Apropiación Social de la Ciencia y la
Tecnología
MedellÍn, Colômbia, outubro de 2010.
Linguagens e histórias da ASCT:
perspectivas educativas

Suzani Cassiani – [email protected]
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

Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica
DICITE – Grupo de Estudos e Pesquisas Discursos da Ciência e da
Tecnologia na Educação
Universidade Federal de Santa Catarina
Questionamentos:
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O que é um ensino crítico? O que é necessário
para promover um ensino crítico? Quais os
sentidos de cidadania e inclusão social?
De que ciência e tecnologia estamos falando?
Que ciência e tecnologia queremos ensinar? Em
que sociedade? Em que contexto?
Que sentidos de apropriação social da C & T
estamos construindo? Para quê?
Até que ponto a educação formal e não formal
contribuem para essa apropriação?
Perspectiva teórica e analítica
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Análise de Discurso de Linha francesa (Michel Pêcheux
e Eni Orlandi).
 Leitura
compreendida como interpretação
 Linguagem não é transparente
 Contribuições para a educação
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Educação CTS Latino-americana
A escola como um possível espaço
de resistência para uma sociedade mais
justa, menos desigual

 Romper
com a visão de neutralidade da ciência
Discurso é “Efeito de sentidos entre
interlocutores”
4
Toda leitura constitui-se como
interpretação e não somente
decodificação;
 Portanto, as leituras podem
ter sentidos diferentes;
 Assim, os sentidos não estão
dados, para serem apenas
decodificados, mas são
construídos no ato do discurso.

Orlandi, 2003, p. 21
Exemplo: desnaturalização da
linguagem – ciência não neutra

PRECONCEITO EM LIVROS DIDÁTICOS:

os óvulos são apontados como fracos e passivos;
 os
espermatozóides são caracterizados como ativos,
ágeis e fortes;
 sentidos
construídos sobre os papéis femininos e
masculinos ensinados nas escolas.
NÃO NEUTRALIDADE DA CIÊNCIA

“A apresentação clássica, dominante por séculos,
enfatizava o desempenho do espermatozóide e
relegava o óvulo ao papel coadjuvante da Bela
Adormecida.... O óvulo era central nesse drama, mas
era um personagem tão passivo quanto a princesa
dos irmãos Grimm. Agora se torna claro que o óvulo
não é apenas uma grande esfera cheia de gema que
o espermatozóide perfura para dotar de vida nova.
Pesquisas recentes sugerem a visão quase herética de
que espermatozóide e óvulo são parceiros
mutuamente ativos”.
CIÊNCIA TEM HISTÓRIAS
HOMÚNCULO JÁ ESTAVA PRONTO NO
ESPERMATOZÓIDE
ÓVULO APENAS UM TERRENO DE SEMEADURA
O QUE É
DISCURSO?
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Código
Mensagem
Emissor
Receptor
Referente
O QUE É DISCURSO?
Código
DISCURSO
Mensagem
Receptor
Interlocutor
Interlocutor
Emissor
Referente
História
Ideologia
Cultura
9
Discurso é
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
um ato em que interlocutores se
encontram para enunciar e produzir
sentidos sobre as coisas. É, ao mesmo
tempo, uma enunciação do mundo e uma
leitura do mundo, realizada por sujeitos,
que são constituídos, subjetivamente, por
todo um contexto histórico-social.
Conceitos importantes da Análise
do Discurso
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Textos são produzidos na interação;
Não há separação entre forma conteúdo;
Silêncios são constitutivos da língua




quando há censura há resistência:
Por ex.. músicas do Chico Buarque na ditadura
“Pai afasta de mim esse cálice” ou
“ Pai afasta de mim esse cale-se!?
Conceitos importantes da Análise
do Discurso

As condições de produção dos discursos podem
provocar efeitos de sentidos que os torna outros.

Há jogo na língua entre paráfrase e polissemia;

Estudantes como autores de seu próprio dizer.
EDUCAÇÃO CTS


possibilitar uma formação para maior inserção
social das pessoas para se tornarem aptas a
participar dos processos de tomadas de decisões
conscientes e negociadas em assuntos que
envolvam C&T.
favorecer um ensino de/sobre ciência e tecnologia
que vise à formação de indivíduos com a
perspectiva de se tornarem cônscios de seus
papéis como participantes ativos da
transformação da sociedade em que vivem.
(LINSINGEN, 2007)
EDUCAÇÃO CTS


visa à formação de um cidadão consciente, onde a
participação é um elemento de emancipação e
mudança social. Mas essas ideias possuem
implicações que vão muito além do desejo de
construção de inserção social para um consumo
consciente e para a sustentabilidade.
Essas questões remetem para a polissemia de CTS e
a importância de refletir sobre educação CTS na
America Latina.
Discursos dominantes sobre C&T
NA ESCOLA
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A ESCOLA contribui para a manutenção dos
modelos hegemônicos de entendimento da C&T e
suas relações com a sociedade;
Os conhecimentos/conteúdos ensinados, que partem
de um currículo histórica e socialmente construído,
sedimentam-se nessas percepções de C&T;
Esses conhecimentos apresentam um grande
distanciamento dos tempos entre a produção desses
sentidos de/sobre C&T e a circulação e
socialização dos mesmos.
ESCOLA NÃO É APENAS MAIS UMA
ENGRENAGEM DO SISTEMA
E SIM UM ESPAÇO DE RESISTÊNCIA
Discursos dominantes sobre C&T
NA MÍDIA

Um lugar que informa e ensina sobre C&T. Só que
diferentemente da escola, que parte do seu papel
de formar (e não só informar) cidadãos críticos para
o exercício da cidadania, a mídia apresenta outros
objetivos ao divulgar e ensinar C&T, como por
exemplo, um lugar de formação do consumidor e
da propaganda de produtos.
Contribuições: 1º EXEMPLO
FUNCIONAMENTO DA LEITURA

De que forma as
histórias de leituras
dos estudantes e
professores
influenciam em sua
constituição enquanto
leitores?


Como os estudantes e
professores se
percebem enquanto
leitores?
Que sentidos os
estudantes
estabelecem para a
linguagem nas
ciências e sua leitura?
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Sobre a escrita: a polissemia não
é trabalhada na escola
IMPORTÂNCIA DAS HISTÓRIAS DE
LEITURAS

[...] todo leitor tem sua história de leitura. O conjunto
de leituras feitas configuram, em parte, a
compreensibilidade de cada leitor específico.
Leituras já feitas configuram – dirigem, isto é,
podem alargar ou restringir a compreensão do
texto de um dado leitor, o que coloca, também
para a história do leitor, tanto a sedimentação de
sentidos como a intertextualidade, como fatores
constitutivos de sua produção.
Condições de produção de sentidos
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•
•
•
•
interlocutores (autor e a quem ele se dirige);
contexto histórico-social de formulação do
texto;
os lugares (posições) em que eles (os
interlocutores) se situam e em que lugares
são vistos;
as imagens que fazem de si próprios e dos
outros, bem como do objeto da fala – o
referente.
Almeida, 2004, p. 33
Fala de um estudante de ensino médio

“Ler não basta. Precisamos compreender o que se foi lido e
para isso precisamos também debater sobre. No caso,
obtemos dois textos de gêneros diferentes, um com criações
que nos levam a pensar além e outro científico e por assim
ser, direto. Creio que expandir conhecimentos, não seria
somente ler um texto quimicamente correto, sem
dificuldades, mas sim ler algo que proporciona a pessoa
buscar novos horizontes, saber interpretar e ter a
consciência de que, assim como um texto repleto de
conclusões, com um único objetivo é a sociedade capitalista
de hoje.”
2º. EXEMPLO: FORMAÇÃO DE
PROFESSORES
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Romper com a forma tradicional de ensino
Ensino-aprendizagem não é transmissão de conhecimentos
Romper a visão de ciência e tecnologia neutra, higienizada de
conflitos, polêmicas, erros, etc e , fragmentada, feita por
cientistas geniais)
Repensar currículo (no seu sentido amplo)
 Formas - problematizações
 Conteúdos – romper tradição seletiva dos conteúdos,
enfatizar que os conceitos tëm uma história)
 avaliação – levar em conta mecanismo de antecipação
 temas (ligados ao cotidiano dos estudantes)
A linguagem não é transparente! Olhar para o seu
funcionamento
Há sempre interpretação em qualquer fato observado.
PROBLEMATIZAÇÕES INICIAIS
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Que ciência e tecnologia queremos ensinar?
Quais temas são relevantes para uma comunidade?
Como trabalhar numa perspectiva em que os seres
humanos também fazem parte do “ambiente”?
Como fazer uma discussão de forma
problematizadora? O que é um problema?
É possível trabalhar sem a fragmentação existente na
produção da ciência?
Como movimentar as concepções alternativas dos
educandos?
FALA DE UMA ESTUDANTE DE LICENCIATURA
“Queria ter a oportunidade de tentar interferir nesse ciclo
que promove a manutenção do sistema capitalista, através
da formação de pessoas com uma visão mais crítica a
respeito do mundo que as rodeia. No entanto, as coisas não
eram tão simples como eu imaginava. Eu tinha em mente que
bastava você ser uma pessoa apaixonada pelo ato de
ensinar, uma pessoa de bom senso com uma visão crítica de
mundo e com consciência dos problemas que acometem as
instituições de ensino, que você já seria um ótimo educador.
Mas através desta prática pude perceber que essas
características são realmente muito importantes, mas tem
muito mais por trás de uma aula bem sucedida” (DANI).
3º. EXEMPLO: MÍDIAS E DIVULGAÇÃO
CIENTÍFICA
 Investigação
dos Discursos sobre Ciência no Jornal
Nacional (Jornal televisivo visto por 90% da
população brasileira)

Gravações durante dois meses, durante a discussão
e aprovação da lei de biossegurança nacional:
o
plantio e venda de transgênicos, não foi
mencionado em nenhuma chamada ou em nenhum
momento das reportagens;
 ênfase sobre o uso de células tronco e apelos aos
problemas dos cadeirantes;
 embate entre o discurso religioso e o discurso científico.
Silêncios do Jornal Nacional
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Simplificações exageradas;
Descontextualizações da vida cotidiana;
Apagamentos de sujeito e de referente;
Uso de falas autoritárias;
Construção de um discurso didático para “vender”
as notícias.
Discursos sobre Ciência no Jornal Nacional
“Os cientistas que criaram a ovelha Dolly
receberam hoje permissão do governo britânico
para clonar embriões humanos. Os pesquisadores
pretendem usar a mesma técnica que produziu a
ovelha Dolly há oito anos. E dizem que não
querem criar cópias de seres humanos, e sim,
estudar como se desenvolve a esclerose lateral
ameotrófica, uma doença que afeta o sistema
nervoso, paralisa os músculos e é fatal na
maioria dos casos”.
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Contribuições da Análise do Discurso e
Educação CTS
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Superar da visão instrumental da linguagem. É
preciso perder a ingenuidade da transparência da
linguagem e de sua neutralidade, em nosso caso o
foco no discurso científico, seja no cerne da produção
da ciência, seja no seu ensino.
Olhar para a escola como local de resistência a estas
práticas. Além disso, outros ambientes onde circulam
os discursos da C&T possam ser abordados e
problematizados.
Repensar a leitura e escrita, em escolas públicas com
crianças das classes populares.
Contribuições da Análise do Discurso e
Educação CTS
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Questionar as possibilidades de sentidos de um texto
e como este pode produzir sentidos diferenciados
para a formação de um leitor crítico que continue a
ler mesmo fora da escola.
Enfatizar os processos, os contextos, as histórias, as
expectativas, mais que os produtos da ciência.
Proporcionar reflexões aos estudantes sobre seu
papel enquanto leitores em aulas de ciências e para
que sejam autores de seu próprio dizer.
Os professores precisam repensar seus modelos de
ser professor e seus modelos de leitura.
REFERÊNCIAS
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ALMEIDA, M. J. P. M. de. Discursos da Ciência e da escola: Ideologias e leituras possíveis.
Campinas: Mercado de Letras, 2004. 127p. ISBN 9788575910337
CASSIANI, S. Leitura e Fotossíntese: Proposta De Ensino Numa Abordagem Cultural. 2000. 313
f.Tese (Doutorado em Educação)- Faculdade de Educação, UNICAMP, Campinas.
CASSIANI, S. Condições de produção de sentidos em textos didáticos. Ensaio- Pesquisa em
educação em ciências. Belo Horizonte v.8, nº1, Jul. 2006. Disponível em:
http://www.fae.ufmg.br/ensaio/v8_n1/condicoes_producao.pdf. Acesso em: 15 mar 2009.
LINSINGEN, I. (2007): Perspectiva educacional CTS: aspectos de um campo em consolidação
na América Latina, Revista Ciência e Ensino Online, v.1, Número Especial: "Educação em
Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente", UNICAMP, acessível em
http://www.ige.unicamp.br/ojs/index.php/cienciaeensino/issue/view/15
ORLANDI, E. P. Interpretação: Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis, Rio de
Janeiro: Editora Vozes, 1996. 150p. ISBN 85-326-1606-2.
ORLANDI, E. P. Discurso e leitura. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1993. 117p (Coleção passando a
limpo). ISBN 85-249-0114-4.
PÊCHEUX, Michel. O discurso. Estrutura ou acontecimento. Trad. de Eni Pulcinelli Orlandi.
Campinas: Pontes,1990.
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MUCHAS GRACIAS!!!
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Leitura em aulas de Ciências: Análise de Condições de Produção.