a rt i g o s
O Amor de Deus, Princípio e
Fundamento da Criação
Luís González-Quevedo, SJ
O autor é redator da
revista e, temporariamente, diretor do
CEI-Itaici.
1. Andrés Torres Queiruga,
“Ateísmo e imagem cristã
de Deus”, Concilium 337
(2010/4), 42-54 (44). Cf.
do mesmo autor: Recuperar
a Criação. Por uma religião
humanizadora. São Paulo:
Paulus, 1999.
2. Luis González-Quevedo,
“Princípio e Fundamento:
Criação, Êxodo e Aliança”, Itaici 63 (2006), 9-22;
Luís González-Quevedo,
org., Um sentido para a
vida: Princípio e Fundamento. São Paulo: Loyola,
2007.
U
m teólogo acaba de escrever: “Deus cria por amor, buscando nossa realização plena”1. Este artigo pretende explicitar
essa idéia, a partir da espiritualidade inaciana, sem repetir o que
temos escrito em outras ocasiões2.
A criação: enigma e mistério
Apesar do enorme progresso científico de nossos dias, o
Universo continua sendo um enigma incomensurável. Rara é a
semana em que os astrônomos, a NASA ou as revistas científicas não anunciam uma nova descoberta no campo da astronomia. Mas a questão metafísica — “Por que existe tudo o que
existe?” — continua sem resposta convincente.
No desenvolvimento científico atual, chegou-se a uma
teoria padrão, segundo a qual o Universo conhecido se originou, há 13,7 bilhões de anos, com uma explosão primordial
(o Big Bang). A partir desse instante até o dia de hoje, toda
a matéria que existe no Universo está em processo de crescente expansão. Os cientistas ainda não têm uma explicação
definitiva desse fenômeno.
A gravidade, ao comprimir uma enorme nuvem de hidrogênio, “criou” os elementos químicos mais densos, que formaram bilhões de galáxias, com seus bilhões de estrelas. Em 1923,
o astrônomo Edwin Hubble descobriu a galáxia de Andrômeda, que é a galáxia que fica mais perto da Via Láctea. A
Galáxia de Andrômeda está a 2.500.000 anos-luz de distância
de nós. Se lembrarmos que a luz viaja a 300.000 km por seItaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
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gundo, cairemos na conta de que a distância que nos separa
de Andrômeda, mesmo sendo a galáxia mais próxima de nós,
é imensa.
Cinco bilhões de anos atrás, na periferia da Via Láctea,
restos de estrelas que explodiram aglutinaram-se, dando origem
ao Sistema Solar. No momento atual, os astrônomos estão empenhados em detectar a existência de outros sistemas solares
como o nosso, com planetas rochosos semelhantes à Terra, onde
poderia ter surgido alguma forma de vida, como aconteceu na
Terra há quatro bilhões de anos3.
Se a idade do Universo fosse de um ano, a vida sobre a
Terra teria surgido no dia 25 de setembro. Primeiro, surgiram
organismos unicelulares; depois, “criaturas” multicelulares, cada
vez mais complexas, dando origem à vida vegetal e à vida animal. Finalmente, às 22h30 min. do último dia do ano, nasceram
os primeiros seres humanos, a partir dos primatas e hominídeos4.
Foi como um réveillon cósmico, na véspera de um Ano Novo
em que o Universo continuará expandindo-se e esfriando-se,
até perder-se na imensa escuridão do espaço inóspito.
Os cientistas dizem que o surgimento da vida humana neste planeta minúsculo era improvável. Era improvável, mas
aconteceu. Por que aconteceu? O Universo poderia existir sem
nós. Mas o fato é que nós, crentes ou descrentes, estamos aqui.
Será que todo este imenso dinamismo evolutivo aconteceu por
acaso? A resposta não nos convence. Seria acaso demais…
Certamente, o desenvolvimento da astronomia e da astrofísica mudou a nossa relação com o Universo, revelando-nos a
aparente insignificância da nossa existência sobre a Terra. Contemplado desde as sondas espaciais, o nosso planeta é um pontinho azul, rodeado de nuvens brancas. E nós que importância
temos, neste imenso Universo? Por que existimos? Qual é a
nossa origem? Afinal, quem somos nós?
Em uma hermenêutica puramente científica, Marcelo ­Gleiser
escreve: “Hoje, sabemos que somos aglomerados de poeira estelar dotados de consciência. Para desvendar nossa misteriosa
origem, precisamos saber de onde vieram as estrelas, como a
matéria não viva se transformou em matéria viva e como essa
virou matéria pensante”5. A ciência comprova nossa profunda
relação com o Cosmos. O nosso corpo está composto dos mesmos elementos químicos que formaram as estrelas. “Somos
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3. A nave espacial Kepler,
lançada pela NASA em
março de 2009, tem por
missão descobrir planetas
similares à Terra, orbitando
em torno de outras estrelas
da Via Láctea. Em seus dois
anos de existência a “missão
Kepler” já contribuiu para
a descoberta de, pelo menos, 1235 exo-planetas.
4. Tomo este “calendário
cósmico”, idealizado por
Carl Sagan, de Elizabeth
A.Johnson, “O Deus vivo
em perspectiva cósmica”,
Cadernos Teologia Pública,
ano VII, n. 51. São Leopoldo, RS: Instituto Humanitas Unisinos, 2010,
p. 6.
5. Marcelo Gleiser, “Ciência, fé e as três origens”,
Folha de São Paulo, 20 de
fevereiro de 2011.
6. Id., “Inevitabilidade humana” Folha de São Paulo,
19 de dezembro de 2010.
guardiões da vida e do planeta”6. Será que não existe qualquer
plano ou objetivo que oriente este descomunal mundo astronômico? Somos apenas “um acidente feliz”?
À pergunta sobre a origem do Universo, o físico britânico Stephen Hawking responde com a hipótese da “criação
espontânea”. Segundo seu último livro, escrito em parceria
com o físico Leonard Mlodinov, com o enganoso título de The
Grand Design (“O Grande desígnio”), não é preciso invocar
Deus para que o Universo tivesse um começo. A lei da gravi-
Stephen Hawking
7. Folha de São Paulo, 3 de
Setembro de 2010.
8. “Stephen Hawking descarta la existencia de Dios
para explicar el origen del
Universo”, El Mundo, Madrid, 2 set. 2010.
dade teria possibilitado que o Universo se criasse a si mesmo
a partir do nada. Mas podemos perguntar: “por que existe a
lei da gravidade?”
Para explicar as leis da natureza sem recorrer a divindades,
Stephen Hawking lança ainda a hipótese de que existam “múltiplos cosmos”7. Um físico espanhol, tradutor da obra de Hawking
ao castelhano, afirma que é preciso ter mais fé para aceitar as
hipóteses do célebre físico inglês do que para acreditar que o
mundo foi criado por Deus8.
Para a nossa fé, a Criação não é um enigma, mas um mistério. O simples fato de existir e de tomar consciência da nossa
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própria existência, de saber que vivemos em constante interdependência com o meio ambiente que nos rodeia, é para nós um
milagre permanente9.
Para a Bíblia, milagre (do latim mirari = admirar-se, espantar-se) é um “acontecimento inesperado, não calculável, nem
manipulável pelo ser humano, no qual este experimenta a atuação de Deus”10.
As escrituras judaico-cristãs proclamam que a beleza e a
harmonia do Universo são manifestação do poder, da bondade
e do amor do Criador: “Os céus narram a glória de Deus, o
firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 19/18,2).
“De fato, partindo da grandeza e beleza das criaturas, pode-se
chegar a ver, por analogia, o seu Criador” (Sb 13,5). A presença
invisível do Senhor pode ser conhecida, confirma Paulo, “através
de suas obras, desde a criação do mundo” (Rm 1,20).
Nisso acreditou Inácio de Loyola, nisso acreditamos nós.
9. “O milagre do que é visível é, para muitas pessoas,
bem mais maravilhoso do
que o milagre daquilo que
é invisível”, Johannes Röser, “Como preservar o futuro da Igreja?”, IHU online, nº 352, ano X,
29.11.2010, 25-28 (28).
10. Xavier Alegre, “Milagre”, em: Dicionário de Conceitos Fundamentais do Cristianismo. São Paulo: Paulus,
1999, 470-474.
A criação em Santo Inácio de Loyola
Na primeira biografia de Santo Inácio de Loyola, escrita
pelo P. Pedro de Ribadeneira, conta-se que, a partir de sua
conversão em Loyola, Inácio experimentava grande consolação,
olhando a beleza do céu e das estrelas, coisa que ele fazia muito a miúdo. Isso o motivava a desprezar as coisas transitórias e
mutáveis e a inflamar-se no amor de Deus.
O biógrafo acrescenta que Inácio conservou, até o fim da
vida, o costume de contemplar o céu estrelado. Pois, sendo
Inácio já velho, o próprio Pedro de Ribadeneira viu o santo, de
olhos fixos no céu, enternecido até as lágrimas, e o escutou
dizer: “Ah, quão vil e baixa me parece a Terra, quando olho o
céu!”11. Esta última frase foi, depois, muito repetida por autores
piedosos, nem sempre respeitando o equilíbrio próprio da espiritualidade inaciana.
A espiritualidade inaciana não despreza a Terra, mas a considera em sua relação com Deus. O planeta em que vivemos, bem
como tudo o que existe neste imenso Universo, foi criado por
Deus nosso Senhor12. Esta é a afirmação fundamental que Inácio
herdou, sem dúvida, de toda a tradição judaico-cristã, mas que
ele apoia, também, na sua própria experiência espiritual.
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11. Fontes Narrativi, IV, 94
(“Monumenta histórica
Societais Iesu”, vol. 93).
Cf. também a pág. 747,
onde se recolhe o testemunho do Pe. Laínez, que via
Inácio, no terraço da casa
romana, em pé, fixos os
olhos no céu, de cabeça
descoberta.
12. Cf., por exemplo, Pedro Trigo, “Creación y
mundo material”, em Ignacio Ellacuría e Jon Sobrino, Mysterium Liberationis. Conceptos fundamentales de la teología de la liberación. Tomo II. San Salvador: UCA Editores,
1991, 11-48.
13. Ricardo García-Villoslada, Santo Inácio de Loyola. São Paulo: Loyola,
1991, p. 222 e 223.
14. No original espanhol,
há uma segunda ocorrência, ao tratar da reforma de
vida: “aprovecha mucho, en
lugar da hacer elección...
enmendar y reformar la propia vida y estado... poniendo
su creación, vida y estado
para gloria y alabanza de
Dios nuestro Señor y salvación de su propia ánima”
(EE 1894-5). Aqui “criação” parece significar o
conjunto dos bens que o
exercitante possui, que lhe
foram dados pelo Criador.
Cf. Luis F. Ladaria, “Creador”, Diccionario de Espiritualidad Ignaciana [DEI].
Bilbao/Santander: 2007,
497-503 (500).
15. Ladaria, loc. cit., 497.
16. Cf. a 2ª anotação dos
Exercícios Espirituais,
onde Inácio recomenda
apresentar os pontos “breve ou sumariamente”, porque assim quem faz os
Exercícios, raciocinando
por si mesmo, “tem maior
gosto e fruto espiritual do
que se quem dá os Exercícios explicasse e ampliasse
muito o sentido da história” (EE 2).
Com efeito, na Autobiografia, Inácio conta que “uma vez se
representou em seu entendimento, com uma grande alegria
espiritual, o modo pelo qual Deus criou o mundo” (Autob., 29).
E, pouco depois, narra a extraordinária experiência mística à
beira do rio Cardoner, que a tradição inaciana conhece com o
nome de a “exímia ilustração”.
Ricardo García Villoslada resume assim o fruto da ilustração
do Cardoner: “Todo o mundo criado se lhe transformou em nova
criação”. O mesmo biógrafo atribui àquela experiência mística
a guinada vocacional na vida de Inácio: “compreendeu que sua
vida não deveria ser eremítica, nem cartuxana, e sim apostolicamente ativa”13.
Nos escritos inacianos, o substantivo “criação” é muito raro.
No livro dos Exercícios Espirituais (EE), este termo encontra-se
apenas em um momento importante: no primeiro ponto da
“Contemplação para alcançar amor”. Ao trazer à memória os
benefícios recebidos, o exercitante deve recordar os benefícios
de “criação, redenção e dons particulares” (EE 234)14.
Muito mais frequentes na literatura inaciana são as referências a Deus como “Criador e Senhor”. As Constituições da
Companhia de Jesus, ao tratar da experiência de peregrinação,
dizem que os noviços deverão afastar toda a confiança no dinheiro e nas coisas criadas, “colocando-a inteiramente, com verdadeira fé e intenso amor, em seu Criador e Senhor” (Const. 67).
O Criador não é para Inácio um Deus longínquo, que pôs
o mundo em marcha e se afastou dele, mas um Senhor presente e providente, que rege suavemente e cuida com amor de suas
criaturas15. Por isso, aquele que dá os Exercícios não deve induzir o exercitante a escolher um ou outro estado de vida, mas
“deixar imediatamente agir o Criador com a criatura e a criatura com seu Criador e Senhor” (EE 15).
Na metodologia dos EE este ponto é fundamental. Em
certa ocasião, estando eu a orientar um pequeno retiro de final
de semana, fui ajudado pelo recém falecido P. Christophe Six,
que ainda não era padre. Ele me disse: “Não explicar tudo.
Deixar que os exercitantes experimentem e descubram”. Como
Inácio, Christophe acreditava que nosso Criador e Senhor pode
e quer comunicar-se diretamente com os exercitantes, dandolhes a conhecer sua vontade, sem necessidade de muitas mediações humanas16.
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Pode surpreender que Inácio aplique os títulos de “Criador”
ou “Criador e Senhor” a Jesus Cristo. Por exemplo, no colóquio
do primeiro exercício da Primeira Semana: “Imaginando Cristo,
nosso Senhor, diante de mim, na cruz, fazer um colóquio: como
de Criador, se fez homem e como, da vida eterna, chegou à
morte temporal e assim morreu por meus pecados” (EE 53,1).
Igualmente nas Constituições se diz que os que entrarem
na Companhia de Jesus deverão dispor-se a “sofrer injúrias,
falsos testemunhos, afrontas, e ser tidos e julgados por doidos
(sem darem ocasião alguma para isso), porque desejam parecerse de algum modo com nosso Criador e Senhor Jesus Cristo”
(Const. 101).
A teologia atual tende a atribuir a criação ao Pai, a redenção
ao Filho e a santificação ao Espírito, mas a idéia de que o Pai
criou tudo por intermédio do seu Filho está presente no Novo
Testamento: tudo foi criado através de Cristo e para Cristo
(Cl 1,15-17). Tudo foi feito por intermédio da Palavra (o Logos),
e sem ela nada foi feito de tudo o que existe (Jo 1,3).
Inácio reafirma com força que a Terra, o Universo e tudo
o que ele encerra, incluídos todos os seres humanos, é obra de
um Criador transcendente.
Já no primeiro exercício, no Princípio e Fundamento, afirma: “O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a
Deus nosso Senhor e, assim, salvar-se. As outras coisas sobre a
face da terra são criadas para o ser humano e para o ajudarem
a atingir o fim para o qual é criado” (EE 23,2)17.
Depois, na Primeira Semana, para suscitar o arrependimento
dos próprios pecados, o exercitante deve pensar quem é ele em
comparação com toda a humanidade, com os anjos e com os
santos do paraíso, e “olhar que é a criação inteira diante de Deus”.
E ele, sozinho, o que pode ser? O conhecimento atual da imensidão do Universo acentua, astronomicamente, a sugestão inaciana de “diminuir-se por meio de comparações” (EE 58).
Para Santo Inácio, a contemplação das “criaturas” deve levarnos ao Criador de todas elas. Isto é patente no último exercício,
a Contemplação para alcançar amor: “olhar como Deus habita
nas criaturas, dando-lhes o ser… Considerar como Deus trabalha
e age por mim em todas as coisas criadas sobre a terra... Olhar
como todos os bens e dons descem do alto… assim como os raios
descem do sol, as águas da fonte…” (EE 235-237).
40
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17. El hombre es criado para
alabar, hacer reverencia y
servir a Dios nuestro Señor
y, mediante esto, salvar su
ánima; y las otras cosas sobre
la haz de la tierra son criadas
para el hombre, y para que
le ayuden en la prosecución
del fin para que es criado
(EE 23,2-3).
18. Epp XII, 152; Epp XI,
439, cit. por Ladaria, loc.
cit. 503.
Na terceira parte das Constituições, que se refere aos jesuítas
que estão em formação, Inácio diz que todos devem ser exortados
a “procurar em todas as coisas a Deus nosso Senhor, afastando,
quanto possível, o amor de todas as criaturas para o pôr inteiramente no Criador delas, amando-O em todas, e amando a todas
n’Ele, conforme a sua santíssima e divina Vontade” (Const. 288).
Ladaria comenta que amar as criaturas “em Deus” é vê-las em sua
dependência do Criador. Com isso, não se diminui o valor das
criaturas, antes se reconhece a origem da sua grandeza.
Entre todas as criaturas, Inácio, seguindo a tradição judaicocristã, destaca o ser humano. Ele é imagem de Deus, templo do
Espírito Santo, destinado à redenção em Cristo. Na numerosa
correspondência inaciana, aconselha-se “olhar as criaturas, não
como belas ou graciosas, mas como banhadas no sangue de
Cristo”18. A paixão e morte de Jesus foi o alto preço pago pela
redenção da humanidade. Não há prova maior do amor que
Deus tem por nós.
Refletir para tirar proveito
Com a expressão “refletir para tirar proveito”, recorrente
nas contemplações da Segunda (EE 107, 108, etc) e da Terceira Semanas (EE 194), Inácio quer que o exercitante aplique a
história contemplada para a sua realidade pessoal, tirando as
consequências práticas que o ajudem a melhorar sua vida.
Que consequências práticas poderíamos tirar da concepção
inaciana da Criação? Partindo do próprio texto do Princípio e
Fundamento, poderíamos sintetizá-las em três: louvar o Criador,
cuidar das criaturas e servir por amor.
1. Louvar o Criador
19. Epp VIII, 362, 363, 583,
5854, X,5, 7 etc. Citado por
Pietro Schiavone, “Alabanza”, DEI. Bilbao-Santander: 2007, 115-113.
Olhar a Criação como manifestação visível do amor de Deus
levará necessariamente a criatura a louvar o seu Criador. Se
Deus é o “autor de todo bem”, como repete Inácio em muitas
de suas cartas19, é natural que nós O louvemos e O glorifiquemos
por tudo de bom, grande e belo que há no Universo.
Da tríade inicial do Princípio e Fundamento (“louvar”,
“reverenciar” e “servir” a Deus), o primeiro termo parece ter a
Itaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
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primazia, como se pode constatar em outros lugares paralelos
do livro dos Exercícios (cf. EE 169; 177; 179; 181, etc). Na
eleição e reforma de vida, objetivo central dos EE, o exercitante não deverá querer nem procurar outra coisa que não seja “em
tudo e por tudo, o maior louvor e glória de Deus nosso Senhor”
(EE 189, 9).
Para um olhar contemplativo, o mundo inteiro torna-se
“sagrado”. Este conceito é central na História das religiões20. O
homo religiosus — incluindo neste conceito a mulher, que costuma ser mais religiosa do que o varão — acredita que existe uma
realidade transcendente que se manifesta neste mundo, santificando-o. Para ele, a vida em todas as suas formas e, de maneira
particular, a existência humana tem uma origem sagrada.
Uma religiosa, no final de uns EE, sintetizou assim o fruto
que tirou do seu retiro: “Sou amada… Esse amor me abre aos
outros… Quero acolher a todos como filhos e filhas de Deus…
Sou parte da criação... Devo dar graças por tudo…”.
A experiência do encontro com Deus que os EE propiciam
levam o exercitante a acolher a sua vida, a vida dos outros e
a totalidade da criação como um imenso e permanente dom
de Deus.
É bem verdade que o sujeito moderno, secularizado, olha
com desconfiança toda experiência mística. Depois de escrever
um livrinho sobre a experiência de Deus, tive que me ocupar
de alguns autores que pregam o ateísmo com um fervor quase
religioso21. Porém, os trabalhos de Mircea Eliade mostraram que
“o homem profano, queira ou não, conserva ainda os vestígios
do comportamento do homem religioso, mas esvaziados dos
significados religiosos”22. O culto à Natureza não seria o produto da secularização do Cosmos criado por Deus?
Com efeito, para o sujeito mais secularizado, há ainda “lugares sagrados”: a terra em que nasceu, o local em que viveu um
grande amor... A rua em que vivia a mulher amada era, para o
poeta, um “lugar sagrado”, mas quando o amor acabou, a rua
tornou-se, novamente, “uma rua qualquer”23.
O mesmo se poderia dizer a respeito do tempo. A experiência do sagrado, do “sobre-natural” ou “extra-ordinário” interrompe a continuidade homogênea do tempo profano, instaurando o “tempo sagrado”. Mesmo sem sentido religioso explícito, o sujeito pós-cristão continua a preservar alguns tempos que
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20. Cf. Rudolf Otto, O
Sagrado. Lisboa: Edições
70, 1992.
21. Luis González-Quevedo, “O Néo-Ateísmo”,
Mirada Global, http://
www.miradaglobal.com/index.php. Os autores a que
me refiro são: Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens.
22. Mircea Eliade, O Sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992,
164. Além do “casamento
civil”, de já longa tradição,
surgiram hoje, na Espanha
progressista, celebrações de
“batizado civil” e de “primeira comunhão civil”.
23. “Tu calle ya no es tu
calle, que es una calle cualquiera, camino de cualquier
parte”, Manuel Machado,
Cante jondo 1912.
24. Luis González-Quevedo,
Experiência de Deus: presença e saudade. São Paulo:
Loyola, 2002 (“Leituras e
releituras”, 2), p. 19.
25. Rogerio García Mateo,
“Acatamiento-reverencia”, in: DEI, 77-79.
26. Cf. .José Román Flecha,
El respeto a la creación. Madrid: BAC, 2001.
27. Cf Leonardo Boff, Saber cuidar. Ética do humano
– compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.
considera “sagrados”: o final de semana, as férias, o carnaval, os
grandes encontros esportivos ou artísticos.
Qualquer momento “profano” pode transfigurar-se em
“tempo sagrado”, pela manifestação do sagrado, do misterioso,
do que supera a expectativa natural do ser humano. Os ritos
cristãos não sacralizam o tempo, no sentido pagão do “eterno
retorno”, mas sim o santificam, sem desfazer sua duração histórica. Para isso contam com um duplo apoio: com a força misteriosa, invisível, do Espírito e com a visibilidade sacramental do
mundo nos seus elementos mais simples (água e óleo, pão e
vinho, palavra e gesto). Pela fé, temos acesso a uma maior
proximidade do mistério.
O mistério, o “Totalmente Outro”, manifesta-se de maneira privilegiada na pessoa humana. Toda pessoa é “sagrada”, isto
é, portadora de um mistério indisponível. Historicamente, continua sendo possível usar e abusar, bater e torturar, comprar e
vender uma pessoa, mas sempre restará nela uma última realidade que não se pode pisar, tirar ou comercializar, algo que não
tem preço.
Com Rudolf Otto, podemos concluir que “o sagrado” é uma
experiência irredutível a qualquer outra, psicológica, sociológica ou científica, um sentimento original específico da raça
humana, que busca comunicação com o Totalmente Outro.
“Entre todas as experiências humanas, a mais profunda, a mais
tremenda e a mais fascinante é a experiência religiosa”24.
2. Cuidar das criaturas
O segundo termo da tríade do Princípio e Fundamento é a
reverência. A expressão aparece, novamente, na contemplação
do Nascimento de Jesus (“com todo o acatamento e reverência
possível”, EE 114) e, sobretudo, no Diário espiritual de Santo
Inácio. Por reverência entendemos uma atitude de profundo
respeito ou “acatamento”, que leva à incondicional aceitação
da vontade de Deus, por amor25.
Esta atitude de respeito ao Criador se estende às criaturas,
na medida em que elas manifestam algo da bondade Daquele
que as criou. A espiritualidade judaico-cristã afirma que todo o
mundo é digno de reverência e respeito,26 todas as coisas precisam de cuidado para continuar a existir27.
Itaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
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No relato sacerdotal da criação, Deus vê quanto havia
feito, “e era muito bom” (Gn 1,31). A narrativa javista, diz que
o Senhor Deus formou o homem com a argila do solo (…) e o
colocou no jardim de Éden, “para o guardar e cultivar” (Gn 2,15).
E, porque não é bom que o homem esteja só, o Criador formou
a mulher e a apresentou ao homem.
No Novo Testamento, Jesus cita as aves do céu e os lírios
do campo, como prova do cuidado que Deus tem com todas as
suas criaturas (Mt 6,25-30; Lc 12,22-28).
O amor de Deus por suas criaturas as santifica, tornando-as
merecedoras de cuidado e reverência. Toda a vida se transforma,
de alguma maneira, em uma “liturgia cósmica”. O que diferencia um cálice sagrado de um simples copo ou caneca não é o
ouro ou a prata com que pode estar ornado; o que torna sagrado um cálice é sua relação com Deus. O que torna sagrado o
sacerdote, o pastor ou a “mãe de santo” não são as qualidades
pessoais de tal pessoa, mas a relação que ela tem com o Santo,
com o Mistério fontal, com o abismo insondável de amor, que
chamamos Deus.
Viver com cuidado, dizíamos em outra ocasião, significa
manter uma relação de respeito, de ternura e de amor com todas
as criaturas28. Não seremos suficientemente agradecidos ao
Criador se não tivermos cuidado conosco, com os outros e com
toda a criação29.
A Francisco de Borja, que tendia a se exceder nas penitências e na austeridade física, Inácio lhe recomendava não
maltratar o próprio corpo, para que “se torne mais são e mais
disposto para o maior serviço divino”30. Hoje, no acompanhamento de EE, recomendamos que os exercitantes durmam
bem, ao menos na primeira noite, para que o cansaço físico
não lhes impeça de entrar, o mais descansadamente possível,
no retiro.
Os pais e mães de família cuidam com carinho dos seus
filhos, especialmente quando são pequenos ou estão doentes; os
monges e as monjas acordam muito cedo, para rezarem pela
humanidade inteira; os religiosos e religiosas de vida ativa desempenham uma enorme gama de trabalhos, em favor dos pobres,
das crianças, dos velhos, dos doentes e das pessoas mais frágeis;
os bispos e os presbíteros, seus colaboradores, assumem o cuidado pastoral de uma diocese ou paróquia. Todos os batizados agem
44
Itaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
28. Luis González-Quevedo, “Amor e cuidado”,
Itaici, n. 68, 43-56 (44).
29. Cf. João Justino de
Medeiros Silva, “Indicações para uma espiritualidade do cuidado à luz da
teologia da criação”, Atua­
lidade Teológica, ano XIV,
2010, 410-418.
30. Armando Cardoso,
org., Cartas de Santo Inácio
de Loyola. Vol. 2. São Paulo: Loyola, 1990, 78-79
(Epp II, 237). Nesta carta
a Francisco de Borja, de 28
de setembro de 1548, Inácio cita o conhecido adágio latino: mens sana in
corpore sano.
31. Dom Odilo Scherer,
“Questão ecológica, questão moral”, O Estado de São
Paulo, 12 de fevereiro de
2011.
32. A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável
acontecerá no Rio de Janeiro, em maio de 2012.
como “representantes de Deus”, quando cuidam da Terra e de
todos os viventes, que Ele lhes confiou.
Hoje, somos cada dia mais conscientes da necessidade de
cuidar da Terra, do ar que respiramos e da água imprescindível
para a vida, de preservar as espécies vegetais e animais e os
ecossistemas. Porém, ainda estamos longe de uma consciência
coletiva capaz de frear os estragos causados pela intervenção
humana na natureza31.
A segunda Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente e Desenvolvimento, celebrada no Rio de Janeiro em
1992, consagrou o conceito de “desenvolvimento sustentável”,
que busca conciliar o desenvolvimento sócio-econômico com
a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. Os movimentos e as organizações que trabalham em favor do meio
ambiente, atualmente, concentram seus esforços na próxima
Conferência, que, por realizar-se novamente no Rio de Janeiro,
vinte anos depois, está sendo chamada de “Rio+20”32. Nestas
duas décadas, a causa ecológica ganhou tanto prestígio social,
que está sendo explorada, até como “estratégia de marketing”
das grandes empresas.
3 - Servir por amor
33. Nos EE, o serviço é
associado ao louvor de
Deus em onze ocasiões: EE
20.23.46.98.155.157.168169.183.316.322.
34. C. Viard, “Crés pour
louver”, Christus 26 (1979),
213-223 (p. 215 e 221).
O serviço é o último e decisivo termo na descrição que o
Princípio e Fundamento faz da finalidade da existência humana.
Na literatura inaciana, com muita frequência, o louvar está
unido ao servir33. O serviço é garantia da autenticidade do
louvor e da reverência devidos ao Criador. Por sua parte, o
louvor purifica o serviço da tentação utilitarista, tornando-o
mais gratuito. O louvor por si só pode ser uma ilusão alienante;
o serviço por si só pode perder-se nos caminhos do ativismo34.
Mas, de que serviço se trata? Certamente, não se trata aqui
do trabalho escravo, nem do serviço de simples sobrevivência.
O sujeito inaciano aspira a prestar a seu Criador e Senhor o
“maior serviço”, um serviço nascido do amor agradecido. Porque não há motivação mais forte para qualquer realização
humana do que o amor.
A conhecida expressão “em tudo amar e servir”, na Contemplação para alcançar amor, só vem depois de o exercitante
ter reconhecido os benefícios recebidos. A memória agradecida
Itaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
45
de “tanto bem recebido” (EE 233) deverá conduzir o exercitante ao serviço por amor.
Se o mundo é a manifestação do amor de Deus, “servir e
dar glória a Deus é inseparável de amá-Lo e servi-Lo na sua
criação, em tudo”35. Isso poderá nos ajudar a compreender a
diferença existente entre a mística inaciana e a mística carmelitana. Esta última pode sintetizar-se na “Suma da perfeição”,
atribuída a São João da Cruz:
Olvido do que é criado,
memória do Criador,
atenção ao interior
e estar amando o Amado.36
Na mística carmelitana (na espiritualidade monástica, em
geral), o mundo é visto, prioritariamente, como obstáculo que
deve ser desprezado e esquecido. Na mística inaciana (na espiritualidade apostólica, em geral), o mundo é visto, prioritariamente, como “âmbito da missão e lugar de encontro com Deus”37.
Por isso, deve ser amado e compreendido, para ser redimido.
Deus amou tanto o mundo que enviou seu próprio Filho,
não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo
(Jo 3,16-17). O amor de Deus e o amor ao próximo não se
opõem entre si, antes se complementam. Assim também a “fuga
(ou distanciamento estratégico) do mundo” e a “inserção no
mundo” são duas vocações cristãs complementares.
A mística carmelitana é uma mística esponsal, enquanto a
mística inaciana é uma “mística de serviço por amor”38. Inácio
sentia grande admiração pela vida puramente contemplativa.
Teresa de Jesus e João da Cruz não desprezavam o serviço apostólico. Mas os místicos do Carmelo enfatizam mais o “estarse
amando al Amado”, enquanto Inácio priorizou o “ayudar a las
almas”. (Autob., 45).
A vocação dos membros da Companhia de Jesus, segundo
suas Constituições, será “viver em qualquer parte do mundo
onde se espera maior serviço de Deus e maior ajuda das almas”
(Const. 304). Foi esta vocação que levou São Francisco Xavier
e Mateus Ricci à Ásia e que trouxe Manuel da Nóbrega e José
de Anchieta ao Brasil. Em nossos dias, os jesuítas foram definidos como “servidores da missão de Cristo”39.
46
Itaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
35. J.A. García, “servicio/
servir”, DEI, 1637-1647
(1646).
36. São João da Cruz, Obras
Completas. Petrópolis: Vozes, 1984, 60. [Olvido de lo
creado/ memoria del Creador/ atención a lo interior/ y
estarse amando al Amado].
37. J. A. Guerrero, “mundo”, DEI, 1309-1313
(1311).
38. José de Guibert, La
espiritualidad de la Compañía de Jesús. Santander:
Sal Terrae, 1955, 122.
39. 34ª Congregação Geral
da Companhia de Jesus. Decreto 2.
40. J. A. Guerrero, loc. cit.,
1310.
O itinerário espiritual de Santo Inácio de Loyola sintetiza
as atitudes fundamentais que o cristão pode ter diante do mundo: na sua juventude, foi “homem de mundo”, inserido na
cultura do seu tempo; convertido, abandonou o mundo e as
coisas mundanas, para seguir unicamente a Cristo; finalmente,
na terceira e última fase, sentiu-se enviado por Deus ao mundo
e passou a buscar e a encontrar a Deus em todas as coisas40.
Conclusão
Ugo Betti
(searchquotes.com)
41. Toda mulher tem a
capacidade de se tornar
uma rainha, quando for
amada. Bastaria lembrar o
poema de Pablo Neruda:
La Reina, que publicamos
nesta revista, n. 68 (junho
2007), p. 53.
O tema da Campanha da Fraternidade deste ano trouxe-me
a lembrança do teatro de Ugo Betti (1892-1953), talvez o maior
dramaturgo italiano, depois de Luigi Pirandello.
Ugo Betti foi um juiz que presenciou duas guerras mundiais e foi perseguido, primeiro pelos
fascistas e, depois, pelos antifascistas. Nos últimos anos de sua vida, Betti retornou à prática
da religião católica, da qual se tinha afastado.
Tema recorrente no teatro de Ugo Betti é
a natureza do mal e a experiência existencial da
culpa, do perdão e da redenção. Os mais conhecidos de seus dramas são: Corruzione al Palazzo
di Giustizia (“Corrupção no palácio de justiça”,
1945); Delitto all’Isole delle Capre (“Crime na
Ilha das Cabras”, 1946); e La regina e gli insorti
(“A rainha e os rebeldes”, 1949), cujo assunto,
passo a resumir.
Em um país imaginário estoura uma revolução. O rei está
morto, mas a rainha consegue fugir. Os rebeldes a perseguem
e a confundem com uma dessas mulheres a quem Jesus garantiu que entrariam no Reino antes que os fariseus. A mulher
jura que não é a rainha, mas os insurrectos não acreditam e a
levam à prisão. Lá a mulher é tratada como se fosse a rainha.
Aos poucos, a protagonista, — na estréia no Brasil, representada por Dina Sfat — vai assumindo a identidade de uma
rainha41.
No desfecho do drama, a suposta rainha é levada a uma
praça, para ser enforcada. É um belo dia de sol. A protagonista
olha em torno de si e exclama: “Que belo cenário para o final
Itaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
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de uma vida. Lástima que não tenhamos sabido aproveitá-la!”
E morre como uma rainha.
Deus nos deu um belo cenário, para o desenvolvimento
da nossa vida… A imensidão do Universo e a nossa própria
pequenez nos revelam a grandeza e a delicadeza do amor do
Criador.
O poeta William Blake dizia que podemos ver o Universo
em um grão de areia. Abraão viu nas inumeráveis estrelas um
sinal de que Deus lhe daria uma numerosa descendência
(Gn 15,5). Inácio de Loyola nos ensinou a olhar o mundo e
todas as coisas sobre a face da Terra como dons que Deus nos
deu, para que “em tudo” possamos “amar e servir” nosso Criador
e Senhor.
Deus quer que o louvemos e o sirvamos, não porque Ele
precise do nosso serviço e louvor, mas porque deseja o nosso
bem. O louvor, quando sincero, engrandece mais o admirador
do que o Admirado. O serviço feito por amor enobrece mais o
servidor do que o Senhor.
O louvor que Deus deseja não se reduz à expressão oral de
nossa admiração, nem mesmo ao sincero louvor do coração, mas
deve incluir as obras ou toda a vida42.
Os EE terminam com a oportuna advertência de que “o amor
consiste mais em obras do que em palavras” (EE 230). E as Constituições começam afirmando que “a suave disposição da divina
Providência pede a cooperação de suas criaturas” (Const. 134).
Inácio sabia que, se, por um lado, os seres humanos têm o privilégio de poderem cooperar com o próprio Criador, por outro lado,
eles têm a tremenda responsabilidade de desfigurar a criação divina, “colocando impedimentos” à ação de Deus.
Por amor, o sujeito inaciano é chamado a colaborar com
todas as criaturas, com os crentes e com os descrentes, para que
este mundo seja, cada dia mais, expressão da beleza e da bondade do Criador e para que, nele, todos os seres humanos possam
realizar-se plenamente.
48
Itaici – revista de espiritualidade inaciana, n. 83 (Março/2011)
42. Santo Tomás distingue
a laus oris (louvar com a
boca) da laus cordis (louvar
com o coração). Cf. Suma
teológica. Vol. 6. São Paulo:
Loyola, 2005, 427 [II-II, a.
1, ad 2]. A tradição acrescenta ainda a laus operis
(louvar com as obras).
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O amor de deus, princípio e Fundamento da criação