A ATUAÇÃO DO PROFESSOR SURDO NO ENSINO DE LIBRAS NO
CONTEXTO DA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO
PARANÁ
SANTOS, Maurício Lima dos – UTFPR
mauriciosantos@utfpr.edu.br
TSUKAMOTO, Neide Mitiyo Shimazaki – SEED-PR
neidemity@yahoo.com.br
FILIETAZ, Marta Rejane Proença- UTFPR
martafilietaz@utfpr.edu.br
Eixo Temático: Diversidade e Inclusão
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
Este estudo reporta à experiência do ensino de Língua Brasileira de Sinais (Libras) no
contexto da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) mediado pelo professor
surdo, em concordância com o Decreto Federal n.º 5626, de 2005. O referido Decreto,
também, institui a Língua Brasileira de Sinais – Libras como a língua oficial das pessoas
surdas. Todavia, este direito tem deparado com falta de profissionais que dominem a Libras,
em decorrência da sua estruturação linguística singular emergida na comunidade surda e,
assim, exige um processo de aprendizado e de formação específica. O professor surdo, neste
contexto, representa o profissional que ensina e divulga a Libras, principalmente em uma
instituição federal, que se firma o principal elemento cultural que irá compor a história de
formar profissionais, em nível superior, titulados como sujeitos instrumentalizados para
atender a necessidade comunicativa das pessoas surdas e com elementos para construir uma
sociedade mais justa e menos segregadora. Para tal, este estudo de caso investiga as condições
de atuação do professor surdo que se referencia em documentos oficiais e os principais
procedimentos da UTFPR para assegurar a atuação do professor surdo. Também, apresentam,
sumariamente, as concepções sobre a atuação inusitado do professor surdo em uma instituição
federal e dos alunos dos trinta e cinco (35) alunos provenientes de cursos variados de
formação superior, como de licenciaturas (letras, química, física); bacharelado (Educação
Física, Design); engenharias (eletrônica, elétrica, mecânica), que concluíram os ensinamentos
de Libras em nível básico. Com a finalidade de estabelecer a comunicação em Libras com os
surdos sustentando diálogos, argumentando, opinando, enfim, os objetivos destinados para
que os alunos interagissem em Libras, em contextos sociais variados, foram atingidos. Os
resultados positivos constituíram bases para reorganização institucional, em termos
curriculares, que concretizaram no aumento de número de turmas e de turnos, firmados como
meta institucional.
8723
Palavras-chave: Professor surdo. Libras Ensino Superior.
Introdução
As propostas de minimizar as injustiças e as desigualdades sociais encontram na
educação o meio viabilizador de processar práticas. Isto passou a ocorrer quando as políticas
públicas determinaram o acesso a educação como um direito que se estende a toda população,
historicamente segregados, esboçados nos paradigmas da inclusão de alunos com
necessidades educacionais especiais.
As políticas públicas brasileiras seguem os postulados estabelecidos na Declaração de
Salamanca, de 1994, que têm nos propósitos da Educação Inclusiva a unidade norteadora, que
consiste na adequação da escola regular como um espaço destinado a educar todos os alunos,
em reconhecimento da diversidade sociocultural existente na escola.
A Lei de Diretrizes e Bases n.º 9394/1996 segue as determinações da Constituição
Federal/1988, de que a educação dos deficientes deve ocorrer preferencialmente no ensino
regular e, recentemente a Resolução n.º 04/2009 oficializa que a educação de pessoas com
necessidades educacionais especiais deve ocorrer no espaço do ensino regular e a Educação
Especial passa para Atendimento Educacional Especializado (AEE), ou seja, a escolarização
certificada é a função exclusiva do ensino regular.
Neste cenário, a Declaração de Salamanca, de 1994, entre outras determinações,
reconhece, incentiva e assegura o direito linguístico das pessoas surdas, para o acesso às
informações em sua língua de sinais e na realidade brasileira, a Língua Brasileira de Sinais
(Libras) oficializada no Decreto n.º 5.626 de 22 de dezembro, de 2005 (BRASIL, 2005).
Santos, Góes e Lacerda (2008, p. 63) comentam que para “ter seus direitos linguísticos
respeitados implica a presença na escola de outros profissionais da educação, como
professores bilíngues ou intérpretes de Libras”, porém, sabe-se que ainda não há números
suficientes destes profissionais no mercado de trabalho. Neste cenário, a Libras como meio
oficializado para a inclusão escolar dos alunos surdos, solicita organizações no trabalho de
inclusão escolar e as atenções devem ser voltadas para a formação de profissionais que
dominem essa linguagem.
As universidades têm a função instituída de legitimar o saber, que tem destaque a
formação profissional. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), neste
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contexto, consonante com o Decreto Federal n.º 5.626/2005, possui no seu quadro o professor
surdo.
Assim, com objetivo de ensinar a Libras em nível de estabelecer a comunicação com
os surdos sustentando diálogos, argumentando, opinando, enfim, interagindo em contextos
sociais, para os alunos provenientes de cursos de licenciaturas (letras, química, física);
bacharelado (Educação Fisica, Design); engenharias (eletrônica, elétrica, mecânica)
investigaram-se a inusitada atuação do professor surdo no ensino superior. Na justificativa de
que esta investigação reafirma o professor surdo como o articulador dos direitos linguísticos
conquistados e em uma instituição de ensino superior federal se firma como um elemento
cultural que irá compor a história de formar profissionais instrumentalizados para atender a
necessidade comunicativa das pessoas surdas e com elementos para construir uma sociedade
mais justa e menos segregadora.
Libras como direito linguístico para os surdos
A comunidade surda tem registros históricos marcados de lutas e reivindicações,
procedentes da negação de ser aceita como uma minoria linguística, que faz uso da sua língua
natural, a Língua de Sinais – Libras, para interagir com os demais sujeitos da sociedade.
Quadros (1997), Perlin (1998), Lacerda (2000), entre outros, identificam o processo de
colonização sobre os sujeitos surdos consolidadas na concepção clínica, isto é, a surdez vista
como uma doença e uma vez “medicada” por meio da apropriação da linguagem oral, chega à
normalização, à custa da degradação da Língua de Sinais, da Cultura Surda, das Identidades
Surdas.
Skliar (2007) denomina a colonização da cultura dos ouvintes como ouvintivismo,
decretada em 1880, no Congresso de Milão, que determinou a linguagem oral como única
forma de interagir socialmente e o uso da Língua de Sinais nas escolas e em quaisquer
espaços sociais eram proibidos. Apesar da imposição documentada neste Congresso, os
surdos deram início aos Movimentos Surdos, que se propagaram mundialmente na
clandestinidade resistentes à cultura dominante e as ideologias ouvintistas.
Segundo as autoras Dias, Silva e Braun (2009, p. 103), para atenuar as defasagens
emocionais, sociais e cognitivas que podem acarretar decorrentes das dificuldades nas
interações comunicativas impostas oralidade, a utilização e a valorização do sentido visual
representam possibilidades de compreender o mundo pelos surdos “já que os recursos sonoros
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estão reduzidos”. De forma que, o surdo poderá processar um desenvolvimento pleno se for
dada a oportunidade de utilizar e interagir por meio de linguagem gestual e visual, quer dizer,
a Língua de Sinais.
Vigotsky (1984, p.121) destaca que na perspectiva sociocultural, a linguagem constitui
o principal meio que permite o desenvolvimento cognitivo humano, permite, entre várias
ações, o acesso a visão do mundo, as interações, a construção de conhecimentos, enfim acesso
aos conhecimentos e “os gestos constitui um signo visual que traz em si a futura escrita da
criança”.
Neste cenário, Dorziat (2009) aponta para a concepção bilíngue, que elucida a
mediação do conhecimento em Libras concebida como a primeira língua dos surdos e o
aprendizado da língua portuguesa, como a segunda língua dos surdos. Também, sugere a
inserção de Libras desde a mais tenra idade, sem o distanciamento das crianças ouvintes, pelo
fato da Libras elaborar conceitos e reunir elementos para a interação social para os surdos,
selando a cultura e a identidade a partir da sua linguagem.
Face aos movimentos reivindicatórios da comunidade surda e dos movimentos pela
educação a todos, a Libras foi oficializada como meio de expressão e comunicação pela Lei
10.436/2002 regulamentada no Decreto nº 5.626 de 22 de dezembro de 2005, que também
oficializa o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que diz: “Considera-se
pessoa surda àquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por
meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua
Brasileira de Sinais – Libras” (BRASIL, 2005).
As considerações apresentadas significam a necessidade de viabilizar as ações
afirmativas para o cumprimento das diretrizes apontadas no Decreto n.º 5.626/2005, que traz
no Capítulo III, a inclusão de Libras como disciplina curricular e no Art. 3º diz que
A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de
formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior,
e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do
sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios (BRASIL, 2005).
Pressupõe que se deve garantir o atendimento educacional especializado e o acesso nas
“instituições federais de ensino e estas devem promover cursos de formação de professores
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para o ensino e uso da Libras; a tradução e interpretação de Libras - Língua Portuguesa” e
prover as escolas com professor de Libras ou instrutor de Libras (BRASIL, 2005).
Em termos oficiais, o reconhecimento da Libras como o direito linguístico do surdo
solicita uma organização e revisão curricular de todos os níveis e as modalidade ofertadas
pelo sistema brasileiro de educação, com o cuidado da inclusão de surdos não padecer com o
mero cumprimento das determinações.
Destaca que a Lei 10.436/2002 atribui-se aos “sistemas de ensino federal, estaduais e
municipais o compromisso de garantir a inclusão do estudo dessa língua em cursos de
formação de educadores e profissionais ligados à área da surdez” e assim surgem a
necessidade de instrutores em Libras e os surdos, pela preferência assegurada no Decreto
5626/05, passam a assumir um papel importante no processo educacional de outros surdos, de
professores bilíngues, de Tradutor e Intérprete em Língua de Sinais (TILS), de crianças e de
adultos interessados.
A formação de profissionais que articulem as determinações legais que articule o
cumprimento do uso de Libras, como a linguagem de surdos, tem representado umas dessas
ações, especificada nas atuações de novos profissionais, como é o caso do professor surdo.
O professor surdo: uma nova categoria profissional no ensino superior
A presença do professor em Libras se oficializa no Decreto Federal n.º 5.626/2009
como o mediador intencional e responsável pela formação de pessoas qualificadas para
constituir um apoio pedagógico especializado que atenda as necessidades comunicativas das
pessoas surdas.
No Capítulo 3°, do Decreto n.º 5.626/2009 especifica que “[...] as pessoas surdas terão
prioridade nos cursos de formação [...]” também diz que “[...] as pessoas surdas terão
prioridade para ministrar a disciplina de Libras”. Tais condições vêm a romper com os
paradigmas de incapacidade e ideias associativas do surdo com doentes mentais e sugere
organizar o processo de formação dos surdos, antes às margens das transformações
educacionais, agora, no papel de exercer prioritariamente o papel de ensinar Libras, no
desafio complexo de ser o protagonista das transformações curriculares voltados para a
diversidade.
As Instituições Superiores de Ensino (IES) vêm, gradativamente, até com certa
lentidão, incorporando a inserção dos professores surdos. Assim, em 2006, a Universidade
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Federal de Santa Catarina (UFSC) deu início o curso a distância de licenciatura em LetrasLibras, com nove pólos de ensino e 495 alunos, dando preferência às pessoas surdas. Em
2008, foi incluída a habilitação de bacharel em tradução e interpretação de língua de sinais.
Um ano depois, começou o curso presencial de Letras-Libras na UFSC. Como um fato
histórico, os alunos surdos que ingressaram neste curso concluíram a licenciatura em LetrasLibras no ano de 2010.
A este respeito, o Artigo 7 º do Decreto Federal n.º 5.626/2005 orienta que “nos
próximos dez anos, a partir da publicação deste Decreto”, caso não haja docente com título de
pós-graduação ou de graduação em Libras para o ensino dessa disciplina em cursos de
educação superior, ela poderá ser ministrada por profissionais que apresentem pelo menos um
dos seguintes perfis:
[...] III - professor ouvinte bilíngue: Libras - Língua Portuguesa, com pós-graduação
ou formação superior e com certificado obtido por meio de exame de proficiência
em Libras, promovido pelo Ministério da Educação.[...] § 2º A partir de um ano da
publicação deste Decreto, os sistemas e as instituições de ensino da educação básica
e as de educação superior devem incluir o professor de Libras em seu quadro do
magistério. Art. 8º O exame de proficiência em Libras, referido no art. 7º deve
avaliar a fluência no uso, o conhecimento e a competência para o ensino dessa
língua (BRASIL, 2005).
Também delega às IES a responsabilidade de ofertar cursos de graduação em letras
com habilitação em Libras e (ou) pós- graduação em Libras e que têm o prazo até o ano de
2015 para providenciar estas ações formativas.
Para Silva (2001: 304) “a autonomia da universidade pública esta relação intrínseca
com a cultura, que permite que o acesso não seja filtrado por dispositivos discriminadores
montados em outras instâncias da vida social”, assim, a universidade se define como
instituição pública que pode assumir a função de “garantir o efetivo caráter público de que em
princípio se revestem os bens de cultura historicamente legados ao presente, na medida em
que estes não se apresentem como produtos que as organizações comerciais de ensino possam
vender no mercado”.
Em outras palavras, as universidades públicas têm a função de cumprir com o seu
papel histórico e social de produção e disseminação do conhecimento, e também manter com
a cultura uma relação intrínseca que se manifesta numa possibilidade de reflexão que foge aos
moldes do compromisso imediatamente definido pelas pressões de demanda e de consumo.
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Para tanto, a UTFPR contrata o professor de surdo por meio de concurso público, para
o ensino de Libras, em conformidade do parágrafo 2o do Decreto n.º 5.626/2005 que
determina que “A Libras constituir-se-á em disciplina curricular optativa nos demais cursos
de educação superior e na educação profissional, a partir de um ano da publicação deste
Decreto”, isto é, até 2015, as instituições devem atender a essa determinação.
Em relação a urgência de mais profissionais que dominem e divulguem a Libras, o
capítulo IV do Decreto elucida no Art. 14, que
As instituições federais de ensino devem garantir, obrigatoriamente, às pessoas
surdas acesso à comunicação, à informação e à educação nos processos seletivos,
nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas
e modalidades de educação, desde a educação infantil até à superior (BRASIL,
2005).
O Decreto amalgama a função das instituições superiores de ensino público federal e a
Universidade Tecnológica Federal do Paraná [UTFPR] representa uma dessas instituições e
assim, os próximos parágrafos apresentam as ações do professor de Libras.
Metodologia
Este estudo se caracteriza como qualitativa e adotou-se o estudo de caso simples, que
se caracteriza como técnica de pesquisa mais apropriada quando se deseja estudar situações
complexas atuais (Yin, 2005). Tal técnica permite que uma investigação mantenha as
características holísticas e significativas dos eventos da vida real.
A pesquisa desenvolveu na Universidade Tecnologia do Paraná, no campus de
Curitiba-PR, que se caracteriza em ofertar em torno de sessenta cursos superiores na área de
Tecnologia, bacharelados (entre eles Engenharias) e licenciaturas. Com abrangência no
Paraná, a UTFPR tem doze campi no Estado e pretende ampliar essa atuação. Como
instrumento de estudo investigou-se os principais procedimentos realizados pela UTFPR, a
iniciar do processo de seleção, a contratação, atuação do professor de Libras e os efeitos
causados nos cursos alunos de licenciaturas e bacharelado, com bases nos depoimentos dos
trinta e cinco alunos que participaram da disciplina.
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As condições de atuação do professor surdo na UTFPR
Como primeira experiência, as solicitações legais de inserir o ensino de Libras na
UTFPR demandaram organizações estruturais inéditas, tais com o envolvimento da Divisão
de Recrutamento e Movimentação de Pessoas da Coordenadoria de Gestão de Recursos
Humanos do Campus da cidade de Curitiba-PR constitui o departamento responsável pelos
concursos que estipulou as diretrizes, a composição da Banca Examinadora e afixou os editais
dos processos seletivos.
Ainda no Campus Curitiba, o Departamento de Educação – DEPED por meio do
Núcleo de Ensino - NUENS iniciou as ações instituídas legalmente e solicitou a promoção
dos testes seletivos para a contratação do professor surdo.
Vale destacar que, quando se reporta às Instituições Federais, as ações ficam devem
compassar com as prioridades estabelecidas nos planos na esfera político-orçamentária, que,
costumeiramente, inclui contenção de gastos na educação. Neste cenário, a UTFPR vem
sofrendo as consequências das limitações de gastos e os processos seletivos acabam
constituindo uma solução de suprir a carência de professores na instituição, embora com uma
trajetória de estudos e pesquisa, tradicionalmente na área de tecnologia e agora na área
educacional.
A aprovação do professor surdo no processo seletivo, inicialmente, significou a
contratação de um profissional na área educacional que pudesse preencher as lacunas de
profissionais nos cursos de licenciaturas. Tal significação sinaliza que as IES recebem pouca,
ou quase nenhuma orientação sobre a especificidade da atuação do professor surdo.
O fato do professor surdo ministrar somente na disciplina de Libras tem manifestado
indignações e críticas, que requer, segundo Behrens (2005), revisões nas concepções
educacionais, a fim de incorporar o conceito de multiculturalismo e de diversidade social.
Em corroboração com Lacerda (2006: 175) que afirma que, os profissionais da
educação conhecem muito pouco sobre a surdez, suas peculiaridades, sua realidade, suas
dificuldades de linguagem fatores que dificultam a inserção escolar e, posteriormente a
participação social, atitudes explicadas pela institucionalização das pessoas surdas acometidas
ao longo dos anos.
Tais constatações alinhavam-se com a falta de diretrizes políticas de abrangência no
âmbito da administração escolar, ao se implementar um Decreto (5.626/2005) dessa
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magnitude, que na realidade prática mostra que o papel do professor surdo vai muito além do
domínio de Libras.
Neste processo, as dificuldades iniciais, nas condições de infundas, foram sendo
solucionadas com a contratação do professor surdo e no convívio diário na UTFPR, que
historicamente, a natureza pedagógica consistia na supremacia dos professores ouvintes.
No processo de matrícula constatou-se o interesse dos universitários da UTFPR em
aprender Libras. Assim, no primeiro semestre, as vagas foram encerradas após dois dias da
abertura on line. Foram ofertadas vinte e cinco vagas (25), mas resultou em oitenta e seis (86)
inscritos e houve procura presencial dos alunos no Departamento de Educação, que
propuseram a ficar na espera, caso houvesse alguma desistência entre os alunos que
conseguiram realizar a matrículas. De vinte e cinco (25) foram ampliadas para trinta e cinco
(35) vagas, com duração de trinta (30) horas aulas.
Considera-se que a UTFPR tem ampliado os cursos de licenciaturas nos últimos anos e
bacharelado (Educação Física, Design). Todavia, alunos de outros cursos, como de
engenharias – elétrica, eletrônica, informática, mecânica – se inscreveram na disciplina de
Libras, entre outras quatro consideradas optativas presentes na grade curricular.
Reafirma o parecer de Lacerda (2000, p.18) de que o professor surdo deve valer-se do
“[...] espaço escolar para construir estratégias de identificação que possam ser vislumbradas
num processo sócio-histórico mais amplo, não fragmentado [...]” e dominam a Libras, por
constituir a sua expressão natural, mas devem por em evidência as abordagens progressistas.
Os resultados da atuação do professor surdo
No campo da didática, o ensino de uma língua solicita a superação da racionalidade
técnica, isto é, com conhecimentos automatizados e descontextualizados. As práticas
conservadoras e a desconsideração da necessidade de apoio visual não se enquadram no
ensino de Libras, assim como em qualquer processo de ensino e aprendizagem.
Fernandes (2006, p.9) aponta para algumas estratégias metodológicas no ensino de
Libras e como meio de permitir a interação e a comunicação das pessoas surdas sugerindo a
adoção de métodos e estratégias visuais complementares à língua de sinais (alfabeto manual,
gestos naturais, dramatização, mímica, ilustrações, vídeo/TV, retroprojetor etc.) [...] que
permitam diferentes possibilidades de execução (pesquisa, questionário, entrevista, etc.) e
expressão.
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Com efeito, as aulas representaram o conhecimento básico, com o objetivo de
estabelecer a comunicar com as pessoas surdas utilizando a Libras e, consequentemente a
interação social.
Sumarizando, os conhecimentos em Libras envolveram categorias de alfabeto manual,
nomes, números, expressões usuais, pronomes, verbos, cores, vestuários, dados pessoais,
adjetivos, endereços, noção temporal e espacial, família, natureza, animais, alimentos,
sentimentos. Os procedimentos consistiram na introdução do tema valorizando as práticas
dialógicas e interação, de forma individual e (ou) em dupla, dentro de um contexto real, com
dramatização de situações reais apoiado no uso de recursos da multimídia. Em relação à
avaliação foi feita de acordo com os elementos que estrutura a Libras, compostos das
configurações das mãos; de expressão corporal; da direção dos movimentos; do ponto de
articulação; dos movimentos simples e compostos; da habilidade e na reaplicação do
aprendizado em contextos adequados.
Os resultados das avaliações realizadas no fechamento sobre a atuação do professor
surdo foram relatados pelos alunos trinta e cinco (A+número), que os dois depoimentos a
seguir sintetizam as impressões dos demais:
A1: As aulas de Libras foram dinâmicas, porque o professor era divertido e nunca
deixou de dar atenção aos alunos e o milagre aconteceu: eu aprendi Libras. Se os
professores de cálculo ensinassem assim, ninguém reprovaria. A2: Eu achava que
um professor surdo não ia consegui ensinar um grupo de universitários, mas eu
admiro o professor, porque ele sabe ensinar e não poderia saber Libras melhor que
os ouvintes.
As participações e os processos foram assim caracterizados:
A3: No início eu me achava ridículo. Eu ria de mim e dos outros nas dramatizações.
Sentia dores nos dedos e pensei em desistir, depois eu vi que Libras exige muito
mais do que falar. A4: Não levava jeito. Eu não conseguia gravar os sinais, porque
ria demais nas primeiras aulas, na verdade eu ri até a última aula, mas não era mais
dos colegas, mas como o professor diz do “contexto”.
Os depoimentos revelam que atitudes educacionais que se conflitam com paradigmas
conservadores que vem alastrando por séculos, com base nas práticas pedagógicas no escutar
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e reproduzir e os estudantes, por vezes, se chocam com práticas interacionista (BEHRENS,
2005).
Em relação ao objetivo dos alunos estabelecerem a comunicação com os surdos
sustentando diálogos, argumentando, opinando, enfim, interagindo em contextos sociais
variados por meio de Libras, os depoimentos que seguem sumarizam os resultados esperados:
A5: Eu consigo comunicar em Libras com o professor e conversei com dois surdos
no ônibus e eles me entenderam e também entendi o que eles diziam. Foi demais,
mas sei que devo treinar mais. A6: Eu adorei aprender Libras. É muito mais do
aprender inglês ou outra língua. Achei bem difícil. Na verdade foi um desafio, pois
sou tímido e até agora ainda sou travado, eu entendo mais Libras do que faço.
Pretendo continuar com curso se tiver no próximo semestre.
Skliar e Lunardi (2000, p.18) citam a Teoria Crítica que identifica escola como espaço
em que se estabelecem as relações de poder, de inclusão e exclusão e que definem as
identidades sociais e os discursos hegemônicos produz identidade surda conveniente para seus
modelos. Constatam, os autores, que a questão do professor surdo está relacionada com um
“modelo único de sujeito surdo, que pode sintetizar-se na figura do professor surdo branco,
alfabetizado, fluente em Língua de Sinais, de classe média, [...]”.
Na descrição do professor, ainda pode-se somar ao modelo aceito pelas escolas – da
educação infantil ao ensino superior – professor surdo que tenha compreensão da linguagem
oral e da leitura labial na interação direta com os alunos, em situações de ensino e
aprendizagem, pois em termos econômicos evita o custo com o TILS contemplado pelo
Decreto n.º 5.626/2005 para mediar qualquer tipo de situações de interações entre surdos e
ouvintes. Consequentemente, o profissional surdo perde informações importantes, como por
exemplo em reuniões ou em várias situações por não ter TILS. Tradutor e Intérprete em
Língua de Sinais
Assim, os resultados apresentados constituíram elementos para a realização da
avaliação institucional. Nesta perspectiva as turmas aumentaram de um para seis turmas,
sendo três turmas para o ensino de Libras Básico e, como prosseguimento, mais três para o
ensino de Libras Intermediário, diante dos resultados promissores e o interesse dos demais
alunos.
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Considerações finais
A investigação mostra o cumprimento de umas das funções da universidade, enquanto
construtores de saberes, ao responder as determinações legais, a UTFPR estabelece o
consenso de apropriar-se do conceito de diversidade como referência de uma pluralidade de
identidades culturais, no desafio de desatar os nós dos currículos preso ao processo de
homogeneização cultural.
A contratação do professor surdo para o ensino de Libras no ensino superior tem-se
representado possibilidade de gerar recursos sociais e artefatos culturais que contribuem na
aceitação da visão da surdez como uma diferença que merece ser respeitada.
Assim, as fronteiras de cumprir com o instituído são transpostos e as ações
humanizadora ganham o status de referência para construir elemento sócio-histórico e como
um elemento sociocultural na emancipação de todos os indivíduos.
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a atuação do professor surdo no ensino de libras no contexto da