2 - Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
BEM-AVENTURADOS – O AT às vezes empregava fórmulas de felicitações como essas,
falando de piedade, de sabedoria, de prosperidade Salmo 1: 1 e 2; 33: 12; 127: 5 e 6;
Provérbios 3: 3; Eclesiástico 31: 8. No espírito dos profetas, Jesus lembra que também os
pobres participam de suas bênçãos: As três primeiras bem aventuranças Mateus 5: 3 a 5;
Lucas 6: 20 e 21 declaram que as pessoas comumente tidas como infelizes e amaldiçoadas
são felizes, estão aptas para receber a bênção do Reino. As Bem aventuranças seguintes se
referem diretamente à atitude moral do homem. Outras bem aventuranças de Jesus Mateus
11: 6; 13: 16; 16: 17; 24: 26; Lucas 1: 45; 11: 27 e 28; Apocalipse 1: 3; 14: 13; etc1.
1 BJ,
p. 1.845.
2
As primeiras palavras de Cristo ao povo, no monte, foram de benção1.
Significa feliz, descreve a condição interior de um seguidor de Cristo e lhe prometem
bênçãos no futuro2.
Antes de estudar em detalhes cada uma das bem aventuranças há dois fatos
gerais que devemos observar.
1. A primeira parte de cada Bem aventurança não há nenhum verbo. Se poderia
esperar que depois da primeira palavra aparecesse o verbo. Porque é assim? Jesus não disse
as Bem aventuranças em grego, Jesus falou em aramaico, língua parecida com o hebraico.
Estes dois idiomas tem uma forma de expressão corrente que na realidade é uma
exclamação que quer dizer: Oh bem aventurados! Essa expressão hebraico: ashrê é muito
freqüente no AT. Exemplo o primeiro Salmo inicia em hebraico Oh Bem aventurado o
homem que não anda no conselho dos ímpios! Salmo 1: 1, que é a forma que usou Jesus
para as Bem aventuranças, não são simplesmente afirmações, são exclamações.
Oh Bem aventurados os pobre de espírito!
1
DTN, p. 282.
2 Bíblia Anotada, Editora Mundo Cristão, Charles C. Ryrie, 1187.
3
Isto tem muita importância, porque quer dizer que as Bem aventuranças não são
esperanças de piedade de algo que pode ser, não são palavras irreais ou alguma profecia
futura, são felicitações de algo que está presente.
A Bem aventurança oferecida ao cristão não é proposta para o futuro no reino da
glória, mas existe aqui e agora. Não é algo que o cristão entrará, é algo em que ele está
dentro.
É verdade que alcançará a plenitude e sua consumação na presença de Deus,
mas é uma realidade presente que se desfruta agora. As Bem aventuranças dizem com
efeito: Oh que bênção é ser cristão! Que alegria servir a Cristo! Oh que imensa felicidade
de conhecer Jesus como Mestre, Salvador e Senhor. A mesma forma gramatical das Bem
aventuranças é uma afirmação da emoção jubilosa e radiante dita da vida cristã. Ante a
realidade das Bem aventuranças, um cristão triste e tenebroso é inconcebível.
4
2. A palavra Bem aventurado que se usa em cada verso é uma palavra muito
especial. É a palavra grega Makarius, um termo que se aplica especialmente aos deuses.
No cristianismo se participa da alegria de Deus.
O sentido de makarius se pode compreender melhor com o uso particular desta
palavra. Os gregos chamam a ilha de Chipre hê makaria forma feminina do adjetivo, que
quer dizer: A ilha feliz, porque criam que Chipre era tão preciosa, tão rica, tão fértil que
não havia necessidade de buscar nada mais além de suas costas para encontrar a vida
perfeitamente feliz. Tinha tal clima, folhas, frutos e árvores, minerais e recursos naturais
que continham todos os materiais necessários para a perfeita felicidade.
5
Makarius descreve esse gozo que é sereno inalterável e auto-suficiente, o gozo
que é completamente independente de todos os problemas e dificuldades da vida. A
palavra Bem aventurados revela sua origem. Contém a palavra ventura que indica algo
que depende das circunstâncias da vida, algo que a vida pode dar como pode também
destruir. A bênção cristã é totalmente inexpugnável e indestrutível. Nada, disse Jesus,
Vossa alegria ninguém poderá tirar. João 16: 22. As bem aventuranças nos falam desta
alegria que nos busca, e mesmo na dor e na lágrima que pode afetar este gozo, mesmo a
morte, nada nos pode arrebatar esta esperança futura e o gozo presente desta bênção.
O mundo pode dar seus prazeres e pode igualmente perdê-lo. As mudanças da
fortuna, o colapso da saúde, o fracasso de algum plano, a desilusão de uma ambição, até a
mudança no clima pode trazer e levar a alegria frágil que o mundo pode dar. O cristão tem
o gozo sereno e inalterável que vem de poder caminhar sempre na companhia e na
presença de Jesus Cristo.
6
A grandeza das Bem aventuranças é que não são vislumbres imaginários de
alguma beleza futura, não são promessas douradas de alguma glória distante, são gritos
triunfantes de bênçãos por um gozo permanente que nada no mundo pode arrebatar1.
Grego: makario, cujo singular, makário significa feliz, afortunado; corresponde
com o Hebraico ashre, feliz, bendito. As palavras ashre e makários se traduzem bem
aventurado na RVR nas outras traduções são ditoso, que aparece em II Crônicas 9: 7;
Salmo 34: 8; 106: 3; 137: 9; Provérbios 20: 7; Isaias 32: 20; Atos 26: 2; I Corintios 7:
40; e bendito, I Timóteo 1: 11.
A palavra makários aparece nove vezes nos versos 3 a 11. Mas os versos 10 e 11
se referem ao mesmo aspecto da vida cristã, devem considerar-se como uma só entidade,
pelo qual são oito e não nove as bem-aventuranças. Lucas só menciona quatro: a primeira,
a quarta, a segunda e a oitava de Mateus, nesse ordem Lucas 6: 20 a 23, mas adiciona
quatro ais correspondentes versos 24 a 26.
1
Comentário ao Novo Testamento, Mateus, vol. 1, William Barclay. Editora Clie, pp. 107
e 109.
7
Nas primeiras palavras do Sermão do Monte, Cristo se dirige ao desejo supremo
de todo coração humano: o da felicidade. Esse desejo foi implantado no homem pelo
Criador mesmo, e originalmente tinha o propósito de levá-lo a encontrar a verdadeira
felicidade mediante a cooperação com Deus que o criou. Incorre-se em pecado quando o
homem tenta encontrar a felicidade como um fim em si mesma, passando por alto a
obediência aos requerimentos divinos.
Assim, no começo de seu discurso inaugural como Rei do reino da graça divina,
Cristo proclama que o principal propósito do reino é o de restaurar no coração dos homens
a felicidade perdida no Éden e que os que escolham entrar pela porta estreita e o caminho
estreito, Mateus 7: 13 e 14 encontrarão a verdadeira felicidade. Acharão paz e gozo
interiores, satisfação verdadeira e durável para o coração e o alma, que só se conseguem
quando a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento está presente para guardar o
coração e o pensamento Filipenses 4: 7. Quando Cristo voltou ao Pai, deixou com seus
seguidores essa paz que o mundo não pode dar João 14: 27.
8
Só podem ser felizes os que têm paz com Deus Romanos 5: 1 e com seus
semelhantes Miquéias 6: 8, que caminham conforme aos dois grandes mandamentos da
lei de amor Mateus 22: 37 a 40. Só os que são verdadeiros súditos do reino da graça
atingem essa disposição da mente e do coração1.
Jesus estabeleceu o primeiro passo no que conduz a felicidade e a santidade
em sua declaração inicial. Esta declaração sacudiu os discípulos tanto como a multidão,
ficaram surpresos e atônitos, lhes pareceu paradoxo e contraditório. Como poderia ser
Bem aventurado ou feliz as pessoas que haviam sido golpeadas pela pobreza? Isto não
fazia sentido, e esta declaração contraria a expectativa de um Messias que estaria
rodeado de glória e grandeza real.
Este ensino era estranho porque no conceito popular os ricos eram
especialmente favorecidos por Deus2.
A felicidade não é de origem externa, sim interna. Não depende do que
possuímos ou fazemos, sim do que somos em caráter3.
1
CBASD, vol. 6, pp. 315 e 316.
2 Camino de Felicidad, Taylor G. Bunch, 23.
3 Camino de Felicidad, Taylor G. Bunch, 26.
9
As Bem aventuranças, como são geralmente chamadas são descrições numa
forma exclamatória das qualidades que devem ser encontradas, todas elas, e de fato o
são, em vários graus, na vida dos que se submetem ao domínio soberano de Deus. Elas
são também uma declaração das bênçãos que já experimentam em parte os que irão
gozar mais plenamente na vida futura todos os que revelam tais virtudes. O tempo
verbal futuro usado na descrição daquelas bênçãos nos versos 5 a 9 enfatiza sua certeza,
e não simplesmente o seu aspecto futuro. Os que choram serão certamente consolados,
etc. As Bem aventuranças em Mateus parecem ser oito em número, pois no verso 11
Jesus abandona a forma exclamatória Bem aventurados sois vós. As oito qualidades
aqui indicadas, quando integradas umas às outras nenhuma delas pode de fato existir
sem as demais formam o caráter daqueles que, únicos, serão aceitos pelo divino Rei
como seus súditos 3 e 10 os únicos que o poderão ver, sendo ele invisível 8 os únicos
dignos de serem seus filhos 9.
10
Conseqüentemente qualquer pessoa que se diga filho de Deus, ou que diz
conhecê-lo, ou pertencer a seu reino, ou ser membro de seu corpo, a Igreja, em suma,
todos aqueles em que seja notória a ausência destas qualidades, é mentiroso e não
conhece a verdade. Muitas destas qualidades já haviam sido consideradas como
benditas pelo salmista. Mas quando foram combinadas por Jesus, formando uma
espécie de mosaico do caráter cristão, ele realizou um benefício ímpar1.
1
Mateus, Introdução e Comentário, R. V. G. Tasker, Mundo Cristão, pp. 48 e 49.
11
As bem aventuranças são promessas feitas aos discípulos fiéis do reino dos
céus. Apesar de Jesus ter proferido estas palavras originalmente a Israel, não há que
duvidar que Ele queria que se aplicasse plenamente ao novo Israel, a igreja. O
evangelho de Mateus foi escrito quando a era cristã tinha cinqüenta anos e não tem
sentido supor que não tencionava ser um documento inteiramente cristão. Os discípulos
de Cristo aprendem e se apegam a Ele, confiam Nele e em suas palavras explicitamente.
Não pode haver reservas na dedicação a Ele e as suas palavras. As bem aventuranças
mostram como seremos abençoados se fizermos disso uma regra para nossas vidas. Os
crentes seriam oprimidos pelo mundo reflexo da perseguição de Domiciano, que a
igreja sofria quando este evangelho foi escrito. Mas os oprimidos haverão de obter a
vitória, com uma lealdade a seu Senhor. As bem aventuranças mostram que, para Jesus,
a retidão é mais do que a súmula de seus mandamentos: é uma total atitude de mente,
uma forma particular de caráter. Aqueles que são elogiados no evangelho são homens e
mulheres humildes, amorosos, confiantes, fiéis e corajosos. Ainda não são perfeitos, mas
são convertidos. Seus interesses e desejos se voltam na direção do Reino de Deus
12
Bem aventurados. Essa palavra e suas cognatas são usadas cinqüenta vezes no
NT expandiu e dignificou quanto ao seu sentido. A raiz original no grego clássico,
significa grande e desde cedo foi usada como sinônimo de rico freqüentemente aludindo à
prosperidade externa não espiritual. Na literatura grega primitiva, era a palavra aplicada
aos deuses e a sua condição de felicidade, em contraste com a situação medíocre do
homem. Os filósofos gregos usavam-na dotada de certo elemento moral, e algumas vezes
indicavam por meio dela, que a felicidade resulta da excelência de caráter. Alguns
intérpretes acreditam que o uso que Jesus fez desta palavra se referem às idéias das
expressões hebraicas usadas no Salmo 1: 1; 32: 1 e 112: 1, onde a palavra hebraica ashrê
ou quão feliz! Indica a condição de felicidade em vista. As Bem aventuranças declaram
quem são felizes aos olhos de Deus. O uso neotestamentário tem sugerido a idéia de
inteira felicidade até as regiões espirituais. A verdadeira felicidade inclui aquele Bem
estar ou estado de Bem aventurança associado à correta relação do homem para com
Deus. Esse mesmo vocábulo é aplicado aos mortos que descansam no Senhor, Apocalipse
14: 13, e esse uso é extremamente instrutivo. Bem aventurados os que vivem no Senhor, é
essencialmente isso que Jesus dizia, ao pronunciar as bem aventuranças.
13
As bem aventuranças constituem promessas dos benefícios inerentes ao
Reino do céu, pois os que a ele pertencem saberão o que significa ser consolado, herdar
a terra, ser satisfeito, obter misericórdia, ver a Deus e ser chamado filho de Deus. As
bem aventuranças ilustram de imediato que a nova lei de Jesus consiste em mais do que
a simples observância de determionado número de preceitos. Jesus alude aqui às
atitudes da mente e do coração, e não apenas aos atos que podem ser vistos pelos
homens. Os seus discípulos são homens e mulheres dotados de humildade, amor,
confiança, fidelidade e coragem1.
FELIZ - Hebraico: ashre. Das 26 vezes que aparece este termo nos Salmos,
a RVR o traduz 24 vezes como bem aventurado e 2 vezes ditoso. Nesta passagem parece
usar-se como uma interjeição: Oh, a felicidade do homem! A felicidade compreende
bênçãos materiais e espirituais, já que ambas são o resultado de andar pelos caminhos
de Deus. Nas bem-aventuranças do Sermão do Monte Mateus 5: 3 a 11 usa-se a
palavra grega makários, bem aventurado. A LXX usa essa mesma palavra para traduzir
o termo ashre no Salmo 1. O livro de Salmos começa com uma bem-aventurança e
conclui com um aleluia Salmo 1502.
1
ONTIVV, Russell Norman Champlin, Ph. D. Vol. 1, p. 303.
2 CBASD, vol. 3, p. 636.
14
SALMO 1: BÊNÇÃO OU MALDIÇÃO PARA TODOS
Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se
detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.Ele
é como árvore plantada junto à corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu
fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os
ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa. Por isso, os
perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos.
Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios
perecerá. Salmo 1: 1 a 6.
15
Este poema é uma introdução de encaixe ao livro de 150 Salmos. Revela o padrão
básico da sabedoria e adoração de Israel. A vida é vista não nos momentos isolados do
presente, mas na perspectiva da eternidade, na visão de Deus. O autor conecta vida humana
intimamente com a vontade e o coração de Deus. O Salmo lança um apelo desafiador a
Israel, e a todos os que buscam a bênção de Deus, a voltar à Sua Palavra revelada para
receber o verdadeiro conhecimento de Deus e andar a luz de Sua sabedoria.
O caminho da bênção está aberto diante do homem mediante uma vida de
companheirismo incessante com o Deus de Israel. Não é de maneira nenhuma um atalho em
que a razão humana pode descobrir por si só, mas é um dom do Redentor de Israel. Como a
fonte de vida, o Senhor mostra o modo de vida. Todos os outros caminhos conduzem à
ruína. Tais cursos de vida escolhidos pelo eu são por definição o oposto do modo do
Senhor, modos que divergem de Sua lei. Os que rejeitam o Senhor, o Deus de Israel, e a Sua
lei são descritos em condições negativas como os irreligiosos Salmo 119: 51 e 78 porque
não há nenhum outro Deus além do Senhor. Pois quem é Deus além do SENHOR Iahweh?
E quem é rocha senão o nosso Deus? Salmo 18: 31.
16
Os Salmos de Israel tencionam atrair a todas as nações para adorar o Deus de
Israel como o único Deus vivo Salmo 2: 10 a 12; 115; 117. Mais que isso, eles
definitivamente prevêem muitos adoradores do Senhor entre as nações gentílicas Salmo
87: 4. Várias razões são determinadas para a efetividade deste apelo universal do Deus de
Israel. O Senhor é o Criador do mundo e de todos os homens. Salmo 24: 1; 96: 4 e 5. O
Senhor é o Salvador de todos os que escolhem adorá-Lo. Salmo 105; 106; 2: 12; 34: 8.
O Senhor é o soberano Monarca do mundo que restaurará justiça, paz, e prosperidade
na Terra. Salmo 2; 46 e 72. O Senhor é o Juiz de todos os homens, que retribuirá ao
homem de acordo com as suas obras. Salmo 62: 12; 96: 10 a 13.
Pelo fato de que nenhum outro deus salvou Israel de sua escravização do Egito,
o Senhor fez uma reivindicação exclusiva no amor e lealdade de Israel. Se uma voz
surgisse entre Israel, insistindo com eles para servirem a outros deuses que podem
executar milagres, tal profeta ou vidente seria posto à morte, pois pregou rebeldia contra
o Senhor, vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito e vos resgatou da casa da
servidão, para vos apartar do caminho que vos ordenou o Senhor. Deuteronômio 13: 5.
17
Isto mostra como a Torah de Israel fez da adoração do Senhor um assunto de
suprema importância, uma questão de vida ou morte. A última crença era: Ouve, Israel, o
Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. ou: o Senhor só Deuteronômio 6: 4. A posição de
Israel diante do Senhor era de uma nação redimida e santa, de filhos do Senhor, de seu
tesouro pessoal. Deuteronômio 14: 1 e 2.
Antes do povo escolhido entrar na terra prometida, Moisés bendisse Israel desta
maneira: O Deus eterno é o seu refúgio, e para segurá-lo estão os braços eternos...
Como você é feliz, Israel Quem é como você, povo salvo pelo Senhor? Ele é o seu
abrigo, o seu ajudador e a sua espada gloriosa. Deuteronômio 33: 27, 29.
Este privilégio único da eleição divina não excluiu mas antes inclui uma solene
responsabilidade: Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que
coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a
vida, para que vocês e os seus filhos vivam, e para que vocês amem o Senhor, o seu
Deus, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele. Pois o Senhor é a sua vida, e ele
lhes dará muitos anos na terra que jurou dar aos seus antepassados, Abraão, Isaque e
Jacó. Deuteronômio 30: 19 e 20.
18
Como fundamento do Livro de Salmos, o primeiro Salmo pressupõe a Torah e a
história da salvação de Israel, a redenção do Êxodo e a aliança da graça em particular. Este
poema de sabedoria coloca diante de Israel e das nações o desafio constante para escolher
o Senhor e o Seu modo de vida para homem.
Israel como um povo, depois de herdar a terra prometida, escolheu de fato andar
na aliança do Senhor? O Livro de Juízes descreve como, depois da morte de Josué, que
conduziu Israel a Canaã, surgiu uma geração que não conhecia o Senhor e o que ele
havia feito por Israel. Então os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram
culto aos baalins. Abandonaram o Senhor. Juízes 2: 10 a 12. Esta era a triste realidade.
Revela tanto o poder destrutivo do coração natural do homem, que tende a confiar em seus
próprios critérios, quanto à importância vital de conhecer o Senhor e de andar em Seus
caminhos. A história de Israel ensina dramaticamente a indispensabilidade da Torah. O
povo que conhece a Deus mediante o conhecimento da Torah será abençoado. Bem
aventurado é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para a sua
herança. Salmo 33: 12.
19
Bênçãos e Maldições São Favores da Aliança
O Salmo 1 convida Israel a comparar a bênção divina do justo com a maldição
divina sobre o ímpio. Os cânticos sagrados de Israel começam com uma beatitude, uma
invocação de bênção: Bem-aventurado o homem... No Sermão no Monte, Jesus
começou também com beatitudes: Bem-aventurados os... Mateus 5. Isto implica
felicidade para a pessoa que aceita o Senhor como o seu Mestre. A pessoa é descrita
primeiro no que ela não está fazendo verso 1, então no que ela faz verdadeiramente ou
desfruta verso 2. A intenção é, não um quadro de alguma ação incidental do homem, mas
uma caracterização do seu caminho ou padrão de vida: ...que não anda no conselho dos
ímpios ou planos, pensamentos, não se detém no caminho dos pecadores ou padrão de
vida, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Salmo 1: 1.
20
O caminho do ímpio é descrito aqui como uma vida de escravidão completa em
pecado. Seus pensamentos, quer dizer, o seu coração, corrompe os seus atos e palavras da
mesma maneira que uma fonte suja polui suas próprias correntes.
Feliz é o que evita tal modo de vida, porque o ímpio não tem paz, felicidade,
bênção na vida. Por outro lado, onde o homem abençoado acha as suas alegrias? Antes, o
seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. verso 2.
Esta caracterização que menciona duas vezes a lei de Deus, a Torah não
descreve um piedoso fariseu legalista como o vemos no NT. A lei de Deus não é um jugo
ou fardo ao cantor do salmo. Pelo contrário, o seu prazer está na lei do Senhor. O seu
coração está nela, porque a lei de Deus está no seu coração, como declarado em outros
salmos: Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua
lei. Salmo 40: 8. Ele traz no coração a lei do seu Deus; nunca pisará em falso. Salmo
37: 31.
21
Estes testemunhos de comunhão com o Senhor indicam que também os antigos
santos experimentaram a aliança da graça de Deus! Eles caminharam com Deus e
receberam o que o Senhor tinha prometido a todos os crentes: Porei a minha lei no
íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão o meu
povo. Jeremias 31: 33; Ezequiel 36: 26 e 27. Para tal, à vontade e a lei santa de Deus não
são mais um comando externo que não encontra nenhuma resposta interna no coração.
Pelo contrário, o coração que prova a bondade perdoadora do Senhor está sendo recriado
ou é transformado em seus desejos íntimos pelo Espírito de Deus. Os Salmos que tratam
da Torah Salmo 1; 19; 119 todos testemunham de uma alegria religiosa que o apóstolo
Paulo expressou nas palavras: No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus.
Romanos 7: 22. Isto não nega que Paulo tivesse um conhecimento mais profundo do
pecado e da graça por meio de Cristo. Só afirma que a religião cristã de fé em Cristo
Jesus não é basicamente diferente daquela dos salmistas de Israel. Cristo restabeleceu o
que tinha estado perdido no judaísmo rabínico dos Seus dias, de forma que os Salmos
podem funcionar mais efetivamente nos que crêem no Messias o Jesus.
22
Cristo não somente professou, eu tenho guardado os mandamentos de meu
Pai aqueles do Deus de Israel e no seu amor permaneço. João 15: 10, Ele entrou na
raiz espiritual e motivação ao Ele dizer, Minha comida é fazer a vontade daquele que
me enviou, e realizar a sua obra. João 4: 34. Tal uma paixão predominante em servir ao
Senhor é expressa no Salmo 1 como a delícia do justo. Ele medita na lei de Deus de dia
e de noite. verso 2. Ele conhece o Senhor como o seu Redentor desde a terra de Egito.
Oséias 12: 9, e a lei literalmente: Torah do Senhor como o dom de Sua graça.
É importante entender o termo "Torah" em seu âmbito pleno. Torah quer dizer
ensino divino ou instrução Salmo 78: 1 que é muito mais que os Dez Mandamentos em
si. Torah também inclui as instruções de Deus para crer, confiar, arrepender-se,
confessar, e buscar reconciliação com Ele em Seu santuário. Torah compreende a lei e a
graça reconciliadora. Os estudiosos do AT concordam que a tradução de Torah por lei
como o código moral é inadequada, muito estreita.
23
O costume de tomar a lei moral por si só, isolada da aliança da graça
reconciliadora, era estranho aos salmistas. Eles nunca falam de a lei, mas
constantemente de a lei do Senhor ou de Tua lei Salmo 1; 19; 119. Quando os poetas
dos salmos usam tais termos como testemunhos, estatutos, ordens, ordenanças,
preceitos, palavra, promessa e até mesmo o temor do Senhor. Salmo 19: 9 como
sinônimos da palavra Torah, eles sempre têm em mente a Torah como um todo não
dividido, centralizado nos serviços do santuário. Isto não nega o fato que a Torah tenha
aspectos diferentes, legal e expiatório, mas estes nunca estavam isolados um do outro,
como se pudesse separar os dois. O Senhor uniu a lei moral e sua graça expiatória pelo
ministério sacerdotal em um indissolúvel inter-relacionamento dinâmico. A santa lei de
Deus permaneceu sempre lei da aliança; seu lugar e função estavam exclusivamente
dentro do santuário de Deus.
24
Alegria na Torah
A característica dominante do judaísmo farisaico no tempo de Jesus parece ter sido
que o conceito e a experiência da promessa da nova aliança de Jeremias tinham sido
perdidos de vista. As ordens morais geralmente foram consideradas como o meio de
salvação, como o meio de ganhar méritos, de forma que o perigo da justiça própria não pôde
mais ser evitado. Estas tinham sido a própria experiência e auto-estima de Paulo como um
rabino fervoroso. Ele confessou que tendo sido um fariseu zeloso, quanto à justiça que há
na lei, irrepreensível. Filipenses 3: 6.
O salmistas do antigo Israel, pelo contrário, todos viveram em uma consciência
despertada do pecado e foram motivados por um senso profundo de gratidão pela graça
recebida do Senhor. Na Torah do Senhor eles experimentaram o Santo em Sua pureza
impecável e irresistível misericórdia. Por esta razão eles cantaram: A lei do Senhor é
perfeita e restaura a alma... Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração. Salmo
19: 7 e 8. Tenho visto que toda perfeição tem seu limite; mas o teu mandamento é ilimitado.
Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia! Salmo 119: 96 e 97. Desvenda os
meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei. Salmo 119: 18.
25
Os poetas meditaram na lei maravilhosa Torah do Senhor somente com a
finalidade de delícia? Certamente não! Eles se regozijaram na Torah por um propósito
mais elevado que alegria mística. Eles buscavam saber a vontade de Deus para agradar e
glorificar o seu Redentor. De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho?
Observando-o segundo a tua palavra. De todo o coração te busquei; não me deixes fugir
aos teus mandamentos. Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti...
Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os meus caminhos. Salmo 119: 9
a 11, 105.
Os poetas hebreus inspirados conheciam poder salvador e santificador da
palavra de Deus. Para eles com Deus, a vida ficava rica, significativa, e frutífera: Ele é
como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e
cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são
assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa. Salmo 1: 3 e 4.
26
Comunhão com Deus é Vida ao Máximo
O poema revela a produção da bênção divina na vida do justo. Ele
prosperará em tudo aquilo que ele faz. Por que? É por causa da lei de causa e efeito?
Não. Ele é frutífero, efetivo em todos os seus empenhos porque ele continuamente
utiliza o poder escondido do Senhor. Uma árvore plantada junto a ribeiros de água
frutifica em sua estação porque constantemente pode utilizar água sustentadora da
vida. Assim é com a pessoa que tem sede diante de Deus. O que procura a Deus
achará o Senhor dia e noite disposto a ouvir sua oração e súplica. Davi nos assegura:
Sempre tenho o Senhor diante de mim. Com ele à minha direita, não serei abalado.
Salmo 16: 8.
Por meio da meditação é assimilado o conhecimento da Torah no coração e
está motivando a alma a amar.
O estudo da Bíblia e a oração juntos são os meios para continuar no
caminho da bênção. A Escritura é como uma semente; através da oração ela recebe a
água do Espírito. Deste modo Deus dá o crescimento espiritual.
27
O crente cristão fica na constante necessidade destes dois meios da graça
divina. Cristo e os apóstolos fizeram uso efetivo tanto da Escritura quanto da oração.
As bênçãos de Deus não são imediatamente visíveis em prosperidade
material. O Salmo 73 mostra como Asafe lutou com esta aparente contradição, porque
ele viu a prosperidade dos ímpios. 73: 3. Seu coração só veio descansar quando ele
levou em conta o destino final do ímpio como revelado no santuário de Deus 73: 17 a
20.
Porque a realização plena das promessas da aliança de Deus não pode
freqüentemente ser vista nesta vida, é crucial pegar a perspectiva apocalíptica da
aliança de Deus. O justo conhece o destino do ímpio. O insensato não entende, o tolo
não vê que, embora os ímpios brotem como a erva e floresçam todos os malfeitores,
eles serão destruídos para sempre. Salmo 92: 6 e 7.
28
O apóstolo Paulo acentua esta instrução da Torah: Nunca procurem vingar-se,
mas deixem com Deus à ira, pois está escrito: Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o
Senhor. Romanos 12: 19. Contudo ele também confirma a mensagem do Salmo 1 que
aqueles que amam a Deus serão abençoados, mesmo se eles não podem ver isto
imediatamente: Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o
amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Romanos 8: 28.
O salmista usa a figura de contraste para sustentar sua mensagem mais
vigorosamente. O ímpio, ele diz, é o próprio oposto do justo. Eles são como a palha que o
vento dispersa. Em outras palavras, o ímpio não possui nenhuma substância, nenhum
caroço frutífero, nenhum peso moral, enquanto o justo é comparado a uma árvore frutífera
bem carregada.
29
O que faz o ímpio tão estéril e espiritualmente oco, até mesmo
dentro de Israel? É sua falta, a sua negligência pecadora do conhecimento do
Senhor. Davi diz: Não há temor de Deus diante dos seus olhos. Salmo 36: 1.
Ele pode pertencer exteriormente ao povo da aliança e ostentar-se nas
promessas da aliança, mas a sua confiança está extraviada em sua
descendência natural de Abraão. Quando João Batista veio preparar Israel
para encontrar o seu Messias, ele chocou os fariseus e saduceus com sua
mensagem: Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a
dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão. Mateus 3: 8 e 9. Sem o
fruto do Espírito, isto é, sem uma vida santificada de acordo com a Torah do
Senhor, todas as reivindicações religiosas do povo de Deus são inúteis e só
conduzirão a completa vergonha. Isto acontecerá no juízo final, do qual
ninguém pode escapar: Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo,
nem os pecadores, na congregação dos justos. Salmo 1: 5.
30
O Salmo 1 declara que o ímpio perecerá no juízo. Desde que a expressão
paralela é a assembléia dos justos, poder-se-ia pensar principalmente nos juízos
regulares de Israel no santuário. Deuteronômio 17: 8 e 9. Os Salmos 7 e 26 representam
a liturgia sagrada para tais julgamentos Salmo 7. O mais pleno sentido aqui é
indubitavelmente a perspectiva apocalíptica do juízo final de Deus. Lá o ímpio será
completamente desmascarado e exposto em sua nudez moral e não terá nenhum abrigo
para esconder-se, enquanto o justo se levantará para receber a sua herança. Daniel 12:
13.
Cristo anunciou a separação final do bem e do mal repetidamente em Suas
parábolas.
Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos
justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes.
Mateus 13: 49 e 50.
31
O primeiro Salmo finalmente aponta diretamente ao Senhor como o que sustenta
um universo moral: Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos
ímpios perecerá. Salmo 1: 6.
A antítese que está por baixo do poema inteiro chega à revelação climática de que
o Deus de Israel separará em última instância o justo e o ímpio. A tradução mais precisa de
verso 6 seria, Pois o Senhor conhece o caminho do justo.
O conhecimento do Senhor no verso 6 não é nosso tipo moderno e intelectual de
conhecimento, mas a idéia hebraica de conhecimento experimental, um conhecimento
apaixonado Salmo 37:18. Portanto indica que o Senhor acompanha amorosamente o justo no
seu modo de vida e lhes dá a bênção do Seu companheirismo que nunca falha. O ímpio, que
não tem nenhuma ligação com o Senhor, terminará o seu caminho em morte, pelo juízo de
Deus.
32
Cristo confirmou esta perspectiva apocalíptica dos dois caminhos para todas as
pessoas: Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à
perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o
caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram. Mateus 7:13 e 14.
Cristo veio oferecer vida eterno para todos João 12: 32. Ele Se oferece à nossa
alma de forma que todos os que O recebem participarão mesmo agora na alegria
messiânica: Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente. João 10:10. Tenho
lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja
completa. João 15: 111.
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, pp. 55 a 66.
33
POBRES DE ESPIRITO - Cristo retoma a palavra pobre com o matiz moral que já se
percebe em Sofonias 2: 3 explicitado aqui pela expressão em espírito, o que não ocorre
em Lucas 6: 20. Despojados e oprimidos, os pobres ou os humildes estão disponíveis para
o Reino dos Céus, eis o tema das Bem aventuranças cfe. Lucas 4: 18; 7: 22; Mateus 11:
5; Lucas 14: 13; Tiago 2: 5. A pobreza sugere a mesma idéia que a infância espiritual,
necessária para entrar no Reino Mateus 18 1; Marcos 9: 33; Lucas 9: 46; Mateus 19: 13;
11: 25, o mistério revelado aos pequeninos, népioi Lucas 12: 32; I Coríntios 1: 26. Aos
pobres, ptochói, corresponde ainda aos humildes tapeinói Lucas 1: 48, 52; 14: 11; 18: 14;
Mateus 23: 12; 18: 4, os últimos em oposição aos primeiros Marcos 9: 35, os pequenos
em oposição aos grandes Lucas 9: 48; Mateus 19: 30; 20: 26; Lucas 17: 10. Embora a
fórmula de Mateus 5: 3, enfatize o espírito da pobreza, tanto no rico como no pobre, o que
Cristo quer salientar em geral é uma pobreza efetiva, particularmente para os seus
discípulos Marcos 6: 19; Lucas 12: 33; Mateus 6: 25; 4: 18; Lucas 5: 1; 9: 9; 19: 21 e
27; Marcos 10: 28; Atos 2: 44; 4: 32. Ele mesmo dá o exemplo de pobreza Lucas 2: 7;
Mateus 8: 10 e de humildade Mateus 11: 29; 20: 28; Mateus 21: 5; João 13: 12; II
Corintios 8: 9; Filipenses 2: 7. Identifica-se com os pequenos e com os infelizes Mateus
25: 45; 18: 51.
1BJ,
p. 1.845.
34
Parece uma maneira surpreendente. Reconhecem sua pobreza espiritual, e
sentem necessidade de redenção. O evangelho deve ser pregado ao pobre. Não ao
espiritualmente orgulhoso, o que pretende ser rico e de nada necessita, é Ele revelado,
mas aos humildes e contritos.
O coração orgulhoso esforça-se pôr alcançar a salvação; mas tanto o nosso
título ao Céu, como nossa idoneidade para ele, encontram-se na justiça de Cristo. O
Senhor nada pode fazer para a restauração do homem enquanto ele, convicto de sua
própria fraqueza e despido de toda presunção, não se entrega a guia divina, Pode então
receber o dom que Deus está à espera de conceder. Coisa alguma é recusada à alma que
sente a própria necessidade. Ela tem ilimitado acesso Àquele em quem habita toda a
plenitude. Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome
é Santo: Num alto e santo lugar habito, e também com o contrito e abatido de espírito
para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos. Isaías 57:
15.
35
Grego: ptochós, palavra que se refere à pobreza extrema, à miséria.
Aqui ptochós assinala aos que sentem uma verdadeira miséria espiritual e
sentem agudamente sua necessidade das coisas que o reino do céu tem para
oferecer-lhes Atos 3: 6; ver comentário Isaias 55: 1. O que não sente sua
necessidade espiritual, o que se crê rico, que se tem enriquecido e que de
nenhuma coisa tem necessidade, à vista do céu é desventurado, miserável,
pobre Apocalipse 3: 17. Só os pobres de espírito entrarão no reino da graça
divina. Os demais não almejam as riquezas do céu e se negam a aceitar suas
bênçãos1.
1
CBASD, vol. 5, p. 316.
36
Pobre. Comentário Marcos 12: 42. Grego: ptochós, mendigo ou
indigente. Lucas usa penichrós, uma forma poética mais recente de pénés, que
significa um que vive com o indispensável e que tem que trabalhar em cada dia a
fim de ter algo que comer ao dia seguinte Lucas 21: 2. Pénés se deriva do verbo
pénomai: trabalhar para ganhar a vida. Talvez Jesus queria que se destacasse o
espírito desta viúva em nítido contraste com a atitude dos fariseus para com as
viúvas. A pobreza desta viúva pode ter sido, em parte, da avareza de alguns dos
escribas e fariseus presentes nesta ocasião Mateus 23: 14. Disse Cristo que eles
devoram as casas das viúvas, Marcos 12: 40. Mas aqui estava uma viúva que, com
seu coração transbordante de amor a Deus, jogou tudo o que tinha, todo seu
sustento, verso 44. Que contraste!1.
1
CBASD, vol. 5, p. 633.
37
Comentário Lucas 4: 18. Os pobres. Os pobres costumavam estar na graça
dos inescrupulosos servidores públicos, comerciantes e vizinhos. Por outra
parte, supunha-se geralmente que o sofrimento por ser pobre se devia à
maldição de Deus, que a desgraça do pobre era por sua própria culpa. Eram
poucos os que simpatizavam com a triste situação do pobre. O supremo
amor de Jesus pelos pobres foi uma das grandes evidências de que era o
Messias, e quando João sofria no cárcere, Jesus lhe fez notar este fato
Mateus 11: 5. Os que padecem escassez dos bens deste mundo, muitas
vezes estão conscientes de suas necessidades e de sua dependência de Deus,
e portanto freqüentemente são susceptíveis à pregação do Evangelho. A
Boa Nova de Jesus significa alívio para os pobres, luz para os ignorantes,
cura para os doentes e liberdade para os escravos do pecado.
38
O povo cria que todo aquele que se interessasse em aliviar as necessidades do
pobre, era especialmente justo; e o dar esmolas chegou a ser quase sinônimo de ser justo
Atos 10: 2 a 4. Mas muitas vezes sucedia que se davam esmolas não por simpatia nem
inclinação a ajudar os pobres, mas pelo desejo de ganhar méritos Mateus 6: 1 a 4; João 12:
5. No entanto, a preocupação cordial e genuína pelos sentimentos e as necessidades de
nossos próximos é uma das melhores evidências da religião pura Tiago 1: 27, de
conversão sincera I João 3: 10 e 14, de amor a Deus I João 3: 17 a 19; 4: 21 e de ser apto
para entrar no reino dos céus Mateus 25: 34 a 46.
Jesus estava pensando nos pobres de espírito Mateus 5: 3, os que tinham
necessidades espirituais e não materiais. Cristo prometeu os recursos infinitos do reino dos
céus aos pobres em espírito, aos que sentem sua necessidade espiritual. Há quem só sentem
a necessidade do que este mundo pode oferecer; e quando se lhes prega o Evangelho deve
acordar-se neles seu interesse pelas coisas espirituais Apocalipse 3: 17 e 18. Os ricos em fé
são aqueles que ouvem e aceitam a mensagem evangélica Mateus 7: 24, e serão herdeiros
do reino. Tiago 2: 51.
1
CBASD, vol. 5, pp. 710 e 711.
39
Comentário de Lucas 6: 20. Vocês os pobres. Lucas parece dar-lhe às bemaventuranças uma aplicação mais literal ou material do que Mateus. Esta
interpretação literal se faz ainda mais evidente nos ais que registra Lucas 6: 24. No
entanto, este relato breve e literal das bem-aventuranças deveria ler-se à luz da
exposição mais completa e detalhada do Sermão do Monte tal como o registra
Mateus. O agudo contraste entre a pobreza, a fome e a perseguição que se sofrem
agora e a bem-aventurança futura verso 21, a primeira vista poderia parecer que lhe
dá um enfoque materialista às palavras de Cristo. Mas dentro do contexto de todo o
Sermão do Monte, é claro que não é assim. Cristo singelamente faz notar o
contraste entre a situação atual de quem procuram o reino e sua condição depois de
entrar no reino1.
Não há nada que ofenda tanto a Deus, e que seja tão perigoso para a alma
humana, como o orgulho e a suficiência própria, de todos os pecados é o mais
desesperador, e o mais incurável2.
1
CBASD, vol. 5, p. 729.
2 Parábolas de Jesus, p. 119.
40
Os humildes de espírito não são os pobres de espírito, como pode sugerir
uma infeliz tradução. Eles são sim os que reconhecem de coração ser pobres no
sentido de não poderem realizar nenhum bem sem a assistência divina dependência
e não tem nenhum poder em si mesmos que os ajude a fazer o que Deus requer
deles. O reino dos céus a estes pertence, pois deste reino os orgulhosos por sua
auto-suficiência são inevitavelmente excluídos1.
Parece uma maneira surpreendente de começar a falar acerca da
felicidade ao dizer: Benditos os pobres de espírito! Há dois enfoques para se
chegar ao sentido da palavra pobre.
1
Mateus, Introdução e Comentário, R. V. G. Tasker, Mundo Cristão, pp. 48 e 49.
41
Como aparece nas Bem aventuranças no grego, a palavra que se usa para
pobre é ptochós, refere-se à palavra Pênés que descreve uma pessoa que tem que
trabalhar para ganhar a vida; definiam os gregos como a palavra que descreve um
homem como autodiákonos, que quer dizer o homem que atende suas próprias
necessidades com suas próprias mãos; Pênés descreve o trabalhador, que não tem
nada de supérfluo, que não é rico e nem tão pouco indigente. Porém como temos
visto, não é pênés a palavra que se usa para esta bem aventurança, mas ptochós,
que descreve a pobreza absoluta. Está conectada com a raiz ptôssein, que quer
dizer encolher, acovardar, a pobreza que golpeia até nos colocar de joelhos. Pênés
descreve o homem que não tem nada de supérfluo; ptochós descreve o homem que
não tem absolutamente nada. Isto torna esta bem aventurança mais surpreendente.
Não quer dizer: Bendito o homem que está na pobreza absoluta, bendito o
indigente.
42
Como vimos anteriormente às bem aventuranças não foram ditas no
grego mas no aramaico. Os judeus tinham uma maneira especial ao usar a palavra
pobre. No hebraico a palavra é ‘aní o ebyôn, estas palavras foram desenvolvidas
em quatro etapas no hebraico alterando o seu significado.
1. Iniciou significando simplesmente pobre.
2. Passou a significar, porque é pobre, não possui influência, poder ou
prestígio.
3. Passou a significar, por não ter influência, portanto é oprimido pelos
homens.
4. Por último passou a descrever o homem que por não ter nenhum
recurso terreno, coloca toda sua confiança em Deus.
43
Assim era que no hebraico a palavra pobre se usava para descrever a
pessoa humilde e indigente que colocava toda sua confiança em Deus. Assim que o
salmista escreve O pobre clamou e o Senhor ouviu, e livrou de todos os temores.
Salmo 34: 6; A esperança do pobre não perecerá perpetuamente. Salmo 9: 18;
Deus livra os pobres. Salmo 68: 10; Defenderá a causa dos pobres do povo.
Salmo 72: 4; Defenderá a causa do pobre e faz multiplicar como rebanho de
ovelhas. Salmo 107: 41; De pão fartará os pobres. Salmo 132: 15. Em todos os
versos mencionados o pobre é humilde, uma pessoa indefesa que colocou sua
confiança em Deus.
Agora analisemos o grego e o aramaico e juntemos os dois. Ptochós
descreve o homem totalmente indigente, que não tem absolutamente nada;‘aní o
ebyôn descreve o pobre, humilde e indefeso que põe toda a confiança em Deus,
portanto esta Bem aventurança quer dizer: Bendito é a pessoa que é consciente de
sua total incapacidade, e que põe toda sua confiança em Deus.
44
Se a pessoa é consciente de sua total incapacidade e coloca sua confiança
em Deus, entrará em sua vida duas coisas que são muito preciosas:
1. Estará totalmente desligado das coisas.
2. Dependerá totalmente de Deus.
Ele saberá que só de Deus poderá vir ajuda, esperança e força. A pessoa
pobre de espírito se dá conta que as coisas não querem dizer nada, e Deus quer
dizer tudo.
Devemos ser cuidadosos em pensar que esta bem aventurança considera
uma coisa boa a miséria material. A pobreza não é boa. Jesus não estava chamando
de bem aventurados os que não tem o que comer, e a saúde debilitada, por que tudo
está contra.Esta classe de pobreza é um mal que o Evangelho tenta eliminar. Tão
pouco ser pobre de espírito é uma apologia para os que não tem caráter. A pobreza
de espírito bendita é quando a pessoa se dá conta de sua absoluta falta de recursos
para enfrentar a vida, e encontra ajuda e força somente em Deus.
45
Jesus diz que tal pobreza herdará o Reino dos Céus. Porque é assim. A
oração do Senhor diz: Venha ao teu Reino, seja feita a Tua vontade assim na
Terra como no céu. Temos a definição. O Reino de Deus é uma sociedade em que
a vontade de Deus se realiza perfeitamente tanto na Terra como no Céu. Isto quer
dizer que só se faz a vontade de Deus os cidadãos do Reino, e só podemos fazer a
vontade de Deus quando somos totalmente conscientes de nossa absoluta
dependência e incapacidade para enfrentarmos a vida, e somente quando
colocamos nossa confiança em Deus. A obediência se fundamenta na confiança.
Tomarão posse do Reino de Deus os pobres de espírito, porque são eles que se tem
dado conta de sua absoluta dependência da parte de Deus, e tem aprendido a
confiar e obedecer. Assim esta Bem aventurança quer dizer:
Ah Bem aventurados os que tem consciência de sua própria
incapacidade, e que coloca toda sua confiança em Deus, porque só assim pode
render a Deus aquela perfeita obediência que o tornará cidadão do Reino dos
Céus1.
1
Comentário ao Novo Testamento, Mateus, vol. 1, William Barclay. Editora Clie,
pp. 109 a 112.
46
Trata-se de uma atitude de coração, o reconhecimento da grandeza de
Deus e a necessidade de desenvolvimento espiritual, tendo a sua perfeição como
modelo Mateus 5: 48. Essa atitude é ao contrário do orgulho espiritual, que é um
elemento negativo tanto em nós como nos outros. Jesus jamais usou de ostentação
e nunca manifestou atitudes de soberba. Quer que seus discípulos o imitem. Pede
simplicidade, humildade, mansidão e bondade. O orgulho é uma das raízes
principais do pecado: a humildade de espírito é uma das raízes da vida cristã.
Essa bem aventurança é um alicerce para as demais, é uma pedra
fundamental. O código ético de Jesus tem como base este conceito1.
1
ONTIVV, Russell Norman Champlin, Ph. D. Vol. 1, pp. 303 e 304.
47
DELES - A compreensão da necessidade própria é a primeira condição
para entrar no Reino da graça de Deus. Pôr estar consciente de sua própria pobreza
espiritual, é o publicano da parábola desceu a sua casa justificado antes que o
fariseu que estava pleno de justiça própria, Lucas 18: 9 a 14. No Reino dos céus
não há lugar para os orgulhosos, os que estão satisfeitos de si mesmos, os que
dependem de justiça própria. Cristo convida os pobres de Espírito a mudarem sua
pobreza pela riqueza de sua graça1.
Os publicanos, Mateus e Zaqueu junto com Maria Madalena, aceitaram
gostosamente o convite de Cristo que os fariseus rechaçaram2.
1
CBASD, vol. 5, p. 316.
2 Camino de Felicidad, Taylor G. Bunch, p. 25.
48
REINO DOS CÉUS - Cristo aqui nos fala tanto de seu futuro Reino de glória como do
Reino de sua graça divina, no presente. Em seus ensinamentos, Cristo falou muitas vezes
do Reino da graça, e ao coração dos que aceitam sua soberania celestial. Isto é ilustrado
nas parábolas do trigo e do joio, do grão de mostarda do fermento, do tesouro escondido,
da pérola e da rede, Mateus 13: 24, 31, 33 e 47, e muitas outras.
Os judeus concebiam o Reino dos céus baseado na força que obrigaria as nações
da terra a submeter-se a Israel. Porém o Reino que Cristo veio estabelecer é o que começa
no coração dos homens, penetra em suas vidas e transforma os corações e a vida de outros
com dinâmico e preponderante poder do amor1.
Nesta seção encontramos o ensino de Jesus sobre o modo como homens e
mulheres devem orientar sua conduta ao tornar-se súditos do reino de Deus, cristalizado na
forma de instruções diretas. Parte deste ensino é encontrada numa forma mais poética nas
palavras ilustrativas pronunciadas por Jesus em outras ocasiões. O melhor comentário
sobre a primeira bem aventurança é a parábola do fariseu e do publicano Lucas 18: 9 a
142.
1 CBASD vol. 5, p. 316.
2 Mateus, Introdução e Comentário, R. V. G. Tasker, Mundo Cristão, pp. 47 e 48.
49
Comentário Mateus 4: 17. O REINO DOS CÉUS. Expressão
empregada exclusivamente por Mateus 31 vezes em seu Evangelho. Mateus
emprega cinco vezes a expressão reino de Deus, que é a única que usam os
outros evangelistas. O uso da palavra céu em lugar do nome Deus responde
ao costume dos judeus do tempo de Jesus de não dizer o nome sagrado.
Empregavam a expressão nome do céu em lugar de nome de Deus; temor do
céu por temor de Deus; honra do céu por honra de Deus, etc. A expressão
reino dos céus não aparece no AT, ainda que a idéia está implícita nos
escritos proféticos Isaias 11: 1 a 12; 35; 65: 17 a 25; Daniel 2: 44; 7: 18, 22
e 27; Miquéias 4: 8; etc.
50
O reino dos céus ou reino de Deus era o tema do ensino de Jesus Lucas
4: 43; 8: 1. Muitas de suas parábolas começam com as palavras o reino dos céus é
semelhante a Mateus 13: 24, 31, 33, 45 a 47. Ensinava a seus discípulos a que
orassem pela vinda do reino capítulo 6: 10. Seu Evangelho era a boa nova do reino
capítulo 4: 23; etc. Seus discípulos eram os filhos do reino capítulo 13: 38. O Pai
se comprazia em dar-lhes o reino Lucas 12: 32, que tinham de herdar Mateus 25:
34. Nesta vida, os cristãos devem dar-lhe ao reino o lugar supremo em seus afetos e
devem convertê-lo na mais importante meta da vida capítulo 6: 33. Quando Jesus
enviou aos doze, mandou-os que pregassem o reino de Deus. Lucas 9: 2 e 60.
João proclamou a eminência do estabelecimento do reino dos céus
Mateus 3: 2. Jesus também declarou que o reino se tinha acercado capítulo 4: 17 e
instruiu a seus discípulos, quando os enviou a pregar, que levassem a mesma
mensagem capítulo 10: 7.
51
O reino dos céus se estabeleceu na primeira vinda de Cristo. Jesus
mesmo era o Rei, e os que acreditavam Nele eram seus súditos. O território desse
reino era o coração e a vida dos súditos. Evidentemente a mensagem de Jesus se
referia ao reino da graça divina. Mas, como Jesus mesmo o indicou claramente, o
reino da graça antecedia ao reino da glória. Com respeito a este último, os
discípulos perguntaram no dia da ascensão: Senhor, restaurarás o reino a Israel
neste tempo? Atos 1: 6 e 7. O reino da graça se tinha acercado nos dias de Cristo
Mateus 3: 2; 4: 17; 10: 7, mas o reino da glória estava no futuro capítulo 24: 33.
Só quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos seus santos anjos com
ele, então se sentará em seu trono de glória. capítulo. 25: 311.
1
CBASD, vol. 5 pp. 309 e 310.
52
Jesus não só falou sobre o reino no íntimo, ou o reino vindouro, isto é no
céu, mas particularmente sobre o reino que ele esperava firmar sobre a terra, o
reino que continuamente anunciara a partir do batismo, o mesmo reino que João
Batista anunciara estar próximo. Os judeus anelavam intensamente pelo livramento
da opressão romana. Jesus esperava esta libertação, e aguardava o novo governo,
um reino sobre a terra. A promessa continua sendo essencialmente espiritual, Jesus
sempre mostrou profundo interesse pelas coisas espirituais e pouco pensava sobre
questões políticas, não contemplava um reino de ostentação e glória terrena para si
mesmo e para os seus seguidores. Pensava no estabelecimento do reino de
princípios justos e na obediência de seus discípulos a esses princípios1.
1
ONTIVV, Russell Norman Champlin, Ph. D. Vol. 1, p. 304.
53
O fariseu e o publicano
Lucas 18: 9 - Contou ainda esta parábola para alguns que,
convencidos de serem justos, desprezavam os outros.
ESTA PARÁBOLA - Não há uma clara relação entre esta parábola e a anterior a
respeito do juiz injusto, e não há como saber se as duas foram ditas na mesma
ocasião. Esta parábola, como a anterior, foi apresentada durante o mês de março do
ano 31 d. C., em algum lugar da região de Peréia1.
1
CBASD, vol. 5 p. 825.
54
CONVENCIDOS - Confiavam em si mesmos. Ainda que não se nomeia
em forma direta, é evidente que Jesus se referia aos fariseus. Isto se enfatiza pelo
fato de que é um fariseu o que, na parábola, é posto como exemplo de que confiava
em si mesmo como justo e menosprezava aos outros. Os escribas e fariseus tinham
estado presentes quando Jesus estava ensinando Lucas 15: 2; 16: 14; 17: 20, é
provável que estivessem presentes agora também. Lucas indica em sua introdução
à parábola que esta estava dirigida a quem tinham confiança em si mesmo e não em
Deus capítulo 18: 8 a 9. A fé deles era uma falsa confiança, em contraste com a
verdadeira fé que Deus queria que desenvolvessem. A descrição que Paulo faz de si
mesmo como fariseu Filipenses 3: 4 a 6, ilustra a mentalidade dos fariseus que
confiavam em si mesmos1.
1
CBASD, vol. 5 p. 824.
55
DE SEREM JUSTOS - Como justos. Segundo suas próprias normas de
justiça, as quais os fariseus, observavam rigorosamente, ou pretendiam observar. A
norma farisaica de justiça consistia na estrita observância das leis de Moisés e das
tradições rabínicas. Em essência, era justiça pelas obras. O conceito farisaico,
legalista, da justiça, baseava-se na suposição de que a salvação devia ganhar-se
observando certas regras de conduta, e quase não prestavam atenção à necessária
consagração do coração a Deus e à transformação dos motivos e dos propósitos da
vida. Os fariseus realçavam a letra da lei, mas ignoravam o espírito dela. O
conceito de que a conformidade externa aos requerimentos divinos era tudo o que
Deus pedia, sem considerar o motivo que impulsionava a cumpri-los, dava forma a
sua maneira de pensar e de viver. Jesus tinha advertido em diversas ocasiões a seus
discípulos e a outros na contramão deste conceito formalista da salvação Mateus 5:
20; 16: 6; Lucas 12: 11.
1
CBASD, vol. 5 p. 824.
56
DESPREZAVAM - Menosprezavam. Grego: exouthenéo, desprezar, menosprezar,
ter em pouco. Este verbo se traduz como menosprezar em Lucas 23: 11; Romanos
14: 10; II Corintios 10: 10; e como reprovar em Atos 4: 11. Quem se considera
como exemplo de virtude tendem a considerar a seus próximos com menosprezo ou
desdém1.
Os outros - Os fariseus tratavam com desprezo a todos os que não
aceitavam sua definição de justiça nem regiam sua vida de acordo com ela2.
1
CBASD, vol. 5 pp. 824 e 825.
2 CBASD, vol. 5 p. 825.
57
10 - Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro
publicano.
DOIS HOMENS - Jesus não quis dizer que não tivesse outras pessoas
presentes, senão que só menciona os dois a quem se refere à parábola. Um deles se
considerava santo, e foi ao Templo para se engrandecer diante de Deus e dos
homens. O outro se considerava pecador, e foi ao Templo para confessar seu
pecado diante de Deus, para suplicar sua misericórdia e obter o perdão1.
SUBIRAM - Usa este verbo para referir à subida desde as partes mais
baixas da cidade até o monte Moriá. Para os fariseus assistir à hora da oração pela
manhã e pela tarde, bem como aos outros serviços do Templo, era um ato de mérito
que tinha o propósito de ganhar o favor de Deus e a aprovação dos homens. A
respeito dos atos religiosos celebrados com este fim, Jesus disse: já têm sua
recompensa Mateus 6: 2. Um espírito de verdadeira humildade ante Deus e nosso
próximo é uma das melhores evidências de conversão Miquéias 6: 82.
1
CBASD, vol. 5 p. 825.
2 CBASD, vol. 5 p. 825.
58
PARA ORAR - Provavelmente à hora da oração matutina ou vespertina
Lucas 1: 9 a 10. Ainda depois do Pentecostes alguns dos apóstolos parecem ter
seguido o costume de assistir ao serviço do Templo nas horas de oração Atos 3: 1;
Lucas 10: 31.
FARISEU - Nesse tempo, o fariseu representava o mais alto nível de
religiosidade judia2.
PUBLICANO - Por outra parte, o publicano representava o nível mais
baixo da escala social judaica3.
1
CBASD, vol. 5 p. 825.
2 CBASD, vol. 5 p. 825.
3 CBASD, vol. 5 p. 825.
59
11 - O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: Ó Deus, eu te dou graças
porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este
publicano;
DE PÉ - Posto em pé. Esta posição era comum na oração I Samuel 1: 26; I
Reis 8: 14 e 22; Mateus 6: 5; Marcos 11: 25; Neemias. 8: 5; Daniel 6: 101.
INTERIORMENTE - Consigo mesmo. Em forma inaudível, só com
movimentos de lábios ou em voz muito baixa. O fariseu possivelmente estava dirigindo
a si mesmo e não a Deus. É possível que o fariseu tivesse se apartado a certa distância
dos outros adoradores reunidos nos átrios do Templo, como se tivesse sido demasiado
bom para juntar-se com eles ainda na oração2.
Ó DEUS DOU-TE GRAÇAS - Sem dúvida, o que em verdade queria dizer
era: Deus Tu deves estar agradecido de ter uma pessoa como eu entre os que vieram
adorar-te. Sou incomparavelmente superior às pessoas comuns3.
1
CBASD, vol. 5 p. 825.
2 CBASD, vol. 5 p. 825.
3 CBASD, vol. 5 p. 825.
60
NÃO SOU COMO O RESTO DOS HOMENS - Os outros homens. O
resto dos seres humanos. As pessoas comuns estavam longe de atingir a elevada norma
de justiça própria do fariseu. Sempre é perigoso determinar a medida de nossa justiça
comparando-nos com nosso próximo, não importa qual seja o estado deles Mateus 5: 48.
Em notável contraste com a atitude do fariseu, Paulo se considerou como o primeiro dos
pecadores I Timóteo 1: 151
LADRÕES - Grego: hárpax, ladrão; como adjetivo significa rapaz Mateus 7:
15; Lucas 11: 39. O fariseu continua então com uma relação dos defeitos que não possui,
confiado em que assim será mais estimado por Deus. Apresenta uma lista de alguns
pecados dos quais não é culpado. Está agradecido por suas próprias virtudes e não pela
justiça e a misericórdia de Deus. Está agradecido de que mediante seu esforço diligente
se manteve estritamente dentro da letra da lei, mas parece desconhecer totalmente o
espírito que deve acompanhar à verdadeira obediência para que seja aceitável a Deus2.
1
CBASD, vol. 5 p. 825.
2 CBASD, vol. 5 p. 825.
61
INJUSTOS - Não tinha quebrantado manifestamente a lei1.
ADÚLTEROS - Mateus 5: 27 a 322.
NEM COMO ESTE PUBLICANO - É possível que a palavra este se
utilize não só para designar ao publicano, senão para expressar certo desprezo para
ele Lucas 14: 30; 15: 2. Este publicano se destacava porque podia ser visto ainda
estando longe do resto da multidão, em outro lugar. Quando o fariseu descobriu a
presença desse homem desprezado pela sociedade, pensou em sua oração: Aí tem,
Senhor, um exemplo do que quero dizer: esse desprezado angariador de impostos.
Alegro-me de não ser como ele3.
1
CBASD, vol. 5 p. 825.
2 CBASD, vol. 5 p. 825.
3 CBASD, vol. 5 pp. 825 e 826.
62
12 - Jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos.
JEJUO DUAS VEZES - Depois de apresentar a lista dos pecados de que não era
culpado, o fariseu passou a enumerar as virtudes das quais se orgulhava
especialmente, virtudes que sem dúvida considerava que lhe comprariam a
salvação. Segundo os fariseus, se uma pessoa fazia suficientes atos meritórios,
podia cancelar sua dívida de más ações. Os fariseus se orgulhavam de jejuar
Mateus. 6: 16 a 18 mais do que requeria a lei e de ser mais escrupulosos em seus
dízimos do que demandava a lei ver Mateus 23: 23. Pareciam crer que Deus lhe
agradava que eles fizessem esse esforço adicional, voluntário, além do que requeria
o dever.
O jejum se praticava nas segundas-feiras e nas quintas-feiras,
especialmente nas sete semanas que decorriam entre a páscoa e Pentecostes, e nos
dois meses que separavam o fim da festa dos tabernáculos, o 22º dia mês sétimo,
da festa da dedicação, o 25º dia do mês nono; Levítico 23: 2 a 42; João 10: 22.
63
Os cristãos fervorosos jejuavam mais tarde em quartas-feiras e
sextas-feiras em certas épocas do ano, para evitar que se os confundisse
com os judeus que jejuavam nas segundas-feiras e nas quintas-feiras. Na
Didajé 8: 1, documento cristão não canônico do século II, faz-se a
advertência: Vosso jejum não seja feito em comum com os hipócritas,
porque eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana; mas vocês jejuai
o quarto dia e no dia da preparação1.
1
CBASD, vol. 5 p. 826.
64
DÍZIMOS DE TODOS OS MEUS RENDIMENTOS - Dízimos de
tudo. Ainda das coisas que não se mencionavam especificamente na lei mosaica
referente ao dízimo Mateus 23: 23; coisas tais como da hortelã do endro e do
cominho. Isso era mais do que exigia o ensino rabínico1.
1
CBASD, vol. 5 p. 826.
65
13 - O publicano, mantendo-se a distância, não ousava sequer levantar os olhos para
o céu, mas batia no peito dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!
MANTENDO-SE A DISTÂNCIA - Estando longe. Provavelmente estava
longe do fariseu e dos demais adoradores porque sabia que todos o olhavam mal. Os
demais não se sentiriam alegres de ter que estar perto de um publicano ver Lucas 3:
121.
LEVANTAR OS OLHOS - Alçar os olhos. Jesus levantou os olhos pelo
menos uma vez para orar João 17: 1. Compare-se com a descrição de Ezequiel 18: 6, 15;
verso 12, na qual um justo é o que não levantou seus olhos aos ídolos. Acostumava-se
orar de pé, com as mãos levantadas ao céu I Reis 8: 22; Salmo 28: 2; 63: 4; 134: 2; I
Timóteo 2: 82.
BATIA NO PEITO - Golpeava-se o peito. A atitude do cobrador de impostos
testemunhava da sinceridade de suas palavras e dava uma vívida expressão de seu
sentimento de pequenez. Sentia-se indigno ainda de orar, mas o entendimento de sua
necessidade o impulsionava a fazê-lo3.
1 CBASD, vol. 5 p. 826.
2 CBASD, vol. 5 p. 826.
3 CBASD, vol. 5 p. 826.
66
TEM PIEDADE - Sê propício. Sê misericordioso, tem compaixão. A primeira
condição para ser aceito por Deus é sentir a necessidade, ter a convicção de que sem a
misericórdia divina estaríamos completamente perdidos. Em contraste com o fariseu, o
publicano sem dúvida pensou em muitos pecados, e sabia que os tinha praticado; pensou
nas virtudes e sabia que não possuía nenhuma delas. Como o apóstolo Paulo, sentia-se
pecador I Timóteo 1: 15, que precisava desesperadamente a graça divina. A misericórdia
é um aspecto do amor divino, aspecto que não se tinha manifestado e que não podia terse conhecido plenamente até que o pecado entrou no universo. A misericórdia é a
expressão do amor divino manifesto a quem não merece. A palavra grega que se traduz
como sê propício tem um significado muito parecido ao da palavra hebraica hesed
Salmo 36, que costuma ser traduzida como misericórdia I Crônicas 16: 34; Salmo 5 1:
1; 52: 1; 136: 1 a 26; 138: 21.
PECADOR - O cobrador de impostos fala como se não tivesse outros
pecadores, como se ele fosse o único I Timóteo 1: 15. Coloca-se numa classe aparte do
fariseu. Não é tão virtuoso como os outros, é o pecador. O fariseu se considerava muito
superior aos demais Lucas 18: 11; o publicano se considerava muito inferior aos outros2.
1
CBASD, vol. 5 p. 826.
2 CBASD, vol. 5 p. 826.
67
14 - Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo
que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.
EU VOS DIGO - Jesus com freqüência empregou esta expressão para
apresentar a declaração de uma verdade importante ou para dar-lhe maior realce. A
empregou para apresentar a conclusão de um raciocínio ou de uma parábola. Lucas
registra repetidas vezes esta expressão: 4: 25; 9: 27; 10: 24; 12: 51; 13: 3, 5, 27; 17:
34; 18: 8, 14; 19: 401.
JUSTIFICADO - Isto é, aceito por Deus e declarado bem na frente dele. O
fariseu cria que era justo verso 9, mas Deus não o considerava assim. O publicano se
sentia pecador, e este reconhecimento abriu o caminho para que Deus o declarasse sem
pecado, um pecador justificado pela misericórdia divina. A diferença estava na atitude
dos dois para consigo mesmos e para com Deus2.
1
CBASD, vol. 5 p. 826.
2 CBASD, vol. 5 pp. 826 e 827.
68
O OUTRO NÃO - Antes que. O fariseu se desqualificou a si mesmo de
maneira que não pôde receber a misericórdia e a graça de Deus. Seu
engrandecimento fechou a porta de seu coração às ricas correntes do amor divino
que produziram gozo e paz no publicano. A oração do fariseu não podia ser
aceitada por Deus porque não estava acompanhada pelo incenso dos méritos de
Jesus Cristo Êxodo 30: 81.
EXALTA - Enaltece. Lucas 14: 11; Marcos 9: 35. A origem da luta
entre o orgulho e a humildade se encontra na raiz do conflito entre o bem e o mau.
Lucas 18: 14 concluem a grande inserção de Lucas, nome que muitas vezes se dá à
seção compreendida entre os capítulos 9: 51 e 18: 14, pois nenhum outro
evangelista registra a maior parte dos episódios e dos ensinos que aparecem nesta
parte do relato2.
1
CBASD, vol. 5 p. 827.
2 CBASD, vol. 5 p. 827.
69
LEITURA ADICIONAL
Os Humildes Herdam o Reino
Cristo ansiava encher o mundo com uma paz e uma alegria semelhantes
aos que se hão de encontrar no mundo celestial... Com clareza e com poder proferiu
Ele as palavras que deveriam ressoar até nossos dias, como um tesouro de bondade.
Que preciosas palavras foram elas, e quão repletas de animação! De Seus divinos
lábios caíram com plena e abundante certeza de bênçãos que mostraram ser Ele a
fonte de toda bondade, e que era Sua prerrogativa beneficiar e impressionar a mente
de todos os presentes. Ele estava empenhado em Sua peculiar e sagrada ocupação, e
achavam-se à Sua disposição os tesouros da eternidade. Ele não conhecia limites no
emprego dos mesmos. Não era nenhum roubo de Sua parte o agir na qualidade de
Deus. Incluía em Suas bênçãos os que haviam de formar Seu reino neste mundo. Ele
trouxera ao mundo toda bênção essencial à felicidade e alegria de toda pessoa, e
perante aquela vasta assembléia apresentava as riquezas da graça celeste, os
acumulados tesouros do Pai eterno, imortal...
70
Ele especifica os que se hão de tornar herdeiros de Deus e co-herdeiros
Seus. Proclama publicamente Sua escolha de súditos, e lhes designa o lugar em Seu
serviço como ligados a Ele. Os que possuem o caráter aí especificado, partilharão
com Ele a bem-aventurança e a glória e honra que Lhe advirão para sempre1.
Como um ensino estranho e novo, estas palavras caem nos ouvidos da
multidão admirada. Semelhante doutrina é contrária a tudo que ouviram dos
sacerdotes e rabinos. Nela não vêem coisa alguma que lisonjeie seu orgulho ou lhes
alimente as ambiciosas esperanças. Irradia, porém, deste novo Mestre um poder
que os conserva como que presos. Dir-se-ia que a doçura do amor divino
transcendesse de Sua presença, como da flor o perfume. Suas palavras caem como
a chuva sobre a erva ceifada, como os chuveiros que umedecem a terra. Salmo
72: 6. Todos sentem instintivamente que existe um Ser capaz de ler os segredos da
alma, e não obstante, deles Se aproxima com terna compaixão. Os corações a Ele
se abrem e, à medida que O escutam, o Espírito Santo lhes desdobra alguma coisa
do significado daquela lição de que a humanidade de todas as épocas carece.
1
Manuscrito 118, 1905.
71
Nos dias de Cristo os guias religiosos do povo julgavam-se ricos em
tesouros espirituais. A oração do fariseu: Ó Deus, graças Te dou, porque não sou
como os demais homens. Lucas 18: 11, exprimia os sentimentos de sua classe e,
em grande parte, da nação inteira. Mas na multidão que cercava Jesus, alguns havia
que tinham a intuição de sua pobreza espiritual. Quando, na pesca miraculosa, se
revelou o poder de Cristo, Pedro rojou-se aos pés do Salvador, exclamando:
Senhor, ausenta-Te de mim, por que sou um homem pecador. Lucas 5: 8; assim
na multidão reunida no monte havia pessoas que, na presença de Sua pureza, se
sentiam desgraçadas, miseráveis, pobres, cegas e nuas Apocalipse 3: 17; e estas
almejavam a graça de Deus, ... trazendo salvação a todos os homens. Tito 2: 11.
Nessas almas, as palavras de saudação de Cristo despertaram esperança; viram que
sua vida estava sob a bênção de Deus.
72
Jesus apresentara a taça de bênçãos aos que se julgavam ricos e de nada
carecidos Apocalipse 3: 17, e eles, com escárnio, volveram costas à dádiva
misericordiosa. Aquele que se julga são, que pensa ser razoavelmente bom e se
satisfaz com o seu estado, não procura tornar-se participante da graça e justiça de
Cristo. O orgulho não sente necessidade, fechando, pois, o coração a Cristo e às
bênçãos infinitas que Ele veio dar. Não há lugar para Jesus no coração dessa pessoa.
Os que são ricos e honrados aos próprios olhos, não oram com fé, para receberem a
bênção de Deus. Presumem estar cheios, por isso se retiram vazios. Os que sabem
que não se podem salvar a si mesmos, nem de si praticar qualquer ação de justiça,
são os que apreciam o auxílio que Cristo pode conceder. São eles os humildes de
espírito, aos quais Ele declara bem-aventurados.
73
Aquele a quem Cristo perdoa, faz Ele primeiro penitente, e é função do Espírito
Santo convencer do pecado. Aquele cujo coração foi movido pela convicção comunicada pelo
Espírito de Deus, vê que em si mesmo nenhum bem existe. Vê que tudo que já fez está
misturado com o próprio eu e o pecado. Como o pobre publicano, fica a distância, não
ousando erguer os olhos ao céu, e clamam: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!
Lucas 18: 13. Essas pessoas são abençoadas. Há perdão para o penitente, pois Cristo é o
Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. João 1: 29. A promessa de Deus é ainda que
os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que
sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. Isaias 1: 18. E vos darei
um coração novo e porei dentro de vós um Espírito novo. Ezequiel 36: 26.
Dos humildes de espírito, diz Jesus: Deles é o reino dos Céus. Mateus 5: 3. Este
reino não é, como esperavam os ouvintes de Cristo, um domínio temporal e terreno. Cristo
estava a abrir aos homens o reino espiritual de Seu amor, Sua graça, Sua justiça. A insígnia do
reino do Messias distingue-se pela imagem do Filho do homem. Seus súditos são os humildes
de espírito, os mansos, os perseguidos por causa da justiça. Deles é o reino dos Céus.
Conquanto não se tenha ainda realizado plenamente, iniciou-se neles a obra que os tornará
idôneos para participar da herança dos santos na luz. Colossenses 1: 12.
74
Todos os que têm a intuição de sua profunda pobreza de alma e vêem que
em si mesmos nada possuem de bom, encontrarão justiça e força olhando a Jesus. Diz
Ele: Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos. Mateus 11: 28. Ele vos
ordena que troqueis a vossa pobreza pelas riquezas de Sua graça. Não somos dignos
do amor de Deus, mas Cristo, nossa segurança, é digno, e capaz de salvar
abundantemente todos os que forem a Ele. Qualquer que tenha sido vossa vida passada,
por mais desanimadoras que sejam vossas circunstâncias presentes, se fordes a Jesus
exatamente como sois, fracos, incapazes e em desespero, nosso compassivo Salvador
irá grande distância ao vosso encontro, e em torno de vós lançará os braços de amor e
as vestes de Sua justiça. Ele nos apresenta ao Pai, trajados nas vestes brancas de Seu
próprio caráter. Ele roga a Deus em nosso favor, dizendo: Eu tomei o lugar do pecador.
Não olhes a este filho desgarrado, mas a Mim. E quando Satanás intervém em altos
brados contra nossa alma, acusando-nos de pecado, e reivindicando-nos como presa
sua, o sangue de Cristo intercede com maior poder.
De Mim se dirá: Deveras no Senhor há justiça e força... No Senhor será
justificada e se gloriará toda a descendência de Israel. Isaias 45: 24 e 251.
1
O Maior Discurso de Cristo, pp. 6 a 9.
75
Um Sinal de Grandeza
A uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os
outros, dirigiu Cristo a parábola do fariseu e do publicano. O fariseu sobe ao Templo para
adorar, não porque sente ser pecador necessitado de perdão, mas por julgar-se justo e
esperar obter elogio. Considera sua adoração um ato meritório que o recomendará a Deus.
Simultaneamente dará ao povo uma demonstração elevada de sua piedade. Esperava
assegurar-se o favor de Deus e dos homens. Sua adoração é motivada pelo interesse
próprio.
Está cheio de louvor próprio. Isto é evidente em seu olhar, porte e oração.
Apartando-se dos outros, como se quisesse dizer: Não vos chegueis a mim, porque sou
mais santo do que vós, põe de pé e ora consigo. Isaias 65: 5. Todo satisfeito consigo
mesmo, pensa que Deus e os homens o consideram com igual complacência.
Ó Deus, graças Te dou, disse, porque não sou como os demais homens, roubadores,
injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Lucas 18: 11. Julga seu caráter, não
pelo caráter santo de Deus, mas pelo caráter de outros homens. Seu espírito desvia-se de
Deus para a humanidade. Este é o segredo de sua satisfação própria.
76
Prossegue enumerando suas boas ações: Jejuo duas vezes na semana e
dou os dízimos de tudo quanto possuo. Lucas 18: 12. A religião do fariseu não
toca a pessoa. Não atenta para o caráter semelhante ao de Deus, nem para o
coração cheio de amor e misericórdia. Dá-se por contente com uma religião que só
se refere à vida exterior. Sua justiça lhe é própria, é o fruto de suas próprias obras.
E é julgada por um padrão humano.
Todo aquele que em si mesmo confia que é justo, desprezará os demais.
Como o fariseu, julga a si próprio por outros homens, julga aos outros por si. Sua
justiça é avaliada pela deles, e quanto piores, tanto mais justo parece ele. Sua
justiça própria leva-o a acusar. Os demais homens, condena ele como
transgressores da lei de Deus. Deste modo manifesta o próprio espírito de Satanás,
o acusador dos irmãos. Impossível lhe é neste espírito entrar em comunhão com
Deus. Volta para sua casa destituído da bênção divina.
77
O publicano entrou no Templo juntamente com outros adoradores, mas,
como se fosse indigno de tomar parte na devoção, apartou-se logo deles. Estando
em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito,
em profunda angústia e aversão própria. Sentia que transgredira a lei de Deus e era
pecador e poluído. Não podia esperar nem mesmo piedade dos circunstantes;
porque todos o observavam com desprezo. Sabia que em si não tinha méritos para
recomendá-lo a Deus, e em absoluto desespero, clamou: Ó Deus, tem misericórdia
de mim, pecador! Lucas 18: 13. Não se comparou com outros. Esmagado por um
senso de culpa, estava como que só, na presença de Deus. Seu único desejo era
alcançar paz e perdão; sua única súplica, a bênção de Deus. E foi abençoado. Digovos, disse Cristo, que este desceu justificado para sua casa, e não aquele. Lucas
18: 14.
78
O fariseu e o publicano representam os dois grandes grupos em que se dividem os
adoradores de Deus. Seus primeiros representantes encontram-se nos dois primeiros filhos
nascidos neste mundo. Caim julgava-se justo, e foi a Deus com uma simples oferta de
gratidão. Não fez confissão de pecado, nem reconheceu que carecia de misericórdia. Abel,
porém, foi com o sangue que apontava ao Cordeiro de Deus. Foi como pecador que
confessava estar perdido; sua única esperança era o imerecido amor de Deus. O Senhor Se
agradou de seu sacrifício, mas de Caim e de sua oferta não Se agradou. A intuição de
necessidade, o reconhecimento de nossa pobreza e pecado, é a primeira condição para
sermos aceitos por Deus. Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino
dos Céus. Mateus 5: 3.
Para cada um dos grupos representados pelo fariseu e o publicano, há uma lição na
história do apóstolo Pedro. Na primeira parte de seu discipulado, Pedro tinha-se por forte.
Semelhante ao fariseu, não era a seus olhos como os demais homens. Lucas 18: 11. Quando
Cristo, na noite em que foi traído, preveniu Seus discípulos: Todos vós esta noite vos
escandalizareis em Mim, Pedro retrucou confiantemente: Ainda que todos se escandalizem,
nunca, porém, eu. Marcos 14: 27 e 29. Pedro não conhecia o perigo que o ameaçava. A
confiança própria enganou-o. Julgou-se capaz de resistir à tentação; mas poucas horas
depois veio a prova e, com blasfêmia e perjúrio, negou seu Senhor.
79
Quando o cantar do galo lhe lembrou as palavras de Cristo, surpreso e
atônito pelo que acabava de fazer, voltou-se e olhou a seu Mestre.
Simultaneamente Cristo olhou a Pedro e sob aquele olhar aflito em que se
misturavam amor e compaixão por ele, Pedro conheceu-se. Saiu e chorou
amargamente. Aquele olhar de Cristo lhe partiu o coração. Pedro chegara ao ponto
decisivo, e amargamente se arrependeu de seu pecado. Foi como o publicano em
sua contrição e arrependimento, e como o publicano achou também graça. O olhar
de Cristo lhe assegurou o perdão.
Findou aí sua confiança própria. Nunca mais foram repetidas as velhas
afirmações de auto-suficiência.
80
Depois da ressurreição, três vezes provou Cristo a Pedro. Simão, filho de
Jonas, disse, amas-Me mais do que estes? João 21: 15. Pedro agora não se exaltou
sobre os irmãos. Apelou Àquele que podia ler o coração. Senhor, respondeu, Tu sabes
tudo; Tu sabes que eu Te amo. João 21: 17.
Recebeu então Sua incumbência. Foi-lhe apontada uma obra mais ampla e
mais delicada que antes. Cristo lhe ordenou apascentar as ovelhas e os cordeiros.
Confiando-lhe ao cuidado as pessoas pelas quais o Salvador depusera a vida, deu Cristo a
Pedro a maior prova de estar convencido de sua reabilitação. O discípulo outrora inquieto,
orgulhoso, confiante em si mesmo, tornara-se submisso e contrito. Desde então, seguiu o
seu Senhor em abnegação e sacrifício próprio. Era participante dos sofrimentos de Cristo;
e quanto Ele Se assentar no trono de Sua glória, Pedro será um participante da mesma.
O mesmo mal que levou Pedro à queda e excluiu da comunhão com Deus o
fariseu, torna-se hoje a ruína de milhares. Nada é tão ofensivo a Deus nem tão perigoso
para o espírito humano como o orgulho e a presunção. De todos os pecados é o que
menos esperança incute, e o mais irremediável.
81
A queda de Pedro não foi repentina, mas gradual. A confiança em si mesmo
induziu-o à crença de que estava salvo, e desceu passo a passo o caminho descendente
até negar a Seu Mestre. Jamais podemos confiar seguramente em nós mesmos ou sentir,
aquém do Céu, que estamos livres da tentação. Nunca se deve ensinar aos que aceitam o
Salvador, conquanto sincera sua conversão, que digam ou sintam que estão salvos. Isso é
enganoso. Deve-se ensinar cada pessoa a acariciar esperança e fé; mas, mesmo quando
nos entregamos a Cristo e sabemos que Ele nos aceita não estamos fora do alcance da
tentação. A Palavra de Deus declara: Muitos serão purificados, e embranquecidos, e
provados. Daniel 12: 10. Só aquele que sofre a tentação... receberá a coroa da vida.
Tiago 1: 12.
Os que aceitam a Cristo e dizem em sua primeira confiança: Estou salvo! estão
em perigo de depositar confiança em si mesmos. Perdem de vista a sua fraqueza e
necessidade constante do poder divino. Estão desapercebidos para as ciladas de Satanás,
e quando tentados, muitos, como Pedro, caem nas profundezas do pecado. Somos
advertidos: Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia. I Corintios 10:12.
Nossa única segurança está na constante desconfiança de nós mesmos e na confiança em
Cristo.
82
Era necessário que Pedro conhecesse seus próprios defeitos de caráter e a
necessidade de receber de Cristo poder e graça. O Senhor não podia livrá-lo da
tentação, mas sim salvá-lo da derrota. Estivesse Pedro disposto a aceitar a
advertência de Cristo, teria vigiado em oração. Teria andado com temor e tremor
para que seus pés não tropeçassem. E teria recebido auxílio divino, de modo que
Satanás não teria alcançado a vitória.
Foi pela presunção que Pedro caiu; e por arrependimento e humilhação
seus pés foram firmados novamente. No relatório de sua experiência todo pecador
penitente pode achar encorajamento. Embora Pedro tivesse pecado gravemente,
não foi abandonado. As palavras de Cristo: Roguei por ti, para que a tua fé não
desfaleça, estavam-lhe escritas no mais íntimo do ser. Lucas 22: 32. Em sua
amarga agonia de remorso, esta oração e a lembrança do terno e misericordioso
olhar de Cristo, deram-lhe esperança. Depois da ressurreição, lembrou-se Cristo de
Pedro e deu ao anjo a mensagem para as mulheres: Ide, dizei a Seus discípulos e a
Pedro que Ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali O vereis. Marcos 16: 7. O
arrependimento de Pedro foi aceito pelo Salvador compassivo.
83
E a mesma compaixão manifestada para salvar a Pedro é oferecida a todo
indivíduo que caiu em tentação. É o ardil especial de Satanás levar o homem ao pecado e,
então, deixá-lo desamparado e tremente, receando suplicar perdão. Por que devemos
temer, se Deus disse: Que se apodere da Minha força e faça paz comigo; sim, que faça
paz comigo.? Isaias 27: 5. Foram tomadas todas as providências para nossas fraquezas e
oferecido todo encorajamento para nos chegarmos a Cristo.
Cristo ofereceu Seu corpo quebrantado para readquirir a herança de Deus, para
dar ao homem outra prova. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por Ele
se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles. Hebreus 7: 25. Por Sua
vida imaculada, obediência e morte na cruz do Calvário, intercedeu Cristo pela raça
perdida. E agora o Príncipe de nossa salvação não intercede por nós como mero
peticionário, mas como um Conquistador que reclama a vitória. Seu sacrifício está
consumado e como nosso Intercessor cumpre a obra que a Si mesmo Se impôs,
apresentando a Deus o incensário que contém os Seus méritos imaculados e as orações,
confissões e ações de graças de Seu povo. Perfumados com a fragrância de Sua justiça,
sobem como cheiro suave a Deus. A oferenda é inteiramente aceitável, e o perdão cobre
todas as transgressões.
84
Cristo Se comprometeu a ser nosso substituto e fiador, e não despreza
ninguém. Ele, que não pôde ver seres humanos sujeitos à ruína eterna sem entregar
Sua vida à morte por eles, contemplará com piedade e compaixão todo aquele que
reconhece não poder salvar-se a si próprio. Não contemplará nenhum trêmulo
suplicante, sem soerguê-lo. Ele, que pela expiação proveu ao homem um infinito
tesouro de força moral, não deixará de empregar esse poder em nosso favor.
Podemos depositar a Seus pés nossos pecados e cuidados; pois Ele nos ama.
Mesmo Seu olhar e palavras despertam nossa confiança. Formará e moldará nosso
caráter segundo Sua vontade.
85
Em todo o poderio satânico não há força para vencer uma única pessoa
que se rende confiante a Cristo. Dá vigor ao cansado e multiplica as forças ao que
não tem nenhum vigor. Isaias 40: 29.
Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar
os pecados e nos purificar de toda injustiça. I João 1: 9. O Senhor diz: Somente
reconhece a tua iniqüidade, que contra o Senhor, teu Deus, transgrediste.
Jeremias 3:13. Então, espalharei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de
todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Ezequiel
36:25.
86
Todavia precisamos ter conhecimento de nós mesmos, conhecimento que
resultará em contrição, antes de podermos achar perdão e paz. O fariseu não sentia
convicção de pecado. O Espírito Santo não podia nele atuar. Sua vida apoiava-se
numa couraça de justiça própria, a qual as setas de Deus, farpadas e desferidas
pelos anjos, não podiam penetrar. Cristo só pode salvar quem reconhece ser
pecador. Veio a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos
cativos, e dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos. Lucas 4: 18 e 19.
Mas não necessitam de médico os que estão sãos. Lucas 5: 31. Precisamos
conhecer nossa verdadeira condição, do contrário não sentiremos nossa carência do
auxílio de Cristo. Precisamos compreender nosso perigo, senão não correremos ao
refúgio. Precisamos sentir a dor de nossas feridas, senão não desejaremos cura.
87
O Senhor diz: Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada
tenho falta = e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e
nu, aconselho-te que de Mim compres ouro provado no fogo, para que te
enriqueças, e vestes brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua
nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Apocalipse 3: 17 e
18. O ouro provado no fogo é a fé que opera por amor. Somente isto nos pode pôr
em harmonia com Deus. Podemos ser ativos, podemos executar muito trabalho;
mas sem o amor, amor como o que há no coração de Cristo, jamais podemos ser
contados na família celestial.
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Nenhum homem pode de si mesmo entender seus erros. Enganoso é o coração,
mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? Jeremias 17: 9. Os lábios
podem exprimir uma pobreza de espírito que o coração não reconhece. Ao passo que fala
a Deus de pobreza de espírito, pode o coração ensoberbecer-se com a presunção de sua
humildade superior e exaltada justiça. Só de um modo o verdadeiro conhecimento do
próprio eu pode ser alcançado. Precisamos olhar a Cristo. O desconhecimento Dele é que
dá aos homens uma tão alta idéia de sua própria justiça. Ao contemplarmos Sua pureza e
excelência, veremos nossa fraqueza, pobreza e defeitos, como realmente são. Ver-nosemos perdidos e sem esperança, vestidos com o manto da justiça própria, como qualquer
pecador. Veremos que se afinal formos salvos, não será por nossa própria bondade, mas
pela graça infinita de Deus.
A oração do publicano foi ouvida porque denotava submissão, empenhando-se
para apoderar-se da Onipotência. O próprio eu nada parecia ao publicano senão vergonha.
Assim precisa ser considerado por todos os que buscam a Deus. Pela fé, que renuncia a
toda confiança própria, precisa o necessitado suplicante apropriar-se do poder infinito.
89
Nenhuma cerimônia exterior pode substituir a simples fé e a renúncia
completa do eu. Todavia ninguém se pode esvaziar a si mesmo do eu. Somente
podemos consentir em que Cristo execute a obra. Então a linguagem da alma será:
Senhor, toma meu coração; pois não o posso dar. É Tua propriedade. Conserva-o
puro; pois não posso conservá-lo para Ti. Salva-me a despeito de mim mesmo, tão
fraco e tão dessemelhante de Cristo. Molda-me, forma-me e eleva-me a uma
atmosfera pura e santa, onde a rica corrente de Teu amor possa fluir por minha
alma.
Não é só no princípio da vida cristã que esta entrega do próprio eu deve
ser feita. Deve ser renovada a cada passo dado em direção do Céu. Todas as nossas
boas obras dependem de um poder que não está em nós. Portanto deve haver um
contínuo almejar do coração após Deus, uma contínua, fervorosa, contrita
confissão de pecado e humilhação da alma perante Ele. Só podemos caminhar com
segurança por uma constante negação do próprio eu e confiança em Cristo.
90
Quanto mais nos achegarmos a Jesus e mais claramente discernirmos a
pureza de Seu caráter, tanto mais claramente discerniremos a extraordinária
malignidade do pecado, e tanto menos teremos a tendência de nos exaltar. Aqueles a
quem o Céu considera santos, são os últimos a alardear sua própria bondade. O
apóstolo Pedro tornou-se um fiel servo de Cristo e foi grandemente honrado com luz e
poder divinos; e tomou parte ativa na edificação da igreja de Cristo; entretanto, Pedro
jamais se esqueceu da tremenda experiência de sua humilhação; seu pecado foi
perdoado; contudo bem sabia que unicamente a graça de Cristo lhe podia valer naquela
fraqueza de caráter que lhe ocasionou a queda. Em si mesmo nada achava de que se
gloriar.
Nenhum dos apóstolos e profetas jamais pretendeu estar isento de pecado.
Homens que viveram mais achegados a Deus, homens que sacrificariam antes a vida a
cometer conscientemente uma ação injusta, homens que Deus honrou com luz e poder
divinos, confessaram a pecaminosidade de sua natureza. Nunca confiaram na carne,
nunca pretenderam ser justos em si mesmos, mas confiaram inteiramente na justiça de
Cristo. O mesmo se dará com todos os que contemplam a Cristo.
91
A cada avanço na experiência cristã nosso arrependimento aprofundar-seá. Justamente àqueles a quem Deus perdoou e reconhece como Seu povo, diz Ele:
Então, vos lembrareis dos vossos maus caminhos e dos vossos feitos, que não
foram bons; e tereis nojo em vós mesmos das vossas maldades e das vossas
abominações. Ezequiel 36: 31. Outra vez, diz: Estabelecerei o Meu concerto
contigo, e saberás que Eu sou o Senhor; para que te lembres, e te envergonhes, e
nunca mais abras a tua boca, por causa da tua vergonha, quando Me reconciliar
contigo de tudo quanto fizeste, diz o Senhor Iahweh. Ezequiel 16: 62 e 63. Então
nossos lábios não se abrirão para nos gloriarmos. Saberemos que só em Cristo
temos suficiência. Faremos nossa a confissão do apóstolo: Eu sei que em mim, isto
é, na minha carne, não habita bem algum. Romanos 7: 18. Longe esteja de mim
gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo
está crucificado para mim e eu, para o mundo. Gálatas 6: 14.
92
Em harmonia com esta experiência está o mandamento: Operai a vossa
salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer
como o efetuar, segundo a Sua boa vontade. Filipenses 2: 12 e 13. Deus não vos
ordena temer que deixará de cumprir Suas promessas, que Sua paciência se cansará
ou que Sua compaixão há de faltar. Temei que vossa vontade não seja mantida em
sujeição à vontade de Cristo, que vossos traços de caráter herdados e cultivados vos
dominem a vida. Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar,
segundo a Sua boa vontade. Temei que o próprio eu se interponha entre vosso
espírito e o grande Artífice. Temei que vossa obstinação frustre o elevado propósito
que, por vosso intermédio, Deus deseja alcançar. Temei confiar na própria força;
temei retirar da mão de Cristo a vossa mão e tentar caminhar pela estrada da vida
sem Sua presença permanente.
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Precisamos evitar tudo quanto estimule o orgulho e a presunção; portanto,
devemos acautelar-nos de fazer ou receber lisonjas ou louvores. Lisonjear é obra de
Satanás. Procede ele tanto com bajulações, quanto acusando e condenando. Deste modo
procura causar a ruína da alma. Aqueles que louvam os homens, são usados por Satanás
como agentes seus. Esquivem-se os obreiros de Cristo de toda palavra de elogio.
Elimine-se de vista o próprio eu. Cristo, somente, deve ser exaltado. Dirija-se todo olhar
e ascenda o louvor de cada coração Àquele que nos ama, e em Seu sangue no lavou dos
nossos pecados. Apocalipse 1: 5.
A vida em que é acariciado o temor do Senhor não será uma vida de tristeza e
melancolia. É a ausência de Cristo que torna triste a fisionomia, e a vida uma
peregrinação de gemidos. Quem muito se considera e está cheio de amor-próprio, não
sente a necessidade de união vital e pessoal com Cristo. O coração que não caiu sobre a
Rocha, vangloria-se de sua integridade. Os homens desejam uma religião dignificada.
Desejam caminhar num caminho fácil para admitir seus bons predicados. Seu amorpróprio e sua ambição de popularidade e elogio excluem do coração o Salvador, e sem
Ele só há melancolia e sombra. Mas Cristo habitando na vida é uma fonte de alegria.
Para todos os que O aceitam, a nota predominante da Palavra de Deus é o regozijo.
94
Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo
nome é santo: Em um alto e santo lugar habito e também com o contrito e
abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o
coração dos contritos. Isaias 57: 15.
Foi quando Moisés estava oculto na fenda da rocha, que mirou a glória
de Deus. E quando nos escondemos na Rocha partida é que Cristo nos cobrirá com
Sua mão traspassada e ouviremos o que o Senhor diz a Seus servos. A nós como a
Moisés, Deus Se revelará como misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande
em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa
a iniqüidade, e a transgressão, e o pecado. Êxodo 34: 6 e 7.
95
A obra da redenção envolve conseqüências das quais é difícil ao homem
ter qualquer concepção. As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não
subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que O amam. I
Corintios 2: 9. Aproximando-se o pecador da cruz erguida, e prostrando-se junto à
mesma, atraído pelo poder de Cristo, dá-se uma nova criação. É-lhe dado um novo
coração. Torna-se uma nova criatura em Cristo Jesus. A santidade acha que nada
mais há para requerer. Deus mesmo é justificador daquele que tem fé em Jesus.
Romanos 3: 26. E aos que justificou, a esses também glorificou. Romanos 8: 30.
Grande como seja a vergonha e degeneração pelo pecado ainda maior será a honra
e exaltação pelo amor redentor. Aos seres humanos que lutam por conformidade
com a imagem divina, será concedido um suprimento do tesouro celeste, uma
excelência de poder que os colocarão acima dos próprios anjos que jamais caíram.
96
Assim diz o Senhor, o Redentor de Israel, o seu Santo, à alma
desprezada, ao que as nações abominam... os reis O verão e se levantarão; os
príncipes diante de Ti se inclinarão, por amor do Senhor, que é fiel, e do Santo
de Israel, que te escolheu. Isaias 49: 7.
Porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer
que a si mesmo se humilha será exaltado. Lucas 18: 141.
1
Parábolas de Jesus, pp. 150 a 163
Que Deus nos abençoe!
Itamar de Paula Marques
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