ANA GOLDBERGER
A NATUREZA DAS COISAS
UM ESTUDO EM COR E TELA
CURADORIA Teixeira Coelho
ANA GOLDBERGER
A NATUREZA DAS COISAS
UM ESTUDO EM COR E TELA
CURADORIA Teixeira Coelho
ANA GOLDBERGER A NATUREZA DAS COISAS
A arte contemporânea é vasta, a arte contemporânea é
uma multidão, poderia ter escrito Walt Whitman se ele
tivesse vivido hoje e não no início de uma Modernidade
que ele ajudou a configurar. Isso significa que a arte
contemporânea contém o experimental, o instável, o
inédito, o chocante, o bizarro, o violento, o irônico e o
corrosivo mas abre espaço também para a luz e a
suavidade, nas palavras que Matthew Arnold usou para
descrever as funções mais altas e duradouras da arte e
da cultura.
Luz e suavidade são tudo menos previsibilidade e
superficialidade e não excluem a densidade, a reflexão
e uma certa sensação de inquietude, como na arte de
Ana Goldberger. As etiquetas mais clássicas a que se
poderia recorrer para definir sua arte, como natureza morta
e paisagem, são inadequadas. Como indicativas de um
gênero de pintura, servem apenas de meio e pretexto para
que Goldberger busque algo além da realidade das coisas,
como demonstram as diferentes séries de pinturas que
escolhi para este catálogo eletrônico. Em sua arte a
natureza está presente, sim, mas nada mais distante da
idéia de morte do que suas imagens. Mesmo a idéia de
natureza deve ser aqui entendida num sentido específico e
mais rico: não é o simples ícone da exterioridade das
coisas mas de sua essência e de algo que é maior do que
elas e não está nelas, de algo que flutua ao redor delas.
Este é o modo a que recorre a arte de Goldberger para ser
leve, iluminada e suave – com um (necessário) toque de
estranheza, como se verá nas “páginas” seguintes.
Teixeira Coelho
In absentia
Pintar o invisível tem sido uma das obsessões dos
artistas ao longo da história. A questão de fato não é
apenas representar o invisível ou propor-lhe uma
analogia mas realmente pintá-lo. Nestas telas de
Goldberger o invisível paradoxalmente está ali, pode
ser sentido, quase visto. As coisas ao redor dele não
são apenas objetos de um cenário, porém: também
elas têm uma existência real e protagônica além de
parecerem viver para e por causa do que é invisível.
Paisagem com
cadeira e chapéu
146 x 114 cm., 2003
Lado a lado 89x140 cm., 2003
Lado B 114x162 cm., 2003
Opção:verde
90x80 cm., 2002
Devant la porte
146x97cm., 2002
Um universo redondo
O círculo é uma das mais arcaicas imagens da
perfeição. Isto nada tem a ver com a idéia de
geometria, a menos que se esteja falando da utópica
geometria do ser. O círculo não tem início marcado e
nenhum fim visível. É tudo o que a suavidade e a
busca da luz requerem. Seria possível prever sua
presença na obra de Goldberger mesmo sem
conhecê-la toda: é uma questão de coerência artística
entre o projeto de um artista e sua execução. Nestas
telas, porém, o circulo não é uma forma transparente:
sua opacidade é o reconhecimento de que importa
mais procurar a luz, a transparência, a perfeição, do
que encontrá-las...
De la
lumière
61x76 cm., 2002
Qualquer
hora
60x50 cm., 2003
Fazer querer
81x65 cm., 2002
Something 50x70 cm., 2002
Vasos azuis 50x70 cm., 2003
O peso do ser
As linhas de força da arte relevante estão quase sempre
em oposição umas em relação às outras. Divergem
mais do que convergem. A luz, por exemplo, na obra de
Goldberger, não sempre mas muitas vezes tem a
qualidade do pesado: o peso das coisas e do espaço
em que repousam e que, sob este aspecto, deve mais
ser imaginado do que visto. No entanto, a sensação de
peso não é, aqui, nenhuma opressão.
I´m walkin’ 100x110 cm., 2002
Come together 97x130 cm., 2003
Sunday afternoon
100x100 cm., 2003
Let go 100x100 cm., 2003
Vase 100x100 cm, 1998
De perto
As coisas não são para serem vistas à distância. A arte
encurta a distância entre as pessoas e a esfera do
objeto, entre a vida e o mundo. A ação artística ainda
requer que o artista se aproxime de seu objeto, ainda
pede ao artista que mergulhe nos elementos de sua
pintura tanto quando nas coisas que decidiu apreender,
mais do que representar.
Piano, flute´n bass
70x70 cm., 2002
The stars we´re under
70x70 cm., 2002
A plenitude
As imagens de Goldberger estão profundamente
ancoradas na tradição da cultura ocidental:
desgostam do vazio. Pelo menos nesse sentido, essa
tradição alimenta uma conversa íntima com a tradição
de muitas culturas indígenas brasileiras que
tampouco apreciam o vazio. Na arte de Goldberger,
mesmo o vazio está cheio com alguma coisa: o vazio
não pode existir. O vazio, o pesado, o pleno
coexistem.
Provavelmente, precisam aprender a coexistir.
Estudo transcendental 122x178 cm., 2002
Da capo 114x162 cm., 2002
Red sails in the sunset 120x120cm, 2002
Na passagem 120x160 cm., 2002
Amarelo: a memória
A lembrança de girassóis um dia vistos: a arte dialoga
com a arte. Diz-se que na arte moderna e na
contemporânea prevalece a tradição da ruptura. Não no
caso de Goldberger: sua opção é pela continuidade.
Também isso é coerente com o esquema interior de sua
arte: ela tende a incluir mais do que excluir. (O amarelo
pode virar azul ou quase azul, pode ver-se cercado por
azuis: continua a ser a mesma flor, o mesmo sentimento
e o mesmo sentido, porém).
Outras violetas brancas 70x70 cm., 2000
Au bord du lac 89x146 cm., 2003
Fantasmas
Tristes trópicos foi o livro que começou a carreira de
Claude Lévi-Strauss, um livro no qual ele mostra
compreender seu assunto bem demais ou quase
nada. Para começar, nenhum dos habitantes do Brasil
chamaria o trópico que marca o país de triste.
Poderiam concordar que se trata de um tópico triste,
no entanto, que é o trocadilho implícito no título da
obra (um triste tópico de sociologia ou de
antropologia). Curiosamente, este não é um livro que
atraiu a atenção dos artistas tanto quanto poderia ou
deveria. Goldberger sonhou este tema em imagens
que permanecem estranhamente eqüidistantes do
drama, da tragédia e da ironia.
Tristes trópicos: o
antropólogo
140x100 cm., 2002
Tristes trópicos: o
índio
140x100 cm., 2002
Tristes trópicos:
o arquiteto
140x100 cm., 2002
Noite
A noite tem sido um tema raro na arte. E o é também
para Goldberger. No entanto, é seu necessário “outro
lado”, o complemento de suas imagens à luz excessiva
do dia: é um tema embutido na sensação de peso e
vazio que suas imagens quase sempre, e de modo tão
contraditório, provocam.
Nocturne 80X90 cm., 2001
A paisagem
Esta é a quintessência da paisagem de Goldberger:
uma abertura na parede, algo do lado de lá, quase
sempre a natureza; alguma outra coisa aqui, deste
lado; uma ausência; uma “coisa”, a coisa recorrente
em sua pintura: a cadeira, uma cadeira pesada.
Cadeira listrada
146X97 cm., 2001
Verão
Aqui, a noite está longe, acabou – e o invisível nunca foi
tão presente como nesta tela de Goldberger: acaba de
sair de cena e no entanto de algum modo nela continua.
Algo falta, aqui, mas aqui há excesso de algo; há um
lado de lá, fora da janela, mas a maioria das coisas está
aqui. As coisas e as sensações são pesadas e no
entanto nunca foram tão leves. As cores são agressivas;
e no entanto, são elas a base da suavidade. É verão – e
essa é uma pintura que é minha, a “prova do pudim” das
palavras de um crítico.
T.C.
Fim do verão
100x80 cm., 1993
ANA GOLDBERGER
São Paulo, Brasil
Tel&fax: (55-11) 3666.8991
[email protected]
ANA GOLDBERGER
Abroad (a selection)
2000 Wanderungen, Kulturagentur/Galerie 3, Berlim
2000 Projeto Brasil Contemporâneo, Quinta
das Cruzadas, Sintra, Portugal
2000 As cores e as coisas, Espace Quadra, Paris
In Brazil (a selection)
2003 São Paulo Nossa Cidade, MASP Centro, São Paulo
2000 Pequenos formatos, Caribé Galeria de
Arte, São Paulo
1998 Anima, A Galeria, São Paulo
ANA GOLDBERGER A NATUREZA DAS COISAS
Uma produção A NATUREZA
Todos os direitos reservados.
Reprodução das imagens sob permissão
da artista e dos colecionadores.
2003
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