BAR EM BAR: ATÉ O DIA 18, UM FESTIVAL DE PETISCOS A APENAS 10 reais
Ano XI • nº 210
Novembro de 2012
R$ 5,90
Roteiro Especial de Natal
Nossa equipe já saiu a campo para preparar uma edição muito especial,
a última do ano, com um roteiro completo das melhores ceias de Natal
e festas de Réveillon da cidade. Não perca a oportunidade de anunciar
seus produtos e serviços para o público mais seleto da cidade.
Reservas: 06/12
Material: 10/12
Circulação: 14/12
Para anunciar, ligue 3961.6261
Para quem sabe apreciar
as coisas boas da vida
em poucas palavras
Nascida em 1957 para abrigar acampamentos de operários
das construtoras encarregadas de erigir a nova capital, a Vila,
como já é carinhosamente conhecida, transformou-se num
bairro em tudo parecido com uma pacata cidade do interior.
É para lá que engravatados da Esplanada dos Ministérios, a
apenas 4 km dali, se refugiam na hora do almoço para comer
bem e relaxar um pouco antes de voltar para o trabalho.
São mais de 30 restaurantes de diversas especialidades
– de churrascarias a casas de frutos do mar, de comidinhas
mineiras e nordestinas a sushis e sashimis – frequentados
até por políticos como o ex-presidente Lula, o senador José
Sarney e o deputado Romário, que se rendem aos encantos
desse bairro histórico (leia a partir da página 6).
Por falar em história da cidade, estreia no final deste mês
um documentário realizado com base no rico acervo de um
cinegrafista italiano que chegou aqui em 1959 para documentar
a festa de inauguração. A partir de 300 horas de filmes por
ele produzidos, a historiadora Andrea Prates e o cineasta
Cleisson Vidal conseguiram resgatar a história dos primeiros
20 anos de Brasília em produção de 71 minutos (página 48).
Depois de levar mais de 410 mil espectadores ao CCBB
no Rio e São Paulo, está em Brasília a mostra Corpos presentes,
do escultor inglês Antony Gormley. Indiferentes às polêmicas
que costumam provocar, seus "corpos" estão colocados não
só no CCBB como também em pontos movimentados da
cidade, para interagir com a população (página 38).
Interação e alegria são o mote do Festival Bar em Bar, até
o dia 18. Pastel de fraldinha, bolinho de ossobuco, coxa de
frango recheada com creme de queijo e até bolinhos de paella
marinera são as estrelas desses botecos. Harmonizadas com
as estupidamente geladas, têm feito a festa dos botequeiros de
plantão. Tim-Tim! (página 12).
Boa leitura e até dezembro.
Maria Teresa Fernandes
Editora
Divulgação
Quando a Escola de Samba Acadêmicos da Vila Planalto
entrar na avenida, em fevereiro, o abre-alas virá com uma
foto de Rosental Ramos da Silva, cozinheiro do ex-presidente
JK, o primeiro a abrir, nos anos 90, um restaurante na Vila
Planalto. Com o tema “De Kubitscheck a Silva”, a escola de
samba estará prestando uma justa homenagem aos sabores e
aromas de um bairro vocacionado para a gastronomia simples
e predominantemente regional.
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Obras do britânico Antony Gormley ocupam o CCBB
e vários espaços públicos da cidade até 6 de janeiro.
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águanaboca
picadinho
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ROTEIRO BRASÍLIA é uma publicação da Editora Roteiro Ltda. | Setor Hoteleiro Sul, Quadra 6, Bloco C, Sala 1612, Brasília-DF - CEP 70.322-915
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Diagramação Carlos Roberto Ferreira | Capa André Sartorelli, sobre fotos de Sérgio Amaral | Colaboradores Akemi Nitahara, Alexandre Marino,
Alexandre dos Santos Franco, Ana Cristina Vilela, Beth Almeida, Cláudio Ferreira, Eduardo Oliveira, Elaina Daher, Heitor Menezes, Ivana Cássia Nery,
Lúcia Leão, Luiz Recena, Marina Ávila, Mariza de Macedo-Soares, Melissa Luz, Reynaldo Domingos Ferreira, Sérgio Moriconi, Silio Boccanera, Súsan
Faria, Vicente Sá Fotografia Carlos Nery, Nuno Gouveia, Rodrigo Oliveira, Sérgio Amaral | Para anunciar Rachel Formiga (8144.9935 / 9959.9935)
Impressão Alpha Gráfica e Editora | Tiragem: 20.000 exemplares.
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Sérgio Amaral
água na boca
A praça de alimentação
da Esplanada
A Vila Planalto diversifica e aprimora sua gastronomia
para atender a uma clientela cada vez mais exigente, vinda
principalmente dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes.
Por Beth Almeida
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udo começou com Rosental Ramos
da Silva, o célebre cozinheiro do expresidente Juscelino Kubitscheck.
Quando abriu seu restaurante, no início
dos anos 90, ele não imaginava estar vocacionando todo um bairro da capital brasileira para o ramo da gastronomia. Hoje,
são mais de 30 restaurantes na Vila Planalto, procurados pela proximidade do centro do poder, pela facilidade de estacionamento e, principalmente, pelo ar bucólico
de cidade pequena. Mais que crescer, a
culinária da Vila Planalto também se diver-
sificou e, em alguns casos, até se sofisticou.
Se antes as casas serviam pratos da cozinha
mineiro-goiana ou nordestina, hoje há restaurantes de cozinha internacional, churrascarias e até um japonês.
Embalada por esse sucesso, a Escola
de Samba Acadêmicos da Vila Planalto
decidiu homenagear os restaurantes do
bairro no carnaval de 2013, quando a
agremiação completa dez anos. Com o tema “De Kubitscheck a Silva”, numa referência aos ex-presidentes JK e Lula, que
apreciavam chefs locais, a escola terá como abre-alas uma foto de Rosental com JK
e falará das especialidades gastronômicas
dos principais restaurantes do bairro.
Entre as churrascarias, as mais recentes são a Tchê Garoto e O gaúcho da
Vila. A primeira funciona no sistema de
rodízio, tanto no almoço quanto no jantar. Fruto do trabalho de quatro irmãos
que, há 15 anos, deixaram o Rio Grande
do Sul para trabalhar na churrascaria Porcão de Brasília, a casa tem entre suas especialidades a costela e oferece um bufê com
cerca de 50 itens, que inclui desde saladas
até frutos do mar. É também uma ótima
pedida para a happy hour, em que se pode
apreciar um chope gelado enquanto se
contempla a vista privilegiada para a Es-
Divulgação
A costela de tira uruguaia é uma das especialidades d'O Gaúcho da Vila.
Outra opção de churrascaria no bairro é a Vila Brasas, que completou cinco
anos de funcionamento em setembro.
Iniciativa de outro ex-funcionário do
Porcão, a churrascaria ficou conhecida pela clientela como “Porquinho”, segundo
seu proprietário, o gaúcho Joce dos Santos, mais conhecido como Chitãozinho,
que mora na Vila Planalto desde que chegou a Brasília, em 2000. O serviço também é em sistema de rodízio, mas apenas
no almoço. No jantar, a casa abre apenas
para eventos, com reservas para mais de
40 pessoas. Para Chitãozinho, a concorrência é sempre bem-vinda. “Com o surgimento de novos restaurantes, o movimento até aumentou”, afirma, adiantando que
Sérgio Amaral
planada dos Ministérios. Os irmãos Rodrigues inauguraram ainda um hotel e, ao
lado, outro restaurante, este mais simples,
com serviço self-service e cozinha mineirogoiana.
Na O Gaúcho da Vila, Paulo Renato
Ribeiro, um dos quatro proprietários, indica como especialidades a costela de tira
uruguaia, o entrecôte e a picanha. De segunda a sexta, a casa oferece, no almoço,
“comida brasileira com churrasco gaúcho”:
três tipos de carnes, saladas, arroz, feijão
e, como opção para os não afeitos à carne,
um prato à base de peixe. Como todos gaúchos que se prezam, os proprietários valorizam a terra natal até nos utensílios com
que servem as mesas, todos nas cores da
bandeira do Rio Grande de Sul. Às sextas,
a casa serve feijoada e, no serviço à la carte,
a paleta de ovelha e o carreteiro de charque. “A proximidade da Esplanada e a facilidade de estacionamento estão tornando a Vila Planalto um ponto gastronômico”, reconhece Paulo Renato, que antes
de chegar a Brasília mantinha um restaurante flutuante no balneário de Angra dos
Reis, onde morou por 15 anos.
Também recentemente foi inaugurada
no bairro a Figueira da Vila, onde a pedida é a parrilla uruguaia, com oito opções
de cortes bovinos e ovinos, inclusive raridades como as mollejas, ou timo, uma
glândula do cordeiro apreciada pela maciez. A casa abre no almoço e no jantar e a
happy hour conta com música ao vivo.
A churrascaria Tchê Garoto funciona no sistema de rodízio e oferece um bufê com cerca de 50 itens.
já está com planos de abrir um novo restaurante e choperia no bairro, em 2013.
Para os amantes de frutos do mar, o
bairro conta com o Esquina Gourmet,
antigo Esquina da Vila, que está passando por algumas transformações, inclusive no cardápio. “Estamos fazendo um enxugamento e também modernizando o
cardápio”, explica o empresário Marcelo
Pandolfi, que há três meses assumiu o restaurante, sua primeira experiência no ramo da gastronomia, “uma paixão antiga”.
Entre os novos itens do cardápio, o exotismo de um sushi de pirarucu ou um caldo de traíra, como entradas. A casa também passa a oferecer opções de pratos
executivos, a maioria tendo os frutos do
mar como personagem principal, como o
robalo com ninho de alho poró e risoto
de shitake ao molho de sálvia. Os sucessos mais antigos do cardápio, como a traíra, o tucunaré na chapa e a paella das
sextas e sábados, permanecem. A decoração está mudando aos poucos e, para breve, Gustavo promete a instalação de lounge de espera, combinando com o que ele
considera o grande diferencial do bairro.
“Aqui as pessoas podem comer e relaxar
ao mesmo tempo”, resume o empresário.
Outra nova opção é o Vila Sushi, o
primeiro do bairro especializado em cozinha japonesa, onde a clientela pode optar entre o rodízio, servido à mesa tanto
no almoço quanto no jantar, e os pratos
à la carte.
Os apreciadores do bacalhau não podem perder o que Méa Araújo prepara no
Feitiço da Vila, um simpático restaurantebistrô que funciona no bairro desde 2005.
O peixe é servido para duas pessoas, com
batatas inglesa e doce, tomates, pimentões,
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Divulgação
água na boca
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Sérgio Amaral
A traíra sem espinha é um dos carros-chefes do Esquina Gourmet.
As amigas Luciana Assis, Daniela de Oliveira, Paula Gripp e Tyessa Neiva são frequentadoras assíduas do
Fogão de Pedra. O engenheiro Tunas Ferreira e o contador João Ghisoni preferem Tia Zélia e Dona Graça.
Sérgio Amaral
azeitonas e cebolas, tudo regado a leite de
coco. Outro sucesso da casa é o Brasileirinho, uma picanha na chapa com queijo
ou alho frito, acompanhado de arroz, feijão tropeiro, ovo frito, vinagrete e batata ou
mandioca fritas. Além do serviço à la carte,
a casa oferece pratos executivos, com nove
opções de carnes e peixes e 36 possibilidades de acompanhamentos, entre as quais
o cliente escolhe quatro para compor a refeição. Moradora da Vila Planalto há 50
anos, essa ex-servidora pública aponta a
arborização e a amplidão do ambiente como o charme do bairro e o motivo para
manter uma clientela cativa entre os ocupantes do poder.
Foi o crescimento da demanda na Vila Planalto que levou o empresário José
Mario Macedo a abrir o segundo restaurante no bairro, o Casarão, que funciona
na Praça da Igreja há três anos e meio.
Ao contrário da casa mais antiga, o Vila
Verde, especializado em cozinha mineira, no Casarão o bufê, com mais de 100
itens, conta com pratos variados, inclusive carnes assadas na chapa e, diariamente, pratos à base de salmão ou bacalhau.
O local é ótimo também para petiscar
antes do almoço dos fins de semana,
com uma cerveja honestamente gelada e
110 rótulos de cachaças.
O engenheiro civil Tunas Ferreira e
o contador João Ghizoni, que trabalham juntos na sede da Caixa Econômica Federal, vão com frequência saborear
as delícias da Vila Planalto, especialmente as servidas por Tia Zélia e Dona Graça. “Eu não perco a feijoada das sextas-feiras”, revela João, enquanto o amigo
prefere a galinha caipira e o bife acebolado. “O que gosto nos restaurantes daqui
é o temperinho caseiro; hoje mesmo disse para o João: vamos para a Vila Planalto que hoje quero comida de caldo”,
conta Tunas, referindo-se às carnes com
molho, na panela.
Também companheiras de trabalho,
no Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, Luciana Assis, Daniela
Oliveira, Tyessa Neiva e Paula Gripp não
dispensam um almoço na Vila Planalto.
O hábito começou com Daniela, que costumava frequentar o Fogão de Pedra
quando trabalhava na Câmara dos Deputados. “Um dia sugeri a elas que viéssemos almoçar aqui e todas gostaram”, conta Daniela. Para as amigas, os principais
atrativos são o ar interiorano do bairro e a
comida caseira.
Os queridinhos
A simplicidade do Feitiço da Vila, onde faz sucesso o bacalhau de Méa Araújo, convive muito bem
com o requinte do recém-inaugurado Figueira da Vila, que tem chef chileno e parrillero uruguaio.
Gui Teixeira
O tema da escola de samba da Vila
Planalto demonstra que o sucesso da cozinha do bairro é antigo, especialmente
entre os ocupantes do poder que chegam
à capital federal – a começar pelo próprio
JK, que conheceu Rosental no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, e decidiu convidá-lo para apresentar seus quitutes na nova capital. A viúva de Rosental, Maria Vera Guimarães, ainda manteve o restaurante após a morte do chef, mas acabou fechando as portas.
Já o ex-presidente José Sarney é fã da
leitoa à pururuca do Fogão de Pedra, especializado em cozinha mineira. “Ele sempre
encomendava e vinha a governanta buscar
o prato, mas ele também chegou a vir aqui
umas duas ou três vezes”, revela Elba Sardinha Ferreira, a proprietária, acrescentando que outra “celebridade” que frequentou “quase todos os restaurantes da Vila”
é o ex-jogador de futebol e hoje deputado
federal Romário. A casa funciona em sistema de self-service por peso e conta com
mais de 100 itens. “Nosso forte é a diversidade dos pratos”, resume Elba.
Mais recentemente, o ex-presidente
Lula encantou-se com o tempero nordestino da baiana Maria José de Jesus Oliveira,
a popular Tia Zélia. “O que ele mais gosta
é da rabada e da mousse de tamarindo,
que só a Tia Zélia sabe fazer”, conta a cozinheira, sempre se referindo ao petista com
carinho. “Ele me chama de véia, e eu gosto!”, revela Tia Zélia, que, ironicamente, é
mais jovem do que Lula. Nas paredes do
restaurante, fotos do ex-presidente demonstram a adoração da proprietária pelo
célebre cliente. Também são figuras fáceis
no local outras estrelas petistas, como o
ministro da Educação, Aluízio Mercadante, e os brasilienses Pedro Celso e Geraldo
Magela, entre outros.
Sérgio Amaral
do poder
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Com sua simpatia contagiante, Tia Zélia resume sua cozinha: “Meu povo gosta
de carne, eu faço comida para homem, para comer e sair feliz”. Funcionando apenas de segunda a sexta-feira no almoço,
Tia Zélia serve diariamente três tipos de
carnes e diversos acompanhamentos. O
prato predileto de Lula é servido às quintas-feiras, dia em que também tem carne
de sol, outro sucesso do restaurante. Às
sextas, as estrelas são a feijoada e o pernil
de panela.
Devota de Nossa Senhora da Conceição, Tia Zélia promove, todos os anos, em
dezembro, o “almoço 0800”, em que a
clientela só paga pelas bebidas consumidas, “mas se deixar comida no prato, paga
R$ 100, porque não pode ter desperdício”. Como o dia dedicado à santa, 8 de
dezembro, neste ano cai num sábado, ela
decidiu que a homenagem será no dia 5. É
bom agendar e chegar cedo, porque para
esse dia não há reserva de mesa.
Entre os restaurantes tradicionais do
bairro também encontramos a cozinha
nordestina da piauiense Dona Graça, cuja
especialidade é a carne de sol, servida diariamente. Mas a clientela também elogia o
carneiro ao molho de coco e o capote (galinha d’angola). A casa abre só no almoço, de segunda a sexta-feira. Do Piauí para
o Ceará, Benjamim Soares de Oliveira, o
A admiração de Tia Zélia por seu cliente mais famoso está estampada nas paredes do restaurante.
Seu Beija, também é pioneiro no bairro.
No Restaurante do Beija ele serve delícias da terra natal com um tempero bem
caseiro e pratos fartos.
Numa cidade formada por brasileiros vindos de todas as regiões, os restau-
rantes da Vila Planalto são um reflexo do
apreço e da nostalgia de antigos e novos
migrantes, que desde a inauguração da
nova capital buscam na gastronomia
uma forma de matar as saudades da terrinha, seja ela qual for.
Tchê Garoto
Feitiço da Vila
Traíra sem Espinha
Avenida Belém-Brasília, Lote 1, Rabelo
(3081.8858). De 2ª a 6ª, das 12 às 21h.
Rua 5, Lote 2, DFL (3306.1115).
De 2ª a 6ª, das 11h30 às 15h30; sábado e
domingo, das 12h às 16h30.
Rua 4, Lote 1, DFL (3306-2596). Diariamente,
das 11h30 às 24h.
O Gaúcho da Vila
Rua 4, Lote 12, Tamboril (3879.0019).
Diariamente, das 11h30 às 16h
Casarão
Rua 20, Lote 2, DFL (3081.0541).
Diariamente, das 11 à 1h.
Tia Zélia
Vila Brasas
Rua Maranhã, 8, Casa 8, Pacheco Fernandes
(3306.1526). De 2ª a 6ª, das 11h30 às 16h.
Avenida do Contorno, Casa 1, Rabelo
(3306-1006). De 2ª a 5ª e aos sábados das
11h30 às 16h.
Dona Graça
Rua 7, Casa 156, Pacheco Fernandes
(3032.1062). De 2ª a 6ª, das 12 às 15h.
Rua 1, Lote 1, DFL (3081.0404). De 3ª a
domingo, das 11h30 às 16h
Rua da Praça, Lote 14, Rabelo (3306-1934).
Diariamente das 11h30 às 15h.
Avenida JK, Lote 2, Loja 1. Avenida JK, Rua
2, Lote. De 3ª a domingo, das 12 às 16h e
das 19 às 23h.
Rua 9, Casa 2, Pacheco Fernandes (3306.2881).
De 2ª a 6ª, das 11h às 14h30 e das 18h30 às
23h; sábado, das 11h às 14h30.
Figueira da Vila
Esquina Gourmet
Vila Sushi
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Sérgio Amaral
água na boca
Rua da Igreja, 3, DFL (3327.1108). Diariamente,
das 11 às 15h.
Fogão de Pedra
Restaurante do Beija
Caminho de Minas Ville
Rua 2, Lote 33, DFL (3306.1977). De 3ª a
domingo, das 11h30 às 15h.
Sertao & Mar
Clube Unidade de Vizinhança, DFL (3006.3016).
Diariamente, das 11h às 15h30.
Gameleira
Rua Emulpress, Lote 1, DFL (3306.1367).
Diariamente, das 11h30 às 15h30.
Pedaço de Pizza
Avenida Israel Pinheiro, Lote 10, Rabelo
(3306.1989). De 2ª a 5ª, das 15 às 23h; de 6ª a
domingo, das 16 às 24h.
Triângulo Mineiro
Rua 4, Casa 1, DFL (3006.2126)
Casa Grande
Rua Piauí, Casa 20 (3306.2440)
Os bons
aromas do
Severina
Por Ana Cristina Vilela
Fotos Rodrigo Oliveira
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entando se adaptar ao mercado de
Águas Claras e ao estilo dos clientes, o restaurante Severina, instalado na cidade há mais de um ano, mudouse recentemente para outro endereço. O
motivo? A demanda. Antes com 70 lugares, agora a casa, instalada no Edifício
Acqua, na Avenida Castanheiras, tem capacidade para 150 pessoas. Já a carne de
sol, esta continua a mesma, com um “cheiro cheiroso!”, segundo o pequeno cliente
que chega acompanhado da mãe ao amplo, rústico, arejado e agradável espaço,
embalado por uma discreta música ambiente – nordestina, é claro!
É Marcus Linhares, sócio-proprietário
do restaurante, juntamente com sua esposa, Patrícia (com ele na foto ao lado),
quem explica o porquê da mudança: “Estava muito cheio e não dávamos conta de
atender a clientela”. Isso porque em Águas
Claras o ritmo é diferente. Por exemplo, o
movimento fica mesmo para o final de semana, quando, cansadas de ir para o Plano Piloto de segunda a sexta, as pessoas
preferem ficar perto de casa. Para o meio
de semana, o casal teve de fazer algumas
adaptações no cardápio, para atender a outro público. Os “acochadinhos”, pratos
menores do que os executivos, são servidos todos os dias a R$ 19,80, enquanto
na Asa Sul essa oferta é feita apenas num
dia da semana.
Conhecido dos brasilienses há 32
anos, em seu endereço na Asa Sul, o Severina abre as portas todos os dias para o
almoço e nenhum dia para o jantar. Foi
feito o teste de abrir durante a noite em
Águas Claras, mas com insucesso. O motivo, de acordo com Marcus, é o tipo de
comida, considerada pesada para um
jantar, quando as pessoas preferem algo
mais leve. Assim, o espaço só é aberto
durante a noite para eventos, que podem
ser agendados a partir de 50 pessoas.
De dezembro a março estão previstas
duas novidades para o Severina de Águas
Claras. Para dezembro, a expectativa fica
para o café da manhã, com tapioca, bolos vários e iguarias nordestinas. Ainda
não está definida a forma como será servido. A outra novidade, cujas obras devem estar concluídas até março de 2013,
é a brinquedoteca. “O público de Águas
Claras é jovem, geralmente com filhos, e
muitos passam o final de semana aqui,
com os pais vindo do Plano Piloto para
fazer companhia aos filhos e netos.”
No cardápio, entre outras opções, como o escondidinho, a já tradicional carne de sol completa (carne de sol, feijão-de-corda, paçoca de carne, manteiga de
garrafa, arroz branco, vinagrete), com macaxeira cozida (R$ 76,90), com macaxeira
cozida e queijo do sertanejo (R$ 84,90),
com macaxeira frita (R$ 78,90), e com
macaxeira frita e queijo do sertanejo
(R$ 86,90). Esses pratos são suficientes
para até três pessoas. Servem-se os mesmos cardápios para duas pessoas, de
R$ 53,90 a R$ 63,90. E há, ainda, os indi-
viduais, de R$ 26,90 a R$ 31,90. Diariamente, são feitas entregas em domicílio.
Tanto Marcus quanto Patrícia nasceram em Brasília, mas ambas as famílias
são nordestinas. “Cresci em Fortaleza”,
conta Marcus, que fala do segredo do preparo de uma boa carne de sol. “Tudo começa com a seleção da carne, porque não
adianta pegar qualquer carne; aqui, trabalhamos com coxão mole”. O processo
de preparo dura em torno de 72 horas.
Durante parte desse tempo, a carne fica
em salmoura. O resultado? Depois de assada, uma carne de sabor marcante e “um
cheiro cheiroso!” de deixar o estômago
todo animado e a boca salivando.
Severina
Edifício Acqua – Avenida Castanheiras, 980,
Bloco B (3027.2767).
De 2ª a 6ª, das 11h30 às 16h. Sábados,
domingos e feriados, das 11h30 às 17h30
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água na boca
Filezinho grelhado sobre pão ciabatta, do Parrilla Madrid.
Bruschetas de tomates frescos e secos, do Café Savana.
Bolinhos feitos com paella marinera, do Oliver.
Hora de aproveitar
Festival Bar em Bar oferece, até o dia 18,
petiscos a R$ 10 em 22 bares da cidade.
Por Lúcia Leão
T
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odo botequeiro é um filósofo em
potencial. O relaxamento e a descontração, naturais da situação
que se cria em volta de uma mesa de bar,
ajudados pelo poder inebriante dos
drinks e da boa companhia, embaçam
um tanto o racionalismo cartesiano que
comanda o cotidiano do homo sapiens e
ilumina a intuição e a sensibilidade, que
deixam os homens mais sábios. Daí tanta filosofia e tanta poesia a brotar nos
canteiros dos botequins.
Esta, como veem, é mais uma tese
nascida e apregoada pelas mesas de bar.
E quem contesta? Excluídos os excessos,
inoportunos em qualquer situação ou local, uma noitada, uma happy hour ou
um simples pit stop (para os leigos, aquela paradinha breve para recarregar a máquina com um gole gelado e um salgadi-
nho, geralmente no balcão) são sinônimos de festa e confraternização.
De todos os equipamentos urbanos,
portanto, poucos são mais democráticos
e socializantes do que o bar. Um “campo
neutro”, como teria definido Stanislaw
Ponte Preta, o sábio Lalau, onde prevalece a igualdade e não há hegemonia entre
os convivas. As palavras de um togado e
de um poeta têm o mesmo peso e seus
copos a mesma medida.
São essas magníficas qualidades, além,
é claro, dos bons petiscos e da cerveja gelada, que a Abrasel e os principais bares de
Brasília e de outras 200 cidades do Brasil
celebram, até o próximo dia 18, com o festival Bar em Bar 2012, cujo lema promete: “A alegria é por nossa conta”.
Esta é a sexta edição do evento e conta com a adesão de 22 bares da Capital.
Cada um deles preparou um petisco especial, que está sendo oferecido ao preço
promocional de R$ 10 a porção, e todos
prometem se esmerar para destacar o
papel e as contribuições da “instituição
botequim” para a nossa sociedade. “A intenção é promover uma ação que destaque o talento, a criatividade e o jeito único
dos bares de Brasília, com várias opções
de petiscos especiais, favorecendo a relação dos bares com a comunidade local”,
explica Rodrigo Freire, presidente da
Abrasel-DF.
Os restaurantes puristas que nos desculpem, mas ser reconhecido como um
bom bar é fundamental. E é isso que almejam os participantes da promoção. O
Mercado 153 do Terraço Shopping, por
exemplo: fez nome como um bom restaurante e normalmente está lotado nos horários de refeição. Mas um dos proprietários, Daniel Araújo, quer mais. “Queremos ser vistos como um ponto de encontro, mostrar nossa face de boteco, onde
os clientes podem sentar para tomar uma
gelada e degustar bons petiscos com descontração, sem a etiqueta de um restaurante”, explica o empresário. Quem aparecer por lá esses dias poderá provar, por
módicos R$ 10, as iscas de salmão em
massa crocante, receita desenvolvida especialmente para o evento.
Motivação semelhante trouxe o Carpe Diem de volta para a promoção, depois de dois anos fora do Bar em Bar. “A
gente estava se concentrando só no restaurante e perdendo um pouco a pegada
de bar. A clientela de Brasília já se acostumou e fica esperando esse tipo de
evento para conhecer um lugar novo,
provar alguma coisa diferente. Sem participar, estávamos perdendo esse público”,
revela Fernanda La Rocque. Estão na promoção as casas da 104 Sul e do Terraço
Shopping, que oferecem como petisco o
“quarteto fantástico”, croquetes grandes
de camarão e bacalhau, bolinho de mandioca com carne de sol e quibe.
Dessa crise de identidade nunca sofreram os bares do empresário Jorge Ferreira. Feitiço Mineiro, Bar do Ferreira e
Bar do Mercado Municipal são, essencialmente, bons botecos, embora competentes restaurantes. Parceiro de primeira hora da Abrasel no Bar em Bar, Ferreira destaca o papel da promoção no fortaleci-
mento do setor, na renovação dos cardápios e na melhoria do padrão de serviços:
“É uma oportunidade para os bares da cidade se revigorarem, aprimorarem seus
serviços, atraírem novos clientes e se fortalecerem como irradiadores de alegria
para a cidade. Nós aproveitamos também
para desenvolver e testar novas receitas
que depois são agregadas ao cardápio permanente. Como aconteceu com o Veveco,
um ragu de costela com hora-pro-nobis,
criado para a promoção de 2009 e até hoje
um dos grandes sucessos do Feitiço Mineiro”. Este ano, o Bar do Ferreira oferece a
“coxa creme do Ferreira”, coxa de frango
recheada com creme de queijo e ervas e
servida com molho de chope.
Testar a aceitação de um novo petisco também é a principal expectativa de
Guto Nicolazzi, gestor do Primeiro Cozinha de Bar, de Águas Claras. Inaugurando sua participação no evento, oferece
pastéis de panela crocantes, recheados
com fraldinha desfiada. “Também esperamos atrair a atenção de novos clientes
e contribuir para o fortalecimento do setor com um todo”, prevê Nicolazzi.
Veja ao lado a relação completa dos
bares participantes, com a descrição dos
petiscos que estarão servindo, até o dia
18, ao preço de R$ 10. E prepare-se para a
maratona.
Agripina Bistrô (102 Norte)
Bolinhos de carne com fondue de cerveja
Pale Ale e queijo emmental.
Alfredos Pizzaria (408 Norte)
Porção de bolinhas de pizza cobertas
com mussarela, pepperoni levemente
apimentado e azeitona.
Bar Bottarga (QI 5 do Lago Sul)
Queijo coalho grelhado com pesto de
tomates secos e saladinha verde.
Bar do Ferreira (Pier 21)
Coxa de frango recheada com creme de
queijo e ervas, acompanhada de molho
à base de chope Brahma.
Bar do Ferreira (Shopping Quê! de
Águas Claras)
Tartare de filé marinado servido com torradas.
Bar do Mercado Municipal (509 Sul)
Pão de queijo recheado com creme de
pernil e linguiça.
Beirute Norte (107 Norte)
Coalhada seca temperada com zattar,
azeite extra virgem e azeitonas pretas,
acompanhada de torradinhas de pão sírio.
Bierfass Lago (Pontão do Lago Sul)
Porção de quibes servida com geleia de
pimenta.
Bier Hauss (402 Sul)
Espeto de lombo suíno grelhado intercalado
com cebola, acompanhado de farofa de
frutas cristalizadas.
Café Savana (116 Norte)
Bruschetas de tomates frescos e secos,
manjericão fresco e mussarela, temperadas
com azeite, aceto balsâmico e orégano.
Carpe Diem (104 Sul) e Carpe Diem
La Cuccina (Terraço Shopping)
Quarteto fantástico: porção de salgados
grandes contendo croquetes de carne e
bacalhau, bolinho de aipim com recheio
de charque e catupiry e quibe.
Duetto (Pier 21)
Dez pastéis de massa fina, recheados
de mussarela temperada com orégano
e servidos com molho picante.
Enchendo Lingüiça (Centro de
Lazer Beira Lago)
Iscas de peixe branco à doré acompanhadas
de molho tártaro.
Godofredo (408 Norte)
Trio de linguiças artesanais sobre cama de
cebola gourmet, acompanhado de pãezinhos.
Lunna (Deck Norte)
Cubos de contra-filé empanados com farinha
especial ao molho de sonha e com especiarias.
Mercado 153 (Terraço Shopping)
Pastéis de massa fina com molho picante, do Duetto
Mosaico Grill (311 Sul)
Fotos: Divulgação
Iscas de peixe à doré, do Enchendo Linguiça.
Rolinho em massa crocante, recheado
com cream cheese, abacaxi e salmão
servido com geleia de frutas vermelhas.
Bolinho de ossobuco com tempero
especial, recheado com queijo provolone.
Oliver (Clube de Golfe)
Bolinhos feitos com paella marinheira.
Parrilla Madrid (508 Sul)
Filezinho grelhado sobre pão ciabata
com alioli, patata palha, ovo de codorna
estrelado e azeite trufado.
Primeiro Cozinha de Bar (One Mall
de Águas Claras)
Porção com quatro pastéis de massa
crocante recheados com fraldinha
definhada na cocção em panela de ferro.
Vila Madá (Deck Norte)
Pernil suíno assado e puxado na chapa
com cebola, servido com mandioca cozida.
Bolinhos de carne com fondue de cerveja, do Agripina. Espeto de lombo suíno grelhado, do Bier Haus.
13
água na boca
O morador de rua
Fotos: Divulgação
que virou tapioca
Por Vicente Sá
A
14
mais forte contribuição dos indígenas à culinária nacional, a mandioca é a base de uma iguaria que
sempre foi apreciada no Nordeste brasileiro e nos últimos anos conquistou todo o
país. Deixou de ser uma comidinha simples para sofisticar-se e agradar aos paladares mais exigentes. Estamos falando da tapioca, comida feita à base da fécula da
mandioca que, ao se espalhar em uma
chapa quente, coagula-se e vira um tipo de
panqueca ou crepe seco. Do início da colonização brasileira até a metade do século
passado, esse era o pão do nordestino,
apreciado basicamente com manteiga ou
queijo, em sua versão salgada, ou com coco, quando doce.
Hoje, a comida ganhou incontáveis variações, com dezenas de recheios diferentes, e se transformou em “especialidade”
de casas espalhadas por todo o Brasil. Em
algumas, é tratada com requintes que a
elevam à categoria gourmet, como é o caso
da Tapiocaria Raízes do Sertão, do empresário Durley Soares da Silva. São mais de
100 sabores de tapioca, desde a mais simples, apenas com manteiga do sertão, às
recheadas com camarão, salmão, baca-
lhau, atum, tilápia e uma vasta combinação de queijos e purês.
A tapioca tornou-se uma paixão para
Durley Soares ainda em 2009, quando
ele era gerente de uma casa de massas que
funcionava na 311 Norte, ao lado de uma
tapiocaria. Mas a história desse hoje empresário de sucesso merece ser melhor
contada. Durley é goiano de Iraciara e
chegou a Brasília em 1987, aos sete anos
de idade. Filho de uma família numerosa
e com o pai sofrendo de um problema na
coluna que o impedia de trabalhar, lutou
desde cedo para ajudar no sustento da casa. Morando em Planaltina com os onze
irmãos, descia todos os dias para trabalhar no Plano Piloto. Foi nessas incursões que aprendeu a gostar de livros. “Eu
lia tudo o que encontrava, sem ligar para
assunto ou gênero. Eu achava muito livro
jogado no lixo. Depois fui lendo os oferecido pelo Luiz Amorim, do T-Bone, esses
que ficam nos pontos de ônibus. Cheguei
a ler mais de 300 livros em seis meses”,
orgulha-se Durley.
O amor pelos livros mudaria sua vida
e o ajudaria a fugir do rumo fácil das drogas ou da bebida quando, por questões
emocionais, largou a família, aos 17 anos,
e tornou-se morador de rua. “Eu dormia
pela Asa Norte, frequentava os pequenos
restaurantes, onde trabalhava por comida, lavando pratos ou limpando o lixo.
Nunca aceitei comida de graça”, lembra.
Depois de um ano, ele voltou ao convívio
da família e logo depois casou-se. Fez cursos no Senac enquanto trabalhava na Escola de Música de Brasília como técnico
mecanógrafo, e nas horas de folga vendia
sorvetes aos alunos e professores. Conheceu e criou laços de amizade com boa parte dos músicos da cidade que ali lecionavam, entre eles o violonista Jaime Ernest
Dias, Maria Barros e o próprio diretor da
escola à época, Carlos Galvão.
Depois de fazer o curso de garçom,
também no Senac, foi trabalhar numa ca-
rantes, jornalistas e artistas, entre um sem
números de clientes cada vez mais fiéis.
Rapidamente virou sinônimo de sucesso.
Por se considerar um nacionalista,
Durley não usa nenhum produto importado em sua empresa e explica que o nome Raízes do Sertão é uma homenagem a
seus antepassados e à culinária nacional.
As folhagens utilizadas pelo Raízes são hidropônicas e 97% de seus produtos não
contêm glúten. A tapiocaria também oferece tapiocas especiais para celíacos, intolerantes a lactose e a glúten, além de excelentes opções para vegetarianos.
Entre as diretrizes traçadas por Durley
no planejamento inicial já estava a de oferecer franquia de sua marca. E é o que ele
já começou a fazer. A segunda Tapiocaria
Raízes do Sertão, na 216 Sul, tem algumas
diferenças em relação à da Asa Norte. Ela
funciona todos os dias em horário integral, das dez de manhã à meia noite, e recebe os clientes em três pavimentos, com sala vip, brinquedoteca, banheiros com acessibilidade e wi-fi. Os preços são os mesmos da matriz e as tapiocas mais pedidas,
assim como lá, são a de carne de sol, queijo coalho e banana (R$ 14,90), a de purê
de mandioca, queijo coalho e carne seca
(R$ 17,90) e a de carne de sol, rapadura,
Fotos: Divulgação
sa de massas, onde começou com o pé direito: um dia depois de assinarem sua carteira de trabalho, foi promovido a gerente.
Com mais dinheiro no bolso, e na cabeça
a ambição de progredir, começou a pensar em abrir seu próprio negócio. “Foi aí
que eu conheci a tapioca e minha vida
mudou”. Em 2010 ele arrendou a tapiocaria vizinha à casa de massas, mas o negócio não tinha registro e foi fechado pela
fiscalização, impondo a perda do todo o
tempo e dinheiro investido pelo novo
empresário. Mas ficaram o sonho e a determinação de ser dono de uma tapiocaria. Sozinho, Darley planejou e colocou
no papel seu novo negócio: montou o
cardápio de mais de 100 itens, criou a logomarca e desenvolveu as diretrizes do estabelecimento. É aqui que ele agradece
aos livros. “Eles me tiraram o medo de
aprender e ensinaram que o fundamental
na vida é o conhecimento. Com ele você
pode tudo”, afirma, convicto.
Com a ajuda do amigo Diego Valadares, em abril de 2011 o ex-morador de rua
realizou seu grande sonho e tornou-se empresário, dono da tapiocaria Raízes do Sertão, na 309 Norte. Suas receitas encantaram os clientes e o local logo passou a ser
frequentado por chefs, donos de restau-
queijo coalho e banana (R$ 17,50). Entre
as tapiocas gourmets, as que mais se destacam são a de salmão, alho poró e manjericão (R$ 26,90), a de salmão, mussarela
de búfala, alcaparras e rúcula (R$ 28,90) e
a de bacalhau, camarão, purê de mandioca, champignon e rúcula (R$ 29,90). Para
aplacar a sede, sucos naturais, refrigerantes, cervejas long neck, caipirinhas, café e
chocolate. A combinação fica por conta do
recheio escolhido.
Tapiocaria Raízes do Sertão
309 Norte – Bloco E (3037.9433).
Diariamente, das 16h às 24h.
216 Sul – Bloco B (3037-9433).
Diariamente, das 10 às 24h.
15
água na boca
Melhor do que parece
Por Lúcia Leão
Fotos Rodrigo Oliveira
Q
uando uma coisa não é o que
parece, relaxe. Pode ser melhor!
O que lhe parece um restaurante com o nome de SumôMed? Um japonês regado a azeite? Confesso que pensei
nisso. Mas é claro que não. É muito melhor! É o novo restaurante de comida internacional que está literalmente movimentando o Liberty Mall.
Alavancado numa surpreendente sequência de camarões – são 12 pratos preparados com o nobre crustáceo e servidos
à fartura em sistema de rodízio – e em receitas tradicionalíssimas, como o bacalhau
ao forno e o filé à parmegiana, o restaurante, há dois meses a vedete da praça de
alimentação do shopping, é a primeira filial da casa aberta há dois anos na 116
16
Sul, e se auto denomina de mediterranean
food. O que se caracteriza, segundo o gerente-proprietário Enozor Souza Jr. (na foto ao lado), pelo uso e abuso de peixes e
frutos do mar, pelo tempero clássico com
pitadas de açafrão e, claro, pelo azeite.
“Azeite extra-virgem”, destaca Júnior. “É
só o que usamos na nossa cozinha. Ele é
que deixa os pratos leves, que é o que mais
agrada nossa clientela, formada, na maioria, por pessoas que precisam comer e voltar logo para o trabalho. Elas querem se
fartar, mas de uma comida que não pese
no estômago e não dê aquela famosa preguicinha da sesta”.
Bem, está explicado o “Med”. E “Sumô” é o nome do primeiro restaurante da
família Souza, de comida japonesa, que
foi a quarta casa do tipo, em Brasília, aberta em 2006, e a primeira a servir em sistema de rodízio. Quando resolveram expan-
dir o negócio, o patriarca Enozor, os dois
filhos, a filha e o genro – que hoje tocam
uma rede de cinco estabelecimentos com
Todos os dias, os fãs
de camarão podem
se esbaldar com o
rodízio (R$ 36,90),
que inclui 11 pratos
feitos com o ingrediente. O crustáceo
aparece ao mel, com
lulas e nas receitas de
massas e risotos. No
cardápio fixo, a paella
med combina camarão, lagosta, lula
e tomate pelado
(R$ 142, para quatro
pessoas). De sobremesa, o tentation é uma
taça de crème brûllée
com suspiro, morango
e chantilly (R$ 14,50,
para três pessoas).
Entre as bebidas, o
vinho branco chileno
Equus Chardonnay
2009, a R$ 110.
a ajuda de filhos, sobrinhos e primos em
todos os cargos-chave – constataram que o
modismo plantara, em poucos anos, mais
de 15 restaurantes japoneses na cidade,
sem contar com as temakerias que se espalharam por praticamente todas as quadras
comerciais do Plano Piloto. Não havia
clientela para tanto. “Optamos pela cozinha mediterrânea porque é mais eclética e
tem o mesmo padrão saudável”.
O SumôMed foi uma criação coletiva
de uma família não de chefs ou restaurateurs, mas de pragmáticos e bem sucedidos comerciantes. Júnior, por exemplo,
já teve lojas de calçados, roupas e bijouterias, e ainda hoje não deixa de “dar uma
passadinha” na Rua 25 de Março quando
vai a São Paulo comprar matérias-primas
para o Sumô. “Quando vou à Liberdade,
sempre dou um passeio por ali, pra ver o
que tem de novidade, de oportunidade de
negócios... tenho saudade das minhas lojas”, confessa o paulista da minúscula Ma-
racaí, no noroeste do Estado, onde cresceu no meio do compra e vende do pai e
em torno da mesa farta em que se reunia
a família. “Os restaurantes surgiram na
nossa vida como uma boa oportunidade
de negócio. E negócio, para ser bom, tem
que ser bem feito e agradar o cliente”.
Simples assim! Sem nenhuma invenção – ou melhor, há uma única, o camarão
ao molho de mel criado pela irmã e também sócia e gerente Enozomara – mas
usando bons ingredientes, repetindo com
competência receitas consagradas e servindo com eficiência e fartura (além do rodízio de camarões, que satisfaz mesmo os
mais insaciáveis, todos os pratos servem
bem no mínimo duas pessoas), os Souza
Tavares (este o sobrenome do genro, que
tanto entrou para a família como para o
negócio) já ocupam praticamente metade
da praça de alimentação do Liberty Mall e
estão sendo saudados pelos demais comerciantes por ajudar a revitalizar o shopping.
Junto ao SumôMed, com capacidade para
atender a 300 clientes em vários ambientes, alguns com vista panorâmica para a
Esplanada, a numerosa família acaba de
abrir uma confeitaria, a BabeteSumô, e finaliza as obras de uma filial do japonês Sumô (aquele que deu origem a tudo).
Com o sangue de comerciante que
lhe corre nas veias – ele parece em tudo
libanês, mas não é; descende de alemães!
– Júnior já traçou um rumo para onde
avançar no novo negócio: as salas de cinema. Não para comprar, mas para fazer
parcerias, quem sabe de vendas casadas,
programas de desconto ou fidelidade... Tipo “almoce um rodízio de camarões, veja
um filme de curta ou média metragem e
volte para o trabalho feliz da vida”.
Simples assim! Quem não quer?
SumôMed
Liberty Mall, 1º piso (3797.9440)
De 2ª a 6ª, das 12 às 15h e das 19 às 23h;
sábado, das 12 às 15h e das 19 às 24h;
domingo, das 12 às 15h30.
17
Baco STG
Gil Guimarães anda rindo à toa. E não
é para menos. Sua pizzaria acaba de
conquistar o selo Specialità Tradizionale
Garantita (STG), conferido pela
Associazione Verace Pizza Napoletana.
É a primeira pizzaria de Brasília e a
terceira do Brasil, ao lado das paulistanas
Speranza e Braz, a cumprir todas as
exigências – e não são poucas – para a
fabricação da verdadeira pizza napolitana,
18
que tem dois sabores tradicionais:
marinara, com molho de tomate,
orégano e alho, e margherita, com
mussarela, molho de tomate, parmesão
e manjericão. As regras da AVPN,
que precisam ser seguidas à risca, vão
desde a escolha dos ingredientes até a
temperatura do forno. No preparo da
massa utiliza-se a farinha 00 italiana,
água e apenas 3% de fermento fresco.
O tomate deve ser, de preferência, o San
Marzano; a mussarela, de búfala ou de
vaca STG; o azeite, extra virgem italiano.
Por fim, o forno precisa estar a 485º,
de forma que a pizza seja assada em
no máximo 90 segundos. “O resultado
é uma pizza leve, elástica, macia e ao
mesmo tempo sutilmente crocante, com
sabor inconfundível”, garante Gil. Por
enquanto, a verace pizza napoletana é
servida na Baco (309 Norte e 408 Sul)
somente às quintas e sextas-feiras, a
partir das 18 horas.
Jantar light
Após o sucesso alcançado nas filiais de
Salvador, Manaus e Campinas, chega a
Brasília o menu ligth do Barbacoa para o
Rafael Wainberg
Divulgação
PICADINHO
jantar. Na verdade, são os mesmos pratos
do cardápio normal, mas em versões mais
leves, com no máximo 250 gramas. As
opções mais recomendadas pelo próprio
restaurante são o salmão grelhado com
molho de maracujá, a truta com amêndoas,
o filé mignon grelhado ao molho poivre,
a tirita (um corte especial de picanha, de
230 gramas), a fraldinha e a picanha baby
de cordeiro (ambas com 250 gramas). O
preço é o mesmo para todos os pratos:
R$ 46,90, com direito a uma guarnição
e acesso livre ao bufê de saladas.
O tamanho aumentou, mas continua
bistrô, anuncia o Nossa Cozinha Bistrô,
da 402 Norte. Um ano depois de abrir as
portas, o salão foi reformado e dobrou de
tamanho. O cardápio continua pequeno
e as opções de almoço mudam todos os
dias. Para o jantar, o cardápio é semanal.
Cinco pratos principais continuam fixos,
incluindo a especialidade da casa: a
costelinha de porco ao molho barbecue
com batatas assadas (R$ 27,50).
Petiscaria Rander
A partir da implosão do Hotel das
Nações, um ano atrás, a Rander,
Spedini
Com 16 unidades em São Paulo, Santa
Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, a
Spedini Trattoria Expressa, especializada
em culinária italiana, acaba de chegar
a Brasília – mais precisamente, ao
Taguatinga Shopping. Outras duas
unidades serão abertas em pontos
comerciais ainda não escolhidos.
O investimento nas três lojas é superior
a R$ 1 milhão, devendo gerar 40 postos
de trabalho.
brasiliense. Fundada há 20 anos no Rio de
Janeiro e com nove lojas, sendo duas em
São Paulo, a sorveteria com 70 sabores
de sorvetes sem corantes ou conservantes
acaba de se instalar num quiosque do
primeiro piso do ParkShopping. Trazida
pelos empresários Henrique Romano e
Suzy Reis, tem entre os carros-chefes o
elogiadíssimo goiabada com queijo. E já
anuncia para dezembro, época natalina,
os sabores rabanada e panetone.
Fotos: Divulgação
Bistrô maior
especializada em ranicultura e piscicultura
de cultivo, passou a procurar um novo
local onde se instalar. O local escolhido
foi a loja 41 do Bloco B da 104 Sul, onde,
em ambiente aberto, com capacidade
para 38 pessoas, voltou a servir seus
petiscos à base de rã e tilápia, de segunda
a sexta-feira, das 16 às 21h30. Um dos
preferidos da clientela é essa ao alho
e azeite da foto abaixo, à esquerda.
Sorvetes artesanais
Essa é a especialidade da marca Mil
Frutas, que também inaugurou
recentemente sua primeira unidade
19
GARFADAS & GOLES
Luiz Recena GRASSI
lrecena@hotmail.com
Bahia,
do tempo pretérito
Prezado editor,
Assim: missiva, com a carta do tempo passado, coisa antiga, volto ao nosso convívio epistolar, iniciado em tempo pretérito,
quando contei pela vez primeira ao casal Teresa-Adriano Lopes de Oliveira a arte bem mexicana, dos jornalistas, de enganar
“El Malo”, a censura, com cartas ao editor. A revista era “Siempre”. Os missivistas, amigos e até patrocinadores da revista,
escreviam uma carta ao editor e, nela, destilavam o ódio de viver num México dominado por um “Partido Revolucionário
Institucional”. Revolucionário e institucional. Tudo ao mesmo tempo? Pois é, nem mesmo quando a dialética foi domada pelos
filósofos alemães tal situação foi prevista. Editores queridos: amá-los é a melhor parte. E como nem só de Garfadas & Goles vive a
coluna, é tempo para um pouquinho de política. A Bahia, em lua cheia, elegeu ACM25Neto, o que não quer dizer nada, nada que
Caetano Veloso, o “Oráculo do Abaeté”, não tenha dito: “O menino Neto é o melhor”. E foi. E bem ganhou, sem deixar dúvidas.
Entre os perdedores, destaque para a sandice da senadora Lídice, que culpou o povo por não saber escolher; e o outro destaque,
desta vez do bem, para o governador Jaques Wagner, que, na mesma noite da vitória de Neto, sinalizou que, juntos, começariam
logo a defender Salvador, a cidade esquecida. Uma cidade, aliás, que foi governada (e mal, muito mal) pela própria Lídice.
Volta a memória
Final
Memória de volta
Filho pródigo
Bom que seja assim. Não tem sido fácil para este colunista
ouvir, quatro anos já, a repetida frase “no tempo de ACM
avô nada disso acontecia”. Podia até acontecer, mas, contam
os baianos que não vivem em condomínios que só têm
andares de cima, alguém, alguma autoridade reclamava.
É esta a memória boa que está de volta. Esperemos que
para o bem.
É bom, também, porque o prefeito eleito e o governador gostam
da cidade, frequentam-na. Não fogem dela para irem à feira.
Por isso, volta a nossa gastronomia à coluna que lhe é de
propriedade. Voltarão os incentivos para que a cidade e seus
quitutes brilhem outra vez. Ora pro nobis. Rogai por nossos
estômagos, Nossa Senhora dos bons comeres.
20
Os orixás, que sabiam antecipadamente do resultado das
urnas, determinaram, e o governador cumpriu: o acarajé
e a baiana do acarajé já são patrimônio imaterial do Estado.
Sonissíme Du Abranchés, pesquisadora emérita da cultura
do Recôncavo, esteve na solenidade e, logo após, celulou com
exclusivité para a revista Roteiro: “Magnifique! O acarrajé
é finalmente reconhecido. Brraavo!!”. Ela sabe das coisas.
Novembro, oito. Oito de novembro de 2012 é data para ficar
nas histórias: de Brasília, da pizza na cidade, da nossa Roteiro
e, principalmente, da história de vida de Gil Guimarães.
Nesse dia ele ganhou o certificado internacional da “Vera
Pizza Napolitana”. A única em Brasília, uma das raras no país.
Ele merece. A gente também.
PÃO & VINHO
ALEXANDRE FRANCO
pao&vinho@agenciaalo.com.br
Divina diversidade
Normalmente, quando uma pessoa aprecia um
determinado tipo de bebida, como cerveja, whisky ou
vodka, costuma eleger sua marca preferida e permanecer
consumindo-a a maior parte do tempo. Com o vinho a
tendência é quase que a oposta, pois a diversidade de
castas, de produtores, de regiões, de safras, de tantas
variáveis, enfim, é tão grande que o enófilo sabe,
percebe, mesmo que intuitivamente, que deve sempre
experimentar novos rótulos, pois tem a certeza de que vai
encontrar sempre algo diferente, que eventualmente lhe
será ainda melhor do que aquele seu preferido até então.
E é com esse pensamento, ou intuição, que, embora
preserve um ou outro rótulo no meu consumo usual,
acabo sempre que posso optando por experimentar,
desde os mais básicos até os mais sofisticados rótulos,
e tenho tido muitas surpresas nessa jornada vínica, a
maioria delas muito boas. A possibilidade de, ao "virar
uma esquina”, descobrir uma nova estrela, ainda mais
brilhante, é talvez o que acho de melhor no mundo do
vinho.
Recentemente fui "ofuscado" por dois exemplares,
um branco e um tinto, dos quais não me esquecerei
tão cedo, pois foram gratas surpresas. O primeiro deles,
o branco, foi um Chardonnay americano da Beckstoffer
Vineyards, o Littauer, safra 2008, da região de Carneros,
com nada menos que 14,9% de álcool, o que em
princípio não me agradaria, mas que neste caso,
totalmente equilibrado, muito bem trabalhado
em carvalho, provavelmente tendo passado pela
fermentação malolática, apresentou-se com os dois lados
da Chardonnay, um frutado com abacaxi e ao mesmo
tempo a baunilha, o caramelo e a manteiga. Muito
redondo e sedoso em boca e, apesar da baixa acidez,
incrivelmente gastronômico. Excelente, dos melhores
brancos que já degustei.
Já o tinto, ah... que sonho! Simplesmente o melhor
vinho que já provei até hoje. A prova viva de que os
melhores vinhos ficam ainda melhores com a idade, pois
trata-se de um Chateau D’Issan, um Grand Cru Classé
de Margaux da safra de 1981, nada menos que 31
anos de garrafa. Ao sacar a rolha, tive um momento de
preocupação, pois ela já se mostrava umedecida quase que
por inteiro. Mas, ao aproximar a taça do nariz, as dúvidas
sumiram e eu sabia que o casamento seria meu destino.
Amor à primeira vista. Paixão arrebatadora. Tudo que de
melhor se pode esperar de um vinho. Os aromas abriram
com chocolate e evoluíram para geleia de frutas negras e
cassis. Depois veio algo de húmus, toque de terra, de
tabaco, trufas. Havia para todo gosto. Se durasse mais a
garrafa, pois acabou-se com facilidade, seriam infindáveis
os aromas a serem percebidos.
A cor elegantemente acastanhada, o corpo ideal,
extremamente elegante, com a sensualidade de um
Borgonha e a estrutura de um Bordeaux. O retrogosto,
notável, trouxe de volta o cassis, as frutas negras
confitadas, o toque de chocolate, algo da baunilha e
mesmo um quê de violetas. Infindável na persistência.
Sem dúvida, se eu o pontuasse receberia nota 100/100,
mas para mim ele está muito além de uma pontuação, é
simplesmente a essência da imaginação vínica. Se tiverem
a chance de degustá-lo, embora creio que não será fácil
encontrar a safra, que adquiri em Paris muitos anos atrás,
não percam a oportunidade. Se Baco de fato existiu,
deixou parte de sua alma nessas garrafas.
21
DOIS ESPRESSOS E A CONTA
cláudio ferreira
claudioferreira_64@hotmail.com
A hora da “dolorosa”
Depois de uma refeição farta ou de um período regado
a bebida e petiscos, chega ela. Os mais antigos ainda a
chamam de “dolorosa”. Pois é, a conta, seja no pé-sujo,
socializar o custo – o benefício ficou só para ele.
Pior é fazer a divisão quando alguns já foram embora.
seja no restaurante mais luxuoso, em geral marca o
Dependendo do teor alcoólico – não acredito em má-fé
final da farra: é como cantar os parabéns em festa de
entre amigos – o cálculo sai errado e o que se deixa para
aniversário de criança. Por mais que o dono da festa
contribuir com a conta total, em dinheiro ou cheque, é
insista, depois de soprar as velinhas, é hora de ir embora.
muito menos do que se consumiu. O prejuízo fica para os
No bar, a última esperança é a saideira.
últimos. E nas comemorações, fica justamente para quem
Como pedir a conta sem ser mal-educado? É sempre
um dilema. Em alguns restaurantes, é tarefa difícil fazer
é o homenageado da festa.
Sonho com o dia em que as contas já virão divididas,
o garçom olhar para o cliente. Em outros, o atendimento
como em outros países. O garçom abre contas separadas
é bate-e-pronto. Do inocente “psiu” ao gesto imitando
e cada um paga a sua no final, sem drama. Melhor do
uma caneta em um bloquinho, vale tudo para chamar
que ficar vigiando os risquinhos que os garçons fazem
a atenção dos atendentes.
na comanda para ver se os chopes da conta correspondem
Há os clientes mais discretos, mas há os que fazem a
mímica acompanhada de uma frase do tipo “a continha,
à “sensação” de quem bebeu.
Algumas contas impressas já vêm com a divisão por
por favor” ou “fecha pra gente”. Já disse uma dessas
pessoa. Mas há alguns inconvenientes. A gente nunca sabe
papisas da etiqueta que chique, mesmo, é estirar o braço
se o cálculo incluiu ou não os 10 por cento. Se não incluiu,
pra cima e esperar que o garçom venha até a mesa.
toca a fazer conta de novo. Às vezes, a conta é dividida por
Mas, em alguns casos, o braço esticado pode sofrer...
menos gente do que está na mesa e a brincadeira é descobrir
Quando a conta chega, a luta começa. Primeiro,
quem não foi considerado “pessoa” pelo sistema eletrônico.
porque em alguns lugares ela ainda é manuscrita e as
Um ingrediente extra e recente para aumentar a
caligrafias nem sempre parecem familiares. Quanto maior
confusão é a Nota Legal. A maioria dos estabelecimentos
a noitada, mais longa é a conta e mais difícil a conferência.
só aceita um CPF por conta. De quem é a vez? Tira no
Se a mesa está cheia, o trabalho dobra. Já as contas
palitinho. Só que nem sempre a mesma turma sai junta
impressas são mais organizadas.
e o revezamento fica difícil de cumprir. Uma dica: bom
Um drama é a divisão da conta. Se todo mundo sai na
22
na cerveja, ou o cara que pediu o prato de camarão quer
senso, para não perder a amizade e a companhia na
mesma hora, o trabalho é decidir se a repartição vai ser
próxima saída. O mesmo bom senso de quem precisar
individual, calculando-se o consumo de cada um ou por
pedir dinheiro emprestado para “inteirar” o pagamento
igual, independente do que se comeu ou bebeu. Aí, quem
da conta – na noitada imediata, dinheiro trocado para
só tomou refrigerante olha desconfiado para quem ficou
devolver ao legítimo dono, por favor.
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dia & noite
devoltaàbelleépoque
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O harmônio, um instrumento inventado em Paris em 1840, está de volta às salas de
concerto. Há muito esquecido, essa espécie de órgão tem sido resgatada por músicos
que promovem uma desenfreada busca a esses tesouros escondidos da história da
música. Um deles vive em Brasília e se chama Dib Francis, pianista que vai tocar o
harmônio pela primeira vez no Brasil. Acompanhado da pianista Alda Mattos, ele
se apresenta dia 23 na Casa Thomas Jefferson (606 Norte). No repertório, obras
originais para harmônio que eram tocadas nos grandes salões de Paris, Viena e Berlim.
Inventado por A. Debain, o instrumento teve seu apogeu em 1900 e entrou em declínio
em 1930. Fascinados por sua sonoridade, grandes compositores como Franck, Liszt,
Karg-Elert, Widor, Schoenberg e Webern criaram peças para esse instrumento.
Os músicos Dib Franciss e Alda de Mattos prometem uma viagem inesquecível
ao som de um raro Shoninger Grand Cymbella fabricado em 1884 e totalmente
restaurado nos Estados Unidos, em 2010, por Hans Herr. Às 20h, com entrada franca.
toquinhoepauloricardo
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perfisdegonzaga
Xangai e Marcelo Jeneci fazem show para
homenagear Luiz Gonzaga no ano em que ele
completaria 100 anos. É o projeto Perfis de
Gonzaga, que a Caixa Cultural apresenta
propondo uma releitura das músicas do Rei do
Baião. Os artistas foram escolhidos por
representarem a integração que Luiz Gonzaga
fazia entre visões distintas: Xangai há muito se
estabeleceu como um dos principais
“cantadores” de nossa tradição popular e Marcelo
Jeneci, como representante da nova geração da MPB, ilustra bem como a permanência
do legado de Gonzagão transcende fronteiras e rótulos musicais. Dias 10 e 11, na Caixa
Cultural. Sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Ingressos a R$20 e R$ 10.
caminosflamencos
Esse é o nome do espetáculo que será
apresentado na Sala Martins Penna
nos dias 24 e 25. Tem a participação de
70 alunas, alunos e professoras da
Oficina Flamenca, e não ficará restrito
ao ritmo nascido na Andaluzia, situada
no sul da Espanha. Vai mostrar também um pouco de tribal fusion, dança
do ventre e dança cigana. Fruto do
convívio entre andaluzes, árabes,
judeus e ciganos, o flamenco, como
disse a bailaora Sara Baras, “não entende de fronteiras e nem de línguas,
pois ele vai diretamente ao coração”.
Às 20h, com ingressos a R$ 30 e R$ 15
(para estudantes e quem levar um quilo de alimento não perecível a ser doado para uma instituição beneficente).
Nicolau El-moor
violinoevioloncelo
Desde 2010 o músico inglês David Gardner é violoncelista
da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio
Santoro. Com a violinista brasiliense Lilian Raiol forma o
The Gardner Duo, que se apresenta dia 9 na Casa Thomas
Jefferson (606 Norte). Para esse concerto, a proposta é
apresentar um repertório moderno, pouco tocado e,
portanto, pouco conhecido do público, como o Pequeno
duo, de Guerra Peixe, a Sonata para violino e violoncelo, de
Maurice Ravel, e Trio para violino, de Ingolf Dall. Desse
último participa o clarinetista convidado Marcos Cohen. Às 21h, com entrada franca.
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Em julho essa dupla lançou um CD para homenagear o poetinha Vinícius
de Moraes. No repertório, entre outros sucessos, Toquinho e Paulo Ricardo
escolheram Chega de saudade, Eu sei que vou te amar, Se todos fossem iguais
a você, Garota de Ipanema, Insensatez e Água de beber. A feliz união do talento
do violonista, compositor e intérprete da bossa nova com o do roqueiro, baixista
e vocalista do RPM pode agora ser vista pelo brasiliense no show intimista que
farão dia 21, às 21h, no Unique Palace. Ingressos a partir de R$120. Informações:
9293.7002 / 9252.0234.
Isabelle Neri
fábricadesucessos
Romildo Souza
Em 52 anos de existência, a gravadora norte-americana Motown lançou
estrelas do quilate de Marvin Gaye, Stevie Wonder, Jackson 5 e The
Supremes. Famosa por abrigar artistas negros e não censurar críticas
sociais ou políticas, a gravadora de Michigan virou um musical cuja
montagem brasileira estará na cidade entre entre os dias 7 e 9. Dirigido por
Cláudio Figueira, o espetáculo O som da Motown foi indicado ao Prêmio
Contigo de Teatro, na categoria de melhor musical nacional em 2010, e
também ao prêmio de melhor musical pelo jornal Folha de S. Paulo. Visto
por mais de 60 mil espectadores, está em turnê pelo país para apresentar
50 das 110 canções mais ouvidas nas décadas de 60, 70 e 80, todas lançadas
pela gravadora. No elenco, as intérpretes Simone Centurione, Ellen Wilson,
Alcione Marques, Débora Pinheiro e Fabrícia Lees. Uma palhinha pode
ser vista no vídeo http://www.youtube.com/watch?v=axrXK8_Ndos.
feirademúsica
Sábado sim, sábado não. Este mês, o CCBB recebe as duas últimas edições da
Feira de Música 2012, cada uma com três atrações selecionadas para apresentações
gratuitas. Dia 10 os destaques são Eduardo Rangel (foto), Andréa dos Santos e
Os Dinamites. Já no dia 24, subirão ao palco os grupos Pé de Cerrado, Jenipapo e
Mandrágora. Patrocinada pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura), a feira “constitui
uma iniciativa de difusão da produção musical do Distrito Federal com um caráter
de respeito à diversidade de sonoridades aqui produzidas, garantida através de uma
curadoria formada por profissionais oriundos de diversos segmentos, como a música
instrumental, o rock, o choro, a cultura popular”, afirma Henrique Rocha, gestor
do projeto. Às 16h, na área externa do CCBB, com entrada franca.
amagiadofolimage
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Filmes de animação inéditos no Brasil, acompanhados de trilha musical tocada ao vivo. Essa é
a proposta do espetáculo Bobines mélodies, que está em turnê pelo Brasil e faz apresentação
única em Brasília no dia 16, às 21h, no CCBB. O espetáculo é uma criação musical do trio
L’effet vapeur para o Folimage, um estúdio de filmes de animação responsável, entre outros,
pelos títulos La prophétie des Grenouilles, Mia le MigouI e Une vie de chat, este último
indicado ao Oscar de melhor filme de animação de 2012. Serão exibidos uma dezena de
curtas, com música lúdica e poética do trio formado por Xavier Garcia (sintetizador,
aparelhagem eletrônica), Jean-Paul Autin (saxofone, clarineta) e Alfred Spirli (bateria,
objetos). Eles formam um dos grupos responsáveis pela Nova Música na França, integrando
provocação e diversão. Às 21h, com ingressos a R$ 6 e R$ 3. Informações: 3108.7600.
Rodrigo Oliveira
aflordocerrado
Ninguém melhor do que o jornalista Silvestre Gorgulho, ex-Secretário de Cultura do DF, para
relatar a saga da construção da Torre de TV Digital. Afinal, ele é um dos "pais" do monumento
mais visitado da cidade. Em edição luxuosa de 240 páginas, Silvestre conta, com minúcia de
detalhes, toda a história do último projeto do arquiteto Oscar Niemeyer para Brasília. Prefaciado
por Maria Estela Kubitschek Lopes, filha de JK, o livro, ricamente ilustrado, documenta todas
as etapas da construção da Torre de TV Digital e homenageia os 741 operários que trabalharam
na obra, nomeando-os por ordem alfabética. À venda na Livraria do Aeroporto JK, Livraria
Cultura do CasaPark e Iguatemi, Livraria Dom Quixote do Aeroporto, Centro Comercial
Gilberto Salomão, Nova Rodoviária, CCBB e Águas Claras Shopping, Livraria Briquet do Setor
de Rádio e TV Sul e www.folhadomeio.com.br.
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dia & noite
serpaisagem
Rogério Severo
Esse é o nome da exposição que até 26 apresenta trabalhos dos artistas Chico
Amaral, Gê Orthof, Karina Dias e Regina de Paula, todos abordando a relação
entre a paisagem e o sujeito. Chico Amaral sugere, por meio de fotografias,
vídeo e instalação, o lugar de encontro entre o sujeito e o mundo como a
construção de um jogo entre o eu e o outro (foto). Com o auxílio da escultura
e da ilustração, Gê Orthof utiliza o papel para compor aquarelas e apresentar
objetos industrializados de pequenos formatos. Já Karina Dias investiga a
experiência da paisagem no cotidiano, realçando detalhes corriqueiros que se
tornariam invisíveis aos nossos olhos por serem vistos continuamente, enquanto Regina de Paula apresenta um tratado elementar de
arquitetura que tem como núcleo um livro-objeto composto por intervenções de desenhos colados. Com curadoria de Karina Dias e
Graça Ramos, a mostra pode ser vista na Galeria Fayga Ostrower, de segunda a domingo, das 9 às 21h. Entrada franca.
acanoaancorada
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semanade22
Henrique Luz
Lâmina de aço, fios de nylon,
pedaços de vigas de aço e restos de
fundição foram as matérias primas
utilizadas pelo artista plástico
Rogério Severo para criar a sua
“canoa ancorada em uma margem”.
A instalação Linhas e lugares à
espera, contemplada com o Prêmio
Funarte de Arte Contemporânea
2012, pode ser vista até o dia 26 na
Funarte. De acordo com o artista,
seu desenho, ao ser posto em outro
espaço que não a folha de papel,
ganha um novo olhar. “O papel é
plano, tem limites. Quando construo
esse desenho em um local em que
posso circundá-lo, vê-lo por outros
ângulos e com dimensões, consigo
enxergar através dele”, explica.
Gaúcho de Uruguaiana e morador
de Porto Alegre, Rogério participou
da 8ª Bienal do Mercosul e recebeu
o Prêmio Açorianos 2011 por esse
trabalho. Dia 24, Rogério lança o
catálogo da mostra, às 10h30. De
segunda-feira a domingo, das 9
às 21h, com entrada franca.
Para comemorar o 90º aniversário da Semana
de Arte Moderna, o Museu Nacional dos
Correios (SCS, quadra 4) apresenta a
mostra Semana sísmica – Correspondências
modernas, uma panorâmica com obras de
artistas que participaram daquele movimento
emblemático ocorrido em São Paulo no ano
de 1922. Com curadoria de Wagner Barja,
estão expostas no museu obras de artistas
que participaram do movimento, entre eles
Vicente do Rego Monteiro, Ismael Nery,
Mário Zanini, Anita Malfatti, Pedro
Alexandrino, Clovis Graciano, John Graz, Vitor Brecheret, Di Cavalcanti e Tarsila
do Amaral, bem como de seguidores que, nas décadas seguintes, sustentaram os
desdobramentos do modernismo, como Alfredo Volpi, Djanira, Rebolo, Cícero Dias
(foto), Guignard, Pancetti, Aldo Bonadei e Portinari. De terça a sexta-feira, das 10
às 19h; sábados, domingos e feriados, das 12 às 18h. Entrada franca.
Divulgação
paisageminterior
O cotidiano, as paisagens urbanas e a natureza de Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo,
Mato Grosso e Amazonas estão retratados no trabalho da espanhola Concha GómezAcebo, que há um ano mora no Brasil. “Represento cenas do cerrado brasileiro, vasos
com flores, hotéis iluminados
perdidos na escuridão e o dia a dia
das pessoas”, explica a artista, cujo
trabalho está exposto no Instituto
Cervantes até 10 de janeiro. Na
mostra A paisagem interior na obra
de Concha Gómez-Acebo estão 28
pinturas e um vídeo da artista nascida
em Málaga e que confessa sempre ter
tido admiração pelo Brasil. Por essa
razão, resolveu mostrar de modo particular em suas obras tudo o que chamou a
atenção em cada lugar que conhecia. “Sensibilidade, imaginação e espírito livre são
sentimentos necessários para entender as pinturas”, explica Concha. De segunda a
sexta-feira, das 11 às 21h; sábados, das 9 às 14h. Entrada franca.
comíciogargalhada
Um texto do dramaturgo Oduvaldo Viana
Filho, o Vianinha, foi escolhido por Ricardo
Guti para encerrar a oficina de atores
coordenada por ele no Espaço Mosaico.
De 17 a 25, seus alunos vão encenar A mais-valia vai acabar, seu Edgar!, espetáculo
de 1960 que percorreu sindicatos, escolas,
favelas e organizações de bairro para mostrar
ao público a lógica da exploração capitalista. Dessa atividade surgiu o CPC-UNE, órgão
cultural da União Nacional dos Estudantes, e seu “teatro revolucionário”. O autor,
Vianinha (1936/1974), fez parte do Teatro de Arena, dirigido por Augusto Boal, e foi um
dos fundadores do grupo Opinião. Sábado, às 21h, e domingo, às 20h, com entrada franca.
funçãopedagógica
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No último dia 1º, o Centro Cultural Banco do Brasil inaugurou novo espaço dedicado
à cultura. Trata-se da Galeria 3, com o projeto Espaço Entre, concebido pelo Coletivo
Irmãos Guimarães. O objetivo do projeto é criar um lugar de convivência onde
trocas de experiências sejam as atividades principais. “O Espaço Entre aborda uma
importante função pedagógica ao aproximar criadores e pesquisadores de toda a
comunidade, por meio das diversas atividades propostas. As ações contribuirão para
a formação de um público participativo, além de melhor preparado e mais confortável
para ver-se e atuar como co-autor das proposições contemporâneas”, afirmam os
irmãos Guimarães. O público terá acesso a duas exposições, 15 encontros com
discussões em torno da arte contemporânea, três colóquios, quatro demonstrações de
trabalho, quatro oficinas, dois ensaios abertos do espetáculo Nada, dois ensaios abertos
do videodança Nada se move e quatro ciclos de leitura – todos os eventos com entrada
franca. Além disso, as apresentações do espetáculo Nada terão preços populares (R$ 6
e R$ 3). Informações: www.bb.com.br/cultura.
forçasvitais
Uma semana dedicada ao butoh, uma
dança oriental nascida no pós-guerra e
que recupera as forças vitais do corpo.
Para se conhecer mais essa forma de
expressão na qual alma, emoções e
experiências se revelam pelos gestos, o
Espaço Mosaico convidou o principal
representante do butoh contemporâneo,
Atsushi
Takenouchi,
discípulo dos
fundadores do
estilo, Tatsumi
Hijikata e Kazuo
Ohno. Além de se
apresentar com sua
companhia Jinen
Butoh, nos dias 10
e 11, o dançarino,
que vive desde 2002
na Europa, vai
ministrar um
workshop sobre sua
arte de 12 a 16, das
19 às 22h, no
mesmo espaço. No
dia 17, ele e seu grupo se apresentam
novamente no Parque Olhos D’Água,
às 17 horas. Entrada franca.
Tsukasa Aoki
mais-valia
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Luiz Badula
Se for anunciado como Rodrigo Sant’anna, muita gente não vai saber quem é. Mas se for dito “trata-se
daquele ator que faz a Valéria do Zorra Total”, muitos saberão. Se, ainda assim, houver quem não o
identifique, é só recitar o bordão “Ai como tô bandida!” que não haverá mais dúvidas. Pela primeira vez em
Brasília, Rodrigo Sant’Anna apresenta o seu Comício gargalhada, dia 11, às 19h, no Orla Clube de
Engenharia. Com texto próprio e direção da também comediante Thalita Carauta – a Janete,
personagem com que divide o quadro no programa da Rede Globo –, o monólogo se passa num
palanque, onde personagens hilários se apresentam para defender sua plataforma política. Ingressos a
R$ 80 e R$ 60, à venda no Brasília Shopping e na FNAC do ParkShopping. Informações: 3225.2877.
literaturadeterror
O jovem Felipe descobre os prazeres da vida ao se encontrar com o misterioso Fio Vilela. Mal sabe ele
que, a partir dali, começa um jogo cuja principal conquista envolve sua própria alma. Esse é o enredo
de A maldição de Fio Vilela, terceiro livro do escritor Marcelo Araújo, que será lançado neste dia 8, a
partir das 18h30, no restaurante Carpe Diem (104 Sul). Jornalista e escritor, Marcelo Araújo publicou
seu primeiro trabalho, Não abra – contos de terror, em 2009. O segundo título foi lançado em 2011 –
Pedaço malpassado, dois contos que também mergulham no universo do horror. O escritor mistura
em seus livros elementos da cultura popular brasileira, da literatura e de referências da cultura pop.
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GRAVES & AGUDOS
Amor em
forma de
canção
Por Heitor Menezes
“S
ê amável para ser amado”, dizia
o poeta Ovídio. “Nada é maior
do que dar amor e receber de
volta o amor”, diz a letra de Nature boy,
que muitos pensam ser de Nat King Cole,
mas é de um estranho rapaz chamado
Eden Ahbez. Pois no longo capítulo do
amor, cantado em verso e prosa, podemos
acrescentar: “Amar alguém só pode fazer
bem”, que é como diz o refrão da canção
Amar alguém (Arnaldo Antunes/Dadi/
Marisa Monte), quarta faixa do CD O que
você quer saber de verdade, o mais recente
de Marisa Monte.
A romântica Marisa, que finalmente
nos visita com a turnê Verdade, uma ilusão,
dias 17 e 18, no Auditório Master do
Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Corações carentes, almas sem par,
corações apaixonados, almas gêmeas, felizes e azarados, todos têm motivos para celebrar o amor, na voz de quem entende
um bocado de tão perseguida quanto intangível arte.
Isso: ouvir Marisa Monte significa se
render à singeleza da arte amorosa em for-
ma de canção. Sua obra mais recente
acrescenta um punhado de novos versos
ao mais caro dos temas humanos. “A música é um convite ao silêncio necessário
para se escutar as necessidades da alma”,
explica a cantora/compositora, que completa 25 anos de vitoriosa carreira, sempre
entregando ao público artigos de altíssima
e indiscutível qualidade.
Pois neste Verdade, uma ilusão, Marisa
Monte e o seleto grupo de músicos que a
acompanha complementam, com apresentação ao vivo e em cores, o pacote que
inclui o disco, o interativo website e, num
futuro não tão distante, o DVD/Blue-ray,
com o registro, para ver e guardar, do
atual estado de coisas por que passa a carioca Marisa de Azevedo Monte.
Com seu mais recente trabalho, ela
aproveita para reprisar a parceria de tanto
sucesso com os tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Pelo menos nove
das 14 faixas do álbum levam a assinatura
dos amigos, que parecem entender como
poucos as “necessidades da alma”, como
apregoa a artista.
Ouvindo O que você quer saber... percebe-se que as vicissitudes do amor preci-
David Guetta
Há quem goste de música eletrônica justamente porque ela é feita de sons sintéticos e levam
o ouvinte a atraentes paisagens artificiais, uma viagem na qual os alemães do Kraftwerk ou do
Tangerine Dream, por exemplo, são mestres. Por outro lado, temos os que preferem o baticum
mesmo, os que têm na música eletrônica o passaporte para o hedonismo, a curtição que precisa
de uma trilha sonora condizente com o tamanho da esbórnia.
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Os que se encaixam no segundo quesito têm uma ótima chance de cair na gandaia (ainda existe
essa expressão?) com o mega show do não menos mega DJ francês David Guetta, na quartafeira, 14, véspera do feriado de Proclamação da República. O estacionamento do Estádio Nacional
Mané Garrincha promete ficar pequeno, pois Guetta, a exemplo do britânico Fatboy Slim,
costuma atrair multidões. Ele tem um punhado de hits, muitos construídos em parceria com
artistas de fama, tipo David Bowie (!!!), Black Eyed Peas, Akon, Usher e Chris Willis. Ibiza é aqui?
sam de atenção redobrada, pois os amantes, não obstante o estado de torpor e encantamento, necessitam de constante
orientação; caso contrário, estarão fadados ao infortúnio de uma vida solitária, ó
vida, ó azar.
Há quem veja O que você quer saber...
como um manual do amor venturoso. O
recado começa com a faixa homônima, do
trio Marisa/Brown/Antunes: “Ouve a
terra respirar/ Pelas portas e janelas das
casas/ Atenção para escutar/ O que você
quer saber de verdade”.
Apesar de bacana, pule o amor que se
lamenta: “Quero que você seja feliz/ Hei
de ser feliz também” (Depois, de Marisa/
Brown/Antunes). Ouça com atenção Ainda bem (Marisa/Antunes), aquela do clip
com o fortão Anderson Silva: “Você que
me faz feliz/ você que me faz cantar assim”. E não esqueça o recado de Seja feliz
(Dadi/Marisa/Antunes): “Tão largo o
céu/ Tão largo o mar/ Tão curta a vida/
Curta a vida”.
O amor, segundo Marisa Monte, não é
só “amor, I love you”. É o amor que se explica como nos versos de Verdade, uma ilusão (Brown/Antunes/Marisa): “Eu posso
te fazer ouvir/ Milhões de sinos ao redor/
Eu posso te fazer canções/ O amor soa em
minha voz”. Ah, o amor.
Verdade, uma ilusão
Show de Marisa Monte dias 17/11 (sábado),
às 21h30, e 18/11 (domingo), às 19h, no
Auditório Master do Centro de Convenções
Ulysses Guimarães. Ingressos (valores de
meia entrada): Vip Gold, R$ 250; Gold Lateral,
R$ 200; Setor A, R$ 200; Setor B, R$ 150;
e Superior, R$ 120 (à venda na Central de
Ingressos do Brasília Shopping, FNAC do
Parkshopping e www.ingressorapido.com.br.
Papa fina
Aquarela Carioca
Por Heitor Menezes
A
Fotos: Divulgação
forismo atribuído a Louis Armstrong diz que não há resposta para qual seria a definição de jazz.
Pouco importa. Desde que Miles Davis
subverteu a ordem e por diversas vezes levou o jazz a lugares nunca antes imaginados, o estilo musical metamorfoseou-se
em muitas cores e manteve como essência apenas a síncope e o gosto pelo improviso. Quanto à essência afro-americana, bem, a essência afro-americana continua mãe de toda boa música, mas o que
dizer do jazz escandinavo ou das influências orientais?
Fiquemos com a boa música. O jazz
made in Brasil ou o Brazilian jazz, como já
foi chamado, continua firme e forte; tem
lá seu público cativo e se hoje não arrebenta a boca do balão é porque o entretenimento de massa sobrepujou a arte
feita na medida. Em outras palavras, o
André Mehmari
entretenimento self-service é mais forte
que o à la carte, só que este, por servir
iguarias finas, não é para qualquer um.
Sem mais delongas, fiquemos com a
papa fina que será servida no projeto Isso
é jazz?, em cartaz entre os dias 12 e 15 no
renovado Teatro da Caixa, sempre às 8
da noite. Em ação, nossos melhores músicos de jazz, daqueles que são sempre
bem-vindos porque tocam uma música
que fala direto ao coração.
Na segunda-feira, 12, o Mauro Senise
Quarteto abre a programação. Para muitos, Senise é o responsável pelo incrível e
inesquecível solo em Palhaço, de Egberto
Gismonti, mas o saxofonista é muito
mais. Seu sopro acompanhou gigantes
como Hermeto Pascoal, o próprio Gismonti, Caetano Veloso, Wagner Tiso,
Gilberto Gil, Luiz Eça, entre tantos.
Lembram do Cama de Gato? Senise foi
um dos fundadores do combo. Em sua
companhia teremos Gabriel Geszti (piano), Rodrigo Villa (contrabaixo) e Ricardo Costa (bateria).
Na terça-feira, 13, sobe ao palco o
Victor Biglione Trio. O mais brasileiro
dos guitarristas argentinos tem um currículo sensacional. Victor Biglione já foi
do grupo A Cor do Som; gravou dois discos com Andy Summers, guitarra da banda The Police, e até tocou com ele de graça na praça de alimentação do Conjunto
Nacional. Gravou com muita gente legal, tipo Cássia Eller, Zé Renato e Jane
Duboc. O cara tem uns discos solos meio
difíceis de achar. Na companhia de Alex
Rocha (contrabaixos elétrico e acústico)
e Victor Bertrami (bateria e percussão),
Biglione traz à cena o feeling jazz com as
cores dos sons da grande MPB.
Quarta-feira, 14, é a vez do grupo
Aquarela Carioca, que os de boa memória lembram por ter tocado com Ney Matogrosso, no disco As aparências enganam
(1993). Formado por Lui Coimbra (violoncelo), Marcos Suzano (percussão, bateria e programações), Mário Sève (saxofones e flautas), Paulo Brandão (baixos e
sonoplastias) e Paulo Muylaert (guitarras
e violões), o Aquarela vai mostrar repertório com ênfase no mais recente álbum,
Mundo da rua (2008).
E no feriado de quinta-feira, 15, o
pianista nascido em Niterói André Mehmari encerra o projeto lembrando que
este país é também pátria de incríveis domadores de piano. Quando se fala em inventividade, capacidade de improviso e
erudição nesse requintado e completíssimo instrumento, Mehmari é visto como
um sopro de ar fresco, capaz de renovar
nosso interesse pelo piano solo. Dizem
que o rapaz já deveria ter ido embora,
pois aqui a música instrumental não é valorizada. Aproveitemos enquanto esse talento ainda está por aqui.
Isso é jazz?
De 12 a 15/11, às 20h, no Teatro da Caixa
(Setor Bancário Sul). Ingressos: R$ 20 e R$ 10
(meia entrada para estudantes, professores,
empregados e clientes da Caixa, pessoas
acima de 60 anos e doadores de 1 kg de
alimento não perecível). Classificação etária:
14 anos. Mais informações: 3206.9448.
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Clara Braga
que espetáculo
Rei David: um herói fabricado?
Produção dramático-musical escrita por Marcus Mota e dirigida
por Hugo Rodas dá novo formato à história do mito bíblico.
Por Melissa Luz
E
30
m outubro, milhões de brasileiros
foram às urnas para escolher prefeitos e vereadores. Candidatos de
todas as estirpes pipocaram pelos municípios, dos mais sérios aos mais avacalhados; dos bem-intencionados aos oportunistas. Largos sorrisos, apertos de mão e
abraços emolduraram pelas ruas infindáveis promessas de campanha. À primeira
vista, muitos pareciam perfeitos. Mas
agora, finda a eleição, será que o voto do
povo foi bem direcionado? Como diferenciar um bom candidato de um personagem fabricado?
Na Universidade de Brasília, um espetáculo dramático-musical desconstrói a
história de um mítico rei bíblico para debater a construção de heróis e líderes carismáticos. Rei David, em cartaz no Anfiteatro 9 de 28 de novembro a 2 de dezembro,
parte das pesquisas do arqueólogo Israel
Finkelstein para desmontar a versão de
que David foi um herói puro das massas.
“O espetáculo não é nem sobre o David que se ensina nas igrejas e na televisão, muito menos sobre um anti-David,
um libelo gratuito contra a figura bíblica.
O personagem principal é o coro, o povo. O povo que cria heróis, mas que também pode se afastar deles”, esclarece o
dramaturgo Marcus Mota, diretor do
LADI, Laboratório de Dramaturgia e
Imaginação Dramática da Universidade
de Brasília, responsável pela montagem,
que tem patrocínio do FAC e integra as
comemorações pelos 50 anos da UnB.
Cinquenta atores/intérpretes e uma
big band comandada por Ademir Júnior
contam a história de um David anônimo, um “zé-ninguém” que cai nas graças
do povo. O foco da montagem está em
mostrar como a História gira em torno
da imaginação popular. Imaginação essa
que pode ser criativa e, ao mesmo tempo, liberadora e escrava de seus medos e
esperanças. A direção de Hugo Rodas
quebrou a estrutura clássica de musicais,
com divisão de atos e cenas, canções co-
rais e árias, para dar lugar à relação entre
os heróis e o povo em diversas épocas,
principalmente hoje.
“O nosso musical é um pouco atípico. Além do protagonista não cantar, o
centro de orientação não são as canções-solo, mas os números coletivos. As músicas na montagem funcionam como negociação com a memória, e não como
ilustração da cena, sobretudo, depois
dos arranjos de Marcelo Dalla, que deram um toque cinematográfico ao trabalho”, explica Marcus, autor dos textos e
das músicas. A dobradinha com Hugo
Rodas acontece pela sexta vez: “Uma das
vantagens de se trabalhar com o Hugo é
a sua musicalidade, sua ciência coreográfica de materializar em movimento aquilo que é palavra e nota musical. Sem contar que ele está cada vez mais divertido!”.
Rei David
De 28/11 a 2/12 no Anfiteatro 9 da
Universidade de Brasília. Sessões às 19 e 21h,
com entrada franca. Classificação indicativa:
14 anos. Informações: 9214.4861/8119.9443
A magia do circo
Pela primeira vez no Brasil, o Kukli se apresenta em Brasília no dia 15
Fotos: Divulgação
O
que o armênio Zhora Oganisyan
consegue fazer no picadeiro é de provocar inveja até no craque Neymar.
Equilibrando-se sobre uma imensa bola de futebol, ele anda pelo palco e ainda por cima faz
malabarismos com outras três, essas de tamanho oficial. Só vendo, mesmo, para crer.
Ele e outros 39 artistas russos e ucranianos
fazem parte do Kukli Theatral Circo, trupe
que está em turnê pelo Brasil e apresenta na
cidade um só espetáculo repleto de equilíbrio,
contorcionismo, ilusionismo, força e humor.
Entre os destaques da companhia que
chega ao Ginásio Nilson Nelson está também
Valentim Urse, mais conhecido como Homem Mola, que já viajou o mundo divertindo
crianças e adultos com suas performances de
um grande boneco sem cabeça cujos braços
viram pernas e cujas pernas viram braços sucessivamente. Sem contar os ciclistas acrobatas, que usam imensas câmeras de ar para pular a mais de cinco metros de altura, e o Duo
Arni, casal de ilusionistas muito afinado que
consegue trocar de roupa mais de dez vezes
em poucos minutos.
Outro ilusionista, o espanhol não à toa
chamado Raúl Alegria, é conhecido por fazer
surgir uma chama de fogo de cada um dos dez
dedos de sua mão, além de trazer os clássicos
pombos e lenços que tanto encantam as crianças, enquanto o Duet Konfuz arranca gargalhadas do público tocando instrumentos e sapateando com pernas de pau.
Entre os malabaristas, destaque para Gumenyuk Volodymyr, que, com movimento de
danças e acrobacias com bolas, é uma das
principais atrações do Circo Bolshoi de Moscou, e Alyona Pavlova, capaz de voar sobre o
picadeiro presa por um pé só apoiado a um
grande bambolê.
A apresentação única começa às 19h do
feriado de 15 de novembro, no Ginásio Nilson Nelson, e tem ingressos à venda no Brasília Shopping. Os mais baratos, na arquibancada, custam R$ 30 a meia. As cadeiras numeradas saem por R$ 60 a meia e o camarote
R$ 120 a meia. As reservas podem ser feitas
pelo telefone 9135.4445.
31
TERCEIRO SETOR
Circo pedagógico
Projeto oferece a crianças carentes de Taguatinga e do
Paranoá aulas gratuitas que unem o lúdico e o físico.
Por Melissa Luz
S
32
air do plano das ideias e partir para
a ação. Uma ação concreta, capaz
de gerar bons resultados a quem
faz, a quem acompanha e, sobretudo, a
quem recebe. Com essa filosofia, um grupo de artistas de Brasília fundou, em junho de 2008, a Ascetur, Associação Cultural, Esportiva e Turística, cujos projetos
sociais buscam trabalhar a formação holística do ser humano. É o caso do Circo
Social, programa educacional que desde
abril atende gratuitamente crianças e adolescentes no Paranoá e em Taguatinga.
Apesar de trazer no nome o templo do
picadeiro, o projeto vai além das atividades circenses. Ao longo de dez meses, ou
seja, até dezembro deste ano, os alunos do
Centro Social Formar, de Taguatinga, e
do Centro de Ensino Fundamental 3, do
Paranoá, vêm tendo aulas de seis modalidades diferentes: malabares, teatro cômico, capoeira, dança acrobática (hip hop),
acrobacia aérea e história em quadrinhos.
Os participantes têm entre seis e 14 anos,
divididos em turmas de até 15 alunos.
As instituições beneficiadas foram escolhidas a partir de uma consulta da presidente da Ascetur, Ana Sofia Lamas, ao
banco de dados da Rede Solidária Anjos
do Amanhã, programa de voluntariado
da 1ª Vara da Infância e da Juventude.
“Sempre que temos um projeto, procuro
instituições sérias no cadastro do Anjos.
Depois, vou aos locais, vejo o espaço físico e avalio que tipo de atividade se encaixa lá”, detalha Ana Sofia.
Essa é a terceira vez que o Centro Social Formar recebe a programação do Circo Social. Nas duas primeiras edições, por
iniciativa individual de Ana Sofia. Assim,
a edição deste ano é a primeira da Ascetur
como entidade instituída, detentora de
CNPJ e com nome registrado (leia quadro
na página ao lado). Mas não é apenas a
parceria com o Formar que se repete agora. Ana Sofia fez questão de convidar os
mesmos profissionais que a acompanham
há três anos. O grupo, escolhido a dedo, é
formado pelos professores Ilson Pereira
(capoeira), Henrique Siqueira (história
em quadrinhos), Sandra Kelly (hip hop),
Tallyta Torres (acrobacia aérea), Guilher-
Fotos: Divulgação
me Alves (teatro cômico) e Miguel Estill
(malabares). Emanuel Santana é o coordenador no Paranoá e Raphael Balduzzi em
Taguatinga. A atriz, bailarina e coreógrafa
Lívia Bennet faz a coordenação geral do
projeto. Todos os envolvidos integram
grupos artísticos do DF, como Ana Sofia,
que, além de lecionar acrobacia aérea no
Colégio Setor Leste, é integrante da Trupe
dos Argonautas, que mistura em seus trabalhos circo, teatro, dança e música.
Assim como o corpo docente, as disciplinas oferecidas pelo Circo Social também foram escolhidas criteriosamente.
A ideia é que as seis atividades unam o lúdico e o físico na tarefa de despertar, estimular e desenvolver em cada participante
a consciência do seu papel como um ente
social. O teatro, por exemplo, trabalha o
saber se colocar, o falar de frente para o
outro, além de descontrair com o lado cômico. Já a capoeira exige do aluno disciplina e enfrentamento do medo, ao mesmo
tempo em que ensina o contexto histórico
da luta e noções práticas da música. A
acrobacia aérea ensina às crianças e adolescentes o poder da superação. Coordenação e paciência são os grandes benefícios que os alunos de malabares apreendem das aulas. O hip hop, além de ensinar ritmo, métrica e rima, valoriza a cultura nascida e frutificada nos subúrbios.
A aula de história em quadrinhos é
uma capítulo à parte. De acordo com Ana
Sofia, a disciplina tem sido uma grata surpresa para todos: “A história em quadrinhos foi um achado. A quantidade de meninos talentosos é algo impressionante.
Eles já dominam técnicas como perspectiva e planos de fundo. Às vezes eu vejo uns
desenhos e não acredito que foram eles
que fizeram”.
Este ano, o Circo Social conquistou o
patrocínio do FAC, Fundo de Apoio à
Cultura do GDF. Isso possibilita o pagamento de cachê para os professores e coordenadores sem qualquer custo para os alunos e instituições. Ano que vem, a busca
por financiamento recomeça. “Todo edital é uma torcida!”, desabafa Ana Sofia,
confessando, entretanto, que o pro­cesso à
frente da organização tem sido um desafio
interessante: “Eu estou aprendendo a cada projeto. Cada nova etapa é um aprendizado. Já errei, já aprendi com o erro e
não errei de novo. Eu acho que isso faz
parte do crescimento, como tudo em nossa vida. E eu vejo isso super positivamente. Estou aberta para aprender e eu gosto”.
Em busca de parceiros
Segundo o dito popular, “a ocasião faz o ladrão”. Talvez essa seja uma boa expressão
para explicar a criação da Ascetur, Associação Cultural, Esportiva e Turística. Instigados
e motivados a realizar projetos sociais em comunidades carentes, artistas do DF decidiram
se unir em 2008 em forma de associação. A institucionalização foi naturalmente necessária
para que o grupo pudesse participar de editais. “Agora, com CNPJ, podemos pleitear
patrocínio sem pedir nome emprestado de ninguém”, explica a presidente Ana Sofia.
Em junho deste ano, a Ascetur deu mais um passo e se tornou Oscip, Organização da
Sociedade Civil de Interesse Público. Atualmente, 12 pessoas compõem o quadro da
organização, além dos profissionais envolvidos no projeto Circo Social. Apesar do número
relativamente alto de integrantes, a associação ainda batalha para manter um quadro fixo.
A falta de um patrocínio inviabiliza o pagamento de funcionários (como pró-labore) ou
a manutenção de uma sede.
Mas Ana Sofia garante que essas adversidades não tiram o empenho de continuar a busca
por parceiros ou financiamentos. “O que me motiva é saber que o trabalho dá resultado.
O Circo Social, por exemplo, beneficia tanto crianças e adolescentes como toda a equipe
envolvida. Eu já ouvi testemunho de amigo de professor dizendo que ele mudou depois
que começou a dar aula no projeto. Quando eu ouço isso, fico feliz, porque é o que venho
procurando para a minha vida. Não tem preço. Por isso, quero continuar, e a equipe também
quer continuar!”.
Os interessados em colaborar podem obter mais informações no site www.ascetur.com.br.
33
Educação ARtística
Um espaço
para todas as artes
Por Cláudio Ferreira
fotos rodrigo oliveira
D
34
epois de duas temporadas – 15
anos no total – estudando e trabalhando com música nos Estados Unidos, um maestro resolveu trazer
para a terra natal uma experiência que
tinha dado certo em Columbia, cidade
de 80 mil habitantes do Estado do Missouri. Apostou mais uma vez no lado empreendedor e inaugurou, no final da Asa
Norte, o ECAI, Espaço Cultural Alexandre Innecco, que, agora em novembro,
está completando um ano de atividades.
A proposta de movimentar um local pequeno com palestras sobre música clássica e popular, abrindo espaço também para outras manifestações artísticas, como
artes plásticas e literatura, tem atraído cada vez mais um público interessado em
trocar informações sobre arte e cultura.
na parte artística do espaço cultural.
Da experiência anterior, nos EUA,
O prato principal do cardápio ainda
Alexandre aprendeu algumas lições. A prié a música. Neste primeiro ano de vida,
meira, a falta de contato entre a universidao ECAI já promoveu palestras sobre
de e a comunidade, que fez com que, lá,
compositores clássicos, sobre a história
ele ampliasse o escopo de seu empreendida MPB e sobre os instrumentos musicais
mento, que levou à população palestras,
de uma orquestra, entre oupor exemplo, sobre a cotras. Para comemorar o anireógrafa Isadora Duncan
“Brasília precisava de um
versário, volta o ciclo sobre
e o cinema da América
lugar não só para ouvir
história da música erudita,
Latina. Aqui, a mesma
boa música, mas também
abordando os períodos da
ponte já começou a ser
para ouvir sobre a boa
Renascença, Barroco, Clásfeita: uma vez por mês, a
música. O ECAI veio suprir
sico, Romântico e Moderprofessora de Ciência
essa necessidade de
no, e começa uma nova roPolítica da UnB Paola
conhecimento que temos e
que por vezes não sabemos
dada de palestras, desta vez
Ramos utiliza o ECAI
como encontrar. Por mais
sobre ópera, com a história
para um projeto de Exque você já conheça uma
do gênero, os grandes notensão, com foco na Filoobra, o Alexandre sempre
mes e o vocabulário especísofia, que já abordou aucontribui com algo mais. E
fico utilizado nas produtores como Nietzsche e
sempre com bom humor.”
ções. “A ideia é ter sempre
Maquiavel. A segunda liFernando Sávio de Sousa,
um módulo novo e outros
ção foi investir menos
servidor público.
antigos”, avisa Innecco.
em infraestrutura e mais
Ele diz que o principal desafio das palestras musicais – sempre ministradas por
ele próprio – é fazer uma análise diferente
do assunto. É aí que entram as ferramentas adquiridas com a formação musical,
que fizeram, por exemplo, com que os
alunos de História da MPB ouvissem,
com espanto e atenção, a “desconstrução”
do arranjo do maestro Rogério Duprat
para Construção, de Chico Buarque, na
aula sobre a década de 60. “Vem do estilo
de maestro a necessidade de criar uma
aula estimulante”, afirma Alexandre, que
já conduziu orquestras e coros com os
mais diversos repertórios. Ele deixa claro,
no entanto, que cada palestra é tão somente uma introdução ao assunto – “é como uma visita à seção de referência de
uma biblioteca”.
Os encontros acontecem durante a semana, em vários horários. O primeiro ano
de atividades já revelou o perfil dos alunos:
nas aulas durante o dia, uma turma fiel de
aposentados; à noite, um público mais variado. “São principalmente pessoas curiosas, que sentem necessidade de encontrar
pessoas novas, de falar”, atesta o maestro,
que identifica uma grande quantidade de
funcionários públicos.
Um ciclo diferente na área musical foi
o curso de voz para tímidos. O mote era
atrair gente que gosta de cantar, mas tem
vergonha de fazê-lo fora do chuveiro. A
“Alexandre Innecco tem o
dom de cativar a plateia.
É um prazer acompanhar
a história da música
dividida criativamente em
gêneros, instrumentos,
épocas e personalidades.”
Fátima Bueno, artista
plástica que atualmente
expõe no ECAI.
cinco, podendo variar os horários e os ciempreitada, ao que parece, deu certo – ao
clos e até “pular” uma aula do mesmo cifinal do ciclo, muitos alunos tinham perclo, de acordo com sua convedido a inibição, escolhe“Eu sentia falta de um local
niência. Quem quiser ser fiel
ram uma música de seu reonde a cultura pudesse ser
ao ciclo paga pelo curso compertório particular e soltadivulgada e trabalhada da
pleto e tem maior abatimento,
ram a voz.
forma mais variada possível.
com cada aula saindo a R$ 30.
Além da música, o EsA volta do Alexandre foi
Os preços ainda variam de
paço Cultural Alexandre
crucial, pois pudemos ver
acordo com a antecedência da
Innecco tem promovido exposições, ter aulas sobre os
reserva, se a pessoa leva um
exposições e lançamentos mais diversificados assuntos
amigo ou se compromete com
de livros. As cinco mos- em torno da música, assistir
a palestras sobre filosofia,
mais de um módulo. E existe
tras de artes plásticas e fodiscutir e bater papo de
também a possibilidade de se
tografia levaforma descontraída.”
“encomendar” uma palestra
ram, em cada
Maria Cândida Veloso,
dentro de um cardápio previavernissage,
servidora pública.
mente oferecido, para grupos
um público
de tamanhos variados.
que, depois,
As ideias para movimentar o ECAI
deixa o contato para ser incluínão param. Em janeiro e fevereiro haverá
do na mala direta do ECAI. O
uma espécie de “colônia de férias para
professor tem um benefício
adultos”, com cursos em horários e freextra com as exposições: “É
quência diferentes dos habituais. Em
muito bom dar aula variando
2013, o objetivo é intensificar a diversificao cenário”, comemora ele,
ção de temas e áreas tratados nas palestras.
que descobriu os artistas entre
E solidificar a parceria com o Café Savana,
os próprios alunos das palesque tinha uma galeria de arte naquele local
tras de música. Os lançamene apoia todos os eventos do ECAI – o alutos de livros, conta Alexandre,
no pode, por exemplo, almoçar enquanto
também levaram “gente anteassiste a uma aula de música ou sentar panada” ao espaço.
ra tomar um drinque depois de pegar o auO espírito empreendedor
tógrafo do autor no lançamento do livro.
fez com que ele planejasse diversas formas de os alunos teEspaço Cultural Alexandre Innecco
rem acesso às aulas. A primei116 Norte – Bloco A – Loja 74 (ao lado do
ra palestra é sempre gratuita
Café Savana). Programação de novembro:
e, a partir da segunda, o preço
13 e 14, Grandes nomes da ópera; 20 e 21,
Como se faz uma ópera; 26, Romântico;
é R$ 45. Mas quem compra
27 e 28, Discoteca básica de ópera; 29, Bert
um passaporte por R$ 180
Hellinger para todos. Reservas: 9559.2699.
Informações: www.alexandreinnecco.com.
35
paga por quatro aulas e tem
brasiliense de coração
Maluco
beleza
Por Vicente Sá
fotos rodrigo oliveira
O
36
tempo é setembro de 2012. O
espaço, um misto de shopping
e labirinto, no bairro do Jardim
Botânico, conhecido como Mercado
Cultural Piloto, um conjunto nada convencional de lojas, restaurantes, um teatro e uma sala de cinema que funciona
com equipamentos de projeção doados
pelo Ministério da Cultura. Em cima da
mesa, vinho, água e alguns petiscos. Em
volta, atores e músicos fazem a primeira
leitura do texto. Quase ao fundo, sorrindo e deixando a conversa e os palpites
fluírem, o autor e diretor do espetáculo,
J. Pingo. A peça é O último rango, que será reencenada a partir do primeiro semestre de 2013, quase 30 anos depois da
primeira montagem, no Teatro Galpão
– que, naquela época, causou um verdadeiro rebuliço na efervescente Brasília.
Mas quem é mesmo esse senhor de
66 anos, protagonista de tão distintos papéis como autor e diretor de teatro, dono do “shopping labirinto”, ator de cinema, locutor, jornalista, ex-presidente
do Clube da Imprensa, pai de seis
filhos, respeitado e temido nos
meios culturais da cidade por suas
posições firmes e sua voz grave, que
pouco elogia e muito esbraveja?
Quem é esse personagem que parece
não conseguir parar de surpreender
e se rebelar contra o teatro tradicional? Quem, de verdade, é J. Pingo?
O pouco que se sabe dele aponta
Porto Alegre como cidade de nascimento e mostra uma infância rica de aventu-
ras ao lado dos irmãos – entre eles o ator
Paulo César Pereio, seis anos mais velho
– e da família que foi rica e que, por conta de gastança romântica do pai, ficou
quase pobre. Dos seus primeiros anos de
estudo sabe-se apenas que foi brilhante e
rebelde, expulso quase todos os anos do
primário, embora nunca tenha sido reprovado. “Eu normalmente já havia passado de ano quando me pegavam”, conta Carlos Augusto de Campos Velho,
nome de registro do pequeno “pinguinho de gente”, como o chamava sua
mãe, dona Maria Hugo Velho.
Sua adolescência fica perdida nas
brumas da lenda e hora ou outra se entrevê um rapaz alto fazendo teatro, cantando mocinhas e viajando pelos lugares
menos turísticos do país. Do homem
ainda jovem, sabe-se de uma aventura no
Paraguai que lhe rendeu um ano de prisão numa pequena cidade do interior do
Mato Grosso. O carro que ele dirigia, ao
voltar para o Brasil, estava abarrotado de
drogas. Seu companheiro de viagem fugiu e ele foi preso. Não se sabe se tinha
conhecimento da carga, mas o certo é
que na cadeia fez amizade com o delegado e os praças e passou a exercer o ofício
de escrivão, que lhe rendeu algumas
mordomias: uma sala especial só para ele
e acesso a todo material apreendido pelos policiais. “Quando eu saí, eles quase
choravam, pedindo para eu ficar, mas eu
tinha outros compromissos e não aceitei
a oferta”, lembra Pingo.
Depois de passar pelo Rio de Janeiro
e São Paulo e trabalhar em teatro e cinema, chegou a Brasília em 1977, aos 31
anos. Aqui retomou a carreira teatral como diretor e montou diversas peças,
sempre com sucessos ou fracassos estrondosos. Criou inimigos a rodo no meio
artístico e uniu-se a figuras mitológicas
da cidade, como o produtor José Pereira
e o jornalista Wanderlei Lopes, com
quem aprontou muito em bares e festas.
Para conseguir patrocínio da extinta
Fundação Cultural para uma de suas
montagens, tirou a roupa na porta do gabinete do diretor, o embaixador Wladimir
Murtinho. A artimanha deu certo e ele
conseguiu a verba.
Na década de 80, inspirado no clássico O último tango em Paris, escreveu e
montou O último rango, com direção musical de Edu Viola e participação de Renato Russo, Plebe Rude e Liga Tripa. No
transcorrer da peça é preparada uma sopa, depois servida aos atores e à plateia.
Para garantir os ingredientes da sopa,
Pingo ligou certo dia para a Ceasa, passando-se pelo secretário de Agricultura e
ordenando que atendessem bem a um enviado seu, que naquele momento estava
se dirigindo para lá. Apresentou-se como
tal, informou que estava montando o espetáculo a pedido do governador e daí em
diante não faltou sopa nem nos ensaios
do grupo, que eram realizados no Clube
da Imprensa.
Sua relação com o Clube da Imprensa
se tornou mágica e ele, por puro amor e
também por falta de local para morar,
candidatou-se à presidência com o slogan
“vamos viver o clube”. Ganhou a eleição e
passou, efetivamente, a morar no clube
com a família e uma vaca que comprara
para dar leite fresco aos filhos pequenos.
Depois dessa experiência política, voltou aos palcos e montou mais uma dezena de peças. Entre elas, uma que não
agradava muito ao público, que costumava sair antes dos vinte primeiros minutos.
Pingo resolveu esse problema trancando
o teatro e colocando a chave no colo. Antes de o espetáculo começar, ele avisava
que quem quisesse sair era só pegar a chave e abrir a porta. O público tornou-se
mais sensível ao texto e à montagem e
passou a sair somente no final da peça.
Nosso imaginoso e irrequieto personagem não se prende somente ao teatro.
Também faz filmes e muitos filhos. “Um
com cada mulher, sem nunca me ter casado. Aliás, tive dois gêmeos com uma,
por isso são seis filhos”, conta. Também
criou uma colônia de férias, promoveu
oficinas de arte e desfiles de moda afro
com jovens da periferia. Candidatou-se a
deputado distrital, mas não foi eleito.
Uniu-se à atriz e produtora Andréa
Gozzo, com quem tem a filha mais nova,
Alice, e criou a Associação de Movimentos Culturais, para produzir seus trabalhos. Por fim, tornou-se empresário e
construiu o shopping no qual funcionam
o Teatro Grande Otelo e o Cinema Saracura. Pois foi justamente nesse centro comercial que começou nossa história – que
esperamos esteja longe do fim.
37
Divulgação
galeria de arte
O corpo
e seus limites
Obras do britânico Antony Gormley ocupam CCBB
e espaços públicos da cidade até dia 6 de janeiro.
Por Alexandre Marino
O
38
espaço é a referência do corpo.
O que envolve o corpo o torna
visível, autêntico, vivo. Entre o
espaço e o corpo reside o limite entre a
existência e a desintegração, o que cria
um estado de tensão permanente, explorado pelo artista plástico inglês Antony
Gormley em obras expostas em vários
pontos de Brasília e mais especificamente
no Centro Cultural Banco do Brasil. Sob
o título geral de Corpos presentes (Still being,
no original), uma ampla retrospectiva do
artista nascido em Londres há 61 anos po-
de ser vista na cidade até 6 de janeiro.
Depois de levar mais de 410 mil espectadores aos espaços do CCBB no Rio de
Janeiro e São Paulo, a mostra chegou a
Brasília provocando polêmica. Uma de
suas esculturas, que retrata um corpo masculino em tamanho natural, moldado em
ferro fundido – o modelo é o próprio artista –, foi derrubada e embalada em saco
plástico, como se fosse um cadáver. A peça deveria ficar nas imediações do Espaço
Israel Pinheiro, próximo à Praça dos Três
Poderes, local onde, na véspera da inauguração, ocorreu o vandalismo.
As esculturas de Gormley já correram
o mundo, passando por países como Inglaterra, Alemanha, Dinamarca, China,
México, Rússia, Áustria, Holanda. Em vários locais, provocaram reações e despertaram a criatividade de pessoas que resolveram contribuir, ainda que inconscientemente, para o aprofundamento da experiência artística. No Rio de Janeiro, uma
das esculturas recebeu uma camisinha
usada, e alguém deixou, ao lado de outra,
uma caixinha de esmolas com a frase “ajude a arte”. Indiferentes a tudo, os “corpos
presentes” de Gormley observam os principais cenários de grandes cidades do
mundo, e também de Brasília, a partir de
em Porto Velho, Rondônia, durante sete
dias, em 1992. A obra foi produzida originalmente para ser exposta na conferência ambiental Rio-92. Assim como acontece com os demais trabalhos de Antony
Gormley, fica a sensação de que as figuras, que miram o espectador, lançam perguntas no ar. Aqui, não é a arte que leva
o espectador a perguntar. A própria obra
se antecipa e coloca as questões, cabendo
a nós procurar as respostas.
Corpos presentes
Divulgação
Alexandre Loureiro
Antony Gormley
Ate 6/1/2013 no Centro Cultural Banco
do Brasil. De 3ª a domingo, das 9 às 21h.
Entrada franca.
Divulgação
pontos estratégicos. Do alto do viaduto da
rodoviária central, por exemplo.
Os corpos de Gormley, que pesam
630 quilos, já foram vistos em áreas urbanas de grande movimento, como o Vale
do Anhangabaú, em São Paulo, ou no
Largo da Candelária, no Rio de Janeiro.
Como turistas que observam a cidade ou
suicidas que ameaçam se atirar do alto
de edifícios, eles interferem na paisagem
humana e se tornam atores no meio urbano. Esta é a força maior do trabalho de
Gormley, observável tanto nas ruas, em
que os corpos dialogam com a população, quanto nos pavilhões e galerias do
CCBB.
Em Brasília, Gormley preferiu não
instalar suas esculturas no alto de prédios, e apenas as espalhou em locais de
circulação. Foi a forma que encontrou
de dialogar com a cidade, que lhe chamou a atenção pelo posicionamento do
horizonte, que se encontra no campo
frontal de visão, no nível dos olhos do
pedestre. Ele também preferiu não interferir na obra de Oscar Niemeyer, por
considerar Brasília “uma escultura onde
as pessoas vivem” – em meio a alienação
e sofrimento, perdidas como formigas
no espaço vazio. Em visita à cidade para
a inauguração da exposição, Gormley reconheceu que Brasília evocou lembranças da Praça Vermelha, de Moscou, e de
regiões de Varsóvia, projetadas de acordo com o fundamento socialista. Oscar
Niemeyer, o comunista sobrevivente, deve ter gostado da comparação.
O trabalho de Antony Gormley não
se limita a corpos moldados em ferro
fundido, embora sempre explore a tensão entre a matéria humana e o espaço
que a envolve. Especificamente na mostra brasiliense, chamam a atenção obras
como Breathing room IV, uma armação de
tubos de alumínio que dramatizam a arquitetura, colocando o espectador dentro de uma mandala tridimensional que,
em função dos efeitos de luz, provocam
reações indescritíveis.
Outro trabalho em exposto no CCBB
é Amazonian field, que provoca um misto
de encantamento e desconforto. São
aproximadamente 24 mil pequenas esculturas em terracota, medindo entre quatro
e 40 centímetros, representando formas
corporais em que se destaca um irrepreensível olhar de questionamento. Cerca
de 18 toneladas de terra foram trabalhadas pelo artista e 60 pessoas escolhidas
39
diÁRIO dE VIAGEM
Portugal medieval
Por Súsan Faria
Colaborou Marina Ávila
P
ortugal possui regiões belíssimas e
isoladas, bem menos conhecidas
do que as tradicionais rotas turísticas próximas a Lisboa. Apreciar a rústica
natureza, os vilarejos e monumentos arquitetônicos medievais do Centro e Leste
Transmontano, especialmente nas cercanias do Rio Douro, é desligar-se do mundo e entrar em sintonia com um passado
remoto, que resiste, especialmente, nas
muralhas, rochas, casas celtas, igrejas, castelos medievais e santuários locais.
Navegar de barco pelo grandioso Douro, na divisa entre Portugal e Espanha, em
silêncio, é conhecer um mundo distante,
Castelo de Bragança,
construído no
Século XII.
40
onde a contemplação da exuberante paisagem nos tranquiliza e nos equilibra. Fizemos parte da comitiva de jornalistas e promotores turísticos portugueses e estrangeiros que conheceu a região, dias 9, 10 e 11
de outubro. A visita foi organizada pela
Direção Regional de Cultura Norte e pela
instituição Porto e Norte de Portugal.
Na divisa entre o distrito de Bragança
e Zamora, na Espanha, encontramos um
povoado surgido na Idade Média, Miranda do Douro, com suas muralhas, porta
falsa, castelos, torre e uma história de muitas batalhas. Habitada durante séculos
por romanos, depois árabes, Miranda do
Douro enfrentou tragédias como a explosão de 30 mil kg de pólvora no paiol da
praça, com a morte de 400 pessoas, du-
rante a Guerra dos Sete Anos (Guerra do
Miradum, de 1756 a 1763, vencida pelos
espanhóis).
Na cidade, localizada na região de
Trás-os-Montes, assistimos a “pauliteiros”
com suas gaitas e instrumentos típicos, e
percorremos de barco o Parque Natural
Douro Internacional, cercado por rochas de 250 metros de altura. O ar puríssimo, as cegonhas negras, o poço das lontras, os graves cantos das aves, os pássaros em ninhos altos, o bosque das corujas, os patos, as plantas centenárias com
raízes na rocha, os coelhos selvagens ou
mesmo um santuário nas pedras, em boa
parte dos 150 km do Douro, em nada recordam a civilização atual.
Às margens do Douro, junto às rochas, ancestrais enfrentavam a natureza fazendo aterros de pedra e terra, para cultivar oliveiras, amendoeiras e laranjais, produzir mel e até improvisar pequenos pastos para cabras. No Século XVII, em meio
aos blocos de rochas, corredeiras e gargantas, enfrentando a noite e o frio, o contrabando rolava solto no Douro, mas sempre à noite e praticado por homens de
muita resistência física.
Aventureiros montavam estacas ou
cordas entre uma margem e outra do rio
– com profundidade entre 22 e 80 metros
– e transportavam café, açúcar e máquinas
de costura Singer de Portugal para a Espanha e, na volta, tabaco para Portugal. Ou
seja, produtos vindos das colônias e que
garantiam a sobrevivência de moradores
da região. Ainda hoje cultiva-se alimentos
às margens íngremes e rústicas do Douro.
A navegação foi viabilizada a partir de
1950, graças às barragens edificadas por
Portugal e Espanha.
A beleza da região não se restringe ao
Rio Douro. Em Bragança e Vimioso, visitamos castelos e igrejas ornamentadas
de ouro. Em Mogadouro, conhecemos a
igreja românica de Algosinho e o Largo
da Misericórdia, onde se encontra um
castelo de 1297, ligado à Ordem dos
Templários. No restaurante Lareira, nessa cidade a 200 km do Porto, pudemos
apreciar pães com azeitonas e caldo verde de entrada, posta à mirandesa (400
gramas de bife de vitela), cogumelos selvagens, salada, pastelão de batatas, vinho
do Douro e charlotte al figo (sobremesa
de gelatina com figo).
Em Moncorvo, destaque para os edifícios dos séculos XVI, XVII e XVIII, de
elevado valor patrimonial, e a Casa de
Roda dos Expostos, onde foram deixados
mais de quatro mil bebês pobres ou indesejados, cujos registros estão na Casa Municipal. Em Carrazeda de Ansiães, uma
das mais antigas vilas de Portugal, conhecemos o Castelo de Ansiães, uma vila
amuralhada com cinco mil anos de história, onde viveu uma população estimada
em 200 habitantes. Na área fria e áspera,
belas oliveiras e castanheiras e o cultivo de
trigo, centeio, figos e amêndoas. Muitos
dos caminhos para chegar a essas cidades
foram rotas antigas dos peregrinos para
Santiago de Compostela, na Espanha.
Serra da Estrela
A crise que afeta Portugal – com desemprego, farmácias de luto para não serem fechadas, protesto de estudantes e
queda na qualidade de vida da classe média – praticamente não prejudicou nossa viagem. Ao contrário: os portugueses
foram corteses e gentís o tempo todo. E
a culinária, preciosa e farta.
O que não pudemos fazer foi viajar
para o centro de Portugal de trem, cujos
condutores estavam em greve. Alugamos
um carro e fomos de Lisboa a Seia. No
caminho, avistamos montanhas, lagoas e
vales cavados por rios e riachos que têm
suas nascentes no alto da Serra da Estrela,
com quase dois mil metros de altitude, o
ponto mais alto de Portugal.
Rota também única: as plantações de
maçã, uva, marmelo e pêssego e pequenas aldeias e comércios, em estradinhas
o.
Fotos: Nuno Gouveia
O passeio dos jornalistas pelo Rio Dour
Castelo de Mogadouro, em
Trás-os-Montes.
bem conservadas, ao lado de precipícios.
A fartura de frutas na região já foi tanta
que os moradores davam maçãs aos porcos. Em Seia, com cinco mil habitantes,
come-se bem, especialmente carne de porco, queijos variados, requeijão, azeite,
pão de centeio e broa de milho, e bebe-se
excelentes vinhos. A diária para casal em
hotel quatro estrelas, com piscina, fica em
torno de 50 euros. Um bom almoço, cerca de dez euros.
Em Seia, assistimos ao XVIII Festival
Internacional de Cinema Ambiental da
Serra da Estrela (Cine Eco), no qual foram exibidos 36 filmes, selecionados entre mais de 300 inscritos, como os brasi-
leiros Paralelo 10, de Sílvio Da-Rin, Ribeirinhos do asfalto, de Jorane Castro, e Uma
professora muito maluquinha, de André Pinto e César Rodrigues. “O tema do festival
é muito atual, já que os problemas do
meio-ambiente se agravam. O festival discute o meio ambiente daqui e de outros
lugares do mundo”, destaca a atriz portuguesa Ana Brito e Cunha, uma das juradas do Cine Eco. Na cidade, belos monumentos, bom comércio e os Museus da
Criança, da Eletricidade e do Pão.
Na Serra da Estrela, a neve chega em
novembro e o frio atinge 20 graus negativos em fevereiro e março. Com o passar
dos anos, a neve moldou os rochedos da
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Fotos: Nuno Gouveia
diÁRIO dE VIAGEM
Igreja Matriz de Torre de Mon
Muralha do Castelo de Ansiães.
região. As lagoas em volta são geladas,
mesmo em época de verão. Nas altitudes
mais elevadas, os invernos, além de rigorosos, são longos, mas resplandece a natureza ímpar, com grande variedade de flores e
animais selvagens, como a lontra, a largatixa-da-montanha, a raposa, o coelho-bravo,
o largato-de-água, o javali e a perdiz.
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Lisboa
Além de ser uma porta de entrada
para a Europa, e da facilidade com a língua, Lisboa é um lugar para passear, comer bem, andar, aprofundar conhecimentos, contemplar e se divertir muito,
especialmente neste Ano do Brasil em
Portugal, iniciado em setembro último e
que prossegue até junho de 2013, com
muitos espetáculos de música, dança e
teatro, exposições artísticas, seminários e
outras promoções.
Entre tantas atrações em Lisboa –
museus, teatros, pastelarias de Belém,
noites de fado – destaca-se o Cine São
Jorge, na Avenida da Liberdade, 175,
próximo à Praça Marquês de Pombal,
que sedia festivais de cinema de muita
qualidade, como o Festin (Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa),
tendo à frente duas jornalistas brasileiras
que vivem em Portugal, Lea Teixeira e
Adriana Niemeyer. A quarta edição do
evento, que exibe curtas e longas-metragens, será de 3 a 10 de abril de 2013 e as
inscrições estão abertas até 31 de dezembro próximo. Em 2013, o Festin homenageará a cinematografia angolana e terá
uma mostra de cinema brasileiro.
Há voos diretos para Lisboa saindo
de Brasília, Salvador, Recife, Natal e Fortaleza. Para visitar a Serra da Estrela e a região do Douro, interessante é alugar um
carro – 40 euros por dia para um veículo
corvo.
seguro e bom – e seguir pelas estradas
bem conservadas, ou procurar agências de
turismo na Cidade do Porto. Foi o que fizemos – eu, Marina e um casal de amigos,
Ivana (também jornalista) e Carlos Nery.
Juntos, estivemos em Lisboa e Seia durante nove dias. Ivana e Carlos seguiram para
excursão em Fátima.
As repórteres Marina Ávila e Súsan Faria às margens do Rio Tejo, em Lisboa. Ao fundo, a Ponte 25 de Abril.
Curiosidades lusitanas
• O Brasil tem uma extensão territorial 96 vezes maior,
aproximadamente, do que Portugal.
• "Obrigadinho!" é uma forma carinhosa e muito usada
pelos portugueses para agradecer algo.
• Se não lhe tratarem bem, peça o “Livro de Reclamação”.
É obrigatório nos estabelecimentos e vale muito.
• Pequeno almoço é como se denomina o café da manhã dos portugueses.
• Come-se bem e barato, em Lisboa, nas tasquinhas, restaurantes pequenos,
apertadinhos mesmo, mas de muita qualidade e bem servidos. Bacalhau
a lagareiro (no forno com alho por cima), batata inglesa assada, sobremesa
(maçã assada ou torta de laranja), água e vinho à vontade. Com 10 euros
se faz a festas nas tasquinhas. Não há cobrança dos 10% de serviço.
• Comprar água e frutas nos mercadinhos sai bem em conta. Próximo à Praça
Marquês de Pombal, com 7,50 euros compramos 5 litros de água, banana,
laranja, maçã, biscoitinhos de nata e iogurtes.
Fátima: o fervor da religiosidade
Por Ivana Cássia Nery
veis por levar a imagem da peregrina às casas do Distrito Federal, Wagner de Castro
explica que, inicialmente, eram contemplados apenas dois lares a cada dia, em razão da grande quantidade de pedidos. Hoje, com a ajuda de outras duas pessoas, as
visitas aumentaram. De 2009 até 2012,
mais de 1.200 famílias já receberam a santa em seus lares, no DF. Não há quem não
se emocione com a presença da imagem
da Virgem, uma obra de arte de grande
perfeição. Seus olhos, feitos em porcelana,
parecem vivos, e transmitem imensa paz.
No inicio de outubro, Wagner de
Castro levou 27 devotos para Fátima,
um dos principais centros de peregrinação da Europa, comparável ao de Lourdes, na França, e a Santiago de ComposFotos: Carlos Nery
Todo dia 13 de cada mês, especialmente 13 de maio e 13 de outubro, milhares de fiéis vão até Fátima, em Portugal,
em peregrinação para pedir votos, agradecer graças ou milagres e comemorar a aparição da virgem aos três pastorinhos – Lúcia Santos, 10 anos, e seus primos Francisco Marto e Jacinta Marto, 9 e 7 anos,
respectivamente. O espaço da Cova da
Iria, onde hoje se ergue uma grande basílica neobarroca, às vezes não comporta o
grande número de visitantes do mundo
inteiro. Muitos vêm em romaria que leva
vários dias. Uma romaria de 300 km, por
exemplo, necessita de onze dias de caminhada. Cerca de 4,5 milhões de pessoas
visitam o local anualmente.
A Virgem apareceu para as crianças
acima de uma azinheira grande (árvore
nativa), no dia 13 de maio de 1917, quando brincavam na Cova da Iria. Cinco
aparições aconteceram até outubro, sempre no mesmo dia. A senhora de grande
beleza solicitou-lhes que rezassem pela
salvação do mundo. No Brasil, paróquias
e lares de devotos recebem a santa por
meio dos mais de 250 mensageiros, inscritos no Santuário de Fátima, em Portugal. Atualmente, o trabalho é realizado de
segunda a sábado, sempre à noite. As famílias reúnem parentes e amigos para a
oração do terço e maior conhecimento
das palavras proferidas pela santa.
O Movimento da Mensagem de Fátima tem sede na Paróquia de Santa Edwiges, em Curitiba, e segue a orientação do
Padre Raimundo Alves Fonseca. Integrante do Movimento e um dos três responsá-
tela, na Espanha. Todos os dias são feitas
homenagens à santa.
No enorme espaço da Cova da Iria,
que pode acolher até 500 mil pessoas, romeiros de todos os lugares têm a chance
de ouvir, durante o terço, parte da Ave
Maria em sua língua. Nas dez primeiras
dezenas é possível vê-lo recitado metade
em inglês e o restante em romeno, por
exemplo, conforme as inscrições feitas.
A segunda parte é respondida pela plateia, cada pessoa no seu idioma. No início do terço, e entre um e outro mistério,
são cantadas músicas de grande beleza
em latim, acompanhadas por um coral,
o que encanta a todos que participam do
encontro. Todo dia 12 de cada mês acontece a procissão das velas, após o terço e
a vigília, para preparar os festejos do dia
13, data das aparições.
Atualmente, onze imagens oficiais de
Nossa Senhora de Fátima percorrem países do mundo inteiro levando mensagens
de amor e paz. Esculpida em madeira (cedro do Brasil) pelo escultor santeiro José
Ferreira Thedim, a santa mede 1,04 m e
foi feita pela primeira vez em 1920 com
base na descrição de Lúcia, a quem a santa apareceu em 1917. Em 1945, pouco
depois da Segunda Guerra, um pároco
de Berlim propôs que a imagem percorresse todas as capitais e cidades episcopais
da Europa, até a fronteira da Rússia.
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carta da europa
O jeito
Hitchcock
de criar
Por Silio Boccanera, de Londres
T
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he pleasure garden, um filme mudo dirigido por Alfred Hitchcock na década de
1920, foi uma das atrações paralelas do recente Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A projeção aberta ao público, na Praia de Copacabana,
só foi possível graças a um cuidadoso trabalho de restauração no Instituto Britânico do
Cinema-BFI, que recuperou oito filmes mudos do cineasta nascido em Londres e emigrado para Hollywood.
Hitchcock é ainda tema de uma retrospectiva no BFI, que há meio século publica
uma revista, Sight&Sound, famosa pelo tratamento sério que dá ao cinema internacional e também pela preparação, a cada dez anos, de uma lista dos melhores filmes de
todos os tempos, conforme opinião de especialistas. Neste ano, pela primeira vez em
cinco décadas de premiação, o vencedor habitual perdeu a vaga para um novo campeão: saiu Cidadão Kane, de Orson Welles, entrou Vertigem, ou Um corpo que cai,
de Hitchcock.
A retrospectiva Hitchcock no BFI inclui os filmes mudos feitos por ele antes de se mudar para Hollywood, em 1936. Nos Estados Unidos, ele iria
conquistar fama mundial com filmes como Psicose, Os
pássaros, O homem que sabia demais, Janela indiscreta e muitos outros que lhe trouxeram reconhecimento de público e crítica.
O novo ocupante do pedestal dos melhores,
Um corpo que cai, traz James Stewart como um detetive
que se aposentou porque sofre de vertigem de altura e
se sentiu culpado pela morte de um colega. Ele aceita realizar uma investigação privada para o marido da misteriosa Kim Novak, porque estranha o comportamento incomum que a mulher vem exibindo.
Como de hábito em Hitchcock, o que importa não é apenas
a narrativa, o drama psicológico da personagem, e sim a maneira
de contar a história sob a forma de filme. O diretor, que começou sua carreira no Reino Unido e encerrou-a em Hollywood,
onde morreu em 1980, contribuiu para criar uma linguagem
no cinema, um jeito de se expressar pelas imagens, seja na sequência em que elas aparecem como resultado da montagem,
no ângulo da câmera ao captar a cena, no uso da música ou
nos diálogos.
Divulgação
Hitchcock criou seus próprios recursos visuais, numa época sem os truques
eletrônicos hoje banalizados pela tecnologia digital nos computadores. A vertigem do personagem de James Stewart
permite mostrar alguns desses truques
com a tecnologia de 1958, mas com uma
criatividade sem data.
A votação da Sight&Sound recolheu
opiniões de críticos, curadores, programadores, exibidores e outros especialistas em cinema pelo mundo, além de cineastas como Martin Scorcese, Woody
Allen, Quentin Tarantino, Francis Ford
Coppola e Guillermo del Toro. Segundo
o editor da revista, Um corpo que cai é um
filme que cresce à medida que o revemos. O curador da retrospectiva no BFI,
Robin Baker, complementou essa observação em entrevista que nos deu em Londres: “O fato de um filme feito há bem
mais de 50 anos ainda ser considerado o
melhor de todas as épocas comprova que
o julgamento crítico não precisa se dar necessariamente no momento de produção
ou lançamento da obra. É importante ver
como ela passa à posteridade. E é esse o
caso da premiação de Um corpo que cai”.
Na época, esse filme não foi necessariamente aclamado por todos. “Não é
um filme confortável ou fácil de ver”, explicou Baker. “Tem várias camadas. É o
tipo de filme que me surpreende sempre
que o revejo. Há momentos em que fico
impressionado, chocado, pelas mudanças no tom do filme, por ver James
Stewart agindo de maneira tão horrível.
Estaria tendo um colapso nervoso? Por
que age daquela maneira?” Ele se diz surpreso com a mágica e o brilhantismo de
Hitchcock ao construir uma narrativa,
com o que faz com a câmera. “É tudo
muito rico. É o tipo de filme sobre o
qual podemos falar sem parar, escrever
sem parar. E, para mim, é esse desejo de
vê-lo de novo e de novo”.
Por certo, a vitória de Hitchcock com
o melhor filme de todos os tempos não
tem a unanimidade dos 846 especialistas
que responderam à consulta da
Sigh&Sound, nem terá concordância geral
do público ou de outros cinéfilos. Compor uma lista dos melhores filmes exige
considerar a importância histórica da
obra, seu impacto a longo prazo, a capacidade de resistir a uma segunda, terceira, décima sessão repetida. Quem não
concorda com a escolha pode esbravejar
e até chamar de imbecis os eleitores da
revista. Esse tipo de indignação revela a
paixão que o cinema desperta. No mínimo, gera calorosa discussão em bar.
Nem mesmo os aficionados de Hitchcock concordam na escolha do que seria
seu melhor filme. Muitos preferem, por
exemplo, Psicose, obra marcante na capacidade de espantar o espectador. Inclui uma
das cenas mais reverenciadas na história do
cinema: o esfaqueamento de Janet Leigh no
chuveiro, com maestria na edição dos vários cortes (97), nos closes reveladores. Nos
iludimos a ponto de perceber o vermelho
do sangue num filme preto e branco. Sem
esquecer do uso dramático da trilha sonora
de Bernard Hermann.
Outros preferem como melhor filme
Os pássaros, que nos surpreende com o
mistério das aves que atacam humanos
sem motivo aparente, com alvo especial
numa das habituais louras frias de Hitchcock. No caso, a loura se encarna em Tippi Hedren, de visita a uma pequena cidade de beira-mar para resolver uma pendência antiga. Seria uma metáfora de explosão sexual contida, que a mulher de
aparência impecável traz e a história insi-
nua? Hitchcock não explica. Não pretende explicar. Deixa obscuro e não resolvido
de propósito, para que o espectador perplexo preencha o conteúdo. Ou passe o
resto da vida com medo de pássaros...
Há quem prefira Janela Indiscreta, com
um James Stewart de perna engessada convencido de que ocorreu um homicídio no
prédio em frente, que ele observa de binóculos. Difícil convencer os outros, inclusive
sua própria namorada, Grace Kelly em fase
de beleza inigualável, em 1954, fazendo outra loura hitchcockiana.
Quando o assunto é cinema, cada
um tem sua escolha pessoal, muitas vezes
inspirada pelo que a obra representou na
vida pessoal ou na primeira vez que viu o
filme, em companhia de quem, com que
idade, visto no cinema escuro ou no vídeo em casa.
Além da votação ampla, que gerou a
vitória de Um corpo que cai, a revista promoveu também uma votação mais restrita,
só entre 358 diretores, escolhidos em vários países para evitar um predomínio anglo-americano. Nessa lista extra, só de diretores, o filme de Hitchcock ficou apenas
no oitavo lugar.
Os dez mais
1. Vertigem ou Um corpo que cai, de Alfredo Hitchcock (1958)
2. Cidadão Kane, de Orson Welles (1941)
3. Era uma vez em Tóquio, de Yasugiro Ozu (1953)
4. A regra do jogo, de Jean Renoir (1939)
5. Aurora, de F.W. Murnau (1927)
6. 2001: Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick (1968)
7. Rastros de ódio, de John Ford (1956)
8. Um homem com uma câmera, de Dziga Vertov (1929)
9. The passion of Joan of Arc, de Carl Dreyer (1927)
10. 8 ½, de Federico Fellini (1963)
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luz câmera ação
Elefante
branco
Por Reynaldo Domingos Ferreira
Fotos: Divulgação
N
ão é de fácil convencimento a
abordagem, na literatura ou no
cinema, da questão do altruísmo
cristão, como pretendeu o cineasta Pablo
Trapero em Elefante branco, selecionado
para a mostra Un Certain Régard do Festival de Cannes deste ano, apesar de contar
com a colaboração de dois excepcionais
intérpretes: Ricardo Darín e Jérémie Renier, que estão bem, mas não em seus
melhores momentos.
Seus papéis são os de dois padres, Julián e Nicolá, mergulhados no inferno de
uma favela – Villa Virgen – na periferia
de Buenos Aires, de 15 mil habitantes,
dominada pelo narcotráfico, uma horrenda mazela social que a Argentina não
faz questão de divulgar. A vila se formou,
desde a década de 30, em torno do esqueleto de um edifício destinado a abrigar
um hospital que, segundo a idealização
de seu construtor, Alfredo Palácios, deveria ser o maior da América Latina. Na
atualidade, residem nele perto de 300 famílias em condições deploráveis.
Os sacerdotes, originários de famílias
ricas da França, que em outros tempos foram colegas no seminário, um tendo sido
confessor do outro, querem atenuar os
problemas da gente pobre que os cerca.
Acontece, porém, que, ante sua inábil
atuação, eles contrariam não só os traficantes como também a Igreja, cuja cúpula
representativa se mostra conivente com a
corrupta ação policial na localidade.
Trapero, também um dos autores do
roteiro, abarca variados temas paralelos,
como a campanha pela canonização do
padre Carlos Mugica, criador da primeira
capela na comunidade; um projeto imobiliário de construção de vivendas, tocado pelo bispado; o abalo da fé de Julián
ante a percepção da inutilidade de sua luta; e, além disso, os tormentos da carne
de Nicolá, causados por uma assistente
social, Luciana (Martina Gusman). O resultado, previsível, não poderia ser outro
senão o da superficialidade com que todos os assuntos são tratados. E, pior, com
certo sabor de falsidade. Do lado do roteiro, portanto, é isso o que se tem.
Mas, do lado da direção, o trabalho
de Trapero é, sem dúvida, mais elogiável,
principalmente pelos recursos de linguagem que ele usa com muita propriedade.
Note-se, por exemplo, a constância com
que ele capta, pela excelente fotografia de
Guillermo Nieto, cenas em plano-sequência de eficiente efeito dramático, como a da
chegada dos dois religiosos à favela, em
que, pelo deslocar da embarcação que os
traz, se descortina, em impressionante
quadro panorâmico, a miséria do lugar.
Ao tomar ciência, no prólogo, por
exame de ressonância magnética, de ser
portador de uma doença terminal, o padre Julián vai à procura de seu ex-colega
Nicolá, que se encontra gravemente ferido num vilarejo, na Amazônia. Ele sobrevivera a uma chacina perpetrada por
policiais contra colonos, moradores de
um ajuntamento de cabanas no meio da
floresta, sem que lhes pudesse prestar
qualquer ajuda.
Muito debilitado, física e moralmente, Nicolá, sem saber da situação verdadeira de Julián, aceita seu convite para se
integrar à vida de Villa Virgen. Na essência, portanto, o argumento do pouco
convincente filme de Trapero se centraliza na tentativa do padre Nicolá de moldar sua alma às difíceis condições locais.
Os dois intérpretes dos protagonistas,
como já foi dito, estão razoavelmente
bem. Ao que se evidencia, contudo, Jéremie Renier se entregou mais à sua personagem do que Darín, que continuou, a
todo tempo, sendo ele mesmo.
Elefante branco (Elefante blanco)
Argentina/Espanha/Bélgica/2012, 107min.
Direção: Pablo Trapero. Roteiro: Trapero,
Alejandro Fadel, Martin Maurequi e Santiago
Mitri. Com Ricardo Darín, Jérémie Renier,
Martina Gusman, Pablo Gatti, Susana Varela e
Raul Ramos.
47
luz câmera ação
O resgate
da memória
Por Sérgio Moriconi
S
e a captação das imagens históricas
da épica construção de Brasília fosse
uma corrida de revezamento, Dino
Cazzola certamente seria aquele que fecharia a raia, já no alvorecer dos anos 70.
Com a transferência do centro do poder
brasileiro para os confins do Centro-Oeste
(uma aventura inimaginável para os incrédulos), dezenas de profissionais da reportagem cinematográfica se deslocaram para
48
Estreia no final do mês o
documentário que conta
um pedaço da história
de Brasília com base no
acervo do cinegrafista
italiano Dino Cazzola.
o gigantesco descampado onde seria erguida a utópica capital do país, a fim de documentar o início da obras. Alguns nomes,
como os de Herbert Richers e do judeu
bessarábico Isaac Rozemberg, se destacavam como produtores consolidados no
Rio e São Paulo. Ao lado deles, um francês, Jean Manzon, muito conhecido desde
os tempos de Getúlio Vargas por sua atuação no malfadado Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP.
Mas foram José Silva e Sávio Silva, pai
e filho, aqueles que seriam considerados
os cinegrafistas oficiais do governo, responsáveis por toda a documentação do
trabalho de construção. José era um pioneiro dos cinejornais quando Israel Pinheiro, presidente da Novacap, o convidou para filmar o andamento das obras da
nova capital. Os dois se conheciam desde
os tempos de Belo Horizonte. A Liberta
Filmes, de José Silva, tinha grande experiência no ramo. Registrou os principais
acontecimentos oficiais e não-oficiais da
capital mineira e de Minas Gerais, como a
construção do Grande Hotel de Araxá e –
ele próprio cita – “a visita do general Clark
a Belo Horizonte”. Serviu a Juscelino no
período da prefeitura de BH, de 1940 a
1945, e do governo de Minas, de 1951 a
1955. Um ano e pouco depois, ele e o filho registravam as escavadeiras retirando
o pó rubro que daria lugar à cidade imaginada na prancheta por Oscar Niemeyer e
Lúcio Costa.
Italiano de nascimento, Dino Cazzola
– lembramos – recebeu a bola da documentação com a capital já inaugurada. Ele
tinha vindo a Brasília, em 1959, justamente para registrar as festas de inauguração pela extinta TV Tupi. Criaria depois o
Departamento de Cinema da TV Brasília
e aqui ficou, registrando a vida na nova capital para os órgãos públicos. De sua equipe, e de sua câmara, saíam as imagens veiculadas nos telejornais dos quatro cantos
do país. Em 1972, com a chegada da TV
a cores, aos 16 anos, o filho Júlio Cazzola
foi com ele à Bélgica, para um curso sobre
vídeo e fotos coloridos na Agfa Gevaert.
Não seguiu a profissão do pai. A vocação
pela Engenharia falou mais alto. Hoje, ele
é o guardião do acervo cinematográfico dr
Dino Cazzola, falecido em 1998. São 500
latas com filmes em preto-e-branco e em
cores. Eles narram parte da história da capital em suas duas primeiras décadas de
existência.
Fotos: Divulgação
E foi por esse baú de memórias que a
historiadora Andréa Prates e o cineasta
Cleisson Vidal se interessaram. Andrea
soube dos filmes de Dino em 1984, quando era estagiária na extinta Fundação Nacional Pró-Memória. No início da década
de 90, ela conheceu Júlio e se assustou
com a coincidência. “Quando ele disse
que era filho do Dino, quase caí dura.”
Depois da morte do jornalista, as conversas sobre a recuperação do acervo ficaram
cada vez mais constantes. Junto com Cleisson Vidal, Andréa lançou, em 2005, o longa-metragem Missionários, exibido no Festival do Rio. Novamente juntos, os dois realizaram, em 2012, Dino Cazzola: uma filmografia de Brasília, que, como o título deixa
claro, é um documentário sobre a história
da cidade a partir da coleção deixada pelo
cinegrafista, ao mesmo tempo em que expõe a fragilidade das políticas de preservação dos acervos de imagem brasileiros.
Que tesouros mais podem ser encontrados na Brasília filtrada pelas lentes de
Cazzola, além daqueles revelados por esse
documentário? Na histórica entrevista que
fez para a Globo News com Geraldo Vandré, o jornalista Geneton Moraes Neto
perguntou: “Onde estão as imagens gravadas por Evilásio Carneiro para a produtora de Dino Cazzola, no Aeroporto de Brasília (retransmitidas por emissoras de TV
de todo país), quando o artista regressou
de seu exílio no Chile, em 1973, após breves passagens por Peru, Argélia, Alemanha e França?” Segundo Geneton, não há
registros do filme na Polícia Federal, nem
no Arquivo Nacional, nem em lugar nenhum. Personagem maldito, mítico, autor
do hino à sublevação popular Pra não dizer que não falei das flores, teriam tido inutilizadas pelos militares todas as imagens
de participações suas em programas de televisão e festivais.
“Busco incansavelmente, nos últimos
anos”, conta Cleisson Vidal, “os registros
do depoimento que Vandré deu à equipe
de Dino Cazzola, pois este é um dos momentos mais importantes da trajetória da
produtora”. Apesar das buscas, Vidal não
conseguiu encontrar nenhuma imagem.
“Naquela altura”, diz ele, “eu me daria por
satisfeito se conseguisse ao menos o áudio
para usar no nosso documentário”. Na
entrevista a Geneton, Vandré disse não
acreditar na “lenda” da destruição de sua
imagem televisiva e cinematográfica. Afirmou nunca ter tido problemas com os militares, a ponto de ter composto um hino
em homenagem à Força Aérea Brasileira
(FAB). Para ele, esses registros devem estar muito bem guardados em algum lugar.
Boa parte do acervo de Cazzola pertencia à TV Brasília. Cleisson Vidal e Andréa
Prates tiveram em suas mãos três mil rolos, contendo cerca de 300 horas de filmes. Boa parte deles estava deteriorada.
Foi preciso contar com os serviços de um
perito – Francisco Moreira, diretor de restauração do Labocine – para analisar o
material. Quando houve a mudança do filme para vídeo, a emissora jogou tudo fora.
Cazzola teve o bom senso de recolher tudo
e guardar ele próprio as latas em sua produtora. Isso ilustra bem o descaso que empresas, e também órgãos públicos, têm em
relação à conservação e restauração do patrimônio de memória audiovisual do país.
Júlio Cazzola lembra que o pai considerava seu acervo um patrimônio. “Tudo que
ele fez ele guardou. Infelizmente, mais de
80% se perderam”.
Dino Cazzola – Uma
filmografia de Brasília
Os diretores
Andrea Prates
e Cleisson Vidal
Brasil/2012, 71min. Estreia dia 30/11 em
cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília
e Juiz de Fora. Roteiro, produção e direção:
Andrea Prates e Cleisson Vidal. Fotografia:
Cleisson Vidal. Consultoria em Acervo Fílmico:
Francisco Sérgio Moreira. Montagem: Lea
van Steen. Produção Executiva: Vera Affonso.
Música: Iura Ranevsky. Som: Renato Calaça.
Edição de som e mixagem: Miriam Biderman
e Ricardo Reis. Finalização: Afinal Filmes.
49
Divulgação
luz câmera ação
A negociação
Por Reynaldo Domingos Ferreira
C
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om uma direção bem conduzida, ao estilo de um thriller, o escritor e cineasta Nicholas Jarecki
defende a ideia, em A negociação, de que
os poderosos – principalmente os que lidam no desregrado mercado financeiro
– se saem sempre bem dos imbróglios
que eles próprios aprontam, na vida particular ou nos negócios. Autor também
do brilhante roteiro, Jarecki não tem como evitar a conotação política que assume sua parábola em relação ao que vem
acontecendo em seu país depois da bolha imobiliária de 2008.
De fato, os articuladores da crise hipotecária dos bancos – como mostra o
pertinente documentário Trabalho interno, de Charles Ferguson, premiado com
o Oscar – acabaram por ser aquinhoados
com altos cargos da administração financeira, no atual governo democrata, e evitaram assim que fosse feita uma regulamentação, como era necessária, do sistema bancário.
Realizado pela mesma metodologia
de thrillers da década de 70, como Serpico,
de Sidney Lumet, o filme de Jarecki, embora tenha voo próprio, narra a história
de um magnata de Wall Street, Robert
Miller (Richard Gere), capa da revista
Fortune, que, como muitos atualmente,
daqui e de lá, ficou milionário vendendo
títulos fictícios sobre a exploração de
uma mina de minérios na Rússia. Para
vender sua falida empresa, na qual trabalham seus filhos Peter (Austin Lysi) e
Brooke (Brit Marling), ele não se constrange em fazer, comprometendo-os,
uma série de transferências fraudulentas,
com a anuência de um banco estatal, de
empréstimos contraídos, no valor de 412
milhões de dólares. Mas isso não é tudo.
Depois de badalada entrevista concedida algures à imprensa, Miller retorna,
em seu avião particular, a Nova York, onde a família, reunida, o aguarda para comemorar seu aniversário. Ao agradecer a
homenagem, ele, enfático, cita Mark
Twain, quando afirma que “a velhice não
importa para quem não se importa com
ela”. Em seguida, malgrado o pedido da
esposa Ellen (Susan Sarandon) para que
fique em casa com os filhos e netos, Miller alega compromissos de negócios e,
azafamado, como um gigolô de luxo, vai
para a casa da amante francesa Julie (Laetitia Casta), dona de uma galeria de artes.
Aspirando pó, ela se despedaça de angústia pela demora dele em comer o bolo
que lhe preparou. Chorosa, muito chorosa, Julie lhe exige que deixe a família.
Para distraí-la, Miller a convida a dar
um passeio, em sua Mercedes, por lugares ermos e aprazíveis da cidade, mas,
cansado, dormita ao volante, provocando uma espetacular capotagem. Julie
morre. Ele, ferido na cabeça e nas costas,
foge do carro em chamas para evitar
comprometer sua imagem com o acidente. Entram então na história duas curiosas figuras que vão ficar na cola do poderoso Miller: um motorista de táxi do
Harlem, Jimmy (Nate Parker), e um detetive, Michael Bryer (Tim Roth).
O estreante diretor tem uma linguagem clara, simples, sem simbologia préfabricada, no ritmo e na cadência do suspense. E trabalha com uma ambientação
de Carrie Stewart muito apropriada ao desenvolvimento do argumento. Além disso, conta com interpretações primorosas
de um elenco a todo o tempo ajustado à
sua concepção da mise-en-scène do drama.
Nesse sentido, vale ressaltar que Richard Gere, como Robert Miller, tem representação discreta, mas eficiente. Susan Sarandon, embora mal servida (intencionalmente?) pelo figurinista, aparece em bons momentos de atuação. Tim
Roth personifica bem o detetive Michael
Bryer, que transita pelos meandros da vida de Miller à procura de provas que possam incriminá-lo. E Nate Parker oferece
justas evidências de seu promissor talento. Note-se ainda a presença de Graydon
Carter, editor da revista Vanity Fair, que
fez questão de encarnar James Mayfield,
o comprador da empresa de Miller.
A negociação (Arbitrage)
EUA/2012, 107min. Roteiro e direção: Nicholas
Jarecki. Com Richard Gere, Susan Sarandon,
Tim Roth, Brit Marling, Laetitia Casta, Nate
Parker, Graydon Carter e Austin Lysi.
Duas horas de férias por dia.
Vista para o lago, amplo estacionamento
e as melhores opções gastronômicas.
Quem almoça no Pontão volta muito mais descansado.
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bar em bar: até o dia 18, um festival de petiscos a