EDITORIAL
Fernando Leça
04
CIDADE
Jorge Mario Jáuregui
06
ANÁLISE
Estela Morales
14
ARTE INDÍGENA
Reynaldo Damazio
18
ARTES PLÁSTICAS
Leonor Amarante
22
OLHAR
GOVERNADOR
REVISTA NOSSA AMÉRICA
SECRETÁRIO DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS
DIRETOR
JOSÉ SERRA
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FUNDAÇÃO MEMORIAL
DA AMÉRICA LATINA
CONSELHO CURADOR
SECRETÁRIO DE ENSINO SUPERIOR
(PRESIDENTE)
FERNANDO LEÇA
EDITORA EXECUTIVA / DIREÇÃO DE ARTE
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DE ESTUDOS DA AMÉRICA LATINA
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Moreira, Estela Morales, Jorge Mario Jáuregui,
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CONSELHO EDITORIAL
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NOSSA AMÉRICA é uma publicação trimestral da Fundação Memorial da América Latina.
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ADOLPHO JOSÉ MELFI
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Lux Vidal
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MEMÓRIA
35
PRODUÇÃO - ESTAGIÁRIO
JOSÉ ARISTODEMO PINOTTI
SUELY VILELA SAMPAIO
Cirenaica Moreira
28
CTP, Impressão e Acabamento
HOMENAGEM
Carlos Newton Júnior
Bráulio Tavares
44
CINEMA
Marcelo Lyra
54
CÁTEDRA
58
Ana Candida Vespucci
LIVROS
Manuel da Costa Pinto
Ana Maria Cicaccio
60
AGENDA
64
DIRETOR ADMINISTRATIVO E FINANCEIRO
SÉRGIO JACOMINI
capa: “VIVE EM CINCINNATI Y NI SIQUIERA MI ESCRIBE.” FOTO DE CIRENAICA MOREIRA
3
M
EDITORIAL
anter uma revista
no mercado editorial brasileiro
por quase vinte
anos é tarefa difícil. O alto custo da edição, a complexidade da distribuição, entre outros fatores, fazem com
que as publicações tenham vida curta ou
periodicidade irregular. A Revista Nossa
América, que desde 1989 vem sendo editada ora uma ora duas vezes ao ano (na
média 1,3/ano de 89 a 2005), fixou-se
em duas edições em 2006 e chega a três
em 2007, a caminho de uma periodicidade trimestral já no próximo ano, acontecimento auspicioso para o Memorial da
América Latina e fator importante para a
fidelização do público leitor.
Neste número homenageamos uma
personalidade ímpar, Ariano Suassuna, que
ao completar 80 anos ainda mostra um vigor invejável, com uma obra literária, teatral e poética que encanta tanto o público
4
juvenil como o adulto. Isso se confirmou
também na oportunidade de sua presença
aqui no Memorial, em setembro.
As favelas latino-americanas, temas
constantes de livros, filmes e noticiários
policiais têm sido, do ponto de vista urbano, objeto de especialistas. Jorge Mário
Jáuregui, arquiteto argentino radicado no
Rio, que já trabalhou em mais de 20 favelas em vários países e expôs projetos
sobre o assunto na Bienal de Veneza e na
Documenta de Kassel, na Alemanha, traça um panorama da situação desse questionado segmento das metrópoles.
Os espaços públicos criados pela
sociedade para o uso da informação
permitem observar o mundo por meio
da imagem, dos sons, dos símbolos, do
alfabeto e da linguagem, como analisa
Estela Morales, mexicana e doutora em
assuntos latino-americanos.
A obra do antropólogo, educador,
professor e político brasileiro Darcy Ribeiro pode ser sintetizada por meio de um de
seus pensamentos. “No Brasil, a mestiçagem sempre se fez com muita alegria, e se
fez desde o primeiro dia.” A antropóloga
Lux Vidal, o historiador Carlos Guilherme Mota e a fotógrafa Maureen Bisilliat,
comentam a complexa e ao mesmo tempo simples trajetória desse intelectual brasileiro que marcou toda uma geração.
A fotografia ocupa cada vez mais
lugar de destaque na cultura mundial. Estética, política e denúncia se entrelaçam em
alguns ensaios como o da cubana radicada
nos Estados Unidos, Cirenaica Moreira.
O bombardeio sobre Guernica, há
70 anos, horrorizou Picasso e o inspirou
para criar sua obra-prima. A chuva de
bombas que dizimou quarenta por cento
da cidade basca nos serve de alerta sobre
qualquer tentativa de abuso de poder.
O roteiro tem sido objeto de estudos tanto por parte de roteiristas quanto
de escritores. Di Moretti, autor dos filmes
Cabra Cega e Latitude Zero, conta ao crítico
Marcelo Lyra a situação deste segmento.
A Cátedra do Memorial, programa
acadêmico de intercâmbio, está em seu segundo módulo e aborda um assunto atual
e inquietante, o meio ambiente, do qual dependerá o futuro do planeta. O curso está
a cargo de um dos mais eminentes estudiosos do assunto, o professor José Goldemberg, que está orientando alunos de vários
países latino-americanos.
Há livros que são atemporais como
A Grande Guerra, escrito a oito mãos por
Roa Bastos, paraguaio; Eric Nepomunceno, brasileiro; Alejandro Maciel, argentino,
e Omar Prego Gadea, uruguaio, resenhado por Ana Maria Ciccacio. Outro texto
se desenha transcendental, é Geografia do
Romance, de Carlos Fuentes, analisado por
Manuel da Costa Pinto.
Na agenda do Memorial, destacamos eventos importantes como a inauguração de parte dos painéis de Maria
Bonomi, expostos na entrada principal
do Memorial, a exposição Mirada Latino
Americana do MAC-USP, com obras do
acervo, e o Festival Latino Americano de
Cinema. Nesta seção incluímos ainda resenhas de algumas publicações que lançamos este ano. Boa leitura!
Fernando Leça
Presidente do Memorial da América Latina
5
CIDADE
FAVELAS
CAMINHO
INCERTO
O DESAFIO DA
INSERÇÃO SOCIAL
JORGE MARIO JÁUREGUI
U
ma maneira de descobrir uma cidade latino-americana é realizar
o percurso desde a relativa “completude” da estrutura morfológica do centro, até a dispersão dos
assentamentos periféricos, atravessando uma série infinita de não-lugares.
De várias maneiras experimentamos hoje uma
reposição política do cidadão, no sentido de expressar demandas de “urbanidade” emergentes desde
diversos setores sociais, o que recoloca o tema do
“marginal”, manifestado por meio da necessidade de uma recomposição das centralidades. Novas forças emergem (a pressão dos favelados no
Rio de Janeiro e em São Paulo, os descontentes
de todo tipo que marcham esporadicamente em
6
Construção ao longo de
adutora no Complexo de
Manguinhos, Rio de Janeiro.
Foto: Gabriel leandro jáuregui
7
várias capitais do Continente, etc.) reconfigurando nossas paisagens urbanas.
Um processo tanto de confluência quanto de choque como horizonte sociocultural e político do urbanismo contemporâneo, que torna necessário distinguir
entre “estratégias” mais amplas disponíveis para as classes governantes e as
elites políticas e econômicas e “táticas”
mais limitadas às que se vêem confinados os cidadãos, tratando de enfrentar
situações concretas.
A brecha que existe entre as práticas espaciais e os espaços representativos, obriga a pensar novos modelos de
interpretação e organização física capazes de gerar sentido. As mudanças no
modo de produção têm provocado nas
últimas décadas, no nível macro, novas
formas de sociabilidade e organização
material relacionadas com a passagem
da economia de escala à economia de
alcance. No nível local, novas formas
de segregação socioespacial têm feito
sua aparição fragmentando ainda mais
as grandes metrópoles do Continente.
A inserção das cidades latino-americanas
na economia mundial apresenta, no que
se refere ao impacto local, uma clara
evidência da necessidade da busca de
articulação das relações econômicas e
sociais entre cidades, e entre diferentes áreas da mesma cidade, incorporando as comunidades aos processos
de transformação. Mas para se obter
resultados verificáveis, é necessário
adequar tanto o marco teórico quanto os métodos às pressões exercidas
sobre o âmbito local no sentido de reforçar sua própria lógica histórica.
Hoje é evidente a necessidade de
buscar articulações tanto entre os espaços de fluxos e a formação de centralidades, quanto entre os setores formais
e informais da sociedade como formas
de estruturar as novas topografias urbanas emergentes. O que vem colocar
8
contundentemente o problema da busca da conectividade da estrutura urbana, do milieu condutor urbano, como
questão central. Redirecionar o funcionamento da estrutura sem perder massa
crítica e potencializá-la como base para
a evolução, reconhecendo sua essência
descontínua, mas conectiva, através de
intervenções no existente cuidadosamente selecionadas, é o desafio atual.
Verifica-se hoje tanto uma crise de paradigmas quanto, ao mesmo
tempo, uma busca de novos paradigmas relacionados com complexidade,
pluralidade, práxis e transdisciplinariedade; este último, um conceito em
busca de sistematização.
Assistimos a um apagamento de
fronteiras, o que provoca por um lado
incoerência, fusão e hibridação entre
métodos e teorias, e por outro lado,
uma abertura de fronteiras e a necessidade da consideração de contextos em
constante mutação.
Podemos identificar quatro modos de intervenção urbana que implicam um posicionamento cultural específico. Um “urbanismo defensivo”
entendido como ações de salvaguarda
do patrimônio histórico ou ambiental;
um “urbanismo de requalificação”, que
põe o acento na forma física, destinado a “recompor” a cidade através de
ações requalificadoras; um “urbanismo estratégico”, em que as ações se
limitam a poucos pontos ou áreas de
intervenção, tentando interpretar as
forças e as lógicas que transformam
o território, buscando “canalizá-las”;
e um “urbanismo de articulação do físico com o social”, que põe a ênfase
nos aspectos multiplicadores das ações
urbanas tendentes a “costurar” o território da cidade, combatendo a segregação urbanístico-social. Esta concepção
busca enfrentar o “déficit de cidade”,
a não-cidade nos “nichos de pobreza”,
Foto: Gabriel leandro jáuregui
Foto: Gabriel leandro jáuregui
Foto: Gabriel leandro jáuregui
mas não só neles, configurando espaço
público e introduzindo equipamentos e
serviços, instalações para a geração de
trabalho e renda, instalações culturais e
esportivas, centros cívicos, conectando
os tecidos formal e informal da cidade.
Articula o físico (urbanístico- ambiental- infra-estrutural) com o social (cultural-econômico-existencial) e o ecológico (ecologia mental, social e do meio
ambiente) em duas perspectivas, uma
estratégica (Plano Ideal) e outra tática
(Plano de Intervenção).
Estes paradigmas de atuação
mencionados colocam questões de sentido, validade e congruência, que devem
ser manejadas desde uma posição ética,
com competência e rigor instrumental,
ao se abordar as questões sociourbanísticas contemporâneas na sua intercessão
com as problemáticas do sujeito.
De uma maneira geral, podemos
dizer que o planejamento urbano busca
preparar a cidade para criar possibilidades de “fazer chover”, captando recursos da “nuvem da globalização”, isto é,
tentando capturar investimentos, enquanto, paralelamente, os projetos de
escala urbana buscam introduzir valências através de intervenções e modificações na infra-estrutura, na composição
de uma paisagem esteticamente elaborada, e mediante a qualificação dos
equipamentos do espaço público. Estes
projetos têm por objetivo produzir o
que poderíamos chamar de “excitação
urbanística”, através de uma colocação
em evidência das qualidades, das potencialidades e do nível de integração
desejado para o espaço urbano.
A abordagem da questão urbana
contemporânea na América Latina exige colocar no centro das atenções as
relações entre os setores formais e informais, o que demanda uma forma de
trabalho em que se interceptam várias
disciplinas (urbanismo, engenharias,
Vistas do Complexo do
Alemão, Rio de Janreiro.
9
Foto: divulgação
arquitetura, paisagismo, sociologia,
economia, filosofia, psicanálise, entre
as mais relevantes).
Para poder pensar articulações
entre a cidade formal (a que obedece a
formas de desenvolvimento que ocorrem dentro dos canais legais, planejados e regulados pelo poder público) e
a cidade informal (a que se caracteriza
por uma ocupação indiscriminada do
solo, falta de títulos de propriedade,
falta de diretrizes oficiais, pela ausência
de equipamentos e serviços públicos,
e por moradias deficientes) é necessário
considerar as diferentes dinâmicas específicas das megalópoles latino-americanas,
que excedem as ferramentas conceituais
e os instrumentos práticos disponíveis
no campo do urbanismo.
Assumir que a cidade (ou seja,
aquilo que ainda continuamos englobando sob este nome) é um problema
social e econômico, mas, desde a nossa
perspectiva, é também um problema de
definição formal, mantém válida a ques-
10
tão de que a forma de uma cidade (ou
de fragmentos dela) é a forma de uma
coletividade. O que exige antes de qualquer coisa compreender a sociedade em
que vivemos, fazer sua análise crítica, e
dela deduzir as premissas válidas para a
atuação em cada situação concreta.
A nova questão urbana das cidades latino-americanas, que materializa a
inserção subordinada na modernidademundo neoliberal, coloca o desafio de
repensar a construção do direito à urbanidade como projeto e apropriação
da dinâmica da cidade por forças que
se articulam no território do precário e
do informal fragmentado.
Isto tem a ver com a identificação dos processos de construção de
novas institucionalidades e redes sociais para o desenvolvimento do território, a partir de espaços urbanos inscritos na lógica da estigmatização.
As favelas são uma manifestação
do desajuste social que se verifica por
toda América Latina, desde o México
Foto: divulgação
até o sul do continente. Em cada país
adquirem nomes diferentes (villas miseria,
pueblos jóvenes, callampas, etc.) e características particulares, mas todas compartem o
fato de ser uma parte da cidade que não
se quer “registrar”, e da qual não se quer
saber muito. Elas são os sintomas de sociedades e cidades partidas.
São conglomerados físico-sociaisambientais, caracterizados pelas suas condições específicas de inserção no território
urbano. Estão definidas pela sua singularidade topográfico-paisagística, suas dimensões, seu grau de organização interna e sua dinâmica econômico-cultural.
São carentes em maior ou menor grau de serviços infra-estruturais,
escolas, equipamentos de saúde, centros culturais, instalações desportivas;
têm frágeis representações do poder
público, deficientes serviços de coleta
do lixo e quase decorativos serviços de
“segurança pública” . Nelas não existe
a noção de espaço público, pois tudo é
privado, e também não existem normas
legalizadas sobre a delimitação entre o
privado e o comunitário. O que existe é
uma convivência consensuada que está
permanentemente em negociação.
A quantidade de população em
situação de ocupação informal nas metrópoles latino-americanas varia muito
de um país para outro. Variando de 5
a 10% do total da população do município em países como Argentina, Uruguai ou Chile, de 30 a 50% no México
e Brasil e chegando a 60% em Caracas
e 70% em Lima.
A característica da informalidade urbana é de múltipla matriz, e se
transforma rapidamente nas grandes
metrópoles de nosso Continente. Ela
define um modo específico de ser e de
viver que pode servir como referência
de convivencialidade e gestão participativa do relativo ao interesse coletivo,
para o conjunto da sociedade.
Configurar novos centros de vida
comunitária, diferenciando-os entre os
que cumprem a função de articuladores
11
da vida interna da comunidade, e os que
funcionam como conectores em relação
aos bairros vizinhos, é parte substancial
de cada projeto. Cada proposta de estruturação socioespacial elaborada se baseia
na formulação de um esquema de centralidade específico que pode ter um caráter
linear quando se configura segundo seqüências interconectadas de atividades, como
nos projetos para Fernão Cardim no Rio
ou Montedónico, em Valparaíso, Chile.
Ou um caráter pontual, quando configura centros de atividades concentradas em
torno de vazios estruturantes, tais como
centros esportivos ou praças, nos casos de
Fubá-Campinho e Vidigal no Rio, Pueblo
de Santa Fé na cidade do México, e Villa
31 em Buenos Aires, entre outras.
O projeto para a favela de Petare em Caracas, Venezuela, a maior da
América Latina, utiliza uma estratégia
de articulação que reconfigura as centralidades existentes e introduz ao mesmo tempo novos atratores de urbanidade, constituídos por espécies de novas
ágoras de escala metropolitana que têm
como função requalificar tanto o tecido
existente, quanto transformá-lo em elemento de interesse de toda a cidade.
O passeio público projetado para o
Complexo de Manguinhos, por sua vez,
constitui um tipo de centralidade linear
de grande escala (tem uma extensão de 2
km) e congrega atividades tanto de lazer
quanto de comércios e serviços, e intercambiador modal de transporte. Forma
parte da configuração deste passeio público “uma fachada urbana” constituída
por edifícios de re-localização para moradores das favelas do Complexo. Este eixo
linear define um grande atrativo urbano
de escala metropolitana capaz de transformar profundamente o local e o entorno. Um projeto com o mesmo caráter de
eixo estruturador de escala metropolitana foi elaborado para o corredor urbano
8-CM-8 em Montevidéu, Uruguai.
12
Mas é de todo o Estado e de todo
o território que fala esta parte da cidade, que só é escutada como problema.
O quê é que pode o arquiteto,
implicado e lançado neste território de
altas intensidades em processo de desertificação, quanto ao futuro?
Hoje existem maiores riscos e
ameaças ao buscar desenvolver uma
conexão comunicativa com os habitantes de cada favela onde vamos intervir.
No lugar de um urbanismo de
Master Plan y de Normativa, o que devemos buscar ao pensar e atuar na cidade
informal, com sentido de oportunidade,
são alternativas guiadas por uma leitura
cuidadosa das condições locais, e pela
escuta atenta das demandas.
Desde o ponto de vista de um
arquiteto, é necessário identificar quais
são os pontos de inflexão ou peças
que devemos conectar, para permitir
devir cidade a estas partes hoje excluídas dos benefícios da urbanidade.
Sabemos que existem lobbies de interesses que exercem forte pressão sobre os municípios e decidem questões
fundamentais que vão desde a forma de
ocupação de terrenos, até a delimitação
de itinerários e o valor do reajuste de
passagens do transporte coletivo.
É todo um modelo excludente
que marginaliza das decisões os afetados diretos, o que deve ser transformado para oferecer pontos de passagem
entre estes dois mundos.
O desafio consiste na articulação das questões ligadas a uma nova
forma de relação com o meio ambiente, (especificamente a inclusão de certa forma de natureza nas megalópoles), a incorporação dos excluídos dos
benefícios da urbanidade a uma nova
qualidade de vida, e a adequação das
cidades para absorver as demandas de
crescimento de uma forma mais respeitosa e inteligente.
Foto: Gabriel leandro jáuregui
Foto: divulgação
Rede elétrica e telefônica no
Complexo de Manguinhos,
Rio de Janeiro.
Tudo implica revisar criticamente
a forma como hoje vivemos nas cidades,
pensando-as num sentido muito mais generoso, capaz de oferecer oportunidades para
todos, o que implica fundamentalmente,
repensar o uso dos recursos existentes sob
novos parâmetros, e a geração de novas
formas de engajamento produtivo.
Refletir sobre o conceito de bem
público e de espaço público, investindo
nas possibilidades de intensificação da
vida cultural e educativa como conector social. Hoje é necessário criar lugares com grande poder de aglutinação e
qualidade estética, capazes de reinventar
o nosso imaginário coletivo.
Neste sentido talvez a lição principal aprendida na tarefa de urbanizar favelas
consista em perceber que, a pesar de todos
os problemas e de todas as carências, é o
amor à vida, mesmo que trágica, efêmera
e dolorosa, o que pode permitir, na convivência, alcançar algo de felicidade.
Jorge Mario Jáuregui é arquiteto-urbanista e participou
dos programas Rio-Cidade e Favela-Bairro no Rio de
Janeiro.
13
ANÁLISE
RESPEITO À
DIVERSIDADE
A PLURALIDADE
DA INFORMAÇÃO
ESTELA MORALES
T
anto a Península Ibérica como
a América Latina se encontram
diante de situações, crenças e valores comuns e, ao mesmo tempo, diante do desafio de aceitar
uma diversidade cultural real.
Esta, entendida como um enriquecimento, produz uma pluralidade que repercute de maneira
importante na produção da informação, a qual,
apoiada na dinâmica da globalização, propiciará a
comunicação, a discussão, a discrepância, a aceitação e a geração do conhecimento.
Cada país e região possuem conhecimento; entretanto, para poder participar da sinfonia global, é necessário assumir o compromisso
de registrar e organizar a informação com o
14
propósito de que esta obtenha visibilidade
nos circuitos internacionais e um espaço
na diversidade e na pluralidade mundiais.
Estas diversidade e multiculturalidade têm como uma de suas expressões
a linguagem, com a qual expressamos
nossas idéias e sentimentos; a linguagem e a informação – como objetivação destes conhecimentos, sensações e
experiências – são a moeda de troca mais
importante na bibliotecnologia.
Para os estudos da América Latina, como região e como conceito, os
pensamentos do espanhol José Ortega
y Gasset, do mexicano Leopoldo Zea
e do brasileiro Darcy Ribeiro são fundamentais, porque nos permitem entender e expressar plenamente nossa
diferença e, ao mesmo tempo, nossa
universalidade.
A partir das proposições do primeiro, a circunstância permite ao segundo não só fundamentar um princípio filosófico como uma circunstância
dos latino-americanos e o latino-americano, que, junto com as proposições
de Sérgio Buarque de Holanda, Darcy
Ribeiro e Antonio Candido sobre a
formação multicultural e multirracial
do Brasil, nos dão as bases de uma pluralidade e de uma diversidade que identificam o ser latino-americano.
A circunstância no homem latinoamericano compreende, portanto, os
mesmos mundos exterior e interior, ou
seja, o próprio corpo, a psique, o mundo
físico-geográfico e o mundo social-histórico: os demais homens, os usos sociais,
todo o repertório de crenças, idéias e opiniões de um tempo determinado.
E, se durante centenas de anos,
o mundo ocidental se assumiu como o
único modelo válido, com uma só estética e uma só forma de qualificar aos
demais, hoje em dia podemos apreciar
o diferente como distintivo, mas não
como desvantagem. Assim podemos
apreciar dignamente e em um plano de
igualdade o europeu, o africano, o asiático, o latino-americano.
As migrações e sua conseqüente
diversidade disseminaram sua semente
no rico multiculturalismo e colheram
contribuições culturais de ida e volta,
não só por meio de deslocamentos físicos como também mediante os livros
Foto: divulgação
e a informação, assim como o fluxo
transfronteiriço de impressos e dados,
que se incrementou exponencialmente
com o desenvolvimento da tecnologia.
A infodiversidade compreende
o respeito à pluralidade, o resgate da
informação de cada localidade, a conversação, a disponibilidade e o livre
acesso a essa informação. O conjunto
de ações e funções que implica a infodiversidade permite a todo ser humano viver em um ambiente de pluralidade de idéias e pensamentos, tanto
do passado como do presente, que lhe
darão um equilíbrio na sua vida como
indivíduo e como parte de um grupo
social; da mesma maneira lhe propor-
15
cionarão elementos para conhecer os
feitos a partir do eu e a partir do outro, para entender e aceitar plenamente a diversidade como valor universal e
alcançar a unidade na diversidade.
Embora a pluralidade desperte o
temor da perda da identidade, também
assume que é quem a reafirma e fortalece em uma convivência de semelhanças
e diferenças que permite aplicar coletivamente decisões vinculantes, porque
os grupos culturais não são unitários
nem estáticos; há uma reconfiguração
das culturas locais devido à globalização
e à integração regional, aos intercâmbios
culturais, à internacionalização do mercado, à cooperação transfronteiriça e à
migração, aspectos que vão determinar
as linhas sociais da bibliotecnologia e os
serviços de informação.
Uma manifestação vital da diversidade é a língua: para a Espanha,
a América hispânica e países de outras
origens, o idioma espanhol; para Portugal, Brasil e alguns países africanos, o
português. Ambos traçam um fio condutor de comunicação entre diferentes
povos, comunidades e culturas, que, por
sua vez, vão distinguir-se uns dos outros, mas, em primeira instância, o espanhol e o português serão os idiomas
de registro do conhecimento, segundo
o caso, das idéias e sentimentos de todos os habitantes de países que o falam
e dos indivíduos que nos movimentos
migratórios o conservam e utilizam no
novo lugar de assentamento, que pode
ter um idioma oficial diferente.
A diversidade de línguas que
são faladas na América Latina é tão rica
e variada como sua própria diversidade; poderíamos ver uns exemplos em
dois cenários: a) as línguas indígenas e
b) as línguas não-indígenas, de outros
grupos culturais contemporâneos.
A riqueza indígena de nossa
região se vê refletida em suas línguas.
16
Só o Brasil registra 180; a Colômbia,
80, e o México, 62.
As linguagens indígenas compreendem: 12 na Argentina, 180 no Brasil, 5 no
Chile, 80 na Colômbia e 62 no México.
No aspecto de línguas “estrangeiras” ou provenientes de culturas
contemporâneas que são faladas, além
do espanhol e do português também
há um mosaico policromático.
No México, a presença do inglês é muito evidente, entre outras razões pela proximidade e uma fronteira
de 3,152 km. Os imigrantes europeus
não-espanhóis deixaram seu sinal em
pequenos grupos que conservaram
formas antigas de algumas línguas
como o vêneto, falado por imigrantes
italianos desde 1882, mais as línguas
atuais como o inglês, o francês, o italiano, o alemão, o português, o russo,
o chinês, o grego, o japonês, o árabe
e o hebraico, por exemplo.
Podemos encontrar situações
similares em todos os países da América Latina. Como exemplo, no Brasil,
podemos mencionar o espanhol, o alemão, o francês, o inglês, o italiano, o
japonês, o russo, o árabe e o chinês.
A língua é a moeda de troca
mais importante na organização e no
uso da informação, já que esta tem o
alfabeto como meio de registro majoritário e, embora existam línguas que,
de acordo com a disciplina ou campo
de trabalho, podem se impor como
expressão internacional de intercâmbio, este contexto nos coloca diante de
duas situações que convivem no estudo
do comportamento e dos serviços de
informação. Se todos os que falamos
espanhol ou português registrássemos
nossas idéias em tais idiomas, estas teriam mais visibilidade nos impressos e
na informação digital; por outro lado,
a comunicação entre pares na ciência e
na academia elabora seus próprios có-
Foto: divulgação
digos de comunicação, usando outras
línguas para intercâmbio.
Os especialistas em organização
e uso da comunicação não podem deixar de estudar os temas clássicos como
a classificação ou a leitura, porque são
temas nodais no corpus do conhecimento disciplinar; mas, ao mesmo
tempo, têm que incluir a análise de
todo avanço tecnológico útil ao ciclo
da informação ou de toda mudança
social e política que determine a atitude e compartimento dos usuários em
geral ou da comunidade científica.
Os espaços públicos criados pela
sociedade para o uso da informação -
uma biblioteca, um arquivo, uma sala de
leitura ou livraria - permitem observar
o mundo através da imagem, do som,
dos símbolos, do alfabeto e da linguagem e devem, hoje em dia, propiciar
que os habitantes de seu entorno, da
região latino-americana, possam exercer o direito à informação, respeitando
a pluralidade e a diversidade como expressões do multiculturalismo que nos
caracteriza.
Estela Morales é doutora em Estudos Latino-Americanos
pelo Centro Coordenador e Difusor de Estudos LatinoAmericanos - UNAM.
17
ARTE INDÍGENA
UNIVERSO
MÍTICO
A PRESENÇA
DO INVISÍVEL
REYNALDO DAMAZIO
N
o município do Oiapoque,
Amapá, localizado no extremo
norte do país e na divisa com
a Guiana Francesa, quatro comunidades indígenas sobrevivem ao tempo histórico definido pela civilização ocidental e à aculturação, somando
hoje cerca de cinco mil habitantes. Sãos eles os povos Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi-Kali’na, cujas
origens remontam a um longo processo de migrações,
com inúmeras fusões, tanto antigas como recentes. Ocupando a bacia do rio Uaçá, numa região de savana alagada, essas quatro etnias apresentam uma rica diversidade
cultural, que inclui um exuberante artesanato, variedade
de idiomas, mitologias ancestrais, arquitetura, culinária
e práticas esportivas, como o arco e flecha e o futebol.
18
Foto: MIGUEL CHAVES
Detalhe de escudo, que é feito
de entrecasca de árvore ou de
madeira esculpida e pintada.
Uma parte significativa desse universo mítico e ao mesmo tempo concreto,
sedimentado nas práticas e nos hábitos do
dia-a-dia, pode ser conhecida e analisada
na bela exposição A Presença do Invisível
- Vida Cotidiana e Ritual entre os Povos
Indígenas do Oiapoque, instalada no Museu do Índio do Rio de Janeiro, com curadoria da antropóloga Lux Boelitz Vidal,
da Universidade de São Paulo. O cuida-
do com que foi organizada a mostra e os
detalhes que lá estão representados permitem ao visitante mergulhar na refinada
urdidura de cestos, joalherias, cuias e tecelagens; nos objetos de configuração animal; nos artefatos de guerra, que guardam
a simbologia da resistência à colonização
francesa e portuguesa, aos caçadores de
escravos e piratas; no registro da festa do
Turé, em que os participantes agradecem
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Foto: SÉRGIO ZACCHI
Foto: LUX VIDAL
Foto: SÉRGIO ZACCHI
Cestaria: a arte de trançar
fibras vegetais.
Pintura corporal,
usada em circunstâncias
formais.
As colheres de madeira são artefatos da região. As
maiores servem para preparar os alimentos de festas.
aos seres sobrenaturais, ou invisíveis, pelas curas alcançadas nos rituais xamânicos realizados por pajés. Na ocasião do
festejo, a comunidade se reúne para dançar, cantar e beber o caxiri, bebida típica
preparada pelas mulheres da tribo a partir da mandioca, enquanto ouve histórias
contadas pelos pajés. Mastros enfeitados
e grandes bancos com design zoomorfo,
trazendo imagens de cobras e jacarés,
compõem o cenário do ritual.
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Ainda que preservem suas peculiaridades culturais, os quatro povos que
habitam a região do Oiapoque mantêm
fortes laços de solidariedade, tanto por
compartilharem um território e uma situação geopolítica comuns, como por sua
ligação através do trabalho, da educação,
das relações de parentesco e de infraestrutura. Suas tarefas de subsistência se
dividem entre a lida com a roça, a pesca
diária, a caça, a produção da farinha de
mandioca e de alimentos como a tapioca e o tucupi, que são utilizados pelos
próprios indígenas, ou comercializados
nas cidades vizinhas. A fabricação da farinha de mandioca e de seus derivados
acontece em sistema de mutirão, com
a reunião das famílias em construções
apropriadas, denominadas cabê. Devido
a proximidade com a Guiana, muitos índios falam francês, além do português e
do kheol, língua nativa.
Foto: SÉRGIO ZACCHI
Foto: SÉRGIO ZACCHI
Cestaria: abano.
Escultura de madeira é uma
das atividades mais expressivas
entre os indígenas do Oiapoque.
Os motivos utilizados pelos
artesãos para a composição de peças decorativas e objetos do cotidiano, talhados
em madeira, ou configurados em adereços
corporais, arte plumária, cestos e instrumentos musicais são normalmente inspirados pelos pajés, que os vislumbram em
sonhos e conversas com entes sobrenaturais. A riqueza desses grafismos - que são
gravados, pintados, recortados e trançados
em suportes diversos - é impressionante e
demonstra a criatividade plástica dos índios
ao estabelecer com os elementos da natureza uma relação estética vital, incluindo
traços fundamentais de sua cosmologia.
Todo o esforço da antropóloga Lux Vidal para estudar e resgatar
a cultura dos povos do Oiapoque - que
pode ser medido por suas extenuantes
viagens de avião, ônibus e barcos à região e pelas pesquisas coordenadas na
USP, a partir de 1990 - parece ter sido
recompensado na exposição A Presença
do Invisível. Ali todos nós - de qualquer
etnia ou credo - ganhamos um espaço
vivo, poético, de reflexão sobre uma visão de mundo diversa da nossa e que em
muito nos enriquece.
Reynaldo Damazio é sociólogo, poeta e editor do site Web
Livros e do K - Jornal de crítica.
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ARTES PLÁSTICAS
GUERNICA
NUNCA MAIS
UM MASSACRE PARA
NÃO SE ESQUECER
LEONOR AMARANTE
A
poeira tomava conta da praça
principal, pequena para abrigar dezenas de camponeses que
vinham à vila para vender sua
colheita. Em Guernica, cidadezinha da região basca de sete mil
habitantes, dia de feira era dia de festa, dia consagrado para garantir o sustento.
A algazarra dos vendedores logo foi substituída
pelos gritos de terror que se misturavam ao ruído
do bimotor pertencente à aviação alemã que por
mais de duas horas, jogou toneladas de bombas
sobre uma população indefesa, dizimando trinta
por cento dela. Tudo isso por ordem do General Franco que comandava a Espanha sob as botas de chumbo, apadrinhado por Hitler. O ataque supostamente
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A figura eqüestre, elemento recorrente
no trabalho de Picasso, nesta obra é
retratada com toda dramaticidade.
serviria de lição aos militantes bascos e aos comunistas.
O episódio revoltou Picasso
que morava na capital francesa. Ao ser
convidado para pintar uma tela para
o Pavilhão Espanhol na Feira Internacional de Paris, retratou a chacina. O
público não entendeu e não gostou da
obra, mas Picasso não se abalou. Sentia que havia concluído uma expressiva obra, que mais tarde foi consagrada
pela crítica como a mais importante
do século 20. Na verdade, ele teve uma
antevisão do que viria dois anos depois com o massacre de Berlim, Varsóvia, Dresden, Leningrado, Nagasaki
e Hiroshima. Segundo os especialistas
em armamento bélico, a destruição de
Guernica foi a primeira demonstração
da técnica do chamado bombardeamento de saturação, que depois seria
usado na Segunda Guerra Mundial.
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Por exigência de Picasso, em repúdio ao governo de Franco, Guernica
ficou exposta, em comodato, no Museu
de Arte Moderna de Nova York, até a
queda de Franco, quando foi transportada para o Museu do Prado, em Madri.
A tela chegou a Nova York propositalmente no dia primeiro de maio de 1939,
embora nos Estados Unidos o dia do
trabalho não seja comemorado nesta
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data. O quadro permaneceu nos Estados Unidos por quatro décadas, sob a
guarda do MoMA até que em 9 de setembro de 1981 foi levado para Madri.
“Um ano antes, durante o período de negociações para o retorno
da tela à Espanha, várias cidades a reclamaram, entre elas Guernica. Afinal,
a obra fora feita por sua causa e tornou-se conhecida em todo o mundo.
O privilégio, no entanto, coube à capital espanhola. A pintura, concebida
na fase cubista, resultou no mais bem
acabado exemplar do movimento. Realizada em branco e preto, para reforçar a dramaticidade do episódio, teve
alguns de seus desenhos preliminares
executados em cores. Em mais de sete
metros Picasso desconstrói o bombardeio, para depois reconstruí-lo.
Entre as figuras de destaque do
quadro surge imponente o cavalo, que
uma vez mais povoa as telas de Picasso, só que agora aparece agitado com o
bombardeio, um paradigma do poder
de destruição do governo Franco. Outro destaque é a figura do touro imóvel que já foi entendido como símbolo
da impotência dos espanhóis frente às
arbitrariedades do governo.
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Guernica esteve na
segunda Bienal de
São Paulo, em 1953.
Chegou ao Ibirapuera em um dia
chuvoso, sob lona, em
um caminhão.
Para exibi-la em Madri em 1981,
o Museu do Prado montou um esquema de segurança com rigor semelhante ao dos aeroportos, com detector de
metais e vidro a prova de bala. No entanto, em 1954, quando esteve na segunda edição da Bienal de São Paulo,
Guernica chegou quase desprotegida,
junto com um conjunto de 65 telas
significativas da fase cubista de Picasso. O Parque do Ibirapuera, que seria
inaugurado na mesma ocasião, por
conta dos festejos do Quarto Cente-
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A obra-prima de Picasso foi executada
em preto e branco, mas alguns dos estudos
preliminares são coloridos.
nário de São Paulo, era um grande lamaçal. Guernica chegou dentro de um
tubo, sobre um caminhão com apenas
uma lona por cima. O pavilhão do Ibirapuera apresentava goteiras, mas nem
por isso escandalizou os críticos e diretores de museus internacionais presentes à Bienal. Hoje, passados 70 anos
do massacre, a tela que se encontra no
Museu Reina Sofía simboliza o uso de
poder indiscriminado, uma bandeira de
alerta contra os abusos ainda vividos em
todos os Continentes.
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OLHAR
METÁFORA DE TODOS
OS SONHOS
PARA UM MUNDO
SEM POESIA
CIRENAICA MOREIRA
A
fotógrafa Cirenaica Moreira
se insere num elenco de mulheres cuja criatividade, força e
ousadia vão além das imagens
e podem ser uma metáfora de
todos os sonhadores que sobrevivem neste mundo sem poesia. Cubana com
trânsito nos Estados Unidos, Cirenaica dá a seu
corpo poderes transcendentais.
Sua objetiva funciona como um pára-raio, e
a revela como uma mulher criadora de mundos
e sem as amarras do objeto fotografado. Neste
ensaio de registros íntimos, uma cartografia embalada com toques cenográficos sobrepõe-se as
utopias e expõe o que lhe interessa.
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MEMÓRIA
DARCY
RIBEIRO
UTOPIA E REALIDADE
CARLOS GUILHERME MOTA
LUX VIDAL
MAUREEN BISILLIAT
N
a trajetória intelectual de
Darcy Ribeiro é impossível
separar a atuação política
da pesquisa antropológica, a militância pela educação da prática literária, a
utopia da realidade. Espírito inquieto e generoso,
ele sempre acreditou que o Brasil poderia ser melhor, mais democrático e justo, sem as desigualdades que se consolidaram ao longo de nossa formação histórica colonial, oligárquica e escravocrata.
Como antropólogo, Darcy Ribeiro fundou o
Museu do Índio e deixou ensaios provocadores,
como O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização e O Povo Brasileiro; participou da fundação da
Universidade de Brasília e foi seu primeiro reitor;
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nas funções de vice-governador e de
secretário de Cultura do Rio de Janeiro instalou os CIEPs, escolas com turno integral e práticas esportivas para
as crianças de famílias de baixa renda;
foi o criador do projeto cultural do
Memorial da América Latina, em São
Paulo; eleito senador da República, em
1991, elaborou a Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional, aprovada em 1999; produziu obras de ficção
originais, como Maíra e Utopia selvagem.
Parte de sua obra foi gestada
no exílio, nas andanças pela América
Latina, que tanto conhecia e amava.
Ao discursar na Sorbonne, onde recebeu o título de doutor, afirmou ser
“um homem de causas”. Mesmo no
final da vida, em luta contra o câncer,
preferiu fugir do hospital para terminar de escrever um livro. Nesta homenagem a Darcy Ribeiro, nos dez anos
de sua morte, prestam seu depoimento
o historiador Carlos Guilherme Mota,
a antropóloga Lux Vidal e a fotógrafa e
amiga Maureen Bisilliat.
IDÉIA QUE DEU CERTO
Carlos Guilherme Mota
Numa tarde de janeiro de 1988,
estando eu na direção do recém-criado Instituto de Estudos Avançados
da USP, Darcy procurou-me animado,
falando da criação de um “Centro de
Atividades Culturais na Barra Funda”.
Telefonara na véspera, dizendo que
estava em São Paulo e que desejava
conversar comigo no Instituto.
No dia seguinte, 29 de janeiro,
numa bela manhã de verão, com a Cidade Universitária meio vazia por conta das férias, Darcy surgiu sorridente
em minha sala. Estava acompanhado
de Antonio Candido, outro notável estudioso da América Latina. Manhã de
emoção, pois Darcy fora paraninfo de
minha turma de formatura na Faculdade de Filosofia da USP em 1964, mas
não pôde comparecer, pois já estava no
exílio. Candido, um dos participantes de
primeira hora da criação do IEA-USP,
era uma forte referência em minha trajetória, como se pode constatar em meu
livro Ideologia da Cultura Brasileira.
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Darcy e Antonio Candido vinham falar, com enorme entusisamo,
de um projeto de criação de um Centro
de Estudos de América Latina em São
Paulo. Sorrimos com alguma ironia,
pois São Paulo nunca se pensou muito
latino-americana…mas Darcy convencera o então governador Quércia a deixar uma marca cultural e política mais
nítida em seu governo, de molde a ficar
na História. Seu espírito fazedor e entusiasta permanecia o de sempre.
Ambos me propunham que nosso novo Instituto da USP abrigasse as
reuniões para a criação do tal centro
de estudos. E que eu coordenasse no
Instituto um projeto de criação do
“recheio” do centro da Barra Funda,
para o qual a “casca” já estava sendo
encomendada ao arquiteto, amigo de
Darcy: nada menos que Oscar Niemeyer. Não precisou de muito tempo para que eu aceitasse o desafio, até
porque ambos me davam carta-branca. Eu já andava sobrecarregado com
a criação, havia apenas dois anos, do
IEA; mas o convite era sedutor, e a
problemática da América Latina me
fascinava desde o colégio Roosevelt,
no fim dos anos 50.
Meses antes, nesse sentido,
houvera um esboço de criação de um
centro dessa natureza. Meu amigo
Paulo Mendes da Rocha chegou a ser
convidado a pensar um edifício a ser
construído no alto da Serra do Mar,
em terras do Estado. Um espaço cultural voltado para o Atlântico, para o
qual fez uns debuxos e chegou a conversar comigo.
Mas agora a idéia do Darcy vinha com toda força, já considerando
ele, naquele estilo impulsivo, o Centro
como um fato consumado, “pois o governador batera o martelo”. No dia 29
de janeiro de 1988 tivemos a primeira
reunião no campus da USP e, no dia 4
de fevereiro, um almoço-reunião com
o então reitor Goldemberg. Curioso é
que eu discutira com Goldemberg, no
ano anterior, projeto de criação de um
Centro de Estudos do Terceiro Mundo, que não prosperou (a USP olhava
pouco para o Terceiro Mundo…).
Embora no ar, acertada idéia
geral com Darcy, faltava agora a equipe que iria pensar o conteúdo e as
atividades do tal Centro latino-americano: cursos? cátedras? biblioteca?
atividades de extensão? bolsas para
pesquisadores?
Tudo isso Darcy deixou por minha conta. Apenas disse que o projeto
arquitetônico já estaria sendo pensado
por Niemeyer, e que Caribé já estaria
fazendo uns murais etc. Que ficasse
em nossas mãos a definição do conteúdo. “Não inventem muitos cursos,
pois não será uma Faculdade”; e, insistia, “que haja um belo salão de atos,
para protocolos com autoridades de
outros países latino-americanos”.
Consegui reunir alguns colegas
de alto nível, não muito entusiasmados pela idéia, dada a resistência ao
Foto: paulo whitaker / folha imagem
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Darcy: estilo impulsivo
e aglutinador.
Foto: fernando quevedo
/ agência o globo
Sempre sorridente,
sempre entusiasta.
governo Quércia, e passamos vários
dias discutindo caminhos e objetivos
para o hipotético Centro. Dentre os
participantes, Alfredo Bosi (que depois se tornou editor da revista Nossa
América), Aracy Amaral, Carlos Vogt,
Octávio Ianni, padre Oscar Beozzo,
Enrique Amayo-Zevallos, Paulo Sérgio Pinheiro, Nestor Goulart Reis,
além do próprio Paulo Mendes da
Rocha. Darcy fora para a Alemanha e
desaparecera com sua amada de então;
só vim a reencontrá-lo no dia 20 de
julho de 1988 num jantar no Hotel Ca
D’Oro, quando, saboreando uma vodca muito especial, discutimos o Centro, agora batizado de Memorial.
Foram discussões muito vivas,
as desse grupo brilhante, com insistência na criação de uma biblioteca
latino-americana de excelência (o que
não ocorreu até hoje), cátedras (só implementadas em 2007…), de uma boa
revista, de um centro de estudos latino-americanos, de um núcleo de atividades culturais abertas para o público,
de bolsas para pesquisadores criteriosamente selecionados etc.
Darcy e eu imaginávamos implantar, naquele espaço imenso, um
panteão com as estátuas dos libertadores da América Latina (não chegamos
a selecionar quais seriam, mas me re-
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cordo, dentre os brasileiros, dos nomes
de Tiradentes, José Bonifácio e Frei
Caneca). Nunca tivemos, entretanto,
uma reunião sequer com o arquiteto
Niemeyer, sempre solicitada por nós
a Darcy, que monitorava à distância o
projeto, sobretudo em suas reuniões
com o governador Quércia, em São
Paulo, e no Rio com Niemeyer. Com
o governador, estive apenas uma vez,
e ele me atendeu polidamente, sob um
retrato a óleo da figura estamental de
Armando de Salles Oliveira…
Deixei a coordenação do “miolo” do projeto quando o Secretário
de Segurança Fleury pôs a polícia a
cavalo em cima dos professores do
Estado, que reivindicavam melhores
salários. “Como podemos falar em ‘Libertadores da América Latina’ quando
o governo reprime e agride professores?”, disse a Darcy, e saí do projeto,
em protesto. Depois, escreveria para o
Jornal do Brasil um artigo contra o governo, que transformara o Memorial
em cabide de empregos: o título do artigo era “Pedestal sem monumento”.
Ao lado do Memorial, em contraste chocante, o Parlatino nunca preencheu a função para a qual foi criado,
tranformando-se numa agência de turismo político de uma falsa idéia de América Latina. Quem sabe um dia mude.
INTELECTUAL INDEPENDENTE
Lux Vidal
Darcy Ribeiro era uma pessoa diferenciada entre os antropólogos. Ele se
interessava pelo processo civilizatório
como um todo e escreveu sobre isso de
uma maneira evolucionista. Ele pode
ser criticado por isso, mas essa visão da
evolução do mundo mostra como, dentro dessa humanidade, há diferenças,
especialmente no Brasil, com povos diferentes, índios, negros, imigrantes, reponsáveis pela formação do País.
Seu pensamento era amplo e
abrangia a história do Brasil, assim
como a cultura indígena, dentro de um
contexto muito amplo, que incluía toda
e qualquer diversidade.
Acreditava que pela arte os índios
se redimiam, e ele tinha razão. A arte, o
artesanato, os rituais, estão ligados à cosmovisão dos índios. Esta parte da cosmologia da arte foi muito importante,
como núcleo central da resistência e da
permanência desses povos. Mais tarde
essa perspectiva se mostrou acentuada
com as sucessivas lutas na Constituição
e pelo reconhecimento mundial.
Os antropólogos da geração de
Darcy Ribeiro se interessavam especificamente por sua tribo de estudo,
eram trabalhos mais aprofundados.
Ele se interessava pelos povos indígenas como um todo, como uma questão
que fizesse Estado assumir e a reconhecer o Brasil como pluriétnico.
No livro Os Índios e a Civilização,
diz que a transfiguração étnica, que seria promovida pela sociedade nacional
dominante, tornaria os índios pessoas
integradas, um índio genérico. Darcy
acreditava que eles índios, pelo contato com uma sociedade nacional homogênea, teriam também uma reação
homogênea. Por um lado, isso é verdade, mas por outro, vemos que as culturas específicas também se reforçaram.
Isso é uma coisa que ele não previa.
No entanto, no livro da Suma Etnológica Brasileira, feito por Berta Ribeiro e colaboradores, ele diz que havia
uma reação da arte popular e da arte
indígena e um pouco da contracultura da época. Darcy que assina o livro
começa a ver como o Estado estava se
apropriando da cultura indígena para
fazer dela emblema nacional.
Darcy e Berta Ribeiro fizeram um
trabalho maravilhoso sobre a plumária,
com os kadiweu, enfatizando a força e a
beleza da pintura, corporal e facial. Eles
tinham sensibilidade para isso.
Darcy era também um escritor,
e isso ele demonstra no livro sobre Os
Urubu-Kaapor publicado somente 40
anos depois de escrito. Em vez de falar diretamente sobre a tribo ele começa
descrevendo todo o trajeto percorrido.
Sua passagem pelo Pará, pelo Maranhão,
conversas com autoridades e políticos
da região, com a população ribeirinha
até chegar à aldeia dos urubu-kaapor.
Para ele o contexto era importante porque acreditava que os índios faziam parte dele. Para ele as pessoas eram tão importantes quanto os índios.
Hoje é diferente, mas naquela
época, se você como antropólogo trabalhava com uma tribo, deveria ir diretamente à aldeia. O contato com o exterior era visto como uma ameaça.
Como político, Darcy atuava
também por meio da antropologia,
passando no senado toda a preocupação que tinha com o povo brasileiro.
Na área da educação foi polêmico, es-
39
pecialmente em relação às escolas que
fez com o Brizola. Ele não era um homem que trabalhava em equipe, não
se misturava com os outros antropólogos, fazia a sua própria trajetória.
Era um homem muito polivalente. O livro Uirá à procura de Maíra
é um clássico. E ali ele transmite com
emoções o que num tratado antropológico tem dificuldade de transmitir
Os Diários Índios também tem
perfil de romance. O diário da pesquisa sobre os Urubu-kaapor foi feito sob
a forma de cartas escritas a Berta, que
ficou no Rio de Janeiro. Um trabalho realmente admirável, que só saiu
da gaveta 40 anos depois. Foi uma espécie de Tristes Trópicos à maneira dele,
sem dúvida nenhuma. Este livro é uma
contribuição importante, com algumas
restrições antropológicas, mas enquanto
trajetória, descrição, seu relacionamento
tanto com os índios quanto com o resto
da população e o contexto em torno, é
um livro importante, muito importante.
Hoje há muitas ONGS, os próprios índios têm sua representação política, suas organizações, fóruns nacionais, internacionais, mas anteriormente
os índios dependiam das instituições e
dos trabalhos dos antropólogos. Daí a
grande contribuição de Darcy Ribeiro.
Foto: paulo moreira / agência o globo
Homem de absoluta
franqueza.
PRESENÇA VITAL
MAUREEN BISILLIAT
Darcy Ribeiro entrou na nossa
vida há anos atrás de forma muito interessante. Antes da criação do Memorial, ele vivia mencionando a idéia de
implantar o Museu do Homem aqui
no Brasil. Significa que ela já tinha uma
idéia hipoteticamente voltada para o
futuro. Acho que eram os anos 70. Mas
ele vislumbrava um museu em que se
pudesse acompanhar a história do homem por meio de documentação e, se
40
não me engano, de peças moldadas a
partir dos originais. Foi uma das idéias
dele. Mas acho que o Niemeyer tinha
feito um projeto arquitetônico que representava um lótus, cujas pétalas seriam as civilizações. E eu, naquela época, achava muito interessante, mas de
difícil manutenção.
Acho que ele foi brilhante executor, inspirador, mas ao mesmo tempo
assustava um pouco as pessoas. Eu acho
que o Memorial foi um sonho, um projeto muito amplo, mas penso também
que ele passava a impressão de ter saído
como se não fosse o sonho que escolheu.
Ele era convidado para as reuniões como
consultor-mor. Vinha a várias delas.
Mas não se colocava como interlocutor, você o tinha como um Mercúrio. Esse metal. Era uma pessoa cujas
idéias estavam além das palavras, uma
presença vital, que atraía as pessoas,
mas ao mesmo tempo inibia porque
elas não sabiam como participar. Então
acho que eu tinha, não diria uma certa
impertinência, mas, como a gente foi
seguindo um caminho, depois de mui-
o que dizer, e ele observou: - Já engoli
muito sapo na minha vida, agora você
vai engolir.
Ele era realista assim. Não era
um homem de meia palavra. Não iria
cortejar ninguém. Falava tudo na cara
mas era brilhante, extraordinário. Mas
eu não o conhecia dentro dos moldes
clássicos de um estudioso, porque ele
não se enquadrava nesse perfil. Era
muito interessante verificar como ele
navegava neste mundo.
Darcy tinha uma franqueza que
atingia a alma da pessoa, mas que também limpava a alma. Recordo de uma
vez , em um dos muitos contatos que
Darcy interessava-se
pelo processo civilizatório
como um todo.
Foto: niels andreas / floha imagem
tos anos, eu o interrompia. E ele escutava, e até replicava. Mas ele era uma
pessoa que trabalhava no conjunto,
porém, portava-se mais como um ser
único. Assim, você tinha que aceitá-lo,
e aproveitá-lo tal como ele era. Não se
podia dizer: - Olha, Darcy, vamos sentar a esta mesa, etc. Não. Era o Darcy.
Mas, uma vez que as pessoas sabiam
que ele era assim e o aceitavam do
modo que era, aproveitavam isso e era
extremamente enriquecedor. Ele também impunha sua sabedoria política.
Lembro-me de que certa vez eu estava
um pouco amargurada, não sabia bem
ele mantinha com Lévi Strauss, ele disse
o seguinte: - Mas o que vai ficar da sua
obra é o Tristes Trópicos. E Lévi Strauss
respondia: - É. Então eu acredito que a
percepção dele era cristalina. Curioso
porque a energia dele não era cristalina.
Era impulsiva. E quase desorientadora.
Havia algo de mediúnico. Então, quando ele tinha idéia clara, ele era como
uma faca que atravessava o coração,
mas deixando mais do que você tinha
antes de ouvi-lo. Muitas vezes acho
que ele, a palavra não é incomodar,
mas acho que ele às vezes, sem querer
desconcertava. Na verdade, as pessoas
41
não sabiam como participar. Ou escutavam, e cresciam, ou então não agüentavam bem a presença dele.
Não sei quem falou uma vez: as
pessoas com idéias nos enlouquecem.
É exatamente isso. É, de fato, a figura
do Mercúrio. Ele tinha medo de estar
enveredando pela irreverência. Mas
ele mesmo era uma personalidade altamente irreverente. E, além disso, tinha a espontaneidade e a irreverência
peculiares do povo brasileiro, e de muitos outros povos também, não posso
dizer que se trata de uma característica
somente daqui. E tinha uma sintonia
popular fantástica, sacava tudo bem rápido. Por exemplo, no Rio de Janeiro,
onde ele teve muita atuação, ele retirava
das raízes várias origens. Acho que, diferentemente de Sérgio Buarque, Darcy
trabalhou com isso, e eu o vejo também
como uma pessoa muito brasileira.
Quanto à maneira de ser, ele tinha
muita experiência de vida, uma vez que
viveu com intensidade e transmitia essa
energia. E não era um antropólogo de
gabinete. Curioso é que ele já esteve em
muitos gabinetes, mas ele tinha a força
de converter os gabinetes ao jeito dele.
Ele teve intensa atuação na área educacional. Não sei detalhes, mas acho que
deve ter sido um contraponto e um
ponto importante. Para ele, o ensino
não devia ser nunca uma coisa amorfa,
digamos um conhecimento adquirido,
mas um processo em permanente movimento. E aí de novo menciono essa
característica de Mercúrio, essa movimentação de idéias... Sabe, ele sumiu do
hospital, fugiu, para terminar projetos
que achava importantes. Estava morrendo, mas eu acredito no seguinte:
por exemplo, nós éramos muito ligados a um pai-de-santo, e Darcy dizia
sobre ele: nos dias em que está concentrado e centrado, ele é admirável
e surpreendente. Acho o mesmo do
42
Darcy. São essas pessoas que têm algo
mais que faz com que toda a energia
convirja em determinados momentos
levando-as a produzir coisas que os
outros jamais vão esquecer.
Darcy era um homem de muitos
amores, em todos os sentidos. Amores que faziam parte da sua vida. Acho
que nada podia ser duradouro, a não
ser a totalidade de sua trajetória. Os
acontecimentos amorosos, e os não
amorosos, eu acredito que eram episódicos. Eu fiz certa vez uma curta
gravação, ele falando; é admiravelmente lindo. A maneira de ele falar
mostra que era verdadeiramente um
educador. Tinha paixão por fazer o indivíduo crescer, desde as crianças. Em
uma gravação é muito difícil de definir
exatamente como ele era. Porque ele
era multifacetado, era múltiplo. Então
hoje eu acho que ele era um verdadeiro performer, tudo nele era visceral. E
quando eu digo que ele era um grande
educador, é porque com sua energia
ele ajudava a organizar o potencial dos
outros. Ele via a criança com a liberdade da criança que ele poderia moldar,
sem, contudo, impor. Tinha capacidade de otimizar a individualidade de
cada pessoa por meio da canalização
e do não desperdício. Alguém poderia
pensar: o Darcy é uma pessoa tão solta que desperdiça energia. Mas era o
jeito dele. Ele se atrapalhava às vezes
ao falar, porque suas idéias surgiam
rápido. Eu acho que a gente se dava
bem talvez porque ele sentisse em
mim um certo nervosismo energético,
mas, de todo modo, ele tinha um domínio que eu não atropelava. Era preciso saber entrar na dança: escutar,
e em determinados apresentar seu raciocínio. Às vezes ele aceitava, outras
não, mas era uma música muito especial falar com o Darcy. Então eu digo
que Darcy era o protagonista. Mas
Foto: alcyr cavalcanri / agência o globo
era generoso, sabendo como captar
essa generosidade dele. Porque você
sempre seria coadjuvante, mas um
coadjuvante que receberia dele uma
energia que talvez anos depois você
ainda poderia aproveitar. Então eu
acho que ele formou, não formalmente, muitas pessoas, transmitindo essa
energia. Como deus e como metal.
Ele voava, ele brilhava. Quando vejo
mercúrio, eu sempre tenho vontade,
de pôr a mão dentro, mas ele escapa,
no entanto você quer. E, ao mesmo
tempo, é algo altamente venenoso.
Então, lidava-se com uma figura alquímica, propriamente falando. E de
tantas facetas! Quem somos nós para
criticar, para dizer como ele deveria
ser? Não? Ele é assim. Convertia sempre a busca do ouro, mas não era um
ouro duro, de valor econômico. Era
aquele ouro que vem do ser humano.
Darcy era um mensageiro fabuloso
que elevava o nível, trazia informações de outras áreas.
Parece um pouco aquela história do autor e da obra, como Salvador
Dalí, como Picasso, que era uma torrente. A obra se mistura com o autor.
Não no mesmo sentido, porque na
minha opinião Dalí parecia bem mais
calculista. Picasso sim, ele tinha essa
coisa latina. Como Darcy. Acho que
foi o que tentei falar. Essa diversidade,
essa riqueza, que eu tentei expor, essa
riqueza que provocava até uma certa
irritação, mas, sabendo como aproveitar acrescentava muito, dando, digamos, informação de vida que anos depois você ainda estaria organizando.
43
Vitimado por um câncer,
desapareceu do hospital para
tocar seu projeto.
HOMENAGEM
ARIANO
SUASSUNA
ARTISTA DO
BRASIL PROFUNDO
CARLOS NEWTON JÚNIOR
BRÁULIO TAVARES
P
oeta, dramaturgo, escritor e artista
plástico, Ariano Suassuna completou 80 anos em 2007. Nascido na
cidade de Paraíba (16 de junho de
1927), hoje João Pessoa, foi no sertão onde cresceu que ele apreendeu,
para depois revelar ao mundo, um Brasil que nem
brasileiros conheciam. Ícone da língua portuguesa,
Suassuna tem sido homenageado em todo o país.
No Memorial da América Latina encontrou-se com
seu público e com alguns estudiosos de sua obra
ao abrir o programa comemorativo de seu aniversário. A revista Nossa América colheu e reproduz os
depoimentos de dois especialistas, Carlos Newton
Júnior e Bráulio Tavares, que fazem um apanhado
de alguns aspectos do trabalho do mestre.
44
Foto: divulgaÇÃO
Suassuna: dramaturgo,
escritor, poeta e artista
plástico
45
Vida e obra do
mestre sertanejo
Carlos Newton Júnior
A obra de Ariano Suassuna revela um Brasil verdadeiro e profundo, que
muitos brasileiros, infelizmente, ainda
não conhecem. O Brasil não se esgota
no eixo Rio-São Paulo e nas grandes cidades do litoral, que por sua condição
cosmopolita são muito influenciadas
pelos modismos que chegam do exterior. O Brasil profundo está um pouco
mais para dentro. Ariano gosta muito
de uma frase de Machado de Assis que
menciona a existência de dois Brasis, o
Brasil real e o Brasil oficial. Pois bem:
creio que o Brasil oficial identifica-se
mais com a Europa e principalmente
com os Estados Unidos, enquanto que
o Brasil real encontra-se plenamen-
46
te identificado com a América Latina
e a África. Ariano é um sertanejo de
coração. De estirpe sertaneja, nasceu
no litoral, mas com um ano de idade
foi para o sertão, onde viveu boa parte de sua infância. É lá que ele entra
em contato com todo o universo do
romanceiro popular nordestino, fundamental para a realização de sua obra
futura, nos campos da poesia, do teatro
e do romance. Pode-se dizer que Suassuna é um artista completo. É poeta,
dramaturgo, romancista e artista plástico. É algo fora do comum, pois ele,
a meu ver, não só domina com mestria
o ofício de todos esses gêneros como
consegue atingir, em suas obras, a mes-
Foto: andre dusek / agência estado
Suassuna é criador
do chamado “teatro
do Nordeste”.
ma qualidade artística. Quando eu leio
uma peça de teatro do grande poeta
inglês T.S. Eliot, por exemplo, sinto
que o poeta se impõe e é superior ao
dramaturgo. As falas dos personagens,
mesmo quando deveriam ser prosaicas,
possuem a sonoridade do verso. Isso
não ocorre no teatro de Suassuna, nem
mesmo numa peça como Farsa da Boa
Preguiça, que é escrita em versos e cujos
diálogos soam como prosa. Ariano domina a técnica do diálogo teatral, a técnica do romance, a técnica da poesia,
de modo que ele é tão bom poeta quanto dramaturgo, e tão bom dramaturgo
quanto romancista.
Ariano começa a sua vida literária
como poeta. Seu primeiro poema, publicado em 1945, intitula-se “Noturno”.
As pessoas acham que ele produziu
poesia esporadicamente. Na verdade,
ele escreve poemas até hoje. Acontece
que ele nunca se preocupou em editar.
O único livro que reúne a obra poética de Ariano foi uma edição universitária que organizei em 1999, intitulada
Poemas, reunindo parte de sua produção em quatro décadas de poesia. Em
1947, Suassuna estréia no teatro. Em
1955, antes dos 30 anos de idade, escreve o Auto da Compadecida, sua peça
mais famosa. Quando a peça chega
ao Rio de Janeiro, em 57, Suassuna é
alçado à condição de um dos nossos
maiores dramaturgos. Grandes companhias do Rio de Janeiro e de São Paulo
pediam suas peças para encenar. Nos
anos 70, ele cria o Movimento Armorial para congregar artistas de vários
campos da arte. Quer dizer, ele sempre
atuou paralelamente como uma espécie
de incentivador cultural, apoiando artistas jovens, inclusive aceitando cargos
públicos relacionados à área da cultura
47
para exercer esse lado de sua personalidade generosa. Também foi professor
de Estética e História da Arte na Universidade Federal de Pernambuco.
Suassuna é criador do chamado
“teatro do Nordeste”, título que lhe
é atribuído por Hermilo Borba Filho
quando Ariano escreve a peça Auto de
João da Cruz, em 1950. Como romancista, a primeira experiência de Suassuna foi um romance curto, que escreveu
em 1956, chamado A História do Amor
de Fernando e Isaura, publicado pela primeira vez em 1994. A partir de 1958 ele
começa a se dedicar ao grande romance
de sua vida, o Romance d’A Pedra do Reino
e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, que
leva 12 anos para escrever, considerado uma das obras máximas da literatura não apenas brasileira, mas de língua
portuguesa. É um livro grandioso, um
marco, mas pouco conhecido no mundo, porque teve apenas duas traduções,
uma para o alemão, outra para o francês. É um romance difícil, hermético,
talvez por isso tenha sido pouco traduzido. Por outro lado, Ariano nunca foi
um escritor preocupado em promover
a sua obra, pois ele acredita que o trabalho do escritor termina quando ele
termina o livro. A obra de Ariano no
campo das artes plásticas ainda é praticamente desconhecida do público.
As pessoas vêem um quadro ou uma
tapeçaria dele e acham que se trata de
um trabalho esporádico. Mas não é. É
um trabalho que ele vem desenvolvendo sistematicamente pelo menos desde
1970. O Romance d’A Pedra do Reino é
todo ilustrado por ele mesmo, e quem lê
nota que aqueles desenhos do livro não
são simples ilustrações, são imagens
que também narram, complementam o
texto. Passados dez anos da publicação
do romance, Ariano Suassuna começa a fazer as suas iluminogravuras, um
trabalho admirável, em que a poesia se
integra à pintura. Além disso, os desenhos de Ariano começaram a influenciar outros artistas, que passaram a desenvolvê-los em tapeçarias e mosaicos.
Carlos Newton Júnior é arquiteto, historiador e doutor
em literatura.
o sertão e o mar
Bráulio Tavares
Na obra de Ariano Suassuna, e
em sua vida pessoal, há aspectos muito
importantes do Brasil de ontem, de hoje
e de amanhã. Como poeta, dramaturgo,
romancista e artista plástico é a trajetória
de um brasileiro em busca do Brasil. De
um brasileiro que acredita num conceito
de Brasil que para algumas pessoas é considerado ultrapassado, mas para outras se
trata da busca de um Brasil verdadeiro,
autêntico, da medula de um Brasil que
só se sustentará enquanto nação e povo
caso mantenha dentro de si algumas dessas características culturais.
48
Eu sou natural de Campina
Grande, uma cidade da Paraíba que
não sei quantos conhecem. Campina
Grande está situada no alto da Serra da
Borborema, a 120 km de João Pessoa,
a meio caminho da capital João Pessoa,
em uma região que a gente chama de
Alto Sertão, embora não seja. A cidade,
localizada no topo de uma serra é uma
cidade parecida com São Paulo. Pela situação geográfica, é uma cidade fria e
sendo uma cidade fria não se identifica
culturalmente com praia, nem com o
sertão. Nós ficamos na posição de ob-
Foto: leonardo aversa / agência o globo
servadores privilegiados dessas duas civilizações que existem na Paraíba e no
Nordeste inteiro, assim como no Brasil
todo. São duas culturas que vêm se contrapondo há séculos, disputando poder
econômico e político, e estão, pouco a
pouco, misturando-se uma à outra. O
que nos leva a Glauber Rocha, a Deus e
o Diabo na Terra do Sol, e à voz do profeta dizendo: “O sertão vai virar mar e
o mar virar sertão”. É exatamente isso
o que está acontecendo: a civilização
urbana, nordestina e de outras regiões
também, está sendo cada vez mais contaminada, influenciada por uma mentalidade rural por causa desse êxodo do
campo para as metrópoles.
Vamos falar um pouco do sertão.
O primeiro grande cronista literário do
sertão foi Euclides da Cunha, com Os
Sertões, seu livro sobre Canudos. A certa
altura da obra, Euclides traça um retrato
muito interessante do que ele chama a
civilização dos paulistas. Paulistas entre
aspas, aqueles indivíduos que a partir
do século 17, 18 saíram desbravando o
Brasil a partir de São Paulo, subindo por
dentro de Minas Gerais e, ao chegar às
serras do interior, descobriram o Rio São
Francisco, que é o chamado Rio da Integração Nacional. Eles são chamados de
paulistas, mas nem todos eram paulistas,
muitos eram portugueses, outros paulistas de fato. Havia goianos, mineiros,
fluminenses, mas enfim, era toda uma
massa heterogênea de desbravadores
que, sempre subindo rumo ao norte, na
direção do Oceano Atlântico chegaram
ao ponto em que o São Francisco faz
uma inflexão na direção do mar, onde
deságua. Nesse ponto de inflexão, o Rio
São Francisco foi a estrada, o caminho
que anda, cujas bordas foram sendo
civilizadas ao longo de Minas Gerais,
da Bahia, até chegar ao sertão, onde se
encontram o extremo oeste de Pernam-
Instalado na cidade, voltou
os olhos para o sertão.
buco, o extremo oeste da Paraíba, o sul
do Ceará, o sul do Piauí e um bico do
sertão da Bahia. O interior do Nordeste, os Estados que nos interessam por
causa de Ariano Suassuna, Pernambuco
e Paraíba, foi colonizado pelo interior,
por esse pessoal que criava gado, plantava algodão e fundava uma verdadeira
civilização de faroeste dentro deste oeste remoto do Brasil. Ao mesmo tempo,
havia a civilização litorânea, dos portugueses, a civilização da Coroa, dos tempos de colônia, depois do império e da
república, uma civilização que chegava
de navio, fundando capitais, todas portos, cidades litorâneas. Eram sedes do
poder português, e foi por meio dessas
capitais, dessa civilização que vinha de
fora, que o País começou a se estruturar.
49
Então temos essa civilização por dentro,
dos desbravadores e colonizadores e a
civilização de fora, dos governos sucessivos, que vieram transformando o Brasil no Brasil que nós conhecemos.
Essa confrontação pode ilustrar
o que aconteceu em todo o Nordeste. Uma civilização criada na marra,
por iniciativa privada de aventureiros
e desbravadores, cujos descendentes se
transformaram em fazendeiros, e um
governo que aparece e diz: “Essas terras são do governo, e vocês vão ter de
pagar imposto.” Esse confronto político se deu a partir do final do século 19,
entrou pelo século 20 , e acabou redundando nisso que a gente chama hoje
de Revolução de 30, quando Getúlio
Vargas subiu ao poder. Ariano Suassuna ficou profundamente marcado por
essa revolução. Foi nessa época que o
pai dele foi governador do Estado na
Paraíba, e defensor dos interesses desses líderes sertanejos, dessa aristocracia rural, uma vez que João Suassuna
era um sertanejo. Depois ele passou
o governo para João Pessoa, que quis
modernizar o Estado, outra questão
interessante, já que lendo os depoimentos de um e de outro, percebe-se
que os dois tinham razão. Para uns era
uma civilização que criaram, sem pedir
nada a Portugal; a coroa portuguesa e a
brasileira não ajudaram em nada, a República brasileira também não. Então,
por que se curvariam a essas forças, e
a uma constituição que não expressava
seus interesses? Por que pagar impostos sobre uma riqueza que eles haviam
construído?” João Suassuna, pai de
Ariano, foi assassinado com um tiro
pelas costas, no Rio de Janeiro, acusado de ter contribuído, indiretamente,
para o assassinato do governador João
Pessoa, que foi assassinado por João
Dantas, um advogado sertanejo, primo
50
da mãe de Ariano Suassuna. As raízes
deste fato estão no acirramento das rivalidades políticas entre João Pessoa e
João Dantas e no fato de que a polícia
do governador João Pessoa expôs as
cartas íntimas dele e de sua namorada,
e isso foi considerado por um sertanejo
uma grande ofensa. É como se hoje em
dia, um indivíduo importante pegasse
as cartas, e-mails e a correspondência
íntima do adversário e jogasse na Internet para que todo mundo pudesse ver.
Quando o pai foi morto, Ariano
tinha três anos. Houve uma série de
perseguições à família, que foi obrigada
a se esconder em várias cidades. Eles
moraram uns tempos em Itaperoá e
depois a mãe de Ariano levou os filhos
para Recife. Por isso, Ariano é um indivíduo dividido entre o sertão e o mar.
Muitos críticos, estudiosos, professores,
dizem: - “A obra de Ariano Suasssuna
expressa 100% o sertão.” E eu discordo
um pouco disso. Para mim, Ariano expressa sim o sertão, mas um sertão visto com os olhos da cidade, porque ele é
um homem da cidade. Ariano completou 80 anos agora, em 2007, desses 80
anos, viveu 15 no sertão e 65 em Recife, onde foi estudar aos15 anos. Lá ele
terminou seus estudos secundários, fez
a faculdade de Direito, participou dos
mais importantes movimentos culturais
daquelas décadas de 40, 50, 60. Ariano
se politizou em Recife, criou em Recife, dentro da Faculdade de Direito, o
movimento Armorial, que o consagrou
no Brasil todo. Então, ele é um indivíduo formado culturalmente na cidade
grande. O sertão é para ele a medula de
tudo, à qual o indivíduo recorre quando
precisa de inspiração. Para mim, Ariano
representa, em partes iguais, o sertão e o
mar: Itaperoá e o Recife.
Sem entender isso, a gente não
pode entender profundamente o Ro-
mance d`A Pedra do Reino, que é uma
composição recifense em suas discussões políticas, ideológicas, e assim por
diante. Essa junção do sertão e do mar
parece o destino dos grandes criadores
dos movimentos culturais do Nordeste. Eles saem do sertão com uma infância totalmente impregnada, encharcada
de sertão, mas é fora de lá, na cidade
grande, que vão criar.
E o mais bonito é que o sertão
de Guimarães Rosa é um, o de Glauber
Rocha é outro, o de Leandro Gomes de
não fosse tão essencialmente quanto é
sertaneja uma obra recifense, feita por
um professor universitário que saiu do
sertão e que teve de se adaptar à vida
na cidade grande.
O sertanejo vê a si próprio como
uma encarnação de todos os valores positivos, e a civilização litorânea
como a de todos os valores negativos.
E vice-versa. Então, prestando atenção
às entrevistas e depoimentos de Suassuna, nota-se que ele detesta a palavra
moderno. Eu ouvi, num debate, alNesta página e na página
seguinte: a forte influência
popular no grafismo de
Suassuna.
Foto: divulgação
Barros é outro, o de Ariano Suassuna é
outro. São muitos sertões superpostos e
que se enriquecem e se complementam
mutuamente. Então, uma obra como
a de Ariano Suassuna jamais poderia
existir, nos termos literários em que
existe, se ele fosse um velhinho de 80
anos nascido, criado e vivendo até hoje
em Itaperoá. Essa obra, com a dimensão e as implicações, as leituras paralelas que admite, jamais poderia existir se
guém dizer: “O senhor acha que hoje,
no mundo moderno, a sua obra subsiste?” E ele responde: “Esse negócio
de moderno não ficou muito para mim
não. Lá no Nordeste essa modernidade
ainda não chegou.” Mas em seus escritos, ele reconhece que deveu muito à
Semana de Arte Moderna de 22, aqui
de São Paulo, aos modernistas como
Manuel Bandeira, Mário e Oswald de
Andrade. E também ao lado moder-
51
nista do Nordeste. Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, é um livro que
Suassuna sempre aconselhou como leitura obrigatória para conhecer o Brasil. Uma vez ele disse: “É claro que
o mundo evolui, é claro que as coisas
mudam. Eu gosto da tradição, mas eu
acho que coisas novas têm que surgir, porque eu também sou uma coisa
nova que um dia apareceu no mundo,
então eu estou trazendo a minha obra
como uma coisa nova, embora ligada
à tradição. O problema é que quando
houve a Revolução de 30, a aristocracia
rural à qual minha família pertencia foi
derrotada em nome da modernização.
Depois que perdemos a batalha, passei a infância e a adolescência inteira
ouvindo dizer que nós proprietários
rurais éramos o símbolo do atraso, do
conservadorismo, da violência.” Então
por osmose, já fiquei com raiva.
Em outro depoimento ele diz:
“Eu sou símbolo de um grupo social, a
aristocracia rural sertaneja, que foi derrotada em três momentos decisivos da
história do Brasil. Primeiro em 15 de
novembro de 1889, com a Proclamação da República. Depois, em outubro
de 1930, com a Revolução de 30 e a
subida ao poder da burguesia por meio
de Getúlio Vargas. E em 31 de março
de 1964, com a instalação da ditadura
militar no Brasil, foi o terceiro golpe
que os sertanejos sofreram porque começou ali a americanização do Brasil.”
São os três momentos em que
aquele sertão que era a vida, a memória, a infância de Ariano Suassuna, foi
sendo enxotado para um lugar mais
remoto da vida brasileira. E Ariano se
ressente, e tem razão, como um dos indivíduos a quem cabe preservar as coisas boas que havia naquela civilização
extinta. Tenho a impressão de que os
descendentes do sertanejo nordestino
52
vão ser, daqui a 100 anos, quando o
Nordeste se transformar numa imensa
Miami, um povo que só se reconhece
por seus pares, pelo jeito de falar, pelas
histórias, pelos rituais que celebra quando está junto. Os nordestinos do futuro
serão um povo que trabalhará em gigantescos shopping centers, e as pessoas
vão morar na periferia, numa favela.
Taperoá vai ser o Shopping Center Taperoá, vai vender artesanato ‘industrial’,
ou vai ser o que Ariano disse que viu no
Recife: - “Eu estava andando por Recife, quando vi um prédio em que estava
escrito no letreiro: Macambira’s Center.
Aí veja só que desaforo! A macambira é
um vegetal de respeito, não merece uma
humilhação dessa”. Mas é o futuro, e os
tataranetos dos taperoaenses de hoje estarão lendo o Romance d’A Pedra do Reino, reverenciando a literatura de Ariano
Suassuna e a arte de outros sertanejos
ilustres, transformando o Nordeste e o
sertão em mito.
O sertão de Ariano está sendo
destruído pelas cidades em expansão,
já que economias fortes conquistam o
resto. Então, está ocorrendo um embate entre mar sertão, e que está acontecendo entre pessoas que não se odeiam,
apenas se desconhecem, defendem interesses opostos. E Ariano Suassuna é
um dos grandes cronistas dessa guerra,
dessa imensa tragédia em câmera lenta
que vem acontecendo no Brasil desde
1930. Existem valores que o sertão antigo defende e que horroriza a cidade.
Por outro lado, no sertão, você dá a sua
palavra e o outro aceita. A assinatura
no sertão se dá com o fio do bigode.
O sertanejo não quer viver num
mundo em que pessoas não cumpram a
palavra dada. E esse sertão remoto, que
é o sertão da infância de Ariano Suassuna, tem muita coisa ética a ensinar ao
Brasil moderno, atulhado de mecanis-
Foto: divulgação
mos e recursos jurídicos, milhões de
leis, artigos, alíneas, letras, etc., e hoje
você não confia na palavra de ninguém.
Esse sertão remoto, que Ariano conta,
é atrasado, rudimentar e superado em
muitos aspectos, precisa, de fato, modernizar-se. Por outro lado, tem uma
medula de verdade, de compreensão de
como devem ser as relações das pessoas dentro de uma comunidade.
Esse sertão remoto de Ariano,
não é um sertão composto somente de
paisagens exóticas. É uma civilização
criada na marra, onde muitas vezes os
conflitos foram resolvidos a mão armada – isso é mais uma das coisas que precisariam mudar -, mas que tinha e tem
muitos exemplos éticos para dar à nossa sociedade de hoje. E a obra de Ariano é exatamente isso. O Romance d’A
Pedra do Reino é uma história em que se
mistura esse mundo sertanejo, que é representado por D. Pedro Diniz Ferreira
Quaderna, figura falastrona, mas que já
é moderno o suficiente para não resolver nenhum problema a mão armada,
resolve tudo na conversa, enrolando, na
evasiva. É como ele se liberta e enfrenta
o juiz corregedor que desembarca em
Taperoá como representante do país, da
lei e da modernidade. Então esse choque entre o sertão e a lei é descrito por
um escritor que ele próprio já é metade
sertão metade capital.
Sertão e mar, a busca da síntese
entre as duas civilizações, têm sido toda
a carreira de Ariano Suassuna, principalmente sua obra em prosa, que é o Romance d’A Pedra do Reino. O sertão está
virando mar, está sendo recriado à imagem e semelhança das nossas capitais
litorâneas. Mas em compensação, o mar
também está virando sertão, porque
é para essas capitais, para a civilização
do viaduto e do shopping center que estão
indo milhares de pessoas do mundo rural, levando suas crenças e seus valores.
E um dos grandes imortalizadores desses mitos do sertão dentro da civilização
do mar se chama Ariano Suassuna.
Bráulio Tavares é escritor, compositor e um conceituado
conhecedor da cultura nordestina.
53
CINEMA
ROTEIROS?
HISTÓRIA CONTADA
EM IMAGENS
MARCELO LYRA
E
m sua recente estada no Brasil, durante a Festa Literária Internacional de Parati (Flip), em julho deste
ano, o escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga, conhecido pelos roteiros de filmes como
Amores Brutos e Babel, bem como por livros como
O Búfalo da Noite e O Doce Aroma da Morte, repetiu
diversas vezes que prefere ser chamado de escritor
do que roteirista. “A palavra guión (roteiro em espanhol), também significa guia, e eu não guio ninguém”, repetia na maioria das entrevistas. Segundo
ele, quando as pessoas ouvem a palavra guionista (roteirista), pensam tratar-se de um guia turístico. Não
por acaso, em Hollywood já faz algum tempo que
os roteiristas são chamados de writers (escritores).
54
O premiado Cabra Cega,
do roteirista Di Moretti.
FotoS: divulgação
O mesmo ocorre no Brasil. Di
Moretti, roteirista dos premiados Cabra Cega e Latitude Zero e presidente da
recém-criada Associação de Roteiristas denominada Autores de Cinema,
admite que poucas pessoas sabem definir com precisão o trabalho de um
roteirista. “Quando chego a um hotel
e escrevo ‘roteirista’ no espaço destinado à profissão, na ficha de inscrição, o
recepcionista me olha com cara de estranhamento”. Por conta disso, muitos
roteiristas brasileiros querem que, nos
créditos do filme, em vez de roteirista,
apareça “escrito por”.
Mas afinal, o que faz um roteirista? Para Moretti, escrever um roteiro é
pensar uma história em imagens. Muita
gente confunde e acredita que escrever literatura e roteiro é a mesma coisa.
Quem afirmar isso perto de um roteirista comete um erro. “Escrevo tanto romances quanto roteiros exclusivos para
cinema, e acho que uma coisa não tem
nada a ver com a outra”, afirma Marçal Aquino, roteirista dos premiados O
Invasor e Cão Sem Dono, ambos dirigidos
por Beto Brant. Para ele, a literatura é
um território de incertezas: “Nunca sei
muito bem o que estou criando quando
escrevo”. Já o roteiro normalmente tem
rumo certo. “Sei direitinho o que estou
fazendo e para onde vou, até por uma
questão de ritmo”, explica Marçal, que
acha muito mais fácil e rápido escrever
um roteiro que um romance.
55
FotoS: divulgação
Convocado por Hollywood,
Fernando Meirelles dirige
O Jardineiro Fiel.
Para Beto Brant, de Cão
Sem Dono (ao lado),
“roteiro tem rumo certo”.
A questão do ritmo se explica por
uma questão de espaço. No cinema há um
tempo definido, já que um filme costuma
durar algo em torno de duas horas. Como
em média uma página de roteiro resulta
em um minuto de filme, o tamanho do
roteiro oscila em torno de 120 páginas.
Diante das adaptações de livros
famosos para o cinema, sempre acompanhadas de reclamações dos fãs dos
livros, é o caso de se perguntar: um
roteiro baseado em um livro deve ser
fiel à obra? “Não necessariamente, já
que são linguagens diferentes”, explica Di Moretti. Segundo ele, é preciso
ter um desrespeito saudável, pensan-
do nos conceitos de uma obra audiovisual, caso contrário teremos apenas
um livro ilustrado. “Da mesma forma
que, ao adaptar uma peça teatral sem
levar em conta aspectos da linguagem
cinematográfica, o resultado será teatro filmado”, afirma.
Marçal Aquino lembra que o cineasta italiano Federico Fellini dizia que
a melhor forma de adaptar um livro para
o cinema é ler, jogar fora e escrever o roteiro com o que ficou na memória. “É
uma boa definição do processo, pois o
que importa é buscar contrapartidas imagéticas que estabeleçam um diálogo à altura do texto que se está adaptando”.
DE OLHO EM HOLLYWOOD
Hollywood vive uma crise de roteiros sem precedentes. Nunca se viu
tantas continuações ou remakes. Só este
ano, Homem Aranha, Shrek e Piratas do
Caribe já chegaram à terceira parte, Duro
de Matar à quarta, Harry Potter à quinta
(deve ir no mínimo até a sétima) e até
o aposentado Rocky, o Lutador foi ressucitado, sem falar nas eternas reciclagens de Super Homem, James Bond e
dos heróis Marvel. Para tentar injetar
sangue novo, roteiristas latino-americanos, como Bráulio Mantovani (Cidade
56
de Deus) e Arriaga, têm sido chamados
por estúdios de Hollywood. Trilham os
passos da argentina Aída Bortnik, que
em 89 foi convidada a escrever o roteiro
de Gringo Velho nos EUA, depois que o
filme A História Oficial, dirigido em 1986
por Luis Puenzo e com roteiro de sua
autoria, ganhou o único Oscar de filme
estrangeiro da América do Sul.
Indicado ao Oscar por Cidade de
Deus, Mantovani recebeu inúmeros convites para fazer roteiros em Hollywood.
Acabou aceitando um convite do ator
Brad Pitt para escrever uma história
sobre contrabandistas de diamantes na
África . Depois de tudo pronto veio
a má notícia: o projeto foi arquivado
quando se soube das filmagens de Diamante de Sangue, exibido no ano passado, com Leonardo Di Caprio, que tinha
tema muito parecido.
Guillermo Arriaga, por seu turno,
depois de fazer o roteiro do hollywoodiano Babel, prepara-se para um passo
ainda mais ousado: vai estrear em no-
havia dirigido dois curtas-metragens.
Ele lembra que a frustração acontece
apenas nos casos de adaptação de seus
livros. Babel, cujo roteiro foi criado à
partir de uma idéia sua e do diretor
Iñarritu, lhe valeu uma indicação ao
Oscar de melhor roteiro, mas terminou com uma briga com o diretor,
desfazendo uma parceria de muitos
anos. Novamente por conta da questão da autoralidade e do que deve ou
não ir às telas.
Na falta de roteiros, Hollywood apela
para as continuações: Rocky, o Lutador, 007 Cassino Royale, Duro de
Matar e Harry Potter.
FotoS: divulgação
vembro como diretor na produção americana The Burning Plain. O desejo de dirigir surgiu em parte por sua frustração
com o que os diretores faziam com os
roteiros de seus livros. O Doce Aroma da
Morte, lançado recentemente no Brasil,
deixou-o insatisfeito com a versão dirigida em 1999 por Gabriel Retes.
Ele reclamou ainda mais da
transposição de O Búfalo da Noite para
os cinemas, dirigida em agosto deste ano pelo também mexicano Jorge
Hernandez Aldana. O resultado, ainda inédito, do roteiro de sua autoria
foi a gota d’água para Arriaga, que já
Pelo mesmo motivo, diretores latinos tem sido convidados por produtores americanos para fazer filmes no primeiro mundo. O mais bem-sucedido foi
sem dúvida o mexicano Alfonso Cuarón
(E Tu Mamá También), que dirigiu Harry
Potter e o Prisioneiro de Azkaban, terceiro
episódio da milionária franquia baseada
nos livros da inglesa J. K. Rowling, mas
os brasileiros Walter Salles (Água Negra)
e Fernando Meireles (O Jardineiro Fiel)
também já filmaram por lá.
Marcelo Lyra é crítico da revista IstoÉ Gente, do jornal
Valor Econômico e editor do site Cine Qua Non.
57
CÁTEDRA
NATUREZA
EM RISCO
A Terra corre perigo? Corre sim.
Palavra do professor José Goldemberg,
coordenador do módulo Meio Ambiente
da Cátedra Memorial da América Latina
em curso até dezembro. Implantada em
2006, numa parceria com as três instituições públicas de ensino paulistas – Universidade de São Paulo, Universidade Federal
do Estado de São Paulo e Universidade de
Campinas - o primeiro módulo da Cátedra, realizado entre janeiro e julho deste
ano focalizou um tema correlato, energia.
Da preservação do meio ambiente dependem as mudanças climáticas.
A questão é atual, controvertida, e inquietante. Daí sua presença cada vez
mais freqüente na pauta de cientistas,
órgãos de comunicação e cidadãos comuns. Dada a relevância do assunto, o
Memorial da América Latina não poderia deixar de trazê-lo à reflexão em seu
programa de pesquisa e docência. Para
tanto, convidou Goldemberg, físico de
projeção internacional, com uma vida
de pesquisa dedicada à área. Baseandose em relatório concluído recentemente,
o professor resume a situação mundial:
a temperatura média da superfície terrestre aumentou desde fins do século
XIX, o nível dos oceanos está subindo,
a precipitação das chuvas também está
aumentando em algumas regiões, a cobertura de neve e gelo decresce continuamente e há mudanças no padrão de
circulação da atmosfera, assim como
um aumento do número de eventos
climáticos extremos.
58
Autor de obras referenciais como
Energy for a Sustainable World e Energy and
Environment in Developing Countries, Goldemberg detalha o impacto das mudanças climáticas no Brasil. A elevação em
40 cm do nível do mar em pontos da
zona costeira já é fato, segundo ele. O fenômeno é gerado pelo aumento da massa de água provocado pelo calor e pelo
degelo de calotas polares. Caso prossiga,
os resultados seriam o colapso do sistema de esgotos que por pressão das águas
não conseguiria manter o nível adequado de inclinação para vazão e a destruição de portos e construções à beira mar.
O país também pode perder sua
floresta amazônica para a savana, se providências não forem tomadas. Prevê-se a
extinção de 30 por cento de sua cobertura
vegetal até 2050. Um dos reflexos mais
dramáticos seria o agravamento da seca
num Nordeste, já penalizado pelas condições climáticas. Os recursos hídricos
também não seriam poupados. Devido
à evaporação, exceto no Sul haveria uma
diminuição da vazão dos rios. A região
Sul, por sua vez, registraria um aumento
de chuvas e de temperatura. Os desdobramentos dessas condições envolvem
desde inundações nas grandes cidades
onde aumentassem os índices de precipitação pluviométrica, ao alastramento
de doenças infecciosas transmissíveis,
migrações de culturas e de contingentes
populacionais para áreas não afetadas.
Mas o que, enfim, está causando
o superaquecimento global? O professor
Goldemberg explica. Lembra que há um
século a população da terra era de 1,5 bilhão de pessoas que consumiam, cada
uma, menos duas toneladas de recursos
minerais por ano. Hoje, são seis bilhões
de habitantes, cujo consumo médio gira
em torno de oito toneladas per capita. O
impacto total, portanto, é 16 vezes maior:
48 bilhões de toneladas. “O homem se tornou uma força de proporções geológicas”,
disse ele, já que as forças naturais, como o
vento, a erosão, as chuvas e erupções vulcânicas movimentam cerca de 50 bilhões
de toneladas por ano. A questão central é
que das oito toneladas que cada um consome, uma é carbono lançado na atmosfera
na forma de dióxido de carbono, o CO2,
resultado da combustão de combustíveis
fósseis. Ocorre que o dióxido de carbono
não é transparente à radiação térmica e
atua como um cobertor ao redor da Terra,
evitando a dispersão do calor. Sua concentração, há 200 anos quando começou a Revolução Industrial, era de 0,028, hoje está
em 0,036. Se essa concentração dobrar, a
temperatura média da superfície terrestre
deve aumentar de 1,5 a 4,5 C.
O Brasil é o quinto contribuinte
mundial às emissões de gazes de efeito
estufa. Mas como explica o professor
José Goldemberg, a contribuição do
Brasil origina-se no desmatamento da
Amazônia, aqui três vezes maior que a da
queima de combustíveis, que é pequena
no País. “Antes eram os grandes produtores agrícolas; hoje são os 20 milhões de
assentados.” No processo de aquecimento global, o desmatamento tem participação significativa, 10%, embora menor
que os processos industriais, que entram
com 16,8%, a geração de eletricidade
com 21,3% e o transporte com 14%. A
produção e distribuição de combustíveis
fósseis; o uso residencial, comercial e de
serviços; a agricultura e o tratamento e
disposição de resíduos ingressam com
11,3%, 10,3%, 12,5%, 3,4%.
O Intergovernamental Panel on
Climate Change, órgão das Nações Unidas responsável por produzir informações científicas sobre o assunto, além de
identificar as causas do superaquecimento
também faz recomendações. Algumas são
controvertidas, como o emprego da energia nuclear, com a qual os ambientalistas
não concordam, já que o lixo radioativo
dura milhares de anos. Além disso, como
lembra Goldemberg, trata-se de uma alternativa cara por causa da segurança. Outra
solução apontada, cita o professor, seria a
captura e o enterro do carbono em reservatórios vedados, também controvertida
tendo em vista a complexidade do processo. No Brasil, menciona, há opções melhores de substitutivos energéticos, como
o etanol, derivado da cana-de-açúcar, que
tem sido apontado como secundário, mas
na sua opinião não é. As polêmicas que
tem suscitado, também não se justificam,
diz ele. Ele argumenta que em se tratando
de um produto vegetal, não contém particulados nem compostos de enxofre e,
além disso, não é como se supõe, que o
aumento da produção de cana causaria o
desmatamento: “A expansão do etanol do
Estado de São Paulo está ocorrendo em
áreas degradadas. Mesmo porque a Secretaria do Meio Ambiente não dará licença
a quem afete o meio ambiente. Há preocupações com outros estados, como Mato
Grosso, por exemplo. De todo modo, o
mercado internacional exige certificação
quanto à origem e processos de produção,
para evitar, por exemplo, o trabalho escravo.” Concluindo: “Há previsões pessimistas, previsões otimistas, posturas alarmistas quanto ao superaquecimento. Mas, de
qualquer maneira, medidas têm de ser tomadas.” É sobre isso e questões ambientais correlatas que a Cátedra está tratando
de abordar com um grupo de estudantes
latino-americanos.
Ana Candida Vespucci
59
Brasil poderá perder
suas florestas.
LIVROS
Conhecimento pela
imaginação
“O romance morreu?” A frase interrogativa dá título ao primeiro
ensaio de Geografia do romance, livro de
Carlos Fuentes sobre a arte da qual ele
mesmo é um artífice. Autor de narrativas como A morte de Artemio Cruz e
Cristovão Nonato, o escritor mexicano
é um dos últimos remanescentes, ao
lado de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, do boom da literatura
latino-americana dos anos 60 – uma
plêiade composta por nomes como
Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Alejo
Carpentier e Lezama Lima.
O volume reúne textos originalmente apresentados em conferências
ou publicados na forma de prefácios
e resenhas em jornais e revistas. Lidos em conjunto, adquirem unidade
e revelam enorme consciência crítica.
Melhor dizendo, os ensaios confirmam
aquilo que o próprio Fuentes defende
ao tratar de autores contemporâneos
como Italo Calvino, Augusto Roa Bastos, Milan Kundera, Salman Rushdie,
Julian Barnes e Juan Goytisolo: o romance é indissociável da atitude autoreflexiva que confere caráter singular a
esse gênero literário caracterizado pela
permeabilidade a discursos extra-literários e a uma meditação sobre seu lugar
na história da literatura.
60
Trata-se de uma tautologia que é
preciso levar em conta antes de abordar os textos de Fuentes: a indefinição
do romance como gênero (o que há em
comum entre o naturalismo de Zola,
os fluxos da consciência de Joyce e as
alegorias de Kafka?) lhe confere uma
plasticidade que se deve à circunstâncias históricas de seu nascimento e
posterior desenvolvimento; ao mesmo
tempo, o romance faz do curso da história sua matéria-prima, amplificando
tal plasticidade com a anexação de territórios da filosofia, da lingüística, da
antropologia, da psicanálise etc.
Tendo como pano de fundo um
sistema artístico herdeiro da Antigüidade clássica, que prescreve formas
de exposição (lírica, drama, épica) e
campos temáticos (epopéia, tragédia,
comédia, elegia etc.), o novo gênero
surge, entre os séculos XVII (com
Cervantes) e XVIII (Swift, Richardson, Sterne), justamente quando tais
regras e princípios entram em crise:
exemplo claro são as “tragédias” de
Marlowe e Shakespeare, que mesclam
elementos da comédia, como na passagem dos coveiros em Hamlet.
Caberá ao romance acolher de
modo mais intenso uma nova realidade,
mais dinâmica e mutável do que aquela
LIVROS
das sociedades greco-romana e medieval. Nestas, vicejam gêneros relativamente estanques, em que cabe ao poeta
“emular” modelos, dentro da cadeia repetitiva de um mundo de fundamentos
estáveis; com a eclosão da modernidade, a “imitação dos antigos” dá lugar a
formas de expressão conseqüentes com
um tipo de indivíduo que, ao menos
imaginariamente, constrói sua história
– pois a própria idéia de “história” se
contrapõe agora a uma concepção substancialista, essencialista, em que coisas e
seres têm seu “lugar natural”.
Inicialmente expressão de uma
nova classe (a burguesia que vê suas
vivências representadas nos romances de folhetim), o romance jamais se
confinou a um formato fixo – pois a
própria classe social à qual deve seu
surgimento prima pela capacidade de
se metamorfosear, imprimindo à realidade uma dinâmica que contrasta com
as lentas transformações ocorridas
nos períodos anteriores.
O livro de Fuentes explora sob
diferentes ângulos, e numa perspectiva contemporânea, a ambigüidade que
atravessa a recepção do gênero romanesco: de um lado, a injunção da realidade, o compromisso do romance em
relação ao contexto do qual brota; de
outro, sua vocação proteiforme, sua
porosidade aos acasos de uma história
sujeita a guinadas bruscas.
Para ele, essa capacidade romanesca de renovação responde de saída à pergunta “O romance morreu?”
– sendo substituída por uma questão
mais espinhosa: “Que pode dizer o romance que não se possa dizer de nenhuma outra maneira?”
Os ensaios de Geografia do romance serão reflexos dessa pergunta, tentativas de estabelecer a positividade
do romance – ou seja, o conjunto de
artifícios, vozes narrativas e armações
lingüísticas pelas quais cada escritor
aborda a realidade e a transtorna.
“No México e, não sei até que
grau, na América hispânica, nossas
respostas a esta pergunta passavam por
três exigências simplistas, três dicotomias desnecessárias que, não obstante,
se tinham erigido em obstáculo dogmático contra a potencialidade mesma
do romance: 1. Realismo versus fantasia e, ademais, versus imaginação; 2.
Nacionalismo versus cosmopolitismo;
3. Compromisso versus formalismo,
artepurismo e outras formas da irresponsabilidade literária.”
Desnecessário dizer que o quadro descrito por Fuentes diz respeito
61
LIVROS
não apenas ao México e à América hispânica, mas também ao Brasil, às polêmicas que, desde o Machado de Assis
de Instinto de nacionalidade e dos grandes
ensaios de interpretação do Brasil (Casa
Grande & Senzala, de Gilberto Freyre;
Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de
Holanda), atravessam uma cultura preocupada em afirmar sua autonomia e
a discutir uma suposta “identidade nacional”.
“É separável o conteúdo de um
romance da forma como responde à
pergunta acerca de como traduzir a
experiência da realidade em formas
específicas?” – indaga Fuentes. Seu
paradigma é Kafka, o autor cujas alegorias metafísicas fincam raízes nos
traumas concretos da história (cancelando assim aquelas “dicotomias desnecessárias”), “o escritor mais realista
do século XX, aquele que com maior
imaginação, compromisso e verdade
descreveu a universalidade da violência como passaporte sem fotografia do
nosso tempo”.
Pontuado por uma série de fórmulas cintilantes, Geografia do romance
poderia ser resumido nas idéias de que
“a imaginação é o nome do conhecimento na literatura e na arte” e de que
“o romance não mostra nem demonstra o mundo, senão que acrescenta
algo ao mundo”.
A cifra de seu engajamento na realidade, portanto, está na forma como
formula os problemas – e que por sua
vez corresponde a um compromisso
com a imaginação (esse valor inalienável), a uma ética da escrita: “A ausência
de uma militância política não subtrai o
62
valor social ou político de uma obra narrativa, pois esta, quanto mais valores literários reúna, melhor cumpre a função
generosa que Milan Kundera lhe atribui:
redefinir perpetuamente os seres humanos como problemas, em vez de entregá-los, mudos e de pés e mãos atados, às
repostas pré-fabricadas da ideologia”.
Sintomaticamente, as análises de
Fuentes começam pela obra de Borges, autor que jamais escreveu um romance! Mas essa aparente contradição
se explica: o romance é um emblema
de uma literatura que – a partir da era
moderna e independentemente dos gêneros – passa a estar em litígio com seu
tempo: “A literatura tornou-se excêntrica em relação às verdades centrais da
sociedade moderna porque a literatura
é o rito em chamas que introduz Deus
com o diabo e o diabo com Deus”.
Geografia do romance
Carlos Fuentes
tradução de Carlos Nougué
Editora Rocco – R$ 29,00, 186 páginas.
Manuel da Costa Pinto é jornalista, coordenador editorial
do Instituto Moreira Salles, colunista da Folha de
S.Paulo, autor de Literatura brasileira hoje (Publifolha)
e apresentador do programa Letra Livre (TV Cultura).
Escritos pela paz
Em algumas frases de horripilante atualidade, se pensarmos no conflito inumano travado hoje no Iraque
ou no confronto fratricida e non sense
entre partidários do Hamas e do Fatah,
na faixa de Gaza, o escritor paraguaio
LIVROS
Augusto Roa Bastos (1917-2005) expressa o conceito irretocável que tinha
das guerras: “As guerras – diz ele, tendo
como foco aquela que trucidou seu país
entre 1865 e 1870, sob a Tríplice Aliança – são ofícios bárbaros onde sempre
se sacrificam mais vítimas inocentes, enquanto os ministros observam, a partir
da frieza dos cálculos e das estratégias –
a logística sem lógica –, as mortes convertidas em baixas e as baixas conversas
da morte rezando o obtuário diário”.
O Livro da Grande Guerra – Quatro Escritores Latino-Americanos e a Guerra
do Paraguai, que contém esse grito pungente de Roa Bastos, junto aos do argentino Alejandro Maciel, do uruguaio
Omar Prego Gadea e do brasileiro Eric
Nepomuceno, não está entre os lançamentos deste ano. Já tem cinco anos,
na verdade, mas o que são cinco anos
quando vamos perdendo a capacidade
da reflexão e o gosto pelo conhecimento? Cada devoto oficia fatalmente
a cerimônia do extermínio como que
em sonhos, obedecendo a sinais cegos,
instintos desconhecidos, confundindo razões com paixões ocultas. Quase
sempre se compara a guerra ao inferno,
mas Roa Bastos vai às últimas conseqüências no primeiro de seus dois textos
nesse livro, ao fazer a analogia da Guerra do Paraguai com o Inferno da Divina
Comédia, e, ainda mais, ao utilizar o recurso metalinguístico do general argentino Bartolomeu Mitre com veleidades
de tradutor da obra máxima de Dante,
em plena campanha. Propositadamente, o escritor mergulha nas semelhanças
entre a carnificina real e a obra funda-
dora da língua italiana e, do confronto,
chega ao asco. Ao perpassar os círculos
infernais em um diálogo com o pintor
paraguaio Cándido López, seu lugar-tenente que havia perdido uma das mãos
e sofria para reproduzir numa tela a batalha de Curupayti, Mitre fica entre o
cinismo e o peso da culpa. Lopez, ao
contrário, pode até nem retratar bem
aquilo que vê, mas sabe do que se trata
e por quê se desencadeou.
O livro ainda contém o último
período de resistência do marechal Solano López e sua esposa, Madame Lynch,
resgatado a partir da releitura das cartas
de sir Richard Francis Burton, cônsul
itinerante do Império Britânico, à rainha
(segundo texto de Roa Bastos); a deserção do capitão argentino Francisco Paunero e a fundação, apogeu e queda do
Quilombo do Gran Chaco, a mítica comunidade pacifista formada por desertores das quatro nações (por Alejandro
Maciel); os arquivos secretos do general
uruguaio Rocha Delipiane (por Omar
Prego Gadea) e a suposta existência do
VII Barão de Ramalho, descendente de
um dos conjurados del quilombo del Gran
Chaco (por Eric Nepomuceno).
O Livro da Guerra Grande – Quatro Escritores Latino-Americanos e a Guerra do Paraguai
Augusto Roa Bastos, Alejandro Maciel, Omar
Prego Gadea e Eric Nepomuceno
Editora Record – R$35.00, 238 páginas.
Ana Maria Cicaccio, jornalista da Associação Viva o
Centro, especialista em literatura e música erudita.
63
AGENDA
FESTIVAL LATINO-AMERICANO
Retrospectiva DE CORDERO
Se há ou não um cinema latinoamericano com acento comum é uma
questão que demanda reflexões. É certo,
contudo, que a produção realizada na região, por sua riqueza estética e temática,
merece ser difundida. É esse o propósito do Festival de Cinema Latino-Americano, que o Memorial realizou, em fins
de julho, já em segunda edição de muito
sucesso. A parceria com a Secretaria de
Estado da Cultura e a Associação do Audiovisual, além da Secretaria de Ensino
Superior, trouxe dezenas de filmes, muitos deles inéditos, e alguns precursores da
cinematografia do Continente. Este ano
realizado em homenagem ao México, especificamente a duas figuras de absoluta relevância para a cultura desse país, o
premiado diretor Paul Leduc e a artista
plástica Frida Kahlo, o festival, como no
ano passado, contou com uma série de
debates que reuniu especialistas de diversas procedências do Continente.
Opere 1960 – 2006, cartaz de setembro da Galeria Marta Traba, trouxe
ao Brasil uma antologia dos 45 anos
de carreira de Riccardo Cordero, desenhista, gravador e escultor que já representou duas vezes seu país, a Itália, na
consagrada Bienal de Arte de Veneza. A
mostra que já havia sido exibida em outras importantes instituições européias,
como o Museo de la Universidad de Alicante, reuniu 56 peças representativas da
evolução estética do artista piemontês,
cujas obras monumentais estão presentes em grandes cidades do mundo.
Etnias NA OBRA DE BONOMI
Inaugurada a primeira fase dos painéis e totens de argila, bronze e alumínio,
criados por Maria Bonomi para a galeria
subterrânea da entrada principal do Memorial, que é o acesso para o metrô Barra
Funda. São representações de personagens, moradias, instrumentos, utensílios,
armas, símbolos, rituais, padrões e vestimentas que contam a vida dos índios, da
pré-história até os dias de hoje.
64
NOVAS LIDERANÇAS POLÍTICAS
O século XXI está desenhando
um cenário ao mesmo tempo rico e difícil para a América Latina. Com o esgotamento do modelo econômico liberal,
o surgimento de novas forças políticas
e de movimentos sociais, há governos
preocupados em revalorizar o protagonismo do Estado. Para compreender
esse novo panorama, o Memorial promoveu o curso de extensão sobre Novas Lideranças Políticas, Movimentos
Sociais e Alternativas de Governo na
América Latina, com a participação de
professores norte-americanos, brasileiros, cubanos e argentinos. Organizado
pelo Centro Brasileiro de Estudos da
América Latina (CBEAL), foi coordenado pelo professor Luís Fernando Ayerbe, da Universidade Estadual Paulista.
AGENDA
Legado DE FRANCO MONTORO
O seminário O Legado de Franco
Montoro reuniu autoridades, políticos e velhos companheiros do ex-governador para
marcar os oito anos de sua morte. Montoro
foi apontado pelos participantes como uma
importante liderança para sua geração, homem democrático, descentralizador e sensível às necessidades do povo. O evento que
foi aberto em 16 de julho, dia exato de sua
morte, apresentou também uma exposição
biográfica e a projeção de um documentário
produzido especialmente para a ocasião. O
projeto começou em maio com a gravação
de 100 entrevistas sobre o ex-governador,
que dá origem ao livro de mesmo nome.
Conexão Latina
Absoluto sucesso de público, fez o
espetáculo da série Conexão Latina que juntou o grupo chileno Illapu à dupla Kleiton
e Kledir no Auditório Simón Bolívar em
fins de setembro. Foram quatro dias com
as duas platéias lotadas, todos os ingressos
esgotados. Kleiton e Kledir, bastante conhecidos pelas composições Deu pra ti e Tri legal,
integraram à MPB nova música gaúcha. O
Illapu tinha uma proposta parecida, quando
foi criado nos anos 70: difundir a música andina chilena com uma nova roupagem.
Homenagem à Bolívia
Tem sido grande o comparecimento
do público à programação dedicada aos países latino-americanos, que foi instituída na
data de aniversário de cada um com o intuito de difundir suas culturas. A Semana da
Bolívia é um bom exemplo. Trouxe 45 mil
pessoas ao Memorial da América Latina.
Música, dança, culinária e artesanato de um
dos países do Continente que mais preservam suas tradições fizeram uma verdadeira
festa de manifestações típicas.
Anima Mundi
O Festival de cinema de animação já
se tornou um dos mais concorridos programas do Memorial da América Latina.
Realizado em julho, e comemorando este
ano seu 15º aniversário, o Anima Mundi
exibiu para uma platéia de aficionados quase 400 realizações de 41 países do mundo
todo. O Anima Mundi tornou-se um dos
mais importantes do gênero e desta histórica edição concorreram mais de mil títulos.
A edição deste ano homenageou Norman
Mc Laren (1914-1987), escocês radicado
no Canadá e um dos realizadores que revolucionaram a técnica da animação.
Mirada histórica
Mirada – Latino-Americanos do
MAC/USP, em cartaz em outubro, foi um
dos destaques da Galeria Marta Traba. Realização antológica, apresentou uma seleção
de 31 obras dos mais importantes artistas
latino-americanos do acervo do Acervo de
Arte Contemporânea da Universidade de São
Paulo, entre eles o cubano Wifredo Lam.
65
AGENDA
PUBLICAÇÕES DO MEMORIAL
Depois da publicação de
Mercosul 15 Anos, resultado
do simpósio de mesmo
nome, o Memorial da
América Latina ao editar
Mercosul Revisitado atualiza as discussões sobre
o Continente e dá inicio
à coleção Cadernos da
América Latina.
A partir de seu conhecimento em artes
plásticas, Einsenstein,
o famoso cineasta russo, formula complexas
propostas visuais e estéticas de seu inacabado
filme mexicano.
REVISTA 25
Número totalmente dedicado a Oscar
Niemeyer, autor do
projeto do Memorial,
e que completa 100
anos em dezembro
de 2007.
O livro reúne depoimentos de ex-presidentes
latino-americanos, como
Fernando Henrique Cardoso (Brasil), Eduardo
Duahalde (Argentina) e
César Gaviria (Colômbia). A publicação é uma
realização do Memorial
da América Latina em
parceria com a Imprensa
Oficial e com a coordenação de Celso Lafer.
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Resultado da programação
inaugural da Cátedra Memorial da América Latina,
o livro de autoria de Luiz
Augusto Horta Nogueira
nos dá a dimensão da questão dos biocombustíveis na
América Latina.
Quatorze títulos da Coleção Memo completam
a centena que reúne os mais destacados nomes
das áreas de literatura, cinema, política, sociologia, artes plásticas...
REVISTA 26
O Estado Laico, a Bienal do Fim do Mundo de Ushuaia, a vida
enigmática de Hemingway em Cuba, são alguns temas abordados
nesta edição da Revista
Nossa América.
Resultado de um curso
internacional, aprofunda
a discussão e complementa algumas idéias debatidas. Acima de tudo,
contribui para a reflexão
do avanço conquistado
pelos países do Continente e do Caribe.
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Fernando Leça Ana Maria Cicaccio Manuel da Costa Pinto Marcelo