Conhecimento e Ação
Emancipatória
na Reforma Psiquiátrica:
CONSTRUINDO NOVOS
SUJEITOS DE DIREITO
Paulo Amarante
LAPS/DAPS/ENSP-Fiocruz
BASAGLIA E FOUCAULT:
um estranho encontro no manicômio
Foucault: entrevista em jornal da
Tunísia
•
"...Há tempos atrás escrevi um livro sobre a história da loucura. O livro foi
muito mal recebido, exceto por uns poucos como Blanchot ou Barthes.
Ainda agora, recentemente, nas universidades, quando se falava deste livro
para os estudantes, se fazia questão de observar que não fora escrito por
um médico, e que, em conseqüência disto, se deveria fugir dele como que
da peste. Ora, uma coisa me comoveu: Após alguns anos de tê-lo escrito
se desenvolveu na Itália, em torno de Basaglia e na Inglaterra, um
movimento que se chama a anti-psiquiatria. Estas pessoas desenvolveram
estes movimentos, por certo, a partir de suas idéias e de suas experiências
de psiquiatria, mas encontraram no livro que eu havia escrito uma espécie
de justificativa histórica, e têm, de qualquer forma, motivação por conta
própria, mas que, até certo ponto demonstram que este livro histórico está
causando uma espécie de êxito prático. Então, digamos que estou um
pouco enciumado e que agora desejarei fazer as coisas eu mesmo. Ao
invés de escrever um livro sobre a história da justiça, que seria utilizado por
algumas pessoas que colocariam, na prática, a justiça em questão,
desejarei eu mesmo começar a colocar a justiça em questão e depois, ah!,
se ainda estiver vivo e se não estiver preso, escreverei um livro!..." (164)
No início do trabalho em Gorizia
• As três grandes linhas de
intervenção:
• 1. a origem e o
pertencimento de classe
dos internos do hospital
• 2. a pretensão de
neutralidade e de
produção de verdade por
parte das ciências
• 3. a função social e de
tutela dos técnicos na
produção de hegemonia
Em Crimes da Paz
• A crítica à ciência tem um
caráter ao mesmo tempo
político e epistemológico,
pois na verdade é
impossível desvincular
uma à outra.
• Crimes da paz é uma
denúncia e uma ruptura
epistemológica ao
demonstrar a relação
entre a ciência
psiquiátrica e a violência
social e institucional
Em A instituição negada
• “O questionamento do
sistema institucional
transcende a esfera
psiquiátrica e atinge as
estruturas sociais que o
sustentam, levando-nos a
uma crítica da
neutralidade científicaque atua como
sustentáculo dos valores
dominantes - , para
depois tornar-se crítica e
ação política”. IN p. 09)
Em Um problema de psiquiatria
institucional
• “a objetivação do homem em
síndromes, operada pela
psiquiatria positivista, tem tido
consequencias extremamente
irreversíveis no doente que –
originalmente objetivado e
restrito aos limites da doença –
foi confirmado como categoria
fora do humano por uma
ciência que devia distanciar-se
e excluir aquilo que não estava
em grau de compreender”
(UPPI, pp. 309-310).
Marco teórico conceitual
• Reforma psiquiátrica como “processo
social complexo” (Rotelli, 1990; Amarante,
2007), onde se destaca o princípio de que
a reforma psiquiátrica não se reduz a
reforma administrativa, de serviços e
tecnologias científicas ou gerenciais, mas
de transformar o lugar social da loucura”
(Birman, 1992), valorizando assim a
“dimensão sócio-cultural”.
A doença entre parênteses
• Para Basaglia a psiquiatria
colocou o doente, o
homem, entre parênteses
para poder se ocupar da
doença (abstrata).
• Para ele, a grande
reviravolta estava em poder
colocar a doença entre
parênteses para podermos
nos ocupar das pessoas.
A (clínica)
• Aceitar que a clínica deva ser
colocada entre parênteses
significa lidar com ela de
maneira dialética (viver
dialeticamente as contradições
do real).
• Significa exercer a dúvida, a
hesitação (Foucault), a tensão
entre o conhecimento do
objeto (penso, logo existo)
versus sua transformação
naquilo que se deseja que ele
venha a ser (penso, logo
hesito).
Movimento Social “Por uma
sociedade sem manicômios”
Convenção da Diversidade Cultural
Normalidade/Diversidade
• Diversidade como
conceito fundamental, de
natureza, social e política
• O reconhecimento do
outro como diverso, em
várias perspectivas:
•
•
•
•
Direitos Humanos
Saúde Mental /Saúde
Trabalho
Cultura …
Diversidade
• O Conceito de
diversidade no campo
teórico-conceitual.
• Dimensão do diálogo com a
diferença: a aceitação do outro
não como prática de
tolerância, mas de
reciprocidade, de
solidariedade, de comprrensão
da diversidade das identidades
individuais e coletivas.
Diversidade como ruptura
• O conceito de diversidade
assume então um caráter de
ruptura com a idéia de
patologização/medicalização
de onde
• “de perto ninguém é normal” portanto, todos devem ser
patologizados/medicalizados)
e nos abre a perspectiva da
complexidade da existência,
da diversidade de culturas, de
sociedades, de identidades.
Cultura na transformação do lugar
social da loucura
• A cultura produzida pelos
sujeitos que viveram/vivem
a experiência do
sofrimento, da
medicalização, da
discriminação, do estigma
na transformação da
sociedade. Produzindo
novos significados, novos
sentidos, um novo
imaginário social.
Laboratório de Estudos e
Pesquisas em Saúde Mental
• Fiocruz
• Av. Brasil 4036/506
• 21040-361
• Manguinhos-RJ
• Tel. 21-38829105
• [email protected]
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construindo novos sujeitos de direito