DRIBLANDO O PALADAR E OS COSTUMES
Francisco Habermann
Presidente da ABAH e FENAPHA
fhaber@uol.com.br
Assim como na vida a alegria define o tempero da existência humana, na
culinária o paladar define o sabor do alimento preparado e,
conseqüentemente, nosso apetite alimentar. Ninguém gosta de prato
insosso, sem definição aromática ou gustativa, pois, se alimentar-se é uma
necessidade, apreciar o paladar é uma arte... aprendível.
Ai está o ponto que queremos comentar hoje, neste espaço: gosto, paladar,
atração gustativa, apreciação diferenciada são hábitos adquiridos desde
nossa infância. E exigem cuidados dos pais.
Esse assunto chamou-nos a atenção quando vimos o sucesso que fez a figura do prato artístico aqui mostrado
(foto), com as frutas dispostas de forma criativa. Foi montado para as crianças mas quem mais apreciou foram
os adultos. Ficamos surpresos com a invenção, assim como um dia também vimos as mães japonesas preparem
a marmita escolar das suas crianças: sobre o arroz (pouco), carinhas e figuras coloridas desenhadas com
pedaços de cenoura, beterraba, legumes e algumas frutas em pedacinhos ao lado das proteinas. E sem doces!
Doces, só na hora certa, diziam para elas!
Como ensinam os Nutricionistas e Nutrólogos, os hábitos alimentares devem começar na infância, desde bebê.
E os pais precisam atentar o quanto de seus costumes alimentares estão passando para seus descendentes. Ai
entra o gosto pelos tempêros. Dentre eles o sal. Já fazemos aqui uma ressalva: sal não deveria ser considerado
tempêro. O cloreto de sódio – NaCl – sal de cozinha tem merecido muitos estudos médicos. Seu consumo em
excesso (entre 12 e 15 gramas por dia) aqui no Brasil ultrapassa em muito os 4 a 6 gramas recomendados pela
OMS (Organização Mundial da Saúde, 2006). Esse hábito culinário brasileiro nos torna o segundo país campeão
mundial em Acidentes Vasculares Encefálicos (derrames cerebrais) e um dos primeiros do mundo em
prevalência de Hipertensão Arterial. É certo que o sal não é única causa desses males citados mas seu
consumo em excesso, pelos embutidos e temperos adicionados e conservantes, além do adicionado por hábito,
contribui em muito para a assustadora mortalidade brasileira de 300 mil casos anuais fatais de origem
cardiovascular (DCV) como Infarto Agudo do Miocárdio, AVC (derrames) e também doenças graves como
Insuficiência Renal. Ajuda, mas não resolve, adotar o ‘sal light’ (que contém o cloreto de potássio substituindo
parte do cloreto de sódio). Só para dar um exemplo da importância desse assunto, existem estudos clínicos
recentes que mostram que a simples redução de apenas 2 gramas de sal (NaCl) na nossa ingestão diária
reduziria em 50% a mortalidade por DCV na população brasileira. Daí a relevância da recomendação recente
(2011) da ANVISA para o controle anotado e redução do sal nos pães. A recomendação da Sociedade Brasileira
de Hipertensão (SBH) e da V Diretrizes Brasileiras para Hipertensão Arterial (2006) é não dispor de saleiro à
mesa e reduzir o acréscimo do sal no preparo dos alimentos oferecidos desde a infância.
Acrescente-se a esse problema alimentar a inatividade física, a obesidade, o estresse da vida moderna, a
hipertensão arterial, o diabetes, a dislipidemia e teremos o retrato atual da nossa difícil saúde brasileira.
Esse aspecto dos hábitos brasileiros é tão preocupante que já se iniciam estudos preventivos (INCOR, USP,
2012) junto com a Psiquiatria para avaliar por que não mudamos os hábitos, mesmo sob recomendação médica
expressa, até entre sobreviventes dos eventos acima, socorridos pelos avanços extraordinários da Medicina
moderna. Infelizmente, não modificamos nossos hábitos nem mesmo para a proteção dos nossos filhos...
Para esses renitentes (nós mesmos), os Professores Roberto Kalil e Mauricio Wejngarten (Cardiologistas do
INCOR, SP) esclarecem:
“Todo mundo já sabe quais são as principais medidas para evitar um infarto: fazer exercícios, controlar pressão
e colesterol, reduzir sal e gordura. O que falta é seguir essas orientações.
"A mensagem da prevenção já está na cabeça das pessoas, mas elas não praticam. Boa parte dos pacientes
submetidos a uma angioplastia, por exemplo, voltam aos seus hábitos anteriores, como fumar, em um mês. Eles
pensam: 'Agora já estou zerado'", afirma Dr. Kalil.
"Stent fecha, ponte de safena fecha, os tratamentos são paliativos. O que salva é a prevenção. Queremos
divulgar isso", afirma Dr. Roberto Kalil. (Folha de S.Paulo, fevereiro de 2012).
Aqui na UNESP, desde 2008, a Associação Botucatuense de Assistência ao Hipertenso – ABAH - agora com
sua sede abrigada pela FAMESP na Casa de Apoio vem desenvolvendo intenso trabalho preventivo, propondo
atividades para a ‘mudança do estilo de vida’ através palestras na rede de ensino e comunidade local e regional;
criando serviço de voluntariado para desenvolvimento de oficinas como ‘Arteterapia’ , ‘Arte em Papel’ ,
Exercícios relaxantes (Lian Gong), ‘Exercícios de Aquecimento’ para os usuários da sede; e em 2012 iniciará
oficinas sobre ‘Musicoterapia’, sempre com a ajuda de voluntários e sob supervisão.
Nosso lema é: “Vida saudável – COMA A METADE, ANDE O DOBRO E RIA O TRIPLO – Seja feliz.”
Recomendamos seguir a orientação médica sempre.
A ABAH é adesa à Federação Nacional das Associações de Portadores de Hipertensão Arterial – FENAPHA que
lançou, em 2011, a campanha nacional para aprovação de lei nos municípios brasileiros, instituindo a Semana
da Hipertensão (última de abril), tendo em vista a oportunidade de divulgação e difusão da necessidade urgente,
para a saúde do brasileiro, da redução dos chamados fatores de risco cardiovasculares (inatividade física,
obesidade, excesso de sal e álcool, tabagismo,dislipidemia, estresse e outros). Cada município brasileiro
desenvolverá seu programa alusivo e prestigiará o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial
– 26 de abril (Lei Federal).
A tarefa é longa e de todos nós. A motivação da comunidade é uma ação cidadã e esse é o caminho único da
melhoria da saúde populacional. Vale a pena começar pelo começo, pela infância, e com um belo prato como o
da foto. Quem sabe, aumentaremos nosso apetite pela prevenção da saúde, nosso maior bem.
Associação Botucatuense de Assistência ao Hipertenso - ABAH
Programa Qualidade de Vida - 2012
Sede: Casa de Apoio – FAMESP – UNESP – Distrito de Rubião Junior
CEP 18618-000 - Telefone: (014) 3814-0180 (abahiper@hotmail.com.br)
Federação Nacional das Associações de Portadores de Hipertensão
Arterial – FENAPHA
Sede: Praça Pádua Dias, 135 – Tatuapé – São Paulo – SP – CEP 03067-050
Telefone: (011) 2295-5228 – (014) 3814-0180 (fenapha@gmail.com)
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