Christian de Paul de Barchifontaine
Enfermeiro, Mestre em Administração
Hospitalar e da Saúde, Doutorando em
Enfermagem na Universidade Católica
Portuguesa (UCP). Docente no Mestrado em
Bioética do Centro Universitário São Camilo.
Pesquisador do Núcleo de Bioética do Centro
Universitário São Camilo. Co-autor
(com L. Pessini) do livro “Problemas atuais de
Bioética”, 8ª edição, São Paulo: Loyola e
Centro Universitário São Camilo, 2007.
Atualmente, Reitor do Centro Universitário
São Camilo – São Paulo, Brasil.
(Eclo, 3017)
INTRODUÇÃO
A minha proposta é uma reflexão sobre a
dignidade no processo do morrer.
Não existem receitas, mas sim uma vivência
humana no confronto com a morte.
I. SOCIEDADE QUE NEGA A MORTE
Vivemos numa sociedade que nega a
morte. Assim a sociedade de consumo
proclama: para saber viver bem, esqueça
que você deve morrer. A morte, como fim
da vida, é totalmente inaceitável, o
impensável absoluto que precisa aniquilar,
negar. A morte é temível, ela nos corta dos
outros, daqueles que vivem, e é isso o
nosso castigo mais temido.
A partir daqueles que analisam o coração dos
homens, o tabu da morte começa a ter um
outro rosto.
Pouco a pouco, a morte não é mais proibida
porque podemos travesti-la; ela não é mais
impura já que podemos tocá-la, ela não é mais
sagrada já que podemos rir dela.
Para todos aqueles que estão na
vanguarda da técnica e da ciência, a morte
é negada. A sociedade de hoje recusa à
morte o direito de existir porque ela é um
insulto à vida, ao progresso.
Concretamente, como vivemos essa
realidade?
II. BIOÉTICA
A bioética (ética da vida, da saúde e do meio
ambiente) é uma reflexão necessariamente
multiprofissional, relacionada aos diversos
campos que atuam na saúde, nela
participando ativamente filósofos, teólogos,
sociólogos, antropólogos, juristas, religiosos,
médicos, biólogos, políticos,
economistas...Sua perspectiva é autonômica e
humanista, tende a ver a pessoa em sua
globalidade.
III. EUTANÁSIA
O conceito clássico de eutanásia é tirar a
vida do ser humano por considerações
“humanitárias” para a pessoa ou para a
sociedade, no caso de deficientes,
anciãos, enfermos incuráveis....
Distingue-se entre eutanásia ativa
(positiva ou direta), de um lado, e passiva,
de outro.
Essa distinção parece não ser a mais
adequada para se abordar hoje o problema
da eutanásia.
Tendo em vista a complexidade da
questão, alguns autores, entre os quais o
eticista Javier Gafo (Espanha), propõem
discutir a questão em torno dos termos
“deixar morrer em paz” e “eutanásia”.
IV. DISTANÁSIA
O dicionário Aurélio conceitua distanásia como
“morte lenta, ansiosa e com muito sofrimento”.
Trata-se de um neologismo de origem grega, em
que o prefixo dys tem o significado de “ato
defeituoso”. Portanto, distanásia,
etimologicamente, significa prolongamento
exagerado da agonia, do sofrimento e da morte
de um paciente.
A questão: até que
ponto se deve
prolongar o processo
do morrer quando não
há mais esperança de
vida, de a pessoa
gozar novamente de
saúde, já que, nessa
fase, todo esforço
terapêutico só adia o
inevitável e prolonga a
agonia e os
sofrimentos humanos?
Manter a pessoa “mortaviva” interessa a quem?
É imprescindível ter
clareza conceitual neste
terreno polêmico.
De um lado, temos a
eutanásia (=abreviação
de vida), do outro,
distanásia
(=prolongamento da
agonia, do sofrimento e
adiamento da morte).
Entre esses dois extremos, a atitude que
honra a dignidade humana e preserva a
vida é a ortotanásia, para falar da morte
digna, sem abreviações desnecessárias e
sem sofrimentos adicionais, isto é, “morte
em seu tempo certo”.
V. O IDEAL DA ORTOTANÁSIA
Utilizamo-nos do conceito de ortotanásia, que
é a arte de morrer bem, sem ser vítima de
mistanásia (morte infeliz), por um lado, ou de
distanásia (encarniçamento terapêutico), por
outro, e sem recorrer à eutanásia. O grande
desafio da ortotanásia, o morrer corretamente,
humanamente, é como resgatar a dignidade do
ser humano na última fase da sua vida,
especialmente quando ela for marcada por dor
e sofrimento.
A ortotanásia é a antítese de toda tortura,
de toda morte violenta em que o ser
humano é roubado não somente de sua
vida mas também de sua dignidade.
O conceito de ortotanásia permite ao doente,
cuja doença ameaça gravemente sua vida ou
que já entrou numa fase irreversível, e àqueles
que o cercam, enfrentar a morte com certa
tranqüilidade porque, nesta perspectiva, a morte
não é uma doença a curar, mas sim algo que faz
parte da vida. Uma vez aceito este fato que a
cultura ocidental moderna tende a esconder e a
negar, abre-se a possibilidade de trabalhar com
as pessoas a distinção entre curar e cuidar, entre
manter a vida quando esse é o procedimento
correto e permitir que a pessoa morra quando
sua hora chegou.
Nessa perspectiva, é importante notar que a
psicologia e a ética são fortes aliadas na
promoção da ortotanásia, que não pode ser
reduzida a um procedimento simplesmente
biológico que permite que se possa morrer sem
dor. A contribuição de Elisabeth Kübler-Ross é
especialmente importante quando ela identifica
possíveis etapas no processo
pelo qual passa a pessoa que
morre.
O amparo ao doente terminal se torna mais
fácil para a família, para os amigos e para
os profissionais da saúde quando
conseguem entender os mecanismos da
negação, da raiva, da barganha, da
depressão e da aceitação. O próprio
doente se beneficia quando toma
consciência deste processo e nele se torna
sujeito e protagonista.
VI. CUIDADOS PALIATIVOS
Fundamentalmente, a filosofia dos cuidados
paliativos procura operacionalizar na prática a
visão da ortotanásia.
Hospice: uma nova maneira de ajudar alguém
perto da morte. Hospice não é hospício,
instituição para pacientes mentais. Trata-se de
uma instituição voltada para os cuidados dos que
têm de enfrentar a morte. A tradução em
português mais próxima de seu significado seria
hospital-lar. Preferimos manter o termo no seu
original HOSPICE. Vejamos um pouco a respeito
de sua origem e filosofia.
Nos hospices, as pessoas internadas não são
tratadas como simples pacientes: elas têm ali
um lugar que procura ser o mais possível
confortável, de convivência com seus familiares
e amigos e as suas coisas (flores, animais de
estimação...). Elas são cuidadas em todas as
suas necessidades físicas, mas principalmente
atendidas em suas necessidades espirituais e
emocionais. Elas podem morrer em paz,
auxiliadas por quem se preparou para exercer a
função de tanatologistas.
VII. LEGISLAÇÃO E CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA
1. PLS 116/2000 (aprovado no Senado) e 524/2009
2. Resolução CFM nº 1.805/2006
3. Código de Ética Médica – Revisto, atualizado e
ampliado, 2010.
- Cap. 1., XXII
- Cap. 5, Art. 41.
se por um lado,
este tipo de instrução encontra a legitimidade ética
nos princípios da beneficência e da nãomaleficência (e no princípio do respeito pela
autonomia quando o paciente também é envolvido
no processo de decisão) deve ter-se em atenção
que a sua aplicação concreta deve estar
enquadrada em um espírito de equipe,
envolvendo todos aqueles que cuidam
efetivamente do doente terminal.
Apesar de todas as reações emocionais que a
morte acarreta, os profissionais da saúde têm
o dever de permitir que o doente tenha uma
morte digna, com o maior conforto possível e
no tempo certo, sem pretender adiá-la ou
atrasá-la indevidamente.
Perto do fim da vida, uma pretensa cura
significa simplesmente a troca de um modo
de morrer por outro. Cada vez mais, nossas
tarefas serão de acrescentar vida aos anos e
não anos à vida, de dar mais atenção ao
doente e menos à cura por si mesma.
Download

ordem_de_nao_reanimar_Dr_Christian