vive Maria Rosa, filha do pescador Francisco da Hora e
de Joana, a mulata gorda, trabalhadora e festeira. Disputada por
dois homens que ela não ama, a sedutora Maria Rosa acaba
deixando pai e mãe e fugindo da ilha com um terceiro homem,
um lenhador de passagem, e que ela mal conhece. Retorna sozinha,
seis meses depois, maltratada, moída de pancadas e feia; é recebida
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de volta à casa dos pais e torna a ser disputada pelos dois antigos
pretendentes que terminam se atracando, um deles matando o
outro. O mar aparece, em Maria Rosa, apenas fazendo parte do
cenário e da vida rotineira dos personagens, já que a ação se
desenvolve toda em terra. Entende-se, aí, a denominação do autor
de “praieiro”, e não de marítimo ou marinho, a esta significativa
vertente de sua ficção. E a novela Maria Rosa, libertada do lirismo
e da suavidade romântica de Jana e Joel, adquire – apesar da
linguagem rebuscada do autor e seu gosto pelo vocabulário erudito
e por vezes arcaico, amálgama de expressões lusitanas e regionais
– , características de permanência e atualidade.
O mesmo ocorre com O arpoador, tendo, como diferença, a
inserção da trama no mar, no qual eclode o clímax do enredo.
Militão é o arpoador que, traumatizado por uma tragédia pessoal
ocorrida no exercício de sua atividade, há dez anos não vai ao
mar. Instado pelo armador de baleias Manuel Ventura, concorda
com o retorno. E trava sua última batalha com as baleias. O que
surpreende, nessa história, é o domínio absoluto do autor das
situações marinhas, o conhecimento das circunstâncias da pesca
da baleia e, tanto quanto, dos termos náuticos. Vale igualmente
como um documentário do tempo em que Itapuã era um arrabalde
de pescadores, e o mar, ao menos naquele trecho da costa marítima
de Salvador, infestado de baleias. Considerando até o final do
século XX e início do XXI, O arpoador – novela, como queria o
autor, ou conto longo, como querem os antagonistas do gênero
novela – situa-se como a mais relevante ficção baiana passada
em pleno mar, uma ficção efetivamente marítima e não praieira,
construída objetivando o clímax nas águas profundas do oceano.
A esse livro seguem-se vários outros, bem afastados da ficção
curta: Sargento Pedro, romance histórico, em 1910; Vida de Castro
Alves, que o autor classificou de ensaio biográfico e não biografia,
também em 1910; A arte de escrever, ensaio, em 1913; Dois filósofos
brasileiros, também ensaio, 1916; e A boa madrasta, romance, 1919.
Só então é que apresentou, também em 1919, pela Livraria Catilina
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de Romualdo dos Santos, em Salvador, o que passou a ser
considerado – já que ele próprio excluiu o Simples histórias, e tanto
Jana e Joel como Maria Rosa e O arpoador foram enquadrados no
gênero novela – seu primeiro volume de contos, A cidade encantada.
Um conjunto de seis contos que deveria ser a volta triunfal do
autor ao gênero com o qual iniciou a sua prosa de ficção.
Entretanto, um livro desigual, tanto na extensão dos textos quanto
na qualidade.
Inicia-se com uma narrativa extensa e nada brilhante intitulada
“Viagem Maravilhosa”. Uma viagem do personagem narrador
de nome Otávio, acompanhado pela mulher Deolinda e pela filha
Flor, para uma cidade não denominada, mas que é apresentada
como lugar estranho e desagradável, povoado por criaturas
igualmente estranhas e perigosas. A narrativa, que se inicia de
forma realista por meio de uma viagem de navio, conclui de forma
misteriosa beirando o fantástico, de forma que não convence nem
pelo seu lado realista nem pelo fantasioso.
A este conto segue-se a melhor realização de Xavier Marques
no gênero, desde que não se considere O arpoador um conto e sim
uma novela: “A Noiva do Golfinho”. Este tem sido o seu conto
mais antologiado e merecidamente o tem colocado no patamar
dos melhores contistas nacionais. O método aplicado é o mesmo
de “Viagem Fantástica”, porém desta feita com êxito. Dentro da
moldura realista surge a solução fantasiosa. A narrativa, que traz
um subtítulo, “Conto de Tabaroas”, mesmo submetida à linguagem
arcaica peculiar a Xavier Marques, é fluente e obedece a um ritmo
acelerado, levando o leitor rapidamente à surpresa final e fantástica.
Passado na Ilha de Tinharé, no sul da Bahia, incluído entre suas
narrativas praieiras, trata-se do noivado de uma moça chamada
Marina, cujo noivo, ao final, descobre-se ser um golfinho. Apenas
isso, porém conduzido de modo a criar interesse, expectativa e
surpresa. Teria sido essa, até prova em contrário, a primeira
narrativa fantástica de êxito na literatura baiana, um conto que
pode figurar entre os maiores da literatura brasileira.
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A seguir vem o conto que dá título ao volume. À semelhança
de “Viagem Maravilhosa”, o conto “A Cidade Encantada” é uma
narrativa extensa, lenta e – essa é uma opinião pessoal – sem
atrativos. Mais uma vez, tem como motivação temática uma
“cidade”. A ambientação desta feita é sertaneja, o autor menciona
a Vila de Nossa Senhora do Livramento de Minas do Rio de
Contas, o antigo Pouso dos Crioulos, cidade baiana perdida na
vastidão da Chapada Diamantina. Dois personagens, dois homens,
o explorador e o tropeiro que lhe serve de capataz, atravessando
o sertão ainda selvagem em busca de uma cidade lendária e perdida
nas imensidões perigosas das matas densas. O argumento é curto,
pobre de peripécias, e o autor sustenta a extensão da narrativa à
base de reflexões sobre os personagens e os perigos das matas.
Felizmente a narrativa seguinte é verdadeiramente encantadora,
embora completamente esquecida, sequer incluída em suas
produções praieiras de ficção curta, o que é uma injustiça, pois se
trata de uma página de mestre, tanto na forma quanto no
conteúdo, na qual não falta o valor documental sobre um tempo
e um lugar. Intitula-se “Mariquita”, nome de uma localidade num
dos bairros mais antigos de Salvador, o Rio Vermelho, e devolve
o autor ao seu ambiente natural que é o mar e a proximidade do
mar, repondo o volume de contos no patamar de “A Noiva do
Golfinho”. Mas, aqui, não há nenhum elemento fantástico. Nem
mesmo romântico, embora, num determinado momento, sugira,
entre dois personagens, um sentimento de circunstâncias
românticas. É uma trama realista, como O arpoador e Maria Rosa,
cujo núcleo ficcional podia se passar em qualquer época, desde
que modificadas certas particularidades que nada interferem no
desenvolvimento e conclusão do enredo. Como faz em Jana e Joel,
quando registra a Calçada, e n’O arpoador, que se conclui nas águas
revoltas do mar de Itapuã, ambos no início do século, Xavier
Marques registra a Mariquita da mesma época, quando era um
modesto arrabalde de pescadores, para onde iam, por
recomendação dos médicos, pessoas enfermas, em particular
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vítimas de beribéri, acompanhadas de suas famílias, para os banhos
revigorantes. Nessa condição de enferma é que chega à localidade
a bela Suzana, acompanhada do marido, um oficial reformado da
Marinha, bem mais velho que ela e fisicamente pouco atraente.
O sugerido amor de circunstâncias românticas da bela enferma,
que logo se recupera, com um jovem médico em descanso na
localidade, serve apenas de pretexto para o ciúme do pescador
Tyba, levando-o a cometer, ao final da narrativa, a violência cuja
verdade completa o autor não revela. Essa narrativa, encantadora
e impactante, reforça a superioridade do ficcionista Xavier
Marques quando ambienta suas histórias na beira do mar. E revela,
mais uma vez, o precioso registro em suas ficções de uma Cidade
do Salvador que o tempo, os novos costumes e o progresso
sepultaram definitivamente.
A página a seguir, “Visões da Infância”, chega a ser
desconcertante do ponto de vista da análise de um livro de contos.
Não se trata, evidentemente, de uma página de memória, e sim
uma ficção curta, narrada na primeira pessoa, simulando
recordações da infância do personagem narrador. Entretanto, não
obedece a uma narrativa única e contínua, trata-se de cenas
separadas por módulos narrativos numerados, no conjunto uma
página sentimental e romântica, cheia de adjetivos, exclamações
e reticências, que dificilmente teria a força da permanência para
além do seu tempo, muito menos a qualidade ficcional de “A
Noiva do Golfinho” e “Mariquita”.
Finalmente o volume A cidade encantada é encerrado com uma
fábula, quase uma anedota intitulada “A Vida do Homem” sobre
as idades do homem e suas peculiaridades.
Após A cidade encantada segue-se um longo período de dezessete
anos até que Xavier Marques volte a publicar ficção curta. Nesse
período publica, em 1921, o romance O feiticeiro, que outro não é
senão Boto & cia., de 1897, refundido; Ensaio histórico sobre a
Independência, em 1924; As voltas da estrada, romance, em 1930;
Letras acadêmicas, ensaios, 1933; e Cultura da língua nacional, ensaio,
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também em 1933. Só então é que publicou, em 1936, pela Livraria
José Olympio Editora, no Rio de Janeiro, Terras mortas.
Trata-se de uma pequena novela, A vila morta, seguida de dois
contos, “A Sombra do Malfeitor” e “Milagres”, os três passados
no interior da Bahia, e libertados do lirismo que caracterizou o
autor de Jana e Joel. A novela e o primeiro conto surpreendem
pela capacidade narrativa do autor e também pelos enredos,
capazes de despertar a curiosidade e levar o leitor rapidamente
ao final de cada um deles.
A vila morta repete o velho tema do amor entre dois moços de
famílias tradicionalmente inimigas, com muitas mortes e vendetas
trágicas, difíceis de serem esquecidas e perdoadas, os Passos e os
Cadós, versão baiana, para os lados de Serrinha, dos Montecchio
e Capuleto. De permeio, a figura temível do coronel Doca, último
representante dos Cadós, a se opor com veemência ao casamento
da filha Romana com o coronel Juca Passinho, último
representante dos Passos. Apesar da recorrência do tema, o autor
mantém o leitor preso às cenas e aos diálogos, levando-o a um
final talvez desconcertante, mas, pelo menos, inesperado. “A
Sombra do Malfeitor” é um conto de assombração, bem ao gosto
de Xavier Marques, que parece ter tido o particular agrado de
concluir suas histórias de início realista com soluções fantasiosas,
surrealistas ou mesmo sobrenaturais, de que é emblemático o
célebre “A Noiva do Golfinho”, o que o torna um dos pioneiros,
na literatura nacional, do realismo fantástico.
A figura bem delineada e terrível de João Grande, o terror do
arraial de São Francisco por seu furor sexual que não respeita as
donzelas e as mulheres casadas ou comprometidas, chegando a
ponto de praticar crimes de morte para possuí-las, desdobra-se
no fantasma que passa a assombrar a vila após a sua morte. Mais
uma vez é o excelente narrador quem segura a trama, fazendo o
leitor interessar-se até a última linha e surpreender-se com o final.
Como “Mariquita”, “A Sombra do Malfeitor” anda injustamente
esquecido dos organizadores das antologias do conto baiano.
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No segundo e último conto, “Milagres”, o autor retorna a
outra de suas tendências, que é a descrição exaustiva de paisagens
enquanto viaja, com termos técnicos e expressões eruditas ou
arcaicas. Não há um enredo mais elaborado, apenas deixa entrever
uma trama de adultério e tragédia que permanece no plano da
suposição, sem que a aprofunde, o que, com boa vontade e apenas
por esse aspecto, poderia levar teoricamente Xavier Marques ao
plano da famosa “circunstância” ou “atmosfera”, tão decantada
e tão perseguida pelos contistas modernistas, os que preferem
sugerir a contar. “Milagres” representa uma queda no ritmo
narrativo do volume, uma queda tanto mais perigosa quanto se
trata da última narrativa. No conjunto, entretanto, Terras mortas
parece superior a A cidade encantada, por apresentar menos
desníveis de qualidade entre as ficções curtas agrupadas e levar o
leitor com mais facilidade e interesse ao final do volume.
Depois de Terras mortas, Xavier Marques não retornou à ficção
curta, a não ser para reeditar, nesse mesmo ano de 1936, em
Porto Alegre, Maria Rosa, O arpoador e “A Noiva do Golfinho”
num único volume, intitulado Praieiros. Pena ter excluído
“Mariquita”. Um projeto que, tudo leva a crer, pela ênfase dada
desde o início a esse título geral, “Praieiros”, não foi cumprido
em sua totalidade, devendo ter sido idealizado bem mais extenso.
Seu último livro foi póstumo, Motivos sociais e históricos e evolução
da crítica e outros ensaios, em dois volumes, 1944, Rio de Janeiro.
O que se percebe é que a ficção curta ocupou um espaço
secundário na extensa bibliografia de Xavier Marques. Sua
produção de ficcionista voltou-se prioritariamente para o romance,
em número de sete, ou oito, considerando-se separadamente Boto
& cia. e O feiticeiro. Verdade que publicou cinco livros de ficção
curta. Um deles, porém, foi proscrito por ele próprio, Simples
histórias. Outro foi uma novela editada separadamente, Jana e Joel.
E, outro ainda, duas novelas em conjunto, Maria Rosa e O arpoador.
Dessa forma, foi quantitativamente pequena a sua produção
ficcional de curto fôlego. Quanto à qualidade, além dos desníveis
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apontados, pesam negativamente em sua literatura, e não apenas
na de curto fôlego, os traços também aqui registrados, como os
ranços de estilo de um autor excessivamente apegado ao
lusitanismo, a nefasta influência de Camilo, o romantismo e o
gosto pelo vocabulário técnico, erudito e arcaico. Entretanto,
apesar desses pesares, deve-se considerar Xavier Marques de
fundamental importância para a história da literatura baiana e,
em particular, para o conto e a novela baianos, tanto pelo seu
caráter pioneiro e inovador, quanto pela recriação ficcional de
uma época, mas, principalmente, pela inegável qualidade literária
de vários de seus escritos, que fazem dele, sem nenhuma dúvida,
um dos pilares da literatura baiana que se inicia no final do século
XIX e segue, em linha contínua de produção e qualidade, aos
nossos dias.
__________
Aramis Ribeiro Costa é médico e administrador hospitalar, graduado em Letras
pela Universidade Católica do Salvador; é poeta, contista e romancista, autor
de 17 livros, como O fogo dos infernos (2002), Os bandidos (2005), Reportagem
urbana (2008) e Contos reunidos(2011).Desde 1999 ocupa a Cadeira nº 12 da
ALB, sendo atualmente seu presidente, na gestão (2011-2013).
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O biógrafo das criaturas
de Jorge Amado
Luis Henrique Dias Tavares
Paulo Dias Tavares é o biógrafo dos personagens do romancista
Jorge Amado, motivo do seu livro Criaturas de Jorge Amado,
publicado em duas edições. A primeira da Editora Martins, data
de 1969, capa de Carybé. A segunda, da Editora Record, com a
participação do Instituto Nacional do Livro – INL –, capa de
Floriano Teixeira.
Jorge Amado conheceu os originais desse único dicionário de
seus personagens em 1965. Cuidou em seguida de sua publicação.
Tinha 2.466 personagens dos romances de Jorge Amado, somados
de Cacau, que é de 1931, a Dona Flor e seus dois maridos, devendo-se
acentuar que Subterrâneo da Liberdade reúne três livros: Os ásperos
tempos, Agonia da Noite e A luz no túnel. Acrescento mais que Os
velhos marinheiros reúne dois livros: A morte e a morte de Quincas
Berro d’Água e Os velhos marinheiros.
A segunda edição do Criaturas data de 1985. Soma 3.746
personagens. Somados aos nomes de personalidades reais ou
lendárias acrescentam-se mais 802; nomes de animais e aves
Obs: Pronunciamento feito em 16.09.2010 na Academia de Letras da Bahia.
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com nomes próprios, mais 50; localidades, mais 312, totalizando
4.910 verbetes.
A 1a edição do Criaturas não foi para as livrarias. Repito a data:
1969. O Brasil estava sob ditadura inaugurada em 1964. Alcançaria
total negação de tudo com o AI-5, 1968.
Jorge Amado estava sob permanente vigilância dos olheiros
que o espionavam. Cuidadoso para que essa brutalidade não
alcançasse o Criaturas e o seu autor Paulo Dias Tavares, nosso
inesquecível Jorge Amado incluiu o Criaturas na coleção de seus
livros posta à venda. Foi um sucesso e uma fórmula que permitiu
ganho inesperado a Paulo Dias Tavares.
A 1a edição do Criaturas não tem prefácio. Não obstante, o
romancista James Amado, na orelha, escreveu: “Paulo Tavares
eleva o padrão deste tipo de dicionário no tratamento dos verbetes
dedicados aos personagens, para o que utiliza a própria linguagem
do texto de ficção ou a recria – o que é mais frequente – com
grande habilidade”.
A 2a edição data de 1985. O nosso sagrado Brasil ainda se
encontrava sob ditadura, mas havia sinais de mudança, piscados
no ato que concedeu anistia aos brasileiros que sofreram prisões
e torturas. O Criaturas de Jorge Amado era um livro premiado pela
Academia Brasileira de Letras desde 1970 (Prêmio Carlos de Laet).
Daí a sua repercussão com artigos assinados por Carlos
Drummond de Andrade, Josué Montello, Wilson Martins,
Antonio Olinto, Permínio Asfora, Esdras do Nascimento, José
Alípio Goulart, Raymundo de Menezes, Anízio Teixeira, José
Conde, Eneida, Malcolm Silverman (Universidade de San Diego,
EUA), Zdenek Hampl (Universidade de Praga) e William
Grossman (Universidade de New York).
Essa 2a edição do Criaturas chegou às livrarias a partir do
lançamento na livraria de Dmeval Chaves na Avenida Sete,
trecho das Mercês. Vendeu muito bem em todo o Brasil! No
entanto, não existe hoje qualquer nova edição do Criaturas de
Jorge Amado. Repito: a edição de 1985 foi a última. Hoje não
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existe qualquer iniciativa para que volte a ser editado, o que é
uma injustiça!
Passo agora a Paulo Dias Tavares que estaria completando
100 anos no próximo dezembro, porquanto nasceu em 1910
na cidade de Nazaré das Farinhas, filho de Amélia Rodrigues
da Costa Tavares e Joaquim Dias Tavares. Aos sete anos, criança
que encantava a todos por ser bonito e inteligente, Paulo Dias
Tavares sofreu paralisia, em 1917, doença que abateu em
Nazaré outros meninos com as idades entre sete e 10 anos.
Não havia cura!
Paulo Dias Tavares aprendeu a ler e escrever no sobrado de
seus pais, Amélia e Joaquim, situado na Praça Municipal. Não sei
o nome da professora. Todavia sei que desde aquela aprendizagem,
Paulo Dias Tavares revelou fome de livros e firme decisão para a
vida. Primos mais velhos e amigos muito próximos, no exemplo
de Ciridião Tude, cuidaram de inaugurá-lo para o sexo. Iam buscálo no primeiro andar do sobrado e o carregavam para o carro de
Ciridião. Dali, o levavam para a cama de uma prostituta na Rua
da Fontinha. O jovem Paulo era alegre e cativante.
Não demorou para conhecer e namorar a jovem Haydée
Guimarães, baiana da Cidade do Salvador, presente na cidade
de Nazaré na casa da família Crusoé, localizada do outro lado
do Rio Jaguaripe. O jovem Paulo Dias Tavares ia namorá-la
montado em uma mula. Haydée em pé, a mula inquieta, não os
deixando namorar. Paulo Dias Tavares desejou possuir uma
baratinha Ford.
Joaquim Dias Tavares, o seu pai, era o comerciante da família
Dias Tavares. Maria Rosa Coelho de Souza Tavares, mãe de
Joaquim, era a dona do armazém que o seu marido, o português
João Dias Tavares, construíra e fizera progredir até a sua morte
em 1894, ele com 48 anos. Na forma da época, Maria Rosa
escolheu o filho mais velho (tinha 11 filhos e filhas), Abílio, para
suceder o marido. Abílio estudava medicina no Rio de Janeiro.
Resistiu ao chamado, mas obedeceu a ordem de sua mãe. Quase
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em seguida se casou com Alice Lopes Caldas Brito e constituiu
família. Nos anos de 1910, Abílio ganhou um prêmio no sorteio
do banco com o qual trabalhava. Foi por isso que ele decidiu
mudar-se para a Cidade do Salvador e passou a administração do
armazém para o irmão Joaquim.
A família Dias Tavares era partidária do governador Francisco
Marques de Góes Calmon. Foi daí que conseguiu nomear Paulo
Dias Tavares escrivão de coletoria estadual na cidade de Nazaré.
Era a maneira de garantir condições financeiras para o casamento
de Paulo Dias Tavares. O casamento já estava marcado quando
denunciaram ao governo que Paulo era paralítico, condição
proibida no serviço público. Ele foi demitido. Todavia a família
Dias Tavares conseguiu que Haydée fosse nomeada escrivã de
coletoria estadual. Casaram-se em 1931. Contudo não existiu um
só dia em que Haydée Guimarães Tavares exercesse o trabalho
de escrivã de coletoria porque Paulo Dias Tavares cumpria
completamente as tarefas. Cabia à sua esposa assinar os relatórios
finais da coletoria. Só!
Acentuo que Paulo Dias Tavares continuou amante dos livros.
Ademais, com o auxílio do pai, comprou a desejada baratinha.
Pergunte-se: como a movimentava se ele era paralítico?
Respondo: Paulo Dias Tavares ligava e dirigia a sua baratinha
apenas com as mãos, habilidade que se tornou possível por
causa da inteligência e inventiva do italiano Marighela. Ele
possuía uma oficina e jamais respondia “não posso fazer”. Ao
contrário. Quando procurado, ele dizia “vamos ver”. Foi assim
quando a baratinha de Paulo Dias Tavares foi levada para a porta
de sua oficina. Em menos de duas semanas, Marighela inventou
o jogo manual que permitiu a Paulo Dias Tavares dirigir a sua
baratinha.
Ele conheceu Jorge Amado em 1943, ano em que o grande
romancista voltou de seu exílio em Montevidéu e foi preso, ao
desembarcar, no Rio de Janeiro. Não obstante a prisão e as terríveis
condições do cárcere, ele conseguiu que o governo do Estado
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Novo permitisse a sua volta para a Bahia sob o compromisso
de não viajar para outro estado. Ora, muito bem! Paulo Dias
Tavares, de quem Jorge Amado sabia que era seu leitor e inimigo
da ditadura do Estado Novo, razão para ir visitá-lo na cidade
de Nazaré. Logo se identificaram amigos e conversavam na
varanda da casa de Paulo Dias Tavares. Contavam coisas e
davam risadas que ecoavam na Praça Municipal. Pergunto-me:
foi naqueles dias terríveis da II Guerra Mundial que Paulo
Dias Tavares imaginou escrever a biografia dos personagens
de Jorge Amado?
Avalio que não. Suponho que ele mergulhou neste enorme
trabalho nos anos de 1960, quando a escrivã Haydée Guimarães
Tavares foi transferida da Coletoria de Nazaré para outra na
Cidade do Salvador por denúncia de um coletor que a perseguiu
ao descobrir que Paulo Dias Tavares era quem exercia de fato as
tarefas da coletoria.
Mudaram-se de Nazaré para a Cidade do Salvador e levaram
algum tempo trocando de endereços até fixarem-se no
apartamento da Graça. A escrivã Haydée foi aposentada. Acredito
que foi naqueles novos anos de 1960 que Paulo Dias Tavares
escreveu o Criaturas de Jorge Amado.
Desejo informar que Paulo Dias Tavares dominava o inglês,
não para falar, mas para ler e traduzir. Lembro como exemplo a
tradução do poema de Pablo Neruda na saudação a Luis Carlos
Prestes no famoso comício do Pacaembu (SP). Paulo Dias Tavares
conhecia o poema em inglês e o traduziu. Acrescento que ele
aprendeu inglês escutando a BBC de Londres. Acrescento mais
que Paulo Dias Tavares comprou e se ilustrava com a leitura da
Enciclopédia Britânica – preciosidade que ele ofertou a este seu
sobrinho, admirador e amigo.
Lembro que Paulo Dias Tavares fez uma conferência nesta
Academia sobre o seu Criaturas de Jorge Amado. Ele tinha sofrido
três infartos. Sentiu tonturas no decurso da conferência.Foi com
o auxílio da sua dona e amada de toda a vida, Haydée, que voltou
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para o seu carro e o dirigir para a garagem do edifício em que
residia no Campo Grande.
Não vou adiante. Solicitei este honroso encontro ao nosso
presidente para comemorar o centenário de Paulo Dias Tavares,
meu reverenciado tio-mestre, que transcorre em dezembro
próximo. Quero observar que é inaceitável não haver qualquer
providência para a reedição do seu imortal Criaturas de Jorge Amado.
Luís Henrique é historiador, ficcionista, autor premiado de dezenas de livros
de história e de ficção; é Professor Titular de História da Universidade Federal
da Bahia, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual da Bahia. Desde
1968 ocupa a Cadeira nº 1 da ALB.
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A Influência Francesa na
Arquitetura e Urbanismo
Brasileiros
Paulo Ormindo de Azevedo
Em 25 de março de 1983, Thales de Azevedo, meu pai,
pronunciou nesta academia uma conferência magistral sobre a
influência francesa na linguagem, costumes e valores na Bahia de
sua juventude, A Francesia Baiana de Antanho. Por um cacoete
profissional, não resisti à tentação de reunir alguns comentários
sobre a francesia num dos campos onde ela foi mais forte no
Brasil, durante o século XIX e primeira metade do século passado,
a arquitetura, o urbanismo e as artes.
Após três séculos de isolamento econômico e cultural do
mundo, uma circunstância histórica, a invasão napoleônica de
Portugal, transformaria o Brasil Colônia em Metrópole e
consequentemente aberto para o mundo. São os ingleses os que
forçam e tiram o maior proveito da abertura comercial, mas a
abertura cultural seria em direção à França, promovida por D.
João VI com a contratação de uma missão de artistas franceses
para iniciar o ensino das artes no país, ainda muito provinciano.
A ideia partiu do ministro Antonio de Araújo Azevedo, 1º Conde
da Barca. A Missão foi chefiada por Joaquin Lebreton e composta
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pelo arquiteto Grandjean de Montigny, os pintores Nicolau Taunay e
Jean Baptista Debret, o escultor Auguste Marie Taunay e o gravador
Charles Simon Pradier.
Embora fundada em 1816, a Academia Imperial de Belas Artes
só começaria a funcionar efetivamente dez anos mais tarde,
quando alguns membros da missão já haviam morrido ou
retornado à França. Mas nesse período fizeram obras importantes
e documentaram a cena brasileira. Nesse particular foi
importantíssima a contribuição de Jean Batista Debret
documentando paisagens, costumes e tipos do país em sua Viagem
Pitoresca e Histórica ao Brasil. Se a Missão perdeu alguns
membros ganhou outros, como os irmãos Marc e Zépherin Ferrez,
escultores e gravadores franceses que imigraram para o Brasil
por conta própria. Assinale-se ainda os artistas Charles Henri
Levesseur e Louis Symphorien Meunié, que lecionaram na
Academia de Belas Artes na condição de pensionistas (RIOS
FILHO, 1960, p. 245).
O Neoclássico introduziu a simetria nas plantas e fechadas,
elevou os edifícios do chão criando o chamado porão baixo e
introduziu a platibanda (plate-bande) como forma de dar a sensação
que os edifícios terminavam em terraços (terrasses) ou áticos e
não em telhados como na tradição colonial. A nova academia
transforma o Neoclássico no estilo oficial do Império, que se
irradiaria do Rio de Janeiro para todo o país. Outros profissionais
que se destacam neste período foram Grandjean de Montigny e e
pouco depois Pedro Alexandre Cavroé, filho de franceses, que
foram agraciados com o título de Arquiteto do Senado da Câmara.
O francês Pedro José Pézérat foi arquiteto particular de D. Pedro
I e Joaquin Bethencourt da Silva recebeu o título de Arquiteto
Imperial durante o reinado de Pedro II. Cite-se ainda os arquitetos
Joaquim Cândido Guillobel; e Charles-Philippe Garçon Riviére que
atuaram durante o 1º e 2º reinados.
Ainda no Rio de Janeiro assinalem-se os trabalhos de
urbanismo do Eng. Pedro Taulois que projetou uma avenida
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litorânea, em 1830, na região da Gamboa e Saco do Alferes, não
executada, onde foi construído depois o cais do porto. Em 1874
no Governo do Visconde do Rio Branco, o Ministro do Império,
João Alfredo, nomeou uma comissão para elaborar um plano de
melhoramentos para a cidade da qual participou entre outros o
futuro prefeito Francisco Pereira Passos e o Eng. Ernesto Guignet.
Este primeiro plano urbanístico integral elaborado no Brasil não
foi executado na época, mas seria em grande parte aproveitado
por Pereira Passos quando prefeito (PEREIRA, 2008, p.14) .
No paisagismo, devemos assinalar as contribuições de Auguste
Marie Francisque Glaziou, botânico e hábil jardineiro, que reformou
o Passeio Público, o Campo de Sant’Anna e a Quinta da Boa
Vista e projetou o jardim da Praça da Aclamação, atual da
Republica, entre 1860 e 1880, bem como a contribuição de seu
discípulo Paul Villon (TELLES,1994, p. 148).
No Nordeste, o arquiteto francês Louis Léger Vauthier, egresso da
École Nationale de Ponts et Chaussés com passagem pela École Polytechnique
de Paris difundiria o Neoclássico no Recife, onde chegou em 1840.
Nessa mesmo cidade, o mestre pedreiro e arquiteto Manuel Ferreira
Jácome projetou a igreja de de São Pedro dos Clérigos.
A arquitetura eclética adotada pela Primeira Republica foi em
grande parte feita por arquitetos franceses, como Francisque Couchet,
sócio de Arquimedes Memória e com quem projetou a Camara
de Deputados e o Jóquei Clube, no Rio de Janeiro, ou de inspiração
francesa, como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro (1905-1909),
do Eng. Francisco de Oliveira Passos, sobrinho do Prefeito, uma
replica da Ópera de Paris, de Garnier. O engenheiro contou neste
projeto com a colaboração de técnicos de nomes ou sobrenomes
franceses, como René Brada (coor.), Albert Gilbert, Antonio Ruffin,
Charles Peyroton, Emílio Bion e J. Personne. A vizinha Biblioteca
Nacional foi projetada pelo escritório francês Hector Pepin et
Taquenot, entre 1905 e 1910.
Modernizando as técnicas construtivas, os programas, e a
decoração o Ecletismo deixou muitos termos ainda em uso na
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arquitetura brasileira. Na construção civil podemos citar o betão
armado (béton armé), a betoneira, o radier ou laje armada sob uma
construção, as telas depolyé de metal estendido para armar o estuque
(stuc), o gransepe, chapuz corrido para fixação de assoalho sobre
laje de concreto, a claraboia (claire voie) e o pilotis. Novos cômodos
foram incorporados às casas, como o budoar (boudoir) ou quarto
íntimo de mulheres, o sanitário (sanitaire), antes conhecido como
quartinho, ou casa de banho, agora com bidê (bidet), ducha (duche)
e retreta (retrete) e as mansardas (mansardes), nova denominação
das modernizadas águas furtadas. Mas é na decoração sua maior
influencia com a introdução do vital (vitrail), lambris, parquet, plafond
(forro ou luminária de teto), abajur (abat jour) e móveis, como
sofá (sofa), divã (divan), pufe (pouf), console e toalete (toilette).
Muitos arquitetos e engenheiros brasileiros fizeram sua
formação na França, como o Eng. Francisco Pereira Passos,
formado pela École des Ponts et Chassés de Paris, e o arquiteto gaúcho
Manuel de Araujo Porto Alegre, diplomado pela Escola de Belas
Artes da mesma cidade. O paulista Francisco de Paula Ramos de
Azevedo, autor dos projetos do Teatro Municipal e da atual
Pinacoteca de São Paulo e o baiano José Nivaldo Allioni,
receberam o título de engenheiro-arquiteto pela Universidade de
Gand, na Bélgica. Allioni assina o projeto da primitiva Escola de
Belas Artes, depois transformada em Senado da Câmara do
Estado da Bahia, na Praça da Piedade, mutilada com a abertura
da Av. Sete de Setembro por Seabra. Reformou também o sobrado
do colecionador Jonathas Abott, na Rua do Tijolo, mais tarde
sede da Escola de Belas Artes da Bahia1.
Podemos ainda citar como provavelmente formado na França
Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá, onde se encontrava
quando mandou o projeto da reforma classicizante da Casa de Câmara
e Cadeia de Salvador (1887), inspirado na arquitetura de Luiz XVI.
Curiosamente, o primeiro livro de urbanismo de autor brasileiro, o
Eng. Francisco Saturnino de Brito, foi escrito em francês, Le Tracé
Sanitaire de Villes, publicado em 1916 (TELLES, 1984, p. 165).
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O Art Nouveau foi outro estilo da Belle Époque brasileira e teve
no franco-argentino Victor Dubougras um de seus maiores
representantes no Brasil. Dubougras é o autor da reconstrução da
nossa Faculdade de Medicina, depois do incêndio de 1905. Atuaram
muito no Rio e em São Paulo, entre 1910 e 1920, os escritórios de
arquitetura Viret & Marmorat e de Joseph Gire, este projetista do
Copacabana Palace, Hotel Gloria e Ed. de A Noite, com 22
pavimentos em estrutura de béton, armé, um assombro na época2.
Mas a maior influência francesa seria no urbanismo, com a
reforma de Belém do Pará, sob o intendente Antonio Lemos
(1897-1902), que a transformou na “Paris n’America” ou “Petit
Paris” e em Belo Horizonte (1894-97), projeto do Eng. Aarão
Reis, com um boulevard de 50m de largura e largos trottoirs - a Av.
Afonso Pena – terminando em uma réplica de L’Etoile de Paris, o
rond points do obelisco. Mas a mais impactante influência do
urbanismo francês no país se deu na reforma do Rio de Janeiro
(1902-06), então capital do país, quando prefeito Francisco Pereira
Passos, que estudara na França enquanto Haussmann reformava
Paris. Pereira Passos queria abrir a Av. Central, atual Rio Branco,
com 50 m. largura, como as avenidas de Paris, mas se conformou
com 33 m. De qualquer modo reproduziu um boulevard parisiense
na Av. 28 de Setembro e abriu as avenidas Salvador de Sá, Gomes
Freire e Passos. A reforma do Rio de Janeiro seria reproduzida no
Recife e aqui em Salvador pelo Governador J.J. Seabra (1912-16)3.
O urbanismo francês se fez presente também na atuação de
Alfred Agache no Rio de Janeiro. Ele fora convidado, em 1927,
para urbanizar as áreas resultantes do desmonte do Morro do
Castelo e aterro do Calabouço, o que resultou na criação da
Comissão do Plano da Cidade, depois transformada no
Departamento de Urbanismo da Prefeitura carioca.
Agache foi o terceiro colocado no concurso para o planopiloto de Camberra, Austrália. Adepto do urbanismo de
Haussmann, Agache propôs grandes avenidas para o Rio e projetou
uma Cidade Universitária na Praia Vermelha. Ele é o provável
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introdutor do cul de sac no Brasil. O Urbanista francês chegou a
fazer uma proposta, no inicio da década de 1940, para realização
do Plano Diretor de Salvador, concorrendo com Mario Leal
Ferreira.
A influênciaria francesa é também visível no plano-piloto de
Goiânia (1933-37), de Attilio Corrêa Lima, pós-graduado em
Urbanismo pela Sorbonne, com uma malha de rond points e
arquitetura Art Déco nas edificações públicas. Este estilo, iniciado
com a Exposição de Arte Decorativa de Paris (1925), teve grande
influencia na primeira geração de edifícios de Copacabana e em
São Paulo. Aqui em Salvador o Art Decó produziu a bela
decoração marajoara do Instituto do Cacau da Bahia (1932-36) e
algumas residências pequeno burguesas em bairros novos, como
Barris, Canela, Rio Vermelho e Pituba. Neste último bairro, vale
lembrar a Casa do Navio, já demolida, construída pelo Dr.
Boureau.
A influência francesa foi também muito forte no Modernismo
brasileiro. Na Semana de Arte Moderna de 1922, uma das figuras
centrais foi o escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, que havia
estagiado com Auguste Rodin e Èmile-Antoine Bourdelle na França.
Muitos outros artistas modernistas se aperfeiçoaram na França
como Ismael Nery, que cursou a Academia Julian em Paris nos
anos 20 e Portinari, que morou na mesma cidade no período
1928-30, onde conheceu Chagall e Picasso.
Já nessa época os arquitetos brasileiro começavam a se
contaminar com as ideias de Le Corbusier publicadas na revista
L’Esprit Nouveau e com a publicação de seus primeiros livros,
Vers une Architecture (1923) e L’Urbanisme (1924). Sua passagem
pelo Brasil em 1929 fazendo conferências no Rio e em São Paulo
prepararia o caminho para o convite do Ministro Gustavo
Capanema para projetar o Ministério da Educação e Saúde e
Cidade Universitária na Mangueira, em 1936, em equipe com
arquitetos brasileiros liderados por Lucio Costa. Consolidava-se,
assim, a arquitetura modernista brasileira, cuja maior expressão é
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Brasília (1957-59), inspirada nas ideias de Le Corbusier, dos
Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna - CIAM e na
paixão de Lucio Costa por Paris, onde passou a infância.
Brasília, como Paris, possui eixos de composição, boulevards,
esplanadas ou plataformas (plate-formes) e a referência visual de
uma torre que ordena todo o espaço urbano. Pela mesma
influência, a maioria das prefeituras brasileiras tornou o pilotis,
que passou a ser sinônimo de piso vazado, obrigatório nas
construções habitacionais em altura. Durante um século e meio
a inspiração da arquitetura brasileira foi francesa. Com a Semana
de 1922 e a construção de Brasília, a arte, a arquitetura e o
urbanismo brasileiro assumem um caráter próprio e se distancia
da França.
NOTAS E REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Paulo Ormindo. A arquitetura e o urbanismo da
nova burguesia baiana. In: De Villa Catharino a Museu Rodin
Bahia: um palacete bahiano e sua história. Salvador: Solisluna
Design e Editora, 2006, p. 59-103.
Vide SANTOS, Paulo F. Quatro séculos de Arquitetura. Rio de
Janeiro: IAB, 1981, p. 43-98 e BRUAND, Ynes, Arquitetura
Contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981.
– Sobre a reforma de Salvador sob Seabra vide PERES, Fernando
da Rocha. Memória da Sé. Salvador: Edufba, 1999.
Paulo Ormindo de Azevedo é arquiteto, ensaísta, Professor Titular da
Universidade Federal da Bahia; é consultor da UNESCO, membro do
Conselho Consultivo do IPHAN e do Conselho Nacional de Política Cultural,
Presidente do IAB-Ba. Tem diversos artigos e livros publicados . Desde 1991
ocupa a Cadeira nº 2 da ALB.
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Presença do humanismo
militante na poesia
de Jacinta Passos
Florisvaldo Mattos
N
a introdução à segunda edição de Canção da Partida (Salvador:
Fundação das Artes, 1990, José Paulo Paes lamentou estivesse a
poesia de Jacinta Passos (1914-1973), àquela altura, “ausente das
livrarias”, desde a publicação de sua última coletânea de versos,
Poemas Políticos, 39 anos antes, precisamente em 1951. Atribuía
esta ausência a “razões de vária ordem”, como “o reconhecido
descaso do leitor brasileiro hoje pelos livros de poesia, o que os
condena, com raríssimas exceções, a uma vida editorialmente
curta”, e a problemas de saúde que afetaram a vida da poeta.
Ponho-me a cavaleiro desse vexame editorial, já que coube
justamente a mim, por razões que atribuo à ingerência dos fados,
então na presidência da Fundação das Artes, na gestão do
governador da Bahia Waldir Pires, o privilégio de apoiar e
favorecer as iniciativas que resultaram na segunda edição de
Canção da Partida, de cuja organização e estudo crítico se
incumbira José Paulo Paes.
Atendendo a um gentil convite de Janaína Amado, sua única
filha, volto agora a me encontrar com a poesia de Jacinta Passos.
E não poderia imaginar quanto me iria oferecer de aprendizagem
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e deleite essa auspiciosa homenagem. Primeiro, retirando-me do
desconforto de leitor de um único livro seu, Canção da Partida, em
sua edição baiana; depois, por me permitir a leitura de outros
livros seus, desde o primeiro, Momentos de Poesia, 1942, a própria
Canção da Partida, na edição de 1945, com ilustrações a bico-depena de Lasar Segall, Poemas Políticos, de 1951, a poesia de nítido
vinco ideológico de A Coluna, de 1957.
Confesso que saí dessas leituras altamente reconfortado, como
que liberto de uma culpa e enriquecido pelo que me trouxe a
ampla gama de significados embutidos no corajoso lirismo de
Jacinta Passos. E foi percorrendo meandros desse estuário que
atentei para as singularidades de um norte temático, responsável
por rupturas na criação poética, para as quais se pode tomar o
ano de 1939 como ponto de partida, justo com o poema intitulado
“Campo limpo”, quando paulatinamente começa a desaparecer
de sua poética o que José Paulo Paes chamou, em seu estudo, de
“flexão verbal da súplica”, elemento condutor de símbolos por
meio dos quais anteriormente se expressavam o espírito religioso
e o temperamento místico de Jacinta Passos.
“Campo limpo” parece estabelecer uma divisa. A índole
poética como que, gradativamente, se desvia, se exila das
invocações místicas, em busca de outras cogitações, outros
cenários, onde a invocação de “Senhor”, conquanto presença
ainda não indispensável, vai se ausentando, substituída por outras
formas de satisfação espiritual e existencial.
Poesia são janelas, e poetas, faces, prontas para descobertas,
há de ter pensado Jacinta, em fins de 1939, provavelmente quando
redigiu este poema, que a fez vislumbrar, primeiramente, o ardor
da “natureza viva”, brotando do ardor da seiva de campos, a
ondular ante novo olhar de assombro para as formas da existência
real. Vê profundidades de noites e estrelas, num esplendor de
beleza, que a faz perceber em si “uma estranha alegria” – a terra,
os campos, a paisagem, como pedaços vivos de si própria,
vibrações de uma vida amanhecente.
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Realmente, amanhece ali outra Jacinta Passos, e logo se produz
um encadeamento vibrante de temas. No primeiro poema de 1940,
“Alegria”, mente a perscrutar, a poeta descobre o “irmão
desconhecido e anônimo”, cuja “face marcada pelo sofrimento”
tem o “traço de semelhança” com a verdadeira “face perfeita de
todos os homens”.
Tudo doravante tornar-se-á matéria de descoberta. Neste
mesmo 1940, já com a guerra de Hitler avançando – “A guerra”,
“Poema”–, veredas de amor e ternura se abrem pela via mais
larga da solidariedade; o olho e o olhar se aproximam do ser
humano carente de cuidado e afeto.
Simplesmente,
Tranquilamente,
Eu me abandonarei a ti num gesto de oferenda.
Encontrarás no meu olhar a compreensão das palavras que não disseres.”
(“Poema”, Momentos de Poesia)
A virada se acentua em 1941 com a assunção plena da
consciência solidária, a introspecção reflexiva mostrando o sentido
da vida em favor de outrem, em poemas como “Compreensão”
(Esquecida/de todas as dores do mundo, do mal profundo da vida),
“Mensagem aos homens” (Inteira, pura e livre como a luz, a livre
luz das alvoradas), “Mistério carnal” (Corpos humanos que a morte
tocou./Por que esperam os corpos abandonados/na branca solidão do
vasto cemitério?).
No processo de libertação da transcendência para a progressiva
assunção de uma consciência social, antes mesmo de firmar-se
uma opção de cunho ideológico sob os ditames de uma
agremiação política (sabe-se que ela em 1945 filiou-se ao Partido
Comunista Brasileiro), Jacinta Passos começa a delinear um
panorama temático com a sensibilidade voltada para uma gama
de preocupações e anseios que futuramente se vão desdobrar e
se firmar, a par com as marchas e contramarchas de um processo
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político, através de movimentos, campanhas, organizações,
bandeiras, cuja força de atuação tende a se afirmar e crescer,
abarcando sucessivos decênios, à medida que o século XX avança,
para se transformar em uma quase neurose, ao irromper o XXI.
Esse amálgama ideológico que busca se definir numa
contracorrente das mudanças políticas cristaliza-se em torno de
um feixe temático que, agindo como doutrina de múltiplas faces,
vai concentrar-se em fenômenos sob a forma de lutas em defesa
da cidadania, do meio-ambiente e da internacionalização de
propostas globais de total afirmação das potencialidades do
humanismo.
Tenho para mim que esse painel temático se escalona,
arbitrariamente, na seguinte ordem:
1 – a mulher, a condição feminina, inserida num processo de
afirmação e ascensão;
2 – a criança, que desperta a confiança no futuro, a merecer
atenção, sendo até objeto de projetos e programas, em escala
mundial, que impeçam venha ela mergulhar no desamparo;
3 – a natureza, expressada como um bem a serviço da felicidade
geral dos homens, refletida em todos os passos da existência
humana, o que pressupõe uma luta permanente pela sua
preservação;
4 – finalmente, a eleição exaltada das manifestações populares
como refúgio dos desassistidos e vencidos pelos desajustes da
própria ordem opressora, na qual se inserem todas as vitimas das
desigualdades sociais.
Configurando o que já era uma tendência no livro anterior,
Canção da Partida se apresenta como uma síntese do engenho
antecipativo desse humanismo militante, que, por vezes, na
dimensão das ações práticas, toma a forma de humanitarismo.
Ao longo deste livro, a poeta constrói poemas, que vão
acumulando, concentrando as potencialidades de uma energia
humanista, que não seria demasiado chamá-la de raiz precursora
de atitudes, comportamentos, posturas e ações, englobadas sob
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os rótulos de cidadania, ambientalismo e internacionalização de
hábitos e signos culturais.
Instala-se um campo magnético de implementação de
vontades, na esfera de criação, de aspirações positivas, de ações
em defesa dos mais carentes e mais fracos, símil daquele posterior
à Segunda Grande Guerra, que fez acender ânimos e crenças –
aquele suelo de creencias, vislumbrado pelo espanhol Ortega y Gasset
–, ao tempo em que se desmoronavam velhas e caducas formas
de afirmação e poder, sob o pálio de novas ideias e padrões de
convivência humana e social. Ruem os modelos de dominação
do homem pela porta do individualismo, instalando-se uma nova
realidade pontuada pelas ideias de liberdade, democracia e
socialismo.
Hoje, ao fim de uma trajetória que levou de roldão mitos e
crenças, alçam-se bastiões de propagação das criações do espírito,
como a se instalar um estado de necessidade regido pela lucidez,
cujo universo se manifesta e se codifica por meio de novas
palavras, novos signos, novos gestos, propagados como
compromisso de teor universal.
Em face disto, numa linha de premonição, a poesia de Jacinta
Passos distingue-se como uma luz precursora de etapas e realidades
futuras e se afirma, apesar de editorialmente curta, como um farol,
a iluminar múltiplas sendas, planaltos e planícies, onde se vão
empreender marchas fatigantes, porém essenciais.
Vejamos como se apresenta a poesia de Jacinta Passos nesta
sugerida grade temática.
Três poemas de Momentos de Poesia – “Mulher”, “Mistério
carnal” (ambos já anteriormente aludidos) e “Canção simples” –
deflagram o processo em que a condição feminina rompe o grilhão
da religiosidade, a que a poeta se filiara por doutrinação
espiritualista e inclinação mística, para adquirir expressão de
independência em “Três canções de amor”, “Canção da alegria”
e, principalmente, num poema de mais fôlego estrutural,
“Chiquinha” – todos de Canção da Partida.
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No primeiro dos três últimos, valendo-se de reiterações de
uma cantiga de roda do folclore infantil, o ato de oferecer o corpo
de mulher ao amado, porque, assumida a condição com
naturalidade, sabe que amar é doce, enquanto o efeito da entrega
agora muda o sol, que muda a terra, ela e também o parceiro, para
ambos virarem passarinho, símbolo de pureza e liberdade. E logo
a série de perguntas emblema:
Cadê a Princesa?
A Princesa fugiu?
A terra tremeu?
A torre caiu?
O amor é grande, porém ainda sobram determinações, regras.
Logo a poeta decide mandar, e é uma ordem:
Abra a porta,
queremos entrar!
(...)
Que porta pesada.
Que porta caturra!
Empurra!
(...)
Já cresce o gigante
maior que o mar.
A porta de bronze
vai arrombar!
No segundo poema, “Canção da alegria”, elementos do
folclore infantil de matriz rural se unem no ato de fazer para
sugerir um outro fabrico, além da farinha, quando a urupemba,
de tanto peneirar, não resiste, e logo sobrevém o alerta, o grito:
Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo arrombou!
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olhe o cisco
olhe o risco
urupemba furou!
(...)
Escorra! Escorra!
Tirai essa borra!
E restará no fim:
Farinha fininha
Peneiradinha!
Ai! vida, que vida
minha! nuinha!
Vida igualzinha à da “Nêga Fulo”, de Jorge de Lima.
Dedicado a sete mulheres – todas certamente de linha
participante, como a poeta –, o poema “Chiquinha” tematiza a
condição feminina numa perspectiva histórica que enfileira
geografias e impérios remotos, séculos, humanidades e conflitos,
rumo à libertação do indivíduo mulher em plena sociedade
burguesa capitalista, onde a máquina, símbolo de escravização
mecânica, se torna no instrumento ideal de, por artes de
perseverança e determinação, alcançar-se a salvação.
A máquina, típico meio de extensão de braços e mãos, depois
do inexorável passar de sofrimentos e humilhações, liberta na
mulher operária o corpo de serva doméstica e, arrancando-a de casa,
derruba paredes/ limites, fronteiras/ do lar, doce lar/ – prisão milenar.
E um corpo liberto constrói o mundo, pela dignidade do
trabalho, bom e valoroso – o bastante para a poeta proclamar e
concluir, indagando afirmativamente:
Chiquinha
tu sabes que a máquina
que move
o mundo moderno
te vem libertar?
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Em “Canção simples”, o recurso ao verso em redondilha
patenteia vontade de alteração, de mudança, com um dinamismo
rítmico que acondiciona o impulso de vencer a adversidade da
submissão feminina, refletida comparativamente na imagem da
flor caída no rio, que a leva para onde quer, como fatal destino. Mas,
encadeando paralelismos, a poeta maneja uma dialética em que
subsiste a ideia da “mulher semente”, da entrega da virgindade
como uma divisão que não deixa resto, das confissões masculinas
de amor infinito que contrastam com a finitude da vida, para por
fim rotular a submissão chancelada pela relação sexual como
expressão da “fraqueza humana”.
Não sem razão, José Paulo Paes, em seu estudo crítico, invoca
observação de Sérgio Milliet, que ressaltava, em Jacinta Passos,
uma sensibilidade “marcadamente feminina”, a abrir-se para “uma
visão crítica da condição da mulher rara de encontrar-se na poesia
brasileira” até ali, basicamente por meio da criação poética
projetada na Canção da Partida.
“Cantiga das mães”, de Momentos de Poesia, encara o tema da
criança numa clave de fatalidade, subjacente na inevitável perda
maternal do filho, por efeito de um determinismo existencial,
imposto pela ordem natural das coisas.
Fruto quando amanhece
cai das árvores no chão
e filho depois que cresce
não é mais da gente não.
Porém, não é a cadeia do afeto possessivo, supervisionada
por um desígnio da natureza, capaz de impedir que filhos
cresçam – antes ficassem meninos/ os filhos do sangue meu, geme o
coração materno –, pois quem leva o filho não é a morte, mas a
própria vida, na dialética de uma realidade cíclica.
Amargamente, para a mãe, os filhos partiram – foram viver seus
destinos,/ isto sempre foi assim, consente a razão conformista – longe,
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bem distante de berço, riso/coisas puras,/ brigas, estudos, travessuras/
tudo isso já passou, rematando com o doloroso refrão:
Foi a vida que roubou.
Depois da “Canção para Jana” (Poemas Políticos), na qual, ferida no
mesmo bordão de perda irrecusável – Flor buliçosa/rosa crescei –,
suspira a incerteza da volta, para agasalhar-se na sombra aqui destas
asas/ até um dia, é na “Canção de brinquedo” que o estado de
resignação se impõe, na certeza de que no reino da terra/ riso será,
riso que (avisa) não é de graça, porque para a flor de sangue invocada
(a criança) tempo virou/ tempo virá. E mostra a linha de risco, marco
de desafio, já que a menina não é flor sozinha, logo novo aviso:
Um olho aceso
entre as mulheres
criatura minha.
E então manda o destino de ser liberto, que segue (a menina)
puxando o novelo:
Agora sim.
Flor no cabelo
entra na roda e dança, ó jasmim.
Obra seminal desta antecipação de temáticas que irão proliferar
num contexto de humanismo universalizante, Momentos de Poesia
apresenta o poema que traduz o sentimento inaugural de devoção
e reconhecimento do primado da natureza – “Campo-Limpo”,
justamente o nome da fazenda onde nasceu Jacinta Passos, nas
proximidades de Cruz das Almas, no Recôncavo baiano.
É lá que, nos seus campos banhados de sol, literalmente viceja o
ardor da seiva rebentando nessa natureza viva, propagado em doçura
de céu crepuscular, árvores frondosas que se alongam como fantasmas
quando a noite desce, cujo esplendor de beleza provoca uma estranha
alegria, por de lá provirem sombra e flor e fruto – paisagens que fazem
reviver, interiormente, todos os instantes perdidos para sempre, ocultos,
de uma infância já morta, mas conservada no ser profundo.
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Nessa poética de descortino virtual do mundo, o amor livre,
presumido e desejado em canção, não acontece apenas com o
despir da roupa da mulher, mas no instante em que o corpo é fruto
(“Canção do amor livre”). Traduzido em escrita despojada:
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
aí rija
cintura de potro bravo.
E o corpo masculino aflora como
Relâmpago depois repouso
Sem memória, noturno.
A predisposição de amar, de dar-se ao amor (“Chamado de
amor”), não se consuma como exorcismo carnal, mas como forma
delineada a partir de potencialidades da natureza que se
manifestam:
Tanta laranja madura
ai tanta!
que aroma vem do quintal.
A maré já deu passagem
cresce meu canavial.
(...)
Jasmim da noite floriu.
Jasmim.
Acabou-se o bem e o mal.
Desde o recurso à inserção de formas líricas oriundas do
universo infantil, usando refrões de cantigas de roda – Passa/
passa/ passará/ derradeiro ficará (“Canção da Partida”); Eu fui por
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um caminho./ Eu também./ Encontrei um passarinho./ Eu também
(“Três canções de amor”); Su su su/ neném mandu/quem dorme na
lagoa/ é sapo cururu (“Cantiga de ninar”) –, de formas folclóricas
(samba-de-roda), até toadas de trabalho – Urupemba/ urupemba/
mandioca aipim!/ peneirar/ peneirou/ que restou no fim? (“Canção da
alegria”), como observa José Paulo Paes, a poesia de Jacinta
Passos avança para latitudes criativas em que ressaltam
preocupações com as adversidades do ser humano, centradas
no sofrimento e em estados de infortúnio que se apossam de
almas desamparadas pela sociedade, de que são exemplos, para
resumir, os poemas “Navio dos Imgrantes”, “Sangue Negro” e
“Carnaval”.
O primeiro deles, dedicado ao pintor Lasar Segall, que ilustra
a primeira edição de Canção da Partida, exalta a triste saga
aventurosa de seres humanos impelidos aos quadrantes do mundo
por vicissitudes diversas, como corpos largados/desamparados,/límpido
tempo/de primavera/mora no fundo/de vossa espera.
Corpos humanos
suportam corpos
seus desenganos.
Corpo, cansaço
longa viagem,
busca um regaço
terra ou miragem.
O segundo, “Sangue Negro”, lavrado em vertente nitidamente
social, irradia um halo de confiança plena na extinção do flagelo
da miséria que se abate sobre seres humanos, através de forças
latentes criadoras do progresso material, como no fazer jorrarem
as reservas petrolíferas das profundezas do solo baiano – sangue
negro da cor da noite/ da cor do negro africano, em alusão ao braço que
muito deu à terra de que foi escravo –, energia libertadora, que
impulsiona transformações múltiplas, refletida até mesmo no aboio
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de indício mutante do vaqueiro nordestino – O homem tira da terra/
a chuva que o céu não dá. E até, com a alma transbordante de fé:
O lavrador
largará a enxada que dos pais recebeu
e moverá os arados mecânicos
que os homens de outras terras lhe ensinaram
através da distância e dos ventos oceânicos.
Em “Carnaval”, manejando o verso-livre – uma particularidade
formal da poética modernista –, a linguagem se solta, variam
timbre e ritmos, aflora um estado de ânimo que, penetrando numa
expressão da vida popular, acompanha o seu desenrolar, impelido
pela imaginação plural, em flagrante manifestação de liberdade
ao longo dos espaços urbanos, consagrado pela mistura de raças
e classes, cores e ritmos, própria da cultura da Bahia.
É ali que, pelos cantos e batuques, o negro é rei.
Negro é rei
no carnaval,
tem manto, tem cetro,
e o chapéu de sol
é pálio real.
É no carnaval que gritos humanos, interjeições,/ lança-perfumes, desejos
sem rumo (...)/ um cheiro forte de todas as raças,/ vibram no ar.
Uma massa humana,
todas as cores,
todas as raças,
todas as classes,
em confusão.
De que subsolo irrompeu, informe, nua,
essa nova realidade sem nome que dança na rua?
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E prossegue a poeta, registrando em versos a mistura sem fim –
homens, mulheres chiques que têm amantes, vagabundos elegantes,
literatos de academia, gente graúda, gente pobre, louro estrangeiro,
ondas humanas, cuja voz se perde na multidão e no asfalto.
Um povo surgiu, surgiu não sei donde
dançando, cantando, um povo surgiu.
Universo especular de símbolos em que se reflete a alma de
Jacinta Passos, porque a um só tempo está no seu sangue, em que
se concentram sementes de vida popular.
No meu sangue,
as raças,
as classes,
os povos
misturam-se.
Eu sou a Bahia.
Viva o Rei Momo!
Hoje é seu dia.
A permanência da poesia de Jacinta Passos há de ser analisada
pelas virtualidades que antecipa o seu humanismo militante em
relação a temas hoje mundialmente disseminados sob rótulos e
bandeiras diversas em defesa de princípios como cidadania, meioambiente e solidariedade internacional, na luta contra a ignorância,
a violência e a miséria, por efeito das palavras que usa para expressar
seus estados de alma, na busca de si mesma.
Desta maneira, poemas, versos, timbres e variados ritmos de
sua obra, lastimavelmente curta, fazem-na uma precursora de ideias,
movimentos e campanhas hoje agasalhados sob o vasto manto da
ação humanista patrocinada por organizações não-governamentais
(ONGs), instituições nacionais e internacionais, em vários países,
proclamados e consagrados como vias capazes de assegurar ao
homem paz e sobrevivência produtiva na terra. Uma poesia que
propaga sonhos e metamorfoses, pela força de seu lirismo.
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TRÊS POEMAS
DE JACINTA PASSOS
Canção do Amor Livre
Se me quiseres amar, não despe somente a roupa
Eu digo: também a crosta feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti, pelo sangue recebida, tecida de medo
e ganância má. Ar de pântano diário nos pulmões.
Raiz de gestos legais e limbo do homem só numa ilha.
Eu digo: também a crosta essa que a classe gerou vil,
tirânica, escamenta.
Se me quiseres amar. Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos de fogo e cobre.
Madeira e água deslizante, fuga ai rija cintura
de potro bravo. Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.
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Campo-Limpo
Quando vejo, ondulando ante os meus olhos,
os teus campos banhados pelo sol,
o ardor da seiva rebentando nessa natureza viva,
a doçura do teu céu na hora crespular,
a sombra negra das árvores que se alongam como fantasmas
quando a noite desce
a profundeza insondável das tuas noites estreladas,
quando vejo o esplendor de tua beleza,
sinto, inesperada, uma estranha alegria,
como se encontrasse
um pedaço vivo de mim mesma.
Campo-Limpo,
as tuas paisagens se identificaram
com todas as vibrações de minha vida amanhecente.
As tuas paisagens parecem humanas.
Parece humano o murmúrio do vento nas tuas árvores seculares
e a branca silhueta da velha casa antiga.
Tuas paisagens revivem a minha vida já morta,
todos os instantes perdidos para sempre
e que eu quizera integrados num momento eterno.
Como árvores que dá sombra e flor e fruto
esconde as raízes na terra de onde veio,
estão mergulhadas no teu solo,
as raízes mais profundas do meu ser.
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1935
Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.
Fruto peco.
Novembro de sangue e de heróis.
Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.
Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.
________
Florisvaldo Mattos é poeta, jornalista e ensaísta. Publicou diversos livros, como
Travessia de Oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa (2004); recentemente,
lançou o livro Poesia Reunida e Inéditos (São Paulo: Escrituras, 2011). Desde
1995 ocupa a Cadeira nº 31 da ALB. Este texto foi escrito especialmente para
o livro Jacinta Passos, coração militante – poesia, prosa, biografia, fortuna crítica
(Salvador-BA: Edufba / Editora Corrupio, 2010), que teve Janaína Amado
como sua organizadora (págs. 521 a 531).
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Afrânio Coutinho, centenário:
um testemunho de leitura
Adeítalo Manoel Pinho
Este texto constitui uma homenagem ao centenário do crítico e
historiador baiano Afrânio Coutinho. Pretendo aproximar a leitura
de sua obra a alguns dos termos propostos por mim durante o
estudo do sistema literário da Bahia e da pesquisa de periódicos.
Esteio de Sistema e Amadurecimento de Cultura são dois desses termos.
Caros para a argumentação, eles pretendem, na sua prática, reverter
em positivo o negativo do termo tradição (amadurecimento de
cultura) e as íntimas ligações entre escritores cuja obra são capazes
de manter acesos os formatos dos acervos literários da Bahia: esteio
de sistema. Afrânio Coutinho, por seu lado, é um esteio. É capaz
de erguer, nas suas inúmeras pesquisas, principalmente nas obras
A Literatura no Brasil e Enciclopédia da Literatura Brasileira, um rol
imenso de autores e obras ligadas ao sistema literário do Estado.
Sendo assim, me utilizo das ideias da Teoria da Recepção, dos
estudos culturais e da nova história da literatura.
__________
Texto apresentado no III Colóquio do Grupo de Estudos Literários
Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 Anos de Afrânio
Coutinho (1911-2011): a crítica literária no Brasil, Universidade Estadual de
Feira de Santana/PPGLDC, 15 e 16 de dezembro de 2011.
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Uma das primeiras experiências com Afrânio Coutinho
provém da visão da coleção A literatura no Brasil vendida na livraria
do PIDL, na Universidade Estadual de Feira de Santana. No início
dos anos 1990, os seis volumes da publicação, orgulhosamente
mostrada e comentada pelo professor e diretor da livraria
Raimundo Luiz, tornaram-se para os estudantes mais aplicados
do curso de Letras da UEFS um objeto de desejo. Comprávamos
aos poucos, volume a volume, como numa coleção. Os exemplares
volumosos eram consumidos primeiro pelos olhos, depois pela
leitura e, ao final, descobríamos os autores, os ensaios de peso. A
narrativa no plural era fato. Lembro que mais colegas chegavam
à livraria interessados no conjunto de ensaios, principalmente,
sobre Antonio Vieira, Machado de Assis, Graciliano Ramos,
Clarice Lispector, Jorge Amado. Alguns próximos podem também
testemunhar, como Valéria Soares, Maria da Conceição Araújo,
Jecilma Alves, Maria Valdilene, Glória Mendes, Francisco Fábio
de Vasconcelos e José Francisco da Silva (esses últimos não me
lembro se compravam, mas queriam ter). Aliás, era uma das poucas
fontes de estudo sobre o romancista baiano cujo centenário será
comemorado no ano de 2012.
Como tínhamos manias que parecem desaparecidas
ultimamente, discutíamos em sala de aula, biblioteca e mesas de
bares sobre os ensaios e, pasmem, conseguíamos identificar
ensaístas como Luiz Costa Lima, Barreto Filho, Brito Broca, Lúcia
Miguel Pereira, Antonio Candido, e o polêmico Eugênio Gomes,
que evidentemente não sabíamos que era baiano e, com justiça
ou não, oscila entre os mais notáveis vilões ou perseguidos da
história literária brasileira. Estão neste pódio Sousândrade, Lima
Barreto, José do Patrocínio, Coelho Neto, Monteiro Lobato.
Ignorávamos a tumultuada querela do papel da história da
literatura no contexto, nos interessava discutir os grandes textos
da literatura brasileira a partir do peso daqueles ensaios reunidos.
Outro assunto indigesto, as ligações ideológicas entre tais
senhores de farta bibliografia e estilo marcante não passavam
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por nossos temas de debate. Nem tão pouco que, alheio ao sonoro
esforço de separação entre direita integralista e esquerda socialista,
Afrânio Coutinho reunia numa mesma publicação Adonias Filho,
Eugênio Gomes, Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda
e outros. Intelectualmente, isto era muito grave, pois as facções
estavam divididas. Outros empreendimentos foram tentados e
fracassaram porque alguns estudiosos não queriam estar
associados ao regime de Getulio Vargas ou ao Integralismo de
Plínio Salgado (nossa versão fascista de nacionalismo).
Sobre estes assuntos, senhores sentados nestas cadeiras,
presentes a este evento comemorativo e de estudos literários,1
podem versar com mais intimidade e até conforto (ou aflição!)
de testemunhas. Para indivíduos como eu, que escolheu enveredar
por esta via de estudo da literatura, a historiografia, somente vi
aumentar a importância da obra para os estudos literários
brasileiros, pois além de reunir o nosso melhor momento de
amadurecimento nestes estudos, víamos ali, o que, saberíamos
depois, seria o nosso melhor momento criativo de literatura
(BUENO, 2009). Ao que parece, os ensaístas também estavam
impressionados com as possibilidades de reflexão,
aprofundamento, variação e temas capazes de ser encontrados e
construídos em seus textos.
E isto somente foi possível porque um baiano polêmico,
incansável e agregador resolveu fazer uma obra coletiva ainda
num contexto dos estudos individuais, das grandes soluções
personalistas e, ainda, da formação de um líder espiritual e
intelectual que conduzisse para aprisco seguro os nossos sempre
incipientes estudos da literatura. Obviamente estou falando de
__________
1
Estava presente ao evento o filho de Afrânio Coutinho, o ensaísta e professor
da UFRJ Eduardo de Faria Coutinho. E também Jorge de Souza Araújo,
professor da UEFS, que realizou estudos de pós-graduação junto a Afrânio
Coutinho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luiz Roberto Veloso
Cairo, professor da Unesp de Assis/SP e egresso da UFBA, que passou a
juventude na Bahia em tempos ideológicos e de regime militar.
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Antonio Candido e do que se tornou, ao seu redor, os estudos da
literatura na Universidade de São Paulo e foi disseminado para
todos os cursos de Letras do Brasil, sempre com muita justiça.
Por outro lado, ao que parece, Afrânio Coutinho, na sua faina de
pesquisador, via mais longe. Conseguiu legar alguns exemplares de
trabalho coletivo capazes de, ao tempo em que promovia a
divulgação da literatura no Brasil, dos modelos de pesquisa, também
promover avaliação de tais obras e estudiosos. Os alunos de letras,
nos quais eu me incluía, discutiam, através daquela obra, literatura,
escolhiam os melhores momentos, muitas vezes não os mais
populares: parnasianismo, pré-modernismo. A contragosto, meus
colegas elegiam o modernismo sobre o qual eu indagava “quem
ele havia lançado?” Não se preocupem, todos nos uníamos em
torno de Guimarães Rosa, Jorge Amado e Clarice Lispector.
Gostaria de justificar um pouco do meu entusiasmo com
Afrânio Coutinho na conta da sua baianidade. Se a pertença a
esta parte do país pouco importou para ele (a afirmação merece
estudo mais apurado), para a minha pesquisa é fundamental.
Naquele momento de estudante de Letras, ao que me lembro,
não sabíamos disso e nem se tornava informação digna de constar
em nossa pauta de apreciação da literatura. As lições de literatura
como sistema de Candido não faziam efeito, mas o estudo do
estilo e o comparatismo com as grandes obras ocidentais eram a
tônica de desvendamento.
Também, se nossa via de entrada para o debate a respeito do
autor de Tieta do agreste e Gabriela, cravo e canela tinha outro mestre
na figura da caixa iluminada da televisão e do cinema, são questões
ainda por resolver. Era o tempo, os anos 1990, das adaptações
populares da literatura para um público mais amplo. De fato, o
Brasil tomava conhecimento de O tempo e o vento, de Erico Verissimo;
de Grande sertão, veredas, de Guimarães Rosa; de O primo Basílio, de
Eça de Queiroz; de Tieta do agreste, de Jorge Amado, através dos
seguidos capítulos da teledramaturgia. Transformados em folhetim
muito bem elaborados, adaptados e encarnados por atores e atrizes
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famosos do público, velhos conhecidos do sofrer e das paixões de
outros personagens, tais livros gloriosos da nossa galeria literária
chegavam ao conhecimento do público brasileiro em geral. Se os
leitores atuais podem ser chamados de geração internet ou das redes
sociais, a nossa facilmente se reconhece como geração TV.
Em se tratando de literatura, indiferenciáveis de outros leitores
mais cosmopolitas, tínhamos nossos hábitos de leitura clandestina,
como diz Roger Chartier. Explico-me. Nossos professores mandavam
ler Machado, Graciliano, Drummond, João Cabral, líamos também
Jorge Amado, Marquez, Kundera, Sidney Sheldon, quiçá Paulo
Coelho. Os anos 1990 também tinham a marca do livros populares,
geralmente divulgados pelas listas dos mais vendidos das revistas
Veja, Isto é e dos grandes jornais, como Estadão, Folha e JB. Os
bestsellers até faziam divulgação em intervalos comerciais da televisão,
anunciando que estavam à disposição do público Nas bancas, A
insustentável leveza do ser e O amor nos tempos do cólera apareciam
anunciados junto a Fernão Campelo gaivota e O alquimista.
Em termos de estudos literários, a fala recente do pesquisador
João César de Castro Rocha demonstra que aquela energia
formada nas entradas e saídas da livraria do Prof. Raimundo Luiz
e investida ao longo dos anos por alguns de nós não foi em vão.
O professor carioca, um dos principais teóricos da nova história
da literatura, afirmou na PUCRS, em outubro de 2011, que iria
utilizar a metodologia de A Literatura no Brasil, para organizar a
sua nova história da literatura. Para um dos mais interessantes
estudiosos de literatura da nova geração, o modelo de Coutinho
é viável porque agrega os pesquisadores da área, fornece painel
da literatura no Brasil, assume a diversidade nacional quase
impossível já de ser conhecida de outra forma que não seja a
chamada de publicação, mesmo recortada, torna possível avaliação
das diferenças. Isto tudo levando-se em conta também todos os
pontos polêmicos, questionáveis e incontroláveis com os quais
se pode deparar aquele que resolve empreender tal atividade. As
agências de fomento e avaliação acadêmicas, como a CAPES,
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também pensam de forma semelhante, quando resolvem financiar
eventos e produtos que comprovem o esforço de agregação
nacional de especialistas em torno de temas comuns, em vez da
dispersão e multiplicação de eventos sobre o mesmo tema.
Faz algum tempo realizei estudo sobre a figura do poeta Castro
Alves a partir de termo proposto por mim: esteio de sistema. Naquela
oportunidade, tomei Castro Alves como esteio de sistema da
Bahia. Lá, afirmava que, além da figura poética, erguida ao campo
semântico de monumento (LE GOFF, 2003), Alves se tornara
essencial para a memória cultural do Estado. Reúne-se, mobilizase, sonha, reconhece-se em torno desse Castro Alves emblemático,
erótico, mítico, gerações e mais gerações de intelectuais, literatos,
artistas, incentivadores, acadêmicos. O poeta de A Cachoeira de
Paulo Afonso toma o lugar, simboliza, corporifica e insufla o que
vem a ser a própria Bahia. Pertencer a uma esfera de literatura
nacional pouco importa, ou melhor, implementa tais expectativas.
Autorizado pelos laços de identidade que ligam literatura e
pertença, pode-se pensar numa alegoria estadual. Do mesmo
modo que o Estado se acomoda entre os empurrões e solavancos
dos outros Estados mais a oeste, pressionando-o em direção ao
mar, como é impedido de esgueirar-se sinuosamente para o sul e
aparenta, vigoroso, suster os estados do nordeste, a presença de
Alves pretende guardar lugar para obras do passado, geradas no
presente e gestadas para o futuro. Obviamente, para não parecer
bairrista, – não é esta a minha a intenção – , a Bahia também
pressiona e fragiliza as outras unidades da federação. Basta lembrar
os discursos do político baiano, recentemente desaparecido,
Antonio Carlos Magalhães.
Em suas áreas de atuação, outros autores são capazes de tais
proezas, como Jorge Amado e Afrânio Coutinho. Não por acaso,
são exatamente estes 3 autores que inspiraram a ideia agora
exposta de esteio de sistema (PINHO, 2008). Naquele momento, os
pontos historiográficos explorados na produção de Castro Alves,
Afrânio Coutinho e Jorge Amado foram a consagração e a
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polêmica. Agora, após a investida em outros referenciais, como é
o caso de Jacques Le Goff, até o silêncio pode ser catalogado
nesta descrição de fisionomia de sistema.
Nesse caminho crítico, outro intelectual de relevo da Bahia
causou admiração pela obra que foi capaz de erguer, nas condições
que lhe foram oferecidas. Trata-se do Afrânio Coutinho (19112003) que neste ano completa o seu centenário de nascimento. O
seu desempenho é tão insinuante que o biógrafo (BELÉM, 1987)
justifica a capacidade de trabalho, polêmica e deslocamento com
a projeção de obras e instituições, com a saída do tacanho Estado
e uma viagem para os Estados Unidos da América. A explicação
é muito fácil e poderia reduzir a sensação angustiante de não
poder afirmar a força cultural do sistema que vê nascer Coutinho.
Óbvia a pretensão de enfatizar tais discursos contra a força
intelectual formativa de autores tão distantes no tempo, Padre
Vieira e Afrânio Coutinho, nas escritas de seus intérpretes.
Contudo, a minha experiência de trabalho com os jornais e as
instituições culturais, os quais me fazem ver por um lado
totalmente desconhecido da história e da crítica literária
tradicional, mostra-me não um Afrânio Coutinho, mas um
conjunto sólido anterior de longa data de intelectuais bastante
interessados em fortalecer a sua visão particular de cultura (talvez
matizada por messianismos, visão particular da terra, etc).
Infelizmente, esta mesma solidez não permitiu movimentos
positivos como passos decisivos para assunção de visões mais
democráticas, menos coronelistas, etc. Por seu lado, a narrativa
hegemônica tenta transformá-los em exceções para depois
classificá-los fora do estereótipo de atraso com o qual se tenta
explicar o sistema cultural baiano. A dificuldade do discurso
hegemônico está na quantidade de exceções, na temporalidade
envolvida e nos projetos que os unem.
Em vista do prestígio do Modernismo paulista, a Bahia pagou
alto tributo por esta mesma possibilidade de vinculação na longa
duração da cultura do ocidente em nossas terras e em nosso
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imaginário. Convidada a esquecer e abandonar vínculos vistos
como retrógrados, antinacionalistas, retóricos, algo sempre a fez
insistir pela permanência e festejo.
No mais forte mergulho no tempo, autores do calibre de Padre
Antônio Vieira e o poeta boca de brasa Gregório de Matos
ofereceram a maturação de leitura e recepção de Jorge Amado,
Adonias Filho e Afrânio Coutinho. Não se pode negar também a
existência da instituição do Colégio dos padres Jesuítas como
formadora de uma prática de pensamento que moldou formatos
de comportamento e agir intelectual bem-sucedido na longa
duração: Vieira é uma celebridade internacional no seu tempo,
formado ali na grosseira e diminuta, como disse José Veríssimo,
capital das Américas. A passagem dos regimes coloniais para
imperialista e desse para republicano e depois todos os reveses
no século XX podem demonstrar insatisfações e diálogos nem
sempre em sintonia. Afinal, trata-se da cultura que se vai vencendo
enquanto entra e é testada na crise, como defende Martim
Heidegger. Não se deve negar, no entanto, a cultura que veio
arrolada e providenciou uma identificação própria, talvez não
propícia, o que é outra história. Por hora, convém entrarmos
com dignidade nesta linha de amadurecimento cultural,
reconhecendo os valores intelectuais e seus esforços. Afrânio
Coutinho, nos seus 100 anos completos, certamente fornece tintas
a esta aquarela bafejada de mares e sertões.
REFERÊNCIAS
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a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução por Denise
Bottman. São Paulo: Companhia das Letras. 2008.
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– as origens brasileiras da teoria da Bondade Natural. 3. ed. Rio
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Organização de Liv Sovik. Tradução de Adelaine La Guardia
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São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
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ZILMERMAN, Regina. Estética da Recepção e História da Literatura.
São Paulo: Ática, 1989.
__________
Adeítalo Manoel Pinho é graduado em Letras pela Universidade Estadual de
Feira de Santana, tem Mestrado pela Universidade Federal da Bahia e
Doutorado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde
defendeu tese, na área de História da Literatura, sobre a obra de Adonias
Filho. É Professor Adjunto da UEFS, lecionando na graduação em Letras e
no Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural. Coordena o Grupo de
Pesquisa Estudos Literários Contemporâneos. É autor do livro de ensaios
Perfeitas memórias (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011).
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A expressão do indizível:
Rosa, Meyer-Clason,
Wittgenstein
Antonio Brasileiro
Para Dominique Stoenesco
“Cinzenta, caro amigo, é toda teoria.” São palavras de
Mefistófeles, no Fausto, de Goethe. São elas nosso ponto de
partida. Não por Goethe, mas por Wittgenstein. O filósofo as
conhecia.1 E talvez, também, Curt Meyer-Clason, o tradutor de
Rosa para o alemão.
Sabemos das façanhas de alguns tradutores de Rosa, da rica
troca de ideias entre eles e o escritor, assim como do espantoso
conhecimento que tinha Rosa, o poliglota, das dificuldades de
uma tradução de obras como a sua. Meyer-Clason, um desses
tradutores, era um intelectual de peso, conhecia bem a alma do
Brasil e mereceu toda a confiança do romancista. Na carta de 22
de janeiro de 19642, quando estava a braços com Grande Sertão:
Veredas, escreveu: “Toda interpretação mata a poesia à medida
que dá mastigado para o leitor o que este deveria captar com sua
imaginação.” Assinalamos aqui a palavra “imaginação”. Captar
com a imaginação. “Captar” talvez seja também outra palavra a
ser destacada. E “poesia”, naturalmente, pois Meyer-Clason faz
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questão de dizer “poesia”. Na verdade, a frase que antecede à
que transcrevemos também vale a pena ser transcrita. “Mas
quando captei o que o poeta quis dizer, dei à versão alemã
sempre que possível uma for ma poética equivalente
distanciando-me de uma tradução interpretativa.” Meyer-Clason
insiste: poeta, forma poética. Está consciente do que traduz:
trata-se de poesia. Não que esteja a traduzir algum poema (real)
de Guimarães Rosa, que também os escreveu: o que traduz é
sua prosa. Mas o tratamento que lhe dá – que dá a essa “prosa”–
é, digamos, diferenciado.
Vamos por partes.
Não nos estenderemos, não mapearemos o livro ou coisa assim.
As informações de que dispomos – uma só carta – já nos são
suficientes. Assinalamos que o cuidado de Meyer-Clason nem é
bem com as palavras – a matéria das palavras –, mas com a
linguagem. Linhas antes, no início do parágrafo que estamos
comentando, Meyer-Clason fala de sua “maneira” de traduzir:
uma “maneira funcional”. A tradução funcional, diz ele, “dispensa
conceitos tais como ‘literal’ ou ‘livre’, pois são conceitos vagos,
equívocos, que nada sabem daquela fidelidade ao espírito da obra
oriunda de uma afinidade interior ou de uma identificação
artística.” Ele fala, como vemos, de uma “afinidade interior” e de
uma “identificação artística”. Esse é um dos pontos que nos
remete a Wittgenstein, quando este filósofo faz compartilhável
todo conhecimento tão só àqueles que já o carregam dentro de
si. Mas queremos ainda assinalar (nesta mesma carta) o passo
onde Meyer-Clason insere sua preocupação com “o impulso, o
andamento, o elemento musical” de um texto a ser traduzido.
No texto em português está: feito flecha, feito faca, feito fogo, e ele
exclama: “Fabuloso, inimitável!” Vibra a alma do tradutor. Mas
tem que admitir, como escreve logo em seguida: “O Senhor não
poderá ter tudo na versão alemã. Em alemão, o Senhor deverá
satisfazer-se com o seguinte: wie der Welle, wie der Wille, wie der
Wind.” Não precisamos conhecer tão bem a língua alemã para
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perceber a “funcionalidade” – e a inteira propriedade – da
tradução: onda, vontade e vento cobrem perfeitamente o espírito.
Quanto à inclusão de Wittgenstein nesse estudo, uma nota se
faz necessária. Assim como abordamos tão só um trecho de uma
carta de Meyer-Clason, pinçamos também apenas um tópico de
Wittgenstein. Diríamos até, melhor, em Wittgenstein, pois suas
ideias aqui apresentadas já se achavam em outros pensadores ao
longo da história da filosofia.3 Por outro lado, a despretensão de
nosso trabalho não exige mais que essas poucas ideias, não
importando de onde venham.
De Wittgenstein, portanto, dois pensamentos. O primeiro deles
é ampla e merecidamente citado: “Aquilo de que não se pode
falar, deve-se calar.” É a frase que fecha o Tractatus logicophilosophicus. Remete-nos a algo onde campeia o “mistério”, termo
usado pelo próprio filósofo como “pano de fundo” daquele quê
de árido do seu filosofar. Lá estão suas palavras: “O indizível (o
que me parece cheio de mistério e que não sou capaz de exprimir)
forma talvez o pano de fundo em virtude do qual o que posso
exprimir adquire uma significação.”4 O indizível, sempre presente
esse indizível. Alertava mesmo os amigos para que não o
discutissem, esse indizível, com as palavras do discurso. Não cabia
ao discurso, mas tão só à arte a apreensão do essencial.
(Wittgenstein pensava na música sobretudo, mas não excluía a
poesia.) Linguagem feita de palavras, a poesia – e seu parentesco
com a linguagem discursiva, não ia, contudo, além do (mero) uso
das palavras. O próprio filósofo que era, admitia que “para bem
fazer a filosofia, só a deveríamos escrever em poemas.”5 Isso, por
certo, não estava assentado para os mais influentes filósofos
contemporâneos. Jean-Paul Sartre, por exemplo, em O que é a
literatura, apontava para essa peculiaridade da poesia: “O prosador
escreve, é verdade, e o poeta escreve também. Mas entre esses
dois atos de escrever só há em comum o movimento da mão que
traça as letras. De resto, os seus universos mantém-se
incomunicáveis, e o que é válido para um não é válido para outro.”6
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Esse também, assinalamos, não é um pensamento propriamente
moderno: se bem procurarmos, vamos encontrá-lo ao longo dos
séculos e das civilizações.
A filosofia devia ser descrição pura, e não explicação – é o
que pensava Wittgenstein, segundo Cristiane Chauviré, autora
de um conciso mas importante estudo sobre o filósofo.
Wittgenstein escrevera: “Recusarei o que quer que se diga, não
pela falsidade da explicação, mas por ser uma explicação.” Entre
parênteses, logo a seguir, Chauviré comenta: “E esta é uma das
mais nítidas declarações anti-teóricas que Wittgenstein jamais fez.”
Não transcrevemos esse comentário com o só intuito de evocar
a frase de Goethe (“Cinzenta, caro amigo, é toda teoria”); nossa
intenção foi mais a de aproximar (de Goethe) o conhecimento
de Ludwig Wittgenstein, a “poesia” de João Guimarães Rosa e o
reconhecimento de Curt Meyer-Clason. A teoria não diz. Ou,
pelo menos, não diz o poético. Certo que o poético, aqui se
estendendo para a arte como um todo, não quer transmitir senão
a si mesmo. (Wittgenstein: “A obra de arte não quer transmitir
coisa alguma senão a si mesma.”) 7 Não que isto seja um limitação
– o poético ensimesmado, visão de mundo por uma fresta. O
que queria Wittgenstein era um posto privilegiado para a arte:
mostrar o inexprimível. Justo o que, nas palavras de Meyer-Clason,
o poeta queria dizer. Não uma interpretação. Não uma
“explicação”, dirá Wittgenstein, como já apontamos. Por que não
uma explicação? Porque não há explicação, transcrição do ser.
Isso não é possível. A obra de arte é o que é.
Não queremos dificultar ainda mais a apreensão dessas ideias.
Nossos três personagens, cada um ao seu modo, sabiam, no fundo,
que a compreensão de alguma coisa passa, naturalmente, pela
linguagem. Criaram, explanaram, comentaram sobre isso, e todos
eles alicerçados na e guindados pela linguagem. Mas sabiam que
o inefável os perscrutava. Como, então, expressá-lo?
Estamos diante da obra de Guimarães Rosa? Não, não estamos.
Perscrutamos o pensamento de Wittgenstein? Não, não o
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fazemos. Cuidamos do teor da correspondência Rosa/MeyerClason? Não. Registramos apenas um ponto que, segundo nosso
modo de ver, acolhe esses três nomes: a expressão do indizível. E
que é isto: o indizível? A música de Brahms, como queria
Wittgenstein? O feito flecha, feito faca, feito fogo, traduzido por wie der
Welle, wie der Wille, wie der Wind, como o quis Meyer-Clason?
Para Rosa, compreendê-lo, talvez. Mas há caminhos para
chegar a essa compreensão? Talvez não. A menos que os tenhamos
– a esses caminhos – dentro de nós. A rigor, só compreendemos
o que trazemos dentro de nós. A riqueza de um Guimarães Rosa
não está em um magote de palavras que “significam”. Não importa
o que significam, seja isso ou aquilo. Nem na melhor das traduções:
a melhor das traduções, por seu turno, é um novo objeto, que,
como tal, é também inabordável em sua essência. A riqueza de
um Guimarães Rosa está no indizível, apontado todo o tempo
em sua obra, ainda que se queira limitar essa obra ao grande
romance, ou a algumas estórias, ou a uma só dessas estórias. Ou a
umas poucas palavras, diríamos mesmo. Exemplos? Um:
Hei que ele é.
Sem quê nem pra quê, isto está ali, sozinho, num dos prefácios
de Tutaméia. Vem até registrado o “nome” de seu autor: Do
Irreplegível. Mais invenções de Rosa? Vai-se ao Aurélio, lá está:
“Irreplegível. 1. Que não se pode encher. 2. Que não pode encher-se ou
fartar-se; insaciável.”
Outro exemplo, em outro dos prefácios do mesmo Tutaméia:
Tudo é incauto e pseudo, as flores sou eu não meditando...
Um último exemplo:
Necessariamente, pois, as diferenças entre os homens são ainda outra
razão para que se aplique a suspensão de julgamento
– agora, em mais outro prefácio do mesmo Tutaméia, assinado
por Sextus Empiricus, personagem real. Feitas as contas, garantenos isso ter Rosa nas mãos? Um matiz sequer de Rosa? Mas se
exemplos como esses se estendem aos centos, aos centos dos
centos, indefinidamente...
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É isso o que nos dá a certeza de que, por mais que se fale de
um escritor como Guimarães Rosa, ainda é pouco. Alguns dentre
seus admiradores preferimos pequenas observações, nada (bem
longe disso) de interpretações e quejandos. E mesmo essas
pequenas observações, são apontadas como que envolvidas
por um certo carinho, esse gozo peculiar do leitor amorável e
desarmado. No caso de Rosa, compará-lo aos filósofos não
deve em nada parecer estranho. Rosa gostava dos filósofos.
Além do mais, filosofia e poesia são irmãs, se podemos insistir
na concepção de um poeta Rosa. A escolha de Wittgenstein
não carece maiores preocupações; Heidegger ou Cassirer
poderiam ser igualmente evocados. O importante, como
dissemos, é fixar a ideia da intraduzibilidade de nosso escritor
aos moldes discursivos. Não que toda essa nossa atividade de
explanadores seja vã. Nada é vão. Há caminhos que não
chegam a parte alguma. Mas por que mesmo teríamos que
chegar a alguma parte? Agora, se não quisermos ser tão
metafísicos, temos que nos voltar para o chão da vida: saber
ver tem importância. Saber ler Rosa é, um pouco, tocar essa
importância.
A resposta de Guimarães Rosa à carta de Meyer-Clason fala
da “sincera, copiosa alegria” que teve ao recebê-la. “Ela se fez
uma ‘radiografia’ perfeita da tradução, digo, do traduzir-datradução – como foi meditada, sopesada, planejada e realizada,
isto é, em seus rumos, meios, viver e intento. Fiquei comovido, e
encantado.”
Rosa percebeu, portanto, que estava em boas mãos.
Concordava com tudo que lhe apresentara o tradutor. Estava
correta sua orientação básica, assim como as “coordenadas de
linguagem e estilo entre as quais lúcida e licitamente se moveu.”
8
E acrescentou: “Enfim, sinto-me feliz, tranquilo e cheio de
certeza. Não tenho dúvida de que a tradução será a melhor, a
mais válida, a que virá prestigiar no mundo o Grande Sertão:
Veredas.”9
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NOTAS E REFERÊNCIAS
Christiane Chauviré. Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 1991, p. 75.
“A sabedoria é cinza. A vida, ao contrário, e a religião, são cheias de
cor” – assim se expressa Wittgenstein. A nota da tradutora é que
remete a Goethe.
2
João Guimarães Rosa. Correspondência com seu tradutor alemão Curt
Meyer-Clason (1958-1967). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
2003.
3
Apud. Bryan Magee. Confissões de um filósofo. São Paulo: Martins
Fontes, 2001, p. 127.
4
C. Chauviré. op. cit. p. 16.
5
Id. ibid.
6
Jean-Paul Sartre. Situações II. Lisboa: Publicações Europa-América,
1968, p. 67.
7
Apud C. Chauviré. op. cit. p. 71.
8
João Guimarães Rosa. op. cit. p. 163.
9
Id. ibid.
1
__________
Antonio Brasileiro é pintor, poeta, ensaísta, e editor; é Professor Pleno (titular)
da Universidade Estadual de Feira de Santana. Tem vários livros de poesia e
de ensaios publicados. Desde 2011 ocupa a Cadeira nº 21 da ALB.
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Descrença na palavra
Carlos Ribeiro
Há indícios consistentes de uma descrença cada dia maior na
literatura como instrumento de mudança política e social. Tal
fenômeno, apontado por diversos estudiosos contemporâneos,
nos leva a refletir sobre o papel do escritor, quando este já não se
vê na posição de consciência de uma nação ou coletividade, como
foram no passado, Victor Hugo, Emile Zola, Jean-Paul Sartre e
Thomas Mann.
As palavras, nessa perspectiva, seriam esvaziadas do seu poder
de contestação, pelo que se supõe ser um enfraquecimento do
lugar de autoridade do intelectual. Afinal, como disse o ensaísta e
professor da Universidade Nova de Lisboa, Eduardo Prado
Coelho, deve-se colocar, hoje, uma questão essencial: que
autoridade teria um escritor para se pronunciar sobre uma guerra
(referia-se à que era então movida contra o Iraque, pelo governo
de George W. Bush) “ou sobre a proibição voluntária da gravidez?
Que autoridade tem um pintor para contrariar a instalação de um
cassino no centro de Lisboa?”1
O ensaísta português lembra que “a distinção entre
trabalhadores intelectuais e trabalhadores manuais está hoje
bastante obsoleta”.
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Distantes, já, do paradigma estabelecido por Zola no caso
Dreyfus, “cena matricial da figura contemporânea do intelectual”,
a relação com o conhecimento teria passado por um processo de
dessacralização. E, mais do que isto, “a legitimação do saber se
desligou de uma perspectiva epistemológica e humanista para
passar a encontrar sua legitimidade última em valores de
performatividade que engrenam nas expectativas confusamente
entrevistas daquilo que mitificamos como o ‘mercado’”.2
Permanece, entretanto, a definição tradicional do intelectual
como aquele que tem a coragem de dizer “não”.
Os intelectuais que aceitam o existente tal como está podem,
como é óbvio, colocar-se na categoria de intelectuais. Mas a
tradição – precisamente aquilo que faz que os intelectuais
tradicionais sejam associados habitualmente à esquerda – é a
de que um intelectual se inscreve nesse processo da história
que tem a ver com a capacidade de negação.3
Tal posição torna-se problemática quando, “em determinadas
circunstâncias, a esquerda toma o poder e começa a exercer as
responsabilidades da governação”, como ocorreu no Brasil com
a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva e, mais recentemente, da
presidenta Dilma Roussef à presidência da República. É quando
se apresenta o seguinte dilema:
Ou o intelectual trai a sua missão de intelectual e passa a
ser um defensor do regime, na coerência própria de quem
sempre defendeu que esse regime existisse e não quer
contribuir para a sua queda; ou o intelectual trai aqueles
que eram seus companheiros na mesma luta e passa a ser
crítico dos aspectos mais negativos do governo que exerce
o poder.4
Vale ainda destacar um dos três fatores referidos por Eduardo
Prado Coelho que, sobretudo numa perspectiva mais europocêntrica,
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levam alguns a falar no “fim dos intelectuais”: a dificuldade do
intelectual “em apresentar-se como testemunha do universal,
responsável pelos valores fundamentais da humanidade”. O novo
papel do intelectual passa a ser o de tradutor; sua principal função
é a de estabelecer “pontes entre os diversos códigos por vezes
extremamente diferenciados”.5
Para Augusto Santos Silva, professor de Sociologia da
Universidade do Porto, embora “a figura moderna do ‘escritor’,
no sentido amplo da palavra, de saber enciclopédico, recorte
literário e intenção polêmica em torno de ideias gerais”, tenha
atravessado todo o século XX, era “inevitável que sofresse a erosão
correspondente, face à crescente especialização e
profissionalização das disciplinas de pesquisa e análise das
realidades sociais, chamassem-se elas sociologia, economia,
história, antropologia ou ciência política”.6
Nesse quadro, repleto de vazios e vacilações, torna-se
necessária, segundo Santos, a crítica cultural do mundo
contemporâneo: lugar crítico que não pode ser preenchido
(...) por nenhuma das estruturas de significação que a
comunicação e a cultura de massas foram construindo: nem
pela opinião pública, nem pela imprensa, nem pelo
imaginário. Se o deixarmos vazio, vazias ficarão as funções
políticas que só ele pode cumprir. E, para o mantermos
ativado, é preciso mobilizar os princípios de elaboração e
validação e as propostas interpretativas que, ao longo de
histórias sinuosas e complexas, mas actualizando sempre em
cada conjuntura o traço das conjunturas passadas – o campo
cultural – os campos ou mundos da cultura – foram
incessantemente construindo e reconstruindo. Ou seja, é
preciso ser e agir como intelectual, falando sobre, para e com
a sociedade, intervindo na esfera pública, no espaço da
cidadania, a partir, também, das posições e dos interesses
culturais.7
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Nessa perspectiva, ocorreria o que alguns autores caracterizam
como uma passagem: a do estatuto do intelectual-legislador da
modernidade para o intelectual-intérprete da pós-modernidade,
“chamando ao centro do trabalho intelectual o exercício da
comunicação e da ‘tradução’ entre diferentes quadros culturais e
simbólicos e o exercício da interpretação dos ‘textos’, palavras,
sons, movimentos e imagens, que informam a nossa
contemporaneidade”.8
A ênfase na perspectiva pós-moderna de interpretar com o
objetivo de criar pontes entre os diversos saberes, em lugar da
perspectiva revolucionária, marxista, de interpretar o mundo para
mudá-lo seria mais específica do intelectual universitário? Podese dizer o mesmo dos escritores para os quais os canais de
manifestação de sua voz parecem estar cada vez mais reduzidos?
Não seria este mais suscetível ao que Jean Franco chama de
esfacelamento da cidade letrada da qual, como diz Renato
Cordeiro Gomes, “restam ruínas, resíduos, fragmentos”? São
questões ainda não muito claras, mas que apontam para um
fenômeno recente: o do deslocamento da autoridade, antes
exercida pelo escritor engajado, per se, pela força da sua própria
palavra e do seu testemunho, para o âmbito da indústria cultural.
As consequências do esfacelamento da cidade letrada, diz
Renato, citando Ricardo Piglia, seriam a perda de ilusões por parte
dos intelectuais, tornando-se sensatos e conformistas; e a crise
do intelectual como porta-voz.
A figura dominante do especialista e do técnico, do jornalista
como ideólogo, deslocou por completo a tradição do poeta
como porta-voz da tribo. Esse papel, inscrito na cidade letrada,
relaciona-se ao fato de que a literatura fazia parte do espaço
público (ver, nesse sentido, as alianças e as diferenças dos
escritores com o Estado). E acrescenta: “Não sei se há de
lamentar, mas a sociedade apagou esse lugar, tirou a literatura
do meio, e substituiu-a pela televisão. Deslocou os lugares de
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enunciação da tradição intelectual e de seu pão intelectual e
de seus problemas para a cultura de massa”. [Piglia. Crítica y
ficción, p. 193].9
Num âmbito mais restrito, mas não pouco significativo, essa
autoridade migrou, nas últimas décadas, também para o âmbito
universitário, onde o teórico, leitor e intérprete privilegiado da
obra literária, mediado por títulos e pelas instituições, se impõe
sobre o criador. Este já não teria mais autoridade sequer sobre a
sua própria obra.
O PAPEL DO INTELECTUAL
O fato é que parece haver uma descrença generalizada, entre
os escritores contemporâneos, na ideia de que possa existir em
seus livros (e na sua autoridade, como escritores e cidadãos) o
poder de alterar qualquer coisa. O escritor parece não ser mais
visto como uma ameaça ao sistema e aos poderosos. Em vez de
queimar seus livros – como na novela Farenheit 465, de Ray
Bradbury – é mais fácil ignorá-los, deixando cair sobre eles o
manto da indiferença ou, simplesmente, deixando-os entregues à
lógica do mercado. Numa farsa democrática, a palavra não é mais
silenciada, mas negligenciada, ridicularizada ou soterrada por
outras palavras. Para Saul Bellow (1915-2005), o escritor e o poeta
são, hoje, motivo de desprezo pelos homens verdadeiramente
poderosos. Eles agem assim porque a literatura moderna não lhes
dá nenhuma prova de que alguém esteja pensando sobre qualquer
questão significativa.
Talvez haja um exagero nisto. Afinal de contas, alguns escritores
estão entre as vozes dissidentes dos intelectuais que se opõem ao
imperialismo e ao fundamentalismo, em todas as suas formas.
Nomes como os de Norman Mailer, Susan Sontag, Kurt
Vonnegut, José Saramago (já falecidos, mas cujas vozes ainda
repercutem), Phillip Roth, Gore Vidal, Eduardo Galeano,
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Pepetela, Umberto Eco, Tarik Ali, João Ubaldo Ribeiro, Affonso
Romano de Sant´Anna e Ferreira Gullar, entre outros, engrossam
o coro dos descontentes.
Mas a ideia de que um escritor possa interferir de forma decisiva
no curso dos acontecimentos históricos parece tornar-se cada
dia mais ilusória. Ao ampliar a noção de escritor para a do
intelectual, entretanto, surgem algumas indagações que têm se
mostrado de grande relevância no mundo contemporâneo: que
papel este desempenha ou deve desempenhar na chamada
modernidade tardia em que as identidades parecem ter entrado
em crise? Na qual as grandes narrativas entram em declínio, os
valores são dessacralizados e ocorre um questionamento da
própria noção de humanismo que, nos últimos séculos, serviu de
referência na civilização ocidental?
A questão de uma suposta crise de identidade no mundo
contemporâneo é colocada de forma até bastante didática por
Stuart Hall:
Para aquele/as teóricos/as que acreditam que as identidades
modernas estão entrando em colapso, o argumento se
desenvolve da seguinte forma. Um tipo diferente de mudança
estrutural está transformando as sociedades modernas no final
do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais
de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que,
no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como
indivíduos sociais. Estas transformações estão também
mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que
temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda
de um “sentido de si” estável é chamada, algumas vezes, de
deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar
no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui
uma “crise de identidade” para o indivíduo.10
Trazemos esta questão tendo em vista a perspectiva de que o
suposto esvaziamento da autoridade do intelectual é fruto de um
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longo processo. E que esse processo pode ter uma relação com o
deslocamento apontado por Hall das noções do sujeito. Ao sujeito
totalmente centrado, unificado, constante e “usualmente descrito
como masculino” do Iluminismo, segue-se, na modernidade, o
sujeito sociológico, que “ainda tem um núcleo ou essência interior
que é o ‘eu-real’”, mas que é “formado e modificado num diálogo
contínuo com os mundos culturais ‘exteriores’ e as identidades
que esses mundos fornecem”. A este, suceder-se-ia um dito sujeito
pós-moderno, carente de uma identidade fixa, essencial ou
permanente. “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’:
formada e transformada continuamente em relação às formas
pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas
culturais que nos rodeiam”.11
O estágio mais recente dessas transformações se daria na
chamada modernidade tardia e que seria resultado do impacto da
“globalização” sobre a identidade cultural. Sendo esta última uma
aceleração de um fenômeno já identificado por Karl Marx nas
sociedades capitalistas do final do século XIX: o da mudança
constante, rápida e permanente do/no mundo marcado pela
descontinuidade, pela fragmentação e pela ruptura. Mais do que
em qualquer outro período da história, o indivíduo é instado a
desempenhar uma grande diversidade e pluralidade de papéis,
não raras vezes contraditórios entre si.
Uma das principais “baixas” verificadas nesse processo de
“descentramento” seria, portanto, a do sujeito construído pelo
humanismo, guiado pela razão e por valores sólidos
profundamente impregnados por uma teleologia. Deslocado do
lugar central que ocupava em nossa civilização, identidades
mestras, marcadas pela autoridade, já não disporiam da energia
necessária para alinhar as demais identidades como resistência
ao processo desumanizante do mercado e da globalização.
Restaria, portanto, “o indivíduo isolado, exilado ou alienado,
colocado contra o pano-de-fundo da multidão ou da metrópole
anônima e impessoal”.12
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No livro Humanismo e crítica democrática, Edward W Said (19352003) relaciona alguns problemas que influíram no desgaste
sofrido pelo humanismo no mundo contemporâneo e “repúdios
da revolução anti-humanista das décadas de 1960 e 1970”. Um
deles seria
(...) uma conexão frequente, mas nem sempre admitida, entre
o humanismo como uma atitude ou prática associada amiúde
a elites muito seletivas, sejam religiosas, aristocráticas ou
educacionais, por um lado, e, por outro, associado a uma atitude
de oposição severa, ora declarada, ora não, à ideia de que o
humanismo teria a possibilidade e a capacidade de ser um
processo democrático, que produzisse uma mente crítica cada
vez mais livre. Em outras palavras, o humanismo é considerado
algo muito restrito e difícil, como um clube um tanto austero
com regras que excluem a maioria das pessoas, e, quando
algumas são admitidas, com um conjunto de regulamentos
proibindo qualquer coisa que poderia aumentar os membros
do clube, torná-lo um lugar menos restrito ou um local mais
agradável de frequentar.13
Outras questões, envolvendo relações entre o tradicional e o
canônico, a revitalização da linguagem, a complexa questão da
identidade nacional (que abordaremos adiante) e questões
relacionadas à presença histórica das humanidades, são abordadas
por Said para chegar ao foco principal da sua argumentação: o
questionamento da ideia de que o humanismo e a figura do
humanista já estariam superados. Ideia que, afirma ele, é
consequência de uma incompreensão do próprio significado do
humanismo.
O humanismo é o emprego das faculdades linguísticas de
um indivíduo para compreender, reinterpretar e lutar corpo
a corpo com os produtos da linguagem na história, em outras
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línguas e outras histórias. Na minha compreensão de sua
relevância atual, o humanismo não é um meio de consolidar
e afirmar o que “nós” sempre conhecemos e sentimos, mas
antes um meio de questionar, agitar e reformular muito do
que nos é apresentado como certezas transformadas em
produtos do mercado, empacotadas, incontroversas e
codificadas de modo acrítico, inclusive aquelas contidas nas
obras-primas agrupadas sob a rubrica de “os clássicos”. O
nosso mundo intelectual e cultural não é hoje uma coletânea
simples e evidente de discursos eruditos: é antes uma
discordância em ebulição de notações não resolvidas, para
usar a bela expressão de Raymond Williams para as
articulações interminavelmente ramificadas e elaboradas da
cultura.14
O ensaísta palestino enfatiza, entretanto, a necessidade de se
fazer uma revisão, reconsideração e revitalização das humanidades
e do humanismo, que “uma vez mumificados na tradição, deixam
de ser o que realmente são e tornam-se instrumentos de veneração
e repressão”.15
Essa revisão é fundamental para que o intelectual humanista
possa desempenhar o seu papel de resistência às “forças
desumanizadoras da globalização”. O humanista, diz ele, “deve
oferecer alternativas agora silenciadas ou indisponíveis pelos canais
de comunicação controlados por um pequeno número de
organizações de notícias”.16
Somos bombardeados por representações pré-fabricadas e
reificadas do mundo que usurpam a consciência e previnem
a crítica democrática, e é à derrubada e desmantelamento
desses objetos alienantes que, como disse corretamente C.
Wright Mills, o trabalho do humanista intelectual deve ser
dedicado.17
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Na luta contra o que chama de “má escrita”, a “informação
pré-fabricada que domina o nosso padrão de pensamento (a mídia,
a propaganda, as declarações oficiais e a argumentação políticoideológica destinada a persuadir ou propiciar a submissão, e não
a estimular o pensamento e envolver o intelecto)”, Said propõe
que “a reflexão humanista deve quebrar o domínio do formato
curto, da manchete, da informação fora do contexto, e tentar
induzir em seu lugar um processo mais longo e mais deliberado
de reflexão, pesquisa e argumentação inquiridora que realmente
considere o caso, ou os casos, em questão”.
Quando os humanistas recebem ordens ou repreensões para
voltar aos seus textos e deixar o mundo àqueles que têm a
tarefa de administrá-los, é salutar, até urgente, lembrar que a
nossa era e o nosso país não simbolizam apenas o que foi
estabelecido e aqui reside de forma permanente, mas também
sempre e constantemente a turbulência não documentada de
exilados, imigrantes não fixos e desabrigados, populações
itinerantes ou cativas para as quais ainda não existe nenhum
documento, nenhuma expressão adequada que dê conta do
que elas passam. E, na sua energia profundamente instável,
este país merece o tipo de consciência ampliadora que vai além
da especialização acadêmica e que toda uma gama de
humanistas mais jovens tem assinalado como cosmopolita,
mundana, móvel.18
A grande função do intelectual humanista passa a ser, não
mais a de um tribuno, mas de um intérprete, de um decodificador
da história humana, entendida por Nietzsche como um “exército
móvel de metáforas e metonímias”. Tal leitura filológica, diz Said,
é ativa, e “implica adentrar no processo da linguagem já em
funcionamento nas palavras e fazer com que revele o que pode
estar oculto, incompleto, mascarado ou distorcido em qualquer
texto que possamos ter diante de nós”.19
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Diante de todos os grandes problemas, como as guerras, a
opressão e a negação dos direitos fundamentais de grandes
segmentos da humanidade, é preciso dar nome e voz ao anônimo,
ao impessoal, pois é sempre mais difícil aceitar a morte de uma
pessoa quando ela tem uma humanidade reconhecível. O
humanismo tem, portanto, a função primordial de
(...) desenterrar os silêncios, o mundo da memória, de grupos
itinerantes que mal sobrevivem, os lugares de exclusão e
invisibilidade, o tipo de testemunho que não chega às
reportagens, mas que cada vez mais questiona se um meio
ambiente exageradamente explorado, pequenas economias
sustentáveis e pequenas nações, além de povos marginalizados
tanto fora como dentro da goela do centro metropolitano,
podem sobreviver à trituração, ao achatamento e ao
deslocamento que são características tão proeminentes da
globalização.20
São incontáveis os silêncios a serem desenterrados, e parece contar
muito pouco o que vem à tona, em reportagens menos
superficiais que a simples exposição de dados e fatos. Aos
poucos, torna-se animador o fato de que há hoje, apesar da
grande massa de excluídos, uma democratização maior dos
meios de comunicação, a exemplo das câmaras filmadoras
incorporadas aos aparelhos celulares cujas imagens podem ser,
muito mais do que no passado recente, disseminadas pela
internet e pelos próprios meios de comunicação mais
tradicionais. Há, decerto, no fluxo ininterrupto de imagens e
palavras que parecem inundar o mundo real, e ser cada dia menor
a necessidade de um médium, no sentido etimológico do termo:
ou seja, de alguém que dê voz a quem não a tem. O que não
significa que esses mediadores não tenham ainda um grande
valor e uma extrema necessidade.
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NOTAS
COELHO, Eduardo Prado. “Novas configurações da função
intelectual”. In: MARGATO, Izabel e GOMES, Renato Cordeiro
(Org.). O papel do intelectual hoje. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.
2
Op. cit. p. 18.
3
Op. cit. pp. 16-17.
4
Op. cit. p. 17.
5
Op. cit. p. 21.
6
SILVA, Augusto Santos. “Podemos dispensar os intelectuais?”. In:
MARGATO, Izabel e GOMES,
Renato Cordeiro. O papel do intelectual hoje (Org.). Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2004.. p. 49.
7
Op. cit. pp. 50-51.
8
Op. cit. p. 58.
9
GOMES, Renato Cordeiro. “O intelectual e a cidade das letras?”. In:
MARGATO, Izabel e GOMES, Renato Cordeiro. O papel do intelectual
hoje. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.. p. 122.
10
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro:
DP&A Editora, 2005. pp. 8-9.
11
Op. cit. pp. 12-13.
12
Op. cit. p. 32.
13
SAID. Edward W. Op. cit. p. 35.
14
Op. cit. pp. 48-49.
15
Op. cit. p. 53.
16
Op. cit. p. 95.
17
Op. cit. p. 95.
18
Op. cit. p. 106.
19
Op. cit. p. 82.
20
Op. cit. p. 107.
1
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REFERÊNCIAS
COELHO, Eduardo Prado. “Novas configurações da função
intelectual”. In: MARGATO, Izabel e GOMES, Renato Cordeiro
(Org.). O papel do intelectual hoje. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro:
DP&A Editora, 2005.
GOMES, Renato Cordeiro. “O intelectual e a cidade das letras?”.
In: MARGATO, Izabel e GOMES, Renato Cordeiro. O papel do
intelectual hoje. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.
SAID, Edward W. Humanismo e crítica democrática. São Paulo: Cia
das Letras, 2007.
SILVA, Augusto Santos. “Podemos dispensar os intelectuais?”.
In: MARGATO, Izabel e GOMES, Renato Cordeiro. O papel do
intelectual hoje (Org.). Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.
Carlos Ribeiro é jornalista, ensaísta e escritor; é professor de Jornalismo da
Universidade Federal do Recôncavo Baiano, em Cachoeira-BA; tem diversos
artigos e nove livros publicados, dentre os quais Lunaris (romance, 2007) e
Contos de sexta-feira (2010). Desde 2007 ocupa a Cadeira nº 5 da ALB.
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Mato virgem :
um príncipe austríaco em visita a Ilhéus,
em 1860
Celina Scheinowitz
Tarefa empolgante, para Moema Parente Augel, acercar-se de
Mato virgem (1864), de Maximiliano de Habsburgo, a fim de vertêlo do alemão para o português. Ela o faz com competência, talento
e paixão, no livro publicado em Ilhéus, pela Editus, editora da
Universidade Estadual de Santa Cruz, em 2010. Acrescenta uma
introdução e notas ao texto do arquiduque austríaco e infeliz
imperador do México, que relata sua viagem a Ilhéus e arredores
em 1860. Juntam-se ainda ao volume Anexos de grande importância
para o conhecimento do contexto em que se insere a obra.
Nascida em Ilhéus, Moema P. Augel tem o alemão como
segunda língua, vez que está radicada desde seu casamento, em
1965, na Alemanha; ademais, um de seus centros de interesse
como pesquisadora se volta para os viajantes estrangeiros que
visitaram a Bahia no século XIX. Daí navegar com extrema
desenvoltura pelo tema modulado em Mato virgem, aliando
erudição e conhecimento histórico na interface em que se situa
sua investigação; sem que a ternura que nutre pelo personagem
histórico obscureça sua análise, tendo ressaltado com firmeza e
imparcialidade a “ferina ironia” do autor austríaco, que não poupa
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“sarcasmo nem mesmo desprezo pelo pouco desenvolvimento
que viu no país” (p. 33).
O livro publicado pela Editus, além da bela edição em um
volume, também foi impresso em edição de luxo de três volumes,
objetivando homenagear comme il faut a vinda à terra ilheense do
ilustre visitante, irmão do imperador Francisco José da Áustria;
esposo da princesa Charlotte, filha do Rei dos belgas Leopoldo I,
da linhagem de Saxe-Cobourg-Gotha; primo afim da rainha
Victoria da Inglaterra (sobrinha de Leopoldo I) e também primo
do imperador brasileiro D. Pedro II, da dinastia de Bragança (filho
de D. Leopoldina, princesa da casa austríaca de Habsburgo).
Mato virgem, cujo título vem grafado em português no texto
original alemão, não integra os seis volumes de Reise Skizzen
(“Esboços de viagem”), publicados em Viena de 1854 a 1861, só
vindo a lume em 1864 e perfaz o sétimo tomo da edição global
dos “Esboços de viagem” de Leipzig de 1867, Reiseskizzen (em
um só vocábulo, desta vez).
Mato virgem, nesta versão em português, compõe-se de cinco
capítulos, a saber, “São Jorge dos Ilhéus, 15 de janeiro de 1860”
(p. 59-68); “Fazenda da Vitória, 16 de janeiro de 1860” (p. 69155); “No Mato virgem, 17 de janeiro de 1860” (p. 156-199);
“No Mato virgem, 18 de janeiro de 1860” (p. 200-217) e “Na
colônia alemã em Cachoeira, 19 de janeiro de 1860” (p. 218-220).
Precede a estes textos a Introdução (p. 25-56) e seguem-lhes os
Anexos A, “Reconstituição da viagem de Maximiliano de
Habsburgo ao Brasil [...]” (p. 223-253); B, “Carta de Maximiliano
de Habsburgo ao imperador Francisco José” (p. 255-277); C,
“Poemas” (p. 279-351); D, “Obras de Maximiliano de Habsburgo,
depois Maximiliano I, Imperador do México, em ordem
cronológica” (p. 353-358) e E, “Roteiro da viagem de Maximiliano
de Habsburgo ao Brasil” (p. 361-364). O livro apresenta ainda
dois textos introdutórios, “Algumas palavras”, assinado por Soane
Nazaré de Andrade, professor Titular da UESC e o “Prefácio”,
de Consuelo Pondé de Sena, presidente do Instituto Geográfico
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e Histórico da Bahia, o primeiro datado de 29 de junho e o
segundo de agosto de 2008.
O texto de Mato virgem interrompe-se no dia 19 de janeiro, em
um momento em que os membros da expedição estão
decepcionados porque, ao despertarem, após uma noite em plena
floresta, descobrem os rastros de duas antas, mas não conseguem
delas se aproximar. As anotações do príncipe nos Cadernos 1 e 2
e em sua Caderneta de campo (Anexo A, p. 223-253) permitem
que se perceba sua intenção em desenvolver a narração de sua
viagem até o dia 16 de fevereiro, data em que se despede da
América e o vapor Elisabeth deixa Pernambuco e o Brasil,
rumando em direção de Cabo Verde.
Considerando as características da escrita de Mato virgem,
movida pela emoção e pelo subjetivismo do autor, que o levam a
colocar-se no centro dos acontecimentos e da observação, bem
como sua fascinação pelo espetáculo da natureza, Moema P. Augel
filia a obra ao Romantismo.
Moema vê Maximiliano profundamente marcado pelo ideário
de Alexander von Humboldt; como o cientista prussiano, ela o
vê arrebatado pela luxuriante natureza tropical e empenhado em
construir uma obra em que informações objetivas da ciência se
aliem a impressões pessoais face ao espetáculo da natureza
brasileira, em especial sua flora e fauna.
Apaixonado pela zoologia e sobretudo pela botânica,
Maximiliano, em sua visita a Ilhéus, realizava seu sonho
romântico de penetrar na floresta virgem, tendo trazido, em
sua comitiva, cientistas consagrados, como o médico Heinrich
Wawra e o botânico Franz Maly, bem como artistas, como o
pintor Joseph Selleny. O material recolhido nas andanças,
encaminhado a Viena, foi examinado e classificado por
estudiosos, especialmente por Heinrich Schott, diretor dos
jardins imperiais.
Embora seduzida pela personalidade do príncipe, a
comentarista, em sua Introdução, analisa o olhar etnocêntrico,
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estereotipado, reducionista e às vezes preconceituoso, do príncipe.
Moema P. Augel, como tradutora, assume a posição honesta de
não amenizar certas expressões que poderiam chocar o leitor,
como quando ele considera os selvagens puro-sangue, ou quando
se refere às bocarras das negras ou aos horríveis mulatos que
encontrou em terras baianas. Os princípios que nortearam a
tradução estão explicitados, tendo-lhe servido de base a edição
original de 1864, em função dos cortes e supressões da edição
póstuma de 1867, que foi descartada, a tradutora havendo assinalado
no rodapé esses desvios. Assinala, igualmente, os casos em que os
nomes próprios são substituídos pela inicial com asterisco, retifica
a grafia dos topônimos e de outras palavras e grafa em cursiva
sempre que o autor utiliza palavras ou expressões em português.
Enfim, altera ocasionalmente a pontuação e às vezes abre
parágrafos, objetivando oferecer maior clareza na leitura.
Os anexos propiciam esclarecimentos para uma melhor
compreensão de Mato virgem. A edição que ora comentamos amplia
seu interesse com a apresentação, no Anexo C, de vinte poemas,
escolhidos entre centenas que o arquiduque compôs. Nessa
seleção, levou-se em conta o conteúdo das composições, havendo
sido selecionados poemas que se relacionam com momentos
presentes no relato da viagem ou com registros que ocorrem na
carta ao imperador Francisco José. Embora, no original, os versos
de Maximiliano sejam rimados e escritos dentro de esquemas rítmicos
próprios da poesia lírica, a tradutora optou por uma tradução em
versos livres, buscando, o mais possível, a fidelidade ao texto. Os
poemas apresentados agrupam-se em torno de alguns centros, a terra
natal e o desejo de viagem; a estada em Salvador; o mato virgem; a
estada no Rio de Janeiro; o retorno à pátria, além de “Dístico”, onde
o autor caçoa do país que visita, em que “a Liberdade e a Constituição
gargarejam goela abaixo”, mas “onde se compram escravos,
acrediteis” e “Liberdade é só caçoada” (p. 348).
Moema adiciona, ainda, ao florilégio que montou neste anexo,
o poema “Suadades” (sic) que, apesar de fugir à temática do
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conjunto, evoca, em seus dois quartetos, a amada Maria Amélia
de Bragança, filha de D. Pedro I e de Amélia de Leuchtenberg,
que Maximiliano conhecera em Portugal, em 1852, e por quem
se apaixonara. Alguns meses após o encontro dos dois príncipes,
a jovem falece de tuberculose: “O botão que no Tejo vi brilhar. /
/ Tornou-se rosa para fenecer”, lembra o poeta, deixando “Um
tremor de saudade, triste e melancólica” a invadir seu “ferido
coração” (p. 345). Um elo sutil entre o arquiduque e o Brasil, que
Moema P. Augel destaca, em filigrana.
Ao concluir a leitura do livro Mato virgem, publicado em 2010,
pela Editus, o leitor deslumbra-se com a riqueza de seu
conteúdo; por outro lado, fica surpreso ao avaliar que esse
tesouro de nossa cultura per maneceu releg ado ao
esquecimento durante quase um século e meio. Com efeito, é
a primeira vez que está sendo difundido em português, para o
público brasileiro, o texto do arquiduque, vindo à luz em Viena,
em 1865, segundo afirmamos anteriormente. A importância
histórica e científica da obra é inconteste. Flagram-se nela
aspectos significativos, ligados aos costumes e ao meio
ambiente, bem como relativos ao contacto entre os diferentes
segmentos da população, os brasileiros, os índios (Kamakã e
Pataxó), os escravos e os colonos estrangeiros. Em especial, a
população grapiúna ficará provavelmente satisfeita, talvez até
emocionada, em encontrar no livro alusões aos emigrantes
germânicos, em alguns casos seus ancestrais. Maximiliano de
Habsburgo dá relevo em seu relato a Heinrich Berbert, que
denomina, com admiração, o Rei da Floresta, pelo domínio e
sintonia que este demonstrava na plenitude da natureza
selvagem, grande caçador que era; a Ferdinand von SteigerMUnssingen, em cuja casa rural da Fazenda Vitória ficou
hospedado; ao Barão Paravicini, casado com uma francesa; a
Pedro Koch, administrador da fazenda de Steiger e ainda a
Lohmann, cônsul da Áustria na Bahia e rico comerciante,
nascido em Hamburgo e com a idade de apenas 29 anos.
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Para arrematar nossos comentários, apontamos para a vertente
que nos parece a mais resplandecente no livro Mato virgem: a
exuberância de informações relativas à vegetação encontrada na
floresta e aos animais silvestres. Encontrá-los e admirá-los era a
meta do arquiduque. A leitura de seu texto torna-se ainda mais
fascinante, com as indicações de rodapé que as completam,
fornecidas por Moema P. Augel.
Celina Scheinowitz é Doutora em Letras e Ciências Humanas (Université de
Paris IV,Paris-Sorbonne ), com pós-doutorado pela École des Hautes Études
(França); é professora aposentada da Universidade Federal da Bahia e da
Universidade Estadual de Feira de Santana; tem diversos artigos e livros
publicados no Brasil, na França e em outros países.
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Destino, ação e sabedoria
na literatura oral do sertão
Antonio Sá da Silva
1 A INTRODUÇÃO
“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não
sabia ler nem escrever”1. Essas foram as palavras introdutórias
do discurso proferido pelo Nobel de literatura de 1998, o escritor
português José Saramago, cujo feito mais memorável – ao que
me parece – não foi o de restaurar o prestígio da Língua
Portuguesa no mundo, mas o de fazer “ver” as diferentes vozes
que ela possui e as diferentes formas por meio das quais ela pode
ser expressa.
A frase de Saramago é responsável pelo meu atrevimento ao
aceitar o generoso convite do Prof. Edivaldo Boaventura para
lhes falar nesta tarde. Isso porque a importância que o poeta luso
atribuía ao seu avô em sua formação literária me confortava, afinal,
nesta decisão de ocupar os vossos ouvidos com o tema Destino,
ação e sabedoria na literatura oral do sertão. É que, se por um lado o
tema pressupõe que a oralidade é capaz de instituir um verdadeiro
modelo de literatura, por outro, ele também identifica certa
sabedoria e certa visão de mundo. E, desse modo, a minha
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pretensão aqui – e talvez não passe de uma simples pretensão! –
é fazer um ligeiro mergulho em uma comunidade específica de
narradores que, por meio da oralidade, testemunha uma
experiência civilizacional também muito delimitada: a do sertão
brasileiro.
Com efeito, se atentarmos para as lições de Walter Benjamim,
haveremos de reconhecer que os narradores dos quais falo e dos
quais muitos já falaram talvez façam parte de uma experiência do
passado, mas nem por isso menos importantes para a
compreensão da comunidade ética em que vivemos e da
complexidade de nossas vidas. É que para o autor alemão o
narrador – o autêntico narrador – é o depositário e o transmissor
daquela experiência comunitária que anda de boca em boca2. É
ele aquela figura pública, hoje em extinção, cuja morte encontra
seu primeiro indício no surgimento do romance – por causa do
seu isolamento e da consequente perda da experiência3 – e se
aprofunda com o surgimento da informação, uma vez que esta
substituiu o fantástico e o distante pelo realístico e pelo imediato.
O narrador é sempre quem sabe dar conselhos ao ouvinte, e o
conselho é cingido pela substância da vida vivida; é sabedoria
que se tornou antiquada no nosso tempo. Assim é que, pelas
mãos de Luís da Câmara Cascudo, Sílvio Romero, Juvenal Galeno,
Leonardo Mota etc., os trabalhos de recolha e sistematização deste
acervo literário tão expressivo da nossa brasilidade advertem para
aquilo que disse Câmara Cascudo no prefácio de seu Contos
Tradicionais do Brasil: ao lado do pensamento intelectual letrado,
correm as águas paralelas e solitárias da memória e da imaginação
popular, mas tão poderosas como as outras na arte de contar
vivamente a história, a etnografia, as ideias, os julgamentos e as
decisões de um povo4.
Assim sendo, não pretendo de modo algum dar conta da
imensidão de questões suscitadas pelo referido tema, uma vez
que são, muitas vezes, controvertidas, algo que uma simples
intervenção de um neófito jamais poderia esgotá-las. Isto me
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obriga, certamente, a invocar aquela humildade cultural e humana
que Riobaldo, a personagem ilustre do Grande sertão: veredas por
meio da qual Guimarães Rosa me aproxima de uma interpretação
muito autêntica do mundo, também invoca em seu favor perante
aquele que pacientemente lhe escuta: “Eu sei que isto que estou
dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai avante.
Invejo é a instrução que o senhor tem”5. Assim, o que o jagunço
Riobaldo quer mesmo é decifrar as coisas que são importantes, e,
nesta empreitada, qualquer sabença – no dizer de Patativa do
Assaré6 – apresenta um valor intrínseco, o que me permite falar
desta linguagem como uma partilha e como uma forma de vida.
Desse modo, no item dois desta apresentação, tecerei comentários
sobre a concepção trágica da vida que permeia o imaginário
narrativo dos poetas da oralidade sertaneja, para depois, no item
três, abordar as consequências diretas que essa imaginação exerce
na visão da praxis encontrada nas narrativas daqueles poetas.
2 A MORTE DE JOÃO MAJOR E A LIÇÃO
DE DONA INÁCIA
“Quando João Major morreu no chifre de um cuiabano/A
viúva Dona Inácia ajoelhou no chão chorando/Nesta lida tão
infame tenho um filho inclinando/
Mas nem Deus que é poderoso há de cortar os meus
plano/O dinheiro compra tudo/Ele há de ter estudo/Pra ser
Seu doutor fulano/. Pra não contrariar sua mãe com bem dor
de coração/O rapaz tirou a espora e pendurou lá no galpão/
Meu filho na sociedade terá boa educação/Não lhe faltará
dinheiro pra cumprir sua missão/Seja tarde ou seja cedo/Terá
um anel no dedo/Invêis de um laço na mão/ Depois que o
moço foi embora/Seis anos tinha passado/Os fazendeiros
vizinhos viviam tudo alarmado/Um bando de desordeiro vinha
ali pra roubar gado/Atravessavam o rio pra vender no outro
Estado/Igual a palma da mão/Esse bando de ladrão/Conhecia
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aqueles lado/. Com mais de cem peão armado a polícia reuniu/
E fizeram uma tocaia na outra banda do rio/O cerco foi tão
perfeito nem um bandido fugiu/Dona Inácia com a notícia
de satisfação sorriu/Tomara que o delegado/Surre de laço
dobrado/Esse bando de vadio./ Nisso bate à sua porta todo
afobado um peão/O doutor diz pra senhora ir prestar
declaração/A viúva nem por sonho desconfiou da situação/
Mas chegando na cadeia deu um grito de aflição/É que seu
filho adorado/Lá estava encarcerado/Da quadrilha era o
chefão./ Dava pena a gente ver aquele tão triste quadro/A
viúva entre as grade abraçando o filho amado/Aconteça o
que acontecer estarei sempre a seu lado/Tanto dinheiro gastei
pra te fazer um homem honrado/Meu orgulho Deus quebrou/
Invêis de um filho doutor/Formei um ladrão de gado”7.
Esse clássico sertanejo, gravado pela dupla Liu e Léu e
intitulado Ladrão de gado, foi composta por Nelson Gomes e Teddy
Vieira na década de 50 e expressa uma concepção trágica da vida,
algo muito comum entre os violeiros do sertão. Com efeito, D.
Inácia não desejava para o seu filho a mesma sorte do pai, qual
seja, levar uma vida inteira de excelência na arte de dominar o
boi e, em um minuto apenas, despedir-se anonimamente dela
como um qualquer. Mas a sua jura não passou de uma pretensão
inútil, e o seu “orgulho” foi inexoravelmente destruído. Pode-se
assim dizer que do mesmo modo como Homero retrata o castigo
de Ulisses – o de andar errante pelos mares por causa dos
desaforos disparados contra Poseidon8 –, os autores falam do
castigo que D. Inácia terminou pagando, isto é, as duras penas
por ter desafiado o destino do seu filho; ele, de fato, não seguiu a
profissão do pai, mas também não foi doutor como ela queria:
foi, sim, um ladrão de gado! Se é bem verdade que se trata de
culturas muito distintas, isso não desmente o fato de que os dois
imaginários narrativos partilham dos mesmos pressupostos de
que “o homem não é a medida de todas as coisas”, ou como
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disse Riobaldo, a vida humana parece mais um relato sem pé e
nem cabeça, uma peça que já está escrita no livro da vida quando
nós nascemos e que teremos de representar. E sem possibilidade,
é claro, de escolhermos o nosso papel9!
É verdade, como Werner Jaeger nos diz, que não existe
propriamente um conceito universal de tragédia, contudo é
possível reconhecer alguns traços fundamentais que o autor
alemão observa no teatro clássico: “A representação clara e vívida
do sofrimento nos êxtases do coro, expressos por meio do canto
e da dança, e que, pela introdução de vários locutores, se convertia
na representação integral de um destino humano, encarnava do
modo mais vivo o problema religioso há muito candente, do
mistério da dor enviada pelos deuses à vida dos homens”10. O
próprio Aristóteles, em seu conceito de tragédia, descrevia-a como
sendo uma imitação das ações humanas, cuja origem na boa e na
má fortuna das pessoas suscitam o terror e a piedade no auditório,
alcançando com isso a purificação das nossas emoções (katharsis)11.
Isso é o que se pode ver representado por Ésquilo com a
personagem Orestes, inteiramente subjugado ao arbítrio do
destino, tendo inexoravelmente de matar a própria mãe para vingar
a morte do pai: “Não, não me vai trair o poderoso oráculo de
Lóxias, que me ordena que corra este risco, eleva sem cessar a
sua voz e me anuncia desastres capazes de me fazer gelar o sangue,
se eu não perseguir os responsáveis pela morte de meu pai,
tratando-os como eles o trataram, matando quem matou,
vingando, com a fúria de um touro, a perda dos nossos bens.
Caso contrário, pagarei com a própria vida no meio de múltiplas
e cruciantes dores”12.
A iniciativa de ludibriar a sorte resultou em profunda desgraça
a ser suportada por D. Inácia na medida em que assiste de pé, no
teatro da vida, ao desenvolvimento de outra excelência do seu
filho: a de chefiar o bando em razão de conhecer, como nenhum
dos outros, as peculiaridades regionais da sua terra. Esse mesmo
atrevimento o fazendeiro Jeremias teve, de acordo com aquilo
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que o Trio Parada Dura diz na sua música Boi tufão, tendo que
aprender com o próprio filho – isso para mais uma vez fazer valer
a lição do poeta que Machado de Assis toma para si, a de que o
menino é o pai do homem13 – que diante do destino só há o que se
conformar: “Papai, preste atenção/Eu vou pra junto de Deus/Me
tenha no coração/Meu destino era morrer/Nos chifres do boi
tufão”14. De fato, a cigana Maria, a pedido do próprio Jeremias, leu
a sorte do seu filho e a revelou, porém o fazendeiro ordenou ao
seu empregado para matar o boi logo em seguida; comeram-no, e
a cabeça do animal ficou rolando pelo quintal até cair no
esquecimento; mas o dia fatídico chegaria, e chegou quando o
menino, correndo para atender o chamado da mãe para almoçar,
caiu em cima do chifre como já lhe era prometido. E por ali ser
sertão bravio, como diz o compositor, o médico não pôde atender
às últimas investidas de Jeremias contra o destino de seu filho.
Assim, o testemunho dos eventos anteriores representa para
as suas personagens um modo próprio de pensar a vida, não como
um cosmos ou como uma ordenação do mundo ao modo dos
pré-socráticos; não como um logos universal à maneira dos estóicos;
não como uma ordem divina ao modo dos doutores da Igreja e,
muito menos, como uma ordem científico-racional tão ao gosto
dos pensadores modernos. Essa forma peculiar de enxergar o
nosso lugar do mundo apresenta os seus testemunhos em
diferentes formas de expressão literária. Parece-me exemplificativo
o exemplo do já referido João Guimarães Rosa que, mesmo de
modo indireto – a personagem Riobaldo, embora seja uma criação
literária, incorpora de modo muitíssimo autêntico a figura do
narrador sertanejo –, testemunha essa compreensão trágica da
vida que sobrevive com muita intensidade no nosso sertão. Mas
se quisermos um testemunho direto e igualmente exemplar,
podemos encontrá-lo em Patativa do Assaré, o poeta da roça, o
qual já tendo sido referido como “Hesíodo do sertão”15, expressa
de modo insofismável e autêntico essa visão sertaneja do teatro
das nossas vidas.
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Com efeito, naquele cordel intitulado Diabo a cete (sic) e
produzido pelo Memorial de Patativa em seu projeto de
documentação da poesia de Patativa, pode-se ver que o poeta
cearense dá ao destino aquela mesma configuração encontrada
na confissão-relato de Riobaldo: “Ninguém zombe da verdade/
Daquilo que não conhece/Azá e felicidade/Na nossa vida
acontece/O veio João Lafaéte/Falava do diabo a cete/E eu fazia
mangação/Poristo um grande aperreio/Cronta mim um dia veio/
Botá mesmo com a mão”16. Não é muito diferente com a
personagem Riobaldo, para quem o mundo, pela própria natureza,
é todo doido: gente nascendo, crescendo, casando, querendo
emprego, saúde, riqueza, prestígio etc. Para ele, todo esse remexer
tem um nome: o Diabo, cujas insondáveis maquinações fazem
do mundo uma doideira só17. Mas se quisermos remontar às
origens literárias dessa forma de compreender o mundo, pode-se
dizer que as Moiras – aquelas fiandeiras lúgubres que trabalham
incansavelmente todos os dias e horas do ano – tecem e cortam
nossa boa ou má fortuna logo que nascemos. E disso nos mostra,
pelo testemunho narrativo de Nelson Gomes e Teddy Vieira,
que a ação transgressora de D. Inácia foi demasiadamente
temerária para ser admitida como modelo de conduta no universo
cultural do sertão. Isso tudo exige, portanto, as considerações
seguintes sobre a ação preferível ou sábia acerca das peculiaridades
do sertão.
3 O SERTÃO É TRAIÇOEIRO MAS O SERTANEJO
É UM FORTE
O problema do acaso em nossas vidas foi objeto de muitas
especulações em toda a história da filosofia, encontrando em
Aristóteles uma tentativa de conceituação a ser observada neste
trabalho: ele é um fato cuja causa é indeterminada, que nunca
ocorre em vista de um fim, diferentemente da natureza, que é
um fato de causa interna e regular18. A boa ou má fortuna resulta
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da aquisição de bens para a qual não há uma explicação coerente:
qual explicação lógica – pergunta o Estagirita – para o fato de
um guerreiro e não outro estar no alvo de uma flecha lançada em
uma guerra, ou para o fato de uma pessoa que sempre foi a um
determinado lugar ali não comparecer exatamente no dia em que
outro que nunca tinha ido, ali comparecer e lá encontrar a morte19?
Se digo isso, é porque a poesia oral do sertão não testemunha
apenas da desgraça como apressadamente se poderia concluir,
não proclama a uma pura resignação perante o acaso de nossas
vidas. Esse testemunho, via de regra, aparece acompanhado de
reflexões sobre aquilo que é permitido ou não fazer diante dessas
incertezas do mundo. Os nossos narradores se ocupam em
denunciar também a indiferença da pessoa face à desgraça que
pode se abater em nossas vidas.
Quando Paulinho Retratista voltou de férias, ele se interessou
muito por uma das fotos reveladas pelo empregado no período
em que esteve ausente. Apaixonou-se forte e imediatamente pela
moça, não pensando e nem fazendo mais nada na vida a não ser
pensar no dia em que ela regressasse ao seu estúdio. Ocorre que,
um dia, para a desilusão de Paulinho, ao invés da moça, veio uma
senhora para buscar a foto, e ele, desesperado, perguntou logo o
porquê de a moça não ter ido e tê-la mandado resgatar a foto. A
resposta diz por si só e, de modo muito comovente, explica a
razão do desespero de Paulinho diante do acontecido: “Não fique
triste rapaz/ O destino é mesmo ingrato/ No tempo da
mocidade/Eu fui bonita de fato/Há muitos anos guardei/Esse
negativo intato/Por incrível que pareça/Sou a moça do retrato”20.
Assim é que a música A moça do retrato, gravada por Zé Tapera e
Teodoro, conta o causo de um rapaz que perdeu a consciência da
história e do tempo, duas realidades que marcham sobre nós
quando não aprendemos a lidar com elas.
A música denuncia a resignação e o conformismo perante os
acontecimentos. Ela manifesta outra face do sertanejo que os
poetas não se cansam de representar: uma gente de ação. Assim
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é que Euclides da Cunha iria reconhecer que o sertanejo acima
de tudo é um forte, embora suas aparências possam sugerir o
contrário21. Como diria Riobaldo22, dado que o sertão não chama
ninguém às claras, ao contrário se esconde e acena, de repente
ele se estremece debaixo dos nossos pés, e é preciso dominá-lo
antes que ele nos domine23. Essa traição perpetrada pela natureza
contra o sertanejo, pelo que se depreende dos textos poéticos,
tem um modo próprio de ser enfrentada, e, como o próprio
Riobaldo iria dizer, quem a enfrenta não pode nunca pretender
ser o dono do sertão; ao contrário, deve apenas ir compondo
com ele como quem vai lhe obedecendo24. É que o sertão é
insondável e extenso, não adiantando querer dele fugir: do sertão,
somente se consegue sair entrando por ele adentro25.
Fica dito assim que há uma sabedoria própria para superar
os contratempos do sertão; daí que sou levado a crer que o
conceito de vida boa dos poetas da oralidade sertaneja é
indissociável de um conceito de virtudes, o qual se manifesta
por meio de um continuum prático que integra o sertanejo no
meio que ele vive. Desse modo, razão, fé, justiça e moralidade
apresentam-se, muitas vezes, sem uma fronteira muito definida
ou que separe cada um dos campos da ação proposta. Essa é
uma sabedoria ao modo de uma prudência como Aristóteles
bem o mostrou no Livro VI da sua Ética a Nicômaco: um saber
não do geral e do abstrato, mas um saber particular que
possibilita ao phronimos decidir corretamente sobre como fazer
alguma coisa da melhor forma possível, usando os recursos que
dispõe em uma situação concreta em que está vivendo26. “Quem
mói no aspr’ro, não fantasêia”27, disse-o bem Riobaldo sobre a
diferença entre o que ele queria e o que ele realmente podia
fazer ao marchar sobre o sertão. Essa é a sabedoria que o chefe
da comitiva, naquela história narrada na canção caipira Travessia
do Araguaia, expressa ao mandar o ponteiro empurrar na água
um boi velho para iludir as piranhas enquanto o restante da boiada
e os peões atravessavam28.
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Mas quero insistir nesse saber complexo e nessa ação que não
estabelece qualquer fronteira entre os discursos da praxis, e o faço
tomando como exemplo mais uma narrativa sertaneja intitulada
Boiadeiro punho de aço:
“Me criei em Araçatuba/Laçando potro e dando repasso/
Meu velho pai pra lidar com boi/Desde pequeno guiou meus
passo/
Meu filho o mundo é uma estrada/Cheia de atalho e tanto
embaraço/
Mas se você for bom no cipó/Na vida nunca terás fracasso/.
Com vinte anos parti/Foi na comitiva de um tal Inácio/Senti
o nó me apertar à garganta/ quando meu pai me deu um
abraço/Meu filho Deus lhe acompanhe/São esse os voto que
eu lhe faço/E como prêmio do teu talento/Lhe presenteio
com esse meu laço/. Por este Brasil afora/ Fiz como faz as
nuvens no espaço/Vaguei ao léu conhecendo terras/Sempre
ganhando dinheiro aos maço/Meu cipó em três rodia/Cobria
a anca do meu Picasso/Foi o que me garantiu o nome/De
boiadeiro punho de aço/. De volta pra minha terra/ viajava à
noite com um mormaço/Naquilo eu topei com uma boiada/
Beirando o rio vinha passo-a-passo/Um grito de boiadeiro/
Pedindo ajuda cortou o espaço/E eu vi o peão que ia rodando/
Saltei no rio com o meu Picasso/. A correnteza era forte/
Tirei o cipó da chincha do macho/E pelo escuro ainda
consegui/Laçar o peão por um dos seus braços/Ao trazer ele
na praia/Meu coração se fez em pedaço/Por um milagre que
Deus mandou/Salvei meu pai com seu próprio laço”29.
Eu quero dizer que o boiadeiro do punho de aço somente se
vê no mundo como uma pessoa excelente na medida em que se
cumprem, na mesma ação, as exigências da arte, da ética e da
justiça. Em outras palavras, seria possível dizer que sua ação
somente é justificada moralmente na medida em que fez justiça
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ao seu pai, e ele somente pôde fazê-lo quando se tornou excelente
na arte de lidar com o laço; por outro lado, a sua excelência artística
não se verifica no domínio puro e simples do laço, mas apenas
assim pode ser considerada quando essa arte lhe permite
responder pelas suas obrigações com o seu pai; nisso se baseia a
compreensão da eticidade de sua conduta, ou seja, a consciência
do cumprimento do seu dever somente foi atingida quando
daquela oportunidade de provar a si mesmo e de responder ao
pai que as suas lições de vida foram adequadamente assimiladas.
Essa concepção trágica da vida e esse modelo de ação é que
orientam a visão da praxis humana em todas as suas dimensões.
O dever para com a pessoa é orientado pela convicção de que a
mesma é titular de uma dignidade que lhe é inerente; é o que
retrata a canção Rei do gado, na qual se denuncia a discriminação e
se rejeita qualquer forma de humilhação contra quem quer que
seja. O dever para com a comunidade é orientado por uma ética
do cuidado e da hospitalidade bastante original, tal como
visivelmente aparece naquele conto popular no qual o avô ensina
ao seu neto a necessidade de ajudar seus vizinhos para que eles
nunca deixem de lhe ajudar em um momento de necessidade30;
disso se deu conta muito bem Euclides da Cunha quando descreve,
entre outras práticas da solidariedade, o socorro que os vizinhos
se prestam mutuamente para reunir o gado arribado das
fazendas31. E, por fim, o dever para com a natureza é orientado
por uma relação de amizade humana com os animais e com os
outros seres da terra, e não propriamente de dominação ou de
conquista; isto parece muito exemplar no cordel O cachorro dos
mortos, de Leandro Gomes de Barros32, e nas músicas Assum preto
de Luiz Gonzaga33 e Planeta azul de Xitãozinho e Xororó34; o
mesmo se diz daqueles contos imemoriais contados pelos nossos
pais, tais como Esopo, do tempo em que os bichos conversavam.
O que muito importa ter em mente é que qualquer dessas
responsabilidades pressupõe uma vulnerabilidade das nossas vidas,
reclamando sempre uma humildade cultural e humana como se
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sugere na música A caneta e a enxada, na qual, por intermédio de
uma metáfora, a dupla Lourenço e Lourival denuncia a soberba e
a pretensão, ao passo que enaltece a obrigação para com o
estrangeiro e a importância de aprender com ele outras coisas
consideradas importantes para as nossas vidas35. A nossa condição
humana não é de autossuficiência, mas de fragilidade; daí que
aqueles poetas nos assemelham muitas vezes aos próprios animais
e atribuem a nós igual destino deles nesta vida, tal como os caipiras
Tonico e Tinoco, naquela canção Destinos iguais, bem souberam
expressar. Como o leitor pode ver ali, o compositor testemunha
as juras de amor entre um casal de canários que prometem entre
si nunca se separarem, cerimônia de afetos essa que é interrompida
por um gavião que passa o bico e leva embora a canarinha. A
ação traiçoeira daquela ave é, para o autor, como a de uma pessoa
que age de emboscada, e a reação do canário que persegue o
malfeitor é igualmente movida pelo sentimento humano de raiva
e de desespero, seguido depois pelo de desalento diante da
impotência frente ao acontecido. O retorno e o gorjeio do canário
são, para o compositor, um chorar; o infortúnio desperta no artista
a mesma lágrima por lembrar a sua igual condição de estar
separado da pessoa que ama por motivos alheios à sua vontade,
cujo arremate não parece deixar nenhuma dúvida dessa
semelhança estabelecida: “Chorei, pois tive saudade/Daquela
felicidade/ Que o destino me roubou/O meu viver solitário/É
tal e qual desse canário/Que perdeu o seu amor”36.
4 A CONCLUSÃO
Posto assim, tenho que concluir. Faço-a sugerindo que a
sabedoria expressa nos textos da oralidade sertaneja remete a
uma concepção de fragilidade da vida, remetida tanto aos poetas
clássicos como à filosofia aristotélica, de que o homem é um
ser moral, mas não inteiramente liberto de outras circunstâncias
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que não escolhe. Nomeadamente, a sua condição animal! Essa
limitação partilhada com outros seres, como Martha C.
Nussbaum bem sabe esclarecer, faz de nós pessoas
permanentemente necessitadas de cuidado37. Ela não nega e eu
também não negarei que a liberdade é um elemento essencial à
experiência prática, mas pensamos tudo isso na perspectiva
animal: nossa liberdade nunca é, como a liberdade de outros
seres, independente das outras pessoas ou desprovida de sua
atenção. Essa vulnerabilidade, tal como a professora de Chicago
nos lembra com aquela poesia de Píndaro, assemelha-nos a uma
planta que, uma vez no mundo, precisa se alimentar
permanentemente, mas, para isso, dependerá de condições não
encontradas dentro dela mesma38. Essa é uma sabedoria que,
talvez por não possuir nenhuma, ocupo-me apenas de
testemunhar, retribuindo o gesto de bondade e de abertura desta
Casa – e dos seus confrades – para um estrangeiro. Não
advogando aqui nenhuma demanda entre oralidade e escrita,
como uma interpretação desavisada daquela frase de Saramago
poderia induzir. Contento-me apenas em recordar as lições do
Fedro nas quais Platão, um poeta e escritor por excelência, adverte
para as limitações do texto e para os ganhos que podemos ter
se realmente estiver mos dispostos a ouvir aquilo que
definitivamente não pode ser dito por meio da escrita.39
NOTAS E REFERÊNCIAS
Obs.: O texto que agora é publicado refere-se exatamente àquele da palestra
realizada na sede da Academia de Letras da Bahia em 05/08/2010. Os
meus sinceros agradecimentos ao Prof. Edivaldo M. Boaventura que, na
qualidade de presidente da Casa, me formulou o honroso convite, aos
demais integrantes da Academia pela presença e pelos debates, e ainda à
colega Helena Vieira Pabst pelo esmerado cuidado e pelo olhar crítico
sobre este texto.
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SARAMAGO, José. Discursos de Estocolmo. Caminho: Lisboa, 1999, p.
11.
2
BENJAMIM, Walter. O narrador: reflexões sobre a obra de Nikolai
Lesskov. In: ____. Sobre arte, técnica, linguagem e política. Tradução de
Maria Amélia Cruz. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1992, p. 27 e
segs., bem como 48 e segs.
3
Op. cit., p. 32 e segs.
4
CASCUDO, Luíz da Câmara. Contos Tradicionais do Brasil. 13. ed. São
Paulo: Global, 2004, p. 12.
5
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2006, p. 100.
6
PATATIVA DO ASSARÉ. Inspiração nordestina. São Paulo: Hedra,
2006, p. 14.
7
VIEIRA, T; GOMES, N. Ladrão de gado. Intérpretes: Liu e Léu. In:
LIU E LÉU. Nosso Rancho. São Paulo: Continental, p1962. 1 LP. Faixa 3.
8
HOMERO. Odisseia. Tradução de Cascais Franco. Mem Matins:
Europa-América, 2000, canto I.
9
ROSA, João Guimarães, op. cit., p. 244.
10
Cf. JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Tradução
de Artur M. Parreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 206.
11
Cf. ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Sousa. 6. ed.
Maia: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 2000, 1449b-1450a.
12
Cf. ÉSQUILO. Coéforas. In: ______. Oresteia. Tradução de Manuel
de Oliveira Pulquério. Lisboa: Edições 70, 1992, 269-277.
13
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 28. ed. São
Paulo: Áticam 2002, p. 32.
14
CRIOLO. Boi tufão. Intérpretes: Trio Parada Dura. In: TRIO
PARADA DURA. Casa da Avenida. São Paulo: Chororó, p1977. 1 LP.
Faixa 2.
15
FERNANDES, Beto. Os 100 anos de Patativa segundo o jornalista
Beto Fernandes. Blog do Crato. Crato, 05 ago. 2010. Disponível em:
<http://blogdocrato.blogspot.com/2009_03_07_archive.html>.
Acesso em: 05 ago. 2010.
16
PATATIVA DO ASSARÉ. Diabo a cete. Assaré: Fundação Memorial
Patativa do Assaré, s/d, p. 01.
17
ROSA, João Guimarães, op. cit, p. 235.
1
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ARISTÓTELES. Retórica. Tradução de Manuel Alexandre Júnior et
al. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1998, 1369a/b.
19
ARISTÓTELES. Retórica, 1362a.
20
PASSARINHO; DADÁ. A moça do retrato. Intérpretes: Zé Tapera
e Teodoro. In: ZÉ TAPERA E TEODORO. [S.T.]. São Paulo: RCA,
p1970. 1 LP. Faixa 1.
21
CUNHA, Euclides. Os Sertões: campanha de Canudos. São Paulo:
Martin Claret, 2006, p. 146.
22
ROSA, João Guimarães, op. cit., p. 522.
23
ROSA, João Guimarães, op. cit., p. 495.
24
ROSA, João Guimarães, op. cit., p. 375.
25
ROSA, João Guimarães, op. cit., p. 279.
26
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de António de Castro
Caeiro. 2. ed. Lisboa: Quetzal Editores, 2006, 1141b15 e segs.
27
ROSA, João Guimarães, op. cit., p. 10.
28
FRANCO, D; SANTOS, D. Travessia do Araguaia. Intérpretes: Tião
Carreiro e Pardinho. In: TIÃO CARREIRO E PARDINHO. Som da
Terra. [S.L]: [S.G], p1994. 3 CD. Faixa 08.
29
CARREIRO, T; VIEIRA, T. Boiadeiro punho de aço. Intérpretes:
Tião Carreiro e Pardinho. In: TIÃO CARREIRO E PARDINHO. Som
da Terra. [S.L]: [S.G], p1994. 3 CD. Faixa 05.
30
Um menino estava almoçando na casa do avô e então este disse ao
neto: – Esta carne que estamos comendo aqui agora é de uma vaca
que eu matei o no dia que seu pai nasceu.
O menino admirava muito as coisas que seu avô fazia mas não
compreendeu direito aquilo que ele tinha contado. Um compadre do
seu avô, que tinha vindo de longe para visitá-lo e estava junto, ouviu
a conversa e ao chegar em casa matou também uma vaca, guardou
tudo na despensa e em poucos dias já não tinha mais nada. Voltando
à casa do seu compadre, reclamou que este tinha mentido para o
neto, já que a carne de uma vaca não era suficiente para uma família
comer durante tantos anos. Aí então o velho respondeu:
– Compadre Joaquim.... ninguém sabe do dia de amanhã! Por isto,
quando eu mato uma vaca, um carneiro ou um porco aqui em casa,
mando um pedaço para os meus vizinhos. Muita gente faz o mesmo
e deste jeito a carne nunca acaba porque um socorre o outro na hora
da precisão.
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Op. cit., p. 158.
BARROS, Leandro Gomes. O cachorro dos mortos. São Paulo: Luzeiro,
s/d.
33
TEIXEIRA, H; GONZAGA, L. Assum preto. Intérprete: Luiz
Gonzaga. In: LUIZ GONZAGA. Volta pra curtir: ao vivo. [S.L]: BMG
Brasil, p2001. 1 CD. Faixa 06.
34
ALDEMIR; XORORÓ. Planeta azul. Intérpretes: Xitãozinho e
Xororó. In: XITÃOZINHO E XORORÓ. Planeta azul. Rio de Janeiro:
Polygram, p1992. 1 CD. Faixa 07.
35
BALDUINO, C; VIEIRA, T. A caneta e a enxada. Intérpretes:
Lourenço e Lourival. In: LOURENÇO E LOURIVAL. 20 Preferidas.
Rio de Janeiro: Som Livre, p1996. 1 CD. Faixa 04.
36
PIRES, A; LAUREANO. Destinos iguais. Intérpretes: Tonico e
Tinoco. In: TONICO E TINOCO. As 12 Mais. São Paulo: Caboclo
Continental, p1968. 1 LP. Faixa 01.
37
NUSSBAUM, Martha C. Frontiers of Justice: disability, nationality,
species membership. Cambridge/London: The Belknap Press of
Harvard University Press, 2006, p. 87 e segs
38
NUSSBAUM, Martha C. The Fragility of Goodness: luck and ethics in
greek tragedy and philosophy. Revised Edition. Cambridge: Cambridge
University Press, 2007, p. I.
39
PLATON.pHÈDRE. In:_____. Oe vres Complètes. Traduction nouvelle
et notes par Léon Robin. S/Cid.: Librarie Gallimar, 1950, 274c e segs.
31
32
Antonio Sá da Silva é mestre e doutorando em Ciências Jurídico-Filosóficas
pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra/Portugal. Professor
da Faculdade de Direito da UFBA e da Faculdade Baiana de Direito.
Coordenador do Curso Noturno da Faculdade de Direito da UFBA. ExPesquisador do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade
de Coimbra.
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Dos estreitos limites do
internato, fui salvo pelo mar:
O Padre Luiz Gonzaga Cabral e Jorge Amado
Manuel de Novaes Cabral
P
“ ara o menino grapiúna – arrancado da liberdade das ruas e
do campo, das plantações e dos animais, dos coqueirais e dos
povoados recém-surgidos –, o internato no colégio dos jesuítas
foi o encarceramento, a tentativa de domá-lo, de reduzi-lo, de
obrigá-lo a pensar pela cabeça dos outros”.
É desta forma acabrunhante, persecutória, limitativa e censória
que Jorge Amado faz a primeira referência ao Colégio dos Jesuítas
Antônio Vieira, em São Salvador da Bahia de Todos os Santos,
onde seu pai o interna aos nove anos.
N’O Menino Grapiúna – obra editada pela primeira vez em 1980
e da qual retirei este pequeno excerto – Jorge Amado conta as
suas memórias – aventuras infantis, traçando o perfil familiar,
sobretudo de seu pai, de sua mãe e de seu tio Álvaro.
Neste pequeno mas impressivo livro, fácil é apercebermo-nos
da bondade de sua mãe, dona Eulália, da dureza de seu pai, o
Coronel João Amado de Faria ou do companheirismo de seu tio,
o Coronel Álvaro Amado – “homem ladino e aventureiro”, no
testemunho do escritor. Ao longo do texto, percorremos a saga
do cacau empreendida na nação grapiúna, as migrações da mão
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de obra, a apropriação de terras de ninguém e as lutas pela sua
posse, o crescimento de povoações que surgiram do nada, com
os consequentes negócios de bens e da carne, as difíceis relações
sociais e o pouco valor da vida humana. Aí, Jorge Amado contanos a sua intimidade com os “despossuídos” e com “as mulheres
marcadas com ferro em brasa”, a perseguição da bexiga e dos
bexigosos, as suas primeiras noções de amor, a vida “intensa e
sôfrega”, passada entre o “amor” e a “morte”, conta-nos, enfim,
das suas “universidades”.
Os primeiros anos de vida de Jorge Amado foram preenchidos
por vivências tão ricas e tão impressivas que vão desenhar uma
boa parte das personagens que povoarão os seus livros.
Personagens recriadas de seres reais, com vidas próprias, possuídos
e “despossuídos”, poderosos e miseráveis, manobradores e
submissos, com uma enorme beleza física e apenas com beleza
interior. Personagens que preencheram uma vida rica, complexa,
mas sobretudo intensamente vivida. Personagens que só podem
brotar de um ser inteligente, que absorveu todas as suas vivências
como uma poderosa esponja, sugando tudo o que viu e viveu
com todos os seus sentidos.
Depois de uma infância plena de liberdade, Jorge Amado
sentiu-se “encarcerado” quando o pai, pretendendo embora
“educá-lo no melhor colégio, o de maior renome”, o interna no
Colégio Antônio Vieira que, nessa época – cerca de 1920 –,
ganhava novo fôlego.
Com efeito, o advento da República em Portugal, em 1910,
tinha conduzido a mais uma – a terceira – expulsão da Ordem de
Santo Inácio de Loyola. Os revolucionários consideravam que os
padres jesuítas eram demasiado influentes, sobretudo na Corte;
por isso, foram vilipendiados, insultados e ferozmente perseguidos.
À frente da Província Portuguesa estava então o Padre Luiz
Gonzaga Cabral que, apesar de ser uma das presas mais apetecíveis
da novel república, logrou escapar do seu Colégio de Campolide,
em Lisboa, refugiando-se em casa de um humilde alfaiate das
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vizinhanças e, depois, junto de uma família francesa. Estão
impressas e contam-se ainda hoje na família histórias
rocambolescas a propósito da sua evasão. Esta aconteceu, afinal,
apenas graças a ter-se disfarçado como caixeiro-viajante, vendedor
de máquinas de escrever Remington, tendo sido essenciais à
peripécia dois recursos que lhe sobravam: o seu reconhecido bomhumor e o grande dom que tinha para as línguas e para a
representação. Para esclarecer qualquer dúvida que possa persistir,
a história está contada, na primeira pessoa, no final do primeiro
volume da obra que ele encarregou o Padre Luiz Gonzaga de
Azevedo de elaborar, intitulada “Proscritos”, que constitui a
memória viva do que passaram os Jesuítas portugueses nessa época
de provação.
Os primeiros tempos do exílio, passou-os o Padre Cabral a
percorrer diversos países da Europa e a divulgar o seu protesto
intitulado “Ao meu paiz”, o qual foi impresso em diversas línguas
e teve numerosas edições, bem como a reunir e a instalar a sua
numerosa “família religiosa” – como dizia.
Mas quem era, afinal, este padre jesuíta que tanta influência
viria a ter em Jorge Amado?
Luiz Gonzaga do Valle Coelho Pereira Cabral nasceu no dia 1
de Outubro de 1866 na Foz do Douro, no Porto, na casa de praia
de seus pais, situada na antiga rua Central, que hoje ostenta o seu
nome: “rua do Padre Luís Cabral – orador sacro”. Foram seus
pais Constantino António do Valle Pereira Cabral, Fidalgo
Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo,
bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra,
grande proprietário no Douro e no Minho e que exerceu
numerosos cargos no Porto mercantil da época, designadamente
o de diretor da poderosa Companhia-geral de Agricultura das
Vinhas do Alto Douro – fundada pelo Marquês de Pombal,
mentor da primeira expulsão dos Jesuítas – e de sua mulher Maria
Emília da Conceição Ribeiro Coelho, da Casa de Sandim, em
Roriz, Santo Tirso, conhecida familiarmente por avó Flores,
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evocando a grande casa patriarcal na Rua do mesmo nome, no
centro comercial do Porto, casa esta bastante referida por diversos
autores e que ostenta no portal das cavalariças, que dão para a
rua da Vitória, o brasão de armas concedido ao referido
Constantino, para Vales, Pereiras, Cabrais e Madeiras (na pedra
de armas em questão, este último quartel está erradamente
representado como Alves).
Luiz Cabral era o décimo filho de seus pais. Quando nasceu,
sua mãe estava já perto dos cinquenta anos. Os trabalhos de parto
foram de tal modo complicados que, estando em risco as vidas
da mãe e do filho, a vizinhança e a parentela o apelidaram logo
de “menino do milagre”…
Mas deixemos o Padre Cabral falar de si próprio: “A minha
mãe valeu-lhe a extraordinária robustez e heróica paciência em
sofrer os trabalhos a que a sujeitei; a mim, valeu-me a eloquência
precoce, que me atribuem: quando todos me davam por perdido
e, vendo-me arroxeado, quase exânime, me deixaram sobre a bacia
do primeiro banho, para atender minha mãe em sério risco de
vida, afirmei, de repente, os meus direitos à existência, num
espernear enérgico e num berreiro de Hércules, que espantou a
morte e chamou a mim as atenções alvoroçadas e felizes dos
circunstantes”.
Aos nove anos – sensivelmente com a mesma idade em que
o mesmo acontece com Jorge Amado – Luiz Cabral é levado
para Lisboa por sua mãe e entregue aos cuidados dos padres
Inacianos, no Colégio de Campolide. Não deixa de ser
interessante esta opção pela Companhia de Jesus. Sua mãe era
“senhora de acrisoladas virtudes, sobretudo de vivíssima piedade.
O culto afervorado da religião foi sempre na família Cabral (…)
de tradições arreigadas”, como atesta o seu biógrafo Domingos
Maurício Gomes dos Santos. No entanto, seu pai, apesar de ser
“não somente um christão convicto, mas um catholico
praticante, que se abeirava da Sagrada Mêsa com uma frequência
rara para aqueles tempos, (…) durante a maior parte da sua
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vida foi um adversário sincero dos Jesuítas, a quem tinha na
conta de homens nefastos ao paiz” – e este testemunho tem a
autenticidade de ter sido escrito pelo próprio Padre Cabral na
introdução à sua obra Jesuítas no Brasil. Ou não fora Constantino
Cabral um dos mais altos responsáveis e reformador da
Companhia-geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro…
Mas o próprio Padre Cabral, de seguida, cita o arrependimento
tardio de seu pai em conselho que dá ao filho mais velho,
Constantino, a propósito do uso de muitos dos livros da sua
vasta biblioteca: “Quero prevenil-o de que o conteúdo destas
duas estantes são livros máos, que eu olhei durante muitos anos
como um quinto evangelho; tenha-os sempre debaixo de chave
para que não vão fazer mal a outros”.
A partir do dia em que franqueia pela primeira vez as portas
do Colégio de Campolide, toda a vida do Padre Cabral é centrada
na Companhia, tendo desenvolvido a sua atividade essencialmente
como religioso e pedagogo. A sua ação foi marcante para várias
gerações, sobretudo de portugueses e brasileiros, do que há
numerosos testemunhos impressos. Acaba por ter um relevante
papel político, que não desejaria, pelo fato de a revolução
republicana (1910) ter acontecido durante o seu exercício como
Provincial (1908-1912).
Era um requerido orador sagrado, por muitos considerado o
maior do seu tempo. Foi diretor do Colégio de Campolide de
1903 a 1908 – época em que o Colégio ganha o maior relevo,
sendo acrescentado e melhorado graças ao investimento de bens
do seu diretor. Em paralelo, o Padre Cabral desenvolve uma
intensa atividade como pregador sacro, ganhando fama as suas
Conferências Quaresmais pregadas no púlpito da Igreja dos
Mártires e os Sermões Quaresmais, pregados na Sé de Lisboa.
Chama a atenção da sociedade da época, que acorre em grande
número para o ouvir, sendo de assinalar o registo da assistência a
uma delas de Teófilo Braga, que veio a ser Presidente da República
em 1915.
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Já antes, em 1901, tinha levado a cabo a edição da sua obra de
maior fôlego, Vieira Pregador. Em dois extensos volumes analisa
detalhadamente a obra do Padre Antônio Vieira. Mais: como diz
o sub-título, trata-se de um “Estudo Filosófico da Eloquência
Sagrada, segundo a vida e as obras do grande orador português”.
Não me admiraria que Jorge Amado tivesse beneficiado do
método estudado e praticado pelo Padre Cabral a propósito de
Vieira e das formas mais adequadas e eficazes da pregação e da
oratória, eruditamente desenvolvidas neste profundo estudo.
Não fora apanhado a meio do seu provincialato pela revolução
republicana, e essa seria certamente a história do Padre Cabral:
um grande pedagogo e um orador sagrado aplaudido. Mas a vida
tem destas coisas. A meio da sua vida, é obrigado a novas
provações, a um exercício político para o qual não se sentiria
vocacionado, mas que, desafiado, exerce com enorme vigor. O
seu protesto “Ao meu paiz”, já referido, é o seu grito de revolta
pela injustiça tremenda que considera ter sido cometida pelas
novas autoridades. O seu biógrafo Domingos dos Santos diz
mesmo que este escrito “alcançou o mais extraordinário êxito
que, nestes últimos cinquenta anos, se registrou na bibliografia
portuguesa. Além de inúmeras edições vernáculas, largamente
espalhadas, de norte a sul, foi traduzido (pelo menos) em alemão,
espanhol, inglês, francês, italiano, holandês e, até em árabe, saindo
reproduzido nos principais jornais e revistas no estrangeiro. O
Governo Provisório tentou estorvar a sua divulgação em Portugal,
decretando a apreensão dos exemplares remetidos pelo correio.
Isto, porém, serviu apenas para maior publicidade. Nos cafés e
nos bondes elétricos, e até nos teatros, todos queriam ler o protesto
do provincial dos Jesuítas portugueses. Em Lisboa, Porto e
Coimbra, teve honras de leitura pública, sendo uma delas, por
sinal, feita pelo grande humorista Ramalho Ortigão, velho
conhecimento do autor em Campolide e que, a cada período, era
sacudido pelos soluços e lágrimas, que lhe estoiravam a alma”.
Era deste calibre o Padre Cabral.
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Depois de deixar o provincialato, continuou pela Europa até
rumar à Bahia, em 1916. Aí, tornou-se (quase) no orador oficial
da colônia portuguesa. Assim foi, por exemplo, na chegada a
Salvador de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral, a 9 de Junho
de 1922, depois de galgado pela primeira vez o Atlântico Sul.
Assim foi, anos depois, em 1927, quando os aviadores Sarmento
de Beires, Jorge de Castilho e Manuel Gouveia renovaram a
façanha.
Ao mesmo tempo, percorria o Brasil de lés a lés, proferindo
conferências e animando púlpitos em numerosas intervenções
que, em grande parte, tiveram edição avulsa e acabaram publicadas
nos seus Inéditos e Dispersos. De fato, o Padre Cabral resistiu muito
a insistentes pedidos de publicação das suas conferências. Vale a
pena ouvir as suas razões, descritas detalhadamente no primeiro
volume dos seus Discursos Académicos, sobretudo nos dias que
correm, em que tantos falam sobre tudo e coisa nenhuma, sem
os conhecimentos adequados ou a prudente meditação sobre o
assunto em causa: “… sou inimigo da improvisação temerária,
que se abalança a fallar em público, sem a profunda meditação
do assumpto, exigida pelo respeito devido a todos os auditórios,
por humildes que sejam (…); tanto me repugnou sempre a
pregação decorada, em que o esforço de memória tolhe a liberdade
de inspiração e coarcta a espontânea sinceridade do zelo (…).
(Por isso) (…) ia colher materiais para cada assumpto que havia
de tractar. Depois, meditava-o, quanto m’o permittia a minha
pouquidade e o tempo de que dispunha (…); escrevia, numa
folhinha de dezoito por treze, preenchida nas entrelinhas, esse
resumo esmiuçado (…) e entregava depois ao calor da
improvisação a estructura verbal do discurso.”
“Nestas condições é claro que não podia, sem mais, entregar os
sermões ao prelo, pela simplicíssima razão de que não os tinha escriptos”.
Em boa hora resolveu o Padre Cabral dedicar-se ao trabalho
de publicar grande parte das suas intervenções, perpetuando assim
muito material de interesse.
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O Padre Luiz Cabral veio a morrer no seu Colégio Antônio
Vieira – a cuja organização e construção dedicou com intensidade
os últimos anos de vida e que, precisamente neste ano de 2011,
completa o seu centenário – em 28 de Janeiro de 1939. Morreu
no Brasil, a sua “segunda Pátria”, como tantas vezes dizia.
É exatamente neste tempo que o Padre Luiz Gonzaga Cabral
encontra o menino grapiúna Jorge Amado.
Felizmente, a história está contada pelo próprio Jorge Amado,
não só no livro das suas memórias de infância que temos vindo a
seguir, como em diversas entrevistas gravadas. Eu próprio tive a
grata oportunidade de com ele conversar largamente sobre o
assunto e de ouvir o seu testemunho direto sobre a admiração e
a memória que sempre guardou do Padre Cabral.
N’O Menino Grapiúna, Jorge Amado dedica nada menos do
que três capítulos ao Padre Cabral. Só o admirado tio, Coronel
Álvaro Amado, com ele pode competir! O mesmo se diga
relativamente às magníficas ilustrações de Floriano Teixeira, nas
entradas dos capítulos 15, 17 e 18, nas quais o Padre Cabral é
retratado entre o eloquente e o grandioso!
Não há, por isso, debate ideológico sobre eventuais tentativas
de influência do padre jesuíta sobre o jovem estudante do Colégio
Antônio Vieira que possam sobrepor-se ao próprio testemunho
de Jorge Amado.
Mesmo quando Amado diz, no seu Navegação de Cabotagem que
“o Colégio Antônio Vieira, discriminatório além de caro, acolhia
os filhos dos ricos, dos senhores, os padres projetavam influir
sobre os futuros governantes”, ele faz apenas uma afirmação
genérica, dando a sua leitura sobre o intuito geral do Colégio e
dos Jesuítas. Mas quem duvida que quem quer educar com
excelência quer obter o melhor resultado dos seus alunos? Qual
o estabelecimento de ensino de qualidade que não pretende ter
os seus alunos entre os melhores da sociedade? De resto, nesta
sua afirmação, Amado não está a referir-se especificamente à sua
relação com o Padre Cabral, pois isso seria absolutamente
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contraditório com o testemunho deixado anteriormente n’O
Menino Grapiúna.
Sobre a sua fugaz passagem pelo Colégio Antônio Vieira, Jorge
Amado descreve-a saborosamente na Navegação …, dizendo que
os padres, “no primeiro ano haviam (nele) percebido vocação de
noviço; no segundo, declarara-me ateu e bolchevique, revelarame contestatário e insubmisso: finalmente, no terceiro, fugi no
dia da inscrição quando meu tio me deixou na portaria!”
Devo dizer que penso mesmo que, no seu livro de 1980
O Menino Grapiúna, Jorge Amado terá já feito alguma catarse
relativamente ao seu militantismo comunista de tantos anos. A
sua cabeça era demasiado livre para se ater a concepções ortodoxas
e limitativas da vida e do mundo.
No capítulo 16 d’O Menino Grapiúna, Jorge Amado questionase: “Não serão as ideologias por acaso a desgraça do nosso
tempo?” – antecipando desta forma o acelerar da história a que
conduziu a queda do Muro de Berlim em 1989. E continua: “O
pensamento criador submergido, afogado pelas teorias, pelos
conceitos dogmáticos, o avanço do homem travado por regras
imutáveis? Para logo dar a sua receita: sonho com uma ideologia,
onde o destino do ser humano, seu direito a comer, a trabalhar, a
amar, a viver a vida plenamente não esteja condicionado ao
conceito expresso e imposto por uma ideologia seja ela qual for.
Um sonho absurdo? Não possuímos direito maior e mais
inalienável do que o direito ao sonho. O único que nenhum ditador
pode reduzir ou exterminar”.
Jorge Amado era demasiado livre!
Julgo não abusar de liberdade interpretativa ao dizer que o
fato de este capítulo estar intercalado entre os que, nesta obra,
dedica ao Padre Cabral, constitui uma reflexão sobre a liberdade,
ou melhor, sobre a capacidade que o Homem tem de, mesmo
quando condicionado, fazer valer a sua liberdade, a liberdade que
é essencial à sua – à nossa – existência. As condicionantes que a
vida nos impõe, tenham elas a ver com os recursos econômicos,
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com a saúde ou com a sociedade, nunca tolhem totalmente a
réstia de liberdade que há-de sempre persistir em nós.
Quanto à história em si, à forma como o breve encontro entre
o Jesuíta e o escritor influiu fortemente neste último, não vale a
pena recriá-la. Dizê-la por outras palavras seria retirar-lhe a força
que tem quando contada com a mestria amadiana. E ela está
contada em todas as biografias de Jorge Amado, apesar de ter
ligeiros cambiantes, é certo. Mas ouçamos o próprio Jorge Amado:
“Aplaudido orador sagrado, o Padre Luiz Gonzaga Cabral era a
grande estrela do colégio, a sociedade baiana vinha em peso ouvir
seu sermão dominical. Brilhava também no Liceu Literário
Português nas comemorações de datas lusitanas. Tendo adoecido
o nosso professor de português, padre Faria, ele o substituiu.
Seus métodos de ensino nada tinham de ortodoxos”.
Como vemos, e contrariamente ao que lemos em algumas
biografias de Amado, o Padre Cabral nunca foi seu professor
titular de português. Era diretor do Colégio e julgo que, por isso,
relativamente inacessível, de acordo com os costumes da época.
É o acaso que os junta. O acaso e a inopinada doença do Padre
Faria!
Continuemos a seguir atentamente as memórias d’O Menino
Grapiúna: “Em lugar de nos fazer analisar Os Lusíadas, tentando
descobrir o sujeito oculto e dividir as orações, reduzindo o poema
a complicado texto para as questões gramaticais, fazendo-nos
odiar Camões, o padre Cabral, para seu deleite e nosso
encantamento, declamava para os alunos episódios da epopeia.
Apesar do sotaque de além-mar, a força do verso nos tomava e
possuía. Lia-nos igualmente a prosa de Garrett, a de Herculano,
cenas de Frei Luiz de Sousa, trechos de Lendas e Narrativas. Patriota,
desejava sem dúvida nos fazer conscientes da grandeza de
Portugal, o Portugal das descobertas e dos clássicos. Obtinha
bem mais do que isso: despertava a nossa sensibilidade, retirandonos do poço da gramática portuguesa (cujas rígidas regras nada
tinham a ver com a língua falada pelo povo brasileiro) para a
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sedução da literatura, das palavras vivas e atuantes. As aulas de
português adquiriram outra dimensão”.
Saltamos então, diretamente, para a tão evocada redação sobre
o mar que os biógrafos de Jorge Amado tanto celebram: “O
primeiro dever passado pelo novo professor de português foi
uma descrição tendo o mar como tema”.
Neste ponto aparece-nos mais uma incongruência vulgarizada
em biografias de Amado: diz-se muitas vezes que o título da
redação apresentada pelo futuro escritor seria “O Mar”. Ora,
como podemos constatar, o mar era o tema geral dado pelo novo
professor para os meninos fazerem as suas redações.
Adiante:
“A classe se inspirou, toda ela, nos encapelados mares de
Camões, aqueles nunca dantes navegados, o episódio do
Adamastor foi reescrito pela meninada. Prisioneiro no
internato, eu vivia na saudade das praias do Pontal onde
conhecera a liberdade e o sonho. O mar de Ilhéus foi o tema
da minha descrição.
“Padre Cabral levara os deveres para corrigir em sua cela. Na
aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de
uma vocação autêntica de escritor naquela sala de aula. Pediu
que escutassem com atenção o dever que ia ler. Tinha certeza,
afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor
conhecido. Não regateou elogios. Eu acabara de completar
onze anos”.
E o vaticínio precoce do Padre Cabral teve consequências
imediatas:
“Passei a ser uma personalidade, segundo os cânones do
colégio, ao lado dos futebolistas, dos campeões de matemática
e de religião, dos que obtinham medalhas. Fui admitido numa
espécie de Círculo Literário onde brilhavam alunos mais velhos.
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(Contudo) nem assim deixei de me sentir prisioneiro, sensação
permanente durante os dois anos em que estudei no colégio
dos jesuítas.
“Houve, porém, sensível mudança na limitada vida do aluno
interno: o padre Cabral tomou-me sob a sua proteção e colocou
em minhas mãos livros de sua estante. Primeiro “As Viagens de
Gulliver” depois clássicos portugueses, traduções de ficcionistas
ingleses e franceses. Data dessa época a minha paixão por Charles
Dickens. Demoraria a conhecer Mark Twain, o norte-americano
não figurava entre os prediletos do padre Cabral”.
E, contrariamente ao que seria o desejo – dito ou inconfessado
– de alguns, a memória que Jorge Amado reteve do Padre Cabral
é simpática, afável e reconhecida:
“Recordo com carinho a figura do jesuíta português erudito
e amável. Menos por me haver anunciado escritor, sobretudo
por me haver dado o amor aos livros, por me haver revelado o
mundo da criação literária. Ajudou-me a suportar aqueles dois
anos de internato, a fazer mais leve a minha prisão, minha
primeira prisão”.
Como bem diz a recente estrela da literatura norte-americana
Jonathan Franzen, “normalmente é a vida que nos torna melhores
leitores, a vida e bons professores”…)
À laia de síntese, Jorge Amado conclui como entreviu a heresia
de alguém que vivia num mundo de ortodoxia. E como essa
heresia lhe abriu portas, as portas da literatura, as portas do mundo:
“No colégio dos jesuítas, pela mão herética do padre Cabral,
encontrei nas “Viagens de Gulliver” os caminhos da libertação,
os livros abriram-me as portas da cadeia. A heresia do padre
Cabral era extremamente limitada, nada tinha a ver com os
dogmas da religião. Herege apenas no que se referia aos
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métodos de ensino da língua portuguesa (…) essa pequena
rebeldia revelou-se positiva e criadora. A heresia é sempre ativa
e construtora, abre novos caminhos. A ortodoxia envelhece e
apodrece ideias e homens.
“A longa e dura experiência ensinou-me, no passar dos anos,
a importância de pensar pela própria cabeça. Para pensar e
agir pela minha cabeça, pago um preço muito alto, alvo que
sou do patrulhamento de todas as ideologias, de todos os
radicalismos ortodoxos. Preço muito alto, ainda assim barato”.
Terão notado que, em vez de contar a história mil vezes
contada, optei, num exercício algo romântico, por trazer para
aqui as palavras do próprio Jorge Amado – para meu deleite e
Vosso seguro benefício.
Uma última nota para dar conta de que esta relação intelectual
entre o jesuíta e o escritor não passa despercebida sequer à pródiga
e imaginativa literatura de cordel, que assume Jorge Amado e as
suas histórias e personagens com a naturalidade sincrética de quem
se sente próximo. Um anônimo, que assina com as iniciais L.V.P.Q.,
no seu folheto intitulado “Venturas e aventuras de Jorge que é
muito Amado”, conta assim esta nossa história:
“Todo Cabral português
Tem gana de discubrimento
Cum Jorge Amado, na classe
Deu-se o acontecimento:
Seu professô jesuíta
Descobriu o seu talento (…)”
Esta história é, para mim, uma história de família. O Padre Luiz
Gonzaga Cabral é, em minha casa, o tio Luís Padre – pois sou seu
sobrinho em segundo grau, bisneto de seu irmão e padrinho
Francisco. Por isso mesmo, farão o favor de descontar alguma carga
emocional que eu possa, eventualmente, trazer para este discurso.
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No entanto, a figura universal de Jorge Amado que, a partir da
nação grapiúna, ganhou o mundo, despertou em mim, desde cedo,
vontade de saber mais. Levou-me, por isso, à presença e ao convívio
com Jorge Amado, ao conhecimento de sua mulher Zélia Gattai e
de sua filha Paloma. Percebi, de viva voz, a importância que um
encontro, afinal fugaz, teve para toda a vida do escritor. Ora, isso
só poderia ter acontecido com uma personalidade forte e de grande
espessura moral e cultural, como acontecia com o Padre Luiz
Gonzaga Cabral – como de resto o testemunham tantos outros
intelectuais brasileiros como Herberto Sales, Anísio Teixeira, Flávio
Neves, Francisco Albernaz, Otacílio Lopes ou Thales de Azevedo.
E esta história é apenas o princípio do enorme e vistoso novelo
que foi a vida de Jorge Amado. Amado cruzou continentes, privou
com grandes celebridades da cultura e da política. Mas, sobretudo,
escreveu. Escreveu muito, romanceando as suas experiências da
vida. A sua obra recebeu inúmeros prêmios, apesar de ter passado
sempre ao lado do Nobel – ao qual, não obstante, propôs alguns
autores de língua portuguesa, língua que considerava injustiçada
pela academia. Sobre o merecimento da obra de Jorge Amado,
poderíamos repetir o que ele próprio disse, em Navegação de
Cabotagem, a propósito de Miguel Torga: “eu me pergunto o motivo
porque não lhe foi dado ainda o Prêmio Nobel. Pergunta cretina,
talvez, já que Torga e a sua literatura estão acima dos prêmios,
sejam eles quais forem, os pequenos ou os grandes, nem sequer o
cheque que por vezes os acompanha faz falta à pobreza do escritor”.
Torga nunca receberia o Nobel. Jorge Amado também não.
É hora de terminar.
“Dos estreitos limites do internato, fui salvo pelo mar…“ – disse
Jorge Amado nessa extraordinária prosa poética onde fui buscar o
título desta minha palestra. “Dos estreitos limites do internato”,
foi ele salvo pelo Padre Luiz Gonzaga Cabral – sabia-o o grande
Jorge Amado e não o esqueceu ao longo de toda a sua vida.
São Salvador da Bahia de Todos-os-Santos, aos 6 de Setembro de 2011.
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Obs. Nas citações manteve-se a ortografia original.
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AZEVEDO S.J., L. Gonzaga de. Proscritos – notícias circunstanciadas do
que passaram os religiosos da Companhia de Jesus na revolução de Portugal de
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55857165/Maria-Brandao-Thales-de-Azevedo
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CABRAL, S.J., P. Luiz Gonzaga, Inéditos e Dispersos, 8 volumes:
I.Discursos Académicos (1º). Braga: Livraria Cruz, 1922.
II.Theatro. Braga: Livraria Cruz, 1926.
III.Jesuítas no Brasil (século XVI). São Paulo: Melhoramentos, 1925.
IV.Discursos Académicos (2º). Braga: Livraria Cruz, 1930.
V.Vieira-Pregador I. Braga: Livraria Cruz, 1936.
VI.Vieira-Prégador II. Braga: Livraria Cruz, 1936.
VII.Cartas de Viagem (1º). Braga: Livraria Cruz, 1936.
VIII.Cartas de Viagem (2º). Braga: Livraria Cruz, 1936.
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www.youtube.com/watch?v=rRfTMYMjR6
http://www.velhosamigos.com.br/Foco/jamado.html
www.youtube.com/watch?v=rRfTMYMjR6M
__________
Manuel de Novaes Cabral é licenciado em Direito e pós-graduado em Estudos
Europeus pela Universidade Católica Portuguesa, doutorando pela Universidade
da Corunha. É comendador da Ordem da Honra, da Grécia (2002) e do Mérito
Real, da Noruega (2008), Oficial da Ordem do Mérito Agrícola, da República
Francesa (2005) e Cavaleiro da Ordem da “Stella della So lidarietà Italiana.
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Subjetividades traçadas pela
linguagem em dialogia:
nas relações institucionais e na vida
cotidiana
Rosa Helena Blanco Machado
Trazemos para a reflexão uma discussão em torno ao ensino da
língua e da linguagem, sua função, sua importância nas sociedades
humanas, particularmente em sociedades como a nossa, tocada,
em alguns setores e agrupamentos pelo ultramodernismo, com
conhecimentos tecnológicos há pouco tempo impensáveis; e por
outro lado, uma sociedade pouco escolarizada, pouco informada,
empobrecida, de difícil cotidiano.
Não nos deteremos em especificidades do ensino da língua e
da linguagem em todas as suas manifestações, a exemplo do ensino
da literatura, embora entendamos que através do contato e da
familiaridade com o fato literário, um mundo de saberes, de
sensibilidades, de discernimento se abre para o ser humano. Vamonos ater ao ensino da linguagem, da língua, considerada por tantos
como um “instrumento” de que nos servimos para a comunicação,
nas diversas manifestações, pensando primeiramente no espaço
escolar – visando às reflexões em torno ao papel e à função do
ensino e da aprendizagem da língua(gem).
Mas as reflexões não vão se prender tão somente ao universo
escolar. Pretendemos levantar alguns questionamentos a respeito
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do saber da língua, da linguagem, de seu funcionamento, seu uso
no ambiente da vida cotidiana, desde o interior da família até os
relacionamentos mais distanciados que estabelecemos com o nosso
semelhante nas diversas situações da vida, nas interações do dia a
dia, sejam elas mais rotineiras ou mais esporádicas, a todo momento.
Queremos tecer considerações sobre o comportamento linguísticodiscursivo do homem e da mulher no cotidiano, e sobre a
importância e a força da língua(gem) na formação das nossas
subjetividades e das nossas consciências, refletindo sobre uma
prática que atravessa a sociedade em sua inteira dimensão e
dinâmica, sobre os efeitos dos entendimentos a respeito da natureza
da linguagem e da língua e sobre as questões que abordam as
relações entre as práticas linguísticas, os homens e o mundo.
AS DIFERENTES CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E
O ENSINO DE LÍNGUA MATERNA NAS ESCOLAS
Referimo-nos anteriormente à língua como um “instrumento”.
Mas o fizemos assinalando a palavra com aspas, de modo a
marcarmos nosso distanciamento desta caracterização da língua.
Aspeamos a palavra porque não entendemos a língua tão
simplesmente como um “instrumento” de que nos servimos para
falar ou escrever, tal fosse um artefato guardado em um armário,
retirado sempre que necessitamos falar, comunicar algo. Embora
o fato de linguagem seja assim entendido, ainda hoje, por muitos,
este aspecto certamente não contempla todas as faces desse saber
e dessa construção humanas que é a linguagem, a língua natural.
Torna-se, por esse entendimento, algo quase palpável, algo de
que nos apossamos, acreditando sermos senhores absolutos do
que dizemos e crentes de que o nosso conhecimento, a nossa fala
é toda ela passada pelo crivo de nossa consciência e do nosso
discernimento total quanto aos fatos do mundo. Algo semelhante
ao que ocorre quando nos servimos do objeto/instrumento/
ferramenta para fazermos algum trabalho.
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É uma concepção da linguagem, atraente, por um lado, porque
nos permite uma apropriação mais perfeita desse sistema de
comunicação. E nos dá uma ideia de que assim fazendo, estamos
tendo maior rigor e mais credibilidade nas conclusões sobre o
fato de linguagem, quando em estudo. Todavia, um tanto quanto
enganadora é essa concepção posto que nos faz pensar a
língua(gem) tão somente como um conjunto organizado de sinais,
harmoniosamente coordenado, com suas partes componentes,
seus signos, sinais, sons/fonemas, sílabas, morfemas, palavras,
textos, perfeitamente encaixados uns aos outros, permitindo
transparecer, a partir de estruturas sintáticas organizadas, sentidos
únicos ou quase únicos, sentidos transparentes, sentidos tão somente
literais, que não admitem variantes, não admitem contrariedades,
objetivando a cristalização da significação, do sentido. E estes
sentidos e estas significações cristalizadas são, claramente,
estabelecidos pela sociedade; ou melhor, por alguns segmentos da
organização social os quais reclamam para si um poder de
estabelecer verdades, isto é, de estabelecer sentidos únicos, que
deverão ser válidos para todos, consagrados pelo acordo ou pela
convenção social, posto que a língua é um fato social.
Ora, pela língua e linguagem, o homem faz sua identidade, se
subjetiva tornando-se um sujeito da história, de seu tempo,
assentado nas coordenadas vigentes, no ideário que perpassa toda
a reflexão de sua época. Michael Bakhtin, estudioso russo, em
seus belíssimos e muito importantes estudos sobre a língua e
linguagem diz:
Tudo aquilo que me toca vem à minha consciência – a começar
por meu nome – desde o mundo exterior, passando pela boca dos
outros (da mãe, etc.) com sua entonação, sua tonalidade emocional
e seus valores. Inicialmente, eu não tomo consciência de mim a
não ser através dos outros. É deles que eu recebo as palavras, as
formas, a tonalidade que formam minha primeira imagem de mim
mesmo [...] (BAKHTIN, apud TODOROV, 1981, p.148). [...]
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O homem não possui território interior soberano, ele está
inteiramente e sempre sobre uma fronteira; olhando para o
seu interior [...] Eu não posso me abster do outro, eu não
posso me tornar eu mesmo sem o outro (BAKHTIN, apud
TODOROV, 1981, p.148).1
Imerso no mundo que o viu nascer, um mundo com suas
escolhas e suas reflexões, suas crenças, seus saberes, o homem
se forja e se desenvolve, ao lado de seus contemporâneos,
trocando com esses ideias, pensamentos, sentimentos, formas
de relacionar-se e de estar neste mundo, de compreender e de
atuar sobre ele. A linguagem tem aí invulgar poder de força, é
com ela e sobre ela que se dá o início e se faz a caminhada do
homem. Nas suas interações com o outro e com o mundo, a
linguagem se faz presente. Ou melhor, ela torna possível a
interação entre as pessoas, a reflexão e a representação que
acabamos por constituir daquilo que nos cerca. Para Bakhtin, o
homem e a mulher, em sua caminhada, na medida da sua interação
e do seu relacionamento com o mundo, na comunicação verbal,
bebendo na fonte dos enunciados já proferidos (seus e de outrem),
vão-se construindo, vão-se fazendo ao tempo em que também
vão impondo, através de sua fala, uma marca sobre a língua(gem).
É no ato da comunicação verbal que o sujeito vai organizando
sua experiência, sua fala interna vai-se corporificando, sua
consciência vai tomando forma. Para Bakhtin “Não é a
experiência que organiza a expressão e, sim, o contrário: a
expressão organiza a experiência. A expressão é o que primeiro
dá à experiência sua forma e especificidade de direção.
(BAKHTIN, 1976, p 107)”
Carlos Franchi, em seu trabalho “Linguagem – Atividade
Constitutiva” (1977), entende a língua antes como um trabalho
de construção dos homens, um trabalho que a um só tempo se
ocupa do seu fazer e refazer contínuos, num debruçar-se sobre si
mesma. Ela é então algo que está sempre em constituição. Por
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outro lado, a língua opera sobre a realidade, essa que nos circunda,
mas de que propriamente não conhecemos a essência. Aí a língua
atua constituindo essa realidade como um sistema de referências,
e sobre esse sistema de referências a construção linguística vai
significar. Tudo é filtrado pela linguagem num trabalho de eterno
fazer e refazer.
Assim, um estudo de língua/linguagem que a vê apenas
enquanto um “instrumento” de que nos servimos para nos
comunicarmos com o nosso semelhante, não tem como
preocupação a formação de nossas subjetividades e de nossas
consciências, sendo a língua considerada tão somente como um
“sistema” organizado de sinais que dão corpo a um pensamento
que nos ocorre, tal qual uma vestimenta, uma capa de sustentação
a essa reflexão nascida de uma consciência independente, interna,
que se movimenta do nosso interior para o mundo, para o nosso
interlocutor. A língua é entendida aí como um sistema de signos
fechado e monológico.
Por outro lado, a língua enquanto sistema organizado de sinais,
é uma realidade da qual não se escapa; não é possível lidarmos
com o saber da língua sem considerarmos essa realidade e o seu
funcionamento, do modo como os estudos linguísticos mais
tradicionais autorizam, estes que fizeram e fazem a fundamentação
da linguística da modernidade. Os estudos feitos e por fazer em
torno a esse referencial de língua/linguagem são conhecimentos
fundamentais para se adentrar a natureza do fato linguístico. Não
há como negligenciar todo um saber já construído e que se
desenvolveu em outros tempos e se consolidou no século XX,
quer seja negando-o, quer seja deixando-o de lado.
Efetivamente, foram esses estudos, em seus desdobramentos
posteriores, derivando para diversas áreas de estudo da linguagem,
tal como a Sociolinguística, que permitiram a emergência, hoje,
nos Manuais de Ensino e outros documentos, aí incluindo os
textos oficiais, de declarações relativas ao ensino – aprendizagem
da Língua Portuguesa na Escola Básica, do tipo:
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O problema do preconceito disseminado na sociedade em
relação ás falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como
parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o
respeito à diferença. Para isso, e também para poder ensinar
língua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o
de que existe uma única forma “certa” de falar – a que se
parece com a escrita – e o de que a escrita é o espelho da fala–
e, sendo assim seria preciso “consertar” a fala do aluno para
evitar que ele escreva errado. Essas duas crenças produziram
uma prática de mutilação cultural que, além de desvalorizar a
forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se
fosse formada por incapazes (...)(Parâmetros Curriculares
Nacionais, Língua Portuguesa, volume 2, p. 31, 1997).
Observa-se aqui a consideração das variantes linguísticas
encontradas no território brasileiro e a necessidade de se
respeitarem essas variantes em sala de aula, evitando que o aluno
falante de uma variante popular da Língua Portuguesa seja
estigmatizado por ter um falar que não corresponde ao que é
antecipadamente considerado como o “certo”; e evitando-se, ao
mesmo tempo, que não apenas este aluno mas toda a comunidade
da qual ele é oriundo seja marcada como incapaz. Sem dúvida,
este já é um grande avanço para o ensino e a aprendizagem da
Língua Portuguesa.
Entretanto, ainda não se vê nas escolas, uma atmosfera natural
de absorção deste ensinamento e, mais do que isso, não se veem
na prática, iniciativas que procedam à sua incorporação no
cotidiano da escola e das aulas em Língua Portuguesa. Os
professores em boa parte não sabem como agir. Atuando em
força contrária, não são poucos os argumentos que se apresentam
e se apressam em desmentir e desacreditar ensinamentos como
esses, sem mesmo se ter muita clareza do que isso significa ou do
que possa ocorrer. Levantam-se vozes contrárias e muitas vezes
exaltadas sob a argumentação de que estes ensinamentos só
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impedem e dificultam a esperada ascensão social das classes
populares, com o auxílio da linguagem, em sociedades
democráticas como se diz ser a nossa. Praticar a fala de origem é
o mesmo que renunciar a qualquer pretensão de ascensão social;
dificultar essa ascensão, por ensinamentos como este que está aí
contido, é uma outra maneira de fazer permanecer um quadro de
desigualdade sem possibilidade de mudança. Em outras palavras,
é trabalhar pela manutenção da exclusão de grande parte da
população brasileira. Por isso, de modo geral, em meio a uma ou
outra novidade, pende a balança do ensino em direção à
manutenção, em boa parte do tempo, dos estudos em torno à
variante culta da Língua Portuguesa, a norma culta.
É preciso, porém, conhecer um pouco mais sobre o assunto
para falar dele. Em realidade, argumentos como esses impedem
mesmo que se discutam esses fatos linguísticos, que se conheçam
as várias realidades e performances de linguagem entre as pessoas.
De qualquer sociedade, adiante-se; não apenas a nossa, ainda que
na nossa haja uma realidade bem marcada em vista mesmo da
formação do português brasileiro.
Publicações como os Parâmetros Nacionais e outros semelhantes
vêm alertando para a necessidade de se contextualizarem os
estudos em torno à língua e à linguagem, retirando-os do espaço
que lhes era destinado, de estudos estáticos, apoiados em
conhecimentos da gramática normativa construída à base de
normas dadas como cultas; conhecimentos esses, os quais, por
sua vez, para se consolidarem, fundamentam-se principalmente
em eventos de língua praticados por determinadas personalidades
(autores) do mundo acadêmico e literato e em setores (como a
imprensa) da sociedade, considerados os mais aptos no uso
“idôneo”, “correto” , “nobre” da língua, paradigmas que devem
ser seguidos por todos nós, os falantes da Língua Portuguesa.
Sem dúvida, os Parâmetros Curriculares Nacionais são generosos
e prolíficos em reflexões mais flexíveis no trato com a linguagem,
admitindo e mesmo recomendando uma postura e uma prática
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de ensino da língua materna, a nossa língua portuguesa, que
observe, contemple, promova, pratique ações, atividades, reflexões
sobre a língua não mais tratada como uma nomenclatura, uma
relação de palavras as quais servem para a nomeação das coisas
que nos cercam, dos eventos que praticamos e que vemos
acontecerem em nosso entorno. E uma prática de ensino que
aborde o fato linguístico não somente para a consideração de sua
fidelidade ou não aos cânones da norma culta, da consideração
de um “certo” e um “errado” em nossas expressões linguísticas;
mas que veja este fato linguístico na riqueza que ele traz em si
mesmo, considerando uma série de fatores que são relevantes para
sua constituição e seu aparecimento como expressão de um falante
nativo de uma língua natural. É dessa riqueza que se pode e se
deve falar, claro, incluindo-se na discussão aspectos de natureza
cultural, ideológica, histórica e política – por que não dizer? –
posto que a língua, como qualquer elemento cultural, é objeto de
avaliação e de valoração pela sociedade e, mais do que isso, é, agora
sim, conforme dizem os estudiosos, um “instrumento” de poder,
de discriminação entre os homens. Nesse sentido, se posiciona
Gnerre (1985) comentando não ser a função denotativa da
linguagem “senão uma (d)entre outras, entre as quais ocupa a
posição central a função de comunicar ao ouvinte a posição que o
falante ocupa ou acha que ocupa na sociedade...” (1985, p.3)
O autor fala do poder e de discriminação que a linguagem
exerce sobre os homens, um poder e uma discriminação que,
certamente, a escola, no rastro de outras instituições da sociedade,
mantém sobre seus sujeitos, isto é, seus alunos, a razão de sua
existência.
É preciso que a escola pare e reflita sobre essa questão da
linguagem, libertando-se deste ideário, criando ou, se quisermos,
resgatando seu papel de promotora da igualdade entre os homens
através do conhecimento, do discernimento, do acesso à
informação. Isto ainda não se verifica em nosso meio,
principalmente em nossas escolas públicas, abertas ao grande
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segmento de jovens e crianças e mesmo aos adultos não
escolarizados, em sua absoluta maioria provenientes dos segmentos
mais populares e até estigmatizados da sociedade brasileira. O
professor tem aí um papel da maior importância e deve ter uma
formação mais cuidada, mais generosa e mais rigorosa em suas
bases e em suas fundamentações. Este tipo de reflexão não pode
faltar nos currículos das Instituições de Ensino Superior formadoras
de profissionais que lidam com o ensino de língua.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais procuram enfatizar também
a questão da natureza dialógica da linguagem, uma abordagem aos
estudos da linguagem que considera a situação espaço-temporal
da interação verbal, os interlocutores, as relações entre os
interlocutores e os sentidos construídos historicamente, envolvendo
essas relações entre interlocutores e aquilo de que falam. São estudos
que se preocupam com aspectos linguístico-discursivos da
comunicação humana, agrupados hoje sob uma grande área de
saber sobre a língua(gem) denominada de Análise do Discurso.
As premissas de fundamentação teórica encontrada nestes
Manuais que apontam para o entendimento de língua e da
linguagem como uma atividade dialógica, como um saber e uma
propriedade de todos os homens e mulheres de uma sociedade
dada, situada historicamente, entretanto precisam ser discutidas
com mais frequência, estar mais presentes nas conversas e no
trato não apenas do campo da linguística, no campo do estudo
da linguagem, mas em todo o campo das ciências humanas,
principalmente, onde se produz o conhecimento sobre o homem
e a ação do homem sobre seu semelhante e sobre seu entorno; as
reflexões precisam ser absorvidas por todos os atores do processo
de ensino-aprendizagem para que de fato possam ser incorporadas
à prática diária de sala de aula, quer no tempo destinado ao estudo
da língua(gem), quer nos outros momentos da escolaridade. Mas
não somente aí: a tarefa de formação de nossa infância e da
juventude pode-se dar em qualquer lugar onde se esteja, em casa,
com os nossos filhos, na rua, numa fila de ônibus, ou de banco,
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se quisermos. Ou seja, esse entendimento sobre a língua e a
linguagem precisa ser melhor trabalhado para que os nossos alunos
possam com naturalidade compreender o que se passa entre os
homens e as mulheres no que diz respeito ao seu comportamento
linguístico e avaliar melhor o papel absolutamente fundamental
que a língua/gem tem na formação do ser humano e de suas
consciências, nas sociedades. É sobre esse aspecto, a ser discutido
adiante, com mais detalhes, que pretendo efetivamente deixar
aqui a minha contribuição.
Os ensinamentos e recomendações dos documentos referidos
não têm ecoado de modo proveitoso nas escolas brasileiras, no
que diz respeito especificamente ao ensino da língua portuguesa.
O que se tem visto, nas escolas públicas, sobretudo em nosso
estado, é um completo desencontro, uma desorientação: os
professores por não saberem em quê se apoiar para fazerem um
trabalho como esse; por não terem o conhecimento; por não
terem tido, em sua formação de professor de Letras, oportunidade
para discutirem questões como essas, ou simplesmente por
entenderem que um ensino como esse, certamente demanda
muito mais esforço do que o que vem sendo empreendido, no
sentido de que são novas as determinações e os procedimentos,
atividades em sala de aula; e os resultados deste ensino, para
parecerem eficientes, conforme os modelos de avaliação em
vigência, deverão ter rituais de medida bem distintos daqueles
que até hoje vêm sendo realizados nas escolas. O fato é que não
se percebe maior amadurecimento nem maior clareza, nem maior
habilidade dos alunos em relação ao domínio de qualquer das
modalidades da língua, a falada e a escrita, e em relação à
capacidade de questionar em torno à língua(gem).
Os alunos da escola pública, hoje provenientes, em boa parte,
de segmentos da sociedade praticantes de falares de certo modo
distintos daqueles que são preconizados pela escola (pela
sociedade mais estudada, praticante da variante culta da língua,
falantes oriundos dos setores socioeconomicamente privilegiados),
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não se reconhecem ali, entre tantas outras razões – das quais não
cabe aqui análise – porque se veem em um espaço que não os
prestigia tanto do ponto de vista de sua performance linguística
como de sua inserção cultural. Nem a forma como falam, às vezes,
nem mesmo o sotaque, nem o que dizem, o seu conteúdo, a
significação – que afinal é aquilo para o quê falam – têm boa
receptividade. Ao contrário, a forma, isto é, a realidade fonológica
e gramatical da variedade linguística da língua portuguesa que
praticam é, com frequência, motivo de reparação, sem que haja
explicações plausíveis para o que acontece.
Como lembra Perini (2000), em qualquer estudo sobre os fatos
do meio que nos circunda, seja natural, seja cultural, ao se
questionar sobre algo, as respostas vêm revestidas de um tecido
científico, isto é, vêm explicadas cientificamente. Contudo, às
perguntas de língua e de gramática normativa, porventura lançadas
por alunos nos instantes dedicados a seu questionamento, sobre,
por exemplo, por que tal forma é certa e a outra é errada, a resposta
dada pelo professor é, via de regra, construída à base do: “ É
assim que é o certo” (PERINI, 2000, p.51). E isso assim acontece
porque está na essência da gramática normativa esta imposição.
Isso evidentemente não credencia saber algum. É preciso um
pouco mais de aprofundamento em torno ao assunto para que se
ofereça ao aluno /aprendiz uma explicação satisfatória à sua
curiosidade sobre a natureza da linguagem e de seu
funcionamento. E isso a escola pode promover, pode desenvolver
com seus alunos uma postura mais científica no trato das questões
linguísticas, como essa aqui referida, contribuindo para um
entendimento mais lúcido, mais produtivo e comprometido entre
as nossas crianças e jovens, que se pretende sejam cidadãos bem
formados e com capacidade de discernimento sobre a realidade
de seu entorno, incluindo aí a prática linguística.
O nível de desencontro, de desacertos que atinge o ensino de
Língua Portuguesa, sobretudo na escola pública, hoje, em nosso
país, porém, não se prende tão somente ao fato de que os
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professores não tenham tido uma formação de graduação como
a que estamos configurando aqui, que consideramos necessária
para responder aos questionamentos colocados. De fato, a
graduação em Letras, mesmo alguns cursos de Pedagogia, no país,
já há algum tempo, introduziram os estudos linguísticos em seus
currículos, ainda que não tão dedicados, por exemplo, a trabalhos
com os campos da Pragmática e da Análise do Discurso. Os
ensinamentos da Linguística e da Sociolinguística, porém, ainda
não se constituíram em referencial teórico de que os professores
lancem mão na construção de seus planos de curso, na elaboração
de atividades e práticas de sala de aula e na disposição de assumir
uma nova postura diante do fato de língua em sala de aula.
Em realidade, estamos, no que diz respeito ao ensino da língua
materna – muito aquém de uma realidade tal como a recomendada
nos Parâmetros Curriculares Nacionais, os quais, se bem entendidos,
se bem discutidos entre os professores, certamente renderão bons
frutos para a nossa escola, no que diz respeito ao ensino de língua
e linguagem.
A LÍNGUA(GEM) ENQUANTO FORMADORA
DE CONSCIÊNCIAS
Voltemos, porém, à discussão deixada atrás, em que se falava sobre
a importância e a força da língua e da linguagem na formação das
subjetividades, na formação das consciências do homem e da mulher.
Ou, se quisermos, na construção das significações, sobre a realidade
circundante, que habitam as nossas consciências, que orientam a
formação de pensamentos, emoções, sentimentos. Bakhtin revela
em seus escritos, respeito e consideração pela obra de Saussure,
considerado, com propriedade, o pai da linguística moderna. Mas
aponta, nessa abordagem, vieses que, para ele, comprometem uma
verdadeira compreensão do fenômeno da linguagem, segundo suas
reflexões, com as quais concordamos e aqui trazemos.
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Bakhtin não se satisfaz com a explicação dada pelo estudioso,
em seu Curso de linguística geral, ao fenômeno linguístico. Para ele,
a oração é uma unidade da língua, inteligível, examinada do ponto
de vista de sua organização sintática e de sua significação:
O autor mostra que o exame de uma unidade da língua falada
ou escrita, a que se dá o nome de oração, tomada totalmente
desvinculada da situação de uso, fora da interação verbal na qual
estão atuando outros fatores, tais como os interlocutores e os
sentidos que esses interlocutores trazem consigo sobre aquilo
que está sendo dito, nada diz verdadeiramente da natureza da
linguagem, não considera o acento que cada palavra carrega
consigo; não é possível então que se adote com relação a ela,
uma atitude responsiva ativa, isto é, que considere uma resposta do
interlocutor, com seu acento e o tom concedido a este dito.
Considerar tão somente esta oração é não considerar a resposta
do outro, do interlocutor, não admitir as variações de tom e de
expressividade que as palavras carregam e das quais nos
apropriamos em outras interações de fala já vivenciadas
anteriormente. As abordagens sobre a língua(gem) e a significação
tal como se apresentam nos estudos de Saussure, por exemplo,
estão fundamentadas na ideia de língua como um sistema rígido
de sinais, um sistema monológico que rege e controla os
significados. Essa abordagem não considera a palavra, o discurso
realizado efetivamente em uma situação sócio-verbal; não avalia
o peso das interações verbais para a vida da palavra, não mensura
a sua caminhada nos vários momentos em que ela foi significada
por ambos os interlocutores. Enfim, não vê a natureza dialógica
da palavra.
O funcionamento da linguagem, tal como se espera dos estudos
estruturalistas, evidentemente, não prevê esse movimento em
direção ao interlocutor, de que se espera uma atitude de
responsividade ativa. Para o estruturalista, a comunicação se faz
entre duas ou mais pessoas as quais se servem da linguagem como
um instrumento, um sistema de signos e sinais que por seus
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arranjos sintáticos carregam um significado que há de ser
decodificado pelos interlocutores. Este entendimento do
funcionamento linguístico não responde ao pensamento de
Bakhtin em torno à língua e à linguagem e seu uso entre as pessoas.
São suas palavras:
É por isso que a experiência verbal individual do homem
toma forma e evolui sob o efeito da interação contínua e
permanente com os enunciados individuais do outro. É uma
experiência que se pode, em certa medida, definir como um
processo de assimilação, mais ou menos criativo, das palavras
do outro (e não das palavras da língua). Nossa fala, isto é,
nossos enunciados (que incluem as obras literárias) estão
repletos de palavras dos outros (grifos do autor), caracterizadas,
em graus variáveis, pela alteridade ou pela assimilação,
caracterizadas, também em graus variáveis, por um emprego
consciente e decalcado. As palavras dos outros introduzem
sua própria expressividade, seu tom valorativo, que assimilamos,
reestruturamos, modificamos. (BAKHTIN, 1992, p.314).
(grifos nossos)
Nas palavras do pensador russo, se evidenciam, com clareza,
a natureza dialógica da linguagem e a heteroglossia presente em
nossa expressão. Diz-se heteroglossia porque o que falamos,
dizemos ou escrevemos “está repleto de palavras do outro,
caracterizadas, em graus variáveis, pela alteridade ou pela
assimilação”, conforme se pode ler na citação feita.
Numa perspectiva de língua(gem) entendida como uma
atividade dialogizada, em que a palavra é naturalmente dialógica,
em que a nossa palavra é sempre também palavra do outro, a
compreensão do que acontece na situação de fala deve-se dar
também a partir da análise de como ocorre a transmissão da palavra
alheia e sua incorporação/ assimilação à nossa. Isso significa distanciarnos de uma compreensão da língua que se resolve por si mesma
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enquanto um sistema de sinais fechado em seus limites; leva a
entender que as significações devem ser estudadas no movimento
da palavra em meio à vida social em que a linguagem é utilizada.
Bakhtin (2002), falando da estilística tradicional e contrapondo-a
ao seu pensamento, considera que “O discurso do pensamento
estilístico tradicional conhece apenas a si mesmo (isto é, ao seu
contexto), seu objeto, sua expressão direta, somente como um
discurso neutro da língua, como discurso de ninguém, como
simples possibilidade” (p.85). A estilística tradicional, sob a qual
estamos acostumados a compreender esses fatos de linguagem,
nos faz ver, na resposta do outro, uma palavra que não contempla
nenhuma “resistência do discurso de outrem”, uma palavra não
matizada, que não recebe tons nem acentos, por isso mesmo uma
resposta que não pode incomodar nem servir de contestação: a
palavra deve ter apenas aquela compreensão, aquele sentido. Fugir
a esse sentido é não conhecer a palavra, é desconhecer-lhe o
significado, único. O estudo da lingua(gem) não tem sido no
sentido de incorporar esses matizes e tons que as pessoas
emprestam ao discurso, submetido ao ritmo das falas das quais
as pessoas participam. Espera-se então que o entendimento do
objeto seja igualmente monológico, não tocado pela acentuação
que lhe emprestam as várias situações nas quais aquela palavra já
foi significada.
Algumas passagens de eventos de linguagem, coletadas em
nossos trabalhos de pesquisa na Universidade, ilustram com
clareza essa compreensão em torno ao conceito e à natureza da
linguagem aqui apresentadas, com base nos ensinamentos de
Bakhtin. O trecho abaixo é parte de uma entrevista de um garoto
que já tivera experiências de vida nas ruas e que se encontrava,
no momento da entrevista, acolhido por um órgão de assistência.
A entrevista foi concedida a uma professora universitária que
estava a realizar uma pesquisa em sociologia2:
ENT – Você frequentou a escola, não frequentou?
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– Eu só frequentei só foi a primeira série.Aí eu comecei a um
dia a ir, outro não, dia sim dia não, e indo para a rua, que ..
– Por que que você não gostava da escola?
– Porque eu queria ir para sinaleira, queria mais era ajudar
minha mãe, aí não...
– Não achava a escola importante não?
– Não, pra mim a escola era só... coisa que tinha que ir, só pra
escrever mas não tinha importância, pensava que importante pra
mim era sinaleira, que eu ia ajudar minha mãe, na sinaleira eu ia
arranjar um trabalho melhor, ai eu ia ajudar minha mãe melhor,
na escola não, eu ia só ficar escrevendo e sem ganhar nada... ajudar
minha mãe... depois eu...
– Hoje você mudou de ideia a respeito da escola? O que é que
você pensa da escola?
– Mudei. Hoje eu penso que a escola... que é muito melhor, a
pessoa aprende a ler a escrever e quem sabe, amanhã ou depois
arranja um trabalho melhor que possa mudar de vida. Eu só
mudei... pensando que a escola era uma coisa chata [...] quando
eu vim morar na instituição, que Edu me explicou que eu tinha
que ir para o colégio porque a escola é bom, ajuda as pessoas a
aprender ler, escrever, ai foi que eu [...]a gostar da escola, eu fui
alfabetizado pela moça.
Há uma palavra aqui em torno ao tema, a escola, que diz que
escola não vale para nada, você vai lá somente para escrever, mas se você
quiser obter algum dinheiro para sua sobrevivência de todo dia você terá de ir
para as ruas, para a sinaleira. Lá está o mais importante, o dinheiro. Mas,
ao final da passagem já se pode depreender outro entendimento
de instituição escolar, entendimento esse que não chega a esse
garoto senão quando ele entra para a instituição de assistência e
acolhimento: a escola como algo bom e que ensina coisas
importantes, ler e escrever.
A compreensão inicial que o garoto tem de escola como algo
aborrecido, que só servia para escrever, algo sem importância,
não deve ser entendida como uma simples ignorância do sentido
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comum de escola, um desvio do sentido da instituição escolar, tal
como aprendemos: a escola como instituição que oferece a
possibilidade de ascensão e de melhora social, sendo portanto
algo bom e necessário. É uma compreensão nascida das interações
sócio-verbais que ele vivencia, ao longo de sua vida. E nessas
experiências, esse é o tom que vem sendo dado à palavra, isto é,
esse é o entendimento que o menino tem da instituição social
Escola. Em um mundo em que há certamente prioridades
avassaladoras de sobrevivência que se apresentam todos os dias
para aquele menino e para sua família a instituição escolar não
necessariamente é contemplada com significações que só a
apreciem e falem de sua importância. O que se observa aqui é a
recusa a essa palavra que diz ser a escola uma instituição social
criada e desenvolvida para prover os meios de ascensão social
através do ensino da língua, da cultura, da ciência, da informação
geral, visando formar cidadãos atuantes na sociedade.
Se somos formados no caldo cultural da sociedade que nos
abriga, se nos formamos e à nossa consciência, pelo mergulho
nessas experiências, nas palavras do outro, do nosso interlocutor,
ao mesmo tempo em que vamos imprimindo à linguagem também
o nosso tom, não podemos estranhar ou considerar tal
entendimento de escola como algo desviante porque proferido
por um garoto pertencente a um grupo de que se diz não ter
cultura. As representações sociais com que lidamos são aquelas
“permitidas”, isto é, são aquelas forjadas nessas interações
vivenciadas. Este é o significado de escola para o menino.
Isto não está muito distante do que ocorre a qualquer um de
nós, em qualquer situação, em nosso dia-a-dia. Basta retomarmos
aqui e agora, fatos recentes e bastante divulgados por nossa
imprensa, e que geraram manifestações diversas. Falamos da
violência sofrida por Sirlei Dias, uma mulher carioca, de 32 anos,
doméstica, que sofreu agressão física e moral, espancamento,
xingamento e roubo por quatro jovens também cariocas, de classe
média, que acabaram por ser presos no último mês de junho.
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Muitos foram os comentários e reportagens sobre o acontecido.
As citações que vou aqui fazer foram retiradas de um desses
artigos, publicado no jornal A Tarde.3 Segundo o texto, o pai de
um dos rapazes agressores, diante do fato de seu filho vir a ser
preso, diz não ser “ justo que crianças que estudam, que estão na
faculdade, que trabalham, sejam mantidas presas. Tem que ter
outra forma de punição. Não é justo prender cinco jovens que
têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente não sabe de
onde vieram”.
Diante dessa fala indignada de um dos pais dos agressores,
todos eles maiores de dezenove anos, pergunta-se se é “justo”
chamar-se de crianças a rapazes maiores de dezoito anos, que às
cinco h da manha, em carro particular, param em um ponto de
ônibus unicamente com a finalidade de atingir a moça que se
encontrava ali à espera de condução.
E o que dizer quanto à palavra “bandidos” – que aparece ao
final do texto e que aí se encontra nomeando um grupo de pessoas
que funciona como de oposição a estas “crianças”, os jovens
agressores de Sirley? Por esta colocação, os agressores de Sirlei
não são bandidos. Bandidos são aqueles com quem eles vão-se
encontrar na prisão, segundo a fala do pai. Os rapazes são
“crianças”, estudantes que trabalham, têm família constituída de
pai e mãe: não podem ser considerados bandidos, não são
bandidos.
Imaginemos agora os diálogos que mantém esse pai – e pais
como ele – com seus filhos, em suas casas, sobre as várias situações
com que se defrontam na vida cotidiana. A ideia que fica é de
que os rapazes fizeram algo errado, por isso devem ser punidos;
mas não como bandidos, não podem ficar presos, são criaturas
de certo modo, inocentes e ingênuas, são crianças, são jovens.
Ou que, por uma razão ou por outra, não explicada, não merecem
o tratamento que estão querendo lhes dar. O feito dos agressores,
por outro lado, não foi agressão, o problema é que Sirley é mulher
e nesse caso o espancamento se faz mais evidente. Ainda nessa
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linha de tentativa de justificativa, é de arrepiar também a
surpreendente explicação para o ato, dada pelos agressores,
quando dizem que supunham ser aquela mulher que agrediram,
uma prostituta. Prostituta é então aí uma palavra que designa
uma pessoa que pode ser agredida por outras, sem que isto se
constitua um crime para aquele que agrediu – que, aliás, neste
caso, nem seria agressor.
Se em situações públicas esse pai expõe uma significação que
desperta indignação nos leitores, esperamos que na sua maioria,
ao pretender inocentar o filho e suas atitudes, não é insensato
pensar que, na intimidade de seu lar, as reflexões, as trocas, as
interações linguístico-discursivas com a família sejam plenas desses
entendimentos. E é desse manancial que o seu filho se nutre, na
construção de seu referencial, na constituição das representações
sociais que vão reger sua consciência e que vão conduzi-lo na
vida, na relação com os outros, na relação com o mundo. Se a
consciência se faz da expressão, como quer Bakhtin, este é o
momento ideal para se pensar no que fazemos a cada momento
em que entabulamos nossas conversações, nossas interações
verbais, sejam elas com o nosso próximo, o nosso filho, seja
com o nosso aluno, seja com o menino e a menina que se
aproxima de nós, na rua, no jardim, na sinaleira, na cidade. Seja
com quem for.
Uma outra passagem de entrevista com meninos de rua, pode
ilustrar um pouco mais o tanto de responsabilidade que cada um
de nós tem para com o nosso semelhante, tão somente pela natural
atividade de linguagem que exercitamos todos os dias e todas as
horas. A entrevista foi gravada por ocasião da pesquisa de tese de
doutorado, cujos sujeitos são garotos e garotas de rua.4
A.
ENT – Como é que as pessoas, como é que a sociedade trata
você, seus amigos que estão na rua?
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– Tem uns que trata mal [ – ]. Quando eu tava na rua mesmo,
passava uma mulher, eu: “tia, arranja um trocado”, ela: “vá
trabalhar, vagabundo”.
– “Vá trabalhar! Fica aí na rua!” Quando eu ia arranjar comida
mesmo, chegava num prédio: “tia, arranja um pouquinho de
comida?” “Ah, vá trabalhar, vai procurar alguma coisa prá fazer. Por
que não fica em casa? Não tem mãe, não tem pai, não sei o quê...” Aí eu
ficava assim olhando, falei: “(...) dá uma raiva”. Eu ir lá em cima dela dar
uma bronca, ela falando isso, ela não sabe, amanhã ou depois, quem
ri por último ri melhor...
B.
– [...] pensando que eu ia robar ele, saiu de junto de mim. Tem
outros quando passa de junto da gente fica falando, várias... é... falando
coisa, uns têm medo, outro... é... trata é... uns, principalmente uns,
tudo racista, quando vê a gente pede [...] alguma coisa nun dão, fala
coisas horrorosas pá gente... Certo que a gente tá na rua, mas também
né, mas não desse jeito que eles têm que tratar a gente. Eu mesmo...
eu me lembro... por isso o menino quando mata, faz, acontece...
porque eu acho que merece, uma parte merece, porque do jeito que
eles tratam... Ontem mesmo eu vi, o menino foi pedir: “moço, me
dá 10 centavos pá comprar um pão”. Ele falou: “vá procurar o que
fazer, vá robar que é melhor”. Ele pediu, não quis dar, por isso que ele vai e
roba. Eu dou razão a eles.[...]% É, porque pediu, mandou robar! Se foi
pro outro: “não, vá trabalhar, vai prá casa, trabalhar”. Não, ele
mandou foi robar. E tinha cara de barão, ele.
BREVES CONCLUSÕES
No estudo da fala de outrem e de sua assimilação numa esfera
extraliterária, isto é, na esfera da vida cotidiana dos homens e das
mulheres em sociedade, Bakhtin busca verificar não os
mecanismos de representação dessa língua(gem) mas os meios
de sua transmissão. Nesse percurso do seu projeto de reflexão
em torno à heteroglossia e ao dialogismo, o estudo da palavra do
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outro toma aqui um caminho em direção à questão da formação
ideológica dos homens: compreender a introdução da palavra do outro
vai iluminar a compreensão sobre a evolução ideológica do
homem: “um processo de escolhas e de assimilação das palavras
de outrem” (BAKHTIN, 2002, p. 142).
Essa palavra de outrem assume aqui, neste processo de
formação ideológica do homem, um matiz diferenciado,
relacionado às “bases de nossa atitude ideológica em relação ao
mundo e (de) nosso comportamento” (BAKHTIN, 2002, p.142).
Duas categorias são propostas então de conceituação da palavra
de outrem no processo de transmissão do discurso: a palavra de
autoridade e a palavra interiormente persuasiva. Tanto uma quanto
outra dessas modalidades de palavras, com as quais nos
deparamos, cotidianamente, em nossas vidas, ambas contribuem
para a formação de nossas consciências. Ainda que não possamos
falar delas aqui agora, o seu registro se faz necessário já que
estamos tratando da formação ideológica dos homens. São
categorias com as quais Bakhtin procura descrever os percursos
da formação das consciências dos homens, “as bases da nossa
atitude ideológica em relação ao mundo”.
Ao finalizar a nossa fala, chamamos a atenção para esses
aspectos que consideramos da maior importância e que dizem
respeito ao fenômeno da língua e da linguagem. Não se trata tão
somente da questão do ensino da língua e da linguagem na escola,
nem se restringe, ocasionalmente, aos problemas com que nos
deparamos, em nossos tempos e na sociedade brasileira, baiana
em particular, em relação ao propalado fracasso da empreitada
educacional na área da linguagem. Tudo isso é fato, já discutimos
algo a respeito e esperamos ter inclusive apontado para alguns
dos possíveis problemas causadores dos impasses e dos conflitos
que parecem se apresentar no enfrentamento ao ensino da
linguagem nas escolas. Superado todo esse quadro, resta ainda e
sempre a compreensão de que o ser humano é ser humano
também porque é ser falante – uma distinção em relação aos
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animais ditos não racionais; que a linguagem é que torna o homem
sujeito, e somente em sua atividade de linguagem, se subjetiva, se
situa no mundo e em relação aos outros homens e à realidade
que o circunda; que a linguagem é dialógica e que a nossa fala,
heteroglóssica como é, está plena da fala dos outros, e essas falas
que recebemos têm o tom e o acento dos enunciados já realizados,
vivenciados: nós não os colhemos no sistema da língua mas no
movimento incessante das nossas interações verbais, a linguagem
viva. Com essas palavras formamos a nossa consciência,
construímos os nossos referenciais sociais e ideológicos, partimos
para o enfrentamento e fazemos os nossos caminhos.
Dentro da perspectiva bakhtiniana de dialogia da palavra e da
heteroglossia de nosso discurso, o estudo dos procedimentos de
transmissão do discurso de outrem permite esclarecer um pouco
mais o processo de formação ideológica do homem e da mulher;
e fornece bons critérios para compreendermos melhor como a
língua(gem) funciona nos diálogos cotidianos – a base da vida
da linguagem – e qual sua função no desenvolvimento culturalideológico do ser humano.
NOTAS
As traduções dos textos estrangeiros referidos na bibliografia são de
minha responsabilidade.
2
A entrevista foi gentilmente cedida, ainda na sua forma gravada, no
ano de 1995, pela professora dra.Iara Dulce B. de Ataíde, professora
da UNEB e da UCSAL. A transcrição da entrevista foi feita por mim
mesma. O órgão de assistência de que se fala é o ICAJ – Instituto
Cristão de Atendimento aos Jovens. Salvador – Bahia.
3
FONTES, Malu. As violentas “crianças da classe média brasileira”.
A Tarde, Revista da TV, p. 9, 1o. julho de 2007.
4
Os resultados deste trabalho estão publicados em MACHADO, 2003.
1
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REFERÊNCIAS
BAKHTIN M. O problema do texto. In: Estética da criação verbal,
São Paulo: Martins Fontes, 1992.
BAKHTIN M. - VOLOSHINOV. El Signo ideológico y la filosofia del
lenguaje. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 1976 (original de
1929).
BAKHTIN, M. M. O Discurso no Romance. In BAKHTIN,
M. M. Questões de Literatura e Estética. A teoria do romance. São
Paulo: Anna Blume/Hucitec, 2002.
BRASIL, Secretaria de Educação fundamental. Parâmetros
curriculares nacionais. Brasília: MEC, 2002.
FARACO, Carlos Alberto. Some sources of Bakhtin’s
dialogism seen in great time. In ZYLKO, Boguslaw (ed.)
Bakhtin & his intellectual ambience. Gdansk: Wydawnictwo
Uniwersytetu Gdanskiego, 2002, p. 49-58.
FRANCHI, Carlos. Linguagem – atividade constitutiva. In
Almanaque – Cadernos de Literatura e Ensaio. 5 São Paulo:
Brasiliense. 1977, p. 9-27.
GNERRE, M. Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins
Fontes, 1985.
MACHADO, Rosa Helena Blanco. Vozes e silêncios de meninos de
rua. O que eles dizem sobre nossas instituições. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.
PERINE, Mário. Sofrendo a gramática. Ensaios sobre a linguagem.
3 ed. São Paulo: Ática, 2000.
TODOROV, Tzvetan. Mikhail Bakhtine. Le príncipe dialogique.
Paris: Edition du Seuil, 1981.
__________
Obs.:Este texto foi apresentado no III Ciclo de Seminários “Discutindo o
Ensino das Ciências do Homem e Letras”, organizado pela Academia Baiana
de Educação, em 11 de julho de 2007. Salvador, Bahia. O texto original foi
levemente ajustado para publicação nesta revista, ainda que conservando um
pouco do ritmo de uma comunicação oral.
Rosa Helena Blanco Machado é Professora Titular do DCH I – Departamento
de Ciências Humanas I – da Universidade do Estado da Bahia.
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Em favor da criação da
Academia de Ciências da Bahia
Roberto Figueira Santos
As pesquisas científicas e tecnológicas não alcançaram ainda,
no Brasil nem na Bahia, a devida valorização por parte de
expressiva parcela dos nossos conterrâneos. No entanto, a
economia das nações passou a depender, cada dia mais, da
racionalidade no aproveitamento dos recursos naturais e da
agregação de valor às matérias-primas disponíveis, mediante o
emprego de tecnologias baseadas no conhecimento
cientificamente adquirido. Essas atividades têm se revelado
essenciais para o bem-estar das sociedades modernas. São
altamente recomendáveis todas e quaisquer iniciativas que
estimulem a geração e a divulgação desses conhecimentos. Tendo
em vista circunstâncias históricas adiante analisadas, no Brasil foi
promulgada, recentemente, a chamada “Lei da Inovação” (Lei
número 19.973, de Dezembro de 2.004), destinada a ressaltar a
importância das pesquisas técno-científicas que envolvam
originalidade nas ideias e que inovem na concepção de produtos
e de processos. As particularidades da aplicação dessa lei deverão
ser analisadas pela Academia de Ciências ora sendo constituída.
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Além de estimular a expansão das fronteiras do conhecimento,
a nova Academia deverá promover o saudável debate entre
correntes de pensamento acerca de temas relevantes, quer nas
suas sessões ordinárias, quer pela realização de simpósios e de
congressos com a participação de cientistas estranhos ao seu
próprio quadro. A observância de normas éticas pertinentes a
essa atividade estará entre as cogitações de máxima importância
para os seus associados. A mobilização de recursos financeiros
para o funcionamento da Academia constará no Regimento da
nova instituição.
No Brasil, as pesquisas científicas e tecnológicas dependem
ainda, preponderantemente, do financiamento pelo poder público.
São sempre bem-vindas, por isso, as oportunidades para maior
divulgação dessas atividades, que precisam ter boa visibilidade
junto à população geral, à qual cabem as decisões mais relevantes
quanto ao futuro da nacionalidade.
À medida que o nosso país se desenvolve e a sua população
enriquece, tenderá a crescer a produção científica e tecnológica a
cargo das empresas privadas. Deverá ser este um dos fatores
essenciais à sofisticação da nossa economia. Frequentemente, as
imagens projetadas pelas instituições de pesquisa aparecem como
se estas fossem privilégio das sociedades altamente capitalizadas,
dispondo de recursos humanos excepcionalmente bem
preparados e com propósitos de grande transcendência. Não
obstante, quando adequadamente planejadas, entre populações
que aspirem intensificar o seu desenvolvimento econômico e
social, as pesquisas técno-científicas poderão ser importantes
fatores de inclusão social.
Durante séculos, o Brasil importou grande parcela do que a
nossa população consumiu. Entre os produtos localmente
fabricados, preponderaram processos desenvolvidos em outros
países. A escassa investigação cientificamente orientada, durante
longo período resultou do esforço de pesquisadores estrangeiros
e de brasileiros formados em países europeus. Ressalvadas umas
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poucas exceções, essas pesquisas não se realizaram em entidades
de ensino superior, e, sim, em órgãos especializados, cujo campo
de atuação envolveu ora a saúde pública (para a fabricação de
vacinas), ora a agronomia (visando a saúde animal e vegetal), ora
a identificação dos nossos recursos naturais (com finalidade
econômica). Não existiam, entre nós, entidades comprometidas
com a formação de pesquisadores.
Muito tardiamente, já no meado do século XX, a economia
nacional entrou em nova etapa, caracterizada pela criação de
incentivos para a substituição por produtos fabricados no próprio
país, de similares antes importados. Logo se tornou evidente a
necessidade do melhor conhecimento das peculiaridades das
nossas matérias-primas, do nosso mercado e da nossa mão de
obra, o que teria de ser alcançado mediante a formação local de
pesquisadores que se encarregassem de tais tarefas. Foi, então, criado
o “Conselho Nacional de Pesquisas”, com a sigla CNPq, depois
designado “Conselho Nacional para o Desenvolvimento
Científico e Tecnológico”. Surgiram, em alguns Estados,
fundações de apoio à pesquisa. As Universidades constituíram o
campo natural para o preparo dos pesquisadores, o que levava,
obrigatoriamente, ao estímulo da realização de pesquisas no
ambiente universitário. Foi este o momento propício para a
regulamentação dos programas de pós-graduação stricto sensu
(cursos de mestrado e de doutorado) e para o aprofundamento,
nas Universidades, dos dispositivos encarregados das disciplinas
referentes aos setores básicos do conhecimento. Foi o que ocorreu
mediante a restruturação universitária determinada pelos decretosleis 53 de 1966 e 252 de 1967. Simultaneamente, na rede de
Universidades federais teve início a implantação do regime de
trabalho docente em dedicação exclusiva, fator da máxima
importância para o sucesso na elaboração de pesquisas.
Reconhecidamente, é mais fácil o recrutamento de pessoal de
magistério com dedicação exclusiva para as matérias básicas do
que para as disciplinas profissionalizantes. Desde então, a
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produção científica e tecnológica foi ampliada e aprimorada,
consideravelmente, nas nossas Universidades federais. Aos
poucos, mais tarde, de grande importador de produtos
manufaturados, o Brasil vem se transformando em fabricante e
exportador de mercadorias com expressiva agregação de valor às
matérias-primas.
Até à implantação das primeiras Faculdades de Filosofia,
Ciências e Letras, no começo da década de 1930, os estudos em
nível superior referentes aos setores básicos do conhecimento
(matemática, física, química, biologia, geociências, ciências
humanas, letras, filosofia) sofreram restrições condicionadas pela
função que lhes cabia naquela época, que era a de apoiar a
compreensão das práticas inerentes a determinada profissão. Nas
nossas Faculdades, portanto, ressalvadas umas poucas exceções,
as citadas disciplinas não eram cultivadas pelo importante
significado do seu conteúdo no aperfeiçoamento da inteligência
e na capacidade de raciocínio do estudante, e sim pelo apoio que
proporcionavam ao aprendizado das práticas correspondentes à
profissão escolhida pelo aluno. Para citar, apenas, alguns exemplos,
era o que ocorria, então, nas Faculdades de Engenharia, Medicina,
Agronomia, com o aprendizado da física e da química. Os escassos
trabalhos de investigação científica então realizados resultaram,
quase sempre, de iniciativas individuais e, não, de projetos
institucionais.
Durante mais de três séculos, entre os anos 1500 e 1800, os
nossos colonizadores não admitiram a existência de cursos
superiores no Brasil. Entre o começo do século XIX até cerca da
metade dos anos 1900, o propósito essencial das nossas escolas
de nível superior consistiu no preparo da mão de obra necessária
à prestação de serviços especializados à população local. Antes e
logo depois da Independência do Brasil, havia sido muito
insuficiente o número de profissionais com estudos universitários
vindos da Europa para a principal colônia portuguesa. Tornarase urgente, ainda mais pelo aumento da população, implantar o
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sentido profissionalizante atribuído às Escolas ou Faculdades
então criadas. Eram elas completas em si mesmas no sentido de
que, precedendo o ensino das práticas profissionais, cada qual
dessas Faculdades oferecesse aos alunos as disciplinas básicas
essenciais à compreensão e ao preparo para o exercício da
profissão. Alem disso, por muito tempo, as Faculdades não se
articularam entre si, mesmo quando a serviço da mesma
comunidade, no intuito de formarem Universidades. Os nossos
conterrâneos, a esse tempo, reconheciam nas instituições de nível
superior, tão somente, a função de formar a mão de obra
indispensável à prestação de serviços especializados às populações.
Apenas, excepcionalmente, eram elas avaliadas pela qualidade e
pelo volume de pesquisas nelas produzidas. No entanto, essa é a
avaliação habitual entre os que habitam países que, de mais tempo,
ostentavam elevado nível cultural. Por ser tão recente no Brasil,
parte expressiva da nossa população e das nossas lideranças apenas
começa a compenetrar-se da importância da missão de realizar
pesquisas técno-científicas, como essencial ao próprio conceito
de Universidade.
No meado do século XX, conforme já assinalamos, o Brasil
havia adotado a política da substituição de importações, ao
estimular a produção local de bens e de serviços mediante
processos desenvolvidos em outros países. Valeu, para isso, o
enorme mercado interno representado pela nossa grande
população. Em contraste, outros países, a exemplo da Coréia do
Sul, por não contarem com idêntica magnitude no seu mercado
interno, decidiram ampliar a sua produção visando a exportação,
o que os obrigou a buscarem inovações na produção, mediante
pesquisas técnico-científicas que atraíssem a preferência dos
consumidores entre produtos semelhantes, no competitivo
mercado internacional.
Explica-se pelos motivos apontados, que no Brasil se hajam
originado, relativamente, poucas ideias inovadoras que justifiquem
a proteção pelas leis internacionais de defesa da propriedade
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intelectual. É esse um dos fatores responsáveis pelo reduzido
número de pedidos de registro de patentes até agora submetidos
por pesquisadores brasileiros, comparado com os que se originam
em outros países. A análise aprofundada das normas de defesa
da propriedade intelectual, paralelamente à regulamentação
criteriosa do sistema de patentes, estarão entre os objetivos da
futura Academia de Ciências.
A Academia de Ciências da Bahia deverá ocupar-se com a
promoção do ensino das ciências aos jovens, desde a mais tenra
idade, mediante metodologia ajustada aos alunos. Infelizmente, foi
muito tardio, entre nós, a perda do prestígio da pedagogia baseada
na exclusiva transmissão, pelo professor, de enorme volume de
informações a serem acumuladas na memória dos alunos. É o que
passou à história sob a designação de “decoreba”, hoje condenada
e detestada por justas razões. Em substituição, tem se difundido
entre nós, o aprimoramento da capacidade de raciocínio do aluno,
por meio do incentivo, pelo professor, ao debate sobre as criações
da inteligência humana e sobre a observação de fatos que
conduzam à redescoberta, pelos alunos, das leis da natureza. O
atraso dessa evolução tem contribuído para que muitos dos nossos
cientistas não sejam, ainda, suficientemente inclinados a valorizar
o pensamento criativo e inovador.
O preparo adequado de professores, em números muito mais
elevados do que se tem verificado até agora, constitui o principal
caminho para que se acelere, no nosso meio, a modernização da
pedagogia das ciências em todos os níveis de educação. Por sua
vez, o exercício satisfatório das tarefas desses professores carece
de uma grande ampliação no apoio material a eles oferecido, sob
a forma de melhores salários, laboratórios escolares bem
equipados, livros apropriados, e visitas a museus didáticos. Os
museus de ciência e tecnologia, quando devidamente organizados,
são instrumentos poderosíssimos para a exata compreensão, pelos
jovens, do significado do desenvolvimento científico e tecnológico
na sociedade moderna.
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Tem sido, entre nós, muito insuficiente o registro dos fatos
relevantes para a história da ciência e da tecnologia, nos arquivos
das instituições dedicadas a essa atividade. A Academia de Ciências
tentará corrigir essa deficiência.
As iniciativas tendentes à popularização da ciência terão muito a
ganhar com a colaboração ainda mais decidida dos órgãos de
comunicação, do que tem ocorrido até agora. Entre outras
providências que a Academia de Ciências da Bahia deverá
incentivar, estará o preparo de profissionais especializados no
jornalismo científico.
A crescente complexidade das providências referentes à
organização, ao planejamento e ao financiamento das entidades
encarregadas de pesquisas científicas e tecnológicas e da formação
dos pesquisadores, vem exigindo a colaboração de gestores que
conheçam o assunto em profundidade. É esse mais um importante
item a ser apreciado pela futura Academia de Ciências.
Em virtude do exposto acima, cabe resumir nos seguintes
termos os objetivos da Academia a ser criada:
a) incentivar a realização, entre nós, de pesquisas sobre temas
relevantes de ciência e de tecnologia, tanto em entidades públicas
como privadas;
b) estimular a formação de pesquisadores, preferentemente,
em instituições universitárias que possuam ou aspirem criar
tradição em linhas de investigação de reconhecida importância,
situadas nas fronteiras do conhecimento e que se apliquem às
tecnologias consideradas “de ponta” no momento dado;
c) analisar em profundidade a “lei da inovação” na pesquisa
científica e tecnológica junto ao ambiente produtivo nacional;
d) estimular o ensino das ciências em todas as idades, com a
metodologia e os materiais ajustados às peculiaridades dos alunos;
e) servir de elo entre cientistas e instituições locais, de um
lado, e, de outra parte, junto a entidades projetadas nacional e
internacionalmente, visando a troca de informações em caráter
pessoal e a criação de oportunidades para trabalhos em parceria;
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f) apoiar decididamente iniciativas que visem a popularização
da ciência em termos corretos, quer na área do jornalismo
científico, como pela organização de museus de ciência e
tecnologia com feitio didático;
g) priorizar a formação de lideranças que atuem no
cumprimento dos items a, b, c, d, e e f acima enunciados;
h) identificar e apoiar projetos técno-científicos que
contribuam para a inclusão social;
i) ocupar-se com a criação de oportunidades de emprego para
os cientistas com a formação adequada, particularmente para os
que se disponhamn a trabalhar sob o regime de dedicação
exclusiva;
j) apoiar encarregadas do registro de fatos relevantes para a
história da ciência e da tecnologia, tanto em âmbito local como
global.
Bahia, Julho de 2009.
Roberto Figueira Santos é ex-Governador da Bahia, ex-Reitor da Universidade
Federal da Bahia. Desde 1971 ocupa a Cadeira nº 26 da ALB.
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CONDIÇÃO
Ruy Espinheira Filho
1
E aqui estou escrevendo mais um livro.
Não sei até quando escreverei mais um livro.
Não posso saber,
não pertenço à raça irritada e depressiva
dos profetas.
O que sei é que venho tentando escrever livros
desde que respirei pela primeira vez
conscientemente
o ar da sala em que meu pai,
colhendo e abrindo misteriosos objetos
de longas e altas prateleiras,
mergulhava no concentrado silêncio em que
(eu o soube depois)
conversava com Platão,
Eça, Proust, Huxley,
Pessoa, Homero, Skakespeare,
Voltaire,
Roger Martin Du Gard,
Pierre Van Paassen,
Rubem Braga,
Camões, Sosígenes Costa,
Bandeira, Cecília, Drummond, Quintana,
Bertrand Russell,
Vieira,
por exemplo.
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2
Na verdade, houve um antes
de tentar decifrar aqueles objetos mágicos
de que fala muitas vezes Borges
relembrando Emerson.
Para tanto,
por meses e meses,
minha mãe me guiou entre os primeiros e hostis
hieróglifos.
E com infinita paciência,
pois desde o início bem sabia que eu não me
chamava
Jean-François Champollion.
3
Penso estas coisas
enquanto, mais uma vez, escrevo,
muito depois de meu pai se tornar
memória luminosa,
como aqueles com quem conversava em silêncio,
e a paciência de minha mãe
finalmente já ter merecido
o devido repouso.
4
Sim, novamente escrevendo.
Sem saber, como sempre, aonde estou indo,
se é que estou indo a algum lugar.
Às vezes me ocorre
que escrever é exatamente isto: ofício
de quem não sabe aonde ir.
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E, como não sabe, tateia
na névoa
à espera de encontrar alguma coisa
que não só não sabe onde está
como não sabe o que é
e que talvez seja uma parte da alma que ficou
perdida
na travessia
entre sombras ancestrais
e a vida.
5
Ao contrário do que versejou o poeta Drummond,
a literatura não estragou as minhas melhores horas
de amor.
Na verdade, deu-me algumas das minhas melhores.
Amor de muitos textos admiráveis,
muitas mulheres, muitos heróis
e mundos além do mundo.
Vasto sonho carregado de sonhos,
em que eu mesmo fui e sou meus sonhos
e o sonho nos meus sonhos.
Sim, também sofrimentos.
Sim, também horrores.
Sim, também abominações.
Mas é que os sonhos são coisas da vida,
nascem da vida,
não se pode sonhar senão com a vida,
que talvez seja também sonho, como acreditava
Calderón de La Barca.
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6
A sala mágica de meu pai se desfez no tempo,
que é,
como diz Wystan Hugh Auden,
sempre o culpado.
Conservei alguns dos seus objetos,
outros fui amealhando ao longo dos anos.
Agora estou aqui, em minha própria sala mágica,
de que alguns se queixam por causa do mofo,
da poeira e dos ácaros,
que não sei se existem e se existirem
também são mofo, poeira e ácaros
mágicos.
Sinto-me melhor aqui do que em qualquer lugar.
Meu pai certamente se sentia ainda melhor
em sua sala prodigiosa,
pois não lhe faltava pedaço nenhum da alma
e só precisava escrever as peças jurídicas
necessárias
ao nosso sustento.
Quanto a mim, estão vendo,
continuo tateando
na névoa.
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7
Continuo, continuo.
Assim creio que será o tempo que ainda me resta.
Não se trata de resolução, mas de condição.
Que não desejo a ninguém, porém não preferiria
outra
qualquer.
Olho em torno,
nas estantes,
os velhos e novos rostos amigos,
densos de sabedoria, aventuras, dúvidas, angústia,
revolta, nostalgia, esperança, paixão, lirismo.
Felicidade também, para quem sabe reconhecê-la.
Como eu,
que tenho tantas limitações,
materiais e de espírito,
e tanto me preocupo com família
e amigos,
e trago muitas perdas e perenes saudades
e chagas de injustiças
e às vezes não sou senão um vale
de lágrimas,
mesmo quando elas não me chegam
aos olhos.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
8
Sim, aqui, entre as paredes forradas
por milhares de objetos inesgotáveis
em maravilhas e espantos,
reconheço que sou feliz.
Creio mesmo que sempre fui feliz,
inclusive nos momentos em que me sentia
e me dizia
infeliz.
E, nesta sala, agora, escrevendo
não sei o quê,
nem para quê,
sem porto de origem ou de destino,
sinto-me plenamente feliz,
como feliz também quando, daqui a pouco, sair
para janeiro,
que, além da varanda,
sonha coqueiros à brisa e mar e céu
azuis.
Ruy Espinheira Filho é escritor, jornalista e professor da Universidade Federal
da Bahia, é autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios, tendo recebido
diversos prêmios nacionais. Desde 2000 ocupa a Cadeira nº 17 da ALB.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
CINCO POEMAS
AUTOBIOGRÁFICOS
Fernando da Rocha Peres
DECISÃO
Se a Bíblia tudo diz,
contém, prescreve, explica,
redime, salva,
os poetas são uns toleirões,
sentimentais e estetas.
Assim sendo versejo!
2011, maio
Salvadolores
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R EVISTA
DA
ACADEMIA
DE
LETRAS
DA
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CRIAÇÃO
O verso é branco
porque é aberto
e contém não contendo
a forma sem imposturas.
Whitman ensinou com seus berros,
janelas abertas,
que a semente e o sêmen
soltam a vida por aí, ao vento.
Como é difícil versejar...
Como é difícil criar, versos brancos
e crianças.
2011, maio
Salvadolores
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
TRAPOS
Não quero correntes,
e sim horizontes.
Não quero cadeados,
e sim descampados.
Não quero gaiolas,
e sim gaivotas.
O não querer é assim,
um contraste de palavras,
de sentimentos, escamas e lavras.
E o querer, como é?
Tudo que levo no bolso,
na mão e no coração,
plenos ou vazios,
e está nos horizontes,
nos descampados da vida
e nas asas das gaivotas:
o infinito, o salto, o voo, o sonho,
rondas que entontecem gentes,
e fazem dos poetas trapos.
2011, maio
Salvadolores
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R EVISTA
DA
ACADEMIA
DE
LETRAS
DA
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LAUREATE
Não sou estúpido
pois leio a poesia
dos outros,
e escrevo aos domingos
os versos da semana,
assim como vou ao supermercado:
GOD SALE THE POET.
GUDEIRO
Quando menino
jogava bolinha de gude
no quintal.
Um velho peru
arrastando as asas
gostava de ciscá-las:
viciado em berlindes
tecnocoloridas,
tinha bom gosto
e preferia as americanas.
Um dia o peru gudeiro
ganhou os aplausos
no Natal dos Peres.
Fernando da Rocha Peres é escritor, historiador e professor da Universidade
Federal da Bahia; é autor de dezenas de livros de poesia e ensaios. Desde
1988 ocupa a Cadeira nº 25 da ALB.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
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ROMANCE DA VOLTA
DE ULISSES
Myriam Fraga
Quando Ulisses regressou
Eu estava tão distraída
Em minha tapeçaria
Que a princípio não entendi
Porque o cachorro gania.
Foi um antigo serviçal
Quem me alertou os sentidos:
– “Senhora, por um acaso
Não vedes vosso marido?”
Voltei-me, desnorteada,
À procura de um prodígio,
Mas o homem que ali estava
Não me era conhecido.
O tempo que tudo vence
Também o tinha vencido,
Não encontrei nem a sombra
Daquele amante perdido...
Onde o porte de guerreiro
Com seu olhar atrevido?
Onde estava o navegante
De mundos desconhecidos?
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R EVISTA
DA
ACADEMIA
DE
LETRAS
DA
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Os dez anos de tormenta
Na incerteza dos perigos,
Ofuscaram por completo
O brilho dos olhos vivos
E a barba que emoldurava
Seu belo rosto curtido
Era agora um pêlo crespo
Falhado e descolorido.
Os braços já não curvavam
Com a força de antigamente
O mesmo arco potente
Com que enfrentava o inimigo.
Porém o que me tocava,
O que mais me compungia,
Era saber que era outro
O homem por quem morria,
Esperando a vida inteira
Enquanto um pano tecia,
Pensando em seu beijo quente,
No abraço que me envolvia.
Por quem chorava de noite
Na cama em que não dormia,
Por quem tanto me guardara
Dos outros que me queriam.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
Com o coração apertado,
Lembrei da fala macia
Sussurrando em meu ouvido
Palavras quase esquecidas.
Lembrei da paixão ardente,
Do beijo da despedida
De um homem tão diferente
Daquele que agora vinha,
Peregrino de passagem
Que em busca de ceia e pouso
Em minha porta batia.
E vi que dos anos todos,
Quando chorava e tecia,
Só ficara o sentimento
De saber que o mundo gira,
Sem descanso e sem medida
E que nada mais restara
Daquela espera sofrida,
Além de um velho sudário
Tecido com a própria vida.
Mar Grande, 02-02-2010.
__________
Myriam Fraga é administradora cultural, Diretora da Fundação Casa de Jorge
Amado; é poeta, ensaísta e ficcionista, autora de diversos livros, como Poesia
Reunida (2008). Desde 1985 ocupa a Cadeira nº 13 da ALB.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
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POEMAS
Cyro de Mattos
DEVASTAÇÃO
I
Vem das cinzas
Essa flor sonora
Que a agonia gera.
Horas de amor,
Anos de chuva,
Minúsculos dramas.
A fome persistente
De tal sorte escoa
O instante de terror.
Escuta: o riso insano
Cobre os tocos,
Penas verdes e azuis
Da ópera que ecoa
Sem fragrâncias.
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A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
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II
Pia no mato neste verão
Chamando o macho
Ou por estar em extinção?
Quem tanto amor viveu
Recua sem as flores
Onde tomba a aurora.
A vida estava aqui e ali,
O rio sem morrer de sede,
A terra debaixo da nuvem..
Vento que sopra sombras
É apenas uma forma
Da arma do crime.
Verso do bicho único
Virando fera do nada,
Sofredor de um mal
Que nele caminha soberbo.
De mais vítimas soubesse
Para soterrar os verdes e azuis
Até o último gemido
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R EVISTA
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DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
O COMUNICADOR
Sedenta e faminta a tua alma
Das amargas que eleges como facas.
Sanha em que lateja teu ciúme,
A inveja do poeta e suas vitórias.
Prazer de ferir o teu teatro
Onde cães ladram raivosos.
O mundo desumano te fascina
Embora exista a flor até no pântano.
Há o som da foto três por quatro,
A arenga nessa baba enfadonha.
Penduricalhos: óculos e binóculos
Enfeitam teus clichês na rima tola.
Nessa ferrenha disciplina diária
Verdades essenciais não escutas.
No próspero comércio do poder
A falsa glória reserva tua cota.
Barras de ouro ou em sabão
Na miopia da leitura frouxa
Do que aconteceu e acontece
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
– De que lado não importa.
Assim o sol com seu cristal
Não risca as estações generosas
Que ele põe nos seres e coisas
Quando colhe brisas e chuvas.
A lucidez dos puros sentimentos.
A beleza que renegas da vida
Tece em mim mesmo a cada dia
Os fios eternos do sonho
Entre o luar e a folhagem.
Embalam-me com a aragem
Dos jardins que fecundam formas.
Não demora o tempo a cobrar-te
Isso em que outrora escrevias.
Vestido de nadas no leito solitário
Não deixa dúvidas teu oco resumo.
Justo tributo em metais de silêncio
Sem o provinciano tom diabólico.
__________
Cyro de Mattos é Bacharel em Direito, poeta e ficcionista, autor de diversos
livros, alguns dos quais premiados nacionalmente. Tem textos traduzidos no
exterior e recebeu, recentemente, um prêmio na Itália.É membro
correspondente da ALB.
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DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
POEMAS
Gláucia Lemos
INVENTÁRIO
Eu só tenho de meu
estes pés machucados
marcados pelo chão destes caminhos.
Pés dos quais ninguém vê gotejando
o sangue dos sozinhos.
O que tenho de meu
são estas mãos
que há tanto tempo mourejam e mourejam
e me enxugam o suor do meu rosto.
Mãos que doem sob os calos da empreitada,
e gemem da geada do abandono.
Eu só tenho aqui dentro este vazio,
E esta vontade de entender a vida
traiçoeira,
a escorrer-se nos suores
destes pés e destas mãos
todos os dias.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
O SONETO DOS IRREDIMIDOS
Guardarás a palavra, e da palavra
o segredo que eu nunca te direi
saber. Como em nós próprios se guardava
o mal que me causaste e eu te causei.
Fui teus olhos, tuas mãos, e a própria clava
fui na tua luta. Escravo foste e rei
no meu destino. Me amaste o que restava
do pouco que eu quis ser, mas ser não sei.
Fica de nós, legado de dois loucos,
dos que se amaram como se amam poucos,
dos que tudo se deram sem ter nada.
A nós, por pena, cabe uma alma exangue.
Sentirás chagas no teu ombro em sangue,
da cruz que no meu ombro é carregada.
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R EVISTA
DA
ACADEMIA
DE
LETRAS
DA
B A H I A , n. 50, 2011
SONETO DO ENVOLVIMENTO
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixoa e húmus. Sol ou frio.
Ora, numa vetigem rodopio
indo à flor da corrente, ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu perfil esguio.
Perderam-se os meus pés por estas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.
Por isso me pergunto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu que estou querendo ir.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
SONETO SEM OFERTÓRIO
A quem escrevo quando escrevo à toa
se mãos não tenho a grafar destinos?
Se os versos rolam como rolam brumas
na turva espuma do apagar das noites.
Se os versos cantam como cantam dores
se são pedaços dos espaços mortos,
a quem me entrego nas palavras soltas
qual folhas rotas na voragem fosca?
Se os versos choram como choram rezas
se nada prezas dos perdidos beijos
a quem os venho ventilando ao vento?
Se não me perco sob as coisas torpes
se não me elevo sobre as coisas santas,
a quem eu canto quando escrevo à toa?
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R EVISTA
DA
ACADEMIA
DE
LETRAS
DA
B A H I A , n. 50, 2011
ÚLTIMO VERÃO
Quando ele chegou era verão.
Havia galos e sementes nos quintais.
Ele habitou as salas e as janelas,
o panorama azul aberto à serra,
os cheiros de café e os meus cristais.
As goiabas já amadureciam.
Ao vento os meus lençóis embandeiravam
avisos de chegada.
Eu acendia as lamparinas frias,
porque ao fim da tarde ensombrecia,
até que despertasse a madrugada.
Quando a noite acabou, chegara o inverno.
A densa manta sufocava a luz
que, engastada no céu, amortecia.
Ele montou no seu selim ligeiro,
e aquelas marcas dos cascos no terreiro
foi tudo o que ficou daquele dia.
Nunca mais foi verão naquela casa,
nem nas janelas, nem nos meus beirais.
Nem galos, nem sementes nos quintais.
.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
VIAGEM
“Perdido em ti, jamais dou trégua a mim.”
Luis Antônio Cajazeira Ramos
Escondo o que me dizem meus silêncios.
Dentro em mim mesma oculto os meus pavores.
Nunca sei ler no turvo que se estende
no não saber do que não sei de amores.
Navego há muito tempo em noite escura.
E a aventurar a rota das estrelas
me desventuro em trágica aventura
de solidões antigas e procelas.
Resta tão pouco em meu batel... E é noite.
Ficou tão nada em sobra dos açoites,
que atracar talvez fosse a paz dos céus.
Mas se estendo meus braços do rochedo
ao qual me agarro, sei que sinto medo
de não saber como se diz adeus.
__________
Gláucia Lemos é bacharel em Direito, crítica de arte, poeta, contista e
romancista; é autora de mais de 30 livros, com vários prêmios
conquistados.Desde 2010 ocupa a Cadeira nº 14 da ALB.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
POEMAS
Maria Lúcia Martins
UM PONTO
Um ponto dentro de nós.
Só isto: um ponto.
O ponto, uma posição e nenhuma
dimensão. Para além de existir
dentro de nós.
Um ponto.
A espera de ser tocado
a cada vez que re-começamos
outro intervalo infinito
de nossa vida finita.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
DIAMANTE NÃO VIRA ROSA
I
Sob teus pés
sussurra seco
o mar de folhas
de bom outono,
vermelho roxo,
abóbora, sangue
e verde mosto
à cor do vento.
Da terra escorre
chuva deitada
entre folhagens
ao podre húmus.
E as samaúmas
de vida imensa
prenham nodosas
mil sacupenas.
Assim me atenho.
Em nada penso
pensa-me o nada:
árvore ou alma?
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
II
Do livro de lenho claro,
salmos de saltimbancos
nas vozes de goliardos
vai procissão de cegos
desejo des/incarnado.
Sonho florado, espinhos
furando o umbigo da alma.
Roca (agulha de estanho)
fios fúxia, manta acre,
enxuga o leite e o sangue.
Matéria é nada e é tudo.
Minhoca e minério se atraem
vingam sémem, fruto, malva.
Mas diamante não vira rosa.
Nem o espinho, diamante.
Os nervos de um corpo inteiro
não duram o osso de um dedo.
A idéia (invenção de uma máquina,
ou o traço de mais pura graça)
não compra uma grama de ouro.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
III
Lembrar viaja abismos primevos
e imagens reais rugem em silêncio.
Aos olhos, tuas extremas cenas.
Cravado (caprichos do cérebro)
o trauma cala no corpo.
Lembrar acende mil células
do corpo, intensa viagem
DOR que te muda em algoz.
Tempo: memória só-negada
o trauma fala no corpo.
Lembrar. Descidas as pálpebras
à luz da manhã escancarada
às vezes, a poesia passa;
Passa e fecunda o poema
de ressussitar a alma.
Às vezes.
Às vezes.
Rio, 9 de setembro de 2010.
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R EVISTA
DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
ALABÊ
Alabê
é o cuidador.
Sob atabaque e agogô,
e o improviso da dança,
nasce a saga sonora.
Alabê, docemente,
leva a moça-em-transe,
negra de espáduas largas,
para a beira do precipício.
“Toda beleza é sozinha:
(explica alabé cuidador)
cruel. Sabedora da queda,
nenhuma tristeza ou dor,
nenhum toque, nem palavra,
faz mais leve a sua sina.
Destino veio da névoa,
lá dos altos da montanha.
Ninguém. Nem a sombra
acompanha a moça na queda”.
__________
Maria Lúcia Martins é Licenciada em Filosofia (Universidade Estadual do
Rio de Janeiro, 1976), especialista em Educação Matemática e Psicopedagogia
Clínica e Institucional; é autora de doze livros de poesia, de ensaio e de ficção.
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A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
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TRÊS BAILARINAS
Alexandre Bonafim
I
BAILARINA MARÍTIMA
a Sophia de Mello Breyner Andresen
Os búzios ornam teus cabelos,
onde adormecem as tempestades.
Os ventos, as dunas, as praias
são a medida de tuas mãos,
o acorde de teus pulsos.
Danças ausente de corpo,
despida de gestos.
Danças em essência apenas,
em pureza plena.
E no vidro do ar riscas a iluminura
dos relâmpagos, o arabesco do espanto.
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DA
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DE
L ETRAS
DA
B AHIA , n. 50, 2011
Os búzios guardam tuas vazantes,
tuas procelas: mar contido
na enchente de teus poros.
Os corais arrebentam-se em tuas ondas,
em tuas vestes de alga e espuma.
E bailas esculpida pelo acaso,
desenhada pelos desastres.
Espiral de maresia, tropel de vento,
bailas em carne viva,
em pulsação aberta.
Bailas no crepitar da febre,
no redemoinho do êxtase.
Tua maré cheia, tua arquitetura de sal
desfazem-se em procelas,
em vagas de crescente lua.
E cortas o destino, a imprecisão
das horas, feres a incerteza,
o mistério, e arrancas da morte
o coral de espuma a lhe cingir o rosto:
estigma de todos naufrágios.
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DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
DA
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II
ISADORA DUNCAN
Acariciando a pele do planeta
com os pés orvalhados
pela dança,
a poeta dos movimentos
arranca de si
o perfume dos vendavais.
Frágil gesto imortal
tecendo terra e céu
no seio da vida.
Bailam luzes,
alucinam-se músicas,
mãe de toda natureza
sua dança transcendental.
Sentimento da bruma
desfeita em alma.
Lógica do corpo
construindo o ar.
III
RILKE E A BAILADORA ANDALUSA
No meio da noite, nos braços da embriaguez,
contemplas essa bailadora de ardentes
constelações, de mil gestos como pássaros
apunhalados pelo sol, pela vertigem do vinho.
Esfinge de desertos sedentos de luz,
pergaminho de rubis em vivo magma,
somente tal dádiva pode incendiar-te
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DA
ACADEMIA
DE
LETRAS
DA
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na plenitude do teu ser; somente essa terrível
beleza sabe queimar as tuas feridas,
o teu ser anterior ao nascimento,
contemporâneo da eterna morte.
Rútilo em absoluto movimento,
esse rochedo evola-se em cristalina dança,
em vertiginoso frêmito: asa de uma suave
música a incinerar-te na agudeza do êxtase,
na beleza dos desastres. O rosto da bailadora
arde o teu olhar em viva labareda, em círculos
de um fogo concêntrico, infinito vórtice
em incêndios múltiplos. Dessa chama ressuscitas,
nela te inscreves, fazes de tua carne o bailado
das flamas, o frêmito das centelhas.
Desse sol insurges, a ele consagras tua frágil
humanidade, essa invencível muralha, serena
cordilheira. Dessa queimadura fazes a tua sede,
as brasas de latejante existência.
Longamente fitas o estertor dessa face,
desse sorriso a pulsar os relâmpagos...
Também teu rosto torna-se fogo,
cântico, fuga de violinos em fúria,
sopro de sementes em louvor.
Tão intimamente abraças esse vício,
tão completamente respiras a alquimia
dessa febre, que de tuas entranhas
faz-se a fome de um Deus selvagem.
__________
Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte. Poeta e ficcionista, publicou
os seguintes livros: Biografia do deserto, A outra margem do tempo, Sagração das
despedidas e Sob o silêncio do anjo. Atualmente é doutorando em literatura
portuguesa pela USP e professor efetivo de literaturas de portuguesa da UEG.
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POEMAS INÉDITOS
María Pugliese
I
el olfato ondula
entre los vestidos que conservan la fragua
de los aromas íntimos
y me traiciona
el sabor del café
oscila por el borde de la taza
y refiere a los sellos de la boca
sobre el esternón
y me traiciona
el discurso de un andar constante
bajo sauces sombreados
evoca pasillos maullidos vidrios rotos
escritos llantos desesperos
vanidades
y me traiciona
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DA
A CADEMIA
DE
L ETRAS
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el erizo cautivo
se resiente
se niega al alimento
se encrespa y se contrae
cuando el único peligro es la huída
cuando la única certeza es la ansiedad
y me traiciona
la estela
enaltece con ráfagas
aristas que devuelve el sueño:
mejillas en roce
cinturas trenzadas
piernas en arco
ensalmos placidez
y me traiciona
son una niebla espesa
que transmuta en desprecio
cualquier rastro de amor
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II
señales imperfectas atraviesan
un crisol de sonidos recurrentes
se combinan y alternan recepción-emisión
con dádivas del pretérito en presentes
con cláusulas de impertinencia
un idioma sin resonancias
vigas pacientes sobre arena
interrogan
persuaden
resignifican
lo que avanza y arrasa
sin piedad
III
una morada en ruinas
flores de paraíso en cementerio
lloviznan uno a uno
sonidos recurrentes
ni se oye llorar
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IV
desde aguas turbias
vengo a brazo partido
desde la hondura de lo inevitable
retuve entre los labios
pétalos de amapolas
que ahora se desprenden
en breteles de aromas
sobre las simas del perineo
alterné los expiros
con desechos y lodo
le di impulso a los pasos
con insignes evocaciones
de la palabra suelo
asilo recinto
demoré los latidos
profané del aire
del sopor
sobre aguas turbias
los camalotes mecen
una presencia inalterable:
de pie
de espaldas
sin mirar
sin oír
sin pronunciar
no quiero
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V
no me niegues
no te escondas
de mí
que aniden
en su bretel de aromas
que resistan
ante los gestos sumisos de las brisas
que bajen
por la ribera de los juncos
no me niegues
no te escondas
de mí
que ondulen
sobre aguas turbias
que perturben
con sus tramas
a los engaños
y a las mentiras
y a todo lo fingido sepultado
los ojos
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sus ojos
digan me digan
los ojos
mis ojos
digan le digan
pero
no me niegues
no te escondas
de mí
VI
nunca
nadie
nada
detrás
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VII
en punto muerto
los pájaros advierten el fin de la tormenta
los soplos arrasaron con granizos
la debilidad de las hojas de las ramas quebradas
humedad sobre una sed estéril
se anuncian
adioses
en el cuenco de los desperdicios
donde convergen senderos anudados
sin respiros
sin salidas
__________
María Pugliese é natural de Buenos Aires, é poeta, ensaísta e especialista em
educação infantil; é professora da Universidad Nacional de Luján, na
Argentina. Tem vários livros de poesia publicados, como Voces como furias
(1996) e recebeu importantes prêmios em seu país.
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[Saibam todos que um jovem e maligno clone de
Charles Starrett, de camisa preta, botões de
madrepérola e dois revólveres no cinto, cavalgou por
estradas ermas e agitou arruados no sul da Bahia]
Durango Kid
Hélio Pólvora
Pois é como lhe digo, começou ele. Antes, tirou do bolso, com
extremo vagar, um pequeno monte compacto de mortalhas.
Destacou uma, guardou o bloco e olhou o horizonte. Não tinha
pressa. Para que pressa? A tarde mal começava a quebrar-se para
a banda larga da noite e no céu corriam nuvens. Céu destampado,
ainda limpo, tão claro e tão puro no seu fulgor que ao vê-lo
ninguém pensaria na treva sempre à espreita por trás da luz. Porque
assim é, assim será. A treva.
Lugares pequenos, você sabe, você viu. Muitas vezes apenas
uma rua, casas dos dois lados, agarradas, que se escoram para
não cair. Arruados é como chamam. Durango, no desvario dos
seus vinte e poucos anos, assombrava lugarejos adormentados e
renovava o estoque dos prostíbulos. Enquanto isso, em Itabuna,
o coronel seu pai, metido num terno de brim quadriculado, o
paletó mal sobrando para se fechar no ventre e mal atingindo a
cintura, passeava nas calçadas, de mãos trançadas nas costas –
aquela cidade que ele, quando menino, ajudara a fundar. O olhar
se dirigia instintivamente para os armazéns que cheiravam,
principalmente no fim das tardes e durante as noites, que é quando
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os cheiros bastardos das ruas se dissipam para que predomine o
cheiro penetrante, doce e amargo, mistura de suor e lágrimas – o
cheiro balsâmico do cacau, que está em nós, perfume dos nossos
corpos, incenso de almas. Pois o coronel tinha naqueles armazéns
pilhas de cacau seco, montes escorregadios de lisas amêndoas
que desmoronavam a qualquer sopro ou movimento.
Faz uma pausa (este aqui, não me refiro ao coronel) e me
olha. Gestos parados, ele era então, no átimo daquele segundo,
um vulto erigido no alpendre, o esboço de um corpo de barro
que o sol enfraquecido ainda assim doura e cresta. A mão esquerda
com a mortalha – uma lâmina de papel pardo – e a outra perto
do bolso. Ia sacar a quicé, eu sabia.
Nas matinês de sábado e domingo, ele prosseguiu, o melhor
do programa era o episódio do seriado em que heróis justiceiros
atiçavam a nossa imaginação. A gente queria ser como eles, agir
que nem eles, carregar dois revólveres polidos no cinturão grosso
que era também depósito de balas, correr em cavalos velozes –
cavalos ensinados que socorriam os cavaleiros nas armadilhas.
O cavalo do rancheiro solitário é branco e se chama Silver. Empina
as patas e relincha. O cavaleiro não precisa bater-lhe com o látego;
basta saltar-lhe no lombo e gritar: “Hi-Yo, Silver!” E logo ele
dispara, é um dardo a varar vales e montanhas áridos do Texas,
nos idos de 1867. Silver pressente a proximidade de bandidos e
relincha o aviso de cautela. Investe sobre os vilões com as patas
no ar e as crinas eriçadas. É participativo, é companheiro, é fiel.
Está sempre encilhado e pronto, no lugar certo, para que o
cavaleiro mascarado salte de telhados diretamente na sela, e antes
de assentar o fundilho já esteja em disparada. Já imaginou um
cavalo desses ao serviço da nossa polícia metropolitana?
Com a quicé na mão, ele ri – um riso grosso, estrangulado
como certas águas represadas em ribeiros, e começa a alisar a
mortalha. De um lado e de outro, como se estivesse a lavrar. A
mortalha parece esticar-se. Eu nada digo – e talvez por isso ele
me olhe de viés, ressentido.
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Você se lembra, era do grupo das matinês – prossegue, agora
com certa má vontade. Acompanhou conosco o seriado O Guarda
Vingador, que em inglês se chamava The Lone Ranger, era da
Republic, ano de 1938, estrelado por Lee Powell, Hal Taliaferro
e o chefe Thundercloud, que a gente chamava de Índio, ou de
Tonto – o mesmo Tonto com a mesma roupa de pele de corça,
adornada de tiras nas mangas, e a mesma lealdade firme que
dedicaria adiante a outro mascarado, o Zorro, El Zorro, tipo de
fingido herói afrescalhado que as ansiosas mocinhas do Oeste
repudiavam.
Eu resolvo espevitar o fogo da conversa, do contrário ele morre
sem as lambidas de súbitas labaredas vorazes. Empurro um tição
ainda esbraseado: e Durango? Durango Kid?
Era mais moço que nós, ele diz. Começou a cavalgar com o
guarda vingador e depois pulou na sela de Buck Jones, Ken
Maynard, Bill Elliott, Charles Starrett. Gostou deste, que
personificava o Durango Kid, e apegou-se. Acho que a camisa
preta com botões de madrepérola, que brilhavam, o atraiu mais.
Os revólveres de um branco metálico ressaltavam do cinturãocartucheira cartucheira apertado nos quadris. O chapéu curvava
as abas de maneira correta e elegante. Durango falava pouco;
suas mensagens eram expedidas em forma de balas e socos. E
disparava pelas distâncias do set de filmagem, sempre a passar
pelo mesmo rochedo, a mesma árvore retorcida, sempre a se
arriscar no mesmo desfiladeiro ou na planície pedregosa, ou a
espadanar água do mesmo córrego. Vê aqueles montes?
Sigo o rumo do seu olhar. Há no fundo do horizonte
espinhaços de serras que se sucedem, envoltas na descolorida
névoa da distância. É verdade, penso. Distâncias significam
chamados. E ai de quem não atendê-los: ficará sob forma de
pendência, pelo resto da vida, o caminho que não foi trilhado, a
chegada que não se consumou. Vejo que no alpendre o vento
brando lança sombras vanguardeiras da tarde. O meu visitante
acaba de retirar do bolso uma caixa laqueada em que guarda fumo
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de rolo cortado e desfiado. Vai encher a mortalha, depois de dobrála com os destros dedos da mão esquerda.
Distâncias, ele confirma – e estende o beiço, como a querer
tocá-las. Distâncias. Aqui no sul da Bahia as distâncias se
desdobram, parecem virgens, escondem segredos a descobrir sob
os panos das névoas ou sob o brilho ofuscante do sol – ou ainda
sob o crepe da noite baixa. A Durango entediava decerto o mundo
pequeno, na abrangência dos olhos, faltava-lhe paciência para
voltar na próxima semana e ver, como diziam os letreiros, que
afinal se fizera justiça: havia menos bandidos em assaltos a bancos,
trens e carroças, em bravatas nos saloons, em tiroteios nos
arruados. Cegos cantavam na feira: Durango é filho de rico, moço
muito vaidoso, faz e desfaz alvoroço, assusta mais que bruxedo.
No seu cavalo alazão, de arreios prateados, entra em vilas,
arruados, é pior do que a peste. Durante imita o enredo de filmes
de faroeste. Acompanhamento de viola caipira ou de sanfona,
enquanto a cuia adiante, pousada nas pedras do calçamento, espera
o surdo choque de moedas ou o pouso de amarfanhadas cédulas
de baixo valor.
Os dedos diligentes parecem mover-se por conta própria como
autômatos, sem o comando da tropa distante dos neurônios,
aos poucos espalham na espessura exata o trilho de fumo na
mortalha tensa. Um dos dedos, em sutis piparotes, acomoda o
fumo na trilha.
Sabe de uma coisa? Para mim, Durango tem mais força de
presença do que Charles Starrett. É que ele era nosso, sonho
nosso, de toda uma geração inflamada pelo imaginário, e talvez
prolongamento de cada um de nós. Por isso eu ainda o vejo nas
encostas, ladeira abaixo, nas estradas, nos redemoinhos de poeira,
ou nas ruas, no estrépito de cascos ferrados que tiram faíscas das
pedras. Sempre a caminho. O mito do herói solitário, que precisa
estar só para cumprir o fado de justiceiro, que não deve se agarrar
a mulher nenhuma e se emascular no carinhoso aconchego da
família. O samurai que, depois de pacificar o clã, sangra o último
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inimigo, embainha e espada gotejante e, com um alçar de ombro,
avança por uma estrada erma. Ignora para onde vai e o que o
espera. Ou o guarda vingador que, no último episódio, aquele
que perdemos porque naufragou com o Itacaré em 23 de agosto
de 1939, na barra de Ilhéus, tira a máscara, descobre um sorridente
rosto jovem e parte sem um beijo na possível amada.
Encostas, vales, desfiladeiros. Se os bandidos conseguem
esconder-se nas calcinadas e abertas paisagens do velho Oeste,
imagine aqui, nesta faixa de terra verdejante em que as árvores,
de tão centenárias e grossas, oferecem cavernas. E as distâncias.
Umas se quebram em sinuosas ondulações para receber os
murmúrios vagos do oceano, outras partem de uma cidade para
outra cidade, de um arruado para a mata escura e outro arruado;
para uma praça, um quiosque no meio da praça, um moirão
coletivo em que burros impacientes escavam a terra e fazem lama,
mulheres se debruçam em janelas – e ouve-se o seco entrechoque
de bolas de bilhar. Cidadezinhas, lugarejos amodorrados dentro
da onda de calor e poeira que os caminhões levantam, lugares
que se parecem entre si e onde o mesmo guarda de túnica amarela
e mãos às costas bate o solado das botinas em calçadas esburacadas
e provoca estremecimentos nos jogadores de bilhar. Mergulhados,
esses lugarejos, no sonolento pestanejar das tardes, quando até
os cães famintos decidem adormecer no fundo de quintais. E
onde, de repente, um grito rompe o ventre fechado da mesmice
– um grito apenas, veio da mesa de bilhar. Então o guarda leva a
mão ao cabo do revólver e um homem aparece logo depois
amarrado ao moirão, entre animais escoiceadores.
Os mesmos dedos diligentes que regularam o fumo na
mortalha conseguem agora o milagre de fechá-la em dois ou três
movimentos destros que dispensam ajuda, alheios à central de
comando dos movimentos corporais e, assim dizem, também ao
fluxo das emoções. O meu narrador olha, então, o cigarro pronto.
Basta um gesto para levá-lo à boca, prender uma ponta no cuspo
grosso e acendê-lo. Mas ele não o faz. Fica a olhar o cigarro
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crioulo, como que fascinado. Talvez acabe de pensar que tirou o
cigarro do nada, do não-ser, para que lhe traga felicidade, ainda
que breve – e mesmo sem prová-lo, sabe que isso é bom, e que
depois de tanto esforço convém descansar e contemplar o que
feito está.
Lugares, arruados, vilas (ele voltou a falar com aquela certeza
de que eu estaria à espera, preso à sua boca, ao que dela sairia,
vômito ou bálsamo), cidades que se agitavam, muitos jogadores
de bilhar amarrados aos moirões, entre as patas nervosas dos
cavalos, quando Durango, todo de preto, botões de madrepérola
na camisa, dois revólveres no cinto, esparramou lama no seu cavalo
alazão. Saía da penumbra do cinema para repetir nos arruados as
cavalgadas da tela, as cenas de mãos ao alto, as brigas em volta do
pano verde, os tiros certeiros nas garrafas de aguardente,
principalmente os namoros, ele muito teso na sela com enfeites
de prata, as moças à janela – moças vestidas de chita que sonhavam
com uma casa em cidade maior, saraus dançantes nos clubes,
carrinhos cheios de comida nos mercados semanais; moças que
povoavam as janelas quando o cavalo de Durango sacudia lama
ou levantava poeira nos arruados sul baianos. De quando em
quando, uma ou duas, de há muito suspeitadas, eram vistas nos
prostíbulos da cidadezinha maior, ainda pálidas e chorosas, braços
caídos no regaço, deixando-se apalpar por sujeitos de anel no
dedo que enchiam a mesa de cascos de cerveja. Moças que
sonhavam com os penteados das artistas de cinema e seguiam,
uma que outra, Durango à margem do rio, se despiam e entravam
na água aos gritos – e dias depois recebiam caixas de sapatos,
cortes de seda, bolsas, frascos de perfume, essas coisas imaginadas
à janela em tardes de calmaria, apenas o soldado a bater os tacões
na calçada, o moirão ardendo ao sol. Lugares esses que passavam
a viver freneticamente quando Durango Kid se dignava concederlhes a sua pessoa, e o soldado segurava, respeitoso, as rédeas do
cavalo de cauda trançada. “Gente braba, coronelzinho. Qualquer
coisa me chame”. E enquanto Durango, no desvario dos vinte e
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poucos anos, assombrava lugarejos pacatos e renovava a lotação
dos prostíbulos, o coronel seu pai passeava de mãos trançadas às
costas, em passo calmo, pela calçada larga da cidade maior que
ele fundara; o olhar detendo-se nas rumas de cacau seco dos
armazéns exportadores, que ele era capaz de formar com a
produção de uma só fazenda; lembrando-se (assim pensavam os
que o viam passar ensimesmado, no ocioso passeio dos fins de
tarde-começos de noite) dos bons tempos em que não havia a
peste do padre, o juiz safado e o escrivão ganancioso, tempos em
que ele mandava soltar o gado na fazenda do vizinho para forçálo a vender terras por qualquer ninharia; tempos heróicos em
que jagunços disparavam rifles rolando pelo chão, que era para
evitar alvo fácil aos inimigos, e em que o coronel, fumando charuto
no alpendre da casa-grande, se divertia com a orquestra de sapos
no brejo. Tempos que o padre, o delegado e o escrivão teimavam
em civilizar, aqueles poltrões. Restavam agora as caminhadas lentas
rente às portas das lojas e dos armazéns de cacau, a comida a
pesar-lhe no estômago como grãos de chumbo no bornal –
passeios que se detinham, se já era noite feita, numa cadeira à
porta do bar, de onde o coronel, o charuto aceso, olhava o
mulherio passar de braços nus, de semivelado busto intumescido,
umas cachorras. Da cadeira aproximavam-se às vezes sujeitos
tímidos, e debruçados sobre o vulto mirrado do coronel
espantavam-lhe as cismas, a gaguejar queixas complicadas:
quebrou o espelho do bar; atirou na tela de cinema; tirou a menina
de casa. Proezas de Durango. Queixas que o coronel seu pai bebia
na cadeira do bar, o olhar errante pousado nos rabos gelatinosos
das mulheres em desfile, cadelas paridas pela civilização e pela
lei. Queixas que ele absorvia e ampliava no seu sonho senil,
atribuindo-as a si mesmo, vendo-se mais uma vez no lombo de
um cavalo, a comandar avançadas dentro da noite, a tirar sangue
de donzelas em pânico. “Bobagens”, ria o coronel. “Mas
coronel...” “Bobagens, já disse. Estripulias de menino que ainda
não assentou juízo”. E na manhã seguinte, na sala do palacete,
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por trás da secretária de jacarandá lavrado, ele girava o corpo e
abria o cofre. Contava cédulas de quinhentos mil-réis e estendia
o maço com que amortecia a consciência das vítimas de Durango.
Almoçava, fazia a sesta e se preparava para o ocioso passeio até a
cadeira do bar – mulheres quase nuas a caminhar, outras queixas,
a fumaça azulada do charuto apaziguador.
O narrador se interrompe para acender o cigarro de palha.
Para isso é preciso que eu lhe mande trazer da cozinha uma brasa
em colher de sopa. O fumo arde e espalha um doce perfume de
láudano. Doravante de cigarro na boca, ele o manterá aceso por
obra de ocasionais tragadas, até consumir-se e ser cuspido. E eis
que agora as sombras já se estendem no alpendre, avançam
sorrateiras para os nossos pés, talvez para ali pousar o focinho de
cão amigo. O silêncio me incomoda, acabo por perguntar-lhe se
Durango foi afastado pelo coronel seu pai para a capital, se afinal
criou juízo e veio a casar e ter filhos e herdar os bens, ou se
morreu bobamente de morte morrida.
De morte matada, ele responde – e põe o cigarro na boca. É
natural. Pense bem, ele não era um justiceiro. Nem de longe
lembrava Wyatt Earp, aquele delegado famoso que, depois de
pacificar o faroeste americano, morreu de velho, na Califórnia.
Afinal, o nosso Durango era apenas um herói de terceiro mundo,
reles imitador, mais encrenqueiro e exibicionista do que justiceiro
oficializado, mais para o bandalho do que para o sério. Não sei se
alguém chorou no seu enterro. Sei tão somente que, no de Wyatt
Earp, Tom Mix chorou.”Tom Mix wept”, diz o narrador Robert
Mitchum no final de um filme sobre o célebre delegado do Oeste
americano.
Começa a escurecer. Agora a ponta do cigarro brilha como
pequena brasa neste alpendre sem roda de leme no mar de
sargaços da noite. Parece colado ao beiço inferior. Estou inquieto
– e isso me irrita. “Por que me contou?” Ele chupa ainda o cigarro.
E responde, sem alterar a voz: “Setenta anos depois poderemos
duvidar da imortalidade da alma, da sobrevida neste planeta. Mas
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não devemos guardar pendências de infância. Afinal, o mocinho
tira a máscara e beija a mocinha no último episódio de O Guarda
Vingador? Eu precisava saber para me acalmar na velhice. E para
que você tivesse também a sua velhice calma. Pois saiba agora
que ele se desmascara, mas não beija. Comprei o seriado inteiro,
a única cópia existente”.
Meu visitante se levanta, suspira, põe o chapéu na cabeça, cospe
enfim por cima do gradil o toco de cigarro que já lhe queimava o
beiço. E parte sem dar boa-noite. É um vulto, talvez um samurai
errante por uma estrada erma, agora reduzida a um túnel de
sombras.
Nela o vulto se desmancha.
Hélio Pólvora é jornalista, crítico literário, ensaísta, tradutor e, principalmente,
ficcionista; publicou recentemente o romance Inúteis Luas Obscenas (São Paulo:
Casarão do Verbo, 2010). Desde 1994 ocupa a Cadeira nº 29 da ALB.
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Sinhá Quequé Lemina
Ubiratan Castro de Araújo
Deram-lhe um nome cristão de Guilhermina, mas a língua do
Povo da Costa1 só dava pra chamar de Quequé Lemina. Ficou
até parecendo um nome nagô2. Depois de muitos anos de idade
e de muita caridade que fez para os parentes cativos, passou a ser
chamada respeitosamente de Sinhá. Havia um acento agudo que
distinguia a cor da criatura. Sinhá so para as brancas. Afinal esta
era a corruptela de Senhora, dona proprietária, condição diferente
das pretas que eram apenas Sinhá: Sinhá Maria dos Acaçás, Sinhá
Pulquéria dos Acarajés, Sinhá Quequé Lemina, do Alívio.
Chegou ao Brasil ainda molecona. Os peitinhos mal
apontavam. Tinha sido capturada em Jebu3, sua terra africana
que nunca mais viu. Foi buscar lenha em uma mata, perto de sua
aldeia e foi capturada pelos capitães do mato4. Jogaram-lhe uma
rede por cima e pronto. Atravessou o mar oceano e terminou em
Saubara5, comprada por um plantador de cana para a função de
ama-seca de suas filhas menores. Na senzala passou pelo suplicio
de todas as cativas, mas não se viciou na cama dos senhores.
Reagiu, esperneou, e finalmente descobriu fazer-se inanimada para
não dar nenhum gosto ao seu algoz. Foi considerada de pouca
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serventia para a casa grande e foi mandada para o eito, na roça de
mandioca. Ali mesmo que ela queria ficar, na lavoura, perto dos
seus parentes da Costa d’África.
A natureza lhe fez infértil. Uma libertação. Ela foi poupada
de dar crias para o cativeiro. Era só coçar o caroço como ela
gostava! Não podia ver um macho, principalmente um parente
africano, que dava uma coceira... De vez em quando ela fugia
para a senzala para vadiar com os parentes. Era uma folia.
– Quequé Lemina chegou!
Em 1822, durante a guerra dos brasileiros contra os marotos
da Bahia6, Quequé Lemina atendeu a convocação patriótica das
mulheres de Saubara. Reuniram-se as brancas, mulatas, as pretas
forras e as cativas para ajudar as tropas do General Labatut, que
estavam acantonadas perto da vila. Os soldados estavam exaustos,
de moral baixa e famintos. Decidiram que cada uma levaria uma
panela de mingau para o acampamento. Saíram de noite, enroladas
em xales, mascaradas como as caretas de carnaval, para não serem
reconhecidas. A missão que se impuseram foi alimentar os
combatentes e dar um chamego neles, de modo a levantar suas
forças morais. Quequé Lemina deitou e rolou. Na noite do mingau
ajeitou-se com o destacamento de negros libertos e deu assistência
total a todos. O resultado da intervenção patriótica das Caretas
do Mingau7 foi espetacular. A tropa partiu no dia seguinte em
marcha batida para a Bahia. La juntaram-se ao grosso do Exército
de Labatut e deram uma surra nos portugueses na Batalha de
Pirajá.
Uma das caretas era prima do proprietário de Quequé Lemina.
Em reconhecimento pelo seu patriotismo, conseguiu sua carta
de alforria. Enfim livre!
***
Quequé Lemina foi para Santo Amaro. Na feira, conheceu
Antonio, um crioulo8 que veio do Sertão. Ele era raizeiro. Sabia
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tudo de plantas medicinais e de plantas para banhos de descarrego.
Era um crioulo que conhecia os fundamentos das folhas.
Descendia da Antiga nobreza do Reino do Congo. Seu pai, Pedro
Manicongo9, tudo lhe ensinara dos segredos das plantas africanas.
Já molecão, foi agregado de um andarilho que conhecia tudo
sobre plantas do sertão brasileiro, o reputado botânico Antonio
Muniz de Souza. Andou com ele nos sertões do Cariri, nos grandes
chapadões de Goiás, nas caatingas e nos tabuleiros da Bahia.
Aprendeu o que pôde de raízes, de raspas de pau, de folhas
medicinais e de venenos de cobra. Acompanhou o seu patrão na
Guerra do Madeira10. No quartel de Cangurussu, cuidou dos
doentes e tirou muito bicho-de-pé. Ganhou uns cobrinhos e
depois da guerra resolveu trabalhar por conta própria. Comprou
um pequena tropa de três animais e passou a fazer as suas próprias
viagens para o sertão, de onde trazia as suas medicinas para vender,
ambulante, nas feiras do Recôncavo da Bahia.
Alem das plantas, Tonho fazia sucesso com suas infusões, todas
evidentemente medicinais. À boa cachaça de Santo Amaro juntava
cambuí, alumã, erva-doce, pau d’arco, jurubeba, milhomem.
Vendia garrafas de meladinha-de-parida, especiais para os
nascimentos dos crioulinhos. Suas andanças pelo sertão o fizeram
um conhecedor das cobras venenosas. Botava cobras inteiras em
garrafões de cachaça. Eram jararacas, cascavéis, cobras coral,
cainanas e surucucus. Os clientes tomavam grandes goladas destas
infusões, na crença que estavam curando o corpo do veneno das
respectivas serpentes. Nunca foi provada a eficiência de vacina.
Mas também é verdade que ninguém ouviu falar que um freguês
de Tonho tenha morrido de picada de cobra!
Numa madrugada de segunda-feira, Tonho chegou com seu
burro carregado de folhas e de garrafas. Armou sua tendinha.
Começou a urubuservar11 o povo que chegava para feira. De
repente a sua vista bateu em um vulto que se aproximava. Apurou
as vistas e viu um monumento semovente. Uma preta muida,
bem feitinha de corpo, grandes olhos redondos quase
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esbugalhados, beiços carnudos e bem desenhados e, que bunda!
Equilibrava na cabeça um grande balaio cheio de bolas de carimã
enroladas na folha de bananeira. Tonho ficou paralisado, como
se tivesse sido atingido por uma flecha com veneno de índio.
Não trastejou12, partiu para ela e perguntou:
– Crioula, cadê seu Homem?
– Criola não! Me respeite! Eu sou Nagô-jebú, sou da Costa!
– Tu tem senhor?
–Tá perguntando porquê? Tá interessado?
Deu um largo sorriso, com uma ponta de desafio devolveu:
– Tu acha quie home pra mim?
– Qué vê, qué vê? Vãobora?
Parece que estava combinado. Pularam pra dentro de um
caçuá13 vazio, e foi tanto uiuiui, aiaiai, que apareceu um cachaceiro,
alferes da Guarda Nacional, armado de uma lambedeira14, que
começou a fazer um discurso moralista:
– Chicote nesses negros, não respeitam mais as famílias de
Santo Amaro!
Tonho pulou de dentro do caçuá, todo preto nu, luzidio como
uma suçuarana, ainda de pau duro e berrou de raiva:
– Nunca viu ninguém fuder não, seu porra?
Sinhá Maria Fateira perdeu as estribeiras, partiu para o Alferes
e lhe deu uma descompostura:
– Se compreenda, homem, ta com inveja do crioulo? Só
porque tu não pode mais fazer e sua mulher anda lavando a jega15
como esquadrão de cavalaria? Aquele espetáculo, Às 6 horas da
manhã, era uma festa para os feirantes. Todos começaram a rir e
deram uma sonora vaia no alferes:
– Chifre de ouro!
Os dois, Quequé Lemina e Tonho já saíram dali amigados.
Juntaram-se na cama e no trabalho, ela nos beijus e ele nas infusões,
e foram felizes por mais de dez anos.
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A história do caçúa correu meia Bahia. Espalhou-se a novidade
que a infusão de Tonho levantava pau de defunto. Os negócios
prosperaram. Durante a semana eles circulavam pelas feiras de
Santo Amaro, de Saubara, da Vila de São Francisco e até do
povoado de Candeias, passados uns três anos, mudaram-se para
Salvador, onde montaram uma barraca de folhas no mercado de
São Miguel. A barraca Saubara era muito concorrida. O Povo de
Santo ia buscar os aviamentos dos ebós e dos banhos de folha.
Os cachaceiros disfarçados iam buscar as infusões sob o pretexto
de cuidar da saúde.
– Tonho, me dá um alumã que eu estou com dor no figo16 !
– Tonho, me dá um Cambuí que a patroa anda reclamando
das minhas forças!
Além de aprender tudo de folhas com seu marido, Quequé
Lemina desenvolveu o dom de cuidar dos doentes. Tirava bichode-pé, espremia tumores, preparava e aplicava emplastros e chegou
mesmo a administrar os famosos clisteres, infusões injetadas pelo
rabo dos pacientes para lavar-lhes os intestinos. Cuidava de toda
gente, especialmente dos Tios da Costa. Eram todos seus
parentes17. Davam pena. Eram homens muito velhos, sem família,
estropiados pelo trabalho da escravidão, que viviam em porões
escuros nas chamadas lojas. Eram escravos de ganho, organizados
em cantos de trabalho18. Depois de velhos sem serventia, ficavam
a míngua, sem ter ninguém por si. Muitos aleijados, alguns tinha
feridas crônicas, todos padeciam de coceiras, piolhos, chatos e
frieiras. Os pés, esse era um grande problema. Pelo estatuto da
escravidão tinham que andar descalços. Pisavam em areia, em
pedra de ponta, em chão quente do meio-dia. Pés inchados,
rachados e feridos, é o que mais se via.
Ela fazia tudo para atenuar o sofrimento desses Tios. Lavava,
limpava, medicava os ferimentos com ervas e infusões. Ela
comprou uma caríssima navalha alemã, com a qual raspava a
cabeça dos Tios, para combater os piolhos. De alguns mais velhos
chegou mesmo a raspar os pentelhos para debelar a praga dos
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chatos19 e dos respectivos esquizustulins20. Jamais cobrou nada
aos seus pacientes. Em compensação, nunca faltou em sua casa
uma fruta, um legume e um embrulhinho de acarajé, depois das
seis da tarde. Era tudo presente do povo agradecido. Pelo seu
jeito atencioso e eficaz de tratar os velhos, mereceu o tratamento
cerimonioso de Sinha Quequé Lemina, o anjo da guarda dos
pretos velhos.
Depois da morte de Tonho, bem velhinha, ela continuou sua
missão. O pessoal do mercado arranjou uma meninota que a
acompanhava em suas visitas, para carregar o mocó de plantas e
medicamentos. Um dia de segunda-feira, Sinhá Quequé Lemina
foi embora para sua terra africana, Jebu, levada com toda
cerimônia por seu Obaluaiê21 querido.
NOTAS
Povo da Costa – sinônimo de Africano, no século 19, na Bahia.
Nagô – Yorubá.
3
Jebu – Antigo reino, na atual Nigéria, tributário do Reino de Oió.
4
Capitães do Mato – caçadores de escravos.
5
Saubara – Antigo distrito de Santo Amaro, hoje município
emancipado.
6
Guerra da Independência da Bahia. 1822-1823.
7
Ainda hoje as Caretas do Mingau são relembradas nos festejos
cívicos da Independência, no município de Saubara.
8
Crioulo – negro nascido no Brasil
9
Manicongo – denominação da antiga nobreza no Império do
Congo. Eram também manicongos os governantes de cada
província e de cada reino tributário do Império.
10
Guerra do Madeira – Guerra de Independência da Bahia
11
Urubuservar – observar de longe.
1
2
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Trastejar - titubear
Caçuá – dois grandes cestos de cipó, atrelados um de cada lado de
sela de um animal de carga.
14
Lambedeira – punhal longo de dois cortes, com um longo sulco
no meio da lâmina para escorrer o sangue da vítima.
15
Lavar a jega – fartar-se, aproveitar bastante.
16
Figo – expressão popular para fígado.
17
Parente – tratamento que dispensavam entre si os africanos na
Bahia
18
Escravos de ganho – grupos de carregadores de ganho, escravos,
reunido por etnia e comandados por um capitão de canto em um
ponto da cidade. Ali se contratavam serviços.
19
Chato – tipo de parasita que habita nos pelos pubianos e nos
órgãos genitais. No sentido figurado uma pessoa desagradável e
persistente.
20
Esquizustulins – expressão humorística popular – o chato que da
na púbis do próprio chato.
21
Obaluaiê – Orixá na tradição dos Yorubás, responsável pelo
combate às epidemias e pela atenção dos entes e aos mortos.
12
13
Ubiratan Castro de Araújo é historiador, ensaísta e escritor; é professor de
História da Universidade Federal da Bahia, e Diretor Geral da Fundação
Pedro Calmon; tem diversos artigos e livros publicados, dentre os quais Histórias
de negros (contos, 2.ed. 2009). Desde 2004 ocupa a Cadeira nº 33 da ALB.
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As hienas
Myriam Fraga
A noite em que ouviu a primeira gargalhada pensou que talvez
devesse reforçar um pouco mais as janelas. Não que as julgasse
particularmente vulneráveis, mas os ferrolhos não eram lá muito
resistentes e, depois, nunca se sabe. Durante aqueles anos todos
jamais tivera uma preocupação semelhante. Pelo contrário,
chegava mesmo a dormir, muitas vezes, de portas e janelas
escancaradas deixando que os ventos secos da ilha varressem
todos os cômodos da casa, pois nada havia a temer naquele canto
esquecido, povoado apenas por gente simples, de índole boa e
pacífica.
A natureza ali fora tão pródiga que para subsistir não se precisaria
mais do que erguer a mão para a árvore mais próxima ou estender
as redes na entrada da barra da pequena enseada. A fartura
estendia-se aos campos onde os rebanhos pastavam
desacompanhados e em cada touceira de arbustos amontoavamse os ninhos de aves sem conta.
Nas épocas de colheita, o perfume das frutas era estonteante e
muitas vezes se tornava tão enjoativo que era obrigado a mudar 251
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se para o pequeno mirante projetado para servir de depósito e
torre de vigia. De lá podia ver a linha de espumas da arrebentação
e o ondeado suave das areias da praia limitada por dois grandes
blocos de pedras negras que avançavam mar a dentro, como
grandes baleias encalhadas.
Podia-se também avistar léguas e léguas em torno. Os campos
plantados, a represa, as pastagens simetricamente divididas, a
estrada de barro encascalhada que, para lá da porteira, fazia a
volta por traz das montanhas e terminava por voltar novamente
ao ponto de partida em frente ao casarão avarandado.
Anos a fio o silêncio e a solidão foram sua melhor companhia.
Mas, de uns tempos para cá, tinham começado as gargalhadas e,
com elas, uma espécie de inquietação indefinida.
Não poderia precisar bem quando. O tempo, naquele lugar, tinha
um significado diferente. Não era medido em extensão, mas
em intensidade. Assim, poderiam transcorrer vários anos, sem
que se notasse sequer a mudança dos meses, mas de repente
um único dia parecia querer condensar o peso e a consistência
de séculos.
Não poderia, também, afirmar se fora no inverno, na primavera
ou no verão, mesmo porque não havia como separar as estações.
Os dias sucediam-se, ao bel prazer dos elementos, chuvas
torrenciais alternando-se com dias ensolarados. Aos mais
observadores não passavam despercebidas, no entanto, certas
alterações climáticas, pálido reflexo, talvez, do que se passava do
outro lado do mar-oceano, no continente oposto, quando uma
brisa mais fresca anunciava que em algum lugar estavam chegando
as tempestades, ou uma súbita aparição de dezenas de medusas,
vindas de longe, trazidas pelas correntes marinhas, anunciava que
o outono estaria acontecendo em alguma outra parte.
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Havia também o cheiro das flores que apareciam boiando sobre
as águas e frascos de perfume e sabonetes espalhados na areia,
como restos de naufrágio, denunciando os rituais propiciatórios
dos pescadores, no verão de outras praias distantes.
Mas, ultimamente, as gargalhadas estavam se tornando mais e
mais repetidas e, às vezes, o que antes parecia apenas um sussurro
ia-se avolumando em choro alto como se uma criança faminta
estivesse vagindo em sua porta.
Vinham de longe, do que ainda restava de um pedaço de mata
primitiva no topo das montanhas. Uma torrente cristalina a
escorrer pelas encostas, as gargalhadas eram como água
ricocheteando nas pedras e transformando-se num soluço
angustiado e assustador nas dobras da noite escura. Pela manhã
as flores pisadas e os rastros desencontrados denunciavam que
efetivamente alguém estivera ali, rondando, em sua porta.
Começara a pensar também nas histórias que o poeta lhe contara
naquela noite do banquete, no encerramento de um dos
Encontros Literários aos quais, eventualmente, comparecia. A
cidade de Lisboa espraiava-se ao pé da encosta e no restaurante
envidraçado reunia-se a fina flor da inteligência. O poeta sentiase visivelmente deslocado, suas mãos embaraçavam-se no pratinho
de pão, amassavam o guardanapo e perdiam-se na decifração dos
copos e dos talheres como se buscassem rastros de cobras nas
savanas da África, de onde, aliás, tinha acabado de chegar. O
poeta, na verdade, não pertencia às cortes literárias. Tinha sido
convidado meio por acaso, para ocupar um lugar vago, para
compor a mesa, talvez. Tinha dedos compridos e a pele clara e
luminosa como um fruto maduro. Cochichava-se que atuara como
guerrilheiro em muitas frentes nacionalistas e o leve odor de
sangue que transpirava de suas roupas tornavam-no simplesmente
irresistível. Havia também o bigode e os cabelos revoltos a
reforçarem-lhe o perfil de aventureiro romântico.
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Fora naquela noite que ele lhe falara das hienas. De como elas
farejavam os feridos e arrastavam-se dias e noites seguindo as
caravanas à espera da presa. De como os nativos acendiam
fogueiras nos acampamentos e, mesmo assim, podiam-se
adivinhar os vultos desengonçados a deslizarem sorrateiros, com
as grandes mandíbulas deformadas e os traseiros mirrados,
equilibrando-se na ponta das unhas divididas em quatro, enquanto
seus olhos demoníacos brilhavam na treva e um odor
nauseabundo confirmava-lhes a presença. E de como se
acercavam dos despojos abandonados pelas grandes feras saciadas
e com os dentes possantes trituravam as ossadas. Em épocas de
escassez, fustigadas pela fome, se tornavam mais atrevidas e
rondavam as aldeias a soluçar, farejando os cemitérios em busca
de alimento.
Os cristais e as velas acesas punham reflexos dourados na face
translúcida do poeta enquanto suas longas mãos descuidadas
tentavam equilibrar grandes nacos de salmão rosado nas pontas
do garfo. À sobremesa falaram de vagos projetos literários e de
como sentia-se estranho, tendo de viver a portas fechadas, tão
acostumado estava à vida de aventuras. Finalmente despediramse, com frases protocolares e acenos corteses, pensando que
provavelmente nunca mais se reencontrariam, a não ser em outro
seminário ou congresso do mesmo tipo. E, mesmo assim, não
seria muito provável, pois não eram estrelas de primeira grandeza,
das que costumam ter presença assegurada em tais auditórios.
A cada vez que voltava de uma dessas viagens convencia-se de
que viver numa ilha como aquela era, realmente, compartilhar do
paraíso. A felicidade consistindo na ausência de dor, de desespero,
de ansiedade, de expectativas. Mistério e perigo eram palavras
destituídas de sentido e só o doce ondear das marés e os ventos
que sopravam sem descanso, carregados de areias trazidas do
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deserto, faziam-no lembrar-se de que existia, lá fora, um outro
mundo e um outro calendário para definir o destino.
Mas, aos poucos, muito lentamente, na medida em que os dias
pareciam voar, tangidos pela brisa, começara a pressentir alguns
sinais de mudança. Primeiro foram os rastros no jardim, as
estranhas marcas quadriunguladas. Depois, os pequenos animais
dilacerados e os vultos rondando à noite, como cachorros de
pelo estriado, os olhos venenosos brilhando no escuro. E foi então
que começaram as gargalhadas.
Por vários dias, meses talvez, pretendeu ignorá-las, mas elas se
tornavam cada vez mais insistentes, cada vez mais próximas,
parecendo cercá-lo com uma muralha cascateante e cristalina
como vidraças que se partissem emitindo o som de mil gargantas
feridas. Noite após noite refugiava-se no mirante querendo fugir
daquela orquestra invisível e diabólica até que, aos poucos,
finalmente, pareceram acalmar-se.
E passaram-se semanas, meses talvez, na mais completa quietude,
no mais rigoroso silêncio. Tudo parecia ter voltado à santa paz
do princípio quando, uma noite, sonhou com o poeta. Estavam
sentados em frente a uma grande mesa de madeira carcomida
pelo tempo e repartiam uns restos de comida e algumas pedras
cinzentas. Tentavam desesperadamente comunicar-se, mas as
palavras escorriam pela garganta como se sugadas por um
redemoinho.
Acordou banhado em suor e com uma terrível sensação de já ter
vivido aquele sonho. Então ouviu o choro da criança. Era um
choro fraquinho, quase um soluço, abafado pelo vento que
recomeçara a soprar. Espiou pelas venezianas entreabertas, mas
não viu nada além das trevas. A criança agora chorava sem parar,
um choro angustiado que dilacerava o coração e os sentidos. Quem
seria aquela criança? Como fora parar em sua porta? Quem sabe
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não fora abandonada e estava ali, com fome e com frio,
aguardando apenas ser socorrida?
Cheio de curiosidade e compaixão girou a chave no trinco,
descerrou o ferrolho e abriu a porta com cuidado. Uma réstia de
luar clareava a soleira. Nada, ninguém. Apenas na treva dois pontos
fosforescentes como olhos que estivessem a observá-lo. Só
quando se curvou para examinar o que pareciam restos de penas
espalhadas no caminho, é que se lembrou do que, naquela noite,
lhe contara o poeta. Mas então já era tarde.
Um cheiro insuportável apagara o doce aroma de jasmins e folhas
pisadas e, enquanto nuvens escuras toldavam a luz esbranquiçada
da lua, as gargalhadas ressoavam em toda parte, contraponto ao
soluçar desesperado de uma criança invisível.
As areias moviam-se, ao sopro do vento que descabelava os
coqueiros. O alarido se aproximava, cada vez mais desvairado,
cada vez mais ululante, até cercá-lo de todo. O pior, no entanto,
foi o estalido das mandíbulas, quando os dentes afiados se lhe
enterraram na carne.
__________
Myriam Fraga é administradora cultural, Diretora da Fundação Casa de Jorge
Amado; é poeta, ensaísta e ficcionista, autora de diversos livros, como Poesia
Reunida (2008). Desde 1985 ocupa a Cadeira nº 13 da ALB.
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Ópera em Viena
Consuelo Novais Sampaio
O
maior espetáculo esportivo da terra. Assim foi anunciada a
Olimpíada que teria lugar em Munique, setembro de 1972. As
quadras esportivas, ginásios, a enorme e bela vila olímpica,
causaram admiração a quantos lá estiveram. Eu sempre quis assistir
aos jogos olímpicos, mas nunca me havia sido permitido. Quando
tomei conhecimento desta, o espetáculo já havia começado. Mas
iria assim mesmo. Seria uma fuga de tanta opressão, inclusive de
uma ditadura militar que mostrava intenção de ficar. Ninguém
saberia de nada, exceto minha mãe que me dera dólares necessários
para alguns dias de escapada.
Assim, pela primeira vez, voei de Salvador a Viena, breve escala
em Zurich, depois, Munique! Sozinha. Sentido de completa
liberdade! Grande excitação. Previa uma jornada de grandes
atrações. Tudo novo para uma baiana que nunca havia antes pisado
no chão da Europa. Voo confortável, aeronave relativamente
vazia, transformei três bancos numa bela cama. Dormi e sonhei.
Vi-me em Munique, o coração da Baviera, cujas batidas ressoavam
no meu peito, embora num estranho compasso ternário que
sugeria as valsas de Viena.
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Ao despertar desse sonho, na breve escala em Zurich, fiquei
chocada, como os demais passageiros, quando o comandante
informou que o vôo seria redirecionado para Viena, pois havia
ocorrido um atentado terrorista na Vila Olímpica. O coração da
Baviera sangrava, paralisando aquela que seria a maior Olimpíada
de todos os tempos. Ao aterrissar no aeroporto internacional de
Viena, fiquei sabendo que a organização palestina Setembro
Negro havia invadido a Vila Olímpica e liquidado dois atletas
israelitas. Em seguida, da varanda de um dos quartos, exibiram
nove reféns. Queriam que Israel imediatamente libertasse 200
árabes que mantinha na prisão. E que não demorassem, avisaram,
pois a cada hora transcorrida matariam dois dos reféns. Todo o
mundo chorou essa tragédia. Os da minha geração jamais
esquecerão aqueles dias sangrentos. Ainda em Zurich, muitos
passageiros tomaram direções diferentes.
Considerando que o meu sonho poderia ser uma premonição,
decidi conhecer Viena palmo a palmo; dançaria ao som dos
minuetos de Mozart, das valsas de Strauss! Já me via num daqueles
longos e rodados vestidos da época, saia bordada a fios de ouro,
salpicada de pedras preciosas; o corpete extremamente justo,
ressaltando o pulsar da minha alma. Não me importaria se o salão
não estivesse num daqueles magníficos palácios, afinal a maioria
havia sido transformada em asilos, abrigando um mar de
desajustados, produzidos pela Segunda Guerra Mundial. Não
haveria problema, estava pronta para bailar em qualquer lugar,
num daqueles amplos salões das casas de chá reservadas a turistas
de baixa renda, ou mesmo nos passeios, nas ruas, num barco,
descendo o Danúbio...
Em pouco tempo, o táxi conduziu-me a um hotel. Será que o
motorista pensou que eu era rica? Ao saltar do veículo, olhei para
a fachada do prédio e, já no hall, fiquei alarmada com o luxo que
me cercava. Tive ímpetos de gritar para o motorista, “espere,
espere”. Mas o cansaço não deixara. O chão era de mármore
polido, possivelmente de Carrara, pensei; enormes candelabros
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de cristal, pingentes adornados, iluminavam o grande hall.
Rapidamente me registrei e subi apressada para o quarto; não
queria ver mais nada. Fechei a porta rápido, como se quisesse
impedir-me de fugir. Contudo, logo vi na parede acima de
requintada escrivaninha, um belíssimo Gobelin; a cama de dossel
poderia ter pertencido a algum nobre falido; os travesseiros
enormes, estofados com penas de gansos e cisnes, convidavam
ao mergulho. Foi o que fiz, caindo em sono profundo, só
acordando com o morno sol da manhã seguinte.
Desci para o café matinal, um verdadeiro banquete, ainda
que ali faltassem o colorido, a exuberância e flagrância das nossas
frutas tropicais. Pobre rica Europa, suspirei. Antes de sair, fui
checar o preço da diária. Minhas pernas tremeram, minha mente
se turvou, quando constatei que gastaria sessenta dólares por dia.
E mais grave, só para dormir, pois o meu plano era palmilhar
cada canto da cidade.
Tanto para ver... Teria de sair imediatamente daquele hotel.
Os meus recursos eram minguados, e já estavam se esvaindo,
com o táxi, o café da manhã... Muito gentil o motorista me levou
a uma pequena pousada, às margens do Danúbio. Que sorte,
pensei. Mas o famoso rio, não tão azul como se propagava, era
bastante largo para permitir que nele flutuassem os sonhos dos
brasileiros. Malas guardadas, fui andar por Viena, marginando
esse rio inspirador.
Alegremente, caminhei pelas ruas com passeios adornados de
lindas flores coloridas (possivelmente importadas, pois não era
Primavera) admirando monumentos, sentindo o peso do passado
histórico. Tudo muito limpo e organizado, talvez demasiado
“civilizado”, tão distante da minha realidade... Breve lanche,
continuei andando. De repente deparei-me com o magnífico
prédio da Ópera de Viena. Uma enorme e intrigante fila de jovens
circundava-o, como se fora um abraço caloroso, muito íntimo.
– O que está havendo? perguntei a uma delas. Eram duas da
tarde e um pôster informava que o espetáculo começaria às oito
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da noite. Sorrindo, informou-me que esperavam a hora em que
começaria a venda de bilhetes para as galerias, pois eram os mais
baratos. A ópera daquela noite seria Don Carlo, de Giuseppe Verdi.
Eu não poderia perder. Amava Verdi. Na escola aprendera que a
sua ópera Nabuco penetrara na alma dos italianos levando-os a
cantar e escrever nos muros da cidade os seus versos libertários,
que tanto contribuiu para levar o povo a lutar pela independência
da Itália: “Oh, mia pátria si bella e perduta ...”
Os cantores líricos que interpretariam Don Carlo justificavam
a longa espera na fila – o que eu só constataria anos mais tarde.
A grande atração era Plácido Domingos que já despontava como
um dos maiores e formosos tenores dos nossos tempos. Katia
Ricciarelli, beleza física, voz celestial, também brilhava como uma
das melhores sopranos do mundo. Interpretaria o papel de
Elizabeth, a bem amada do infante Don Carlo.
Então, ambos eram para mim ilustres desconhecidos. Embora
houvesse aprendido com a minha mãe a apreciar a beleza da ópera
– essa harmoniosa junção de grandes manifestações artísticas do
homem, drama, música, dança, canto. Os favoritos da minha mãe,
contudo, não mais existiam. Patrioticamente, ela escalava a
brasileira Bidú Saião, como a maior soprano de todos os tempos,
concedendo a Maria Callas um discreto segundo lugar.
Despontando entre os tenores do seu coração, estavam Beniamino
Gigli e Caruso. Chorou muito quando Caruso, “a mais bela voz
de todos os tempos”, foi assassinado pela máfia italiana,
simplesmente porque se negara a cumprir uma ordem do gran
capo da época. “Não entendiam (comentava revoltada) que a sua
garganta estava doente de tanto cantar?” Não lamentou menos
quando Gigli morreu em 1957. Durante toda uma semana
ouvimos o seu disco, mãos postas como se estivéssemos orando,
numa cerimônia religiosa. A hora da comunhão se dava quando,
interpretando Pagliacci, Gigli deixava escapar aquela ressoante,
amarga e trágica gargalhada, expressando o sofrimento que a traição
da bem-amada lhe causava. Nossos olhos enchiam-se de lágrimas.
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Mas, inexoravelmente, as gerações se sucedem, e ali estava eu
frente a cantores líricos dos quais nunca ouvira antes falar. O
fato de ver tantos jovens motivados em torno de um espetáculo,
dispostos a passaram cinco horas numa fila, despertou-me a
curiosidade, e decidi ir à ópera. A fila, como disse, já estava muito
longa. A ópera só começaria às oito e eu não tinha tempo a perder.
Minhas finanças não permitiam que eu ficasse mais de uma
semana em Viena. Ainda havia muitas léguas a percorrer, muito
para conhecer.
Resolvi aproximar-me da grande fila e abordar uma das
adolescentes, como as demais simplesmente vestida, saia e blusa.
Mas seus longos cabelos encaracolados chamaram-me a atenção.
Expliquei-lhe o meu drama e candidamente pedi:
– “Por favor, guarde-me um lugar na fila, prometo voltar logo”.
Não se comoveu quando lhe falei do meu problema. Apenas disse
“Desculpe, não posso”. Não me afastei. Fiquei ali parada. Haviase criado para mim um impasse. Eu queria assistir à ópera, mas
não podia perder cinco horas numa fila. Será que ela não entendia
como era difícil vir à Europa? Enquanto mentalmente lamentava
a minha situação, ouvi uma voz suave:
– “ Mas posso guardar um lugar para você nas galerias.”
Não entendi como ela poderia guardar-me um lugar onde não
havia lugares marcados. Sem alternativa, concordei e afastei-me,
conformada com a minha pouca sorte.
Embora ainda estivesse claro, a noite já havia tomava conta da
cidade, quando decidi voltar ao Staatsoper. Sem filas, comprei
rápido o meu ingresso e guardei-o na bolsa. Vestia longo casaco
de inverno bege, bolsa a tiracolo, quando apressada entrei no
teatro. Todos já haviam tomado os seus lugares. Meti a mão na
bolsa, à procura do meu bilhete. Onde o havia colocado? Acabara
de comprá-lo! A minha ansiedade crescia à medida que levantava
a cabeça e via que aquele jovem, trajado a libré, continuava à
minha frente, aguardando o meu ingresso para conduzir-me às
galerias. Nervosamente, remexia a bolsa, virava os bolsos do
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casaco e não o encontrava. Num ímpeto, joguei tudo que havia
na bolsa no chão, provocando barulho constrangedor, com as
batidas dos objetos no mármore reluzente. O jovem olhou para
mim, sobrancelhas arqueadas, grave olhar de censura. Mas o
bilhete apareceu logo ali, junto aos seus pés. Entreguei-o em suas
mãos e ele, garbosamente, conduziu-me até as galerias.
Ainda deslumbrada com a beleza daquele teatro – por toda
parte iluminado por enormes lustres de cristais; suas escadarias
de mármore cobertas de veludo vermelho, corrimões de bronze
impecavelmente polidos – tentei encontrar um lugar naquele
mundo de jovens já acomodados nos seus assentos De repente,
avistei sentada na segunda fileira, aquela que me prometera ajudar.
Fez-me discreto sinal com a cabeça e fui ao seu encontro.
Vi que havia amarrado um lenço no corrimão da segunda
fileira, deste modo marcando o meu lugar. Agradavelmente
surpresa, tirei o lenço e o devolvi, agradecendo-lhe. Mal havia
me acomodado, as luzes dos imensos lustres de cristal lentamente
foram-se amortecendo. Quando a orquestra fez soar os primeiros
acordes da introdução, deixou claro que aquela era uma das mais
belas óperas de Verdi. As pesadas cortinas de veludo se abriram,
fazendo surgir a jovem Elizabeth de Valois, na floresta de
Fontainebleau, longe de todos, aguardando o seu amado noivo
Don Carlo. Nessa sombria ópera histórica, o gênio musical de
Verdi, transcende o de Schiller, autor do poema-tragédia que evoca
o nefasto destino desses amantes.
A partir do segundo ato, o drama da ópera se desenvolve
naquele lúgubre Escorial – imenso palácio-mosteiro que Felipe
II mandara construir. Eu já não gostava dele porque, na sua ânsia
de dominar a Europa, acreditando ser o escolhido por Deus para
combater os protestantes, chegou a dominar o Brasil durante 40
longos anos. E, à medida que a ópera avançava, passei a detestálo por haver roubado a noiva do seu filho. Vencera a guerra contra
a França e exigira que do tratado de paz constasse o seu casamento
com a nobre francesa, assim agindo, confessou, por “razões de
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Estado”. Hipócrita! Com essa mesma justificativa esse sinistro
personagem já havia matado duas esposas, e a pobre Elizabeth
seria a terceira.
Além do mais, ele era muito velho, padecia de gota, que com
frequência o deixava imobilizado. Centralizador, burocrata
empedernido! Como poderia casar com aquela bela francesa? Não
via que incorrera em pecado mortal, ao roubá-la do filho, já
destinado a com ela se casar? Que paz maldita era essa, que
transformava a mulher amada em madrasta, ferindo de morte
tão belos amantes?
Tanto fez o mórbido monarca que o ultrajado Don Carlo –
engrandecido pela límpida voz e beleza física do tenor Plácido
Domingos – foi acusado de conspiração, de apoiar os rebeldes
flamengos, ansiosos por libertarem-se de Flandres, então parte
do império espanhol. Julgado pela Inquisição, foi expatriado.
A meu ver, o que salvou Felipe II naquela noite, foi a voz
magnífica do garboso barítono búlgaro, Nicholai Ghiaurov.
Confesso que senti pena daquele infeliz monarca quando, na
solidão do seu austero e frigido gabinete, monasticamente
decorado, deixou que a sua alma atormentada extravasasse a
desilusão que o aniquilava, numa das mais belas árias da ópera:
“Ella giammai m’amo” /seu coração está fechado para mim/ amor por
mim não tem/ Ainda vejo seus olhos/ olhando tristes e admirados/ para os
meus cabelos grisalhos/ no dia que veio da França para se encontrar comigo/
Não, amor por mim não tem”. Desgraçado Felipe, afundado na sua
amarga solidão! Assim morrerá, mesmo depois do quarto
casamento.
No último ato, o todo poderoso Imperador Carlos V, avô de
Don Carlo, manifesta-se através de um frade, que entra no claustro
do monastério, acompanhando o Inquisidor e Felipe II. Flagraram
um encontro secreto entre Don Carlo e seu amor proibido, junto
à tumba do avô. O casamento não havia arrefecido o sentimento
que clamava pela união dos amantes. Despediam-se, antes da
partida dele para os Paises Baixo; Elizabeth incentivava-o a lutar
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pela liberdade daquele povo oprimido. Da tumba, a voz grave do
imperador saia possante e estrondosa como um trovão,
reverberando nas paredes ricamente trabalhadas do recinto: “a
angústia do mortal se prolonga até este claustro/ só o portal do sagrado pode
conceder-nos a paz final”. Ao mesmo tempo, o vulto assombrador
de Carlos V crescia, atraindo Don Carlo para perto de si – o que
significava a morte trágica que esperava o seu neto no exílio a
que fora condenado.
O espetáculo foi muito mais do que belo. Todos na plateia e
nas galerias ficaram imobilizados por um momento, sem moverem
um músculo da face, ante a chocante tragédia humana, e o
fantástico desempenho dos cantores. Estavam comovidos.
Também sem ousar mover-me, vi pelo canto dos olhos, que ao
meu lado estava um jovem de rosto pálido, longo e magro, cabelos
encaracolados, que mais parecia um anjo descido dos céus. Olhei
o meu relógio: passava da meia-noite. A ópera havia durado quatro
horas! Comecei a ficar nervosa. Como voltar para o hotel? Estava
sozinha em Viena. E se me assaltassem? Me matasse, no escuro
da noite? Ninguém iria saber. Prestes a entrar em pânico, e antes
que os aplausos entusiasmados rompessem o silêncio da emoção,
escrevi no meu libreto, em letras maiúsculas: “CAN YOU TAKE
ME TO A TAXI ?” Ainda me valendo da prolongada ovação,
pus a minha mensagem, mão trêmula, ante os olhos daquele que
eu identificara como meu anjo protetor. Sem se mover,
concentrado nos aplausos, fechou os olhos, em sinal de
consentimento, e continuou aplaudindo...
Depois, gentilmente, sem trocarmos sequer uma palavra,
acompanhou-me até um táxi cujo motorista conduziu-me ao hotel,
embalando a minha primeira noite em Viena. Agradeci e corri
para a porta. Estava fechada. Nervosa, da rua gritei, uma, duas,
três vezes: “Please, open this door”. Ninguém me ouvia. O tempo
passava e a minha insegurança aumentava. Fiquei desesperada.
Apoiei a cabeça nos braços encostados na porta, e comecei a
chorar. Pouco tempo depois, ouvi barulho, virei a cabeça e vi três
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rapazes alegres, passando pela rua. Pude ver que olhavam para
mim, parcamente iluminada pela fraca luz na frente do hotel.
Tive medo quando um deles começou a vir em minha direção.
Aproximou-se e perguntou o meu nome. Que fazer? O que ele
quer? Teria de dizer-lhe o meu nome, pois quem garantiria que
ele não iria me matar? Jamais voltaria à minha terra!
Contrastando com o meu nervosismo, calmamente ele apertou
o botão de uma caixa fixada ao lado da porta e disse o meu nome.
Como por encanto, a porta se abriu, sem que ninguém nela
houvesse tocado. Passe de mágica? Mistérios de Viena? Não
procurei saber. Corri apressada para o meu quarto e tranquei a
porta. Essa foi a primeira vez que eu vi um interfone...
De volta ao Brasil, compreendi que em Viena, naquele
setembro de sonhos e tragédias, o meu destino havia sido traçado.
Don Carlo fez de mim uma amante da ópera. Desde aquela noite,
passei a colecionar as mais conhecidas óperas, depois, aquelas
que remontavam aos séculos XVIII e XVII, chegando a possuir
mais de trezentas. Hoje, depois de haver doado a maior parte,
guardo apenas as que mais amo, para lembrar-me que neste mundo
de tantas misérias, também há belos e inesquecíveis momentos.
Todos muito breves...
Desde então, não mais perdi uma Olimpíada, embora passasse
a assisti-las no aconchego do lar. A ópera entrou definitivamente
na minha vida. Foi através dela que, anos depois, encontrei o
meu grande amor; tão grande que até hoje me faz sentir a mais
feliz dos mortais. Tão imenso e poderoso quanto a vastidão do
espaço sideral, que se pôs à minha espera, para em breve realizar
a suprema façanha do nosso reencontro.
Consuelo Novais Sampaio é historiadora, ensaísta e professora de História
da Universidade Federal da Bahia. Foi Diretora do Centro de Memória da
Bahia, da Fundação Pedro Calmon; tem diversos artigos e livros publicados,
dentre os quais 70 Anos de Lutas e Conquistas: Liga Bahiana Contra o Câncer
(2006). Desde 1992 ocupa a Cadeira nº 40 da ALB.
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Discurso de posse
na Academia de Letras da Bahia
Paulo Costa Lima
Abre-te discurso!
De nada nos sonegue.
Ouço-te antecipadamente, fornalha de sentidos, bigorna de
sonoridades,
em busca de método, música, retórica e utopia.
Se não queres cavalos alados e musas, manda buscar em Cachoeira
o fogo simbólico que nos ilumina a cada 2 de Julho – mais do
que passado e alegoria, a esperança de uma sociedade que esteja
à altura dos ideais desde lá projetados.
E peço-te não estranhares que falo a ti, discurso, enquanto falas a
todos. Faço-o em nome da clareza complexa do compor – pois
penso em ti como material, mesmo que vivo, como paleta de
possibilidades sobre as quais está posto o desafio de encontrar o
ambiente de palavras necessário à tecelagem desta noite.
“Feliz de quem com cânticos se esconde
e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.” (Jorge de Lima)
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Discurso, ó discurso!
Devo tratar-te como música que és? Seguir tua dança? Tu és
neguinha?
“Um discurso acadêmico. Como perpetrá-lo?”1
Quantas partes, quais os materiais, quais os processos?
Lembras-te dos primeiros ensinamentos da invenção
contemporânea – “Linguagem usada é linguagem morta”2?
Ou, como disse despetaladamente Claude Debussy, abrindo o
século:
“Esforcei-me bastante para desaprender tudo que me foi
ensinado”.
“Uma música que seja
como os mais belos harmônicos da natureza.
Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos
navios...
Uma música que comece sem começo e termine sem fim...
O som do vento numa enorme harpa...” (Vinícius de Morais)
Eis aí modelo em miniatura de método e de retórica
Desconstruir-te de unidade ou inteireza.
Aceitar alegremente o que me ofereces como possibilidade
cantante.
Celebrar que és intertexto e polifônico –
Ramalhete acrisolado e, ao mesmo tempo, conversa sem rodeios3.
A pluralidade das vozes como estratégia de tempo
e o tempo como estratégia de gozo,
como na mandala sonora da música dos pigmeus
ou na música do barroco – de Vivaldi e Bach,
como totalidade das expectativas, dos sentidos e das relações,
espelho dos falantes desejantes.
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O tempo moldura, receptáculo, interstício,
e principalmente o tecido da própria vivência
afetando método, retórica e utopia.
Discurso, ó discurso,
“o corpo humano não vive fora de sua humanidade de
palavra...
cada sujeito constituído pelas sonoridades de um Outro que o
antecede”4,
sendo o tempo projeção desse Outro,
uma categoria de suposto saber,
sabe quem sou antes de mim,
parceiro inalienável da criação, da fantasia e do sonho,
de cujo material somos feitos,
parceiros do ‘manda gozar’!
Carpe Diem: de que importa esse discurso se não aproveitar a
vida?
Então, que ele saia assim carpejado – ‘eu sou do mundo / eu
sou o samba...’.
Raio de luz que ilumina os passos de minha vida.
Não tem ontem, nem amanhã, porque não declina, não se
apaga.
Adriano Pondé, em seu discurso de posse, citando John
Donne.
A polifonia das perspectivas que aqui confluem,
A perspectiva das vidas que aqui confluem:
•
as vozes de todos os acadêmicos da cadeira n. 8, Luis
Anselmo da Fonseca (seu fundador), Francisco Peixoto
de Magalhães Neto, Adriano Pondé e Ary Guimarães;
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a voz de seu ilustre patrono Cipriano Barata, projetada
como se fosse, e é, o próprio fogo simbólico chegando
ao discurso; das Cortes de Lisboa em 1822, até esta noite:
Os mulatos, Sr. Presidente, cabras, crioulos, os índios, os mamelucos e
mestiços são gentes nossas, são portugueses e cidadãos muito honrados e
valorosos... Além disso, temos também os negros da Costa da Mina,
Angola, etc. A falta de cuidado nestes artigos pode fazer grande mal,
porque toda gente de cor no Brasil clamaria que lhes queiram tirar os
direitos de cidadãos e de voto.5
Como entender essa evocação de cabras, crioulos, índios,
mamelucos, mestiços, negros da Costa e de Angola, gentes nossas,
cidadãos muito honrados e valorosos? É ou não é o espírito e a
encarnação prévia do cortejo de 2 de Julho na Bahia – nossa
alegoria brotando viva a partir do que foi enunciado naquele
momento?
É um, é dois, é três
É cem, é mil a batucar
(Vinicius de Moraes)
O respeito e a ousadia – dois parceiros improváveis – tramando
outra ordem política e social, pensando nação e cidadania a partir
dessa perspectiva inclusiva, que a Europa não estava preparada
para ouvir (Já está? Já estamos?), e muito menos Portugal. Canta
Cipriano!
Há trezentos invernos que os tiranos
Da ocidental Europa celerados,
Nas três partes do globo empoleirados,
De oprimir não cansavam desumanos...
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E como requinte de ironia, neste Soneto I, Cipriano brinca com
a forma dos Lusíadas, pois nunca lhe faltou tempero. E vai
adiante:
...Para mais insultar a Natureza
Traficam de comprar e vender gente!!!
Mas o grande Brasil, cuja altiveza
De tais monstros é ser independente
Para sempre vingou tanta fereza
Gostaria de focalizar uma modulação sutil que aparece no
discurso às Cortes. Ao lembrar que “toda gente de cor no Brasil
clamaria que lhes queiram tirar os direitos de cidadãos e de voto”,
Cipriano está atribuindo poder criativo a essa população
subalternizada6. Uma estratégia de pensar que potencializa o
Outro, ao invés de debilitá-lo. E faz isso a partir de uma noção
de povo que ainda guarda o frescor da esperança iluminista mais
candente.
Cipriano expõe, em 1823, sua concepção de Revolução7:
Em uma revolução o povo reassume a sua autoridade e os seus Direitos
imprescritíveis e destrói o seu Governo, aniquila os Reis, as Leis e tudo
velho
para criar tudo novo, segundo a sua Soberana Vontade.
Obviamente ainda não havia Affonso Romano de Sant’anna
lembrando que “o povo é um ovo”, que pode ser coisa viva ou
ave torta, dependendo de quem o põe ou quem o gala:
Se chamais povo, a marcha regular das armas, os uivos e silvos no esporte
popular... então mais amo uma manada de búfalos em Marajó.
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Também não havia búfalos em Marajó. Mas, ao atribuir aos
subalternizados uma postura afir mativa, capaz de
autorreconhecer-se como valor diferencial, o discurso de Cipriano
Barata emerge como algo que interfere sobre uma secular
passividade com relação ao espetáculo civilizado europeu – e
antecipa as cordas da lira de um Milton Santos, imaginando a
globalização de baixo para cima.
Registra o mestre Luis Henrique Dias Tavares em seu precioso
ensaio sobre Cipriano:
No dia 4 de abril de 1831 na cidade do Salvador, três dias antes do
Imperador Pedro I ser deposto no Rio de Janeiro, Cipriano Barata
apareceu aos manifestantes ‘vestido de casaca preta de algodão da terra,
sapatos de couro de veado, sem tinta, e chapéu de palha, com um ramo de
café nas mãos, símbolo da paz’, como ele próprio se descreveu...
Que aparição fantástica deve ter sido essa. Uma verdadeira
personificação, que como “proposição corretiva de uma
brasilidade a ser conquistada”, se instala na encruzilhada da
construção cultural brasileira, projeta fundamentos que serão
imprescindíveis, permanece por quase duzentos anos como traço
estruturante. E a consciência, tão baiana, da importância
fundamental da performance como escolha política – Cipriano
tropicalista?
Transpondo a esperança iluminista de nação e de cidadania para
o Brasil, Cipriano Barata expõe o desafio da diversidade – mesmo
que, em sua forma de pensar, predomine a intenção de superar
essa condição pluralista.
Ora, diversidade não é coisa estática ou simplesmente pacificadora,
não é apenas material sonoro para bordões politicamente corretos;
como se a invocação de seu nome fosse uma terapêutica social
completa...
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O verdadeiro desafio da diversidade é o desafio de potencialização
das vozes que a constituem, vozes da alteridade, divisão de poder,
e isso cada vez mais se impõe como necessidade vital no cenário
contemporâneo,
por exemplo, como posição de luta diante de um capitalismo
pós-industrial que ameaça toda a diversidade cultural do planeta,
em nome de um modelo hegemônico de estética e lucratividade...
quase me escapa a expressão ‘estética da lucratividade’ –
se é que já não existe!
Buscar a construção de políticas públicas em cultura no Brasil
não significa impor uma determinada visão de cultura ao conjunto
dos cidadãos.
É muito mais do que isso: abrir espaço para que a própria noção
de cultura se transforme em objeto de re-elaboração permanente,
exige flexibilidade com relação aos cânones e atenção diferenciada
com relação aos movimentos sociais e identitários.
Tudo isso está latente no discurso de Cipriano Barata – basta
pensar na tal aparição –, alguém que lutou bravamente por uma
Constituição liberal, pela unidade do Império do Brasil, pela
abolição gradual do trabalho escravo e por uma industrialização
voltada para as reais necessidades, contra o luxo.
Seus ideais deságuam na perspectiva estabelecida pela cadeira n.
8. Cipriano Barata traz para a Academia de Letras da Bahia a
largueza de sua utopia de nação, e todas as consequências dessa
visão para o pensamento cultural.
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Por exemplo: ao lidar com o desafio de afirmação da nossa
identidade política, esbarra necessariamente no delicado equilíbrio
entre apropriações externas e legitimações nossas.
Traz, em si, a semente daquilo que vai ser classificado mais de
um século depois como ‘reversão antropofágica’, no âmbito do
mapeamento conceitual do jogo entre dependência e autonomia
cultural – a transmutação de passividade em atividade
transformadora.
Tupi or not tupi that is the question…
Queremos a revolução Caraíba. Maior que a revolução francesa. A
unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem...
Contra todos os importadores de consciência enlatada.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as
girls,
diz Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago.
Mas, para quem tem olhos de ver, essa atividade transformadora
atuou durante séculos por todos os grotões do País, a partir do
agenciamento dos ‘de baixo’, costurando imagens, práticas,
símbolos. Há uma ilustração inequívoca desse processo – o carro
do Caboclo, a nossa alegoria –, um carro de guerra português
que tem
lança de madeira apontada para um dragão,
cocar, muitas penas,
armadura de ferro em estilo medieval,
baionetas,
anjinhos barrocos,
placas com nomes de heróis,
colares diversos, alforjes,
bandeiras,
folhas e mais folhas, bilhetes com pedidos pessoais
entre muitas outras coisas.
Do ponto de vista da formação de intelectuais no Brasil, vale lembrar,
com Eneida Leal Cunha (2006), o costumeiro dilema: saber-se nãoeuropeu, saber-se não-índio, compor a própria ascendência.
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Tal qual Cipriano, vestido de algodão da terra com chapéu de
palha e ramo de café na mão, fomos levados a compor nossa
identidade. Esse gesto e essa necessidade varrem uma quantidade
enorme de feitos, movimentos, linhas de força e estilos
“brasileiros”; por exemplo:
•
“coletando situações do imaginário que desenham uma
genealogia da nacionalidade instituída” – Cunha (2006)
–, como é o caso de Viva o Povo Brasileiro, de João
Ubaldo Ribeiro;
instituindo critérios para a construção de uma música
“autenticamente” brasileira, carregada de ritmos de
origem africana;
calibrando todas as forças envolvidas – das harmonias à
linguagem – fundindo tradições europeias e africanas
para a plasmação daquilo que passou a ser identificado
como música popular brasileira;
ou mesmo criando Academias como esta, a partir do
espírito de Arlindo Fragoso e de sua valorização da
diferença de opiniões, tomando como referência o
modelo francês, mas representando uma afirmação de
autonomia para a construção social do mérito.
•
•
•
E o mérito é político, projeta a plenos pulmões Boaventura de Souza
Santos em sua última visita à Bahia.
Curiosamente, essas constatações nos levam diretamente ao
discurso de Ary Guimarães, ilustre ocupante desta cadeira, que
me antecede pontuando sobre o dever de:
...pronunciar-se diante das instituições e do momento brasileiro. Do destino
brasileiro, que é também o destino de cada um de nós, que é também o
destino de nossa cultura. De nossa identidade como povo, de nosso papel
no grande palco mundial...
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Estão aí praticamente todas as conexões que haviam sido feitas
anteriormente. E, sobretudo, a visão do horizonte mais amplo –
“o nosso destino” –, e a vocação de análise crítica que aponta
para uma avaliação das estruturas. Aliás, o próprio Ary Guimarães
estabelece o paralelo entre ele e Cipriano:
Os laços que nos aproximam de Cipriano Barata, entretanto, são mais
nítidos: o jornalismo ... e a dedicação à política, ele como ativista, nós
como objeto de estudo.
A política e o jornalismo como liames entre as duas vidas. A
paixão pela construção de cartas constitucionais como caminho
de redesenho da sociedade, algo que aparece claramente em
Cipriano...
Sim, eu vos adoro Instituições santas, mesmo para o bem alheio – governo
popular ou representativo, limitação dos poderes do Executivo, liberdade
de imprensa, tributação razoável... – enquanto vós não apareceis na nossa
Constituição Brasileira...
e também em Ary – sua dedicação de vida, sua cátedra – e, aliás,
com grande ênfase em seu discurso de posse, pronunciado em
10 de novembro de 1988, logo após a Constituinte, como denúncia
e como alerta:
O resultado foi uma constituição que querem de toda forma, bloquear. Já
a disseram fonte de ingovernabilidade. Querem impedir que vigore para
que se mantenha o ‘status quo ante’.
O texto é reflexivo, sem dúvida, mas também apaixonado. Não
posso deixar de observar que mobiliza o leitor, e, nesse sentido,
tem lá os seus traços de ativismo. A constituição como construção
inviolável de uma sociedade, e como caminho de enfrentamento
das questões estruturais:
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Esse é o quadro a que chegamos: sem dúvida, a pior crise já vivida em
toda a vida do Brasil, fruto de elementos sociais e políticos acumulados,
que jamais foram enfrentados. Saímos de vinte anos de uma autocracia
que se instalou para tentar a saída permanentemente vencida: a de
solucionar a crise estrutural da sociedade e da economia brasileira sem
tocar sua estrutura. Ao inquietante exército de famintos mandou-se
esperar enquanto o bolo crescia... mas a miséria é que cresceu.
O texto é pungente: solucionar a crise estrutural da sociedade
sem tocar sua estrutura. A sua análise permanece viva, pulsante,
corajosa e desafiadora, denunciando “o imobilismo de nossa
estrutura social”. Denunciando que, “toda e qualquer ditadura
amesquinha o País”, que “todo autocrata é, no fundo, um
incompetente”, “todo golpe uma traição”
Amesquinha-nos a constante presença do autoritarismo, a sombra sempre
ameaçadora do apelo à força.
Então, é desse homem e dessa franqueza que estamos falando.
Em seu discurso de recepção, o Mestre Luís Henrique Dias
Tavares pontua com precisão exemplar:
Faça-se contudo, um aviso. Contido e discreto, V. Exa., não é de
polêmicas, mas é firme, seguro, bravo e corajoso...Ninguém se engane,
portanto, com o aparente ar de distanciamento de V. Exa... Do
quanto tem opiniões firmes, do quanto pode ser corajoso, deu V. Exa.
seguidas demonstrações recentemente na admirável série de estudos
dedicados á Assembleia Nacional Constituinte – os melhores que a
imprensa brasileira publicou... Por vezes V. Exa bordejou a
temeridade. Temos assim que há o Ary Guimarães composto, contido,
permanentemente discreto, e há o Ary Guimarães que luta e defende
princípios... Este, briga.
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Que belo retrato. E para realçá-lo ainda mais, por contraste de
estilo e atmosfera, reverbero aqui a primeira frase do discurso de
Posse de Ary:
Há sonhos que não se confessam a si mesmos. São talvez, os mais
profundos, os que revelam melhor quem os sonha... E por isso mesmo, são
guardados de tudo. Principalmente para quem elegeu como norma de vida
a suspeita no julgamento próprio.
Mudamos de cena: agora estamos tratando da constituição interna
– e dessa ponte caprichosa entre olhar interno e externo, entre a
coerência e a fantasia. E eis que o nosso personagem reconhece
a profundidade da ‘outra cena’ – sonhos que não se confessam a
si mesmos –, e adota como norma de vida a suspeita no
julgamento próprio, ou seja, a suspensão do ego.
Poucos disseram com tanta elegância da honra de pertencer a
esta Casa. A ele me associo humildemente.
Cipriano Barata e Ary Guimarães são muito diferentes e muito
parecidos – talvez devêssemos dizer: diferentes em suas
similaridades. Peço agora ao discernimento sutil de Ary Guimarães
que apresente o fundador dessa cadeira – Luis Anselmo da
Fonseca.
“Há uma linha de coerência entre Cipriano e Luis Anselmo”,
observa Ary, ambos “polígrafos, polemistas e defensores de
políticas avançadas”.
Pois bem: agora estamos em 1888, e a escravidão foi abolida no Brasil.
Os libertos da Bahia comemoram... Vejam quem aparece nesse cortejo
carregando um estandarte da Faculdade de Medicina – Luis Anselmo da
Fonseca... Mais uma vez o 2 de julho não se conforma em ser meramente
alegoria, invade o real do discurso, e demonstra como é sutil a diferença
entre realidade e imaginário.
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Luis Anselmo da Fonseca: pardo (hoje afro-descendente), filho
natural, batizado em 1848 (em Jacobina), formado pela Faculdade
de Medicina em 1875, abolicionista, autor do livro A Escravidão, o
Clero e o Abolicionismo, publicado em 1887; e professor da Faculdade
de Medicina a partir de 1883.
O personagem se apresenta com a epígrafe deste seu famoso livro:
Se não tendes o espírito emancipado, se vos não habituastes a amar a
verdade e a justiça, se alimentaes qualquer preconceito – seja de partido,
seita, escola, classe, hierarquia ou de outra espécie, – vos aconselhamos que
não leias este livro...
Das opiniões e dos atos de várias pessoas – relativamente aos escravos e à
sua grande causa – nos ocupamos, é certo.
A historiadora Wlamyra de Albuquerque (1999) descreve em
detalhe as comemorações pela abolição em 1888, na cidade de
Salvador8. Os libertos solicitaram os carros dos caboclos para a
festa – sendo liberado o carro da Cabocla, talvez por ser menos
impositivo, ressaltando a conciliação:
Os populares saíram da Lapinha, seguiram pelo Terreiro de Jesus,
passaram pela Praça Castro Alves e rumaram até o Forte de S. Pedro
Uma semana depois, organizou-se o retorno do carro à lapinha. Desta
vez, os ânimos arrefecidos, o préstito foi organizado com mais controle das
autoridades: à frente estava o esquadrão da Cavalaria do Exército, o
Esquadrão Patriótico Joaquim Nabuco, e só depois surgia o carro da
Cabocla, puxado por libertos. Por fim, desfilou a Legião da Imprensa
seguida pelo carro da Sociedade Abolicionista Libertadora Baiana com o
seu estandarte e o retrato de Joaquim Nabuco.
Além da presença neste cortejo de retorno, Luis Anselmo também
integra a comissão organizadora de todo o evento.
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Francisco Peixoto de Magalhães Neto, ilustre sucessor de Luis
Anselmo da Fonseca nesta cadeira, seu aluno na Faculdade de
Medicina, deixou sobre ele um importante ensaio, colocando em
destaque suas principais facetas: médico, professor, filósofo,
abolicionista e polemista. Traça um perfil analítico cuidadoso de
seu antecessor, avaliando suas relevantes contribuições.
Todavia, mergulhado na leitura do polpudo livro de Luis Anselmo
sobre o Abolicionismo, devo confessar, que aquilo que mais me
impressionou foi o traço de crítica cultural, tão ferino e decidido
que merece registro um pouco mais detido.
Falando daquilo que considerava atraso deplorável entre nós, diz
Luis Anselmo:
A Bahia construiu o edifício de sua civilisação sobre as bases da
instituição servil, que é a negação da liberdade e da iniciativa, e do
ultramontanismo (português) que é a negação da sciencia e do movimento.
(sic)
O autor dedica todo um capítulo à descrição minuciosa da luta
pela implantação do trabalho livre na Bahia, e descreve toda a
resistência do status quo, pressionando para a manutenção do
trabalho escravo – focaliza de forma especial os serviços de
catraieiros, carregadores de fardos e remadores de saveiros,
descrevendo a incrível luta para tornar possível o funcionamento
de trabalho livre nesses setores. Uma batalha que foi disputada
palmo a palmo.
Volta à carga:
A Bahia adora o passado, ama o status quo e antipathisa todo
movimento...
Aqui para alguém merecer a estima publica é preciso imitar a
immobilidade do fakir...
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A Bahia não é mais que um dormitório. Sua população, reclinada sobre o
dorso das collinas, dorme... dorme sempre e... sonha com a escravidão...
Só acorda ou para o carnaval eleitoral, ou para as festas de egreja...
...Hoje nossa instrução está quase aniquilada... Os professores primários
muitas vezes deixam de receber seus ordenados por 12, 18 e 24 meses...
E tudo resume com essa fina análise de cultura política:
...Pior do que este lamentável estado de cousas é a presunção d’aqueles
baianos que consideram sua terra muito adiantada e feliz...
Os bahianos que conhecem estes males attribuem-nos ao governo e do
governo esperão os remedios. É obvio que elles têm no pensamento o
governo absoluto e paternal das tradicções coloniaes.
Convencido do atraso da Bahia com relação às outras Províncias,
Luis Anselmo sonha com uma modernização reparadora,
provavelmente em torno da noção de progresso e ciência. Mas
esse vetor de análise da cultura política permanece atual e vai
encontrar ecos no trabalho recente de pesquisadores como Paulo
Fábio Dantas Neto e Israel Pinheiro.
E aqui, nesse ponto do percurso, podemos observar o importante
alinhamento entre essas três figuras – Cipriano, Luis Anselmo e
Ary Guimarães. Devotam grande interesse e energia a
transformações profundas da nossa sociedade. Percebem, cada
um a seu modo, as fragilidades do nosso edifício social, e sonham
com mudanças.
Retorno ao texto de Ary Guimarães. Ele busca regularidades na
linha sucessória da cadeira n. 8. Observa que a vocação pela vida
pública é um traço presente em todos os ocupantes. Vocação
exercida não apenas na “trincheira das assembleias políticas, mas
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também no magistério responsável, formando geração de
pensadores”. Destaca a condição de mestres humanistas, tanto
em Magalhães Neto como em Adriano Pondé, levando o
humanismo, necessariamente, ao interesse e ao engajamento com
a realidade política do País.
Encontramos Magalhães Neto em 1934, como representante do
estado da Bahia na Assembleia Nacional Constituinte. No discurso
proferido em 26 de março trata de questões da saúde pública no
Brasil, e abre parêntesis para homenagear seu antecessor...
Eminente professor de higiene, cujo nome quero citar com saudade, o
grande baiano e eminente patriota doutor Luiz Anselmo da Fonseca
escreveu, no limiar mesmo de seu laboratório: “aprendei a evitar moléstias,
curá-las quando não impossível é sempre mais incerto, difícil e penoso.
Reflete ainda sobre a natureza complexa dos problemas sanitários
— de como se entrelaçam como peças de um mosaico, afetando
todas as atividades da vida comum — passando a exigir um
investimento especial de coordenação.
Como bem registra Adriano Pondé, Magalhães Neto
defendia o conceito de que a Medicina, pela sua própria finalidade, cabe
em grande parte nos domínios das ciências sociais...
Doença e pobreza são elos de uma só cadeia... Saúde e desenvolvimento
são expressões que cada vez mais se encontram associadas.
Essa linha de pensamento, incorporada à sua trajetória, deu origem
ao sonho de criação de uma Escola de Saúde Pública na Bahia, e
o coloca como um dos ideólogos do movimento que resultaria na
estruturação da área de medicina preventiva, e posteriormente, na
criação do Instituto de Saúde Coletiva. Mais uma linha de pensamento
transformador que se associa ao histórico da Cadeira 8.
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Ary Guimarães, ressalta Magalhães Neto
era um intelectual e homem cuja sensatez, sabedoria e equilíbrio nas
decisões o transformaram em oráculo... Lembram-me as sessões do
Conselho Departamental onde todos aguardavam sua palavra de
experiência... Foi das figuras completas que identificavam sua época. Não
lhe faltou sequer a fina inspiração de epigramista, que o tornou temido...
E Adriano Pondé registra outro conjunto de qualidades:
,erudito e frequentador dos clássicos latinos conhecendo o grego bastante
para apreciar, no original, textos de Homero e Xenofonte
,escritor que valoriza a forma literária – límpida e elegante
,orador de amplos recursos
,intelectual comprometido com a defesa das nossas instituições culturais, a
Academia, onde ingressou de fato aos 42 anos, e muito especialmente, o
Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, que presidiu durante muitos anos...
Porém, de todas as qualidades comentadas, a que Adriano prefere
ressaltar como a mais fundamental é a generosidade; que inclusive
se traduzia em um esforço permanente para encontrar a justa
medida na árdua tarefa do julgamento.
Quanto a Adriano Pondé, lendo o que nos deixou escrito, e
especialmente os depoimentos de quantos o conheceram sobre
sua natureza humana e dedicada, sobre seu grande conhecimento
médico, percebemos que – independentemente de significativas
contribuições institucionais, tais como a criação da Escola de
Nutrição, ou o desempenho como Reitor da UFBA após a morte
de Miguel Calmon, entre tantos outros –, sua melhor trincheira
estava na esfera do indivíduo.
Digo isso com a consciência de que a esfera do indivíduo é talvez
uma das que mais exijam desprendimento e doação – pois, para
permitir o afloramento da individualidade, é preciso construir
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qualidades de recepção, espaços abertos e livres para a
representação do outro.
Não seria justamente essa a verdadeira arte do clínico?
Impressiona, no discurso do próprio Adriano, a atenção dedicada
ao tema ‘A medicina não se desumanizará’: a técnica não é uma
finalidade, é o instrumento para que se alcance um resultado
humano, e recorre ao mestre Amoroso Lima:
A libertação do homem não está nas coisas. Está em si próprio... o
progresso da humanidade não depende da perfeição de suas máquinas, mas
da perfeição daqueles que as souberem manejar,
Em suma, depende da virtude do espírito...
Nada mais natural, portanto, que uma mente cultivada como a
de Adriano Pondé caminhasse na direção da obra de Proust, um
virtuose na literatura, justamente pela via da construção complexa
da individualidade, da vivência de ser sujeito...
Para marcar a passagem do seu centenário, em 2001, alguns de
seus ex-alunos se organizaram e produziram um belíssimo
documento, com depoimentos que projetam uma coleção
impressionante de atitudes, de instantâneos, dedicando ao mestre
o mesmo cuidado que dele receberam. Registro alguns desses
instantâneos:
Fidalgo no trato com seus assistentes, seus discípulos e de modo muito
especial, com seus pacientes (Assis Fernandes)
... dou o meu testemunho desse desempenho, diante do seu comportamento
na enfermidade de minha mãe, quando presenciei as suas lágrimas de
emoção no seu falecimento precoce, naquela ocasião eu era um adolescente
de quinze anos que nunca tinha visto um médico chorar. A partir daí
passei a amar minha profissão...
(Antonio Carlos Peçanha Martins)
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Sabia falar com seus pacientes e familiares. Tinha paciência e muito jeito,
sugerindo e valorizando o ambiente harmônico como peça fundamental na
cura...
(Anita Guiomar Franco Teixeira)
Mas a esfera do indivíduo é também a esfera da construção de
medidas objetivas. Para Gilson Soares Feitosa – falando como
Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia –, Adriano
Ponde foi um visionário que anteviu a mudança do quadro
nosológico com ênfase nas doenças infecciosas para a verdadeira
epidemia de doenças cardiovasculares degenerativas que se
seguiu – trabalhando por um enfrentamento organizado do
problema e merecendo lugar de destaque na Cardiologia
nacional.
Mais uma vez – a responsabilidade com a dimensão coletiva.
E agora podemos tratar de uma das quadras mais sutis do discurso
de Ary Guimarães. Sutileza que nada sacrifica em termos de
franqueza. Partindo da atuação de cada ocupante da cadeira n. 8,
ele passa a refletir sobre o papel político da Academia, como um
todo. E observa, com apuro:
Há de entender-se que uma instituição que exerce e que pretende exercer
presença cultural é, inerentemente, uma casa política. Não só por praticar
o poder que vem da cultura
(apenas essa expressão mereceria um longo parêntesis, e a ela
retornaremos)
mas também porque, fazendo-se de um punhado de homens distintos, que
se tenham destacado na sociedade, não pode descurar-se de que seu
procedimento, ainda que mais afastado pareça do jogo do poder e das
ideologias, define-se nele.
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E prossegue:
Digo que devemos estar presentes em cada grande momento, em cada
esquina de nosso destino, pois em cada uma dessas circunstâncias a Pátria
nos exige a participação. Afinal, ela, a Pátria, não é feita senão do
conjunto de todos os cidadãos, conjunto que não prescinde daqueles que são
julgados notáveis na sociedade. Pelo contrário: deles, principalmente, se
deve servir.
Quantas coisas importantes estão sendo ditas sob essa aparência
de simplicidade! Várias questões e possíveis encaminhamentos
estão aflorando do texto. Desde aquela formulação sintética – o
poder que vem da cultura –, sobre a qual todo um discurso poderia
ser desenvolvido, até a colocação do problema da nossa missão.
Friso bem: da nossa missão. Ary Guimarães não particulariza essa
missão – como se houvesse uma missão específica da Academia,
distinta da de todos os cidadãos. Ele raciocina a partir da totalidade
Devemos estar presentes em cada grande momento, em cada esquina de
nosso destino
Nem precisaria comentar sobre a sutileza da imaginação de
‘destinos com esquinas’, é uma construção poética, mas
absolutamente objetiva, precisa, as esquinas são os grandes
momentos. E prosseguindo:
A Pátria não é feita senão do conjunto de todos os cidadãos, conjunto que
não prescinde daqueles que são julgados notáveis na sociedade.
De início esse jogo precioso com as negações – “não é feita senão
do conjunto de todos os cidadãos”. Há aí um aviso claro aos
navegantes: ninguém ouse solapar essa totalidade, excluindo quem
quer que seja.
E mais: a notabilidade dos notáveis só pode ser entendida como
uma função perante o todo da sociedade, e não como celebração
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de privilégios ou idiossincrasias. Acho que o recado está dado,
com todo estilo, franqueza e simplicidade. Viva Ary Guimarães
por tal capacidade crítica!
Pois como disse Gregório:
O todo sem a parte não é todo / A parte sem o todo não é parte,
/mas se a parte o faz todo, sendo parte, /Não se diga, que é parte, sendo todo.
(Gregório de Mattos, soneto)
Nasceu Ary Guimarães em 24 de agosto de 1933, aqui em
Salvador. Seus pais: Daniel Guimarães e Alzira Guimarães. Sua
vida esteve repleta de feitos e funções de grande dignidade.
Bacharel em Direito pela UFBA, em 1956. Professor Titular da
UFBA, lecionou Ciência Política e Direito Constitucional na
Faculdade de Filosofia e na Faculdade de Direito. Professor da
Pós-Graduação em Direito Administrativo. Superintendente da
Federação das Indústrias do Estado da Bahia entre 1967 e 1970.
Diretor do SPHAN entre 1980 e 1986. Jornalista profissional,
chegando a editor do jornal A Tarde. Autor dos Livros “Um
sistema para o desenvolvimento”, publicado pela UFBA em 1966
e “As eleições baianas de 1970”, que foi tese do concurso para
Titular, em 1972.
O mais importante: as características do seu discurso foram as
mesmas da sua vida – inteligência sutil, postura discreta e, ao
mesmo tempo, radicalmente corajosa, quando necessário. Mais
uma vez recorro ao Mestre Luis Henrique, que cunha uma
expressão inesquecível: “O Ari é correto”. E vai adiante,
lembrando que o estudo da saúde política, o esforço por uma
educação política – paciente, correta, diária – constitui o
trabalho mais urgente e necessário no Brasil dos nossos dias.
Portanto, além de correto, e justamente por isso, Ary Guimarães
permanece necessário.
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Retomo a noção que ele apresentou em discurso sobre a
vinculação entre as partes e o todo, entre os cidadãos e os destinos
da sociedade brasileira. Digo que esta talvez seja a melhor utopia
do nosso tempo – uma que ressalto confiante – embora todos os
sinais apontem em direção contrária,
Estamos vivendo a época onde o indivíduo-celebridade é que
faz estrutura – não digo que faz sozinho, há toda uma indústria
trabalhando nessa direção, mas sem ele fica inoperante.
Quem faz a música? Cada vez menos pensamos em coletivos e
mais no indivíduo celebridade. Muitas vezes o coletivo é
convocado para legitimar a celebridade, e a partir daí permanece
mais ou menos inativo. Quem faz a instituição? A ciência? O
partido? A moda? O consumo? Será que faz a ética...?
Mas, não podemos simplesmente sair por aí gritando ‘abaixo o
indivíduo!’, muito menos num discurso de posse, até porque, afinal
de contas, houve muita luta, muita revolução francesa para
per mitir a continuidade do processo de maturação da
subjetividade, das subjetividades...
Muita reviravolta para permitir a complexidade com a qual
tratamos a questão do sujeito... Seus tempos, suas cenas...
Encaminhei o discurso na direção de uma utopia – estava
prometida desde o início –, e qual não foi a felicidade: encontrála no próprio discurso de Ary... Sabendo, desde sempre, que as
utopias se alinham com a teoria crítica, e se distinguem da ciência
positiva justamente pela decisão de não reduzirem a realidade ao
que existe,
Ou seja, pela decisão de tratar a realidade como campo aberto de
possibilidades...
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Precisamos aprender novas formas de responder a esse desafio
do equilíbrio entre a exuberância do indivíduo e das subjetividades
e a construção de autonomia do coletivo, a construção de uma
dinâmica do coletivo, que muitas vezes recebe o apelido de
democratização.
Mas o termo acaba sendo escorregadio, ao sugerir que há uma
forma padrão de fazer isso; como se a dinâmica dos coletivos
não exigisse soluções específicas a cada caso, e em cada conjuntura.
Estamos diante de um paradoxo: nem todas as ‘democratizações’
envolvem uma dinâmica do coletivo. Nem todas interessam.
* * *
Agora uma quadra complexa. O desafio de uma breve autoapresentação. Agarro-me ao princípio vislumbrado por Ary e vou
registrando abaixo o conjunto de situações de pertencimento que
me constituíram como gente. Pode até parecer estranho, mais
penso numa analogia estreita com o batuque...
Sei que pertenço aos batuques.
Onde os houver no mundo, lá estarei,
mesmo que sejam batuques renascentistas
polifonias renascentistas.
Eles, os batuques, representam de forma exuberante essa
confluência mágica entre um e todos; são peles vibrantes, são
formas distintas de dividir e de compartilhar o tempo e o
contratempo... De instituir ordem e subversão.
Não seria difícil imaginar meu núcleo familiar de origem como uma
pequena batucada: Antonio Batista Lima e Dinorá Costa Lima, Dona
Amélia Duarte (uma segunda mãe), João Augusto e, este que vos fala –
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tenho certeza que há uma estrela onde habitam esses personagens que fui e
que fomos...
E na outra ponta, a família construída, minha mulher Ana Margarida,
minha companheira de 36 anos, minha alma gêmea – parceira de todas as
iniciativas
–, e nossos filhos Cláudio e Maurício, a quem amamos com todas as
forças;
cubro-os todos com um manto de carinho e agradecimento,
e estendo esses votos ao círculo mais amplo da família Costa, Lima,
Cerqueira Lima, Isensee, Horschutz, Nogueira, Walter e a todos os
preciosos amigos que foram sendo aconchegados ao longo da vida, em sua
trama...
Também agradeço a todos os ambientes que me acolheram no
processo de formação. A todos os professores, artistas e lideranças
que me inspiraram na direção do trabalho e do aperfeiçoamento:
desde a Escola Getúlio Vargas, passando pelo
ICEIA - Instituto Central Isaías Alves,
o Colégio de Aplicação da UFBA,
os Seminários de Música (a partir de 1969),
a Faculdade de Medicina da UFBA, durante um longo ano,
a Escola de Música e Artes Cênicas da UFBA,
a Universidade de Illinois em Champaign-Urbana,
até a Faculdade de Educação da UFBA
e a Universidade de São Paulo, onde desenvolvi teses de
doutoramento.
Mas também devo assinalar alguns outros ambientes ou ciclos de
aprendizagem:
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a psicanálise como descoberta radical; a psicanálise que pratico
como leitor assíduo e analisando.
a visão amorosa da religião, tal como vi em Dom Timóteo;
e tal como vi recentemente em Alfredo Dórea;
o horizonte idealizado da transformação social e da construção
de um Brasil sem a tragédia da exclusão e da desigualdade;
a rede viva de todos os amigos, que mencionei antes, e que aqui
sublinho como uma mola do querer viver, do querer seguir em frente...
Devo também mencionar os ambientes onde desenvolvi atividade
profissional:
a própria Escola de Música da UFBA, meu ninho de referência,
e dentro dela, o Grupo de Compositores da Bahia, ou melhor, o
movimento da composição – do Falamassa ao OCA e ORCA –
Oficinas de composição Agora.
agradeço especialmente aos meus estudantes, com os quais, mais
aprendi que ensinei; a todos os parceiros de ideias e ideais...
a Reitoria da UFBA, onde exerci a função de Pró-Reitor de
Extensão entre 1996 e 2002; e aprendi que a trama do
conhecimento é bem mais ampla que a universidade...
a Fundação Gregório de Mattos, e por consequência, todos os
cantos culturais da cidade de Salvador... Desde as instituições
mais tradicionais como o Instituto Geográfico e Histórico da
Bahia, liderado pelo espírito de luta de Consuelo Pondé de Sena,
até as agremiações culturais de bairro, as academias de capoeira,
o mundo do candomblé, nosso tesouro de ética e de estética, a
quem saúdo através de um amigo, o venerável Esmeraldo
Emetério do Tumba Junsara;
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o diálogo produtivo, criativo, a grande parceria com o Ministério
da Cultura do Governo Lula – de Juca e de Gil –, e toda a sua
plataforma de estimulação das dinâmicas do coletivo através
políticas públicas de cultura.
Todos esses âmbitos dariam origem a uma impressionante ciranda
de nomes, que me constituíram e me constituem – algo impossível
de lidar na presente situação:
* * *
E, com isso, desemboco numa pergunta fundamental:
O que ficou de tudo isso?
1.
O aprendizado de que a questão ética é o campo prioritário.
Que as pessoas são pessoas; e que nos cabe observá-las e admirálas em sua performance de gente... Ser testemunhas, como disse
Drummond...
Creio ter adquirido, ao longo dos anos, uma consciência cada vez
maior desse princípio sagrado,
e até mesmo certa habilidade em conseguir valorizar o outro.
Trata-se da ferramenta mais importante para a gestão, e
especialmente a gestão da cultura...
Trata-se também, da mais importante ferramenta pedagógica...
Por exemplo: não adianta querer ensinar composição às pessoas;
ensinar a criar – que ultraje... Só aprendem a compor quando se
sentem compositores, ou seja, quando há uma estrutura
relacional que garante essa ousadia; esse é o papel inalienável
do professor.
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2.
A ética como justiça, como igualdade de oportunidades, como
reparação.
A ética de protestar e de ser contra, de imaginar novos mundos,
com novos atores e autores, novas artes, novas vidas...
A ética da equidade – a equidade da ética.
3.
O valor profundamente transformador das ideias, dos desejos, e
dos sonhos.
As ideias são entidades perigosas, elas ameaçam a ordem vigente,
elas podem durar segundos ou séculos; elas se infiltram, elas
vicejam, elas retornam em mil disfarces...
E, nessa conexão, o valor do trabalho, do rigor, da disciplina, da
limitação de liberdades para construir mais liberdade...
4.
O papel da cultura como refundadora da nossa ética de sociedade,
de coletividade. A cultura como repositório gentil de uma miríade
de pertencimentos possíveis,
a cultura como esquina essencial do destino da nação brasileira,
como “proposição corretiva de uma brasilidade a ser conquistada”.
O civismo é uma questão de futuro e não de passado.
A cultura como convocação a todos,
como oportunidade de valorizar e ser valorizado,
como esperança de transposição de antigas fronteiras entre
letrados e não-letrados, entre eruditos e populares, modernos,
românticos ou pós-modernos, bregas e chiques, globais e locais.
E a Academia como “lugar de serviço à sociedade”, tal como
nos lembra o Mestre Edivaldo Boaventura, enfrentando o desafio
de ampliar a consciência desse processo, fertilizando-o, e
fertilizando-se nele.
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5.
A importância da territorialização, do arraigamento, das raízes,
e, ao mesmo tempo, do impulso contrário, a desterritorialização,
a abstração radical, a construção de cenas desgarradas de tudo,
ou potencialmente universais.
E, sobretudo, o diálogo travesso entre esses dois processos –
cada um puxando arbitrariamente para seu lado, e nós no meio.
Creio ter cumprido o meu dever de recipiendário – ao evocar os
discursos daqueles que me antecederam, buscando sublinhar as
linhas de força mais adequadas para a tecelagem desta noite, os
ideais que impressionam e comovem, os valores.
Também planto aqui, neste momento conclusivo, um ramo de
agradecimento sincero e profundo pela generosidade do gesto
de minha acolhida, e a tantos amigos e companheiros declaro
mais uma vez minha fidelidade ao espírito de luta que a Academia
ilumina.
Fecha-te Discurso!
Que tudo recolhas e guardes na memória!
Passaste como batucada de sentidos e sonoridades,
e agora, simplesmente,
cala-te.
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NOTAS
Cf. Discurso de Posse de Machado Neto, Revista v. 23, p. 102
Cf. Futility 1964 para voz e fita magnética, de Herbert Brün
3
Cf. Discurso de Posse de Fernando Peres, Revista vol. 36, p.278.
4
Gerard Pommier, Qué es lo ‘Real’: Ensayo psicoanalítico, Buenos
Aires, Nueva Vision, 2004.
5
Cf. Marco Morel, Cipriano Barata na sentinela da liberdade, p. 126
6
Uma descrição dos móveis do lavrador, médico e filósofo, feita por
ocasião de uma Devassa em torno de 1798, registra o seguinte: Uma
banca, meia dúzia de cadeiras, uma tina, um leito velho, dois baús,
dois caixões velhos de madeiras, três camas de pretos e uma estante
de por livros, tudo com bastante uso. Para Marco Morel, essas “três
camas de pretos” indicam que, como era comum o lavrador morar
sob o mesmo teto dos escravos.
7
Cf. Marco Morel.
1
2
__________
Discurso de posse proferido no salão nobre da Academia de Letras da Bahia
no dia 17 de dezembro de 2009 – Cadeira nº 8 da ALB.
Paulo Costa Lima é compositor, pesquisador e teórico de composição;
professor da Escola de Música da UFBA, ensaísta e escritor. Já produziu
cerca de 80 obras, com mais de 300 execuções no país e no exterior. Publicou
5 livros, além de diversos CDs e vídeos.
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Saudação a Paulo Costa Lima
Edivaldo M. Boaventura
Sem precisar sair da Escola de Música da Universidade Federal
da Bahia, de profundas raízes na tradição germânica, o professor
doutor Paulo Costa Lima entra na Companhia fundada por Arlindo
Fragoso. Seja, pois, bem vindo à Academia de Letras da Bahia.
Você ingressa, exatamente, quando a Academia se abre aos
residentes em todo o território baiano, depois da reforma do
estatuto. O instante também é de implementação eletrônica com
registro da vida dos acadêmicos e do que momentaneamente
acontece.
O Círculo Baiano de Leitura, os Encontros Literários e as
Visitas Guiadas, que movimentaram tanto o Sodalício neste ano,
foram possibilitados pelo Ponto de Cultura, graças à proposta
do confrade Aleilton Fonseca.
A parceria com a Fundação Pedro Calmon, por iniciativa do
acadêmico Ubiratan Castro, efetivou a apresentação das Novas
Letras.
Os seminários sobre vida e obra das escritoras Myriam Fraga
e Helena Parente Cunha, tão bem coordenados por Evelina de
Carvalho Sá Hoisel, aprofundaram a pesquisa literária e
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disseminaram novos achados, abrindo novas sendas para a
análise e para o conhecimento da literatura baiana, nosso grande
objetivo.
Por outro lado, o zelo com o Solar Góes Calmon, o requinte
da sua arquitetura eclética e a pintura de Presciliano Silva exigiram
uma tratamento museológico para tanto contamos com a
competência e Sílvia Athayde, ancestralmente, ligada a esta casa.
O seu pai, o engenheiro Aderbal Menezes, foi o artífice da
restauração do palacete, entregue ao público, pelo governador
Luiz Viana Filho, em 6 de novembro de 1970, dia do aniversário
de Góes Calmon, que sempre quis que sua casa fosse um museu.
Para a cuidadosa preservação do seu acervo artístico, mestre José
Dirson Argolo tem contribuído com a sua expertise e com a sua
dedicação.
Talvez nenhuma outra iniciativa da diretoria tenha sido mais
gratificante do que a criação do prêmio pelo conjunto da obra
literária, patrocinado pela Eletrogóes, bem assim a instituição da
Medalha do Fundador Arlindo Fragoso, pois, é preciso premiar
sempre, porque não premiar é punir pelo silêncio.
A exemplo da matriz francesa, as academias devem distribuir
prêmios, ocupar-se da gramática e do dicionário. Lá chegaremos
com o estudo dos falares e com o dicionário de autores baianos.
A doação do Solar Góes Calmon e o fornecimento dos
recursos para a sua manutenção pelo poder público, isto é, “a
implantação de acesso e difusão das ações cultura da Academia
de Letras da Bahia – ALB”, exigem de nós uma pronta resposta
à comunidade.
Assim, meu caro Paulo, há muito o que você fazer. Temos
excitantes expectativas com a sua chegada. Ao recepcioná-lo,
desde já o convoco para atuar nesses e em outros projetos.
Meus caros amigos,
Com quase quatro décadas, nesta casa, entrei na ousadia dos
meus dos 37 anos, sou acadêmico de número,sócio benfeitor e
presidente, portanto, tenho desafiantes responsabilidades que
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compartilho com os meus eméritos pares e de todos tenho
recebido o maior apoio.
Pois bem, durante todos esses anos, tenho admirado a
representatividade das gerações que nos sucederam, a começar
pela dos médicos e a cultura médica é marcante na Bahia, passando
pelos juristas cultos, filósofos, jornalistas, historiadores,
educadores, poetas, ensaístas e ficcionistas.
Mais recentemente o sodalício tem agregado os componentes
da geração formada pela revolução branca da pós-graduação com
mestrados e doutorados: Yeda Pessoa de Castro tem atraído a
presença afro-brasileira desde a sua posse, dando autenticidade
étnica à Companhia; os operosos Aleilton Fonseca e Carlos
Ribeiro; Cleise Mendes, presença bonita da dramaturgia; Evelina
de Carvalho Sá Hoisel, coordenadora dos simpósios; Ruy
Espinheira Filho, nosso poeta nacional, ocupa-se da biblioteca;
Ubiratan Castro todo colaboração e conto sempre com o apoio
afetivo da muito querida confreira Consuelo Novaes Sampaio.
A via universitária de acesso à Academia é uma das alternativas
de ingresso, porém não é, nunca foi e nem será a única. A
Academia sempre privilegiou a manifestação coletiva do talento
daqueles que se expressam pelas letras. Venham da Universidade
ou se originem da aprendizagem autodidata apoiada na leitura
formadora, como Xavier Marques, um dos nossos maiores.
Grande leitor é a pena dourada do grapiúna Hélio Pólvora.
No complexo e complicado processo de escolha, muitas vezes
a Companhia tem ratificado candidatos consagrados pela
comunidade culta. A facúndia do monsenhor Gaspar Sadoc da
Natividade já de muito era assinalada pelo seu extraordinário
talento de orador sagro, herdeiro de longa tradição que remonta
ao imenso Vieira. O saber da história e o conhecimento de tudo
o que dica respeito as coisas da Bahia candidataram o professor
Cid Teixeira à sucessão de Godofredo Filho. A expressividade, o
saber, o charme feminino e a liderança forte e decidida de
Consuelo Pondé de Sena conduziram-na muito naturalmente a
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suceder ao seu mestre o sempre lembrado José Calasans Quem
melhor do que Samuel Celestino para recolher a herança de Jorge
Calmon, nesta casa?
Constituíram-se em candidaturas comunitárias de expressivas
lideranças que sociologicamente se impuseram à nossa
consideração.
Meu caro Paulo, seja assíduo, como Waldir Freitas Oliveira,
Geraldo Machado, João Eurico Matta, Paulo Ormindo de
Azevedo, colaborador, como Luís Henrique Dias Tavares,
Cláudio Veiga, Cid Teixeira, Francisco Sena, e generoso como os
últimos que ingressaram: Yeda Pessoa de Castro, Samuel Celestino,
que nos presenteou com o busto de Jorge Calmon, Dom Emanuel
d’Able do Amaral e Joaci Góes que proporcionou o suporte para
o prêmio pelo conjunto da obra literária.
Meus caros amigos,
Acredito que seja o momento de indagar: o que o professor,
doutor e doutor Paulo Costa Lima veio fazer na Academia?
Poderia ter continuado com a sua música, fruindo da requintada
formação com mestrado e dois doutorados, no departamento
universitário. Por que nós o escolhemos para suceder ao saudoso
Ary Guimarães?
Paulo, não se esqueça que a Academia é honraria, mas é
também serviço, na dicotomia de Maurice Druon, o famoso
escritor do menino do dedo verde, Somos acadêmicos ad vitam...
Elaboramos, sim, continuamente a agenda do amanhã com a
poesia, a prosa, o ensaio, a fala, a escrita, a palestra e, daqui para
a frente, com a música.
Convenhamos que não existe especialidade nas Academias,
afirma sabedoria de Paul Valéry, quando escreveu sobre o mistério
e a função da Academia., Um professor de literatura pode suceder
a um médico, como um engenheiro pode substituir a um poeta,
com uma condição – contanto que ambos os intelectuais “tenham
publicado trabalhos de reconhecido mérito, em qualquer dos
gêneros da literatura, ou obra científica de valor literário,”
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prescreve sabiamente o nosso estatuto, sempre interpretado pelo
oráculo e romancista Aramis Ribeiro Costa.
A bem da verdade, na marcha democrática do conhecimento
prévio das candidaturas à sucessão de Ary Guimarães, pela
primeira vez, na história deste grêmio, as candidaturas foram
apresentadas, amplamente discutidas, com comprovação da
documentação sobre a vida e exposição das obras publicadas. Tal
procedimento deu a impressão que se tratava de um sério concurso
de provas e títulos.
No seu caso, impressionou vivamente aos confrades a sua
trajetória universitária, as obras publicadas como resultado da
investigação científica, ensaios, artigos e as realizações do gestor
da cultura como compromisso comunitário.
De fato, depois da tentativa da medicina, concentrou-se na
música e realizou, verticalmente uma brilhante formação
acadêmica – graduação em Composição com distinção honorífica,
na Universidade de Illinois, seguida do Mestrado em Educação
Musical nesta mesma instituição. Retornando ao Brasil, ingressou
na Escola de Música e Artes Cênicas, onde fez toda a carreira
acadêmica até o presente posto de professor associado.
Para o doutorado em Educação, escolheu o tema da pedagogia
da composição de Ernst Widmer. Pude, Deus louvado, participar
do seu projeto acadêmico como professor e co-advisor,
oportunidade em que estudamos os clássicos da metodologia da
pesquisa: Fred Kerlinger, Robert Travers, Donald Ary, Babbie,
Leedy. Para prosseguirmos na orientação, lembro-me bem que
indaguei em certo momento como pesquisaríamos um compositor
suíço alemão sem o domínio deste idioma? Quanto ao inglês,
disse-lhe, você tem o domínio perfeito com a graduação e o
mestrado em Illinois, mas quanto o alemão, que faremos?
Respondeu-me, com tranquila naturalidade não ser problema: eu
leio e falo alemão.
Continuamos com os trabalhos de orientação, chegamos à
defesa da bem elaborada tese doutoral Ernst Widmer e o ensino de
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Composição Musical na Bahia. Depois, realizou o doutorado em
Artes, na Universidade de São Paulo – desta vez, concentrando –
se em processos analíticos da música de Widmer, especialmente
as estratégias envolvendo escalas de oito sons ou octatônicas,
que permitiram ao grande compositor transitar com facilidade
entre as práticas musicais brasileiras e europeias, entre o passado
tonal e o presente atonal.
Com o desmembramento da Escola de Música e Artes Cênicas,
Paulo dirigiu a Escola de Música, entre 1988 e 1992. Dando-lhe
identidade, restaurou os antigos Seminários Internacionais de
Música, uma das mais notáveis iniciativas do Reitor Edgard Santos
– e foram quatro grandes festivais, realizados entre 1988 e 1992,
trazendo mais de 300 professores e artistas visitantes a Salvador.
Criou a pós-graduação com o Mestrado em Música, algo que dá
início a uma nova etapa na história da Escola de Música, e
conseguiu ampliar consideravelmente o espaço físico da escola
no processo de criação do Memorial Linderbergue Cardoso –
prestando uma justa homenagem a esse grande talento que nos
deixou tão cedo.
Ao lado do professor, o músico virtuoso registra 88
composições e 280 performances em mais de 15 países, com
participação em recitais no Carnegie Hall e Lincoln Center (ambos
em New York), em Seattle, Paris, Bruxelas, Berlin, Roma, Lisboa,
e no Brasil no Festival de Campos de Jordão, nas Bienais do Rio
de Janeiro na Sala Cecília Meireles, na Sala São Paulo com a OSESP
regida pelo Maestro John Neschling, nos Festivais de Santos, e
com manifestações da crítica, inclusive do New York Times. Paulo
é verbete no famoso New Grove Dictionary of Music and Musicians
(2001), a notória enciclopédia musical do mundo.
A música de Paulo Costa Lima é marcada pela experiência de
formação vanguardista, mas foi se aproximando cada vez mais
do desafio de estabelecer diálogos com as tradições musicais
brasileiras, e especialmente, as tradições musicais afro-baianas.
Muitas vezes escolhe idéias rítmicas ou melódicas da música de
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candomblé como ponto de partida para variações e
desenvolvimentos que vão estabelecer uma espécie de entre-lugar
sonoro, entre Europa, África e Bahia.
Foi distinguido como compositor pela concessão da Bolsa
Vitae de Composição em 1995, anteriormente concedida a Ernst
Widmer, e passou a integrar a comissão julgadora deste
importante prêmio a partir de 2003. Também teve obras
premiadas pelo Concurso Max Feffer (1995), e obras
comissionadas pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo
(1994), pela American Composers Orchestra (1996), pela
Orquestra do Estado de São Paulo (2000) e pela Orquestra
Sinfônica da Bahia (1986, 2005 e 2007).
Como escritor, além da tese, Paulo Costa Lima tem uma larga
pauta de publicações. Sobressai livro de ensaios Invenção e memória:
navegação de palavras em crônicas e ensaios sobre música e adjacências (2005).
Segundo Eneida Leal Cunha: “Esta coletânea de textos reúne
uma saudável diversidade de formas e de investimentos reflexivos
sobre música, cultura, universidade, educação, pertencimentos,
políticas, a contemporaneidade nossa e dos outros”. Dentre outros
contributos relaciona psicanálise e música.
Alem de ter organizado mais de 16 livros, inúmeros artigos,
foi editor da Revista ART e de várias séries de publicações,
partituras, gravações de discos e CDs, e apresentação de obras.
Publicou, recentemente, artigos em dois importantes periódicos
da área de música nos Estados Unidos: o Latin American Music
Review, da Universidade do Texas, e a revista SONUS, do New
England Conservatory.
Orientou dissertações e teses, sempre valorizando a produção
composicional da Bahia, por exemplo, mergulhando na obra de
Lindembergue Cardoso e de Fernando Cerqueira, e hoje lidera
um importante grupo de pesquisa em composição e identidade
cultural. Atualmente é colaborador semanal do site nacional Terra
Magazine, onde vem publicando crônicas e ensaios sobre música
popular brasileira.
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Se considerarmos a primeira geração de professores da Escola
de Música, onde predominaram os europeus como Koelreutter,
os Benda (Lola e Sebastian), Pierre Klose, Walter Smetak, entre
tantos... e especialmente Ersnt Widmer, vemos na segunda geração
já a predominância dos brasileiros, contando com a inteligência
de Manuel Veiga (que retorna dos Estados Unidos em meados
dos anos 60), Jamary Oliveira, Lindembergue Cardoso, Fernando
Cerqueira. Paulo integra a terceira geração de compositores
formados pela Universidade Federal da Bahia e assume
relativamente cedo em sua carreira diversos papéis de liderança.
Assim, a Universidade construiu ontem o currículo para o
acadêmico de hoje.
Depois da diretoria da Escola de Música, desempenhou dois cargos
com responsabilidades diretas com a criação cultural: Pró-Reitor de
Extensão da UFBA e Presidente da Fundação Gregório de Matos.
Como Pró-Reitor durante duas gestões (1996-2002), é
responsável pela concepção e implementação do programa UFBA
em Campo e das Atividades Curriculares em Comunidade (ACC),
com 55 disciplinas e 850 alunos por semestre. Aproximou a
Universidade do Carnaval, instituiu a TV UFBA e ‘last but not
least’ a rede de outdoors, uma ideia simples que tanto tem
contribuído para a projeção da UFBA na sociedade.
Ocupar a Pró-Reitoria de Extensão de uma Universidade
pública no Brasil significa assumir o compromisso de repensar as
relações entre universidade e sociedade. A criação do programa
UFBA em Campo e das ACC dinamizou de diversas maneiras o
intercâmbio entre grupos da universidade e das comunidades,
acentuou a responsabilidade social daqueles que lidam com o
conhecimento, e certamente antecipou, facilitando, as iniciativas
recentes nessa mesma direção implantadas pelo Reitor Naomar
de Almeida Filho.
Na presidência da Fundação Gregório de Matos, a extensão
tomou a dimensão urbana. Atenção especial emprestou à relação
entre cultura e participação popular, especialmente pelo diálogo
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entre cultura letrada e ancestralidade. Lançou mais de 50 livros,
CDs., vídeos. Sobressai a identificação dos mestres nas diversas
manifestações populares. Pelo visto, há muito a continuar
realizando neste sodalício. Enfrentou bravamente o desafio de
construção de programas inovadores na direção das políticas
públicas de cultura, que a cidade tanto almeja e merece.
Com a formação direcionada para a música, enriquecido com
a experiência na gestão da extensão e na cultura popular
soteropolitana, passa, então, da Universidade à Academia.
Afortunados são os que transitam por esta ponte erudita. Se você
me permite é a plenitude da scholarship. Ponderemos, todavia, que
a Universidade tem no seu âmago a Academia. Academia é o
coração da Universidade. As duas gestam o conhecimento que
refletido profundamente na prática da vida atinge-se a sabedoria
Academia é convivência para a disseminação do conhecimento.
Como o primeiro músico a adentrar-se, encha a Academia de
música. Venha com Beethoven, Mozart, Schumann, Bach,
Schönberg, Villa-Lobos, Pixinguinha e Batatinha..... Com a música
erudita e com a popular, se é que podemos ainda estabelecer tal
distinção, com a música religiosa dos candomblés, um dos campos
de investigação da musicologia, seguindo as pegadas de Bartok.
Na música, você terá no nosso confrade José Carlos Capinan um
excelente parceiro.
Meu caro Paulo Costa Lima,
Venha com a sua Ana Margarida, filhos, amigos e alunos.
Alunos, sim, porque a Academia é uma escola não formalizada
pelo currículo, mas uma entidade que educa pela convivência.
Depois do ingresso nesta seletíssima e sereníssima Companhia,
o seu horizonte de ambições gregárias ficará bastante limitado.
Veja Seabra, que governou tantas vezes a Bahia, não se eximiu de
ser um dos nossos e mais, de presidi-la por bastantes anos.
Meu caro Paulo, você alcançou o convívio das vocações
eruditas, como a exemplar presença do professor Roberto Santos
nosso reitor de sempre.
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O que mais você poderá mais ambicionar?
Experimentando a convivialidade com os confrades, você
pensará talvez em uma Academia de Música para a Bahia.
Academia de Música que sustentará a nossa portentosa explosão
A sua chegada ao Sodalício, como músico, compositor e
pesquisador do fenômeno musical, você acrescenta a dimensão
do ritmo, da melodia e da harmonia ao serviço das letras.
Seja bem feliz.
Salvador-Bahia, 17/12/09.
__________
Discurso de saudação ao acadêmico Paulo Costa Lima, proferido no salão
nobre da Academia de Letras da Bahia, em solenidade de posse na Cadeira nº
8, em 17 de dezembro de 2009.
Edivaldo M. Boaventura é ensaísta, pesquisador, professor emérito da UFBA,
autor de diversos livros de ensaios; foi presidente da Academia de Letras da
Bahia, de 2007 a 2011. Atualmente exerce o cargo de diretor-geral do jornal
A Tarde. Desde 1971 ocupa a Cadeira nº 39 da ALB.
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Discurso de posse
João Falcão
Imaginava encerrada minha atividade literária com a publicação
do livro Valeu a Pena (Desafios de minha vida) ao final do ano passado,
quando fui eleito, pela generosidade dos membros desta
Academia de Letras da Bahia, para ocupar a Cadeira de nº 35.
Embora este momento glorioso de minha vida viesse
acontecer aos meus noventa anos, foi exclusivamente por minha
culpa, pois onze anos atrás, em 1999, o saudoso amigo e
acadêmico Josaphat Ramos Marinho fez a indicação do meu
nome para concorrer a uma cadeira desta Casa. Fiquei muito
honrado com esta deferência. Agradeci, mas não competi.
Posteriormente, o querido amigo e acadêmico Waldir Freitas
Oliveira consultou-me sobre o lançamento de minha candidatura.
Lisonjeado e agradecido novamente declinei do honroso convite.
Perdoem-me pela negligência...
E neste momento, quando escrevo este despretensioso
discurso de posse na Academia de Letras da Bahia, minha
memória transporta-me para longínquos momentos de minha
vida, dedicados ao culto das letras.
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Em 1936, aos 16 anos, pela primeira vez dediquei-me à arte
de escrever, ao fundar o Jornal Unidade, órgão do Grêmio Pedro
Calmon, no Ginásio da Bahia, no Curso Complementar, ao lado
dos saudosos colegas João Agripino da Costa Dória, Gerardo de
Souza Alves e Luis Menezes Monteiro da Costa.
Dois anos depois, em 1938, fundei a revista Seiva, ao lado dos
estudantes Virgildal Sena, Emo Duarte e Eduardo Guimarães, e tendo
também Armênio Guedes, o único ainda vivo e residente em São Paulo,
como diretor oculto, porque já era conhecido como comunista.
Naqueles anos, o ambiente cultural da Bahia, como de todo o
Brasil, vivia asfixiado sob a ditadura do Estado Novo, de caráter
fascista, implantado por um golpe de estado, chefiado pelo próprio
presidente da República, Getulio Vargas, no ano anterior, em 1937.
O Congresso foi fechado, dissolvidos os partidos políticos, as
prisões se alastraram pelo Brasil afora e, finalmente, foi revogada
a constituição democrática de 1934.
Também foram detidos muitos intelectuais e lideres sindicais,
entre os quais o ministro Otavio Mangabeira, que foi exilado.
Através da revista Seiva, eu pude conviver com a nata da
inteligência baiana e brasileira durante os anos de 1938 a 1943.
Não somente ingressei no rol dos seus colaboradores, como entrei
em contato com escritores como Aliomar Baleeiro, Aydano do
Couto Ferraz, Almir Mattos, e os saudosos acadêmicos Afrânio
Coutinho, Eugenio Gomes, Edison Carneiro, José Valadares,
Carlos Eduardo da Rocha, Carlos Vasconcelos Maia, Jorge Amado,
Luis Viana Filho, Nestor Duarte, Nelson Sampaio, Orlando
Gomes, Odorico Tavares, Walter da Silveira, Wilson Lins e muitos
outros escritores de outros estados, como Carlos Lacerda, Carlos
Drummond de Andrade, Joel Silveira, Rubem Braga, Samuel
Wainer, Lêdo Ivo, Leôncio Basbaum, o poeta Rossine Camargo
Guarnieri, Fernando Góes e muitos outros.
Para manter esta revista, além de redator, eu atuava como
corretor de anúncios, para assegurar sua manutenção e
continuidade.
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De tal forma esta revista tornou-se incomoda à ditadura e aos
setores fascistas do país, que, depois de cinco anos, sua circulação
foi proibida em julho de 1943, sendo presos seus diretores João e
Wilson Falcão e o secretário Jacob Gorender.
Durante sua existência, foram seus redatores Antonio Santos
Morais, Aldenor Campos, Almir Mattos, Rui Facó, Jacinta Passos
e Ariston Andrade, que reside no Rio de Janeiro.
Em abril de 1945, fui fundador e diretor do jornal O Momento,
ao lado de uma plêiade de jornalistas como João Batista de Lima
e Silva, Mario Alves de Souza, Alberto Vita, Almir Mattos, Ariston
Andrade e muitos outros.
Mas um jornal diário do Partido Comunista para atender aos
seus objetivos políticos, haveria de ser um jornal para as massas,
indo diretamente ao povo levantar seus problemas, expressar suas
esperanças e reivindicações.
Para isso, tornou-se necessária a mobilização de uma equipe
de jornalistas, redatores e repórteres novos, que fossem não
somente bons profissionais, mas, também animados pela mesma
fé e imbuídos de propósito comum que inspirou sua criação. Este
contingente fomos buscar nas fileiras do Partido Comunista. Além
dos nomes citados, também vieram colaborar os jovens:
Jafé Borges, Ariovaldo Mattos, Nilo Pinto, Quintino de
Carvalho, Inácio de Alencar, Arary Muricy, José Gorender, José
Marroco de Moraes e muitos outros, todos falecidos. Mas,
felizmente, ainda vivos, os acadêmicos Luis Henrique Dias Tavares
e James Amado, Henrique Lima Santos, Boris Tabacof, Carlos
Aníbal Correia, Alice Gonzalez, Aurélio Rocha Filho, Newton
Sobral, Simão Schnitmann e muitos outros que a ele se dedicaram.
O Momento circulou até o ano de 1957.
Nesta mesma época, em 1938, quando ingressei na Faculdade
Livre de Direito, entrei em contato com vários professores
também acadêmicos. Em primeiro lugar, lembro do seu diretor e
meu professor Felinto Justiniano Ferreira Bastos, já octogenário.
Fui cumprimentá-lo, como meu ilustre conterrâneo e meu
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professor de Direito Romano. Era membro desta Academia,
fundador da cadeira de nº 21. Passei a conviver no dia a dia das
aulas, com os mestres e acadêmicos Demetrio Tourinho, Castro
Rebelo, João Américo Garcez Fróes, Heitor Praguer Fróes, Muniz
Sodré, Aloísio de Carvalho Filho, Orlando Gomes, Nestor Duarte,
Augusto Alexandre Machado, Jayme Junqueira Aires e Aloísio
Henrique de Barros Porto.
Na Câmara dos Deputados, ainda no Rio de Janeiro, no período
de 1955 a 1958, convivi novamente com os deputados e
acadêmicos Nestor Duarte, Luis Viana Filho, e, também, com o
acadêmico Otavio Mangabeira, ex-governador da Bahia, que me
cederam o título do Jornal da Bahia.
Em 1958, já desligado do Partido Comunista, fundei o Jornal
da Bahia, ao lado dos saudosos companheiros Zittelman José
Santos de Oliva, membro desta Academia, Milton Cayres de Brito
e Virgilio da Motta Leal. Fui seu diretor durante 25 anos, até o
ano de 1983, e o Jornal da Bahia circulou até 1994.
Foram seus redatores, além de muitos outros, os acadêmicos
João Carlos Teixeira Gomes, Florisvaldo Mattos, Samuel Celestino
da Silva Filho e João Ubaldo Ribeiro, da Academia Brasileira de
Letras.
O Jornal da Bahia nasceu num momento especial da história de
nosso país. O Brasil e a Bahia procuravam romper a estagnação
em que viviam. O governo do Presidente Juscelino Kubstschek,
empossado em 1956, havia lançado o slogan desenvolvimentista
de 50 anos em 5, estava construindo a nova Capital da República,
Brasília, implantando a indústria automobilística e um parque
industrial no Brasil. Os resultados desta política alcançaram a
expressiva taxa de 7% do crescimento do PIB. A euforia dominava
todos os setores da vida nacional e a Bahia estava inserida naquela
conjuntura progressista.
Havia muita esperança e confiança no desempenho do novo
jornal. Na primeira metade do século vinte, predominava no
cenário jornalístico baiano a existência de uma imprensa
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conservadora e vinculada a pessoas e partidos: A Tarde de Simões
Filho; o Diário de Noticias e o Estado da Bahia de Assis
Chateaubriand; O Imparcial do coronel Franklin Albuquerque; e
o Diário da Bahia do conservador Partido Social Democrático.
A Bahia esperava há muito tempo por um veículo de imprensa
independente, sem tutores, resultado da conjugação da vontade
de toda a população, que subscreveu em massa seu capital social.
O Jornal da Bahia marchava firmemente seu caminho, quando
seis anos depois, a vitória da ditadura implantada em 1964, impôs
uma longa e drástica censura em toda a imprensa, transformandose em 1970, ao tomar posse o governador Antonio Carlos
Magalhães, também membro desta Academia, numa terrível e
implacável perseguição, que o tornou obcecado no propósito de
fechá-lo.
Mas, o Jornal da Bahia não se curvou. Este governo findou-se
em 1975 e eu continuei na sua direção até 1983. O Jornal da Bahia,
que perdeu 90% de sua publicidade, sobreviveu, à custa de muitos
sacrifícios, tendo de vender sua sede própria e obrigando seu
diretor a um grande sacrifício pessoal, forçado que foi à venda de
quase todo o seu razoável patrimônio e de sua esposa. Nessa
luta, porém, encontrou o apoio de toda a imprensa brasileira e
dos órgãos de classe nacionais e internacionais, além da opinião
pública. E, por isso, sobreviveu até o ano de 1994, trinta e quatro
anos após sua fundação.
Senhores Acadêmicos,
Senhoras e senhores:
Peço perdão pelo tempo a que vos submeti com as minhas
reminiscências e com a história de minha vida literária, porque o
primeiro dever do acadêmico que toma posse é o de registrar a
história dos que o antecederam nesta cadeira nº 35, que acabo
de assumir, com muita alegria e orgulho, por ter sido seu
Patrono Manoel Vitorino Pereira; seu Fundador Antonio
Pacifico Pereira e seus titulares Affonso Costa, Ruy Santos e
Rubem Rodrigues Nogueira.
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Manoel Vitorino Pereira:
Nasceu a 30 de janeiro de 1853, nesta Cidade do Salvador, filho
de Antonio José Pereira, marceneiro, de nacionalidade portuguesa,
e de sua esposa Dona Carolina Maria Franco, brasileira.
Apesar de sua origem humilde, Manoel Vitorino aspirou, bem
cedo, aos estudos médicos. Era à noite – após o diuturno labor
da marcenaria – que estudava, até lograr a matrícula na escola
médica, primaz do Brasil, a gloriosa Faculdade de Medicina da
Bahia, aos dezoito anos.
Conquista, por concurso, no quinto ano, o lugar de Interno
da Clinica Médica – vitória das mais expressivas.
A 16 de dezembro de 1876 realizou perante a Congregação
da Faculdade, o sonho ardente de sua mocidade: a colação do
grau médico, aos vinte três anos de idade.
Não tardaria Manoel Vitorino a concretizar outra acalentada
aspiração: a viagem à Europa, que empreende no intuito de
aperfeiçoar seus conhecimentos médicos.
Em 1881 casou-se com Dona Ametia Silva Lima, filha do seu
mestre e amigo J.F. Silva Lima.
Em 1883, fez concurso para a 2ª Cadeira de Clínica Cirúrgica,
como candidato único. O Conselho de Mestres concedeu-lhe a
nota de “louvor”. Nesta época, renova o ensino da Clínica
Cirúrgica, adaptando-o às novas doutrinas e práticas em vigor
nos mais adiantados centros europeus.
Os alunos elevam-no, em 1884, à gloria do paraninfado, ocasião
em que profere admirável discurso, de substancioso conteúdo
filosófico e ético. Valeria esse discurso como uma oração de
despedida... É que a política solicitaria os serviços do insigne
mestre, exigindo a contribuição do seu talento à esfera do serviço
publico de seu Estado e do país.
Com a queda da monarquia, aos 32 anos, filiado ao Partido
Liberal, seria o substituto de Virgilio Climaco Damásio como
governador interino da Bahia. Numa curta gestão de cinco meses,
torna-se merecedor da confiança popular e elege-se constituinte
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estadual e a seguir Senador da República, aos 39 anos de idade,
ocupando a presidência do Senado.
Em meio a um período conturbado da vida política nacional,
com uma operação de urgência do presidente Prudente de Morais,
este afasta-se temporariamente do governo e passa-o, por ofício,
a Manoel Vitorino.
“Atingido o cume do poder, embora numa nterinidade
perigosamente indeterminada, pretende exercê-lo em sua
plenitude. Designa ministros, inaugura festivamente a nova sede
do governo – o Palácio do Catete, adota medidas econômicas e
financeiras, enfrenta o problema da Guiana Francesa e convida
Rui Barbosa para defender os direitos do Brasil. Numa palavra:
governa, e, com isto desperta o despeito e o ciúme de Prudente
de Morais, que, quatro meses decorridos da operação, interrompe
a licença sem aviso prévio, desce de Teresópolis e mediante
lacônico aviso levado por um cabo de ordem, de surpresa,
comunica a Manoel Vitorino que reassume suas funções
presidenciais. Era o começo do fim.
Manoel Vitorino não se reelege. Abandona a atividade política
e passa a escrever no jornal Correio da Manhã. O sucessor de
Prudente ‘’de Morais, o presidente Campo Sales, nega-lhe tudo,
chegando ao extremo de vetar a lei do Congresso Nacional que
lhe havia concedido a prorrogação da licença em que se achava,
indispensável para a manutenção da família que se mudara para o
Rio de Janeiro.
Uma semana depois do veto mortificante adoece gravemente
e morre no Rio de Janeiro, a 7 de setembro de 1902. Tinha apenas
49 anos de idade.
A terra natal reclama os despojos do seu grande filho.
Segue para a Bahia, a bordo do encouraçado Deodoro, o corpo
do insígne brasileiro, que foi recebido pelo governador do Estado,
Severino Vieira, com honras e pompas oficias.
Com grande acompanhamento realizou-se o enterro, no
Cemitério do Campo Santo, tendo falado à beira do túmulo, em
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nome da Congregação da Faculdade de Medicina, o Dr. Climério
de Oliveira.
Findara-se, assim, a existência de Manoel Vitorino, mestre cujo
talento exaltaria a cátedra médica brasileira; parlamentar cuja
atuação foi modelo de sã política e sábio cuja condição e cultura
constituíram uma das glórias científicas de sua pátria.” (Cf. Isolino
Vasconcelos – Revista Brasileira de Historia da Medicina, volume V.)
Antonio Pacífico Pereira:
Fundador da Cadeira nº 35, nasceu a cinco de junho de 1846.
Era irmão de Manoel Vitorino, matriculou-se na Faculdade de
Medicina, onde se doutorou, após curso brilhante, em 30 de
novembro de 1867, sendo o orador da turma na colação de grau.
Em 1871 foram estabelecidos os concursos na Faculdade de
Medicina, suspensos desde início da guerra contra o Paraguai.
Realizadas as provas, com o maior brilhantismo, foi aprovado
unanimemente pela congregação e nomeado pelo governo
imperial. Tomou posse a 13 de maio do mesmo ano. Em 1882 foi
designado lente catedrático de Anatomia Geral e Patológica.
Eleito diretor da Faculdade de Medicina, exonerou-se em
outubro de 1897, em solidariedade ao irmão Manoel Vitorino
Pereira, que se achava em oposição ao Presidente da República.
Aposentou-se em 17 de abril de 1912, continuando na Clínica
e a realizar os seus estudos.
Foram seus principais trabalhos: Feridas por armas de fogo (1874)
tese para o concurso à cadeira de patologia; Centenário de Fundação do
Ensino Médico no Brasil (1908); Memória sobre a Medicina na Bahia (1922).
Morreu e foi sepultado em Salvador a 18 de novembro de
1922, aos 76 anos.
Afonso Costa:
Foi o segundo titular desta Cadeira. Nasceu na cidade
Palmeirinhas do Jacuípe, no município de Jacobina, neste Estado,
a 2 de agosto de 1885. Foi eleito para esta academia em março de
1925. Ele seguiu sua vida no interior da Bahia. Educação primária
apenas.
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Tornou-se funcionário público para sobreviver. Mas, foi um
incansável escritor. Em 1916, ao escrever um trabalho para o 5º
Congresso de Geografia, denominou-o Minha Terra. Já residindo
no Rio, para onde se transferiu em 1923, escreveu os livros “Poetas
de outro sexo,” e Baianos de Antanho.”
Tomou posse por declaração dirigida à Mesa da Academia, de
acordo com o artigo 24 dos Estatutos então vigente, que foi aceita
na sessão de 7 de março de 1928, considerando os acadêmicos o
fato de Afonso Costa já estar residindo no Rio de Janeiro.
Afonso Costa não foi somente o historiador, ou o jornalista,
ou o escritor. Fundou ou dirigiu jornais, foi membro do Instituto
Geográfico e Histórico da Bahia, e, depois do Instituto Geográfico
e Histórico Brasileiro. Eleito para Academia Carioca de Letras,
chegou à sua presidência. Mas não ficou aí. Editou a revista
Cadernos, das quais saíram vinte números. Graças aos seus esforços
conseguiu a realização, em 1936, do 1º Congresso de Acadêmicos
e Sociedades Literárias do Brasil, inclusive a Academia Brasileira
de Letras. Daí à Federação dos Acadêmicos foi um passo.
Chegou, afinal, à velhice e à morte a 31 de dezembro de 1955.
Ruy Santos:
Nasceu a 15 de fevereiro de 1906, em Casa Nova, na região
do Rio São Francisco. Casou-se com dona Nair Vianna Santos e
teve os filhos: Engº Rui Santos Filho, falecido, e a médica Relma
Santos de Souza.
Sua biografia é muito rica. Formado pela Faculdade de
Medicina da Bahia, em 1928, aos 22 anos, foi clinicar no interior
do estado, na cidade de Itapira, hoje Ubaitaba. Teve atividade
profissional modesta e meteórica. Após quatro anos de exercício
da medicina fez sua estreia na política, sendo nomeado prefeito
daquela cidade, em 1932, pelo interventor federal, Juracy
Magalhães.
Trazido por ele para Salvador para exercer atividade
profissional liga-se aqui a setores especializados do serviço publico,
associado ao magistério superior, após a livre docência obtida
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em 1936 na Faculdade de Medicina, dedicou-se a intenso e
vigoroso jornalismo. Este aguça-lhe o apetite político e credenciao em 1945 ao mandato de deputado federal, que se renovaria por
seis legislaturas, de 1946 a 1970, em seguida às quais é conduzido
por oito anos ao Senado Federal “ de 1971 a 1978. Interrompeu
sua atividade parlamentar de 1959 e 1962, para assumir uma
secretaria de Estado na Bahia.
Faço essas referências ao seu nome para vos dar uma ligeira
ideia do quanto representou Ruy Santos na história da Bahia,
como político, médico, jornalista e escritor.
Mas, para não me alongar quero falar sobre sua produção
literária, que honrou a Cadeira de nº 35, para a qual foi eleito a 14
de junho de 1956 e tomou posse em outubro do mesmo ano,
quase ao completar cinquenta anos de idade:
Teixeira moleque – 1960 (romance)
Sertão maluco – 1961
Nossa Senhora dos Alagados – 1973 (romance)
O poder legislativo, suas virtudes, seus defeitos – 1972
Cacau – 1974 (romance)
Memórias de um leguleio – 1977
A Faculdade do meu tempo – 1978 (memórias)
Recordações de um velho medico da roça – 1978 (memórias
Da Aurora da minha Vida – 1978 (história)
Acrescente-se a esta relação, uma inesgotável produção de
artigos em jornais e revistas.
Rui Santos faleceu a 20 de maio de 1985.
Em homenagem à sua memória, em sessão desta Academia, o
saudoso acadêmico Wilson Lins conclui sua oração com as
seguintes palavras:
“Por não ser possível separar nele o homem de letras do
homem público, a Academia cultuará a memória dos dois,
fazendo-se depositária do legado literário de um, e guardiã do
exemplo de probidade cívica do outro.”
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Rubem Rodrigues Nogueira:
Nasceu a 13 de setembro de 1913, na cidade de Serrinha, neste
Estado. Dentro de quatro dias estaria comemorando 97 anos. É
o quinto dos onze filhos do casal Luiz Osório Rodrigues e Ana
Ribeiro Nogueira.
Casado em primeiras núpcias com Adalgisa Peixoto Ferreira
Nogueira, com ela teve o filho Claudio Peixoto Ferreira Nogueira
e a neta Claudia. Do segundo casamento com Gilka Felloni de
Mattos Nogueira teve seis filhos: Rubem Junior, Maria Patrícia,
Gilka Maria, Maria do Rosário, Maria Clara e Paula. Diplomouse pela Faculdade de Direito da Bahia no ano de 1937.
Inicialmente, exerceu a profissão em São Paulo, na cidade de
São José do Rio Preto, e, depois, no Rio de Janeiro, transferindose finalmente para a Bahia em 1945.
Aqui, foi Procurador Geral da Prefeitura de Salvador e
Procurador Geral da Justiça; professor titular de Introdução à
Ciência do Direito da Faculdade de Direito da Universidade Católica
e consultor jurídico do Ministério da Justiça. Foi membro da Ordem
dos Advogados do Brasil e do Instituto dos Advogados da Bahia.
Nas legislaturas de 1947-51 e 1955-59 foi eleito deputado
estadual. Suplente de deputado federal pelo Partido de
Representação Popular na legislatura de 1959-1963, assumiu o
mandato em 1961. Novamente suplente pelo mesmo partido de
1963 a 1967.
Na Assembleia Legislativa teve atuação brilhante. Foi membro
efetivo da Comissão de Constituição e Justiça. Foi autor da lei
que criou os primeiros ginásios públicos estaduais no interior do
Estado, assim como escolas Normais e Regionais e escolas
técnico-profissionais.
Foi eleito deputado Federal no exercício de 1967-1971 pela
Aliança Renovadora Nacional (Arena). Defendeu a preservação
do sistema ferroviário brasileiro; a assistência financeira pelo
Banco do Brasil, às lavouras das regiões semi-áridas, sem hipoteca
e mediante longo prazo (sisal, algaroba e palma).
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Representou a Câmara Federal em vários eventos
internacionais. Na gestão do ministro Petrônio Portela exerceu o
cargo de consultor jurídico do Ministério da Justiça. Na Câmara
Federal foi, também, membro efetivo da Comissão de
Constituição e Justiça.
Foi membro da Academia de Letras Jurídicas da Bahia, do
Instituto dos Advogados da Bahia, membro fundador do Instituto
dos Advogados Brasileiros e do Instituto Bahiano do Direito do
Trabalho.
Foi colaborador da Revista de Direito Administrativo (Rio de
Janeiro), da revista Ciência Jurídica (Braga -Portugal) e da Revista
de Informação Legislativa (Senado Federal).
Se sua vida foi esse monumento de trabalho e realizações no
campo parlamentar e do saber jurídico, sua obra literária ainda
foi maior.
A inspiração principal de suas produções literárias foi a vida e
a obra de Rui Barbosa.
Pela ordem cronológica, são os seguintes os seus livros
publicados:
O Advogado Rui Barbosa – 1949; 1º premio no concurso nacional
no ano do seu centenário de vida.
Pareceres – 1954
Rui Barbosa e a Técnica de Advocacia – 1956
Natureza Jurídica das Riquezas Minerais do Sub-solo – 1960
Introdução ao estudo do Direito – 1989
O Homem e o Muro – 1997
Rui Barbosa – contemporâneo do futuro – 2006.
Eu tive a satisfação de estar no lançamento do seu livro
O Homem e o Muro nesta Academia, no qual ele escreveu a seguinte
dedicatória:
“Ao colega e amigo João Falcão, muito cordialmente.
Rubem Nogueira, Salvador, 23/07/1997”
O saudoso acadêmico Nelson de Souza Sampaio ao saudá-lo
na sua posse, encerrou seu discurso com as seguintes palavras:
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“Ensina a experiência que os indivíduos inteligentes que se devotam a
um grande mestre se tornam, eles próprios também mestres. É assim que a
Academia de Letras da Bahia recebe hoje Rubem Nogueira, como um mestre
que lhe confere honra e alegria.”
Faço minhas as palavras do inesquecível acadêmico Nelson
de Souza Sampaio ao ingressar Rubem Nogueira nesta Academia
para ocupar a Cadeira nº 35, não obstante as divergências, já
superadas, que nos colocaram em campos opostos há mais de
sessenta anos. Ele integralista, eu comunista. Eu estou tendo a
honra de ingressar numa Academia de Letras, ocupando o lugar
de um grande acadêmico e não num partido político.
Ao me afastar do Jornal da Bahia, aos 65 anos, após quarenta e
seis anos de uma intensa vida na militância do Partido Comunista,
no jornalismo revolucionário, na vida parlamentar, na atividade
imobiliária e bancária, dediquei-me a escrever o primeiro livro: O
Partido Comunista que eu conheci.
Desde outubro de 1984, quando o comecei, até concluí-lo,
decorreram quase quatro anos.
Nesse mergulho no tempo, para escrevê-lo, fiz cerca de sessenta
entrevistas, e foi muito gratificante o reencontro com velhos
camaradas e amigos, ao lado dos quais vivi e lutei. Em todos, sem
exceção, encontrei uma acolhida fraternal e o espírito forte, cheio
de cauteloso otimismo e esperança num mundo melhor.
Essa peregrinação começou fora do Brasil, em Buenos Aires,
em outubro de 1984, onde fui encontrar Rodolfo Ghioldi e sua
mulher, Carmen, aos 86 anos, pouco antes de falecer, em 1985, o
velho líder fundador do Partido Comunista da Argentina. Seu
depoimento foi muito lúcido e esclarecedor.
Ao regressar de Buenos Aires, procurei no Rio de Janeiro a
Luís Carlos Prestes, em sua residência na Gávea, no Rio de Janeiro.
Ao lado de sua mulher, Maria Prestes, recebeu-me carinhosamente.
Aos 88 anos, estava também completamente lúcido e me deu um
excelente depoimento. A última vez que nos encontramos, há
quarenta anos passados, eu o levava como seu chofer, do Rio
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para São Paulo, foragido. Era o dia em que estava fazia cinquenta
anos, 03 de janeiro de 1947.
Encontrei-me, também, com Giocondo Alves Dias, então
secretário-geral do PCB, substituindo a Luís Carlos Prestes, que
havia rompido com a direção do Partido. Apesar de doente,
entrevistei-o em três oportunidades, para não cansá-lo, e dele colhi
valiosos subsídios para o livro.
Em 1993 escrevi duas biografias: Giocondo Dias – Vida de um
Revolucionário, lançado nesta Casa e A vida de João Marinho Falcão,
meu pai, comemorando seu centenário.
Antes de concluir o livro acima, morre Giocondo Dias, a sete
de setembro de 1987, aos 74 anos, deixando impressionante
trajetória nos seus 52 anos de vida revolucionária: de cabo do
Exército e chefe militar do levante comunista de Natal, em 1935,
a secretário-geral do Partido Comunista, em 1980, substituindo a
Luís Carlos Prestes.
Decidi escrever sua biografia movido por dois sentimentos
muito fortes: minha grande admiração por ele, que conheci em
1942, aos seus 29 anos, e na militância daquele partido, durante
vinte anos, e pela noção de dever perante a história política de
nosso país, de registrar o amor e o devotamento de um autentico
revolucionário à causa da liberdade e felicidade de nosso povo.
Tendo acompanhado mais de quatro décadas de sua vida, para
escrever este livro realizei, durante três anos, uma trabalhosa
pesquisa para resgatar sua longa e árdua atividade política, em
grande parte vivida na clandestinidade. No afã de desvendar sua
vida e sua personalidade, entrevistei os familiares, doze membros
do Comitê Central do PCB, muitas pessoas ligadas aos aparelhos
onde vivera, seus assessores mais próximos e figuras destacadas
do partido, homens e mulheres experimentados que conviveram
com ele. E nessa busca encontrei uma rara joia humana.
Neste livro, o leitor encontrará, finalmente, ao lado de
passagens de intensa dramaticidade, páginas amenas e singelas,
mas de muita beleza, nos encontros clandestinos com a família –
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cinco filhos e uma extraordinária mulher – aos quais nunca faltou
com sua assistência.
Ao concluir este livro, fui solicitado pelos meus irmãos para
escrever a biografia de nosso pai, como parte da comemoração,
pela família, do seus cem anos de vida, a 13 de maio de 1993.
Voltei-me inteiramente para esse objetivo. O livro era, ao
mesmo tempo, um depoimento e uma biografia. Essa história
mostrou-me – e aos meus irmãos – quanto o admirávamos e
amávamos. Ele foi o nosso ídolo.
Durante o tempo em que o escrevi, policiei-me para não passar
para suas páginas essa idolatria.
Uma coisa, porém, é certa: ele foi escrito com amor, alma e
lagrimas. E não somente meus, mas, também, dos meus irmãos.
Em 1999 escrevi o “Brasil e a Segunda Guerra Mundial – testemunho
e depoimento de um soldado convocado”.
Este livro é um depoimento e um testemunho sobre a Segunda
Guerra Mundial, iniciada a 1º de setembro de 1939 e finda a 14
de agosto de 1945. Tinha eu a idade dezenove anos quando se
desencadeou o conflito, que envolveria, de um lado, a Alemanha,
do outro, a França e a Inglaterra, e se abateria sobre os cinco
continentes, tornando-se, em cinco anos e meio, a mais bárbara e
cruel hecatombe bélica da história.
Neste livro, constata-se o fato insólito de ter sido o Brasil o
único membro das Nações Unidas cujo povo exigiu a declaração
de guerra ao Eixo e o envio de um corpo expedicionário, por
meio de um contínuo movimento de massas que perdurou por
mais de dois anos. Nunca, em nossa história, nem mesmo no
recente movimento das Diretas já, foi tão decisiva a participação
das massas populares na definição dos destinos do país. O Brasil
jamais assistiu a um movimento popular daquela envergadura,
que reuniu em todo o país centenas de milhares de pessoas.
Vários autores, nacionais e estrangeiros escreveram sobre o
Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Nenhum deles, porém,
analisou devidamente a correlação das forças políticas da
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sociedade brasileira naquela conjuntura, nem considerou as forças
populares como principal personagem desse grandioso momento
histórico.
O testemunho dos homens e mulheres da minha geração –
que acompanharam e vivenciaram de perto todo o desenrolar da
Segunda Guerra – foi fundamental para o sucesso do livro. Em
1943 fui convocado como reservista.
Em setembro de 2006 escrevi o livro Não deixe esta chama se
apagar – Historia do Jornal da Bahia.
Trabalhei incessantemente, durante dois anos, aos oitenta e
cinco anos de idade, para escrever este livro. Eu devia esta
denúncia ao povo da Bahia e aos jornalistas do Brasil, para que
ficasse registrado em nossa história este inominável atentado
praticado contra a liberdade de imprensa em nosso país.
Em 2008 escrevi A história da Revista Seiva, também lançado
nesta Academia, quando ofertei a esta Casa a coleção completa
desta revista.
Este livro perpetua a história de uma revista que exerceu um
papel muito importante na nossa vida política. Sendo um dos
poucos órgãos de imprensa do país que se colocaram contra o
fascismo, num período em que essa doutrina estava em ascensão
e a Alemanha nazista dominava quase toda a Europa, com exceção
da Inglaterra e da União Soviética. Vale ressaltar sua corajosa
presença no cenário intelectual do país, pregando a liberdade e a
democracia, em plena ditadura do Estado Novo.
Suas páginas estão repletas de artigos da maior atualidade para
a época, podendo, mesmo, ser considerados ousados, escritos por
colaboradores de todo o país.
Em 2009, ao completar noventa anos, escrevi minhas
memórias com o título Valeu a pena (desafios de minha vida). É o
livro de minhas memórias, a partir de minha infância em Feira de
Santana; do curso ginasial e acadêmico; dos vinte anos de
militância no Partido Comunista; de quarenta e sete anos de
jornalismo; de sessenta anos como empresário do ramo
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imobiliário; dez anos de atividade bancária; cinquenta anos como
rotariano e sessenta e três anos de vida conjugal.
Ao concluir este discurso da minha posse na Academia de
Letras, neste momento tão expressivo, quero dedicá-lo à minha
esposa e companheira Hyldeth, parceira solidária em todos os
momentos de minha tumultuada e operosa vida.
Neste momento, relembro com emoção ao misto de amor e
incertezas de uma jovem de 21 anos de idade, ao deixar o lar
abençoado do casal Antonio e Isaura Ferreira e a convivência
fraterna com oito irmãos, no ano de 1947, para ir viver no Rio
de Janeiro, clandestinamente, com um jovem marido de 27
anos de idade, que era caseiro, segurança e chofer do
perseguido líder comunista Luís Carlos Prestes. E três anos
depois, em 1950, volta a Salvador, mãe de duas filhas, Maria
Adenil e Maria Luiza, para continuar a mesma trajetória
revolucionária de seu companheiro, até o ano de 1957, quando
me afastei do Partido Comunista por divergências ideológicas.
Nesta altura o nosso lar já estava enriquecido por mais três
filhos: João, Maria Célia e Antonio. Depois vieram Maria
Helena e Wilson. Em 1971, perdemos dolorosamente o filho
Antonio.
A estes seis filhos quero dedicar também este momento
grandioso que ora vivo, ao lado de vinte um netos e onze bisnetos.
Hyldeth, quero agradecê-la pelos sessenta e três anos que me
destes de feliz convivência e devotada solidariedade.
Finalmente, quero prestar uma homenagem póstuma aos meus
pais, João Marinho Falcão e Adenil Costa Falcão por haverem
moldado o meu caráter e me proporcionarem uma educação
exemplar, suplantando todas as dificuldades da época, quando
em Feira de Santana não havia nenhum curso ginasial, mandandome e aos meus nove irmãos estudar em Salvador.
Senhores Acadêmicos:
Estou muito grato e honrado pela generosa indicação do meu
nome para a Cadeira nº 35 desta Academia e quero agradecer aos
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que me honraram com sua indicação e aprovação como
candidato único.
Prometo servi-la com a humildade e a sabedoria dos mais
velhos, para que ela continue a cumprir o seu grandioso papel de
colina sagrada da cultura da Bahia.
Muito Obrigado!
__________
Discurso de posse proferido no salão nobre da Academia de Letras da Bahia,
no dia 9 de setembro de 2010 – Cadeira nº 35 da ALB.
João Falcão (1919-2011) foi advogado, político, empresário, jornalista e escritor,
sobretudo memorialista, tendo publicado 5 livros.
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Saudação ao ingresso de
João Falcão na ALB
Joaci Góes
Eminente confrade João da Costa Falcão,
Chegais a esta casa no momento mais alto da existência,
quando nos inclinamos a dedicar parcela ponderável do tempo, a
repassar, vezes sem conta, o filme de nossa vida, com todo o seu
cortejo de ocorrências que costumamos catalogar no escrínio de
nossa alma como boas e ruins, alegres e tristes, aquelas de que
nos orgulhamos e outras tantas que, se pudéssemos, gostaríamos
de eliminar do nosso script existencial, tentativa vã, tarefa
impossível, porque, como já ensinava Agathon, no Século V A.
C., na Grécia de Péricles, “Nem Deus pode mudar o passado”.
Quem conhece, porém vossa poliédrica biografia, há de
concluir que de tão variada e rica, nela pouco ou quase nada de
relevante poder-vos-ia conduzir ao desejo de alterar algum ponto
do itinerário percorrido.
Inspirada nos modelos da Academia Francesa e da Brasileira
de Letras, a da Bahia, se tem no compromisso maiúsculo com as
letras o primado do requisito básico para o ingresso nela, também
pela exponencialidade em um ou mais domínios pode-se alcançar
o mesmo fim.
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A singularidade do vosso caso consiste, precisamente, no
caráter plural dos feitos que emolduram a vossa história. A
começar pelo jovem idealista que aos dezoitos anos, atraído pelo
desejo de transformar o mundo, abraçou, intimorato, a causa do
socialismo.
Com marcante ineditismo em nosso estado, fostes o primeiro
membro de família abastada a filiar-se a um partido político que
propunha a erradicação da propriedade privada, como meio de
fazer a felicidade coletiva. Frederick Engels foi, no particular, o
caso mais conspícuo do rico que abraça o comunismo. Psiquiatras
sociais que se debruçaram sobre as técnicas de proselitismo
marxista concluíram que o desenvolvimento do sentimento de
culpa, entre os materialmente aquinhoados, diante da pobreza de
muitos, constituiu um dos mais poderosos meios de aliciamento
ou, no mínimo, de promoção da simpatia ou tolerância diante do
avanço da causa socialista.
Não é difícil imaginar o enorme conflito em que colocastes
vossos pais, tios e avós, ao perceberem que o filho, sobrinho e
neto amado se encaminhava numa direção que, segundo estavam
convencidos, levaria ao fim de tudo, a começar pela morte da
liberdade. Contra todas as expectativas, que avaliavam como
passageiro o vosso entusiasmo de jovem que chegava para a
aventura da vida com a confiança do moço Rafael subindo as
escadas do Vaticano, persististes, teimosa e firmemente, na
perseguição da quimera que aqueceu vossa alma por vinte anos,
ao longo dos quais conhecestes as dores das incertezas e o medo
natural de navegar por águas não mapeadas, a percorrer caminhos
virgens. Foi quando, verdadeiramente, vos habilitastes a entender
o significado dos versos do poeta espanhol António Machado:
“Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. E andastes
abrindo caminhos, do nordeste brasileiro a Buenos Aires, em
missões secretas, destinadas ora ao avanço do projeto de reformar
o Brasil, como meio de reformar o mundo, ora na prática de
medidas arriscadas, mas necessárias ao abortamento de atos
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repressivos destinados a banir do cenário político brasileiro o
“fantasma” do socialismo.
A prova do quanto vos saíeis bem de cada uma dessas missões
era a convocação para o cumprimento de novos misteres,
atribuídos àquele jovem dedicado que colocava, sem reclamar,
acima de todos os seus interesses o patrocínio da comunização
da sociedade brasileira. É como se tivésseis incorporado a reflexão
dirigida por Antônio Siqueira Campos a Agildo Barata, em 1930:
“Todas as grandes causas têm seus mártires e seus heróis; sejamos
os mártires que os heróis hão de vir”, ou ainda como se houvésseis
intuído a lição da chilena Gabriela Mistral, primeiro latinoamericano a ganhar o Nobel de literatura, ao ensinar que a
verdadeira grandeza consiste em tomar a nosso cargo as tarefas
necessárias que ninguém quer executar. Dentre tantas tarefas
difíceis a vós cometidas, se incluiu a nobilíssima de responder
pela segurança dos lugares onde esconder o grande líder Luís
Carlos Prestes, do incessante encalço da polícia do governo
federal, obstinada no propósito de prendê-lo, mais uma vez, agora
em 1947, quando, de novo, o Partido Comunista foi posto na
clandestinidade. Quando ponderastes que vos encontráveis na
iminência de contrair núpcias, com prendada jovem baiana,
ouvistes de Diógenes Arruda Sampaio, segundo na hierarquia do
PC, logo abaixo de Prestes, a reprimenda de que isso era
preocupação pequeno-burguesa, desmedidamente miúda para
prejudicar o cumprimento de uma missão partidária tão honrosa
quanto a de velar pela segurança do Cavaleiro da Esperança.
Dividido entre os apelos do coração que recomendava ir ao
encontro da amada e o chamamento do dever revolucionário de
proteger o líder contra o alcance da mão armada da violência
institucional, vivestes a vossa escolha de Sofia. Guiado, talvez,
por aquela intuição profética que só o consórcio do amor com o
dever é capaz de inspirar, entregastes ao deputado Nestor Duarte,
no Rio de Janeiro, com o pedido de entrega-la, em mãos, em
Salvador, a carta que dirigistes à noivinha Hildete, com o
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apaixonado pedido de compreensão para que aceitasse prorrogar,
por algumas semanas, o casamento já marcado, feitos os
proclamas, convites distribuídos e escolhidos os padrinhos.
Como é fácil imaginar, a notícia do adiamento produziu em
Salvador os efeitos de uma bomba. Tanto maior o estouro quanto
vos encontráveis inteiramente impedido de explicar as superiores
razões que justificassem a inopinada quanto surpreendente
alteração de agenda tão cara. É verdade que conseguistes imprimir
ao vosso pedido de compreensão, uma nota de sofrimento tão
tocante que só os sentimentos verdadeiros são capazes de
transmitir. É como se houvésseis repassado aquela dor extrema
de querer, mas não poder falar a que se referiu o padre Antônio
Vieira, ao ensinar que “é tão agradável falar que até os penhascos
mais duros falam. É tão desagradável não poder falar que Deus
fez surdos aos que nascem mudos, porque se escutassem e não
pudessem falar, arrebentariam de dor”.
O fato é que poucas vezes à sociedade baiana foi oferecido
pratázio tão suculento para exacerbar o gosto e o imaginário das
comadres e dos compadres ao especularem sobre as possíveis
razões que levaram à mudança do sagrado calendário nupcial.
Mais uma vez a jovem Hildete foi levada ao calvário de resistir às
advertências paternas sobre os riscos de desposar alguém de
procedimento tão heterodoxo, um jovem inteligente, boa pinta,
de respeitável família, mas, certamente, subversor da ordem natural
das coisas, para não dizer lelé da cuca.
Com o casamento vieram os sete filhos amados: Maria Adenil,
Maria Luíza, João, Maria Célia, o saudoso Antônio Ferreira de
Souza Falcão, o Ferreirinha, tragado na inocência dos seus
quatorze anos, Maria Helena e Wilson. Genros, noras, e as
centenas de descendentes diretos e colaterais, sobrinhos, netos e
bisnetos vos põem à testa de um clã tão numeroso quanto belo.
Ao deixardes o Partido Comunista, fizeste-o com dignidade;
não recorrestes ao habitual expediente de enxovalhar aquelas
práticas que vos conduziram à inevitável apostasia, inclusive o
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desencanto da percepção de que nunca seríeis aceito como um
puro-sangue ideológico, uma vez que indelevelmente maculada
vossa origem pelo irremissível pecado da bonança familiar.
O exercício de um mandato de deputado federal, entre 1955 e
1958, encerrou vossa atividade partidária, quando, então, vos
decidistes por mais uma grande vertente de vossa vida: a atividade
empresarial, em que esplendestes, como construtor, banqueiro,
fomentador do desenvolvimento urbano e editor de jornal, já
agora sem as limitações da clandestinidade.
Como construtor, entre outros projetos, fostes o primeiro a
edificar um prédio com a assinatura do insuperável centenário
Oscar Niemeyer. Como banqueiro, fundastes e presidistes o Banco
Baiano da Produção, experiência que levastes para enriquecer o
governo de Luis Viana Filho, como presidente do Desembanco.
Na área do desenvolvimento urbano, entre inúmeras
contribuições, destaca-se o aprazível sea side resort de Interlagos,
o point elegante, por excelência, do litoral Norte.
Como fundador, editor e diretor do Jornal da Bahia, cumpristes
a etapa final de memorável carreira jornalística ao tempo em que
iniciastes, simultaneamente, exitosa atividade empresarial.
É deveras surpreendente e meritório que hajais começado,
em 1938, aos dezenove anos, idade própria para os folguedos da
adolescência, a publicação da revista Seiva, que operou, em seus
19 números, como receptáculo de alguns dos maiores
pensadores do continente. No número inaugural, lá estavam
Orlando Gomes, Afrânio Coutinho, Carlos Lacerda e o vosso
artigo Eu os vi no campo, contrariando recomendações partidárias.
Do jovem intelectual e político Luis Viana Filho, em artigo
publicado em A Tarde, de dezembro de 1938, a revista Seiva
recebeu calorosos votos de boas vindas. Ainda há pouco, em
2008, destes a conhecer aos coevos o significado dessa histórica
publicação, em livro prefaciado pelo brilho analítico de um dos
maiores intelectuais do país, o professor e nosso confrade João
Eurico Mata.
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Dois anos depois do fechamento de Seiva, o Partido Comunista
confiou a vossa criatividade, espírito irrequieto e capacidade
gerencial comprovada, em 1945, a ingente tarefa de trazer a lume
o semanário, O Momento, transformado, no ano seguinte, em
matutino diário, que haveria de exprimir, até 1957 o pensamento
socialista entre nós. Com o fechamento de O Momento, encerravase, também, vossa participação no Partidão.
A vocação para a grandeza do Jornal da Bahia se afirmou desde
o primeiro momento de sua gestação: uma conversa que
mantivestes com colegas de bancada na Câmara dos Deputados,
as personalidades tutelares de Otávio Mangabeira, Nestor Duarte
e Luis Viana filho, em fins de 1955, resultou na concessão por
eles do título Jornal da Bahia e do repasse de uma velha impressora.
Os prestigiosos nomes dos integrantes da direção da nova empresa
responsável seguiram pelo mesmo caminho, a começar pela
extraordinária figura de Zittelman de Oliva, dedicado e operoso
companheiro de todas as horas, que colocou, lealmente, a serviço
do novo jornal o concurso de sua reconhecida inteligência,
competência gerencial e proverbial vocação diplomática.
O comando da redação foi confiado ao talento de João Batista
Lima e Silva, Flávio Costa, Ariovaldo Matos e Alberto Vita. Entre
os jornalistas que militaram no JB, ao longo dos 25 anos em que
esteve sob a vossa batuta, podemos destacar os nomes de Arary
Muricy, Antônio Torres, meu colega de escola primária, Anísio
Félix, o artista plástico Calazans Neto, o grande cronista Carlos
Eduardo Novaes, David Salles, Emiliano José, Fernando Rocha,
Genebaldo Corrêa, Glauber Rocha, Gustavo Tapioca, nosso
saudoso confrade Guido Guerra, Helington Rangel, Héron
Alencar, meu saudoso primo Humberto Vieira, João Santana
Filho, Jeová de Carvalho, João Ubaldo Ribeiro, José Amílcar, José
Gorender, Zezito Contreiras, Joselito Abreu, Lázaro Guimarães,
Levy Vasconcelos, nossos confrades Florisvaldo Matos, Samuel
Celestino e Luis Henrique Dias Tavares, Marcelo Simões, Marcelo
Duarte, Maria Adenil, Carmela Talento, Misael Peixoto, Muniz
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Sodré, Nelson Cerqueira, Newton Calmon, o Santelmo, Newton
Sobral, Oldack Miranda, Orlando Garcia, Orlando Sena, Otacílio
Fonseca, Quintino Carvalho, primeiro redator chefe da Tribuna
da Bahia, em cuja função faleceu, Sebastião Nery, Silvio Lamenha,
Tasso Franco, Tom Zé, Vera Matos, Wilter Santiago, além dos
fotógrafos Anísio Carvalho, Domingos Cavalcanti, Mário
Paraguassu, Walter Lessa e o chargista Lauzier.
Mas, certamente, foi ao lado de João Carlos Teixeira Gomes,
também nosso confrade, bravo e talentoso jornalista e poeta,
cognominado o “Pena de Aço”, que enfrentastes os momentos
mais difíceis, quando o guante da violência institucional se abateu
sobre o impávido Jornal da Bahia, com o malsão propósito de
silenciá-lo. Com vossa resistência, escrevestes uma das páginas
mais bonitas na defesa da liberdade de imprensa em nosso país.
Tudo isso, aliás, é objeto do vosso excelente livro de 2006, “Não
deixe esta chama se apagar”.
Mas já é tempo de cuidar daquela vertente de vossa vida,
particularmente cara à casa em que hoje ingressais, como um dos
seus maiores. Refiro-me à vossa criação literária, propriamente dita.
Como destaquei ao submeter o vosso respeitável nome aos
confrades, sois, sem dúvida, um dos mais fecundos memorialistas
brasileiros. A ninguém como a vós se ajusta o preceito da epígrafe
com que Gabriel Garcia Marquez abre seu livro de memórias,
Vivir para contarla, ao dizer que “La vida no es la que uno vivió,
sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla”.( A
vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e
como recorda para conta-la).
Ao estreardes em livro, aos sessenta e oito anos, com o
imprescindível O Partido Comunista que eu conheci (20 anos de
clandestinidade), ninguém poderia imaginar que aquela seria a
primeira de uma série de obras notáveis, vindo a compor, no seu
conjunto, um dos mais ricos fastos do Brasil no Século XX. Os
vinte e três anos transcorridos daquela estreia auspiciosa
confirmam o prestígio desse livro como inestimável fonte primária
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para o estudo dos conflitos ideológicos no Brasil, tendo o Partido
Comunista como pivô, porque o vosso depoimento vem revestido
da autoridade de quem viveu os bastidores do Partidão e da
isenção de quem quer servir a verdade, sem trair, no entanto, os
deveres éticos oriundos do compromisso da filiação.
Em A Vida de João Marinho Falcão, fostes muito mais longe do
que, simplesmente, dar uma prova de admiração e amor filiais, ao
ensejo do transcurso do centenário de vosso estremecido genitor.
Tivestes o talento de, amparado na exuberante personalidade de
vosso pai, sem qualquer dúvida, arquétipo do que se poderia
denominar Coronel Estadista, demonstrar o quanto de pujança
moral, de espírito progressista e patriótico foi possível desenvolver
a partir da elite do nosso patriciado rural.
Em Giocondo Dias, a vida de um revolucionário, ensinais, entre tantas
outras coisas, como a atitude deste líder histórico contribuiu para
reduzir o grau da violência, nascida do conflito ideológico,
esquerda versus direita, entre nós, ao poupar a vida dos militares,
quando tomou de assalto o quartel do 21o BC, em Natal, em 23
de novembro, de 1935,
Em 1999, com ‘O Brasil e a 2a Guerra’, testemunho e depoimento de
um soldado convocado, radiografastes, em pormenores que
impressionam, o que foi a participação do País naquela hecatombe
apocalíptica, com ênfase especial sobre a intervenção popular,
cujo papel foi decisivo para forçar o governo a entrar na guerra,
ao lado dos países aliados, contrariamente à preocupante tendência
pró nazismo, manifestada pelo ditador Vargas. Mais que tudo, o
livro ensina que o Brasil foi o único país do mundo cuja entrada
na guerra decorreu da pressão popular. Sem dúvida, o
conhecimento dessa peculiaridade histórica importa, sobremodo,
como fator de elevação de nossa auto-estima nacional.
Só depois do torpedeamento, por submarinos alemães ou
italianos, de mais de dez navios brasileiros, de carga e de
passageiros, em águas internacionais, com a perda de centenas de
vidas inocentes, foi que Getúlio cedeu ao clamor popular, para
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declarar guerra ao Eixo. As maiores manifestações ocorreram
em Salvador, nos meses de março e abril de 1942. Daí em diante,
mais doze navios foram torpedeados na costa brasileira e alguns
no litoral baiano. Quando os cadáveres bateram às nossas praias,
a exemplo de mais de cinquenta nas praias de Valença, a
indignação popular chegou à loucura. E vós, confrade João Falcão,
testemunhastes e narrastes para a posteridade, com meticulosidade
proustiana, esses momentos dramáticos de nossa história.
O ensino da História, como disciplina escolar, ganharia muito
em eficiência se, ao invés de o fazermos, como de praxe, do
passado para o presente, passássemos a fazê-lo, inversamente, do
presente para o passado. E o vosso livro sobre a Segunda Grande
Guerra seria um bom começo, sobretudo porque, nele,
aprendemos, como em nenhum outro, como se processou a
participação da Bahia e dos baianos naquele conflito, que não
teria acontecido não fosse o tratado espúrio firmado entre a
loucura de Hitler e o oportunismo russo, para retalhar a Polônia.
Quando se supunha que o livro Não deixe esta chama se apagar,
História do Jornal da Bahia, publicado aos 87 anos, seria vosso canto
de Cisne literário, eis que surpreendestes o mundo das letras com
o magnun opus Valeu a pena, desafios de minha vida trazido a lume
ao ensejo das festividades do vosso nonagésimo aniversário. Ao
ler este grande livro, não pude fugir à tentação de refletir sobre
como a vós se aplica com toda a propriedade a afirmação de que
há pessoas vocacionadas para renascer como protagonistas como
a fênix das cinzas.
Na avaliação crítica que fez dessa obra colossal, nas páginas
da Tribuna da Bahia, o amigo comum e advogado Carlos Sodré
foi lapidar ao sustentar que “a obra autobiográfica com que celebra
os seus 90 anos – é uma arrebatadora narrativa de sua saga. Nela,
exsurgem em bela e concatenada linguagem, ricas revelações da
origem interiorana do autor; da influência familiar haurida,
especialmente da figura marcante de seu pai; da sequiosa busca
do saber e da avidez por participar das grandes lutas do seu tempo,
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donde refulge a intensa e obstinada atuação na vida estudantil,
jornalística e cultural da Bahia de então; da imersão nos domínios
da vida ideológica, partidária e a epopeia da clandestinidade, suas
prisões e o exílio; a passagem pelo Parlamento no tempo em que
homens públicos dignos e brilhantes eram regra e não exceção,
como hoje; as incursões na atividade empresarial da construção
imobiliária e de banqueiro; a experiência da administração pública.
Ao lado de tudo isso, de sua leitura se colhe que o autor, ainda
que invariavelmente altivo e rígido no cotidiano cumprimento
das tarefas partidárias, nunca perdeu o traço da serenidade que
lhe assinala a personalidade, sendo possível identificar nele assim
um quê guevariano pois, por mais que imprimisse, ao que fazia,
uma postura intransigente e dura, aflora a percepção de que se
exercia “sem perder a ternura, jamais”.
Confrade João da Costa Falcão, a Academia de Letras da Bahia
lança sobre o vosso nome o manto da imortalidade. Sede bemvindo!
Salvador, 9 de setembro de 2010.
__________
Discurso de saudação ao acadêmico João Falcão, proferido no salão nobre da
Academia de Letras da Bahia, em solenidade de posse na Cadeira nº 35, em 9
de setembro de 2010. Joaci Góes é bacharel em Direito, empresário, jornalista
e ensaísta. Desde 2009 ocupa a Cadeira nº 7 da ALB.
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Travessias literárias
Discurso de posse
Rita Olivieri-Godet
Senhor Presidente, senhores acadêmicos, queridos colegas e
amigos,
A natureza arredia da palavra se manifesta particularmente
em momentos especiais de nossas vidas: quanto mais queremos
exprimir a singularidade do instante, mais a palavra se esquiva.
Nosso discurso, pelo menos este meu discurso, termina
recorrendo às formas usuais para manifestar um sentimento único.
Não podendo apelar para a criatividade do poeta ou do
romancista, pelo simples fato de o não ser, só me restaria calar. A
solenidade do momento, no entanto, não me permite silenciar.
Sendo assim, diante da impossibilidade de expressar plenamente
e de maneira original meus próprios sentimentos, digo
simplesmente que foi com surpresa e com muita alegria que recebi
a notícia de minha eleição como membro correspondente da
Academia de Letras da Bahia. Ver meu trabalho reconhecido por
uma instituição que representa a comunidade intelectual da Bahia
é, para mim, uma forma de me sentir presente na minha terra, de
transcender a ausência física, transformando-a numa ausência
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drummondiana, que, nas palavras do poeta, significa uma
“ausência assimilada”. Agradeço ao escritor, colega e amigo
Aleilton Fonseca pela indicação do meu nome, e ao escritor e
acadêmico Carlos Ribeiro a proeza de ter convencido os membros
desta Academia a acatar a indicação. Procurarei honrar o título,
continuando a assumir a tarefa de mediadora entre duas culturas
que me formaram e me levam a descobrir o mundo através de
seus referentes culturais e identitários, às vezes complementares,
muitas vezes contraditórios, experiência que me despertou muito
cedo para a ideia de que o real é uma construção e as modalidades
de percepção do mundo, múltiplas e diversas.
Utilizo o fragmento de uma entrevista de um dos meus
escritores preferidos, João Ubaldo Ribeiro, como mote que
orientará o conteúdo da minha fala. Em entrevista recente ao
Rascunho, atualmente um dos poucos jornais literários de qualidade
no Brasil, sediado em Curitiba, Ubaldo declara:
[...] a literatura é uma forma importante de conhecimento,
de ver o mundo e de expressar o mundo através da linguagem.
Acho que quem se expõe a um estímulo intelectual, emocional,
artístico, está dando a si mesmo uma chance de expansão da
sua sensibilidade, da sua humanidade. Se nós nos limitássemos
a comer e a procriar, tudo seria muito pobre.
Minha paixão pela literatura tem a ver com minha visão da
literatura, visão que transparecerá neste discurso com o qual
pretendo evocar meu percurso de professora e pesquisadora, na
Bahia e na França.
Inúmeras vezes, e por motivos vários, cruzei o Atlântico. Mas
antes dessas viagens se realizarem, inúmeras outras vezes meu
imaginário cruzou este Oceano. Desde menina, transportavamme para um mundo desconhecido as aulas de francês de “Mamãe
Cristina”, como apelidávamos carinhosamente, no Colégio de
Aplicação, a professora Cristina Guerra, tia do escritor Guido
Guerra. Menina, ainda, fui aluna de Raymond Van Der Haegen
na Casa da França, situada, na época, no paradisíaco Vale do
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Canela, como paradisíaca era, para mim, a biblioteca daquela
instituição onde descobria, maravilhada, a coleção dos clássicos
da Gallimard, com suas capas de um amarelo discreto, e todo o
mistério de um mundo que eu ignorava. Essa curiosidade pelos
livros devo à estante de meu avô, Silvanísio Pinheiro, infinitamente
mais modesta, mas não menos atraente que a biblioteca da Casa
da França. A minha paixão pela literatura e pela França nascem
praticamente juntas e se confundem num mesmo desejo de fazer
a experiência do inusitado, de fugir de padrões costumeiros e
aventurar-me num espaço insólito como uma “estranha
estrangeira”. Jovem estudante do Instituto de Letras da Bahia,
admirava a erudição do grande intelectual e ex-presidente da ABL,
professor Cláudio Veiga. Mas foram as aulas de literatura francesa
do professor Jacques Salah, e de Teoria da Literatura da escritora
e professora Judith Grosmann que definitivamente traçaram meu
caminho, inserindo-me para sempre no universo da leitura. Eis o
que sou, essencialmente leitora, o que me permite ser também
professora de literatura e crítica literária.
A experiência da leitura é a outra face na qual o ato de criação
se completa. O ato de leitura é um convite para que o leitor se
aproprie plenamente das palavras e experiências emanadas dos
escritores, aprendendo nos seus textos a ser livre, a ser sujeito de
sua própria existência. Escritor e leitor, quando este aceita o
desafio do texto literário, trilham juntos o caminho da tentativa
de interpretação do ser e do estar no mundo, desdobrando-se em
eus, como o poeta modernista quando afirma: “Eu sou trezentos,
sou trezentos-e-cincoenta, / [...] Abraço no meu leito as milhores
palavras, / E os suspiros que dou são violinos alheios”. As
experiências literárias de criação e de leitura, por caminhos
peculiares a cada uma delas, fazem surgir um mundo que não
existe, embasadas pelo anseio platônico de se libertar das sombras
enganosas do interior da caverna, para contemplar a luz do sol.
Não que a revelação esteja no final do túnel; na verdade, é
impossível atingir toda a verdade, como constata Drummond
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num poema homônimo. A forma de questionar o mundo é que é
substancial, embora angustiante. No dizer do poeta Antônio
Brasileiro: “Nenhuma verdade é paz; é só o inquietar-se” (“O
anjo no bar”). É esse desassossego que é próprio da literatura e
que nos prepara culturalmente para suspeitar de todo tipo de
rigidez dogmática.
Meu primeiro texto foi publicado pelo cineasta José Umberto,
no Suplemento Literário do Jornal da Bahia, em 1974. O artigo
era dedicado a uma leitura do romance O jogo da Amarelinha do
escritor argentino, Júlio Cortazar, radicado na França. A obra me
fascinou pela radicalidade de sua inovação formal, conjugada à
sua dimensão transcendente. O título do artigo, “Em busca do
absoluto”, prefigura o significado da literatura no meu próprio
itinerário, atraída que fui e sou pela aspiração de ir além dos limites
da realidade sensível. No meu banquete literário, “aventureira do
absoluto”, persigo os sonhos desmedidos dos poetas, que ecoam
em versos como os de Myriam Fraga: “O sonho que eu travo /
Com fúria nos dentes”.
Desde então, escrevi inúmeros textos, a maior parte deles
motivada por uma necessidade imperiosa de me libertar de uma
espécie de tumulto que certas obras provocam, na tentativa de
domar pela reflexão o que percebo intuitivamente. O exercício
da escrita situa-se, para mim, na fronteira entre esses dois
movimentos: talvez por medo do abismo, sinta necessidade de
tomar as rédeas e romper a embriaguez da palavra luminosa.
Outras vezes, escrevo movida pela vontade de explorar
determinados temas que considero de relevância social no campo
do ensino e da pesquisa.
Assim, à paixão pela literatura associa-se uma certa visão da
literatura, veículo de prazer e transcendência, que procuro
transmitir aos meus alunos. Desde os tempos de jovem professora
da Universidade Estadual de Feira de Santana – a experiência
profissional e humana mais marcante da minha vida – , trabalho
no sentido de levar o aluno a usufruir do prazer da leitura, aliado
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ao objetivo de veicular um conteúdo que contribua para despertar
uma consciência crítica que o torne capaz de questionar a realidade
e o seu lugar no mundo. A literatura é uma forma de conhecimento
do mundo que interfere na construção do sujeito. Conhecer é
libertar-se, é desenvolver a capacidade de criar outros caminhos. É
nesse sentido que entendo a função do educador como, de certa
forma, análoga à do artista. Minha experiência como professora e
pesquisadora de literatura brasileira na França, inicialmente como
professora convidada da Universidade de Bordeaux 3, em seguida
como Maître de Conférences da Universidade de Paris 8 e, atualmente,
como professora titular de literatura brasileira da Universidade de
Rennes 2, coloca-me diante de novos desafios. A visão idealizada
que eu projetava daquele país deu lugar a uma percepção crítica de
sua realidade que tento compartilhar com meus alunos. O que mais
me fascina é ajudá-los a descobrir uma outra maneira de ver, sentir
e pensar o mundo, através das obras de escritores brasileiros
estudados, ou do contato com escritores e artistas convidados para
participar de cafés literários, conferências e colóquios. A produção
modernista e contemporânea da literatura brasileira ocupa um lugar
privilegiado nas minhas aulas e nos meus textos, com especial
atenção para as obras de autores baianos: Eurico Alves Boaventura,
Jorge Amado, Antônio Torres, João Ubaldo Ribeiro, Antônio
Brasileiro, Myriam Fraga, Aleilton Fonseca, Ruy Espinheira Filho,
Roberval Pereyr, Washington Queirós, Juraci Dórea, são alguns
dos escritores baianos que se fazem presentes nas minhas aulas e
nos meus textos, ao lado de outros nomes de escritores brasileiros
e de outras nacionalidades.
Minha situação de estrangeira aguçou certamente meu interesse
por uma reflexão sobre as construções identitárias na literatura,
discutindo questões relacionadas com figurações de projetos
identitários da nação brasileira, relações entre identidade e alteridade,
ou ainda debruçando-me sobre a construção do imaginário social
do Brasil na França. Dediquei a este tema, aberto aos diálogos
interculturais, vários estudos que comentarei brevemente.
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A presença do Brasil no imaginário literário francês foi
construída através de séculos. Evoco rapidamente alguns
momentos-chave dessa construção do imaginário social. Penso
em escritores tão distantes no tempo quanto em termos de
projetos, como Michel de Montaigne (1533-1592), Victor Hugo
(1802-1885) ou Conrad Detrez (1937-1985). É possível ler em
algumas obras desses autores uma crítica à decadência da
civilização europeia, em contraposição à esperança de ver surgir
uma nova humanidade do outro lado do oceano, movimento que
corresponde a um eixo ideológico que projeta no Novo Mundo
a utopia de recomeço de uma civilização que está morrendo.
Montaigne, contemporâneo das descobertas, escreve em um dos
seus ensaios: Notre monde vient d’en trouver un autre e acrescenta: cet
autre monde ne fera qu’entrer en lumière quand le nôtre en sortira . Alguns
séculos mais tarde, em 1888, período fundamental para a história
do Brasil, num poema endereçado a republicanos brasileiros,
Victor Hugo escreve: Vous êtes le printemps et moi je suis l’hiver ;/ Je
suis le soir tombant, vous le jour frais et clair,/ Et j’aime à regarder l’aurore
s’épanouir./ Oh oui ! je sens la force et la joie me venir/ A vous voir. Vous
croissez. L’Europe, le vieux monde/ Dans l’histoire a vécu la rapide seconde/
De sa vie. Vous serez l’Europe après-demain. No poema de Victor
Hugo, o Brasil aparece como um país no qual os aspectos ainda
“primitivos” devem evoluir em direção aos valores da civilização
ocidental. No século XX, no período crítico dos anos 60, a
experiência brasileira assume um caráter iniciático para o escritor
franco-belga Conrad Detrez. De modo semelhante ao escritor
austríaco Stefan Zweig, que se instala em Petrópolis para fugir da
guerra na Europa, Detrez quer se afastar de uma Europa que
considera superficial e que, segundo ele, condenaria o indivíduo
ao vazio existencial: Je suis né en 1937 au pays de Liège. Une deuxième
vie a surgi et a bouleversé la première, en 1963, à Rio de Janeiro. Detrez
elabora a imagem de um Brasil terceiro mundista, onde os
verdadeiros combates por valores autênticos visando à
transformação radical da sociedade, podem e devem ser travados.
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Esses dados só reforçam a constatação de que estamos diante
de uma forma recorrente de representação das «terras virgens»
do Novo Mundo, situando-as na continuidade da Europa ou delas
se servindo para elaborar a utopia do recomeço. O novo nada
mais é do que o “mesmo” idealizado, o mito do Brasil país do
futuro, espécie de terra prometida ou de terra potencialmente
afortunada: a alteridade sonhada determina a relação com o Outro.
Num ensaio de 2009, ano da França no Brasil, intitulado
“Imagens do Brasil no romance francês contemporâneo”,
examino a permanência e/ou a releitura desses mitos, ou ainda a
veiculação de novos parâmetros subjacentes às imagens
privilegiadas na representação da alteridade brasileira pela
produção da literatura francesa do século XXI. Os romances
analisados se inscrevem numa tendência literária contemporânea
que explora, com maior ou menor sucesso, as poéticas do Outro.
Dou-me conta que liberados da visão etnocêntrica e da noção de
ação civilizadora no contato com o outro, os escritores são
investidos de uma consciência etno-antropológica, procurando
desenvolver um processo de compreensão e de interpretação dos
dados materiais da cultura brasileira minuciosamente descritos
nos textos romanescos. Existe uma real vontade de diálogo e um
desejo de ultrapassar os estereótipos. Nem sempre, porém, os
autores conseguem evitar os problemas oriundos de uma
concepção essencialista da identidade, marcada pela psicologia
dos povos e pela naturalização dos traços culturais. As boas
intenções não garantem o sucesso da realização literária. Esta
depende do projeto literário e do talento de cada autor. São esses
elementos que fazem com que a viagem que induz a uma
“arqueologia” de culturas e de povos se realize também no plano
da linguagem.
O último trabalho que escrevi, no âmbito dos diálogos
interculturais entre Brasil e França, diz respeito a um texto de
apresentação para a antologia bilíngue Poetas e Poemas da Bretanha
e da Bahia, ainda inédita, organizada por Dominique Stoenesco e
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Aleilton Fonseca. Nele ressalto a importância de tomar a
linguagem poética como mediadora da interação entre espaços
geográficos e culturais distintos. Dos dois lados do Atlântico,
poetas repetem, incansáveis, o mesmo gesto ancestral de refundar
a linguagem para desvelar e recriar o real, buscando sondar os
enigmas do ser humano: “Pela palavra o homem é uma metáfora
dele mesmo”, escreve o poeta mexicano Octavio Paz.
Formada inicialmente pelo estruturalismo francês, que sofreu
um processo de amadurecimento e de reajustamento através dos
anos, meus trabalhos de análise literária são, em parte, fruto desse
viés teórico ao me debruçar sobre os aspectos imanentes do texto,
recorrendo à narratologia e à poética, para tentar dar conta da
especificidade da linguagem e da construção formal da obra. Esses
aspectos articulam-se a outras perspectivas inspiradas na
fenomenologia da literatura, na temática, na sociocrítica.
Considero que a obra literária é, ao mesmo tempo, forma estética
e social, esforçando-me, nas minhas leituras críticas, por articular
essas duas vertentes. Meus trabalhos dialogam com certos
conceitos da história, da sociologia, da antropologia, cada vez
que eles me parecem pertinentes a dar conta da natureza diversa
do texto literário, procurando esclarecer a compreensão de um
ou vários de seus aspectos, sem negligenciar a especificidade de
sua linguagem, que, segundo Theodor Adorno, é a garantia do
que ele denomina “a autonomia relativa” da expressão artística
literária. Adorno e Bakhtin orientam a minha percepção da obra
literária enquanto fenômeno de literariedade e de historicidade.
A ideia do texto literário enquanto espaço dialógico atravessa
minhas leituras. Considero que o exercício hermenêutico,
característico do discurso crítico, deve procurar dar conta desse
movimento dialético do texto literário a um só tempo centrado
nele mesmo, na materialidade de sua linguagem, e aberto ao
mundo, inscrevendo no seu seio uma multiplicidade de relações.
Sartre, em Qu’est-ce que la littérature?, atribui ao escritor a função
de fazer com que ninguém possa ignorar o mundo, nem tampouco
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se dizer inocente. O escritor, ele mesmo, imerso e engajado no
universo da linguagem, não pode mais fingir que não sabe falar.
Para o escritor e o leitor, a experiência literária redefine e amplifica
os possíveis destinos do eu, sua relação com o Outro, sua
consciência reflexiva sobre o mundo que os cerca.
Desde a adolescência, aprendi com o existencialismo sartriano
uma certa ideia de liberdade: o aforismo, “o homem está
condenado a ser livre”, marcou-me profundamente. A adesão,
romântica e ingênua dos meus tempos de adolescência, à ideia de
Sartre foi amadurecendo ao longo do meu aprendizado, na vida
e nos livros, sobre a distância entre o mundo que idealizamos e
aquele em que nos é dado viver. Paradoxalmente, apesar da
consciência dessa distância, o aforismo sartriano se impôs. E se
impôs como uma forma de resistência, de estratégia de
sobrevivência, na qual a literatura desempenha um papel
fundamental. Compartilho com Sartre a ideia de que “a literatura
é, essencialmente, a subjetividade de uma sociedade em revolução
permanente.” Constato, como o faz o escritor francês, que a
ausência de condições para que sociedades sem classes, sem
ditadura, existam hoje, é que justifica o ato de continuar a escrever.
Para além dessa função que pode parecer excessivamente
pragmática, minha visão da literatura aproxima política e estética,
valorizando sua dimensão subjetiva, aquela que toca o ser humano
na sua mais profunda intimidade. Por esse motivo identifico-me
com o projeto literário surrealista que ilustra bem esse objetivo
de ultrapassar as contradições entre materialismo e idealismo. É
o que se lê, claramente, na afirmação de André Breton que
aproxima as célebres frases de Marx e de Rimbaud: Transformer le
monde a dit Marx, changer la vie, a dit Rimbaud, ces deux mots d’ordre
pour nous n’en font qu’un (“Transformar o mundo, disse Marx, mudar
a vida, disse Rimbaud, essas duas palavras de ordem se
transformam, para nós, em uma única”).
Num contexto marcado pelo desencanto pós-moderno, pela
uniformização da cultura de massa, no qual diversão é sinônimo
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de prazer e a energia da vida se vê submergida pela lógica do
capital e do trabalho, alienado e alienante, a palavra deslocada e
plural da literatura segue manifestando sua resistência, para, no
dizer do escritor moçambicano Mia Couto, vingar uma realidade
feita de carência e injustiça. A modulação insólita do discurso
literário não cessa de inaugurar e de propor outras trajetórias
possíveis, como no poema “Lembrete” de Carlos Drummond
de Andrade:
Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
Ávida de poesia e de vida, prossigo o caminho que me foi
aberto pela literatura. Nele se incorpora, hoje, esta solenidade
que muito me honra.
Muito obrigada.
Discurso de posse como membro correspondente proferido no salão nobre
da ALB em 4 de agosto de 2011.
Rita Olivieri-Godet é Doutora em Letras (USP), com Pós-Doutorado na
França, é professora titular de Literatura Brasileira na Universidade Rennes 2
(França), tem diversos artigos e livros publicados no Brasil e na França.
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Saudação a Rita Olivieri-Godet
Aleilton Fonseca
Caríssima acadêmica Rita Olivieri-Godet:
Que missão agradável e inesquecível a Academia de Letras da
Bahia me concede, neste momento de grande júbilo para as Letras
da Bahia. Saudar o seu ingresso nesta Casa é, para mim, um
motivo de enorme satisfação, de entusiasmo e de orgulho, por ver
seu nome se associar ao quadro de ilustres escritores e intelectuais
baianos, pasando a fazer parte de uma tradição que reúne
personalidades ilustres da nossa vida cultural ao longo de quase
um século.
Minha caríssima amiga: venho acompanhando sua laboriosa
trajetória intelectual há anos, e desde cedo percebi nos seus gestos,
nas suas palavras e nas suas realizações a manifestação de uma
inteligência privilegiada, de um caráter exemplar e de uma
personalidade generosa, cuja simpatia e encanto conquistam a
amizade, o respeito e a admiração dos que se acercam de seu
convívio pessoal e profissional. Tantos são os seus amigos, alunos e
admiradores.
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Minhas Senhoras e meus Senhores:
Este momento solene é de enorme significado para a cultura
baiana, na sua expressão mais cosmopolita e plural. Estamos diante
de Rita Olivieri-Godet, uma mulher baiana, natural de Salvador,
estudiosa da literatura baiana e brasileira, há anos radicada na
França, e lecionando nossas letras na universidade francesa.
Eleita por unanimidade, torna-se agora membro da Academia de
Letras da Bahia, que assim homenageia a sua trajetória intelectual
e lhe confere o reconhecimento – em sua própria terra - pelos
seus altos méritos, como ensaísta criativa, criteriosa e profícua
que se dedica a divulgar e inserir a literatura baiana e brasileira na
Europa, contribuindo enormemente para o conhecimento de
autores, obras e temas brasileiros no exterior.
Sua brilhante trajetória universitária teve início na
Universidade Federal da Bahia, onde se diplomou em
Licenciatura em Letras Vernáculas com francês, demonstrando
desde já a sua vocação para as aproximações e os diálogos entre
culturas diversas, através das línguas e das literaturas. Ingressou
no quadro docente da Universidade Estadual de Feira de
Santana, assumindo a cadeira de titular de Teoria Literária. Ali
se destacou de forma exemplar, no ensino e na convivência
universitária. Fez avanços nos estudos de literatura, elevando a
qualidade do ensino das letras na UEFS. Por sua qualidade
docente, influenciou e agregou diversos estudantes de então
em torno de si, formando-os enquanto pesquisadores e ensaístas,
despertando-lhes a competência para a investigação e a análise
literária. Rita Olivieri-Godet é ainda hoje na UEFS um nome
de referência, do qual muitos manifestam o orgulho de haver
sido seus alunos. Na UEFS alguns de seus ex-alunos exercem o
magistério superior e a pesquisa, como prova de seus
investimentos didáticos e de sua solidariedade acadêmica. Desde
então despertou para a necessidade de estudar atores baianos e
fazer avançar a abordagem de novos temas e escritores
contemporâneos, muitos dos quais autores de obras significativas
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que continuavam sem a devida atenção dos críticos e dos
pesquisadores.
Assim, ao realizar seus estudos de doutorado Teoria Literária
e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, Rita
Olivieri-Godet mais uma vez deu uma contribuição inovadora.
Debruçou-se de forma intensa e profunda sobre a obra poética
de Adélia Prado, então pouco estudada e pouco considerada pela
crítica, revelando os valores literários e temáticos de sua obra,
numa tese de doutorado magistral, pela substância teórica, pelo
rigor metodológico e pela abordagem inovadora da moderna
poesia brasileira. Firmava-se de vez a grande ensaísta, um epíteto
que a acompanha até a presente data. E Rita tornou-se uma das
mais brilhantes ensaístas da literatura brasileira contemporânea,
uma verdade reconhecida no Brasil e no exterior, mercê de
seus ensaios e artigos disseminados em diversas publicações,
apresentadas em congressos internacionais, em fóruns de
pesquisa, e publicados em diversas revistas, sites e livros.
Rita Olivieri-Godet não se acomodou com o título de Doutora,
conferido pela maior e mais prestigiada universidade da América
do Sul. Seguiu para a França, para fazer seus estudos de pósdoutorado, na Universidade de Paris 10. E seu interesse pelo
estudo e pela divulgação da nossa literatura passou a ser a marca
fundamental de seu trabalho.
Em seguida, seu interesse pela França e o interesse dos
franceses por seu trabalho se cruzaram de maneira mais concreta
E Rita assumiu a acdeira de Professor Visitante, para
lecionar literatura brasileira na prestigiada Universidade de
Bordeaux 3. Sua missão francesa então começava de forma intensa
e excepcionalmente fértil.
Não tardou, e assumiu a cadeira de Maître de Conférences na
Universidade de Paris 8, cargo que exerceu entre os anos de 1998
e 2003. Isso porque, justamente naquele ano de 2003, Rita Godet
auferiu o seu maior feito acadêmico na pátria de Charles
Baudelaire. Prestou concurso público para professora titular de
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literatura brasileira na Université Rennes 2 em 2003, chegando ao
auge de sua carreira universitária na França, ocupando lugares
cada vez mais importantes na estrutura universitária, na docência,
na orientação de pós-graduação, na pesquisa e, finalmente, na
administração acadêmica de sua instituição.
Assim, sua carreira de pesquisadora internacional deslanchou
de modo insofismável, para a alegria de seus amigos e admiradores,
e para a grandeza da literatura baiana e brasileira, que ganhava na
França uma divulgadora de altíssimo nível e de uma generosidade
intelectual poucas vezes vista no nosso meio universitário. Sim,
porque Rita Godet não se bastou com os cargos e o prestígio
conquistados através de sua atuação dinâmica e percuciente no
seleto, criterioso e exigente espaço universitário francês. Ela
passou a ser uma espécie de agente cultural, ao se dedicar a
promover eventos e cursos, para os quais convida escritores e
professores baianos e brasileiros, promovendo um intercâmbio
contínuo e cada vez mais efetivo, construindo e mantendo uma
ponte Brasil-Bahia-França, pelas quais já transitaram dezenas de
escriores e de pesquisadores universitários. Como resultado desse
admirável trabalho, constam nas biografias e currículos de desses
autores e ensaístas suas diversas viagens à França, como
convidados para eventos e palestras, como membros de grupos
internacionais de pesquisa, e como estudantes de mestrado,
doutorado e pós-doutorado. Como efeito dessas ações, constam
ainda esses vários nomes como coautores de livros de ensaios
publicados em França e no Brasil, marcando espaço internacional
para os estudos de literatura brasileira contemporânea, elevando o
currículo e o nível dos ensaístas baianos e brasileiros, com
importantes publicações no exterior, traduzidos para a língua
francesa.
Que missão extraodinária! Um trabalho de tão alto interesse
nacional, de grandeza e de generosidade – e, ao mesmo tempo,
feito com simplicidade, com naturalidade, e com muito empenho
e espírito coletivo. Nessa trajetória admirável, é forçoso aduzir
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que, de 2004 a 2007, Rita Olivieri-Godet exerceu o cargo de
diretora adjunta da École doctorale “Humanités et Sciences de
l’Homme” da Université Rennes 2. E tornou-se Diretora do
Departamento de Português dessa grande universidade da
Bretanha. É também responsável pela coordenação do Master
Internacional “Les Amériques” e pelo laboratório de pesquisa
PRIPLAP- Pôle de Recherche Interuniversitaire sur les pays de langue
portugaise, e da equipe de pesquisa ERIMIT – Equipe de Recherche
“Mémoires, Territoires, Identités”, espaço de pesquisa no qual organiza
inúmeras atividades em torno da cultura brasileira, com um
destaque especial para a cultura baiana.
Os colóquios literários promovidos e coordenados por Rita
Godet são marcantes, inesquecíveis, produtivos e encorajadores
para todos aqueles que deles participam e guardam recordações
indeléveis. Mesmo porque, para além de cada um desses encontros
e dessas festas, permanecem as experiências acumuladas, os
intercâmbios estabelecidos, as amizades conquistadas. E sempre
surge um livro, no qual se registram as contribuições dos
convidados, fazendo circular nomes e saberes, engrandecendo
autores, temas e obras de nossa cultura literária e artística. Assim,
podemos citar o Colóquio sobre Jorge Amado, que resultou num
admirável livro, com uma edição francesa pela Université de La
Sorbonne Nouvelle – Paris 3, e uma edição brasileira pela Fundação
Casa de Jorge Amado, desde então referência inapagável nos
estudos amadianos na França e no Brasil.
Com excepcional brilho, ela promoveu o Colóquio
Internacional “João Guimarães Rosa: memória e imaginário do
sertão-mundo”, realizado em Rennes, Capital da lendária
Bretanha, em outubro de 2008, que contou com a participação
de pesquisadores de várias universidades brasileiras, francesas e
italianas, e a presença representativa de artistas e professores
baianos como Antônio Brasileiro e Juraci Dórea, de quem os
franceses tiveram a oportunidade de admirar a obra plástica, numa
exposição realizada no salão da Biblioteca da Universidade.
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Incansável viajante, Rita Godet não para de colaborar com as
Universidades brasileiras entre as quais a Universidade Estadual
de Feira de Santana-UEFS, a UFBA, Universidade de São Paulo,
a Universidade de Brasília, a Universidade Federal de Minas Gerais,
entre outras instituições que recebem sua atenção, como parceiras
de empreitadas ousadas, efetivas e admiráveis.
Um trabalho tão fértil havia mesmo de resultar numa produção
bibliográfica de altíssimo nível e de variado alcance temático. São
vários os seus artigos publicados em revistas nacionais e
estrangeiras. São cerca de onze publicações dedicadas a literatura
e cultura brasileiras no Brasil e na França.
É preciso destacar a importância do livro A poesia de Eurico
Alves. Imagens da cidade e do sertão, de 1999, reunindo estudos seus
e de outros autores, em torno dos temas e formas da poesia do
poeta feirense, em ensaios que são hoje referências obrigatórias
e citações indispensáveis para qualquer análise que se faça da
poesia baiana do século XX.
Seguem-se outros títulos de livros organizados ou
coorganizados, sempre reunindo estudos importantíssimos sobre
os diversos aspectos de nossa produção literária.
Podemos destacar enfaticamente o livro Jorge Amado : leituras e
diálogos em torno de uma obra (de 2004), com edição francesa em
2005, em parceria com a prestigiada pesquisadora francesa
Jacqueline Penjon, da Sorbonne, reunindo trabalhos de grande
alcance crítico e temático em torno da obra de Jorge Amado.
E ainda o livro La littérature brésilienne contemporaine (de 1970 à
nos jours), de 2007, em parceria com Andrea Hosne (USP),
resultado de mais um colóquio internacional, com a expressiva
presença de pesquisadores baianos e brasileiros.
Com Rubens Pereira, organizou o livro Memória em movimento :
o sertão na arte de Juraci Dórea, publicado pelo Programa de PósGraduação em Literatura e Diversidade Cultural, da UEFS, em
2003, reunindo ensaios seminais sobre a admirável obra do poeta
e artista plástico feirense.
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Organizou também o livro Figurations identitaires dans les
littératures portugaise, brésilienne et africaines de langue portugaise, editado
pela Université Saint-Denis, Université Paris 8
Com Lícia Soares Souza, da UNEB, organizou o livro
Identidades e representações na cultura brasileira, publicado em 2001,
cujo título já demonstra a relevância e atualidade do tema.
Com a Profa Maryvonne Boudoy organizou Le modernisme
brésilien, também editado por Saint-Denis, Université Paris 8, no
ano 2000.
É necessário também exaltar com ênfase a sua proeza
mais recente, resultado de pesquisas originais, realizadas na
universidade francesa. Trata-se do seu ensaio sobre a obra de João
Ubaldo Ribeiro, que atualiza a crítica e orienta novos estudos,
como uma preciosa contribuição teórica e metodológica para
todos aqueles que trilham os caminhos da ensaística literária
contemporânea.
De fato, o livro é ousado e inovador, dedicando-se a analisar
as Construções identitárias na obra de João Ubaldo Ribeiro. Tese de
concurso na França, o livro foi escrito originalmente em francês,
com o título João Ubaldo Ribeiro: Littérature brésilienne et constructions
identitaires, sendo publicado pelas editora da Universidade de
Rennes 2, em feliz parceria com Programa de Pós-Graduação
em Literatura e Diversidade Cultural/UEFS-Bahia, em 2005;
numa coedição encaminhada por Rosana Ribeiro Patricio, então
coordenadora do referido programa de pós-graduação.
Uma obra crítica dessa invergadura científica e acadêmica não
podia ficar inédita no Brasil. Assim, cuidadosamente traduzido
para o português, o ensaio Construções identitárias na obra de João
Ubaldo Ribeiro constitui uma versão revista do livro publicado
originalmente em francês. Assim, traduzido pela própria autora
e por Regina Salgado Campos, a obra veio a lume, em português,
numa coedição tripartite que reuniu a editora Hucitec, de São
Paulo, a Editora da UEFS, de Feira de Santana, e a Academia
Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, sendo lançado em 2009, com
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uma recepção crítica admirável nos meios acadêmicos. Este livro
indispensável constitui hoje um ensaio seminal na abordagem da
obra de João Ubaldo Ribeiro, constando em bibliografias de teses,
cursos, concursos e seleções de pós-graduação, além de constituir
um exemplo de lucidez crítica, justa aplicação de conceitos e
métodos, fazendo do ensaio uma arte literária maior.
Por todos os seus méritos, o livro recebeu o Prêmio de Ensaio
2010, da União Brasileira de Escritores, do Rio de Janeiro, sendo
considerado o melhor ensaio já escrito sobre o autor baiano.
Do que, enfim, trata esse livro tão festejado e reconhecido?
No livro, a ensaísta debruça-se sobre a ficção ubaldiana para
analisar a questão da identidade. Ora, a configuração identitária
dos povos nunca foi um processo claro e pacífico. A história tem
mostrado como as diferenças provocam conflitos, levam à
intolerância e à discriminação. Em face disso, a literatura muitas
vezes se torna uma forma de representação crítica, mostrando a
crueza e o absurdo de realidades que precisam ser compreendidas
e superadas. A obra de João Ubaldo Ribeiro mostra-se atenta a
essas questões, ao abordar diversos aspectos da formação social
do povo brasileiro.
O livro de Olivieri-Godet debruça-se sobre as construções
identitárias do autor de O albatroz azul, para examinar uma das
facetas mais significativas de sua obra. Rita Godet faz isso
com muita autoridade, uma vez que antes já publicara diversos
artigos sobre as representações literárias das relações culturais
contemporâneas. No ensaio, ela analisa Viva o povo brasileiro,
Vila Real, O Feitiço da ilha do pavão, A casa dos budas ditosos, as
crônicas do livro Um brasileiro em Berlim, além de contos do
livro Já podeis da pátria filhos. Godet aborda os textos ficcionais
a partir de uma conceituação teórica específica, citando autores
brasileiros e franceses, como Antonio Candido, Silviano
Santiago, Zilá Bernd, Francis Utéza, Georges Bataille, Gérard
Genette, Gilles Deleuze, e os caribenhos Patrick Chamoiseau,
Édouard Glissant, entre outros.
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Nos quatro capítulos do livro, a autora estabelece conexões
entre as obras de João Ubaldo e as questões identitárias,
demonstrando suas recorrências, seus significados e sua
abrangência. Com isso, insere a literatura brasileira na problemática
das identidades, como ponto de partida para situar o lugar
ocupado por Ubaldo nesse universo temático. Seu estudo aponta
o percurso do ficcionista, desde a tendência carnavalizante de
Vencecavalo e o outro povo (1974), passando pelo neo-realismo de
Vila Real (1979), até chegar a uma ficção que “faz coexistir uma
visão épica e dramática com a perspectiva carnavalesca, que, cada
vez mais, terá tendência a se impor em sua obra” (p. 28).
Em suas análises, Godet anuncia que, em João Ubaldo Ribeiro,
“a problemática da identidade nacional afasta-se da
homogeneização dos traços culturais, privilegiando uma
representação plural da identidade brasileira” (p. 28). Para
demonstrar seu ponto de vista, ela coteja os textos ficcionais com
o aparato teórico, privilegiando a articulação entre as estratégias
narrativas e as figurações identitárias operadas pelo escritor.
O ensaio correlaciona memória, história e ficção, e aproxima
identidade, território e utopia, mostrando as marcas da voz autoral,
as intertextualidades, a técnica e as estratégias narrativas. Segundo
a autora, Ubaldo implode estereótipos, instaura a pluralidade de
vozes, revelando a face obscura e conflituosa da formação
identitária brasileira.
Rita Godet demonstra como os textos de João Ubaldo refletem
sobre os dilemas de nossa época, ainda marcada por reações de
intolerância diante de certas manifestações da diversidade cultural
e identitária. Dessa forma, considera que sua ficção contribui
para que entendamos melhor a sociedade em que vivemos,
identificando seus conflitos e suas possíveis soluções. Sem dúvida,
um ensaio de grande percuciência literária que se constitui também
como uma ação civilizadora, ao ressaltar a necessidade de se
refletir sobre os valores das diferenças e das convivências
identitárias.
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Sr Presidente, senhoras e senhores:
Os méritos de Rita Olivieri-Godet são sobejos e sobrantes
para nossas homenagens e nosso reconhecimento. Ela construiu
um lugar de relevo para a ensaística baiana na França, através de
seu intenso trabalho de docente, pesquisadora e conferencista.
Seu assunto principal tem sido a obra de autores baianos, como
Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Torres, Antônio
Brasileiro, Juraci Dórea, Eurico Alves, entre tantos outros
brasileiros.
Nesta Casa, portanto, ela está no seu devido lugar, colhendo
o reconhecimento e as merecidas glórias em sua própria terra
natal. Rita é aquela santa de casa que faz milagre. E tem devotos.
E este discurso de recepção a Rita Olivieri-Godet devia ser
mais curto, para que mais cedo todos aqui pudessem, como farão
em instantes, saudá-la, abraçá-la, confraternizando-se com a
Academia de Letras da Bahia por diplomá-la e consagrála enquanto acadêmica. Todavia, diante de tão extraordinária e
brilhante trajetória intelectual, por mais que eu me tenha
extendido, ainda foi pouco para celebrar o talento, o carisma, a
simpatia e a beleza de uma pessoa tão iluminada, ao mesmo tempo
tão mansa e simples de coração, tão dada aos amigos, como é a
nossa mais nova acadêmica baiana.
Minha querida e admirada amiga Rita Olivieri-Godet, seja bemvinda a esta prestigiosa Casa, lugar simbólico da cultura baiana,
que se torna mais sábia, mais simpática e mais bonita com a sua
iluminada presença e a sua dedicação incansável às nossas letras.
Muito Obrigado.
Salvador, 4 de agosto de 2011.
________
Discurso de saudação à acadêmica Rita Olivieri-Godet, proferido na solenidade
de posse, realizada no salão nobre da ALB, em 4 de agosto de 2011.
Aleilton Fonseca é escritor, ensaísta e Professor Pleno (titular) da UEFS. Desde
2005 ocupa a Cadeira nº 20 da ALB.
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Discurso de posse
Maria Beltrão
D esejo iniciar esta fala expressando meu comovido
agradecimento a meu amigo, colega do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro e Ex-presidente da Academia de Letras da
Bahia, Dr. Edivaldo Boaventura pela indicação de meu nome.
Tenho o prazer de compartilhar sua amizade há anos. E muito
tenho me beneficiado com este convívio.
O professor Edivaldo é um belo escritor, grande intelectual e
dedicado educador, professor, Mestre e Ph.D em Educação pela
Pennsylvania State University. Ocupou já, por duas vezes, o
importante cargo de Secretário de Educação e Cultura do Estado
da Bahia. Trata-se de personalidade de exceção, culta,
superiormente lúcida e informada. Ingressando na Universidade
Federal da Bahia pela rota da Escola de Administração passou
pela Economia para finalmente fixar-se no Direito. É um polimata,
um sobrevivente intelectual do tipo de saber que concretizou os
homens da Renascença. Jamais fugindo de desafios aceitou o mais
recente: Transformar a nova Universidade de Salvador num centro
de excelência, o que vem logrando com inegável êxito.
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Não pretendo relatar aqui suas conquistas nem comentar sua
obra, já de profundo conhecimento de todos os presentes.
Desejo apenas ressaltar alguns pontos, justificando meu
encanto e meu orgulho de contar no rol dos meus amigos com
um homem com estas qualidades.
Sabemos que seu envolvimento com as Letras e a Literatura é
antigo. Já fazia parte de sua vida desde os tempos do Colégio
Antonio Vieira, onde fez seus estudos básicos. E seguiu com ele
daí pra frente.
Vício nobre do espírito, esta irresistível vocação humanística
sempre o marcou em todo o seu trajeto profissional. Tornou-se
um intelectual respeitado e reconhecido internacionalmente,
merecendo inúmeras honrarias. Entre elas a de Comendador e
Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, uma das
mais importantes de Portugal, além de Donato de Devozione da
Soberana e Militar Ordem Hospitalar de Malta, a mais antiga
ordem Religiosa Medieval, já que a do Santo Sepulcro, anterior,
não chegou a ser institucionalizada como ordem de serviços e
campanha no período das cruzadas.
A Edivaldo Boaventura, portanto, dirijo meus agradecimentos.
Faço também questão de sublinhar o importante apoio que meu
nome e minha candidatura receberam da querida colega e grande
amiga, Consuelo Pondé.
Estendo a Consuelo meu comovido agradecimento por este
voto de confiança que é também uma forma de confirmar o valor
da nossa antiga amizade. Não posso omitir os membros ilustres
desta Academia que tão generosamente aceitaram meu nome
como membro correspondente desta notável instituição e ainda
saudar com emoção e profundo respeito o atual Presidente desta
venerável Academia, Aramis Ribeiro Costa.
**********
A Bahia sempre foi para mim uma região fascinante por sua
história, sua gente, sua vocação intelectual, berço de ilustres nomes
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de nossas letras e de nossa vida política. Terra de Castro Alves,
de Rui Barbosa, de Luis Vianna Filho.
Não é minha intenção criar em torno desta bela terra nenhuma
imagem irreal de luz e de sonho. A Bahia dispensa e não precisa
de nada disto. Ela já e bela e já é sonho por sua história, sua
realidade e sua importância cultural. Soube forjar através dos
tempos o próprio mito. Pelo trabalho de sua gente. Pela grandeza
de seu esforço. Mito no sentido dado ao termo por Mircea Eliade,
o de ter como função mapear nosso imaginário e dar sentido à
nossa presença no mundo. Por isto ser baiano não é uma realidade
política neutra, nem uma verdade familiar de caráter aleatório. É
um fato carregado de sentido, uma bênção do destino, uma glória
pessoal que se consolida na memória coletiva pela herança
acumulada.
O baiano é o herdeiro da grande construção nacional que
começou em fins dos anos 500. Por suas mãos, desde os colonos
que por aqui ficaram com Tomé de Souza, construindo famílias,
engenhos, comércio, expandindo a fé, erguendo Salvador do nada
e consolidando a vida na região foi surgindo o Brasil. Com ele
nascem para a história nossos primeiros mazombos, unindo-se
no esforço construtivo com seus coetâneos de Piratininga e
Olinda. Souberam como abrir espaços, projetando uma epopeia
de força, valentia e audácia, enfrentando desafios desconhecidos.
Venceram as agruras de uma vida nos trópicos difíceis, lutaram
contra a hostilidade de tribos indígenas complicadas, incursões
francesas, mais adiante holandesas, tornando-se o ponto de ignição
que deu início a uma nova sociedade emergente.
Desde o primeiro momento da missa rezada a céu aberto nas
areias de suas praias, assistida por aborígines curiosos, até a vinda
dos primeiros jesuítas, firmou-se na Bahia a antevisão lúcida do
futuro cristão. Nas pequenas igrejas do interior, nas grandes e
belas Igrejas de Salvador, na devoção simples das massas
sertanejas, nas casas, nas ruas, nos ofícios dos mestres artesãos,
tudo vibrava em uníssono, numa intensidade espiritual vivida pela
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comunhão de culto, de fé e do respeito a Deus e à vida. Surgia na
História um tipo de existência que sempre tem marcado o
compasso cadenciado dos dias nesta Bahia austera, simples e
devota. Mantendo-se, desde estes primórdios, com identidade
própria e autêntica, soube os baianos conferir dignidade a suas
ações e esperança a suas devoções.
Em meu livro recente, todo ele elaborado sobre temas e
problemas das antigas terras da Bahia, chamado “Alto Sertão”,
destaco estes aspectos da fé, da união cultural das massas pobres
do interior. Sei que em meu trajeto percorri espaços similares
aos de Euclides. Coincidência inevitável já que visitamos quase
os mesmos sítios. Considero bem claro no meu livro que não
tive o propósito de emulá-lo. Meu objetivo foi outro, bem
diferente do seu. De comum só a realidade do Alto Sertão e sua
gente.
Euclides esperou e divulgou para o Brasil o grande equívoco
histórico cultural e o imperdoável crime humano de Canudos.
Ao fazê-lo falou sobre o clima, a vida e a cultura da região que
visitaria como repórter de um jornal. Evidentemente os dados
antropólogos constantes da obra foram reunidos a partir da
perspectiva teórica possível à sua época e dos poucos elementos
de pesquisa que dispunha no curto tempo em que permaneceu
no sertão. Tudo ocorreu há mais de cem anos, quando eram outros
os meios de que se dispunha e outro o nível em que se encontrava
a Arqueologia e a Antropologia científica.
Minha época já é bem outra. E o período dedicado à pesquisa,
no meu caso, foi mais generoso. Somente por isto agreguei
observações e conclusões sobre o sertão e o sertanejo que nem
sempre coincidem com as de Euclides. Mas se o fiz foi apenas
devido a um desejo inerente a todo cientista, atualizando dados
em função dos avanços da ciência.
Ao passar tanto tempo no sertão entre sertanejos passei pelos
mesmos espantos e curiosidades que estimularam Euclides ante
este tipo de homem e de vida.
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A verdade, meus amigos, é que o sertão exerce sobre todos
nós fascínio irresistível. Ele nos assombra. Sendo um sorvedouro
de forças, um emaranhado de ameaças e desafios, é também um
construtor de energias, um unificador de vontades, um inspirador
de audácias. Nele captamos o perene que se revela como
transitório. Vemos o fundo opaco das coisas, as máscaras sociais
que caem, uma a uma, ante a imposição da verdade. No sertão
ou se encontra a forma de dominar a contingência ou não se
sobrevive. Neste sentido entendo a frase famosa de Euclides: “o
sertanejo é antes de tudo um forte”. É forte porque em sua vida
enfrenta uma ordem onde tudo se une, na natureza e com a
natureza, para repeli-lo. O céu é um exagero indiferente de estrelas,
o calor uma agonia persistente, a caatinga nos perfura com seus
espinhos, a seca uma condenação perversa. Tudo sem medida.
Mas há uma ironia neste desmesurado. À distância ressecada é a
mesma que protege; o espinho que nos fere é o mesmo que nos
defende do inimigo. Nele cada dia é uma conquista, cada hora
uma vitória, cada ano que se supera uma afirmação do humano,
uma redescoberta, sempre renovada, da força obstinada do
sertanejo.
No cismar sem pausa dos grandes silêncios solitários o homem
do sertão revela seu pragmatismo numa mente desprovida de
sonhos vagos, formada por compacto conceito de honra. Honra
que o leva a dividir o pouco que lhe sobra com um amigo
necessitado e usar até o que não tem para vingar-se de um inimigo
jurado. Nos anos de convivência com sua gente simples, codifiquei
suas poesias, anotei seu folclore, suas danças, sua ética, seu tipo
de vida, sua música, divertimento, seus mitos, sua forma de tratar
a si mesmo e ao próximo. Percebi que nestas poucas alegrias
possíveis o sertanejo vive na fé que eterniza o transitório e o
transforma em objeto de amor.
Tudo isto porque entendo haver um subsolo metafísico a
sustentar a cultura. Ele nos sustenta por ser pleno de significados.
Como uma mandala especial, a cadeia dos sentimentos se une na
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grande roda da Vida. Não para explicá-la. Não se explica o
aleatório. Mas para senti-la e captá-la.
Quando os inimigos celtas chamavam o poeta de “bardo” e
os romanos o denominava “vate” é porque sentiam na poesia,
como forma sublime de arte, a capacidade de exprimir e sentir o
que o homem comum sente ter capacidade de exprimir.
Alarguemos o conceito, como faz a Arqueologia. Tentemos
ver nas artes em geral, não apenas na poesia, mas também na
pintura rupestre, no folclore, no cordel, na música, na dança, esta
mesma capacidade estética do “logos”. Melhor fazia os gregos
ao denominar de “panarkós” este esforço de dominar os
sentimentos que todos sentem, mas ninguém, a não ser o artista,
é capaz de exprimir.
Foi esta grande cadeia do Ser que procurei em minhas pesquisas
no alto sertão. Revelando sua história pela existência traçada na
teia da vida significativa, tratamos de buscá-la nas evidencias
possíveis. Daí nosso interesse pela arte rupestre, no artesanato
das coisas, no folclore revelado na dança de um existir que lá está
para ser captado e sentido.
Em “Alto Sertão” fui desdobrando o seu fio perdido, quase
uma nova Ariadne, para percorrer o labirinto das sombras que o
passado tem a sutil argúcia de omitir da curiosidade moderna.
Na Bahia situei muitos de nossos primeiros sítios arqueológicos.
“Arque”, “arcano”, o passado que se dilui na memória coletiva.
Tudo nos vai desaparecendo. As pistas se dissolvem. Só nos resta
à pesquisa arqueológica para sermos capazes de antever um tipo
de vida que já se foi para sempre no abismo de um tempo perdido
na pré-história... Dele se nutriu a existência do homem précabraliano. Tratei de reerguê-lo e resgatá-la. Tratei de polir a
memória enevoada pelos tempos de abandono.
Com este passado convivi. Mas ao fazê-lo, pude também
conviver com o presente sertanejo. E dele participar. Motivo de
meu espanto e de minha admiração. Seguindo meus objetivos
próprios, na busca dos nossos ancestrais remotos, não pude deixar
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de me admirar com o que via, sentia e captava da cultura sertaneja
que me acolhia em seus braços generosos.
Em minhas andanças reuni indícios reveladores da presença
de mamíferos do Pleistoceno e do Homo Eretus em nossas terras,
é certo, mas delas soube recolher o aprendizado da vida e da
cultura sertaneja. Entendi as razões da apoteose espiritual de
Euclides ante a vida do Sertão.
Deixo este ponto bem claro em meu livro.
Quanto à escolha que fiz, para trabalhar na Bahia resultou da
instituição da ciência e das evidências de que a Bahia é o Estado
brasileiro que tem oferecido maiores oportunidades reais para o
conhecimento do homem pré-histórico, habitantes destas terras.
Por isto, mudei-me para cá. Instalei-me no alto sertão, na
pequena cidade de Central, com suas inúmeras Tocas e de lá iniciei
uma busca sistemática dos indícios. Andei muito. Explorei a região
mais a oeste, pesquisei os contrafortes da Serra da Mangabeira,
cheguei ao Planalto onde ocorre o São Francisco, andei pela
Chapada Diamantina, pela Serra do Sincorá. Localizei pinturas
rupestres interessantíssimas no Toca do Pintado no município
de Cafarnaum e na Toca do Cosmos, no município de Xique
Xique.
O que levantei foi bastante. Recolhi artefatos, dados e
principalmente visões novas e interpretações cuidadosas da arte
rupestre encontrada em grutas, como na Toca de Búzios, Aranha,
Boqueirão, Chico Eduardo e da Esperança, comprovando o que
já havia percebido em Itaboraí, a presença milenar do homem
em nossa terra. O resultado de todo este esforço resultou neste
livro. Mas nele é possível ver que não me restringi a este ângulo
da pesquisa.
O resultado final foi bem mais que um trabalho arqueológico.
Foi uma antropologia da gente que vive neste Brasil profundo. E
foi também minha oportunidade de satisfazer o que sempre desejei
realizar, uma pesquisa sobre a terra, os mitos, a fala, a gente e os
costumes do sertão da Bahia. Aqui fui ao encontro ao velho Brasil
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de minhas recordações antigas, trabalhadas na infância nas noites
vagarosas, entre histórias de família.
Para isto a Bahia sempre me fascinou. Seu encanto consolidouse em meus primeiros estudos e ficou comigo como projeto
secreto que só recentemente, com este trabalho, pude realizar
como pretendia.
Na verdade, ali estava eu a desvendar o Brasil que se esconde
dele mesmo, seja o de muito antes da colonização, seja o de nossa
etnologia sertaneja.
**********
Mas acima indiquei brevemente que, no caso específico do
Brasil português, tudo começou pela Bahia. Digo agora por que,
já que muitos podem contestar o afirmado alegando a presença
de esforços colonizadores no Sul, na região São Vicente e
Piratininga bem como mais ao norte, no Pernambuco de Duarte
Coelho.
Sustento-me em alguns fatos.
Antes de Tomé de Souza aqui construir nossa primeira cidade
planejada e nela instalar a sede de um governo central, antes de
Garcia D’Ávila iniciar, pela pecuária, a penetração do interior,
antes dos engenhos do Recôncavo ganhar forma e substância,
antes das primeiras igrejas erguidas e dos jesuítas fundarem o
primeiro colégio, como base do ensino e da sustentação da fé,
não parece, nem histórica nem sociologicamente viável, sequer
falar de “Brasil”.
O que Tomé de Souza encontrou na chamada Terra dos
Papagaios ou Terra de Santa Cruz, foi uma região fracionada pelas
doações do Rei de Portugal através do sistema das capitanias.
Entre elas a de São Vicente e Pernambuco. Em obediência a esta
linha decisória abriu-se espaço para que as autoridades portuguesas
aqui deslocadas como responsáveis por estas então chamadas
“capitanias hereditárias” se constituíssem em centros autônomos.
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Com seus recursos próprios, seus grupos de colonos e emigrados,
acabaram formando enclaves isolados de grandes extensões de
terra, concentrando em suas mãos o poder de dirigir, legislar e
julgar. Eram, portanto, donos de regalias e poderes extraordinários,
sem dúvida, mas antes, não seria pertinente falar de um “país”
porque nada se integrava através de algum esforço comum. Mais
ainda. Nesta fase de nossa vida colonial sequer seria possível afirmar
que toda a imensa região não seria, afinal, dominada pela França,
tal era o comércio e o número de feitorias francesas em todo o
litoral, especialmente da região do Rio de Janeiro para o norte,
enquanto na parte sul, as imprecisões do Tratado de Tordesilhas
não favoreciam distinções seguras entre o que pertencia à Coroa
de Portugal e da Espanha. O chamado “bacharel da Cananéia”,
por exemplo, criou um núcleo colonizador e explorador de
escravos em terras que pertenciam legalmente à Espanha.
Não será nenhuma inverdade, portanto, indicar que na Bahia,
a partir de Tomé de Souza, constitui-se o pólo de ignição do
processo de formação de povo brasileiro.
Estando a tomar posse numa Academia de Letras não podemos
deixar de realçar o papel das letras, especialmente as que foram
surgindo desde então, especialmente na Bahia, colaborando para
a dinâmica formadora de uma identidade coletiva. Nas letras está
concentrando o verdadeiro “panarkós” o esforço de permitir à
compreensão humana penetrar nos mistérios da alma e entender
a cultura de um povo.
Descontada a literatura jesuíta, cujo objetivo era específico, as
primeiras manifestações de uma literatura brasileira podem ser
localizadas nesta terra gloriosa. Aqui se fundaram os primeiros
colégios e se reuniram as primeiras bibliotecas.
Quando desembarcou em Salvador o poeta português Antonio
Soares que seria o famoso Frei Antonio das Chagas, isto em
meados do II século, já encontrou na Bahia um grupo dedicado
às Letras especificamente à poesia, dele constatando Bernardo
Ravasco, um poeta nascido na Bahia.
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Não era só a poesia. Com Frei Vicente Salvador surge a
primeira história do Brasil no II século. Na mesma época Manoel
Botelho de Oliveira, inspirando-se na terra que passou a ser a
dele escreve o elogio à “Ilha da Maré”, texto em que ressoam os
primeiros vestígios de nativismo, usando palavras, tópicos, frutas,
plantas e descrições numa linguagem nova. Na mesma década
podemos encontrar por aqui aquele que é considerado por todos
como maior poeta colonial brasileiro, Gregório de Matos Guerra.
Pouco adiante é no movimento chamado das “Academias”
que a Literatura brasileira vai encontrar certa firmeza embora
sendo, neste início tateante, ainda basicamente subserviente às
letras portuguesas. Mas o fato não impede que nosso segundo
historiador, também baiano, Sebastião da Rocha Pita, pertencente
a uma delas, já use vocábulos indígenas e descrições de coisas e
fatos que nada têm de lusitanos.
Sabemos que este cultivo das letras, numa sociedade rude e
afastada de tudo foi uma proeza digna de admiração. Por isto
temos de louvar e sustentar na Bahia as duas Academias. A
primeira delas, na verdade, foi pioneira no Brasil, a Academia
Brasileira dos Esquecidos, fundada em 1724. A seguinte, anos
depois, já sob Pombal, a Academia Brasileira dos Renascidos,
em 1759.
Não eram “esquecidos” então, muito menos agora, quando a
história lhes faz justiça resgatando, como o fez a competente
crítica italiana Luciana Stegagno Picchio, considerando a
importância destas Academias para a consolidação da literatura
brasileira.
Havia um Brasil a surgir e este Brasil vinha surgindo na Bahia,
com seus tipos, suas letras, seus poemas e sua economia.
Não podemos afirmar que estas letras baianas deram corpo a
mais autêntica de toda a nossa forma literária, a regional, porque
o esforço tornou-se exemplar de um clima dominante em fins do
século XIX consolidando-se nos anos 30 do século seguinte. Mas
podemos indicar sem exagero que no esforço de seus intelectuais
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consolidam-se ecos de amor e lenda que a verdade de nossa
condição impõe. Da defesa da etnia humilhada com o inesquecível
Castro Alves, aos memoráveis discursos de campanha de Rui
Barbosa, fronteiriços ao socialismo e ao resgate dos humilhados,
até chegarmos ao personagem dominante da literatura social, Jorge
Amado, a elite intelectual da Bahia soube eternizar-se, imune ao
tempo e às variações de gosto, levando-nos a nos inclinar, em
reverencia a seu talento, na sintonia profunda que seus textos
revelam com a alma e o sentimento brasileiro.
É, portanto, com evidente orgulho e profundo respeito que
aceito pertencer desde agora, como membro correspondente da
Academia que representa um passado de autenticidade, realizações
e conquistas. No embalo de meu encanto por um mundo
construído com trabalho, fé e audácia, dirijo-me a todos os
senhores para esta síntese emocionada de minhas múltiplas
emoções nesta hora de alegria.
Muito obrigada a todos.
__________
Discurso proferido no salão nobre da Academia de Letras da Bahia, em
solenidade de posse como membro correspondente da ALB, em 18 de agosto
de 2011.
Maria Beltrão é Doutora em Antropologia (Arqueologia) e em Geologia pela
UFRJ; com vários trabalhos na área. Foi coordenadora, pelo Brasil, da Missão
Franco-Brasileira que pesquisou em Lagoa Santa, de 1970 até 1977. Já publicou
9 livros e cerca de 450 trabalhos no país e no exterior.
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Saudação a Maria Beltrão
Edivaldo M. Boaventura
É com muita satisfação que saúdo Maria Beltrão, quando
completo, neste mês de agosto, quarenta anos de Academia.
Incorporada ao nosso quadro societário, a Companhia enaltece
e reconhece o seu notável trabalho nos sertões euclidianos da
Bahia.
A Academia de Letras e o Instituto Geográfico e Histórico da
Bahia, tão bem dirigido pela acadêmica Consuelo Pondé de Sena,
conjuntamente, a distinguem pelos serviços prestados à nossa
comunidade.
Na aprovação unânime da minha proposta para membro
correspondente, em 16 de dezembro de 2010, o Sodalício
potencializou a sua dedicação à nossa cultura. Convenhamos que
trabalhar nos altos a sertões não é fácil.
Com os seus inúmeros títulos e trabalhos realizados, apresenta
um contributo inusitado ao conhecimento das sociedades préhistóricas que nos precederam, comprovado em 50 anos de
investigações científicas, publicações e exposições.
A Academia, na representação maior da cultura, a acolhe,
intelectual e afetivamente, na companhia fraterna dos nossos
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patronos, fundadores e sucessores. Todos eles de agora e para
sempre passam a confrades de Maria Beltrão.
A partir de hoje, 18 de agosto de 2011, Maria Beltrão é uma
das “nossas”, com toda a carga semântica e possessiva que tenha
esse pronome.
Vejamos um pouco de sua personalidade.
Maria Beltrão é uma mulher vinculada à terra, à mãe natura.
Nascida em uma fazenda, desde cedo começou a indagar sobre a
natureza e a cavar o chão. O caminho da terra foi indicado
pelo seu pai, João Duarte Coutinho, que muito cedo lhe colocou
nas mãos um livro sobre ciências naturais. Como gostava de
observar a terra, afirmou o pai, certamente gostaria das ciências.
Maria confessa: “desde este dia, após ver pela primeira vez uma
preguiça gigante, nunca mais deixei de me interessar pelo
assunto. Curioso é que, nas minhas escavações pela Bahia,
encontrei vários ossos de preguiça gigante ao longo da minha
vida profissional.”
A mulher da terra e a mulher das grandes metrópoles se
confundem com a mulher-mãe de Johann, Hélio, Cristiana e Maria.
Trabalha, viaja, vê o mundo, dá festas, cativa os amigos e se recolhe
em sua fazenda em Paraíba do Sul, no Estado do Rio de Janeiro.
Formada em Geografia e História, doutora em Antropologia
e Geologia, em estágio no Museu Nacional, sentiu que a área de
conhecimento que mais lhe interessava seria a da Arqueologia.
Neste sentido, realizou curso pioneiro, na Universidade Federal
do Paraná, quando obteve o primeiro lugar. Ingressou, então, na
Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisou a área árqueofísica, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Foi a primeira
professora titular de Arqueologia no Brasil e foi também a primeira
representante brasileira, no Conselho Permanente da União
Internacional de Ciências Pré-históricas e Proto-Históricas,
escolhida pela UNESCO.
Aproximando-nos da sua progressão, pessoal e profissional,
percebo uma clara inclinação para o interior. Talvez, seja a
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misteriosa chamada das pedras. Recordo o título do livro que
você me ofertou faz tempo: Pintura das rochas na Chapada
Diamantina e o universo mágico-religioso do homem pré-histórico no Brasil.
A arqueologia brasileira, no início de sua carreira, estava
voltada para o estudo da região litorânea, pouco a pouco, foi se
interiorizando. Apresentou, adrede, à Academia Brasileira de
Ciências uma justificativa sobre a necessidade de se interiorizar a
pesquisa.
Passemos aos projetos nos sertões euclidianos da Bahia.
A seguir, trabalhou no interior do Paraná, de São Paulo e do
Rio de Janeiro e há 30 nos vem se concentrado no coração da
Bahia. Nessa trajetória em busca das profundas interioridades,
encontra-se o seu projeto no Município de Central, que inclui
um subprojeto “O sertão vai virar museu”, daí resultou a
implantação de dois museus, o primeiro, o Museu Arqueológico
de Central, e o segundo, o Museu da Terra, limites da Bahia com
o Estado de Tocantins.
A criação do Museu de Central repercutiu em outros
municípios, especialmente, Barreiras e Angical. Recorde-se, que,
para a Bíblia, o coração significa, sobretudo, um sinal de
interiorização.
Agora vem a pergunta instigante: por que escolheu a Bahia?
Sei que há uma resposta científica. A doutora em Geologia
observou as camadas superpostas...
Prefiro pensar ao contrário: foi a Bahia dos sertões quem
chamou Maria Beltrão. Chamar é um verbo bem baiano. Caymmi
canta “Vamos chamar o mar”. Maria Beltrão ouviu o chamamento
dos sertões, pela voz de Teodoro Sampaio e de Euclides da Cunha.
A Bahia sertões tem a face montanhosa, verdejante, paraíso
das bromélias e das orquídeas. E aqueloutra Bahia mineral, pétrea,
sertaneja, euclidiana, a Bahia das Lavras, a Bahia de Canudos.
Ontem, a Bahia das românticas minas de prata, hoje, a Bahia das
minerações.
Enfim, no seu Mergulho interior, O prazer ecológico :
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Meu hedonismo
É o paraíso da mata fechada,
Da neblina de madrugada,
Do aconchego das noites mornas,
Ao sabor das horas;
Do céu limpo,
Com estrelas caindo.
Vamos da natureza à cultura, dos projetos aos museus.
O Projeto Central teve início em dezembro de 1982 e seu
nome é uma homenagem ao Município, cuja região abrange
100.000 km2. Engloba a Planície Calcária, as Serras Quartzíticas
da Chapada Diamantina e a região oeste do Estado da Bahia.
Entre as várias descobertas registradas nessa região, que datam
desde o pleistocênico até o século passado, duas se destacam pelo
seu caráter revolucionário: o sítio arqueológico mais antigo das
Américas, a Toca da Esperança, e as pinturas rupestres.
Em seguida, veio o Museu da Terra, instalado, em 2004, em
parceria com a prefeitura do Município Luiz Eduardo Magalhães.
Abriga exposição de fotos e reproduções de pinturas rupestres.
Nesses projetos, a arqueóloga forma equipes volantes que
auxiliam os artesãos a proceder ao resgate da memória local,
objetivando o saber tradicional. No ano que vem, o projeto Central
arredonda trinta anos.
É seu intento maior “espalhar museus por todo o sertão baiano.
A preservação e a gestão do patrimônio arqueológico são
fundamentais para se entender as escolhas que foram feitas pelas
sociedades que nos antecederam.” Pondera que os museus não
devem ser isolados dos contextos em que surgiram, mas
envolvidos pela política de conservação integrada e vinculados
às comunidades locais e aos seus habitantes.
E conclui: “Devem estar adequadamente ligados às atividades
locais, desenvolvidas pelos grupos humanos que habitam a área.
É imprescindível dividir com a sociedade a incumbência de
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proteger e defender o patrimônio histórico-cultural. Porque ele é
de todos nós.” Recorde-se a propósito a experiência da conselheira
consultiva do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN), dentre muitos outros cargos de conselho. É
titular do nosso Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da
Academia Portuguesa da História, onde sempre nos encontramos.
O poeta Paulo Cordel, na espontaneidade da expressão
popular, reconheceu muito antes desta Academia e do Instituto a
saga e a grandeza da nossa acadêmica.
O toxodonte é o marco
O pivô da descoberta
Da “pró” Maria Beltrão
Que chegou na hora certa.
Sai do Rio de Janeiro
Mostra pro mundo inteiro
O sertão de porta aberta
....................................
Fato é que a Doutora
Dona Maria Beltrão
Veio do Rio de Janeiro
Pra chamar nossa atenção
Sobre o tesouro perdido
Que estava escondido
No centro desse sertão.
Destaquemos alguns contributos.
Importantes achados foram por ela datados, como o primeiro
sítio arqueológico pertencente ao período pleistocênico sul
americano. Trata-se de um fato histórico da maior importância
para a arqueologia brasileira e para as ciências da terra.
Compôs a famosa missão científica na região da Lagoa Santa,
quando se envolveu na descoberta da mais antiga ossada humana,
no Brasil, datada de mais de 11 mil anos.
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Defende a teoria da convergência cultural entre os continentes,
pela qual teria existido intercâmbio de populações entre os
continentes. Assim, a sua equipe encontrou, no sítio arqueológico
de Gentio do Ouro, na Chapada Diamantina, pela primeira vez
nas Américas, desenhos do tigre-de-dente-de-sabre, animal que
viveu entre 1,5 milhão a 11 mil anos atrás.
Os seus estudos de pintura rupestre indicam que no Brasil o
homem conviveu com animais comuns à África e à América do
Norte, a simbologia encontrada é semelhante nos três continentes.
O conhecimento dos seus trabalhos é responsável pela
participação em inúmeras associações científicas e congressos
internacionais.
Como professor de Metodologia da Pesquisa, fui aluno da
grande Helen Snyder, em Penn State, aprecio o seu ensaio sobre
os métodos em arqueologia. Afirma: “Arqueologia é antropologia
ou não é nada”. Desenvolveu-se como ciência do comportamento
humano no passado. Utiliza-se da evidência física e material, como
fonte de informação sobre o comportamento humano. Aprazme ver a arqueologia no grupo das behavioral sciences.
No mundo das letras, são muitas as suas contribuições em
livros e artigos. Foi presidente do Pen Clube do Brasil.
Chamo a atenção para o seu livro O alto sertão: anotações. Para
Cândido Mendes: “Não hesita a autora em trazer o discurso da
arqueologia ao engaste histórico e ao exercício interdisciplinar
das ciências sociais, a que não poupa o da própria semântica do
linguajar”.
Traça neste belo tomo um panorama integrado da sertânia
euclidiana. Como um observatório elevado do alto da Chapada
Diamantina, distingue para melhor unir a sequência bem
euclidiana: cenários da natureza, saga humana e mergulho interior:
Falar dos veios, rochas,
Minerais (mineralizar meus sonhos).
Dissolver-me nos tempos.
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Consolidar-me em basalto e
Derreter-me como a lava vulcânica.
Integra-se na cultura local e espanta-se com o fenômeno da
grande lua: “a lua e as estrelas parecem ter baixado muito, como
querendo alcançar a terra.” Fenômeno que acontece quando “não
há nenhum grau de umidade no ar, o que faz com que tenhamos
uma visão tão inusitada e desconhecida em outras regiões.”
Na trajetória traçada, a monotonia sertaneja é quebrada quando
relata as aventuras de Lampião, do pistoleiro Gregário, da Coluna
Prestes e, por último, de Lamarca.
Para concluir, um convite.
Finalmente, que me seja permitido formular um convite à nossa
acadêmica Maria Beltrão, em conformidade com a herança de
Euclides da Cunha.
O sertão será sempre uma oportunidade de grandes encontros.
A paisagem lunar, desolada e solitária, de céu “estrelejado”,
terra ondulada e por vezes cinza, como a favela seca, evoca-me
sempre os tempos bíblicos com bodes e carneiros.
A capital mística e emblemática dos sertões é Canudos. Lugar
imanente! As terras das lutas fratricidas foram resolvidas por mim
em Parque – o Parque Estadual de Canudos. Como fiz antes com
o berço do Poeta, em Cabaceiras do Paraguaçu. Como gostaria
de um dia conduzir Maria Beltrão em peregrinação à terceira
Canudos. Repito o que aprendi com José Calasans.
A primeira Canudos desapareceu pelo fogo.
A segunda Canudos foi submergida pelas águas, mas nas noites
tépidas de verão, é possível ouvir ainda o sino da Igreja Velha,
quando as águas baixam.
A terceira Canudos surgiu como uma primavera esperançosa
das margens do açude tranquilo de Cocorobó.
Os sertões semiáridos da Bahia são um desafio ao
conhecimento. Maria Beltrão contribuiu com a arqueologia, em
um contexto trans e multidisciplinar, e construiu museus.
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A Bahia é agradecida a esta grande mulher, charmosa, culta e
requintada, por isso a Academia a trouxe para o aconchego da
nossa companhia.
A casa de Góes Calmon é o seu pouso soteropolitano, nas
suas voltas e voltas pelos sertões euclidianos da Bahia.
Antes que retorne ao seu Rio de Janeiro, leve estas rosas de
agosto. Não são láureos, são as rosas da infância.
Seja bem feliz.
Seja bem-vinda.
Gratos a todos pela presença e mais ainda pela atenção.
Salvador, 18 de agosto de 2011.
REFERÊNCIAS
BELTRÃO, Maria. Rock art. Rock paintings of the Chapada
Diamantina and the magical-religious universe of prehistoric man in Brazil.
New York : World Trade Center, 1996.
______. Métodos em Arqueologia. In: HESENBERG, Leônidas;
SILVA, Mariluze Ferreira de A. ( Orgs.). Métodos. São Paulo: EPU,
2005. p.91-100.
______. Et al. Catálogo de moedas: acervo arqueológico do sítio histórico
Fazenda Macacu. Rio de janeiro: Cesar Faria, 2010.
______. O Alto Sertão. Anotações. Rio de Janeiro: Casa da Palavra,
2010.
_____. Curriculum vitae. Rio de Janeiro, 2010.
[email protected]
[email protected]
________
Discurso de saudação à acadêmica Maria Beltrão, proferido na solenidade de
posse, realizada no salão nobre da ALB, em 18 de agosto de 2011.
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Dr. Eliezer Audíface,
membro benemérito da
Academia de Letras da Bahia
João Eurico Matta
Faz três meses, numa das sessões ordinárias de agosto deste
1992, dezoito Acadêmicos, desta ilustre Companhia fundada em
1917, propusemos a indicação do nome, de veneranda memória,
do médico escritor, professor e devotado pediatra por 57 anos
que foi o baiano ELIEZER AUDÍFACE DE CARVALHAL
FREIRE, para que lhe fosse concedido o raro título de Membro
Benemérito da Academia de Letras da Bahia. Cumpríamos assim o
disposto no artigo 16 e seus dois parágrafos do nosso Estatuto
vigente, ultrapassando até, para aquele propósito, o quorum de
dois terços da maioria absoluta dos 40 membros efetivos desta
casa de memória, pesquisa, produção e difusão da cultura baiana.
Desse modo reconheceríamos e resgataríamos, em
homenagem póstuma, sua admiração antiga, expressa em seis
décadas de comparecimento fiel a quase todos os eventos culturais
da Academia, particularmente às sessões de posse, um convívio
afetuoso com Acadêmicos que eram seus antigos professores,
colegas de profissão médica e amigos de outro ofício, desde os
anos 1930 até os anos 1980. Pode conferir-se sua assinatura em
nossos livros de frequência ou registro de presença em todas as
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sedes que nos acolheram, fosse a primeira delas, na ladeira da
Praça, ou, já em início dos anos 1940, em ampla sala da Biblioteca
Pública do Estado, bonito prédio construído na Praça Thomé de
Souza pelo governador Antônio Moniz de Aragão, nosso confrade
fundador, mas cedida aos eventos da Academia pelo na ocasião
Diretor da Biblioteca, Jorge Calmon Moniz de Bittencourt; fosse
na sede da Avenida Sete, 283, ao lado do Palácio da Aclamação,
onde esteve a Academia de 1945 a 1949, até que a doação (de
1941), feita pelo Interventor Landulfo Alves de Almeida, do
prédio ocupado pelo Tribunal de Justiça do Estado no Terreiro
de Jesus se tornasse efetiva, para mudança física da Academia,
em virtude da inauguração do Forum Ruy Barbosa pelo quarto
governador que se fez nosso confrade Acadêmico, Octávio
Mangabeira (antes deste o foram Severino Vieira e José Joaquim
Seabra) ; seja, enfim, nesta quinta sede, o palacete Goes Calmon,
desde 1983 doada por outro governador Acadêmico, Antônio
Carlos Peixoto de Magalhães. Lembro que a casa/sede da Avenida
Sete foi cedida pelo Interventor (por quatro meses) Bulcão Viana,
mas o grande empenho para a ocupação desse prédio coube a
outro amigo próximo de Eliezer Audíface, o saudoso Acadêmico
Heitor Praguer Froes, médico escritor, professor e Secretário de
Estado da Educação e Saúde, de novembro de 1945 a fevereiro
de 1946. Saberemos, adiante, que esta Secretaria da Educação e
Saúde teve grande significação para a carreira do Audíface médico
pediatra, desde 1935, ano em que nela foi criado, pelo governador
eleito pela Constituinte estadual, Juracy Magalhães, um
Departamento Estadual da Criança, o primeiro no país com tal
amplitude. Mas neste momento creio oportuno recordar que
foram também professores, colegas de ofício e amigos aplaudidos
de Eliezer Audíface, desde os de saudosa memória, os Acadêmicos
de Letras Luiz Pinto de Carvalho, João Garcez Froes, Pirajá da
Silva, Francisco Peixoto de Magalhães Neto, Edgard Rego Santos,
César Augusto de Araújo, Antônio do Prado Valadares, Estácio
de Lima, Ruy Santos, Otávio Torres, Adriano Pondé, Hélio Simões,
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até Luiz Fernando Seixas de Macedo Costa, Jayme de Sá Menezes,
José Silveira, Thales de Azevedo, Itazil Benício dos Santos, o exgovernador Roberto Figueira Santos, e para não citar todos.
Tal reconhecimento, registro e resgate se inspiraram no fato
singelo, com gesto generoso, de que, enfermo, no último ano de
sua vida, já viúvo, de longa data, de sua esposa amada, D. Juvessura
de Oliveira Freire, o Dr. Eliezer Audíface expressou, a seu único
filho e herdeiro, – o músico e compositor, profissional de televisão
(que morou nos Estados Unidos, em estudos, e no Rio de Janeiro
e São Paulo, a trabalho), e poeta publicado, – Luiz Henrique
Audíface de Oliveira Freire, o desejo de que, após seu passamento,
fosse doada à Academia de Letras da Bahia uma seleta de 50
(cinquenta) figuras de biscuit, brancas e policromadas, de tamanhos variados,
de sua coleção de peças de arte de “porcelana cozida no forno e não
vidrada”, reunidas paciente e persistentemente pelo aficionado casal
por décadas de meticulosa busca, através de encomendas e visitas
a lojas e antiquários, em numerosas viagens pelo Brasil e pelo
Exterior. Sobre seu pai, o poeta Luiz Henrique Audíface, no seu
livro de versos de estilo picaresco, de 64 páginas, intitulado Laivos,
– prefaciado por seu companheiro de geração e juvenil vizinho
de rua-e-bairro Boulevard América, o professor Doutor em Letras
Ildásio Tavares, – escreve versos de louvor, identificando o
gentleman que sempre foi, em sua vida, e Das artes, conhecedor,
Gente extremamente fina,
Das ciências, luminar. (...)
Após a morte de Dr. Eliezer, acanhado quanto a aproximar-se
da Academia de Letras da Bahia para revelar o desejo do pai, de
doação das peças de biscuit, Luiz Henrique aconselhou-se com
outro companheiro de geração e vizinho da casa de seu pai no n°
19 da enladeirada rua Boulevard América: o professor de
Odontologia da UFBA e intelectual escritor, Dr. Dílson de Sá
Milton da Silveira, aliás meu cunhado, – há 57 anos morador da
casa pioneira no lugar, construída em 1935 por seu pai, o saudoso
Engenheiro, político partamentar e ex-prefeito de Salvador,
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Aristides Milton da Silveira. Nesta ladeira Dr. Aristides Milton e
seu logo depois vizinho, o notável pediatra e mestre de medicina
Hosannah de Oliveira, – há poucos dias celebrado, nos jornais,
como pioneiro, há 60 anos, dos estudos de Freud e da Psicanálise
na Bahia, – foram dois amigos que assistiram à mudança de Eliezer
Audíface para o n° 19 da rua e que por décadas se acostumaram
a testemunhar a fidelidade do pediatra aos seus amigos
Acadêmicos e aos eventos culturais efetuados na Academia de
Letras da Bahia. Ciente disso, o Professor Dilson da Silveira, então,
– depois de contacto telefônico comigo e com o Assessor, poeta
Carlos Cunha, da Presidência da Academia,– incentivou e
encorajou, enfaticamente, Luiz Henrique Audíface a visitar o
Acadêmico Presidente Cláudio Veiga para formalizar a doação
que fora desejo expresso pelo pai.
Feita a visita e comunicada a doação, os Acadêmicos Presidente
Cláudio Veiga e ex-Presidentes José Calasans e Jorge Calmon e
muitos dos confrades nos encantamos com a oferenda, que
praticamente todos consideramos “ser viço de especial
importância” – nos termos do artigo 16 do Estatuto vigente –
em benefício do patrimônio de arte e das atividades de cultura
desta Companhia. De imediato o confrade Jorge Calmon onerouse com várias providências de design e projetamento de estantes e
vitrinas, assessorado pelo nosso confrade Acadêmico e arquiteto
Paulo Ormindo Azevedo, e de fotografia e catalogação das peças
doadas, como das soluções de decoração do salão de visitas, com
o assessoramento da museóloga e ex-conselheira de Cultura do
Estado, Silvia Athayde. Os confrades reuniram-se, em seguida,
para aprovar a referida proposição do título de Membro Benemérito
firmada, em 6 de agosto de 1992, por dezoito Acadêmicos, e
deliberar sobre a sessão especial de homenagem póstuma prevista
para a tarde de hoje, 25 de novembro, constituída de inauguração
e exposição de placa comemorativa e retrato do doador, Dr.
Eliezer Audíface, de autoria do saudoso mestre-pintor Alberto
Valença, de entrega post mortem do pergaminho-título de Membro
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Benemérito da Academia de Letras da Bahia, Eliezer Audíface de Carvalhal
Freire, ao seu filho único, presente, Luiz Henrique Audíface de
Oliveira Freire, seguidas de palestra pronunciada pela ilustre
jornalista Theresinha Cardoso, colunista de A TARDE, sobre “a
pérola”– no dizer da palestrante – que são as cinquenta peças de
biscuit doadas e em exposição, e deste discurso de apologia do
doador Benemérito, que peço vênia para perorar com referências
ao expressivo curriculum vitae do nosso homenageado póstumo,
começando por breves recordações pessoais que, de parte minha,
são investimento afetivo maior, para engrandecer a memória do
médico pediatra escritor Eliezer Audíface.
Curiosamente, conheci-o no verão de 1938, ele, médico
diplomado em 1934, com quatro anos de exercício da ciência e
arte da pediatria, e eu, com dois anos e seis meses de idade. Era
janeiro no “Boulevard” ilhéu de Itaparica, à vista do forte de São
Lourenço, estávamos em casa de veraneio gentilmente cedida pelo
historiador da ilha, o notável Ubaldo Osório Pimentel, amigo e
constituinte advocatício de meu pai, Edgard Matta. A jovem filha,
Maria Felipa Osório Pimentel, – a Mariá de tanta ternura com o
parrudo caçula de Eunice Tavares Freire Matta ( estão ambas aí,
e há fotos, para confirmar a veracidade desta recordação),
bacharelanda em Direito daquele ano ( com a nossa confreira
Hildegardes Viana) e mãe, poucos anos mais tarde, de meu amigo,
colega e ex-aluno ( pós-graduado, em 1962) João Ubaldo Ribeiro,
– recomendou consulta pediátrica urgente, via lancha fretada
em demanda a Salvador, para o garotinho peralta acometido de
infecção estival por comilança de manga verde e desidratação
resultante da soalheira itaparicana. O médico pediatra em Salvador
foi, nos seus 27 anos, o Dr. Eliezer Audíface. Por 36 anos, até
novembro de 1974 quando faleceu, ouvi meu pai Edgard, todas
as vezes que se lembrava aquele episódio de 1938, exclamar, com
certo exagero de pai extremoso, que Eliezer salvou a vida desse menino!.
Ainda estudante na centenária Faculdade do Terreiro de Jesus,
no início dos anos 1930, Eliezer foi interno da Liga Baiana contra
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a Mortalidade Infantil e, doutorando em maio de 1934, era
nomeado interno da Clínica Pediátrica da Faculdade de Medicina,
cátedra do Professor Martagão Gesteira. Trinta e três anos mais
tarde será eleito, em 1967, Presidente da Liga Álvaro Bahia contra
a Mortalidade Infantil, reeleito no período 1971 a 73 e até 1985.
No Departamento Estadual da Criança, criado em 1935 pelo
governador Juracy Magalhães, logo em 1936 se engajou o jovem
médico, contratado para o Serviço Suburbano daquele grande
Departamento, do qual já será médico efetivo em 1937. A ditadura
Vargas extingue o Departamento estadual da Criança, como tal,
em 1938: ficará um Serviço Especial da Criança e uma Inspetoria
de Higiene Pré-Natal e Infantil. Mas logo em fevereiro de 1940 o
Decreto-Lei n° 2.024, de Getúlio Vargas, cria no Ministério da
Educação e Saúde – na verdade inspirado no paradigma baiano
de 1935 – um Departamento Nacional da Criança. A Exposição
de Motivos do Ministro Gustavo Capanema não escondia que os
Estados e Municípios estavam animados do maior interesse pela solução
da problemática da criança e do adolescente.
Os anos 1940 marcam assim a onda dos entusiastas pela
chamada Puericultura. Como tantos pediatras baianos, maduros e
jovens, já ilustres, Eliezer continuou engajado. Na época um
santamarense admirável, entre seus 25 e 35 anos, Alberto
Guerreiro Ramos, não médico, mas sociólogo como tal
identificado em 1941 pelo Secretário da Educação e Saúde baiano,
Isaias Alves de Almeida, ao fundar a Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras, se entregou à causa no Rio, onde se graduou
em Sociologia e Direito: atuou no Departamento Nacional da
Criança, publicando no Rio e em 1944, Aspectos Sociológicos da
Puericultura, e texto equivalente no n° 1 da revista baiana Pediatria
e Puericultura, set. de 1945, de cuja equipe redacional participará
Eliezer Audíface. O Departamento Nacional da Criança publicará
em 1949, de Guerreiro Ramos, o Problemas Econômicos e Sociais do
Brasil. Na Bahia, o Secretário da Educação e Saúde Anísio Teixeira
(que fora Diretor de Instrução Pública nos anos 1920, no governo
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Goes Calmon) consegue do Governador Octávio Mangabeira a
sanção da Lei n° 264, de 11 de abril de 1950, que cria o
Departamento Estadual da Criança (uma recriação daquele de
1935). Pesquisas de Guerreiro Ramos sobre “mortalidade
infantil”, publicadas em São Paulo em 1951 e em 1955, pela
Universidade Nacional do México, no ensaio Sociologia de La
Mortalidad Infantil, são textos do amigo que Eliezer Audíface
mencionará como puericultor e professor, inclusive como titular
de Puericultura na Escola de Serviço Social da UCSAL, desde a
fundação desta até a extinção, pelo Ministério da Educação,
daquela disciplina (ou “cadeira”) denominada de Puericultura.
Evoco esses temas porque pelos caminhos multi- ou transdisciplinares da chamada Puericultura e das vertentes de medicina
preventiva e curativa, sanitária e pediátrica, Eliezer Audíface fará
carreira segura, com trânsito nacional e internacional. Será fellow
da American Academy of Pediatrics, estará entre os fundadores da
Sociedade de Escritores Médicos, ingressará na Sociedade de
História da Medicina e na Academia de Medicina da Bahia, como
estará, em 1982, na diretoria da Associação de Pediatria de Língua
Portuguesa, entidade internacional. Será médico efetivo da Legião
Brasileira de Assistência e participará de numerosos conclaves da
especialidade a que se devotou, no Brasil e em vários países das
Américas e da Europa.
Até o desaparecimento do Departamento Estadual da Criança,
ou sua transformação em Divisão Materno-Infantil de um grande
Departamento de Assistência, na Secretaria de Estado da Saúde
reestruturada pela Reforma Administrativa implementada pelo
governo Lomanto Júnior em 1966, Eliezer Audíface foi, de 1951
a 1966, Chefe do Serviço de Proteção Social da Criança. A partir
daquele ano será, em vários mandatos, por dezoito anos até 1984,
Presidente da Sociedade de Pediatria da Bahia. Ocupará outros
cargos, terá outras missões, mas aqui se deve registrar o
encantamento com que escolhia, com sua esposa ou
solitariamente, para sua coleção de biscuits, figuras infantis, – bebês,
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crianças ou adolescentes – especialmente as peças de cor clara
ou branca, de inspiração na estatuária grega ou romana, por
exemplo, de Eros (ou Cupido) e Psique, infantes ou adolescentes,
ou a lembrar a delicadeza da pintura francesa de Bouguereau, na
mesma temática.
Estava eu ausente de Salvador, em 1962, porque ainda concluía
meus estudos pós-graduados em Administração da Mudança no
Setor Público, na Universidade do Sul da Califórnia, em Los
Angeles, a mesma que acolheria Alberto Guerreiro Ramos, de
1966 a 1981, como seu docente titular ou Full Professor, mas Dr.
Eliezer Audíface esteve presente no casamento de minha irmã
caçula Maria das Vitórias com o Prof. Dr. Dílson da Silveira, em
casa de meu pai e a convite deste e do Dr. Aristides Milton. Mas
nós nos encontraríamos, e nos defrontaríamos, na refrega do
programa de Reforma Administrativa, eu como Secretário de
Estado e o Diretor do Departamento Estadual da Criança de
então, meu bom amigo, o pediatra Arlindo Fraga Leite, ladeado
por três companheiros seus, colunas-mestras do Departamento:
precisamente o Dr. Eliezer Audíface; Dr. José Peroba; e Dr.
Arnaldo Sant’Anna.
Essa batalha empolgante se deu nos jornais, especialmente o
Diário de Notícias, um dos diários associados da poderosa rede de
Assis Chateaubriand no qual Fraga Leite assinava uma prestigiosa
“Coluna Médica” e o Suplemento D. N. Infanto-Juvenil. Foram meses
de combate e entrevistas pro- e contra- a dita “extinção” do
Departamento Estadual da Criança. O quarteto de devotados
puericultores e pediatras lutou com pertinácia e bravura, apelou
para os Secretários de Estado – de saudosa memória – Adelaido
Ribeiro e Eduardo Bizarria Mamede; recorreu ao presidente da
ARENA, um dos dois partidos políticos de então, Deputado
Federal Antônio Carlos Magalhães; pressionou outros políticos
eminentes e parlamentares da Assembleia Legislativa baiana que
definiriam a questão; e pressionou o governador Lomanto Júnior.
Os jornais A Tarde e Jornal da Bahia também, daqueles meses,
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dezembro de 1965 a março de 1966, documentam a refrega.
Recorreu-se, em defesa do Departamento da Criança, à crônica
“Rosa dos Ventos”, de Odorico Tavares; à experiência inglesa; e
à memória de pediatras ilustres, Álvaro Bahia, Martagão Gesteira,
Franca Rocha. Em seus artigos de combate Fraga Leite citava
com frequência Eliezer e colegas. Advertia que “Só reformando
a Constituição!” Ironizava os técnicos do programa de Reforma
e tentava envolver o Secretário Eurico Matta. Defendia 700
funcionários, argumentando com vigor e veemência, por exemplo:
“Não há castas impenetráveis dos que vivem em função da
puericultura e da pediatria, mas tão somente o propósito de fazer
o melhor pela infância”.
No Diário de Notícias de 24 de fevereiro de 1966, Fraga Leite
registra:
“Enquanto aguardavam no aeroporto o avião que trazia
ilustres ministros, conversavam o Secretário Mamede, da Saúde,
e diretores do Departamento da Criança, quando se aproximou
o Governador Lomanto Júnior. A este disse o Secretário:
‘Estou aqui com a criança, meu Governador!’ Ao que o Sr.
Lomanto respondeu: ‘Vejo que a criança está forte!’ O colega
Eliezer Audíface segredou ao José Peroba: ‘– Isso é bom sinal!
Será que o governador quer caracterizar a sua decisão de não
consentir na extinção do Departamento da Criança?’ O
Arnaldo Sant’Anna concordou com um sorriso (...).
Determinada figura da política nacional revelou ao Diretor
do Departamento, quando da chegada dos ministros, que o
Secretário Eurico Matta lhe afirmara, minutos antes: – A
extinção ou manutenção do Departamento da Criança
dependerá, agora, do Secretário da Saúde. Se assim for, creio
que o Departamento permanecerá.”
Na sua coluna do dia 28 de fevereiro Fraga Leite apela para o
drama com o texto e o título: “Quinhentos anjos (morrem) por dia!”
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Na Câmara de Deputados, todavia, a Comissão da Reforma, de
que faziam parte doze ilustres parlamentares – inclusive o nosso
Acadêmico Wilson Lins, – já se tinha definido, junto com o
Secretário Mamede: era contra a permanência do Departamento
como tal. A coluna “Política e Políticos” de A Tarde de 19 de março
de 1966 anuncia essa diretriz, por declarações do Deputado Relator
do capítulo “Secretaria da Saúde”, no corpo do projeto de Lei:
Carlos Linhares, um médico. Nesses mesmos dias a Sociedade de
Pediatria da Bahia reelegeu sua diretoria: para Presidente, Eliezer
Audíface. Segundo noticiou a coluna do batalhador Fraga Leite,
no D.N. de 13/14 de março: “Na oportunidade foi aprovada, por
unanimidade, uma moção de protesto, contrária à já decidida
extinção do Departamento Estadual da Criança!”
Quatro anos mais tarde, no Jornal da Bahia de 19 e 20 de abril
de 1970, na coluna sem assinatura “Medicina, Gentes e Fatos”,
meu amigo, companheiro rotário, Arlindo Fraga Leite, ainda se
mantinha firme e convicto, escrevendo: “O prezado João Eurico
Matta, ex-secretário para Assuntos da Reforma Administrativa,
não poderia acreditar que a extinção do Departamento Estadual
da Criança acarretasse tantas omissões. Ele foi avisado.”
Hoje, – Senhoras e Senhores; eminentes pediatras amigos do
Dr. Eliezer Audíface, vejo ali o Dr. José Peroba; Senhor Luiz
Audíface; Senhores Confrades desta Academia, – decorridos 22
anos dessa última data referida, nenhum de nós incorre em
omissão com respeito a um notável médico pesquisador e escritor,
exemplo de pediatra e puericultor, membro de tantas irmandades
religiosas e cristãs da Bahia, cidadão brasileiro paradigmático,
gentleman das ciências, artes e letras que foi nosso confrade, Membro
Benemérito Eliezer Audíface de Carvalhal Freire, de memória grata
e sempiterna para todos nós !
Discurso proferido na sessão especial para concessão do título de Membro
Benemérito, post mortem, ao Dr. Eliezer Audíface, em 25 de novembro de 1992.
João Eurico Matta é administrador, professor emérito de Administração da
UFBA, crítico e ensaísta. Desde 1989 ocupa a Cadeira nº 16 da ALB.
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Homenagem a Samuel Celestino
(Saudação ao final de seu mandato como Presidente
da Associação Baiana de Imprensa)
Geraldo Machado
“O jornalista é o historiador do presente”
Albert Camus
Agradeço, honrado, a todos aqueles que me confiaram a tarefa
de saudar Samuel Celestino. Prazerosa foi a tarefa de recolher
lembranças e depoimentos entre amigos e familiares, recortá-las,
difícil selecioná-las e tecê-las em um relato coerente, urdido de
modo sólido e tão lúdico quanto nossa amizade, uma homenagem
cuja inteligência emocional o merecesse. Imaginem a abundância,
o exagero de histórias e passagens saborosíssimas? Quais delas
escolher de modo a bem dizer de nosso afeto e admiração por
uma figura tão especial? Imensas alegrias ao procurar imagens para
descrever um amigo fraterno, uma pessoa a quem todos nós
admiramos muito e a quem queremos tanto bem; que nos ensina a
querer bem. Um grande esforço para representá-los a contento.
Organizada pelo círculo mais íntimo, os frequentadores dos
almoços das quintas-feiras na Cantina, a noite de hoje sacramenta
nosso reconhecimento e festeja essa figura ímpar, polêmica, afiada,
inteligente e amiga. Queremos proclamar nossa grande admiração
por sua coerência e rigor em sua trajetória profissional, ao tempo
em que celebramos também o profundo afeto e a admiração que
temos pelo amigo cuja convivência é cavalheiresca, generosa e
gentil. Que nos permite, sem falsos pudores, participar de sua
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intimidade e de seus ensaios antes de levantar voos: dúvidas,
anseios, bem divide conosco de suas alegrias e realizações.
Samuel, um homem fiel a si mesmo e aos seus princípios na
vida pública, também faz prevalecer em sua vida pessoal a lealdade
à sua família e aos seus grandes amigos. A esses últimos ele vem
transformando, ao longo do tempo, como uma extensão, uma
côterie, uma família lato sensu.
Afigurou-se como quase impossível, tarefa ingrata, fazer uma
triagem dos convidados, diante da enormidade espantosa da primeira
lista que se configurou. Desconfio, estou quase certo, devam ter
acontecido omissões, muitas involuntárias, outras tantas apenas para
não fugir ao propósito central desse encontro: reunir os amigos mais
chegados, aqueles postos à prova pelas ondulações do tempo.
Nenhum critério protocolar, político ou de representatividade social
foi observado; tão somente o grau de proximidade, as afinidades
eletivas e a convivência estreita e íntima, o círculo mais próximo.
Esse viés só foi possível porque muito embora Samuca possua
uma invejável coleção de amigos fiéis e devotados, nunca fez
muita questão ou se esforçado minimamente por expandir networks
que lhe fossem úteis. Jamais fez do território da Amizade um
campo novidadeiro de acúmulos, inconsequências ou
conveniências. Compraz-se e orgulha-se em conservar amigos,
os mais antigos, cujo afeto recíproco foi se consolidando ao longo
do tempo, necessidade vital de sua alma cultivada e alimentada
com muita arte e engenho. Mesmo aqueles que já partiram, ainda
assim permanecem por ele cultivados na sua condição de
“encantados”. Sempre lembrados, a eles continuamente se refere
com vagar, evocando suas histórias e saboreando seus “causos”,
frases, brincadeiras, mantendo-os vivos em sua lembrança fiel.
Os tantos outros amigos que porventura não tenham
participado deste jantar, mas que desejem festejar nosso querido
Samuel, arregimentarão com facilidade um número semelhante
de convidados, pois nosso homenageado é merecedor de
inumeráveis comemorações e festejos.
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Já se disse que para conservar um amigo, três coisas são
indispensáveis: honrá-lo quando esteja presente; valorizá-lo
quando ausente e dar-lhe pronta assistência quando dela estiver
necessitado. Samuel se desincumbe com maestria também nos
roteiros das artes da amizade. De sobejo.
Quando observamos de perto a diversidade do leque de suas
amizades, podemos perceber que é pelo caminho do respeito e
encanto pelas diferenças que ele adianta seus afetos. A tolerância
e o respeito acolhem e pastoreiam os defeitos dos amigos. Parte da
premissa de que uma verdadeira amizade é uma construção de
fraternidade incondicional. Assegura a cuidadosa manutenção do
vínculo, renovado, sempre, por novas camadas de afeto. Seus amigos
correspondem na mesma medida, respeitam seus defeitos,
características e idiossincrasias. Que não são poucas, diga-se. Segundo
Clarice Lispector, “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
Samuca contagia a todos com sua dedicação aos rituais do
encontro. Preza e celebra a companhia, o compartilhamento da
boa mesa, o ofertório dos bons vinhos. Comunga conosco de
sua inteligência, o espírito sempre ágil e do coração caloroso.
Louve-se sua capacidade rara de escuta atenta e serena, quase
como a de um confessor, disponível para acompanhar
atentamente as aventuras e desventuras do seu interlocutor e
ajudar no que lhe for possível, sem julgamentos.
Nosso curso se estende diante de nós como um mistério a ser
experimentado, indecifrável. Navegado imprecisamente, orientado
por cartas mutantes; às quais consultamos atordoados e
emaravilhados. Eis os tantos mistérios da Vida. “Tudo, aliás, é a
ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles.
Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos
vendo.”( Guimarães Rosa ).
Não pretenderia, meus amigos, nesta breve fala, definir um
homem tão multifacetado quanto Samuel Celestino. Ele mesmo
estará em busca de se examinar, decifrar e fruir seus próprios
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enigmas. Em construção, acrescentar-se de cada dia. O bom da
vida é que não estamos prontos, bem nos lembrou o mesmo Rosa.
Preciso dizer do amigo, entretanto. Recupero meus sonhos juvenis
de cineasta e me proponho a fazer algumas viagens no tempo através
de flashbacks que permitam aqui revelar ou relembrar com vocês
algumas passagens curiosas de sua vida, que nos permitam perceber
como algumas de suas facetas foram se constituindo. De que modo
Samuel Celestino ia sendo impressionado pelo mundo, ao tempo
em que nele ia deixando suas marcas.
Para tanto, temos que começar lá longe, começar do princípio,
ao falar de Muzinho, uma vez que o “Samuel” só passou a existir
depois que se tornou jornalista com assinatura reconhecida pelo
respeitável público. Até então era somente o Muzinho, uma
criaturinha intensa que desde a tenra infância nutria ardentes
desejos de ser Super-Homem. Diligente, passou do sonho à
prática: belo dia, com uma castanha de caju, desenhou um
caprichadíssimo S no peito, dentro do famoso escudo triangular
que continha a logomarca do seu herói. A pigmentação ou nódoa
da castanha de caju vale como uma tatuagem de longa
permanência. Resultado: durante muito tempo o menino não
podia tirar a camisa sem revelar aos outros sua supersecreta
identidade. Superpoderes que viabilizariam seu acentuado senso
de justiça, sempre pronto a defender os mais fracos, os oprimidos.
As grandes responsabilidades sempre acompanham os grandes
poderes. Por outro lado, ninguém é perfeito, desde jovem adorava
ver uma briga, uma boa porrada. O prazer da luta. Dizem as más
línguas que até hoje ainda adora a assistir a uma boa contenda,
ou até mesmo acirrá-las, levemente...
Samuca era metido a valentão. Ilustro: certo dia a bola do baba
foi presa por uma dupla Cosme-Damião. Todo mundo correu
com medo. Ele os enfrentou, destemido, e, indagado sobre quem
era, não titubeou: “Sou James Dean, o chefe da juventude
transviada!” A dupla de policiais entreolhou-se estupefata, sem
nada entender . James Dean, o SuperSamuqueiro, conseguiu a
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bola de volta. Desde sempre amou o futebol, ardoroso e fanático
tricolor que era e permanece. Aos 15 anos, sem dinheiro, entrava
na Fonte Nova desde a manhã com a turma que ia vender guaraná,
para conseguir assistir gratuitamente o jogo da tarde de domingo.
Nadinho, Henricão, Marito, Alencar e Biriba eram seus heróis
futebolísticos à época.
Desde cedo revelou-se um líder. Criou um time, na Rua do
Sodré, com o nome de “Peñarol”. Como era o chefe supremo do
time, jogava, é claro, entre os titulares, e tinha a alcunha de “Touro
Bravo”. Um perna-de-pau como jogador, mas um verdadeiro
trombador. Seus companheiros de time eram Lagartixa, Batatinha,
Bicho-Papão, Pinduca, Esqueleto, e Querrequechel. Muzinho,
doublé de cartola, obrigava os meninos mais novos, a sair com
listas pela rua, pedindo grana para as camisas e bolas. Era tão
empreendedor que até um campo de futebol ele fez, na Rua
Saldanha Marinho, Caixa D’Água, nos fundos da Fábrica de
Biscoitos Celeste.
S de SAMUEL, de SAMUCA, de Super-Homem e também
de Sedutor:
Quando muito jovem (porque jovem é e sempre será) foi
vaidoso (e continua), metido a galã. Cabelo liso e fino – constituído
então em vasta cabeleira – escorrido na testa, tanta brilhantina
usava para armar um vistoso pimpão, que as irmãs o apelidaram
de “basilicão” e sua mãe reclamava dos grossos emplastros sujando
o travesseiro. Na Rua do Sodré era metido a namorador, o
“boniton” do pedaço. Queria simplesmente namorar todas as
meninas do mundo. Era tão metido que ousava querer até
namorar, ao mesmo tempo, as duas filhas do Gerente da Varig,
na Rua Carlos Gomes Ele ficava do outro lado da rua, assobiando
(fu-fiii-fiu). Era a glória, quando as duas apareciam ao mesmo
tempo na janela! Mas morria de medo do gerentão, pai das
moçoilas! Namorava a sobrinha de um Secretário da Fazenda do
Estado, menina bonita de Amargosa, quando obrigou seu irmão
Reub a namorar com a irmã da moça, que, aliás, segundo relatos,
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não era lá essas coisas. Reub sofria a sina dos irmãos mais novos...
Isso como compensação, por que, de outra feita, indiscreto, já
exercitando seu faro jornalístico, espalhou para todo mundo um
segredo do irmão. Como um bom pichador precoce, Samuel
escreveu nos muros da rua, com giz, uma frase que havia
conseguido ler no fim da carta de amor que outra garota mandara
para Reub, despedindo-se: “Dar-te-ei um beijo na boca”. Com
esse furo “jornalístico” no dazibao improvisado, arruinou e jogou
às feras a primeira sensação idílico-amorosa do irmão, que o
perdoou, porém nunca se esquecerá do fato!
Adorava poesia e considerava-se um vate com grande
potencial. Nos veraneios da Ilha, na Gameleira, beira-mar,
adorava exercitar seu talento. Dormiam 6, 7 meninos no mesmo
quarto. Iluminados a fifó, lampião a gás, daqueles com camisa.
Na hora de dormir, apagavam-se os candeeiros e toda vez alguém
pedia: “Muzinho, recita uma poesia!” Cheio de orgulho e
vaidade, empostava-se: “Pequenino, acorda, pequenino. Olha
que te levam para o mesmo lado de onde os sinos tangem numa
voz de choro...” Sonífero infalível, trem bala para o mundo dos
sonhos... Conta-se que Muzinho, sem se dar conta, recitava
entusiasmado a imensa poesia até o fim, ignorando o sono
profundo da plateia.
Samuca nasceu em Itabuna e desde cedo foi impregnado pela
mitologia épica da civilização do cacau, suas histórias delirantes
de amor, traição, tiranias e bravuras; universo tão bem desenhado
por Jorge Amado.
Num corte para os seus 19 anos, podemos vê-lo em Salvador,
protagonista de uma cena amadiana a mais não poder. Para
comemorar sua aprovação no vestibular vejam nosso herói a
descer a Rua do Sodré, completamente bêbado, coberto de roxoterra, com cabelo todo pinicado, sem camisa, aos gritos: “- Sou
acadêmico de Direitoooooo!” Todos na rua riam e se orgulhavam
juntamente com ele por sua juvenilíssima vitória . Era, então,
metido a comunista e admirador de Brizola e Jango.
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Com essa mesma idade foi trabalhar na Sociedade dos Amigos
da Cidade do Salvador, no escritório no Jardim da Piedade,
emprego arranjado por Joca Dórea, um primo segundo por parte
de mãe. Seu primeiro trabalho foi assim fruto do mais puro
nepotismo. Acontece que Muzinho sonhava mesmo era com o
jornalismo. E lá se foi ele, atrás de seus sonhos.
A ditadura militar marcou o seu caminho, como, de resto, a
todos os seus contemporâneos, de uma forma ou de outra. Sua
formação intelectual deu-se Faculdade de Direito sob um clima
sufocante. A repressão acirrou sua rebeldia, seu desejo de
expressão e sua paixão pelos valores democráticos e libertários.
Dali para o jornalismo, um salto elástico.
Algum tempo depois conseguiu, enfim, ser foca do Jornal da
Bahia, mas não lhe concediam uma vaga de jornalista, porque seu
cunhado Joca, João Carlos Teixeira Gomes, redator-chefe, não
permitia, preocupado com as alegações de parentesco. Joca só
veio a aceitá-lo depois que um movimento na redação lançou o
repto: “Cunhado não é parente, Samuel para a vaga existente!”
No JB foi companheiro e sempre amigo de Orlando Garcia (o
Gordo) e Wilter Santiago (o Professor), entre muitos outros. Foi
nessa mesma época, finais dos 60s, que me aproximei dessa turma
fantástica. Adorávamos nos reunir para comer pizza aos domingos
na inesquecível Pizzaria Guanabara, na Barra, a primeira da Bahia,
com muitas cantorias, contando piadas, “metendo o pau” no
regime ditatorial, conversas inesquecíveis regadas a tantas e
intermináveis cervejas.
Com o amadurecimento e o consequente refinamento de
seus traços de personalidade, Samuel foi cuidadosa e
consistentemente edificando sua prestigiosa carreira profissional,
para a qual, a partir de certo ponto, passou a receber a segura
orientação de Jorge Calmon, seu grande mestre. Jorge era um
cavalheiro de estirpe, pessoa rara, elegantíssimo no texto, no
comportamento e posturas, na alma. “Quando o discípulo está
pronto, o mestre aparece.”
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Jorge o levou para a ABI, onde Samuel desenvolveu
definitivamente sua paixão pela profissão e fortaleceu suas noções
de civismo, participação e responsabilidade social. Do mestre
recebeu valiosas lições de elegância, lisura e correção. Tornou-se
o mais ardente e combativo defensor da liberdade de imprensa,
da democracia, dos direitos da cidadania. Durante os 24 anos em
que foi Presidente, Samuel deu provas de altivez, independência
e coragem. Lutou tenazmente contra todas as formas de
autoritarismo, prepotência e arrogância. Denunciou todas as
ameaças e violências, todos os crimes contra a imprensa e os
jornalistas. Fortaleceu a ABI e a fez mais respeitada e admirada.
Samuel Celestino chega ao presente cercado por uma legião
de admiradores fiéis, conquistados ao longo de muitos anos, à
custa de muito trabalho e dedicação: é lido e citado quase que
religiosamente, sua opinião tem um peso valioso. Provoca, desafia,
contesta e tensiona os poderes de plantão. Nesse sentido ele exerce
uma espécie de liderança difusa que não pede ou jamais induzirá
votos nem suporta puxa-saquismos.
Ao longo do tempo, Celestino modelou, desbastou, burilou e
poliu seus vários dons, suou e trabalhou muito para exercitar e
enfeixar na escrita seus muitos talentos, uma soma de inteligência;
sagacidade; lucidez; perspicácia; sensibilidade social e
conhecimento pragmático da realidade, tudo isso a serviço de
grande coragem e capacidade de colocá-la à prova, na luta
cotidiana, no conjunto oscilante das materialidades e na
intangibilidade do dia a dia.
Se há algo que destaca Samuel de seus pares é que ele toma
posições claras e comprometidas em relação a todo e qualquer
assunto. Coisa rara no jornalismo político da Bahia, suas posições
são fundamentadas por princípios, crenças e valores, guiadas por
conceitos sólidos através dos quais navega e encontra seu norte.
Pode-se concordar ou não com suas posições, mas ninguém poderá
negar que se lança por completo, em verdadeiro estado de entrega,
e coloca-se, íntegro, no que escreve. Várias vezes eu disse a Samuca
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que ele fazia sua coluna política praticamente na primeira pessoa.
Tem toda razão em seguir este tom: o que é a vida, o trabalho, a
escrita, senão alguma coisa antes de tudo profundamente pessoal?
O que viemos fazer por aqui senão levarmos o que somos à sua
melhor expressão? “Se não agora? Quando? Se não eu? Quem?”
Samuel cresceu no jornalismo, no processo de se construir
jornalista, tornou-se o grande cronista da vida política baiana.
Quem o conhece bem sabe que ele não é movido por qualquer
viés sectário ou ideológico. Comprometido, porém, com um ideal
claro e definido: a consciência do valor inerente e imanente da
Liberdade Democrática e seus corolários: a política exercida com
ética, pelo bem comum, a compreensão da coisa pública, a noção
do que seja o Estado, para além da administração de políticas
partidárias. Imensas batalhas vividas, das quais quase sempre saiu
vitorioso, ou, pelo menos, ileso. E sempre renovado.
Mantém aceso e vivo dentro de si aquele jovem defensor das
causas justas e nobres, sobretudo quando se trata de defender
interesses coletivos vilipendiados ou ignorados; comunidades
carentes esquecidas ou exploradas; o nosso patrimônio cultural e
histórico, as grandes causas ligadas ao meio ambiente.
Para essa batalha teve que constituir algumas trincheiras de luta
como prioridades. Hoje milita em três fronts, três mídias diferentes,
onde pode dar vazas a sua versatilidade de expressão. Na destacada
coluna política do Jornal A Tarde, de onde construiu paulatinamente
seu imenso prestígio, e dali mapeou a amplitude do território
político. Depois, em um dos melhores saques e sentido de
oportunidade de sua vida (que credita também ao sócio e amigo,
Luzbel), criou um site exclusivo de política, pouso obrigatório para
quem se interessa pelo assunto, e que vem quebrando recordes
sucessivos de visitação diária. Há poucos dias ultrapassou 100 mil
acessos. E, finalmente, seu mais novo espaço profissional: na Rádio
Tudo, que já está entre as primeiras em audiência, tornou-se um
radialista diário, um comunicador de grande sucesso. Semana
passada, em uma pesquisa nos EUA, o rádio foi sacramentado como
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a mídia que traz mais fruição e felicidade para seus usuários. Quem
vaticinava o seu final enganou-se redondamente. A quem, como
Samuel, saiba chegar bem aos seus ouvintes, a mídia do rádio
traz ricas recompensas através do contato direto, imediato e
interativo com todas as faixas sociais e etárias da população.
Em um mundo cada vez mais indiferenciado e materialista,
semidevorado por um capitalismo ignorante, apressado e autofágico,
Samuel alimenta um Quixote vivo em seu coração e toda hora
esporeia seu Rocinante, parte para enfrentar gigantes. Muito embora
mantenha o bom senso camponês, os pés bem plantados na
realidade. Sancho Pança não teria com que se preocupar.
Sua mais recente cruzada é contra a cultura da corrupção
institucionalizada que parece ter tomado conta do país, uma
sangria desatada que exaure nossos recursos de modo espúrio,
indecente. A classe política parece ter passado a ter lugar cativo,
diário, no noticiário policial. Nessa luta tem obtido imensa resposta
e apoio da opinião pública que percebe e ratifica suas acaloradas
denúncias e questionamentos.
Alinhavando todos esses aspectos de ser Samuca, vive um
menino buliçoso, que ele protege e alimenta como uma chama
sagrada. Curioso, travesso, bem humorado e gozador, fantasioso e
inventivo. Chega para aprontar toda vez que a vida estagna, quando
a seriedade começa a ficar sisuda, as grandes calmarias ameaçam
apodrecer as velas por falta de vento, o preço do dia a dia enverga
a alegria e a leveza, lá vem ele, de pimpão, “jamesdeanizando” a
vida. Impulsivo e destemido, cativante e brincalhão.
Mal lhe brota no espírito uma ideia, uma emoção, uma
indignação, um sentimento, imediatamente os transforma em ação.
Apaixonado, sem racionalizar ou ensaiar nada. Confia plenamente
no seu instinto, na sua intuição. Segue então sua “estrela guia” e
joga-se à frente, sem pestanejar, se lança de corpo inteiro na arena
renhida pelas causas em que acredita. Não raro cria também
muitos inimigos, a quem combate com o aço de suas palavras,
espada de samurai. S de super-homem, S de samurai.
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Bom de briga, poderoso e respeitado entre seus pares e pelos
leitores, internautas e ouvintes, faz com que seus inimigos tremam.
Quando se decide pela luta, escolhe um alvo, bate sem piedade,
fazendo armas das palavras, luvas de boxe do teclado. Às claras,
expondo suas verdades e motivos de forma clara e limpa. Vez
por outra, quando convencido que está errado, volta trás, o que
demora, por que lhe custa muito dobrar sua teimosia recalcitrante.
Celestino inventou para si um alter ego de modo escapar das
malhas da política, dar curso a sua imaginação fértil e a seu talento
narrativo e ficcional. Nascia o Zeca Di Affonso. Essa persona
nos ofereceu crônicas muito engraçadas, delirantes, algumas delas
surreais. Deu asas à cobra: a parte de sua alma que permanece
descaradamente anárquica. A dobradinha Samuel Celestino/Zeca
Di Affonso o levou à Academia de Letras da Bahia, à Cadeira nº
23, antes ocupada por Jorge Calmon. Foi ungido imortal,
reconhecimento pelos seus bons tratos às palavras.
Viajar na companhia de Samuel é uma experiência inesquecível
por dois motivos. O primeiro deles é que a própria viagem se
torna mais agradável em sua companhia arguta e divertida. Depois,
porque seu talento narrativo irá conjurar sempre no presente,
como por passes de mágica, as viagens findas, cuja duração se
torna, assim, ilimitada Os tantos episódios interessantes e
engraçadíssimos de suas peregrinações pelo globo, muitas delas
acompanhado dos amigos rendem relatos hilários, aperfeiçoados
a cada vez que os relembra. São contados e recontados por ele de
viva voz, uma vez que são literalmente impublicáveis, com graça
e delícia. Uma sucessão de cidades, personagens, acontecimentos,
exageros, boutades, piadas, ironias. Relembro algumas passagens:
nunca durma num vagão com um mendigo catador de moedas.
Jamais chegue bêbado numa cidade como Florença. Cuidado com
os “negronis” de Veneza. Atenção nas saídas noturnas em Taiwan.
Esteja realmente presente em casas de massagem em Seoul. Mantenha
a seriedade nas solenidades oficiais e troca de brindes na China. Olho
vivo nas madrugadas em bares de Genebra. Nas germânicas
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garçonetes das cervejarias de Hannover e no seu perigoso metrô.
No errático tiro ao alvo das boates de Bangkok. Tudo fica mais
interessante e vívido ao ser recontado pelo amigo Samuel. Muitos
dos presentes vão entender esses registros inesquecíveis.
Até o fim da década de 80 foi um dos mais famosos namoradores
da Bahia. Sua casa em Armação era sinônimo de festas, das boas,
animadíssimas. Open house, sem parar. Era um Don Juan febril. Bem
que ele tentou sossegar. Duas vezes se casou. Com Verusa teve
seus três filhos, Vanessa, Leonardo e Ariel, filhos maravilhosos. Só
veio a pendurar definitivamente as chuteiras quando conheceu
Mirella, por quem se apaixonou e com quem aprendeu, finalmente,
a viver as delícias de uma família estável, sobretudo depois do
nascimento de Daniel, nosso querido Dandan, que chegou para
iluminar, inspirar, amolecer e rejuvenescer o coração do pai. Hoje,
finalmente apascentado, canaliza seu grande poder de sedução para
sua atuação profissional e para a convivência e cultivo da amizade,
um privilégio de seus amigos, que, justamente por este motivo,
hoje aqui se reúnem para homenageá-lo.
Grosso modo, esse o caminho que o fez chegar até aqui, a ser
quem é. O tanino que marcava o triângulo e o S podem ter
somente fingido desaparecer, mas na verdade se entranharam
como tatuagens na alma. Longos e produtivos anos pela frente,
novos sonhos, grandes desafios são nossos emocionados votos
ao jovem vaidoso e empreendedor Muzinho: ao impulsivo,
apaixonado, determinado e pugnaz Samuel, ao divertido e solidário
Samuca, ao anárquico Zeca Di Affonso, ao imortal, ao radialista,
ao marido, ao pai, ao grande amigo, super-homem, sedutor,
samurai, sonhador Samuel Celestino. Obrigado.
Geraldo Machado é engenheiro, mestre em Gestão Social e Desenvolvimento
(UFBA), Cavaleiro na Ordem das Artes e das Letras da França, foi Secretário
da Indústria e Comércio do Estado da Bahia e dirigiu várias instituições
públicas e privadas. Hoje está à frente da Superintendência do SENAR Bahia.
Desde 2003 ocupa a Cadeira nº 4 da ALB. Agradecimentos a Katia Fraga
Jordan por sua valiosa colaboração a este discurso.
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Cláudio Veiga – vida, obra
e Academia
Edivaldo M. Boaventura
Cumprindo o ritual da saudade, a Academia homenageia Cláudio
Veiga. Familiares, confrades e alunos se juntam na expressão dos
melhores sentimentos, recordando o companheiro, o professor
de francês e o pai. Como professor, ensinou, pesquisou e publicou,
enfim, construiu a obra legada. Partindo das fundações francesas,
escolheu como objeto de estudo personalidades franco-brasileiras,
como Philéas Lebesgue, que se relacionaram com o Brasil.
Ocupou-se bastante dos baianos vinculados à pátria de René
Descartes, cujo melhor exemplo é a biografia definitiva de Caetano
Moura.
Vamos, assim, traçar o arco de sua vida produtiva e
complementar com o reconhecimento do acadêmico prestante.
FORMAÇÃO E CARREIRA DOCENTE
Cláudio Veiga soube, disciplinarmente, construir uma obra
coerente. Professor, por toda a vida, ilustrou o magistério
secundário, sendo um dos últimos catedráticos do Colégio da
Bahia, tendo sido também o seu diretor-geral. Distinguiu-se como
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professor de língua e literatura francesas do Instituto de Letras
da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e como presidente da
Academia de Letras da Bahia (ALB).
Da matriz francesa, iniciou a primeira etapa de sua obra. São
os anos de aprendizagem no exterior. Revigorou a formação
humanística, obtida no Seminário Central, com o bacharelado pela
então, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade
Federal da Bahia. Nela, a influência maior foi do professor de francês
Raymond van der Haegen, agregé de Universidade e diretor da Casa
da França da Ufba, importante centro de difusão da cultura francesa
com cursos regulares, biblioteca e filmes. Segundo Cláudio, Van
der Haegen foi o introdutor da metodologia do comentário de
texto, no curso de letras, da então Faculdade de Filosofia. Pela
reforma universitária de 1968, criou-se o Instituto de Letras, do
qual Cláudio foi o segundo diretor, sucedendo ao professor de
Literatura Portuguesa Hélio Simões.
O bom êxito nos estudos o conduziu à França, para cursar a
Escola Superior de Preparação e de Aperfeiçoamento de
Professores de Francês no Exterior, na Universidade de Paris –
Sorbonne. Estudou também no Instituto de Filologia Românica,
de Estrasburgo, e no Instituto Católico de Paris. Mais tarde, no
precioso diário, Um estudante em Paris 1950-1952, contou como
foi o seu tempo de estudante na França.
Que representa para o jovem bacharel em letras aqueles cursos
na França?
A força dos estudos especializados, o método que leva à
armadura e tessitura dos trabalhos intelectuais, o aprendizado da
maneira cartesiana de expor com ordem e objetividade, arte em
que os francesas são mestres, forneceram os parâmetros para a
vida acadêmica que se iniciava.
Ao regressar à Bahia, acrescentou ao bacharelado de três anos
a licenciatura de um ano por exigência do magistério. Era o
esquema “três mais um”, isto é, conteúdos e formação pedagógica
das licenciaturas.
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Da experiência francesa saíram as disciplinadas teses que
formaram o erudito. No seu caso, basicamente, as dissertações
exercitaram o método que o capacitou para o trabalho intelectual.
Para a sua trajetória, foram sumamente importantes os estudos
pascoalinos: Das pequenas cartas de Pascoal, A comparação e as Provinciais
e Aspectos de Pascoal escritor. Mas, por quê? Pelo que Blaise Pascoal
representa para o pensamento francês? Positivamente, sim. E mais
ainda, são essas teses que marcaram o início da carreira do scholar
que Cláudio Veiga veio a ser.
São também dessa fase os trabalhos sobre a língua francesa:
Vestibular de francês, Gramática nova do francês, Textos franceses, Introdução
à poesia francesa e a Mini-antologia bilíngue da poesia francesa, que depois
desabrochou na monumental Antologia da poesia francesa, do século
IX ao século XX, com a apresentação do professor e cônsul
honorário Jacques Salah. A Antologia é o seu trabalho de maior
fôlego que consumiu mais de vinte anos. No dizer de Salah: “labor
beneditino ao qual o Prof. Cláudio Veiga consagrou os seus mais
legítimos instantes de lazer”. Ele foi sempre fiel durante toda a
vida às fontes francesas de sua formação. A atividade de magistério
secundário e superior motivou bastante a sua produção linguística
e literária.
Despertou para a vertente da Literatura Comparada,
perfeitamente, em conformidade com o seu disciplinado trabalho
acadêmico que desenvolveu como professor titular de Literatura
e Língua Francesas da Ufba. Começou com o cotejo entre os
clássicos Camões e Ronsard, delineou-se, assim, a fase da literatura
comparada na sua vida literária. Cláudio ensinou na Universidade
Católica do Salvador (Ucsal), provavelmente, até o advento do
regime do tempo integral com dedicação exclusiva.
É nesse contexto que se insere Aproximações: estudos de literatura
comparada, coletânea de ensaios que envolve autores franceses,
brasileiros e portugueses. Tinha predileção pela obra do padre
Antônio Vieira. Desse período são também as contribuições das
presenças francesas em Castro Alves. Trata-se de uma análise
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definitiva dos autores franceses que influenciaram o nosso poeta
romântico. Estuda também Huysmans, em Eça de Queiroz.
Examina as traduções e as aproximações entre O navio negreiro e
Le bateau ivre, entre Os Lusíadas e La Franciade
Na perspectiva da dualidade nacional, França e Brasil-Bahia,
surge o interesse pela vida e obra de Caetano Lopes Moura o que
determinou as pesquisas, diretamente, na Biblioteca Nacional
da França e no Arquivo do Exército em Vincennes, visto ter
sido Caetano Moura integrante da Legião Portuguesa nas
guerras napoleônicas. A biografia de Caetano Moura é o seu
trabalho mais duramente pesquisado e pode ser considerada a
sua melhor obra.
Nos arquivos de La Neuville-Vault, buscou o relacionamento
do brasilianista Philéas Lebesgue com os escritores brasileiros.
Estudou ainda o visconde da Pedra Branca, pai da condessa de
Barral, nosso primeiro ministro-plenipotenciário em Paris, um
homem de fronteira entre Brasil e a França.
A familiaridade com a literatura francesa vai permitindo lançar
pontes e passarelas para compreensão do fenômeno literário em
certos autores brasileiros e baianos de nítida influência gaulesa.
Castro Alves aponta, então, com bem mais força, não somente
pelo estudo meticuloso da presença francesa em sua poética, como
pela análise das traduções de poetas franceses. De Le bateau ivre
passou Cláudio a O navio negreiro, para chegar ao porto da Bahia,
adentrando-se cada vez mais na contribuição dos escritores
baianos.
Na transposição da temática francesa para a brasileira, a
concentração no estudo, a cadência da disciplina acadêmica, a
meticulosidade na análise, a coerência na análise, o espírito do
método, enfim, o que adquiriu na aprendizagem da investigação
francesa vai se dirigindo, inicialmente, para os paralelos entre
personalidades franco-brasileiras e, em seguida, para aumentar a
capacitação na pesquisa literária. Nesse evolver, tudo indica ser
Os prosadores e poetas da Bahia o mais investigado, por exigência do
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método. A linha do inquiry por determinação de segurança, do
material coletado e da proximidade, em uma palavra, a própria
evidência empírica, é que levou Cláudio a escolher os baianos a
exemplo de Caetano Moura, de quem deixou a biografia definitiva.
Se da fase inicial dos seus estudos franceses, trouxe a teoria
literária – é a teoria que sempre guia a pesquisa, a imprescindível
fundamentação teórica dos trabalhos acadêmicos – do segundo
período vieram às técnicas e os processos do método comparado,
o que não deixou de ser um procedimento de investigação
histórica.
No particular, cabe a afirmativa de Robert Travers sobre o
método histórico com referência à educação, aplicável também à
investigação literária. Toda investigação literária é uma pesquisa
histórica, pela revisão da literatura, pela consulta às fontes, pela
aproximação do método com as técnicas da pesquisa nas ciências
do comportamento. O mesmo se pode afirmar quanto à literatura
comparada. A maior parte das vezes que se utiliza a metodologia
bibliográfica ou metodologia documental a abordagem histórica
está presente, instrumentalizada com a análise do conteúdo ou
pela análise do discurso.
É exemplo do que acabo de dizer a obra Um brasileiro soldado
de Napoleão, que é a requintada biografia intelectual de Caetano
Moura. Observe-se a riqueza do material coletado, na Bahia, no
Rio, em Paris, em Ruan, devidamente interpretado, que resultou
em um primoroso trabalho acadêmico de organização periódica
e tópica, merecendo do crítico Wilson Martins a apreciação
elogiosa: “Alto modelo de biografia intelectual, implicando, além
da extraordinária e sólida cultura humanística, porque o autor é
conhecido, meticulosa e sistemática pesquisa no Brasil e no
Exterior.”
Seguindo a mesma line of inquiry, apareceu uma leitura de Artur
de Salles, Sete tons de uma poesia maior. O esquecido simbolista baiano
encontrou, para Pedro Calmon, “quem o compreendesse e
estudasse na inteira dimensão de sua arte: Cláudio Veiga.”
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Na significativa contribuição à literatura brasileira, pela
proximidade do que encontrou sur place, Cláudio Veiga se ocupou
do árcade Pedra Branca, Caetano Moura, Artur de Salles, Péthion
de Vilar, Altamirando Requião, que, por sua vez, chamaram ao
estudo outros escritores baianos: Jorge Amado, Adonias Filho,
Xavier Marques, J. J. Seabra, Prado Valadares, Álvaro Reis et alii.
Estes autores integram o volume Prosadores e poetas da Bahia que é,
emblematicamente, uma clara linha de investigação da literatura
baiana. O abalizado pesquisador confessa: “Neste livro o
denominador comum é a Bahia, a história de sua literatura. Quase
todos os escritores arrolados nasceram na Bahia...”
Cláudio Veiga partiu das matrizes francesas e erigiu a sua obra
de escritor, de tradutor e de pesquisador de nossa literatura,
constituindo-se em um ensaísta erudito academicamente, um
scholar pela obra edificada e pela postura assumida.
Cláudio integra a primeira geração dos diplomados, pelo
Instituto de Letras da Ufba, com expressiva formação,
especialização ou doutorado no exterior ou no país, juntamente
com Joselice Macedo de Barreiro, doutora em Linguística, Zilma
Parente de Barros, doutora em Língua Germânica, Antônio
Barros, doutor em Literatura Brasileira, Newton Vasco da Gama,
doutor em Filologia Românica, Luiz Angélico Costa, doutor em
Língua Inglesa e outros. Uma circunstância especial quanto ao
ingresso no nosso sodalício: Cláudio Veiga foi o primeiro
licenciado em Letras a ingressar na Academia de Letras da Bahia.
ACADÊMICO E PRESIDENTE DO SODALÍCIO
A obra coerentemente elaborada o conduziu à nossa
Companhia e mereceu o reconhecimento da emerência pela
Universidade que tão bem serviu.
Acerca da entrada na casa de Arlindo Fragoso, gostaria de
recordar Hélio Simões quando propôs Cláudio para a nossa
Companhia, sucedendo a A. L. Machado Neto. Confessou-me o
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confrade que o trazia, como de fato o trouxe, para Companhia,
porque Cláudio tinha uma obra bem definida e bem construída.
Detentor de marcante contribuição literária entrou, em 1978, onde
muito cedo progrediu e com três anos apenas elegeu-se para
presidir por vinte e seis anos o nosso grêmio, de 1981 a 2007.
Repetindo a sucessão no Instituto de Letras da Ufba, também na
Companhia sucedeu a Hélio Simões na presidência.
Na gestão de Cláudio Veiga, procedeu-se a transferência da
sede da Academia do Terreiro de Jesus para o nobre solar Góes
Calmon. A solenidade de 7 de março de 1983, aniversário do
Sodalício, selou a chegada ao bairro de Nazaré. A partir daquele
momento, a Academia passou a ter acentuado desempenho com
a realização de atividades colegiadas e de eventos marcantes a
serviço das demandas literárias e das ofertas crescentes da
produção do conhecimento e de sua disseminação. Cláudio liderou
a organização do novo espaço acadêmico, ambientando-o às
funções dos serviços acadêmicos. Mas do ponto de vista da
manutenção, a nova bela sede foi e uma preocupação constante
do presidente Cláudio Veiga.
Desejo muitíssimo agradecer, publicamente, ao presidente
Cláudio a outorga do título de acadêmico benfeitor. O momento
comporta uma explicação. Acompanhei de muito perto os
primeiros anos da sua gestão, iniciada ainda na sede do Terreiro,
em 1981, pois só nos mudamos para a casa de Góes Calmon, em
março de 1983.
Como manter a Academia albergada em um palácio sem
recursos próprios e sem funcionários?
Como secretário da Educação e Cultura do Estado da Bahia,
o último, aliás, que acumulou essas duas funções, de 1983 a 1987,
colaborei com os meios necessários ao seu funcionamento.
Coloquei à disposição da Academia o pessoal dos quadros
administrativos oficiais necessários ao funcionamento mediante
convênio. E com outro convênio, mantive financeiramente a
Academia. Paguei os móveis e equipamentos doados pelo governo
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anterior. Com o apoio institucional da Secretaria que dirigia, pude
fazer a Academia funcionar ajudando o presidente no papel de
líder da cultura.
Com a sede no Solar Góes Calmon, o grêmio tornou-se o
centro da atividade literária da cidade do Salvador, promovendo
inúmeros lançamentos, conferências, cursos, recitais e concursos.
Por esse e outros serviços prestados, o Sodalício tornou-me
membro benfeitor, juntamente com Jorge Calmon. Em 7 de
março de 1986, recebemos Jorge e eu, a promoção pela palavra
sempre atenciosa e carinhosa de Hildegardes Viana. Senti, naquele
momento, que entrava na Academia outra vez.
Dessa maneira, entendo que cabe ao Estado estimular e apoiar
as atividades culturais. As Academias, principalmente as de Letras
e das Ciências, mantêm conhecido relacionamento com o poder
público desde as suas origens francesas. Recordemos, pois, que o
saber é uma forma de dominação. Um exemplo ilustre é o da
Academia Portuguesa da História, criada por D. João V, e o da
Academia de Ciências de Lisboa, que inclui uma seção de letras,
instituída por D. Maria I – ambas sempre mantidas pelo Estado
português.
É salutar, por dever de justiça, destacar o quanto foi relevante
para o sucesso da gestão Cláudio Veiga o apoio de Jorge Calmon.
Graças ao seu prestígio pessoal, conseguiu o solar Góes Calmon
para sede da Academia e ampliou o seu patrimônio edificado
com a construção de um pavilhão que leva o seu nome. A doação
dos pratos brasonados, que tanto embeleza a aconchegante sala
de reunião, recompôs o cenário de finesse do início do século XX
da antiga sala de jantar do casal Julieta e Francisco Marques de
Góes Calmon. Aliam-se aos serviços prestados por Jorge Calmon
a dedicação e o empenho pessoal do poeta Carlos Cunha, sempre
presente e companheiro inseparável do nosso saudoso
homenageado. Destaco também a colaboração de Teresa Veiga e
dos atuais funcionários Valdir Sena, Maria do Carmo Moscovits
e Genilda Santana.
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Ao ensaísta Cláudio Veiga, a Academia muito deve. Cultor da
língua e literatura francesas, estudioso da literatura comparada,
teórico e prático da tradução. Verteu para o vernáculo o livro de
Jules Romains, Morte de alguém. É monumental o seu esforço de
tradução para a Antologia da poesia francesa do século IX ao XX.
Destaque-se a sua contribuição para a literatura baiana no contexto
luso-franco-brasileiro.
O professor Cláudio Veiga é, portanto, um fautor que muito
favorece a realização da Academia de Letras. Tanto soube
construir o conhecimento com comprovada obra universitária,
como soube fazer a Academia, dirigindo-a com sabedoria por
mais de duas décadas.
A sua gestão foi paciente e sábia na agregação de pessoas, de
livros e de bens móveis. Promoveu a integração de vários acervos
– Álvaro Nascimento, Odorico Tavares, Waldir Oliveira e outros.
Incorporou parte do espólio de Edith Mendes da Gama e Abreu
e a coleção de estatuetas de biscuit do doutor Eliezer Audíface.
Perpetuou em bronzes os vultos de Cervantes, Otávio
Mangabeira, Arlindo Fragoso, Pedro Calmon e Jorge Amado.
Complementamos o sculptural garden, iniciado em sua gestão,
com a inauguração do busto de Jorge Calmon por Márcia Magno,
oferta do presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI), o
confrade Samuel Celestino. Instalamos a estátua do governador
Francisco Marques de Góes Calmon, por Paschoal di Chirico,
restaurada pelo professor José Dirso Argolo e postada no jardim,
pelo seu neto o ministro Ângelo Calmon de Sá.
Outra importante contribuição de Cláudio foi a
institucionalização de cursos, seminários e concursos literários.
Tonificou o Curso Castro Alves em Colóquio da Literatura Baiana
com a ajuda do acadêmico Aleilton Fonseca, criou o Curso Folclore,
tão bem coordenado pela saudosa professora Doralice
Alcoforado. Convencionou o Prêmio Nacional Academia de
Letras da Bahia com a Braskem. Os diversos lançamentos,
palestras, exposições, edições da Revista da Academia,
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publicações, renovadas posses solenes e parcerias com diversas
instituições culturais, movimentaram a nossa Academia. Merece
uma menção especial o duplo convênio com a Assembleia
Legislativa da Bahia. Com o nosso confrade homenageado,
manteve-se a linha de erudição, que converte o grêmio em uma
entidade cimeira da cultura baiana.
CLÁUDIO VEIGA, ACADÊMICO BENFEITOR
Pela obra, Cláudio Veiga é um ensaísta, expoente da literatura
baiana. O reconhecimento pelo seu trabalho o introduziu no
pequeno e selecionado grupo dos membros benfeitores,
composto por Heitor Praguer Fróes, Jorge Calmon e por mim. A
outorga do título foi uma das primeiras iniciativas quando assumi
a presidência. O título, como todos os diplomas de mérito, é um
emblema de reconhecimento.
Cláudio Veiga é um dos construtores desta Academia, símbolo
de compreensão, de sabedoria e de convivência acadêmica.
Grato a todos pela presença e mais ainda pela atenção!
Salvador, 2 de junho de 2011.
REFERÊNCIAS
VEIGA, Cláudio. Antologia da Poesia Francesa (do século IX ao
século XX). Rio de Janeiro: Record; Salvador: Fundação Cultural
do Estado da Bahia, 1991.
VEIGA, Cláudio. Antologia da Poesia Francesa (do século IX ao
século XX). Rio de Janeiro: Record; Salvador, Bahia: Secretaria
da Cultura e do Turismo, 2ª edição, 1999.
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_________ . Atravessando um século: A vida de Altamirando
Requião. Rio de Janeiro: Record; Salvador Bahia: Fundação
Cultural do Estado da Bahia, 1993.
_________. Um Brasilianista francês – Philéas Lebesgue. Rio de
Janeiro: Topbooks; Salvador: Fundação Cultural do Estado da
Bahia, 1998.
__________. Prosadores e Poetas da Bahia. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1986.
___________. Aproximações: estudos de literatura comparada. Salvador:
Universidade Federal da Bahia, 1979.
___________. Sete tons de uma poesia maior: uma leitura de Arthur
de Sales. Rio de Janeiro: Record, 2ª edição, 2002.
___________. Um brasileiro Soldado de Napoleão. Rio de Janeiro:
Record, 1979.
Discurso proferido na Sessão da Saudade, dedicada ao acadêmico Cláudio de
Andrade Veiga, e realizada no salão nobre da ALB, em 2 de junho de 2011.
Edivaldo M. Boaventura é ensaísta, pesquisador, professor emérito da UFBA,
autor de diversos livros de ensaios; foi presidente da Academia de Letras da
Bahia, de 2007 a 2011. Atualmente exerce o cargo de diretor-geral do jornal
A Tarde. Desde 1971 ocupa a Cadeira nº 39 da ALB.
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Cláudio Veiga,
professor de Francês
Denise Lavalée
A
tendendo ao honroso convite do Ex-presidente da Academia
de Letras da Bahia, prof. Edivaldo M. Boaventura, para que
apresentássemos, nesta homenagem póstuma, nosso testemunho
sobre o prof. Cláudio Veiga, que por longo período dirigiu esta
casa, gostaríamos inicialmente de agradecer a oportunidade que
nos foi concedida de compartilhar com os presentes alguns
episódios de sua brilhante carreira, durante sua atuação como
docente na Faculdade de Filosofia.
O perfil do homenageado se inscreve sob múltiplas vertentes.
Mergulhado na secularidade de um espaço social ambíguo, ele se
pautou sobre uma formação clássica cujos fundamentos
filosóficos, ancorados na tradição, transpareciam em seus
trabalhos, norteando o criterioso reexame dos textos selecionados,
em permanente busca de autenticidade e de apuro técnico,
presentes nas obras que publicou.
Assim, dentre elas, merecem destaque algumas
particularmente significativas, que se converteram em
instrumento de trabalho no cotidiano dos professores de francês.
Citemos primeiramente a Gramática nova do francês, de cunho
normativo, destinada a estudantes brasileiros, que adquirimos
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desde o seu lançamento, em 1965, pela Editora F.T.D. Ltda de
São Paulo e da qual extraímos os melhores momentos de nossa
prática pedagógica. O autor atuava como Catedrático de Língua
e Literatura Francesa da Faculdade de Filosofia da Universidade
da Bahia, antiga denominação do prédio onde estudamos,
localizado em frente a esta Academia; ocupava igualmente a
função de professor das mesmas disciplinas na Faculdade de
Filosofia da Universidade Católica do Salvador, e de catedrático
de Francês no Colégio Estadual da Bahia.
Data desse período (1964) o Vestibular de Francês, de sua autoria,
editado pela Livraria Progresso de Salvador, considerado como
“a bíblia” dos candidatos a tal rito de passagem.
Um quarto de século depois, quando a Editora do Brasil (SP)
lança a 4ª edição da referida Gramática, já então consagrada em
1990, decidimos adquirir outro exemplar, agora numerado, o 732,
para uso exclusivo dos alunos em classe, favorecendo o acesso a
aspectos contrastivos do idioma francês, ali apresentados sob a
ótica comparatista de nossa língua materna. Adquirimos
posteriormente um terceiro exemplar, no sebo que funcionava
nas proximidades da Praça Castro Alves. Os amantes das línguas
estrangeiras e da palavra escrita transferem muitas vezes para a
aquisição de gramáticas, dicionários e livros suas inquietações
existenciais relativas à segurança, ao prazer estético e à paz interior.
A propósito dos dicionários, na qualidade de ex-aluna e
posteriormente colega do prof. Cláudio Veiga, gostaríamos de
evocar sua profunda rejeição à ausência de senso crítico
manifestada por alguns docentes de francês que, ao sabor das
novas metodologias, se entregavam a acrobacias mentais –
infrutíferas – com o fito de evitar a tradução pura e simples de
qualquer vocábulo francês para a língua materna, mesmo diante
de idiomatismos ou de fatos interculturais de alta complexidade:
as armadilhas herméticas da tradução.
Outra obra que reflete o labor do poeta e do tradutor, publicada
pela Universidade Federal da Bahia em 1979, consiste nas
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“Aproximações: estudos de literatura comparada”. Ali estão
cotejadas as literaturas brasileira/francesa/portuguesa; Castro
Alves, Rimbaud, Camões e Ronsard são analisados quanto à sua
poética ou às atividades de tradução. Pertence a esse livro o
paralelo, bastante divulgado nas Faculdades de Letras, entre o
“Navio negreiro” de Castro Alves e “Le bateau ivre” de Rimbaud,
um primoroso entrelaçamento entre mar – navio – veleiro –
tombadilho – viagem que apresenta numerosos pontos
convergentes.
Voltemo-nos, porém, para obras mais recentes, como sua
Antologia da Poesia Francesa (1991), editada pela Record, do Rio de
Janeiro. Trata-se de um trabalho cuidadosamente tecido, por onde
desfilam onze séculos de poesia, traduzidos com a isenção e a
sensibilidade características do estilo do autor, cujo método de
trabalho confirmaria Nietzsche, ao declarar que nenhum vencedor
acredita no acaso, nem deixa sua inspiração à mercê da
imprevisibilidade.
Tais considerações, embora breves, nos trazem de volta à antiga
Faculdade de Filosofia dos anos sessenta. Para vivenciar a nostalgia
existem formas distintas: a que nos toca mais de perto consiste
no saudável resgate de gratas reminiscências e de momentos
marcantes, capazes de evocar admiração, deleite intelectual e até
mesmo um sorriso cúmplice. Atravessemos, pois, a rua diante de
nós, em busca do passado.
Uma escada central de madeira escura e polida dá acesso ao
primeiro andar onde, à esquerda da grande sala, sentado à mesa,
o professor Cláudio Veiga apresenta aos alunos do curso de
Línguas Neo-latinas um dos mais belos exemplos da poética
simbolista francesa, o poema “Parfum Exotique”, de Charles
Baudelaire, extraído do volume Les Fleurs du Mal, datado de 1857.
A obra, tão controvertida quanto fascinante, mereceu, no mesmo
ano, em carta dirigida ao autor pelo poeta Victor Hugo, a seguinte
apreciação: “Suas Flores do Mal deslumbram e resplandecem
como estrelas”. O que não poupou a Baudelaire um processo
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seguido de multa por ultraje aos bons costumes e à moral pública,
episódio que ilustra um dos vários oximoros que pontilharam
sua agitada existência.
Ocorre que a edição do livro-texto utilizada pelo professor
trazia a capa ilustrada por belas musas, desnudas, obviamente,
em posturas condizentes com o conteúdo do volume. Naquela
época, os alunos, e particularmente as alunas, costumavam
frequentar as aulas vestidos com relativo apuro. A capa do livro
causava algum tipo de desconforto ao nosso homenageado.
O grupo se compunha, majoritariamente, de jovens
representantes do sexo feminino, muitas delas oriundas do colégio
vizinho, Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela educadora
Anfrísia Santiago, de reconhecido valor moral e pedagógico.
Aquele curto trajeto entre as duas instituições recebia, dos rapazes
do bairro de Nazaré, o epíteto de Passarela do Saber, em tom de
leve zombaria.
Diante dos alunos, prosseguindo na apreciação dos poemas e
discorrendo sobre a biografia polêmica de Baudelaire, após duas
ou três aulas o professor Cláudio Veiga surge com um novo livro.
Ao vê-lo manusear suas páginas, constatamos que se tratava do
mesmo autor, e tem início a análise estilística do conhecido poema
“Parfum exotique”.
Desdobram-se diante de nós evocações derivadas dos cinco
sentidos humanos, visões paradisíacas provocadas pelo perfume
da mulher amada, o toque acetinado da sua pele como vetor de
novas sensações visuais e auditivas, impressões gustativas advindas
de frutas tropicais de países distantes, cenas sinestésicas embaladas
pelo marulho das águas e pelo canto dos marinheiros.
Praticávamos ali um mergulho sensorial na harmonia e na beleza,
guiados pela palavra.
Porém, por mais perfeito que seja considerado esse poema,
por mais indecisas que se mostrem as fronteiras entre o sensual e
o sexual que envolvem as Flores do Mal, a mais bela experiência
que vivemos naquele semestre de juventude foi o gesto do
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professor – o gesto sensível, o gesto delicado, o gesto insólito e
raro de recobrir, com uma folha opaca de papel pardo, a capa da
edição Flores do Mal, visando com isso preservar dos olhos juvenis
a nudez das musas e evitar reações de constrangimento.
Se alguém considerou inusitada aquela atitude, representou,
sem dúvida, uma solitária voz divergente no coro de silenciosos
aplausos que aquela prova de sensibilidade mereceu. Cristalizouse ali, diante de nós, a imagem do mestre, modelo de seriedade e
de moral que a todos conquistou.
Este foi, nos anos de magistério, o ex-presidente desta casa,
com quem aprendemos a exercitar o vouvoyement e ao qual
ninguém ousaria tutoyer, tratamento que ele próprio
desaconselhava, com humor, recomendando empregar, em
qualquer circunstância, o pronome pessoal vous, sobretudo em
se tratando de interlocutores franceses, habituados ao rigor dos
códigos linguísticos da norma culta.
Para o aprimoramento do seu perfil como escritor, tradutor,
historiador, pesquisador e poeta, contribuiu particularmente sua
formação como educador em sua longa passagem pelo magistério,
bem como contribuíram os valores que sempre cultivou: a
disciplina, a sobriedade e o formalismo.
Graças ao conjunto de sua obra, aliada à argúcia de suas análises
estilísticas e interpretações textuais, sua presença na Universidade,
na Associação de Professores de francês e nesta Academia
influenciou decisivamente alunos e docentes, professores de
francês dos quatro cantos do mundo francófono, que hoje temos,
em nome da Bahia, a honra de representar.
Cada vez que nos cabe analisar textos baudelairianos, cada
vez que os alunos nos solicitam explicações sobre o léxico ou
sobre construções mais complexas da escrita do poeta maldito,
um perfume exótico de passado também nos penetra, iluminado
pelo soleil monotone que provoca outras tantas visões felizes, árvores
e frutos (sim, a velha faculdade também os tinha!), jovens de
corpo esbelto e olhar franco saltam do poema circulando pelas
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dependências, cenas que se misturam ao toque dos sinos da Igreja
vizinha, ao entardecer... E, um pouco à maneira de Proust, todo
o poema é reescrito no trânsito da memória, trazido pelas mãos
seguras do prof. Cláudio Veiga, que ora se retira com seus livros
e suas musas, mas que conosco permanecerá, graças ao gesto
indelével registrado naquela tarde singular.
Muito obrigada.
Discurso proferido na Sessão da Saudade, dedicada ao acadêmico Cláudio de
Andrade Veiga, e realizada no salão nobre da ALB, em 2 de junho de 2011.
Denise Lavallée é mestre em Educação pela UFBA, professora da Uneb,
Fundadora e diretora da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas
(Uneb), Diretora do Núcleo de Estudos Canadenses (Uneb) e Presidente da
Associação Brasileira de Estudos Canadenses.
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O desempenho da Academia de
Letras da Bahia de 2007 a 2011
Edivaldo M. Boaventura
Presidente da ALB (2007-2011)
Reunimo-nos, hoje, 24 de março de 2011, para agradecer e passar
o comando da Academia ao confrade Aramis Ribeiro Costa,
escolhido e eleito por unanimidade para suceder-me na
presidência. Há exatamente trinta anos que houve posse de
presidente na Academia. A última aconteceu quando o professor
Cláudio Veiga assumiu a direção, ainda na antiga sede do Terreiro
de Jesus, em 12 de março de 1981. Cotejando as duas datas,
percebemos como evoluímos.
Fortes sentimentos se juntam neste momento em que
completamos quase quatro anos de convivência acadêmica pela
disseminação do conhecimento e zelo pela casa de Góes Calmon.
Objetivos que nortearam toda a nossa caminhada no quatriênio. O
governo não nos doou um prédio qualquer, mas uma casa
requintada que abrigou obras de arte e que deram origem ao Museu
de Arte da Bahia. Há uma motivação pelo compromisso tácito de
disseminar a cultura quando recebemos esta casa para nossa sede.
Vamos às chegadas e partidas. A movimentação da vida
acadêmica de 13 de julho de 2007 a 24 de março de 2011, muito
se enriqueceu com a entrada de Yeda Pessoa de Castro, Samuel
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Celestino, Dom Emanuel d´Able do Amaral, Joaci Góes, Antônio
Brasileiro, Paulo Costa Lima, João Falcão e Gláucia Lemos. Como
sócios correspondentes, empossamos Antônio Carlos Secchin e
Dominique Stoenesco, como também elegemos Rita OlivieriGodet e Maria Beltrão. Os confrades Samuel Celestino e Paulo
Costa Lima foram saudados por mim. Dei-lhes a resposta pela
Companhia. Abraçamos efusivamente todos que ingressaram.
No mesmo período, foram para o outro lado os confrades
Oldegar Franco Vieira, Jorge Calmon, Antônio Carlos Magalhães,
Zélia Gattai, Ary Guimarães, Rubem Nogueira, Pedro Moacir
Maia e Epaminondas Costalima, e os sócios correspondentes,
José Mindlin e Anthony John Russell-Wood. Na Academia,
cumpre-se o ciclo vital em busca da imortalidade: “poder de uma
vida que não tem fim”, conforme a carta de São Paulo aos
Hebreus. Aos que partiram a nossa saudosa homenagem.
Ainda quanto à escolha democrática dos candidatos
progredimos bastante. Aperfeiçoamos o processo eleitoral pela
apresentação e discussão da obra e do currículo dos pretendentes
pelos confrades interessados na escolha.
Seguem-se algumas iniciativas que marcaram o crescimento
do nosso grêmio seguidas do relato de atividades de 2007 a 2011.
MUSEALIZAÇÃO DO ESPAÇO
Permanentemente, cuidamos da casa. Foi com surpresa e
entusiasmo que acolhemos a proposta da família Calmon, à frente
o ministro Ângelo Calmon de Sá, para transladar a magnífica
estátua de Góes Calmon, para os jardins desta casa, da sua casa.
Estamos ainda sob as emoções de 22 de março de 2011, dia
solar da inauguração do bronze bem talhado por Pachoale di
Chirico. Coube a recuperação e instalação ao professor José
Dirson Argolo com a participação do confrade Paulo Ormindo
David de Azevedo, tão dedicado à Companhia.
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No que tange ao bom gosto do construtor do solar, governador
Francisco Marques de Góes Calmon, ouvi de sua filha Ana Maria
de Góes Calmon, ao entrevistá-la para escrever a história do solar:
“Ele tinha um sonho: que a sua casa fosse transformada em
museu”. E a vontade do governador se cumpre mesmo tendo a
moradia mudando sucessivamente de função e de dono.
Para sediar a Companhia, o espaço sofreu remanejamento a
fim de atender à destinação acadêmica. Para tanto, contamos com
a colaboração de Sylvia Athayde, diretora do Museu de Arte da
Bahia. No salão nobre, chamado de Salão Dourado, no tempo da
família Calmon, a entronização do retrato do fundador Arlindo
Fragoso definiu o sítio privilegiado pelo impressionismo tardio
de Presciliano Silva. Aliás, Arlindo Fragoso está reverenciado não
somente nesse salão, mas também no busto, doado pelo
acadêmico Cid Teixeira, e na medalha corporativa do fundador.
Ainda compõem o ambiente uma gravura em preto e branco de
D. João VI, comemorativa do dia da proclamação e coroação, e
uma pequena reprodução da conhecida gravura de Goethe pelo
pintor Joseph Stieler (1781-158), de Munich. O mobiliário do
salão se enriqueceu com móveis de estilo, doados pelos
acadêmicos Francisco Sena e Joaci Góes.
A mobília da acadêmica Edith Mendes da Gama Abreu foi
recuada para a parte posterior do Salão Dourado, que deveria ter
sido espaço reservado para o piano. Vestem as paredes desta
parte uma tela de Alberto Valença, um crayon da Senhora
Fernandes Dias, por Presciliano Silva, uma gravura do príncipe
D. Pedro I ainda muito jovem, um quadro inacabado de
Presciliano Silva e uma gravura do médico Audíface, doador
das estatuetas de biscuit.
Na rota da musealização da casa, encontra-se a galeria de
retratos de Rui Barbosa de corpo inteiro, por Presciliano Silva;
Xavier Marques, por Guttman Bicho e Otávio Torres, restaurados
por José Dirson Argolo. Compõe ainda a coleção o retrato do
governador e acadêmico Luiz Viana Filho, sentado, de autoria de
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T. Pacheco, doação da família. Os desenhos com as imagens dos
poetas Godofredo Filho, por Presciliano Silva, Carvalho Filho,
por Alberto Valença, e Agrário de Menezes, por Presciliano Silva,
complementam a exposição. E como traço de união entre a antiga
sede, no Terreiro de Jesus, e a nova, no solar Góes Calmon,
encontra-se a antiga mesa de reunião, reformada pelo artesão
Edilson Costa Dias. Passado o vestíbulo, alcança-se a galeria dos
presidentes.
Achei por bem guarnecer o vestíbulo da escada com gravuras
da minha coleção. São paisagens da Bahia antiga e de outras
cidades que vestem as paredes: 1) duas reproduções de William
Gore Ouseley que retratam as ruínas da Igreja de São Gonçalo
do Amarante, que existiu no Rio Vermelho, o local atualmente é
um largo, e a rua Bartolomeu de Gusmão; 2) um mapa da América
do Sul, adquirido na França; 3) duas gravuras de fundo azul com
elevações da entrada da Baía de Todos os Santos, onde se pode
ver o Yath Club e o Solar Unhão; 4) um quadro com dois azulejos
cada, fabricação da empresa Eleane, comemorativo dos 500 anos
da descoberta do Brasil; 5) uma gravura em preto e branco da
Bahia no século XVII, quando da invasão dos holandeses; 6) uma
gravura colorida da Praça da Piedade; 7) gravura antiga da cidade
de Paris na Idade Média, adquirida em Paris; 8) gravura antiga da
cidade de Veneza, Itália.
Os pratos brasonados da coleção Jorge Calmon restituíram
de porcelanas o donaire decorativo da outrora sala de jantar da
família com móveis de época. Mais uma vez o talento museológico
de Sylvia Athayde esteve a serviço da casa. Esta sala tão
aconchegante é o nosso lugar predileto de encontro. É onde se
põe realmente em prática a convivência acadêmica. Ali nos
reunimos, trocamos ideias, opinamos sobre os assuntos de
interesse, discutimos e tomamos importantes decisões.
Enfim, a casa de Góes Calmon e a Academia de Letras
caminham juntas e se complementam. O zelo com o solar
magnifica o sodalício. O seu enriquecimento valoriza a cultura.
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REFORMA DO ESTATUTO E BUSCA
DE TERRITORIALIDADE
Em 2007, como vice-presidente, tivemos por força maior, de
assumir plenamente a presidência em face da renúncia do confrade
Cláudio Veiga. A eleição em 13 de julho confirmou a nova
diretoria para completar o biênio. Uma das primeiras decisões da
diretoria foi a reforma do estatuto. No que dizia respeito ao
domicílio do candidato à Academia, exigia-se que fosse em
Salvador. Para a reforma do estatuto, a colaboração do confrade
Aramis Ribeiro Costa foi decisiva. Eis um dos motivos de sua
escolha unânime para dirigir a nossa Companhia.
A reforma dos atos constitutivos alargou a territorialidade da
Academia. Elegemos, de pronto, o desejado poeta Antônio
Brasileiro, da queridíssima cidade comercial de Feira de Santana.
Vamos, assim, em busca de mais espaço.
GALERIA DOS PRESIDENTES E A MEMÓRIA
DA INSTITUIÇÃO
Nenhum outro projeto tocou tanto à identidade do Sodalício
como a galeria dos presidentes. O objetivo foi resgatar a memória
da instituição. A sucessão dos titulares resultou da pesquisa de
Bruno Lopes do Rosário, historiador e chefe do Arquivo da
Academia. As fotos, obtidas no jornal A Tarde, foram trabalhadas
e organizadas mais uma vez pela diretora do Museu de Arte da
Bahia, Sylvia Athayde.
Em 9 de outubro de 2008, foi inaugurada a galeria na presença
festiva de filhos, descendentes, familiares e amigos, com a palavra
da confreira Consuelo Pondé de Sena, presidente do Instituto
Geográfico e Histórico da Bahia. A busca identificou 15
presidentes. A começar pelo filólogo Ernesto Carneiro Ribeiro,
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que se notabilizou pela polêmica com Rui Barbosa sobre a redação
do Código Civil. Seguem-se o cientista Gonçalo Moniz, vice que
assumiu por interinidade; o historiador e médico Braz do Amaral;
o governador J.J. Seabra, que foi professor da Faculdade de Direito
do Recife; o jurista Carlos Gonçalves Ribeiro; o professor de
Medicina João Garcez Fróes; o médico que governou a instituição
por quase vinte anos Luiz Pinto de Carvalho; o jurista e professor
de Direito Penal Aloysio de Carvalho Filho; o antropólogo e
mestre de todos nós Thales de Azevedo; o historiador José
Calasans Brandão da Silva, o monsenhor Manoel de Aquino
Barbosa; o professor de Medicina Legal Estácio de Lima; o
jornalista, professor e benfeitor Jorge Calmon; o poeta e professor
de Literatura Portuguesa Hélio Simões; o professor de Língua e
Literatura Francesas Cláudio Veiga; o professor de Educação
Edivaldo M. Boaventura, benfeitor. Para a organização do quadro
de dirigentes, obedeceu-se a tradição militar da galeria dos
comandantes de quartel.
PUBLICAÇÕES
Com a colaboração da Organização Odebrecht, conseguimos
editar os números 48 e 49 da nossa Revista e este último encontrase disponível no site da Academia. Estamos na rota dos
procedimentos de indexação da Plataforma Lattes do periódico
para a obtenção do Qualis. A revista continua com dupla função:
literária e house organ.
Em convênio com a Assembleia Legislativa editamos, dentre
outras obras, A vida de Rui Barbosa, de Luiz Viana Filho; Recordações
históricas, de Braz do Amaral; Poesia reunida, de Myriam Fraga; e a
coletânea O olhar de Castro Alves: textos críticos de literatura baiana,
organizada por Aleilton Fonseca. A Academia é agradecida ao
presidente Marcelo Nilo e aos servidores Délio Pinheiro, Paulo
Roberto Martins Bina e Luiz Guilherme Tavares.
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O Boletim da Academia de Letras da Bahia saiu três
exemplares. O segundo número contou com o editorial definidor
do acadêmico Hélio Pólvora. O Boletim publicou a última página
do confrade Pedro Moacir Maia. Foi uma tentativa de house organ.
Encontra-se em revisão o Anuário da Academia de Letras da Bahia
2010, pesquisa biobibliográfica de Genilda Santana, diretora de
nossa biblioteca, e Bruno Lopes do Rosário, chefe do Arquivo.
Biblioteca e Arquivo são segmentos que prestam permanente
serviço à comunidade de pesquisadores.
PREMIAÇÕES E DISTINÇÕES
A qualidade se expressa em prêmios. Desde as suas origens,
as Academias estão marcadas pelas premiações literárias e outras
distinções. Somente depois de muitos anos, o presidente Cláudio
Veiga conseguiu estabelecer o Prêmio Nacional de Literatura com
a empresa Braskem. Expressamos o reconhecimento à Braskem,
nossa tradicional parceira em prêmios.
Com o beneplácito da Eletrogóes, instituímos um novo
estímulo com o Prêmio pelo Conjunto da Obra, concedido, pela
primeira vez, em 2010, à escritora Helena Parente Cunha.
Seguiram-se as distinções de Honra ao Mérito e do Diploma de
Amigo da Academia.
Não existe nada de mais alto, mais digno e mais emblemático
do que a Medalha do Fundador Arlindo Fragoso. Honraria que
eleva o sodalício, e distingue os confrades e terceiros que hajam
prestados serviços às letras e à Academia. Ao encerrar hoje a
nossa gestão, marco o reconhecimento aos confrades e lideranças
com a outorga da medalha do fundador
Não premiar é punir pelo indiferentismo. Mas as sociedades
democráticas, abertas, midiáticas e modernas estão regularmente
distinguidos os seus cidadãos. Enquanto as sociedades tradicionais,
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atrasadas e escravocratas guardam os prêmios somente para uns
poucos iluminados e não reconhecem o mérito do trabalho.
Em 16 de dezembro de 2010, inauguramos o busto do confrade
benfeitor Jorge Calmon, oferta do presidente da Associação
Baiana de Imprensa, Samuel Celestino, sucessor de Jorge e seu
discípulo no jornalismo.
INFORMÁTICA, INTERNET E MARKETING
Depois de várias tentativas, conseguimos informatizar a
Academia. Foi decisivo o empenho profissional de Leonardo
Cardoso de Moraes, consultor de tecnologia da informação, e do
confrade Carlos Ribeiro.
Os softwares de utilização básica (sistemas operacionais e
sistemas Office) foram atualizados através de doação conseguida
para a Academia via parceria estabelecida com entidades
desenvolvedoras de programas de computação. A biblioteca foi
agenciada pelos serviços de fornecedor LPG Soluções. Prevê-se
a digitalização do acervo do Arquivo.
Precisamos adquirir um computador servidor para que as
informações e dados não fiquem estanques em cada
microcomputador. Foi idealizado e desenvolvido um novo website
para a Academia. Sentimos um contentamento muito grande por
ter conseguido informatizar a nossa Companhia. As chamadas
do website com os links, colocou-nos no amplo mundo digital.
Não podia mais a nossa Academia funcionar sem o apoio
eletrônico
(www.academiadeletrasdabahia.org.br
e
[email protected])
Vinculado à informática, a Academia aderiu ao projeto
comunitário nacional “Doe um livro”, isto é, doação de livros
para escolas públicas e bibliotecas carentes de todo o país. O
projeto “Doe um livro” é da maior relevância social.
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COMEMORANDO CENTENÁRIOS
No período, o ano de 2008 foi rico em comemorações
centenárias. O Sodalício participou do bicentenário da chegada
da Corte Portuguesa, com a palavra sempre pronta de Consuelo
Pondé de Sena. Houve, na Bahia, a abertura dos portos e a
criação do Curso Médico, do quarto centenário do padre
Antônio Vieira, do primeiro de Luiz Viana Filho e de Guimarães
Rosa, e os cem anos de falecimento de Machado de Assis.
O centenário do acadêmico e poeta José Luiz de Carvalho Filho
foi festejado pela família e pela palavra erudita e sempre bem
articulada de João Eurico Matta.
Com a Universidade Estadual de Feira de Santana, a
Academia integrou-se nas comemorações do centenário do
poeta modernista Eurico Alves Boaventura, em 2009. Os
acadêmicos Aleilton Fonseca, Waldir Freitas Oliveira e João
Eurico Matta registraram os centenários, respectivamente, do
epigramista Lafayette Spínola, do professor Eloywaldo Chagas
de Oliveira e do jurista Orlando Gomes. Igualmente registraram
os cem anos do desaparecimento trágico de Euclides da Cunha.
A Academia aderiu aos cem anos de falecimento de Joaquim
Nabuco, líder abolicionista e escritor fundador da Academia
Brasileira, e compareceu ao seminário no Recife, em dezembro
de 2010.
O centenário do acadêmico Manuel Pinto de Aguiar, ocorrido
em março 2010, foi festejado, recentemente, em 17 de março
de 2011, quando houve o lançamento da biografia: Pinto de
Aguiar: audacioso inovador, de Consuelo Novaes Sampaio, com a
participação de Consuelo Pondé de Sena, Aristeu Almeida,
Osmar Sepúlveda, Luis Guilherme P. Tavares e Joaci Góes e
coordenação de Edivaldo M. Boaventura, presidente da
Academia.
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A INTERNACIONALIZAÇÃO DA ACADEMIA
E AS ACADEMIAS MUNICIPAIS
Finalmente, iniciamos a internacionalização da Academia.
Por sugestão do eminente professor catedrático Antônio Dias
Farinha, da Universidade de Lisboa, secretário da Academia de
Ciências de Lisboa, entidade fundada por D. Maria I, solicitamos
a nossa inscrição na União Acadêmica Internacional, com sede
em Bruxelas, na Bélgica.
Além da iniciativa da Academia portuguesa, o secretário geral
adjunto da União, Jean-Luc De Paepe, nos sugeriu a Academia
de Língua e Literatura de Buenos Aires, Argentina, como segunda
proponente, visto que há exigência de duas patrocinadoras. A
nossa admissão nos possibilitará participar das comissões
internacionais de sábios.
Iniciamos, internamente, contactos com as Academias
Municipais de Letras: Valença, Paulo Afonso, Vitória da
Conquista, Guanambi, Feira de Santana e Recôncavo. Há outros
sodalícios a serem contatados. Vamos em busca de outros espaços.
ATIVIDADES EM ANDAMENTO
Inúmeras atividades e projetos estão em processamento. Há,
todavia, de se reaver parte do nosso Arquivo que se encontra na
Biblioteca Pública do Estado da Bahia. É premente o tombamento
federal e estadual da sede e do acervo. O registro no Cartório de
Imóveis do prédio doado ainda não se efetivou apesar dos
esforços.
É preciso dar prosseguimento à restauração dos azulejos da
Academia conforme o projeto do técnico Estácio Fernandes e
concluir a pintura externa já iniciada graças à colaboração de Artur
Sampaio, presidente da Associação Cultural Brasil-Estados
Unidos.
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A DISSEMINAÇÃO DO CONHECIMENTO
Passemos às atividades de ensino-aprendizagem .
Dentre seminários, conferências e lançamentos, gostaríamos
de destacar as atividades do Ponto de Cultura: Espaço das Letras.
O projeto vitorioso do confrade Aleilton Fonseca, efetivou-se
em vários segmentos. O Círculo Baiano de Leitura, coordenado
pela professora Maria Lúcia Martins, debateu 8 (oito) livros de
literatos de projeção estadual e nacional com a participação de
escolas públicas e privadas.
As Oficinas Literárias, organizadas por Bruno Lopes do
Rosário, trabalharam: cordel com Antônio Carlos Barreto; leitura
de contos com Ivo Falcão; roteiro cinematográfico com Clarissa
Rebouças; narrativa de teatro com Roquildes Santos; e oficina de
quadrinhos com Vitor Santos, além das visitas guiadas.
O sucesso dos Encontros Literários se deve à feliz combinação
do trabalho conjunto de acadêmicos, autores e professores
universitários de literatura. Foi uma das atividades que atraíram
maior público de interessados. Iniciados em 2009 com Hélio
Pólvora e Mayrant Gallo (ficção), comentários de Antônia Herrera
e Gerana Damulakis; Ruy Espinheira Filho e Maria Lúcia Martins
(poesia), comentários de Lígia Telles e Valdomiro Santana; Luís
Henrique Dias Tavares e Adelice Souza (ficção), comentários de
Cássia Lopes e João Eurico Matta; Myriam Fraga e Ildásio Tavares
(poesia), comentários de Evelina Hoisel e Gustavo Felicíssimo.
Em 2010, os Encontro Literários foram intensificados e
realizados por: Carlos Ribeiro e Lima Trindade (ficção),
comentários de Luciano Lima e Suzana Varjão; Florisvaldo Mattos
e José Inácio Vieira de Melo (poesia), comentários de Cid Seixas
e Eliana Mara; Aleilton Fonseca e Állex Leyla (ficção), comentários
por Mirella Márcia e Rosel Soares; Fernando da Rocha Peres e
Kátia Borges (poesia), comentários por Francisco Lima e Nilson
Galvão; Aramis Ribeiro Costa e Carlos Barbosa (ficção),
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comentários por Ângela Vilma e Janaína Amado; Cleise Mendes
e Roberval Pereyr (poesia), comentários de Adelice Souza e
Nildecy Miranda Bastos; Armando Avena e Marcus Vinicius
Rodrigues (ficção), comentários de Andréa Hack e Gerana
Damulakis; Gláucia Lemos e Guilherme Radel (ficção),
comentários Ângela Vilma e Joaci Góes.
A Academia é reconhecida a Luís Antônio Cajazeiras Ramos,
ao acadêmico Carlos Ribeiro, a Bruno Lopes do Rosário e,
sobretudo ao acadêmico Aleilton Fonseca, dedicado confrade
encarregado da programação dos eventos.
SEMINÁRIOS SOBRE AUTORES
A professora Evelina Hoisel foi responsável pelo inovador
seminário “autor e obra”. A sua larga experiência como gestora
universitária, tanto na direção do Instituto de Letras da nossa
Alma Mater, como na coordenação da sua pós-graduação,
mestrado e doutorado, projetou-se, empiricamente, nesta
Companhia. O seminário Memória e Poesia analisou o conjunto da
obra poética de Myriam Fraga. A metodologia replicou-se na
análise da obra da escritora baiana Helena Parente Cunha, no
seminário As formas informes do desejo.
Esse tipo de colóquio temático deve ser continuado com outros
autores, a exemplo da contribuição das oficinas literárias de Judith
Grossmann e de outros escritores como Hélio Pólvora e Cláudio
Veiga. Marcantes eventos acadêmicos foram liderados por Evelina
Hoisel, basta lembrar o Colóquio Internacional Vieira na Bahia,
em comemoração ao seu IV centenário de nascimento, e o
Seminário Machado de Assis e Guimarães Rosa.
De igual modo, o acadêmico Aleilton Fonseca marca mais
uma vez a sua participação construtiva com o nosso grêmio.
Coordenou o seminário 100 anos do Manifesto Futurista e suas
repercussões no Brasil, explorando a contribuição de Almachio Diniz.
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O Curso Castro Alves alcança a quinta edição como Colóquio
da Literatura Baiana com a participação expressiva de estudantes
e professores das nossas universidades estaduais. Boa parte desses
universitários vêm dos municípios onde há educação superior. O
Colóquio é o único evento estadual para alunos e professores
pesquisadores da língua e da literatura. Nesse contexto, Aleilton
Fonseca concebe: “A Academia torna-se o lugar de catalisação
dos estudos, das motivações, do reconhecimento e do incentivo
aos mestres, discípulos e orientandos.”
Com o nosso confrade Ubiratan Castro de Araújo, presidente
da Fundação Pedro Calmon, efetivamos o seminário Novas Letras
e os encontros com as Academias Municipais.
O Instituto Goethe tem sido um parceiro constante. Realizamos
as semanas Hermann Hesse e Friedrich Hölderlin. Para este ano,
teremos a semana Franz Kafka. Podemos e devemos ampliar a
colaboração com outros centros bi-nacionais. O nosso intuito é
trabalharmos a literatura baiana no contexto nacional e internacional.
PRESENÇA AFRO-DESCENDENTE
Impulsionamos, conscientemente, a cultura afro-descendente,
na Academia. Não é mais possível deixarmos esse importante
segmento fora de nossas cogitações.
A incorporação da professora e doutora em línguas africanas
Yeda Pessoa de Castro tem sido um apoio na aproximação com a
mãe África. A confreira Yeda realizou o Curso de Línguas e
Culturas Africanas e o Curso Quilombos no Brasil, um trabalho
conjunto com a vitoriosa Universidade do Estado da Bahia
(Uneb), comprometida desde a sua criação com a cor e o semiárido baiano.Foi um prazer poder contar com a sua experiência
mais uma vez, recordando o pioneirismo quando juntos
introduzimos a disciplina Estudos Africanos, na escola secundária
baiana nos anos oitenta.
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O Curso Manuel Querino – Personalidades Negras tem como
fulcro o estudo, a difusão, a rememoração da vida e obra de
lideranças afro-descendentes baianas e brasileiras que se
destacaram nos mais diversos setores de atividades – Cosme de
Farias, Jorge de Lima e o idioma poético afro-descendente, Lima
Barreto, Alberto Guerreiro Ramos, Francisco Solano Trindade,
Francisco da Conceição Menezes, Edson Carneiro, George
Alakija, Artur Arézio da Fonseca, Mãe Senhora, Nelson de Araújo,
a Irmandade da Boa Morte de São Gonçalo dos Campos, Mãe
Menininha do Gantois. Chegamos à terceira edição com a
coordenação do professor e pesquisador Jaime Nascimento.
O tema do Prêmio Nacional Academia de Letras da Bahia /
Braskem, de 2010, versou sobre a literatura de expressão afrobrasileira (ficção). Venceu o escritor Ordep Serra com a obra
Ronda, oratório malungo. Com anos de atraso, a Academia ocupouse da literatura dos afro-descendentes. Ainda na década de setenta
do século passado o doutor, Gerald Moser, titular de língua e
literatura portuguesa, da Universidade do Estado da Pennsylvania,
a inesquecível Penn State da minha vida, já publicava uma
bibliografia sobre a literatura africana de expressão portuguesa.
A abertura para a cultura dos afro-descendentes foi uma das mais
marcantes inovações desses quatro anos.
Cursos e seminários da Academia efetivam a disseminação do
conhecimento. Credencia-se, dessa maneira, a captar recursos
públicos e privados para a sua programação.
Encerramos o resumo de nossas atividades de ensino com o
confrade Hélio Pólvora: “a Academia passou de um conciliábulo de
cultura ornamental para a amplitude de órgão que serve à cultura e
está comprometido com a educação extracurricular do Estado da
Bahia”. Eis uma das realizações pioneiras do presidente Cláudio Veiga
que teve a devida continuidade.
A gestão administrativa, contabilidade, finanças, biblioteca, arquivo
e secretaria constam dos anexos deste relatório. Para concluir, vamos
aos agradecimentos e à transmissão da presidência.
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RECONHECIMENTO
Concluindo a gestão da presidência, no período de 2007 a
2011, assim sintetizamos as principais contribuições: reforma do
estatuto e do regimento da Academia; criação da galeria dos
presidentes; seminário sobre autor e obra; musealização do solar
Góes Calmon; informatização da Academia e criação do website;
boletim; restauração das telas; programa Ponto de Cultura: espaço
das letras; coleção de gravuras; prêmio pelo conjunto da obra
com suporte pela Eletrogoes; criação das distinções Honra ao
Mérito e Amigo da Academia; Medalha Fundador Arlindo
Fragoso; inauguração do busto do acadêmico Jorge Calmon;
inauguração da estátua Góes Calmon; relacionamento com as
academias municipais; internacionalização com a filiação à União
Acadêmica Internacional; presença afro-descendente.
Em primeiro lugar, agradecemos ao Fundo de Cultura e à
Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. O doutor em
economia Paulo Henrique de Almeida e o administrador Carlos
Paiva muito colaboraram conosco. Mantivemos um diálogo
colaborativo com o secretário Márcio Meireles e estimulador da
territorialidade da cultura. O custeio anual da Academia monta a
quase 500 mil reais.
Ao prezado colega da Universidade Federal, prof. Albino Rubim,
novo secretário da Cultura, estudioso do fenômeno cultural, esta
Academia deseja o maior sucesso com manutenção da cooperação.
Agradecemos a todos os confrades. O reconhecimento aos
companheiros de diretoria: Waldir Freitas Oliveira, Cid Teixeira,
João Eurico Matta, Consuelo Pondé de Sena, Paulo Ormindo de
Azevedo, Ruy Espinheira Filho, Evelina Hoisel, Carlos Ribeiro.
Ressaltamos a colaboração especial de Aleilton Fonseca, Joaci
Góes, Aramis Ribeiro Costa, Samuel Celestino, que nos doou o
busto de Jorge Calmon, inaugurado em 16 de dezembro de 2011,
e o apoio de Myriam Fraga.Pelo que realizaram são,
verdadeiramente, benfeitores da Academia.
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O reconhecimento envolve o quadro de zelosos servidores desta
Academia: Maria do Carmo Moscovits, Marcelo Tinoco, na
secretaria; no setor administrativo e financeiro Valdir Sena e Valmiro
Marques Filho; a biblioteca aberta ao público vem aumentando o
número de consultas com a bibliotecária Genilda Santana; o arquivo
caminha para um núcleo de pesquisa bibliográfica e documental
com Bruno Lopes do Rosário; a informática, internet e marketing,
com Leonardo Cardoso de Moraes. Um destaque para Fernando
do Carmo dos Santos, Valmira Jesus da Silva e Ninalva Alves dos
Santos, dedicados servidores.
A todos que colaboraram com a Academia o nosso
agradecimento, Deus seja louvado.
Terminado o relato estatutário e com a certeza do dever
cumprido, passo ao confrade Aramis Ribeiro Costa a presidência
da Academia de Letras da Bahia.
PRESIDENTE ARAMIS RIBEIRO COSTA
O escritor vocacionado soube construir a sua obra de
romancista e contista, mais uma vez consagrada pelo ingresso na
Academia. Além da obra e da excelência do seu currículo, o
confrade Aramis é um dos mais dedicados confrades ao nosso
sodalício. Demonstra amor à causa acadêmica e vela zelosamente
pelos seus atos constitutivos. A nossa escolha para dirigir o grêmio
contou com a unanimidade dos confrades. Estamos certos que a
Academia em suas mãos estará segura e muito progredirá.
Meu caro confrade Aramis, diz São Paulo, na carta aos Hebreus,
que “O lugar compete àquele a quem está destinado”. A
presidência da Academia de Letras da Bahia é o seu lugar.
Seja bem feliz com a Diretoria.
Salvador, 24 de março de 2011.
_________
Discurso proferido no salão nobre da Academia de Letras da Bahia, na Sessão
de Abertura do Ano Acadêmico de 2011.
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DIVERSOS
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Efemérides
2010
Março
14 – Sessão especial para homenagem a Castro Alves: 163 anos,
com exibições dos filmes Retrato falado do poeta Castro Alves,
direção de Sílvio Tendler; e o documentário A noiva direção de
Claude Santos – IFPC/ALB.
17 – Sessão especial para a aula inaugural do Programa de Pósgraduação: da informação Instituto de Ciência da informação/
UFBA, com as seguintes programações: abertura Prof. Edivaldo
M. Boaventura, Presidente da ALB e Profª. Henrieta Ferreira
Gomes, coordenadora da PPGCI; aula inaugural da Ciência à
Filosofia da Informação com o Prof. Armando Malheiro da
Silva – Univ. do Porto-Portugal; lançamento do livro A medicina
na era da informação – organizadores: Profª. Zeny Duarte e Prof.
Lúcio Farias. Apresentação Prof. Edivaldo M. Boaventura;
Lanche.
18 – Sessão especial de abertura do ano acadêmico: lançamento
do Prêmio Nacional de Literatura ALB/Braskem/ficção 2010 e
lançamento do livro Sete portas do escritor Ordep Serra, vencedor
do Prêmio/conto 2008.
19- Encontros literários na ALB (ficção): Carlos Ribeiro e Lima
Trindade, comentários : Luciano Lima (UNEB) e Suzana Varjão
(jornalista); Lançamento do livro Contos de sexta-feira e duas ou
três crônicas do escritor e acadêmico Carlos Ribeiro.
23 a 25 – 2º Curso Manuel Querino – Personalidades Negras.
Coordenação do Prof. Jaime Nascimento. Abertura Prof.
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Edivaldo M. Boaventura Presidente da ALB, Dep. Marcelo Nilo
Presidente da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia e o
Prof. Penildo Silva Filho – Palestra: Manuel Querino e as artes na
Bahia – Prof. Dr. Luís Alberto Freire (UFBA); Manuel Querino:
Vida e obra na luta contra o racismo científico – Profª. Ms. Sabrina
Gledhil (Pós-Afro CEAO-UFBA/IGHB); Palestra: Francisco
Solano Trindade – Profª. Raquel Trindade; Palestra: Francisco da
Conceição Menezes: o educador – Profª. Ms. Débora Kelman de Lima
(colégio da Bahia); Debate e encerramento. Palestra: Antonio de
Souza – coronel negro da Chapada Diamantina, Prof. Ms. Jedean
Gomes Leite(UNEB); palestra: Edison Carneiro e o samba na chave
do Folclore, Profª. Maria Alessandra Carvalho da Cruz (UCSAL);
palestra: George Alakija: ensaio para um perfil biográfico, Prof. Ms.
Alakija; palestra Arthur Arézio da Fonseca: um nome para escrever em
caixa alta. Prof. Dr. Luis Guilherme Pontes Tavares (FIB/ALB);
debate e encerramento. Palestra: Mãe Senhora, filha de Uxum Miera
– Prof. Luís Domingos de Souza (restaurante Maria de S. Pedro).
Palestra: Nelson de Araújo. Prof. Dr. Adailton Silva dos Santos
(UNEB); palestra: A Boa Morte de S. Gonçalo dos Campos – A
família Cazumbá, Prof. Dr. Sebastião Heber Vieira da Costa
(UNEB-IGHB); palestra: Mãe Menininha do Gantois. Prof. Dr.
Francisco Soares de Senna (UFBA/ALB). Debate e
encerramento.
Abril
08 – Homenagem póstuma ao saudoso acadêmico Rubem
Nogueira, cad. 35, sendo orador o confrade Waldir Freitas
Oliveira.
15 – Reunião da Diretoria da ALB.
16 – Encontros literários na ALB (Poesia): Florisvaldo Mattos e José
Inácio Vieira de Melo; comentários de Cid Seixas e Eliana Mara.
Coordenação do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos.
Lançamento do livro Roseiral do Poeta José Inácio.
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Maio
06 – Sessão especial para a palestra do acadêmico Waldir Freitas
Oliveira: A selva – 80 anos depois. Sessão conjunta da ALB,
consulado de Portugal e IGHB.
20 – Sessão ordinária com a presença dos acadêmicos Consuelo
Pondé de Sena, Consuelo Novais Sampaio, Luís Henrique Dias
Tavares, Emanuel d’ Able do Amaral, Mons. Gaspar Sadoc,
Geraldo Machado, João Eurico Matta, Evelina Hoisel, Aleilton
Fonseca, Edivaldo Boaventura Presidente da ALB, Fernando
da Rocha Peres. Reunião da diretoria com acadêmicos e
funcionários.
21 – Encontros Literários na ALB (ficção): Aleilton Fonseca e
Alex Leylla; Comentários: Mirella Márcia e Rosel Soares.
Coordenação: do Acadêmico Carlos Ribeiro.
26 – Seminário Novas Letras: seminário Mulheres e Peixes FPC/ALB.
Conferências: Peixes e mulher: quanto mais fritos melhor! Gal Meirelle
(UNEB); As noivas do Golfinho: mulheres praieiras nos contos de Xavier
Marques; Denise Gomes (UNEB); Clarice e os peixes: flutuações
literárias, Rosana Patrício (UEFS) seguido do lançamento da edição
fac-similar Jana e Joel, de Xavier Marques e apresentação da banda
da 6ª Região Militar – Exército Brasileiro.
27 – Sessão ordinária a que estiveram presentes os acadêmicos
Consuelo Pondé de Sena, Carlos Ribeiro, Cláudio Veiga, Cid
Teixeira, Samuel Celestino, Geraldo Machado, Ruy Espinheira
Filho, Mons. Gaspar Sadoc, Luís Henrique Dias Tavares,
Francisco Senna, Waldir Freitas Oliveira, Roberto Santos
Edivaldo Boaventura, Consuelo Sampaio, Aramis Ribeiro Costa,
Emanuel d’ Able do Amaral, Fernando da Rocha Peres, João
Eurico Matta, Evelina Hoisel, Paulo Costa Lima, Paulo
Ormindo, Joaci Góes.
Eleição para a sucessão do acadêmico Rubem Nogueira, cad.
nº35.
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Junho
10 – Sessão solene para a posse do poeta Antônio Brasileiro na
cadeira nº21 de que foi o último ocupante a acadêmica Zélia Gattai
Amado, sendo saudada pelo confrade Ruy Espinheira Filho.
17 – Homenagem póstuma ao saudoso acadêmico Epaminondas
Costalima, cad. nº14, sendo oradora a confreira Consuelo Pondé
de Sena.
18 – Encontros Literários na ALB (poesia): Fernando da Rocha
Peres e Kátia Borges; comentários de Francisco Lima e Nilson
Galvão. Coordenação do acadêmico Aleilton Fonseca.
Julho
01 – Sessão ordinária com a presença dos acadêmicos Edivaldo
Boaventura Presidente da ALB, Myriam Fraga, Consuelo Pondé,
Cid Teixeira. Reunião da Diretoria e acadêmicos.
08 – Sessão ordinária. Pressentes os acadêmicos Consuleo Pondé,
Dom Emanuel d’ Able do Amaral, Consuelo Sampaio, Joaci Góes,
Ruy Espineira Filho, Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro, Aramis
Ribeiro Costa, Waldir Freitas Oliveira. Apresentação de candidatos
à sucessão do acadêmico Epaminondas Costalima, cad. nº14.
15 – Encontros Literários na ALB (ficção): Aramis Ribeiro Costa e
Carlos Barbosa, comentários: Ângela Vilma e Janaina Amado
(Ponto de Cultura).
22 – Reunião da diretoria para tratar da Revista, Site e Anuário da
ALB.
29 – Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Cláudio
Veiga, Geraldo Machado, Luís Henrique Dias Tavares, Carlos
Ribeiro, Hélio Pólvora, Mons. Gaspar Sadoc, Waldir Freitas
Oliveira, Cid Teixeira, Ruy Espinheira Filho, Roberto Santos,
Consuelo Pondé, Dom Emanuel d’ Able do Amaral, Edivaldo
M. Boaventura Presidente da ALB, Consuelo Novais, Aramis
Ribeiro Costa, Francisco Senna, Joaci Góes. Myriam Fraga, João
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Eurico Matta, Aleilton Fonseca, Armando Avena. Indicação
de candidatos à vaga do acadêmico Epaminondas Costalima,
cad. nº14.
Agosto
05 – Sessão ordinária com a presença dos acadêmicos Aramis
Ribeiro Costa, Edivaldo Boaventura Presidente da ALB e
convidados. Palestra do Prof. Antônio Sá da Silva: Destino, ação e
sabedoria na literatura oral do sertão.
17 – Sessão especial para a palestra Vida e obra do escritor angolano
Oscar Ribas: Drª. e acadêmica Yeda Pessoa de Castro. Realização
Casa de Angola e ALB. Exposição das obras de Oscar Ribas.
26 – Encontros Literários na ALB (Poesia): Cleise Mendes e Roberval
Pereyr, comentários: Adelice Souza e Nildecy Bastos de Miranda
(Ponto de Cultura).
Setembro
02 – Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Waldir
Freitas Oliveira, Gláucia Lemos, Edivaldo Boaventura Presidente
da ALB, Roberto Santos, Cid Teixeira, Aramis Ribeiro Costa,
Consuelo Sampaio, Paulo Ormindo, João Eurico Matta. Palestra
do acadêmico Waldir Freitas Oliveira: La vorágine: o romance
amazônico da Colômbia.
09 – Sessão solene para a posse do jornalista e escritor João Falcão
na cadeira nº35 de que foi o último ocupante o acadêmico Rubem
Nogueira, sendo saudado pelo confrade Joaci Góes. Exposição
das obras do autor João Falcão.
16 – Sessão ordinária a que estiveram presentes os acadêmicos
Edivaldo Boaventura Presidente da ALB, Cláudio Veiga, Luís Henrique
Dias Tavares, Cid Teixeira, João Falcão, Myriam Fraga, Consuelo Novais,
Evelina Hoisel, João Eurico Matta. Palestra do acadêmico Luís
Henrique Dias Tavares: O biógrafo das criaturas de Jorge Amado.
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22 a 24 – Curso Castro Alves 5º Colóquio Baiano de Literatura (Ponto
de Cultura). Coordenação acadêmico Aleilton Fonseca. Palavra
de Abertura: Edivaldo M. Boaventura Presidente da ALB; Sessão
1, 2, 3 e 4 – Comunicação de Literatura Baiana; Mesa redonda:
Pontos de Literatura Baiana, coordenação: Aleilton Fonseca
(UEFS/ALB): Mortes e sinais: como se chega à Literatura Baiana?
Adeítalo Manol Pinho (UEFS): Letras(en)cena: Cleise Mendes no
entrelugar da Literatura e do Teatro da Bahia, Eduardo Silva Dantas
de Matos (UFBA). Novíssima Literatura Baiana: as derivas do sujeito
na escrita de Ângela Vilma, Sandro Ornelas e Marcus Vinícius
Rodrigues, Lívia Maria Natália de Souza Santos (UFBA); Sessões
5, 6, 7 e 8 – Comunicações de Literatura Baiana; Conferência: A
Bahia na modernidade da Literatura Brasileira, Valmiro Santana (Fund.
Pedro Calmon); documentário: A Bahia de Euclides da Cunha,
direção Carlos Pronzato; Sessões 9, 10, 11 e 12 – Comunicações
de Literatura Baiana; conferência: As musas de Castro Alves: Antônio
Carlos Secchin (UFRJ/ALB/ABL); Recital: Castro Alves em seus
poemas de amor: Aicha Marques e Sandro Rangel, direção Aicha
Marques.
30 – Encontros Literários na ALB (ficção): Armando Avena e Marcus
Vinícius Rodrigues. Comentários: Andréa Hack e Gerana
Damulakis (Ponto de Cultura).
Outubro
07 – Sessão ordinária com a presença dos acadêmicos Aramis
Ribeiro Costa, Paulo Ormindo, Edivaldo Boaventura Presidente
da ALB, Geraldo Machado, Myriam Fraga, Joaci Góes, Evelina
Hoisel, João Eurico Matta. Palestra do acadêmico Paulo
Ormindo David de Azevedo: Da francesia ao americanismo através
da música popular.
07 – Entrega do Prêmio pelo conjunto da obra à escritora Helena
Parente Cunha, patrocinado pela Eletrogóes. Lançamento do livro
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As formas informes do desejo: Seminário Helena Parente Cunha, reunindo
estudos sobre a obra da escritora.
18 – Semana Friederich Hölderlin – Palestra de abertura: Dr. Marco
Aurélio Werle (USP): Hölderlin: intuição e intimidade
19 e 20 – Oficina de Cordel Antônio Carlos Barreto: A voz do Cordel nos
saberes da vida (Ponto de Cultura).
21 – Sessão solene de posse da escritora Gláucia Lemos na cad.
nº14 de que foi o último ocupante o acadêmico Epaminondas
Costalima, sendo saudada pelo confrade Waldir Freitas Oliveira.
25 e 26 – Oficina de leitura de contos Ivo Falcão (Ponto de Cultura).
Novembro
04 – Visita guiada na ALB pela moralizadora Cultural Diana Souza
(Ponto de Cultura).
09 e 10 – Oficina de Roteiro Cinematográfico Clarissa Rebouças (Ponto
de Cultura).
11 – Homenagem póstuma ao membro correspondente Anthony
John R. Russel-Wood (1940-2010), sendo oradora a acadêmica
Consuelo Novais Sampaio.
17 – Lançamento dos Anais da Secretaria da Educação e Cultura do
Município do Salvador Leitura de poemas de Gregório de Mattos.
18 – Encontros Literários na ALB (ficção) – Gláucia Lemos e
Guilherme Radel. Comentários de Ângela Wilma e Joaci Góes
(Ponto de Cultura).
23 e 24 – Oficina de Narrativa e Teatro Roquildes Santos (Ponto de
Cultura).
24 – Lançamento dos livros: A Bahia e seus governantes na República
de Antonio Ferrão Moniz de Aragão e Povoamento da cidade do Salvador,
de Thales de Azevedo, duas importantes obras da história da
Bahia, que voltam a público em edições fac-similares.
25 – Sessão ordinária com a presença dos acadêmicos Waldir
Freitas Oliveira, Cid Teixeira, Cláudio Veiga, Luís Henrique Dias
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Tavares, Dom Emanuel d’ Able do Amaral, Paulo Ormindo, Ruy
Espinheira Filho, Roberto Santos, João Falcão, Paulo Costa Lima,
Geraldo Machado, Aramis Ribeiro Costa, Consuelo Pondé,
Consuelo Novais Sampaio, Carlos Ribeiro, Evelina Hoisel, Myriam
Fraga, Joaci Góes, Aleilton Fonseca. Eleição da nova diretoria.
Dezembro
14 e 15 – Oficina de quadrinhos – Vitor Souza (Ponto de Cultura).
16 – Inauguração do busto do acadêmico Jorge Calmon elaborado
pela escritora Márcia Magno. Promoção ABL/ABI.
Lançamento da Revista da ALB nº49.
28 – Sessão ordinária com a presença dos acadêmicos Edivaldo
Boaventura Presidente da ALB, Carlos Ribeiro, Paulo Ormindo,
Yeda Castro, Luís Henrique Dias Tavares, Gláucia Lemos, Aramis
Ribeiro Costa, Dom Emanuel d’ Able do Amaral, Paulo Costa
Lima, Consuelo Sampaio, João Eurico Matta, Joaci Góes, Aleilton
Fonseca, Consuelo Pondé de Sena. Aprovação da Ata da eleição
da nova diretoria. Biênio 2011/2012.
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Quadro Social da ALB
Cadeira 1 Patrono: Frei Vicente de Salvador
Fundador: José de Oliveira Campos
2º Titular: Júlio Afrânio Peixoto, fundador da Cadeira 25, por
transferência consentida pela Academia
3º Titular: José Wanderley de Araújo Pinho
Titular atual: Luís Henrique Dias Tavares
Posse em 14.06.1968
Cadeira 2 Patrono: Gregório de Mattos e Guerra
Fundador: Aloysio Lopes Pereira de Carvalho, conhecido por
Lulu Parola
2º Titular: Luis Viana Filho
Titular atual: Paulo Ormindo David de Azevedo
Posse em 20.06.1991
O quadro dos titulares da Academia de Letras da Bahia foi elaborado pelo
acadêmico Renato Berbert de Castro (1924-1999).
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Cadeira 3 Patrono: Manuel Botelho de Oliveira
Fundador: Arthur Gonçalves de Sales
2º Titular: Eloywaldo Chagas de Oliveira
Titular atual: Anna Amélia Vieira Nascimento
Posse em 26.03.1992
Cadeira 4 Patrono: Sebastião da Rocha Pita
Fundador: Braz Hermenegildo do Amaral
2º Titular: João da Costa Pinto Dantas Júnior
3º Titular: Jayme de Sá Menezes
Titular atual: Geraldo Magalhães Machado
Posse em 31.10.2003
Cadeira 5 Patrono: Luís Antônio de Oliveira Mendes
Fundador: Carlos Chiacchio
2º Titular: Antônio Luís Cavalcanti Albuquerque de Barros
Barreto
3º Titular: Carlos Benjamin de Viveiros
4º Titular: José Silveira
5º Titular: Guido Guerra
Titular atual: Carlos Jesus Ribeiro
Posse em 31.05.2007
Cadeira 6 Patrono: Alexandre Rodrigues Ferreira
Fundador: Manoel Augusto Pirajá da Silva
2º Titular: Thales Olímpio Góes de Azevedo
3º Titular: Dom Lucas Cardeal Moreira Neves
Titular atual: Cleise Furtado Mendes
Posse em 15.04.2004.
Cadeira 7 Patrono: José da Silva Lisboa Visconde de Cairu
Fundador: Ernesto Carneiro Ribeiro
2º Titular: Francisco Borges de Barros
3º Titular: Aloísio de Carvalho Filho. Eleito para a Cadeira 26, permutou
esta, obtendo acordo da Academia, pela Cadeira 7, com monsenhor
Francisco de Paiva Marques, quando ambos ainda não-empossados.
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4º Titular: Nélson de Souza Sampaio
5º Titular: Pedro Moacir Maia
Titular atual: Joaci Fonseca de Góes
Posse em: 24.09.2009
Cadeira 8 Patrono: Cipriano José Barata de Almeida
Fundador: Luís Anselmo da Fonseca
2º Titular: Francisco Peixoto de Magalhães Netto
3º Titular: Adriano de Azevedo Pondé
4º Titular: Ari Guimarães
Titular atual: Paulo Costa Lima
Posse em 10.11.1988
Cadeira 9 Patrono: Antônio Ferreira França
Fundador: José Alfredo de Campos França
2º Titular: Edgard Ribeiro Sanches
3º Titular: Antônio Luís Machado Neto
4º Titular: Cláudio de Andrade Veiga
Titular atual: João Ubaldo Ribeiro (ainda não empossado)
Eleito em 21.07.2011
Cadeira 10 Patrono: José Lino dos Santos Coutinho
Fundador: Antônio Muniz Sodré de Aragão
2º Titular: Altamirando Alves da Silva Requião
Titular atual: Monsenhor Gaspar Sadoc
Posse em 16.10.1990
Cadeira 11 Patrono: Francisco gê Acaiaba de Montezuma, Visconde de
Jequitinhonha
Fundador: Antônio Ferrão Moniz de Aragão
2º Titular: Otávio Torres
3º Titular: Oldegar Franco Vieira
Titular atual: Yeda Pessoa de Castro
Posse em 10.04.2008
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Cadeira 12 Patrono: Miguel Calmon, Marquês de Abrantes
Fundador: Miguel Calmon du Pin e Almeida
2º Titular: Alberto Francisco de Assis
3º Titular: Afonso Rui de Sousa
4º Titular: Itazil Benício dos Santos
Titular atual: Aramis de Almada Ribeiro Costa
Posse em 25.11.1999
Cadeira 13 Patrono: Francisco Moniz Barreto
Fundador: Egas Moniz Barreto de Aragão, literariamente
conhecido por Pethion de Villar
2º Titular: Afonso de Castro Rebelo Filho
3º Titular: Walter Raulino da Silveira
4º Titular: Odorico Montenegro Tavares da Silva
5º Titular: Luís Fernando Seixas de Macedo Costa
Titular atual: Myriam de Castro Lima Fraga
Posse em 30.07.1985
Cadeira 14 Patrono: Francisco Gonçalves Martins, Visconde de São
Lourenço
Fundador: Bernardino José de Sousa
2º Titular: Alberto Alves Silva
3º Titular: Edgard Rego Santos
4º Titular: Raul Batista de Almeida
5º Titular: Carlos Vasconcelos Maia
6º Titular. Epaminondas Costalima
Titular atual: Gláucia Maria de Lemos
Posse em 21.10.2010
Cadeira 15 Patrono: Ângelo Moniz da Silva Ferraz, Barão de
Uruguaiana
Fundador: Otaviano Moniz Barreto
2º Titular: Hèlio Gomes Simões
Titular atual: João Carlos Teixeira Gomes
Posse em 08.06.1989
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Cadeira 16 Patrono: José Tomáz Nabuco de Araújo
Fundador: Eduardo Godinho Espínola
2º Titular: Orlando Gomes dos Santos
Titular atual: João Eurico Matta
Posse em 10.05.1989
Cadeira 17 Patrono: Antônio Ferrão Moniz
Fundador: Gonçalo Moniz Sodré de Aragão
2º Titular: Leopoldo Braga
3º Titular: Carlos Eduardo da Rocha
Titular atual: Ruy Espinheira Filho
Posse em 15.09.2000
Cadeira 18 Patrono: Zacarias de Góes e Vasconcelos
Fundador: José Joaquim Seabra
2º Titular: Augusto Alexandre Machado
3º Titular: Dom Avelar Brandão Vilela
Titular atual: Waldir Freitas Oliveira
Posse em 27.10.1987
Cadeira 19 Patrono: João Maurício Vanderley, Barão de Cotegipe
Fundador: Severino dos Santos Vieira
2º Titular: Arlindo Coelho Fragoso. Fundador da Cadeira 41,
criada em caráter provisório, transferiu-se para esta, após a morte
de Severino Vieira, ocorrida a 27 de setembro de 1917, a fim de
que fosse extinta a temporária.
3º Titular: Deraldo Dias de Morais
4º Titular: Guilherme Antônio Freire de Andrade Filho
5º Titular: Godofredo Rebelo de Figueiredo Filho
Titular atual: Cid José Teixeira Cavalcante
Posse em 25.03.1993
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Cadeira 20 Patrono: Augusto Teixeira de Freitas
Fundador: Carlos Gonçalves Fernandes Ribeiro
2º Titular: Epaminondas Berbert de Castro
3º Titular: Lafayette Ferreira Spínola
4º Titular: Ivan Americano da Costa
5º Titular: Joaquim Alves da Cruz Rios
Titular atual: Aleilton Santana da Fonseca
Posse em 15.04.2005
Cadeira 21 Patrono: Francisco Bonifácio de Abreu, Barão da Vila da
Barra
Fundador: Filinto Justiniano Ferreira Barros
2º Titular: Estácio Luís Valente de Lima
3º Titular: Jorge Amado
4º titular: Zélia Gattai Amado
Titular atual: Antonio Brasileiro Borges
Posse em: 10.06.2010
Cadeira 22 Patrono: José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio
Branco
Fundador: Ruy Barbosa
2º Titular: Ernesto Carneiro Ribeiro Filho
3º Titular: Aloísio Henrique de Barros Porto
Titular atual: Clóvis Álvares Lima
Posse em 08.05.1980
Cadeira 23 Patrono: Antônio Januário de Faria
Fundador: João Américo Garcez Fróes
2º Titular: Jorge Calmon Moniz de Bittencourt
Titular atual: Samuel Celestino Silva Filho
Posse em 21.08.2008
Cadeira 24 Patrono: Demétrio Ciriaco Tourinho
Fundador: Luís Pinto de Carvalho
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2º Titular: Luís Menezes Monteiro da Costa
3º Titular: Renato Berbert de Castro
Titular atual: Francisco Soares Senna
Posse em 27.04.2000
Cadeira 25 Patrono: Pedro Eunápio da Silva Deiró
Fundador: Júlio Afrânio Peixoto. Com o consentimento da
Academia, transferiu-se para a Cadeira 1 após a morte de seu
fundador, José de Oliveira Campos.
2º Titular: Francisco Hermano Santana
3º Titular: Raimundo de Sousa Brito
4º Titular: Luís Augusto Fraga Navarro de Brito
Titular atual: Fernando da Rocha Peres
Posse em 16.06.1988
Cadeira 26 Patrono: Dom Antônio de Macedo Costa
Fundador: Padre José Cupertino de Lacerda
2º Titular: Alberto Moreira Rabelo, único membro da
Academia que faleceu antes de tomar posse.
3º Titular: Monsenhor Francisco de Paiva Marques.
Eleito para a Cadeira 7, permutou esta pela Cadeira 26, com
Aloísio de Carvalho Filho, quando ambos ainda nãoempossados.
4º titular: César Augusto de Araújo
Titular atual: Roberto Figueira Santos
Posse em 10.08.1971
Cadeira 27 Patrono: Francisco Rodrigues da Silva
Fundador: Frederico de Castro Rebelo
2º Titular: Antônio Gonçalves Vianna Júnior
3º Titular: Jaime Tourinho Junqueira Aires
4º Titular: Antônio Loureiro de Souza
Titular atual: James Amado
Posse em 26.04.1990
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Cadeira 28 Patrono: Luís José Junqueira Freire
Fundador: Francisco Torquato Bahia da Silva Araújo
2º Titular: Homero Pires de Oliveira e Silva
3º Titular: José Calasans Brandão e Silva
Titular atual: Consuelo Pondé de Sena
Posse em 14.03.2002
Cadeira 29 Patrono: Agrário de Souza Menezes
Fundador: Antônio Alexandre Borges dos Reis
2º Titular: Manços Chastinet Contreiras
3º Titular: Colombo Moreira Spínola
4º Titular: Jorge Faria Góes
Titular atual: Hélio Pólvora de Almeida
Posse em 08.03.1994
Cadeira 30 Patrono: Joaquim Monteiro Caminhoá
Fundador: Antônio do Prado Valadares. Permutou a cadeira
com Roberto José Correia, titular da 38.
2º Titular: Roberto José Correia
3º Titular: Alfredo Vieira Pimentel
4º Titular: Nestor Duarte Guimarães
5º Titular: Josaphat Ramos Marinho
Titular atual: Paulo Furtado
Posse em 24.04.2003
Cadeira 31 Patrono: Belarmino Barreto
Fundador: Ernesto Simões da Silva Freitas Filho
2º Titular: José Luís de Carvalho Filho
Titular atual: Florisvaldo Mattos
Posse em 23.11.1995
Cadeira 32 Patrono: André Pinto Rebouças
Fundador: Teodoro Fernandes Sampaio
2º Titular: Isaías Alves de Almeida
3º Titular: Zitelmann José Santos de Oliva
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Titular atual: Gérson Pereira dos Santos
Posse em 28.11.1991
Cadeira 33 Patrono: Antônio de Castro Alves
Fundador: Francisco Xavier Ferreira Marques
2º Titular: Heitor Praguer Fróes. Tomou posse em 15 de
novembro de 1931, na Cadeira 34, transferindo-se para esta,
após a morte de Xavier Marques
3º Titular: Waldemar Magalhães Mattos
Titular atual: Ubiratan Castro de Araújo
Posse em 17.11.2004
Cadeira 34 Patrono: Domingos Guedes Cabral
Fundador: José Virgílio da Silva Lemos
2º Titular: Heitor Pragues Fróes. Transferiu-se para a Cadeira
33, depois do desparecimento de Xavier Marques
3º Titular: Adalício Coelho Nogueira
4º Titular: Walfrido Moraes
Titular atual: Evelina de Carvalho Sá Hoisel
Posse em 27.10.2005
Cadeira 35 Patrono: Manoel Vitorino Pereira
Fundador: Antônio Pacífico Pereira
2º Titular: Afonso Costa
3º Titular: Rui Santos
4º Titular: Rubem Rodrigues Nogueira
5º Titular: João da Costa Falcão
Cadeira vaga
Cadeira 36 Patrono: Joaquim Jerônimo Fernandes da Cunha
Fundador: Afonso de Castro Rebelo
2º Titular: Mosenhor Manuel de Aquino Barbosa
3º Titular: Hildegardes Vianna
Titular atual: José Carlos Capinan
Posse em 17.08.2006
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Cadeira 37 Patrono: João Batista de Castro Rebelo Júnior
Fundador: Almachio Diniz Gonçalves
2º Titular: Edith Mendes da Gama e Abreu
3º Titular. Antonio Carlos Magalhães
Titular atual: Dom Emanuel d’Able do Amaral
Posse em: 28.05.2009
Cadeira 38 Patrono: Alfredo Tomé de Brito
Fundador: Oscar Freire de Carvalho
2º Titular: Roberto José Correia. Permutou sua cadeira com
Prado Valadares, fundador da Cadeira 30.
3º Titular: Antônio do Prado Valadares
4º Titular: Cristiano Alberto Müller
5º Titular: Wilson Mascarenhas Lins de Albuquerque
Titular atual: Armando Avena Filho
Posse em 28.04.2005
Cadeira 39 Patrono: Francisco de Castro
Fundador: Clementino Rocha Fraga Filho
Titular atual: Edivaldo Machado Boaventura
Posse em 06.08.1971
Cadeira 40 Patrono: Francisco Cavalcanti Mangabeira
Fundador: Otávio Cavalcanti Mangabeira
2º Titular: Manoel Pinto de Aguiar
Titular atual: Consuelo Novais Sampaio
Posse em 26.11.1992
Obs.:
Cadeira 41 - Criada em caráter provisório para que Arlindo Fragoso,
idealizador e organizador da Academia, não lhe ficasse de fora, devendo
ser extinta com o falecimento de qualquer um dos 41 fundadores.
Patrono: Manuel Alves Branco, Visconde de Caravelas (2º). Fundador
Arlindo Coelho Fragoso. Com a morte de Severino Vieira, em 27 de
setembro de 1917, para a sua Cadeira, de número 19, foi transferido
Arlindo Fragoso, e supressa a cadeira provisória.
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Endereços dos acadêmicos
LUÍS HENRIQUE DIAS TAVARES
Rua do Ébano, 159, Edfº Henti Matisse, aptoº 802
Caminho das Árvores
Salvador - BA - 41820-370
(71) 3245-3524
[email protected]
PAULO ORMINDO DE AZEVEDO
Rua João da Silva Campos, 1132, Itaigara
Salvador - BA - 41840-060
(71) 3358-7571
[email protected]
ANNA AMÉLIA VIEIRA NASCIMENTO
Rua Cândido Portinari, 19, Barra
Salvador - BA - 40140-680
(71) 3247-3312
[email protected]
GERALDO MAGALHÃES MACHADO
R. Edith Mendes da Gama e Abreu, nº300
Edfº. Port Saint James, aptoº1403, Itaigara
Salvador - BA - 41815-010
(71) 3353-5350 / (71)9976-7033
[email protected]
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CARLOS RIBEIRO
Rua do Timbó, 680 Edf. Villa Etruska, aptoº503
Caminho das Árvores
Salvador - BA - 41820-660
(71) 3011-7019/ (71) 8899-5864
[email protected]
CLEISE MENDES
Av. Araújo Pinho, 114/1301, Canela
Salvador - BA - 40110-050
(71)3337 0312
[email protected]
JOACI GÓES
Av. Amaralina, 885 – Edf. Amaralina Center – Loja 9
Salvador -BA - 41900-020
(71) 3444-2308 / (71)8814-3631
[email protected]; [email protected]
PAULO COSTA LIMA
Rua Sabino Silva, nº282, Edf. Saint Mathieu, aptoº401
Jardim Apipema - Salvador -BA - 40155-250
(71) 8832-1545 /(71)3235-5676
[email protected]
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Rua General Urquiza, 147/401
Rio de Janeiro - RJ - 22431-040
(21)
[email protected]
YEDA PESSOA DE CASTRO
Rua Rodrigues Dórea, Qd 23 Lt 3 - Jardim Armação
Salvador -BA - 41750-030
(71) 3461-9033
[email protected]
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MONSENHOR GASPAR SADOC
Rua Crisipo de Aguiar, 12, aptº 102
Salvador - BA - 40080-310
(71)3336-0346
ARAMIS RIBEIRO COSTA
Rua Piauí, 439, aptº 1103, Pituba
Salvador - BA - 41830-280
(71)3240 4969 / (71)9984-1165
[email protected]
MYRIAM FRAGA
Rua Waldemar Falcão, 761, aptº 301, Brotas
Salvador - BA - 40295-001
(71) 3356 4611
[email protected]
GLÁUCIA LEMOS
Rua Ceará, 853, apto. 203 - Pituba
Salvador -BA 4l830-450
(71)3240-3688/(71)9147-9904
[email protected]
JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES
Rua Espírito Santo, 15, aptº 802, Pituba
Salvador - BA - 41830-190
(71) 3240 1712 / (21) 2246-0790
JOÃO EURICO MATTA
Rua Afonso Celso, nº301, Edf. Concórdia, aptoº302 - Barra
Salvador - BA - 40140-080
(71) 3247-0869/ (71)8880-0869
[email protected]
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RUY ESPINHEIRA FILHO
Caixa Postal 10333
Salvador - BA - 41520-970
(71)3287 2225/ (71) 9973-8711
[email protected]
WALDIR FREITAS OLIVEIRA
Rua Tiradentes, 52, Abrantes
Camaçari - BA - 42840-000
(71) 3623 1434
[email protected]
CID TEIXEIRA
Rua das Violetas, 85, Pituba
Salvador - BA - 41810-080
(71) 3452 -7202
[email protected]
ALEILTON FONSECA
Rua Rubem Berta, 267, aptº 402, Pituba
Salvador - BA - 41810-045
(71) 3345 1519 / (71)88761519
[email protected]
ANTONIO BRASILEIRO
Rua Alto do Paraná, 300 – Bairro Sim
44.042-000 Feira de Santana - BA - 44042-000
(75)3625-8512
[email protected]
CLÓVIS LIMA
Av. Sete de Setembro, 750, aptº 404, Mercês
Salvador - BA - 40060-001
(71) 3329 4178
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SAMUEL CELESTINO
Rua do Ébano, nº159 - Edf. Henri Matisse Aptº.1301
Caminho das Árvores
Salvador - BA - 41820-370
(71) 3341-4485 / 71- 3359-7741
[email protected]
FRANCISCO SENNA
Rua Prof. Milton Oliveira, nº73
Edf. Palazzo Anacapri, aptoº202 - Barra
Salvador - BA -40.140-100
(71)9967-0685
FERNANDO DA ROCHA PERES
Av. Sete, 2901, ala norte, aptº 202, Ladeira da Barra
Salvador - BA - 40130-000
(71)3336 3670
ROBERTO SANTOS
Rua Basílio Catalã de Castro, Quinta do Candeal, quadra B, lote 19
Salvador - BA - 40280-550
(71) 3276 57549
[email protected]
JAMES AMADO
Rua Edith Gama Abreu, 53, aptº 1203 - Itaigara
Salvador - BA - 41815-010
(71) 3358 5203
CONSUELO PONDÉ DE SENA
Av. Princ. Leopoldina, 288, aptº 301, Graça
Salvador - Ba - 40150-080
(71) 3336 6205
[email protected]
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HÉLIO PÓLVORA
Av. Sete de Setembro, 1862/1202, Corredor da Vitória
Salvador - BA - 40080-004
(71) 3337 0169
[email protected]
PAULO FURTADO
Orlando Gomes, Costa Verde, Rua A, q. H, 1.3
Salvador - BA - 41650-120
(71) 3367 9481
[email protected]
FLORISVALDO MATTOS
Rua Sócrates Guanaes Gomes, 107,
Aptº 1901, Cidade Jardim
Salavador - BA - 40296-720
(71) 3353 9785
[email protected]
GÉRSON PEREIRA DOS SANTOS
Rua Dr. João Ponde, 86, aptº 501, Barra
Salvador - BA - 40150-810
(71) 3264 3436
UBIRATAN CASTRO DE ARAÚJO
Rua Dr. Clemente Ferreira, 117, aptº 11
Salvador - BA - 41110-200
(71) 3237 2364
[email protected]
EVELINA HOISEL
Rua Mons. Gaspar Sadoc, 48, Jardim de Alá
Salvador - BA - 41750-200
(71) 3343 5789
[email protected]
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JOSÉ CARLOS CAPINAN
Rua Tamoios, 96, Rio Vermelho
41940-040 – Salvador - BA - 41940-040
(71) 3345 2080
[email protected]
DOM EMANUEL D’ABLE DO AMARAL
Largo São Bento, 01 Centro
Salvador - BA - 41205-220
(71) 2106-5272 /8151-1053
[email protected]
ARMANDO AVENA
Jardim Gantois, 346, Rua C, Piatã
Salvador - BA - 41680-170
(71)3115 3694
[email protected]
EDIVALDO M. BOAVENTURA
Rua Dr. José Carlos, 99, aptº 801, Acupe
Salvador - BA -40290-040
(71)3276 1242
[email protected]
CONSUELO NOVAIS SAMPAIO
R. Catarina Paraguaçu nº02 aptoº805 - Graça
Salvador - BA - 40150-200
(71)3331-3694/3012-1010/9976-4656
[email protected]
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MEMBROS CORRESPONDENTES
ANTONIO CARLOS SECCHIN
Av. Atlântica, 2112, aptº801
Copacabana- 1 Rio de Janeiro - RJ - 22021-001
(21) 2236-1112
[email protected]
ANTONIO CELESTINO
Casa do Ribeiro – São João Del Rei
4830 – Póvoa do Lanhoso – Portugal
ÁTICO FROTA VILLAS-BOAS DA MOTA
Rua Dr. Manoel Vitorino, 411 - Coité
Macaúbas -BA - 46500-000
(77) 3473-1292
CYRO DE MATTOS
Travessa Rosenaide, 40 / 101 – Zildolândia
45600-395 – Itabuna – BA
(73) 3211-1902 /(73) 88461883
[email protected]
DOMINIQUE STOENESCO
26 bis, allée Guy Mocquet - 94170
Le Perreux-sur-Marne - France
(003133) 1 48 72 16 56 / (003133) 06 08 65 50 23
[email protected]
FLANKLIN W. KNIGHT
2902 W. Strathmore Avenue
Baltimore, Maryland 21209 -USA
GLÓRIA KAISER
Dr. Robert Siegerst, 15
A 8010 – Graz - Áustria
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HELENA PARENTE CUNHA
Rua das Laranjeiras, 280/200
Rio de Janeiro- RJ -22240-001
((21) 2285 2130 / (21) 9974 4119
[email protected]
ISA MARIA CARNEIRO GONÇALVES
Rua Milton Melo, 413 - Santa Mônica
Feira de Santana -BA - 44050-560
(75) 3625-2416
[email protected]
LUIS ALBERTO VIANNA MONIZ BANDEIRA
Reilinger Strasse, 19, D - 68789
Deutschland– Alemanha
MARIA BELTRÃO
Rua Prudente de Moraes, 1179, COB. 01
Ipanema – Rio de janeiro – RJ - 22420-043
(21) 2247-4180
mcmcbeltrã[email protected]
RITA OLIVIERI-GODET
24, Avenue Sergent Maginot
35000 Rennes - France
02 99 67 35 02
[email protected]
VAMIREH CHACON
Universidade de Brasília
Instituto de Ciência Política
Brasília - DF - 70910-900
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Direção
MYRIAM FRAGA
Coordenação editorial
ALEILTON FONSECA
Revisão
ARAMIS RIBEIRO COSTA
ALEILTON FONSECA
Arte Final de miolo e capa
MARCEL SANTOS
Impressão
AUTO EDITOR
Tiragem
1000 exemplares
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