7 - Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
MISERICORDIOSOS - Grego: eleêmôn, piedoso, misericordioso,
compassivo. Em Hebreus 2: 17 se diz que Cristo é misericordioso eleêmôn e fiel sumo
sacerdote. A misericórdia da qual fala Cristo aqui é uma virtude ativa que se projeta para
os seres humanos. Tem pouco valor enquanto não se converte em obras de misericórdia.
Em Mateus 25: 31 a 46 se apresentam as obras de misericórdia como o elemento
decisivo para a admissão no reino da glória. Tiago inclui os atos de misericórdia em sua
definição da religião pura Tiago 1: 27. Miquéias 6: 8 resume a obrigação do homem
para com Deus e seu próximo: fazer, justiça, e amar misericórdia, e humilhar-se ante
teu Deus. Note que Miquéias, como Cristo, menciona tanto a humildade ante Deus
como a misericórdia para com os homens. Estes dois procederes podem comparar-se
com os dois mandamentos, dos quais depende toda a lei e os profetas. Mateus 22: 401.
1
CBASD, vol. 5, p. 318.
2
O egoísmo nos impede de ver a Deus. O espírito interesseiro julga a Deus
igual a si mesmo. Até que tenhamos renunciado a isso, não podemos compreender
Aquele que é amor. Unicamente o coração abnegado, o humilde e fiel de espírito, verá a
Deus como misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e
verdade1.
Os misericordiosos são aqueles que estão conscientes de serem indignos
recipientes da misericórdia de Deus e que, se não fosse, eles não seriam apenas
pecadores, mas pecadores condenados. Consequentemente esforçam-se por refletir no
seu convívio com outros algo da misericórdia que Deus mostrou para com eles. E quanto
mais fazem isto, mais a bênção de Deus se estende a eles2.
1
Desejado de Todas as Nações, p. 286.
2 Mateus, Introdução e Comentário, R. V. G. Tasker, Mundo Cristão, pp. 49 e 50.
3
As palavras vem do Salmo 18: 25; Colossenses 3: 13 Efésios 4: 32 mostram
que o crente é alvo de misericórdia, precisa da misericórdia divina e tem obrigação de
exercer esta qualidade. Deus mostra sua misericórdia, sem merecimento da parte de quem
a recebe. O povo de Deus deve imitá-lo, lembrando-se especialmente que ainda precisa de
algo Mateus 18: 23 a 35, na parábola do credor incompassivo, ensina que aqueles que
recebem misericórdia estão na obrigação de demonstrá-la e que se assim não fizerem,
receberão mais severo julgamento, Lucas 6: 37; Tiago 5: 9. Bengel tem belos
pensamentos sobre o reino de Deus, dado aos humildes como benigna tálio que significa
absolvição graciosa. Aqueles que são assim absolvidos dificilmente deixam de apresentar
a mesma atitude para com seus semelhantes. Os que mostram tal misericórdia para com a
humanidade estão sujeitos, ipso fato à mesma graça1.
1
ONTIVV, vol. 1, Russell Norman Champlin, Ph. D. Editora Milenium, p. 306.
4
I. Palavras Envolvidas.
A palavra portuguesa misericórdia vem do latim mercês, mercedis, pagamento
recompensa, que veio a ser associado a recompensas divinas ou atos de compaixão
celeste.
No AT temos três palavras que devem ser consideradas:
1. Hésed. Que aponta para a idéia de sede física da compaixão, e que leva o
indivíduo a sentir e exprimir compaixão.Salmo 23: 5; Josué 2: 12 a 14; Jeremias 3: 13
para exemplificar. Essa sede compaixão era as entranhas modernamente atribuímos isto
ao coração ou ao ventre Gênesis 43: 30; I Reis 3: 26. É daí que se originam o amor e a
misericórdia naturais, que se podem achar nos membros de uma mesma família, uns
pelos outros, e que o homem espiritual é capaz de ampliar, envolvendo seus parentes
distantes e outras pessoas. Deus estende sua misericórdia a todas as criaturas vivas,
sendo esse o alvo mesmo da espiritualidade no tocante a esse aspecto. Uma mãe sente
compaixão por seu bebê Isaias 49: 15; um pai por seu filho Jeremias 31: 20; um
amante por seu abjeto amado Oséias 2: 19; um irmão por seu irmão Amós 1: 11.
5
2. Rhm. Uma raiz hebraica que descreve as atitudes de Deus em
relação à miséria e desgraça de seu povo, ou seja, a compaixão que isto provoca
nele. O vínculo que une Deus às suas criaturas, leva-o a expressar compaixão
para todos os seres vivos. Até mesmo aqueles que nada merecem da parte dele
recebem misericórdia. Isaias 13: 18; Jeremias 6: 23; 21: 7; 42: 12; I Reis 8:
50. Um aumentativo plural desta raiz, rechamim, fala sobre a piedade, a
compaixão, o amor e as emoções associadas Salmo 103: 4. Na verdade hésed e
rachamim são sinônimos virtuais.
6
3. A raiz hebraica chn é usada para indicar a exibição de um
favor, de alguém se mostrar gracioso um para com o outro. Deuteronômio
7: 2; Salmo 57: 1; 123: 2 e 3. A forma substantiva desta raiz é chen, favor,
sucesso, aceitação e fortuna. Essa palavra também aponta para a idéia de
sentir compaixão, de poupar a pessoa favorecida, de não aplicar nenhum
castigo a ela. O trecho de Deuteronômio 7: 2 diz que Israel não deveria
poupar seus inimigos; não obstante Deus poupa a todos nós, pois os
resultados da aplicação de sua justiça seriam desastrosos para com todos
nós. Lamentações 3; 22.
7
No NT precisamos considerar três vocábulos a saber:
1. Éleos, misericórdia, compaixão. Essa palavra grega ocorre por 27 vezes: Mateus
9: 13 citando Oseías 6: 6; 12: 7; 28: 23; Lucas 1: 54, 58, 72,78; 10: 37; Romanos 9:
23; 11: 31; 15: 9; Gálatas 6: 16; Efésios 2: 4; I Timóteo 1: 2; II Timóteo 1: 2, 16,
18; Tito 3: 5; Hebreus 4: 16; Tiago 2: 13; 3: 17; I Pedro 1: 3; II João 3; Judas 2:
21. A forma eleemosúme aparece por treze vezes: Mateus 6: 2 a 4; Lucas 11: 41; 12:
33; Atos 3: 2, 3, 10; 9: 36; 10: 2, 4, 31; 24: 17. O verbo eleéo figura por vinte nove
vezes: Mateus 5: 7; 9: 27; 15: 22; 17: 15; 18: 33; 20: 30, 31; Marcos 5: 19; 10: 47,
48; Lucas 16: 24; 17: 13; 18: 38, 39; Romanos 9: 15 citando Êxodo 33: 19; 9: 16,
18; 11: 30 a 32; 12: 8; I Corintios 7: 25; II Corintios 4: 1; Filipenses 2: 27; I
Timóteo 1: 13, 16; I Pedro 2: 10; Judas 22 e 23. O adjetivo eleémon ocorre por duas
vezes Mateus 5: 7 e Hebreus 2: 17. A idéia de misericórdia está sempre relacionada à
idéia de graça no grego charis.
8
2. Oiktirmós. Simpatia compaixão. Essa palavra grega que se refere às
simpatias e interesses coletivos de Deus pelos homens, aparece por cinco vezes:
Romanos 12: 1; II Corintios 1: 3; Filipenses 2: 1; Colossenses 3: 12; Hebreus 10:
28. Sua forma adjetivada oiktirmon, foi usada por duas vezes: Romanos 9: 15
citando Êxodo 33: 19.
3. Splágchna, entranhas. Está metaforicamente envolvida a idéia de
misericórdia. Essa palavra grega aparece por onze vezes. Lucas 1: 78; Atos 1: 18; II
Corintios 6: 12; 7: 15; Filipenses 1: 8; 2: 1; Colossenses 3: 12; Filemom 7, 12 e
20; I João 3: 17. O verbo splagchnízomai, aparece por doze vezes: Mateus 9: 36;
14: 14; 15: 32; 18: 27; 20: 34; Marcos 1: 41; 6: 34; 8: 2; 9: 22; Lucas 7: 13; 10:
33; 15: 20.
9
II. Definições
É o ato de tratar um ofensor com menor rigor do que ele merece.
Trata-se do ato de não aplicar um castigo merecido, mas também envolve a
idéia de dar a alguém algo que não merece. Pode referir-se a tos de caridade
ou de cura. Aponta para o ato de aliviar o sofrimento, inteiramente a parte da
questão do mérito pessoal. Quando chega a idéia de favor desmerecido,
então já se torna um sinônimo da palavra graça. A misericórdia retém o
julgamento que um homem merece; que a graça outorga alguma bênção que
esse homem não merece. Algumas vezes pode ser feita esta distinção, mas
os dois conceitos se se justapõem. A misericórdia pode indicar benevolência,
benignidade, bênção, clemência, compaixão e favor.
10
A misericórdia é uma atitude de compaixão e de beneficência ativa e
graciosa expressa mediante o perdão calorosamente conferido a um malfeitor. Não
denota condescendência, mas amor, desejando restaurar o ofensor e aliviar o castigo
que esse ofensor merece. Na Bíblia a misericórdia de Deus é oferecida gratuitamente,
uma expressão não constrangida de amor, sem qualquer mácula de preconceito,
aberta a todos os homens dignos e indignos igualmente. A teologia não considera a
misericórdia divina cristã como incompatível com os seus justos julgamentos, mas
considera ambas as coisas como expressões vivas de seu amor, conforme o mesmo é
revelado em Cristo, cuja morte expiatória reconcilia as exigências da justiça divina
com as misericórdias divinas.
A misericórdia combina um forte elemento emocional, identificado com a
compaixão, a piedade e o amor, com demonstração prática de gentileza e bondade,
em resposta à condição ou às necessidades do objeto da misericórdia.
11
III. Na Ética Cristã.
1. Deus é o exemplo que devemos seguir. Sua amor envolve todos os
seres humanos, e ninguém é merecedor desta virtude. A compaixão humana é uma
qualidade espiritual que procura aliviar o sofrimento humano e retém a vingança e
os atos de retaliação. Na ética cristã, a misericórdia em um homem faz parte da
justiça do reino, como um reflexo da divina, onde aquela encontra seu modelo e
inspiração. A compaixão divina é salientada na teologia judaica e maometana, mas
tudo deriva dos ensinamentos bíblicos.
2. Bultmann tinha razão quando falava na misericórdia como a qualidade
da fidelidade na ajuda. Quando os homens se dedicam a Deus, tem uma qualidade
que corresponde à correta espiritualidade, e agem com bondade. A própria
salvação alicerça-se sobre este dom divino Êxodo 34: 6; Lucas 1: 58; Efésios 2:
4; Tito 3: 5. A espiritualidade do crente está baseada na regeneração que produz a
salvação, na qual a misericórdia caracteriza os que são verdadeiramente justos.
12
3. A bondade alivia a justiça. Romanos 1 e 2 Paulo concebe a justiça crua, que
vê a condenação de todos os homens. Nisso consiste justiça crua sem o tempero do amor.
A partir do terceiro capítulo de Romanos Paulo mostra a realidade do Evangelho de
modo que a justiça crua não é aplicada.
4. O julgamento e a justiça não são conceitos contrários ao amor de Deus. Os
dois são sinônimos. Deus julga com o propósito de mostrar seu amor. Os juízos divinos
são atos de bondade que alcançam resultados benévolos. A cruz do Calvário foi um
julgamento divino contra o pecado, e dai veio a salvação dos homens. Um julgamento
que foi remédio e não apenas penal.
5. O cumprimento da lei do amor inclui atos de misericórdia, sendo este o
principal conceito ético. O amor é a prova da existência da espiritualidade I João 4: 71.
1
Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, R. N. Champlin, Ph.D. J. M. Bentes,
Editora Candeia, vol. 4, pp. 298 a 300.
13
Desviando o Foco
A quinta bem-aventurança nos apresenta um ponto critico. As quatro
primeiras tratam de nossa relação com Deus. A quinta começa a tratar de nosso
relacionamento com outras pessoas. O mesmo é verdade com respeito às últimas
três. Assim, a maneira mais simples de dividir as Bem-aventuranças é como a das
tábuas dos Dez Mandamentos.
Há uma verdade profunda na base dessa disposição. O cristianismo não
é simplesmente uma questão de amar e ter afeição por Deus. Longe disso. Os dois
Testamentos ilustram o cristianismo como amor tanto a Deus como as outras
pessoas. Não estamos tratando de um ou outro, mas de um e outro.
14
Na verdade, para mim, é impossível amar a Deus sem amar os outros.
De igual forma, se realmente refletirmos nisso, é impossível amar genuinamente
as outras pessoas, sem amar a Deus. O máximo que você transmite de amor a um
irmão ou irmã, desvinculado do amor divino, é meramente uma forma mais sutil
de egoísmo humano. Isto é, eu o amo por causa do que você pode fazer por mim.
Nosso Senhor escolheu cuidadosamente a ordem das Bem-aventuranças
para representar a ordem de nossa salvação. Cada bem-aventurança segue a
seqüência lógica da anterior. Assim, quando percebo que não tenho justiça em
mim mesmo e sou verdadeiramente humilde de espírito, reconheço minha extrema
debilidade. Clamo por livramento, e a percepção de meu verdadeiro estado me
torna genuinamente manso em vez de altivo e imponente. Percebendo minha
condição desesperada, naturalmente sinto fome e sede do perdão e da capacitadora
justiça de Deus.
15
Nesse ponto, o Deus de todas as misericórdias entra em cena e aceita meu
arrependimento, me declara perdoado, e implanta em mim um novo coração. Sou
redimido, salvo por Sua misericórdia para comigo. Essa é a promessa das quatro
primeiras bem-aventuranças.
Mas como devo responder? Esse é o assunto da segunda tábua das Bemaventuranças. Serei misericordioso, puro de coração, pacificador e paciente quando
tratado injustamente. Em resumo, através do poder de Deus me tornarei mais e mais
semelhante a Jesus1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George R.
Knight, CPB, p. 37.
16
Invertendo uma das Bem-aventuranças
O Filho do homem veio buscar e salvar o perdido. Lucas 19: 10.
Uma das coisas mais fáceis no mundo é entender as coisas às avessas. Isso é o
que acontece especialmente com a quinta bem-aventurança. Muitos a lêem como se
dissesse: Se eu tiver misericórdia e perdoar meus semelhantes, Deus terá misericórdia e
me perdoará. Em outras palavras, se eu sou misericordioso para com os outros, então
Deus, e só então, terá misericórdia de mim.
O problema dessa interpretação e que ela contraria totalmente as Escrituras.
Deixa de considerar quão perdido realmente sou, e quão sem esperança. Deixa de
responder pela seriedade do problema do pecado.
A Bíblia retrata Deus como Aquele que, em Sua misericórdia, sempre toma a
iniciativa de estender a mão e ajudar os perdidos em sua condição mesmo antes de eles
saberem que estão perdidos.
17
Assim sendo, é Deus quem busca Adão e Eva em sua nudez após a queda. E Deus
quem toma a iniciativa de buscar a ovelha perdida e a moeda perdida conforme Lucas 15, e é
o Pai que vai conversar com o filho mais velho na história do filho pródigo, nesse mesmo
capitulo.
Deus tanto amou o mundo que tomou a iniciativa de dar Seu Filho Unigênito, e esse
Filho veio para buscar e salvar os que estavam sob a sentença de morte.
E o próprio Deus a fonte de toda a misericórdia. Seu nome é misericordioso e piedoso. Êxodo
34: 6.
Portanto, eu não sou misericordioso porque quero ser salvo. Não! Como cristão, sou
misericordioso porque já fui salvo. Fui resgatado do abismo do pecado e da morte pelo Deus
de toda a misericórdia.
Qual o resultado? Tenho um desejo ardente de ser misericordioso em minha vida
diária. Quero passar adiante o dom de Deus1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George R. Knight,
CPB, p. 38.
18
O Significado de Misericórdia
Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e
fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a
transgressão e o pecado, ainda que não inocente o culpado. Êxodo 34: 6 e 7.
É muito fácil confundir misericórdia com uma atitude complacente. Mas a
pessoa misericordiosa não é aquela que sorri diante da transgressão e do pecado.
Nosso texto de hoje retrata um cuidadoso equilíbrio no caráter de Deus, entre a terna
compaixão e a firmeza que se recusa a tolerar a pecaminosidade rebelde. Estamos aqui
lidando com o Deus que é tanto amoroso quanto justo, o Deus que permanece firme
pelos princípios, e que todavia está disposto a demonstrar misericórdia para com
aqueles que tem fome e sede de uma vida melhor.
19
Eu, diz Jesus, repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e
arrepende-te. Apocalipse 3: 19. Deus nos ama demais para nos deixar levar uma vida
destrutiva, que não só afeta nossa própria felicidade, como perturba a comunidade em
geral.
Ele deseja o que há de melhor para nós. Ele nos considera o suficiente para
nos repreender quando erramos. Mas essa repreensão faz parte da Sua misericórdia.
As pessoas que não se importam e que deixam seus filhos agirem de maneira
selvagem. As pessoas sem consideração para com os outros e que deixam de advertir
seus amigos acerca das infelizes conseqüências de sua conduta.
Esse descaso não deve ser confundido com misericórdia. Misericórdia
significa fazer caso das pessoas, preocupar-se com o bem-estar dos que nos rodeiam.
Desse modo, em nossa misericórdia estendemos a mão aos outros, demonstrando
interesse cristão.
20
Em certo sentido, misericórdia e um estado mental, um estado de interesse
pelo bem-estar de outros; e uma atitude de consideração suficiente para ser tanto
amável como disposto a perdoar, mesmo que isso signifique ter de enfrentar
problemas e atos errôneos com a disposição de Cristo.
Senhor, ajuda-me hoje a assimilar a atitude misericordiosa que representa a
essência do caráter de Deus. Ajuda-me a mostrar em minha vida um equilíbrio
semelhante ao que revelas em Tua vida1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George R.
Knight, CPB, p. 39.
21
Misericórdia é Mais do que uma Atitude
E quem der a beber, ainda que seja um copo de dágua a um destes
pequeninos, por ser este Meu discípulo, em verdade vos digo que de modo
algum perderá o seu galardão. Mateus 10: 42.
Conta-se a história de Jacob Bright, que certo dia ao voltar da cidade
para casa, encontrou no caminho um vizinho pobre em grande dificuldade. Seu
cavalo sofrera um acidente e era preciso matá-lo. As pessoas se aglomeravam em
torno daquele homem, dizendo como lamentavam a situação. A alguém que
ficava repetindo isso em voz alta, Jacob disse: Eu lamento um valor de 50
dólares. Quanto o senhor lamenta? Ele então passou o chapéu por todos os que
ali estavam para conseguir comprar outro cavalo para aquele homem.
Ser misericordioso é mais do que uma atitude. É uma ação.
Misericórdia é amor em ação.
22
Mas antes do amor se tornar ação, e necessário olhar para os outros. Nas
palavras de William Barclay: Misericórdia é o oposto de egocentrismo. E a antítese de
egoísmo.
Certo teólogo sugeriu que a igreja é companheirismo entre pessoas mortas para si
mesmas e vivas para Cristo. A misericórdia entra em cena quando o amor ao eu é
substituído pelo amor a Deus e aos semelhantes.
Misericórdia é uma atitude do coração que gera atitudes específicas para com
pessoas especificas.
Por que deixar para depois? Por que não fazer uma gentileza não esperada para
seu esposo ou esposa? Que tal começar o dia de trabalho com um ato de bondade para com
o seu colega? Que tal surpreender seu pai, ou seu filho ou filha? Hoje é o dia de
demonstrar a outros a misericórdia de Deus. Não ao meio-dia ou depois do trabalho, mas
agora e depois também1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George R. Knight,
CPB, p. 40.
23
Religião que Embrutece
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dizimo da hortelã, do endro e do
cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a
misericórdia e a fé; devíeis, porem, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Guias cegos,
que coais o mosquito e engolis o camelo! Mateus 23: 23 e 24.
Nem toda religião é piedosa. Nem toda religião é crista. Nem toda religião é
prestativa. Para algumas pessoas, seria melhor não ter religião, ou pelo menos, não o tipo
de religião que tem.
Isso se aplica de modo particular aqueles cuja religião os torna mais rudes.
Alguém pode pensar nos reformadores de saúde que se indispõem contra membros da
família ou amigos que não são tão rigorosos quanto eles. Ou nas pessoas que explodem
quando seus momentos de meditação sobre a vida de Cristo são interrompidos. Pode-se
ainda imaginar a cena do purista doutrinário que se torna menos amável quando alguém
discorda dele num ponto de sua crença ou interpretação bíblica.
24
Tais pessoas se embruteceram pela assim chamada religião. Elas estão
caminhando na direção errada. Estão se afastando de Jesus.
Não me entenda mal. Reforma de saúde, uma vida de fiel devoção e
doutrinas corretas são importantes.
Por quê?, pareço ouvir alguém perguntar.
Porque as pessoas doentes se tornam resmungonas e acham difícil
demonstrar misericórdia total aos demais. O verdadeiro propósito da reforma de
saúde é preparar-nos para viver melhor uma vida de misericórdia. O mesmo pode ser
dito acerca do estudo devocional. Aqueles que andam com Jesus devem ser os que
agem da maneira mais semelhante a Ele. E a exatidão das doutrinas deve ajudar-nos a
compreender melhor o amor de Deus, para que o experimentemos ao máximo.
25
Mas quando qualquer dessas assim chamadas experiências religiosas em nosso
estilo de vida nos endurecem tanto que nos tornamos menos misericordiosos e mais
rudes, perdemos de vista o que é cristianismo, não parcialmente, mas totalmente.
A religião de Jesus nos tornará mais misericordiosos e não mais rudes. Se não
tiver esse efeito, estamos conectados na experiência errada, seja o que for que tenhamos,
não é a religião de Jesus1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George R.
Knight, CPB, p. 41.
26
Religião que Abranda
Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se tiverdes amor
uns aos outros. João 13:35.
Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se guardardes o
sábado. Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se devolverdes o
dizimo. Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se comerdes as coisas
certas.
Alguns anos atrás li João 13: 35 desta maneira numa reunião de
consultoria de leigos da Associação, em Ohio. Imediatamente após minha
apresentação, fui confrontado por um zeloso novo converso. Ele queria saber
exatamente onde estava esse texto. Na Bíblia dele, alegava, não estava escrito
assim.
27
O que ele realmente queria, em sua agitação, era o texto básico que
prova quem é um adventista. Alguns seriam tentados a pensar que seria
absolutamente maravilhoso se tivéssemos um verso de Jesus reivindicando que
poderíamos identificar Seus verdadeiros seguidores, sem qualquer sombra de
dúvida, pelo simples averiguar se guardam o sétimo dia, o sábado.
E Jesus poderia ter-nos dado tal texto. Mas não o fez.
Ele, porém, nos deu um modo, o Único, de identificar Seus legítimos
seguidores. Eles verdadeiramente se preocuparão com sinceridade uns pelos
outros e amarão uns aos outros.
Nunca será demais afirmarmos que os verdadeiros cristãos demonstram
amor: amor a Deus e uns aos outros.
28
O cristianismo fará de você uma pessoa mais bondosa. O cristianismo fará
com que você tenha mais consideração pelos outros. Ele transformará sua vida.
É impossível que um cristão seja mesquinho e rude; seria uma evidente
contradição. Temos de ser uma coisa ou outra: cristãos ou levianos, cristãos ou
cruéis. Não podemos ser ambas as coisas. O cristianismo abranda tanto nossas
atitudes como nossas ações. Ele as orienta com amor.
Senhor, hoje oramos a Ti para que nos ajudes a amar e ser genuínos.
Ajuda-nos a interioriza o grande principio do Teu caráter, ajudanos a ser mais
semelhantes a Jesus. Além disso, mostra-nos alguém a quem possamos expressar o
Teu amor neste dia1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George R.
Knight, CPB, p. 42.
29
Misericórdia "Naquele" Dia
O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesiforo, porque muitas vezes ele me
reanimou e não se envergonhou por eu estar preso; pelo contrario, quando chegou a
Roma procurou-me diligentemente até me encontrar. Conceda-lhe ó Senhor que,
naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor! II Timóteo 1:16-18.
A recompensa dos misericordiosos e que alcançarão misericórdia. A quinta
bem-aventurança é a única em que a recompensa é a mesma virtude. A bem-aventurança
poderia simplesmente dizer que eles alcançariam maior misericórdia ou misericórdia em
abundância, uma vez que esses fieis já estavam experimentando a misericórdia de Deus.
Afinal, foi em resposta a misericordiosa graça de Deus que eles foram inspirados a ser
misericordiosos.
A sua recompensa: mais misericórdia. Existe algo especialmente lindo a
respeito da seqüência desta promessa. Com Deus, a vida se torna cada vez melhor e
continuará assim pela eternidade. Que promessa!
30
A recompensa da misericórdia vem em duas etapas. Primeiro, aqueles que
são misericordiosos aqui na Terra, freqüentemente recebem misericórdia de outras
pessoas na vida diária. E geralmente verdade que somos mais bondosos para com os
que são misericordiosos e cometeram um erro do que para com os que são cabeçadura. Aqueles que são cruéis tem maior probabilidade de receber crueldade de volta.
Mas nem sempre é assim. O triste fato é que pessoas bondosas são muitas vezes
tratadas mal aqui neste mundo.
E isso nos leva a segunda etapa da promessa de misericórdia. Essa etapa
terá lugar por ocasião da segunda vinda de Jesus. Todos os que foram
misericordiosos durante a vida, desfrutarão misericórdia sem-fim naquele dia. .
31
Naquela ocasião, todas as injustiças da Terra serão corrigidas. Os
misericordiosos alcançarão a misericórdia divina no mais amplo sentido da
palavra.
Como cristãos, aguardamos ansiosos aquele dia, mais do que todos os
demais. E uma das grandes verdades da Bíblia é que a maneira como vivemos
agora determinará a maneira como viveremos então1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George
R. Knight, CPB, p. 43.
32
O Lado Escuro das Bem-Aventuranças
Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A
misericórdia triunfa sobre o juízo. Tiago 2: 13.
Nem tudo é cor-de-rosa no tocante as bem-aventuranças. Elas tem um lado
escuro, assim como o evangelho tem um lado escuro para aqueles que o rejeitam.
Deus pode apenas nos convidar a mesa do evangelho; Ele não pode nos forçar a
participar. E embora Jesus convide cada pessoa para aceitar Sua salvação, Ele não
compelirá ninguém a aceitá-la.
Semelhantemente, Jesus apresentou as maravilhosas promessas das bemaventuranças, mas cabe a nos individualmente escolher aceitá-las ou rejeitá-las. Para
aqueles que aceitam, as promessas são claramente definidas.
33
Para aqueles que recusam as boas novas e as bênçãos, o resultado será de
igual modo certo. Por exemplo: Aqueles que se recusam a ser misericordiosos,
freqüentemente deixam de alcançar misericórdia neste mundo e certamente não a
alcançarão no juízo final.
Esse Último ponto não é simplesmente uma decisão arbitraria da parte de
Deus. Ele quer que todos em Seu reino eterno sejam felizes, sintam-se bem ali.
Mas se eu não assimilei as características de Deus, não me sentirei a vontade no
Seu reino eterno.
Deixe-me ilustrar. Lembro-me da primeira vez que almocei com um
pregador. O convite veio antecipadamente e eu me preocupei durante toda a
semana. Eu estava morando num navio na Baia de São Francisco naquela época, e
isso estava definitivamente em desarmonia com os princípios dele.
34
Depois que me converti, alguns anos mais tarde, cheguei à conclusão de
que a pior coisa que poderia acontecer a uma pessoa não convertida seria ela ter de
passar a eternidade na presença do Deus de amor, que conhece não só todos os
nossos atos, mas até nossos pensamentos. Tal existência seria pior do que o inferno.
Seria preferível não existir.
As bênçãos das bem-aventuranças são para aqueles que interiorzam as
características estabelecidas. Todos os outros ficarão do lado de fora do reino1.
1
Caminhando com Jesus No Monte das Bem Aventuranças, MM 2001, George R.
Knight, CPB, p. 44.
35
A BEM AVENTURANÇA DA PERFEITA SIMPATIA
Esta é uma verdade expressa em todo o NT, a afirmação insiste que para
sermos perdoados temos que perdoar. Porque o julgamento será sem misericórdia
para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia porém desdenha o
julgamento. Tiago 2: 13. Jesus encerra a parábola do devedor que se negou a perdoar
com a advertência: Eis como meu Pai celeste agirá convosco, se cada um de vós não
perdoar, de coração, a seu irmão. Mateus 18: 35. A oração do Pai Nosso é seguida
dos versos: pedido e ação. E perdoa-nos as nossas dívidas como nós perdoamos aos
nossos devedores. E não nos exponhas à tentação mas livra-nos do Maligno. Pois
se perdoardes aos homens os seus delitos, também o vosso Pai celeste vos perdoará;
mas se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os vossos
delitos. Mateus 6: 12 a 14. Este ensino inconfundível no NT diz que só alcançará
misericórdia os misericordiosos.
36
Há mais do que isto no conceito desta Bem-aventurança. A palavra grega
para misericórdia é eleêmôn. O grego do NT remonta um original hebraico e
aramaico. A palavra hebraica para misericórdia é hésed que é uma palavra
intraduzível. Não quer dizer simplesmente simpatizar com uma pessoa no sentido
popular da palavra, não quer dizer só falar uma palavra de solidariedade e conforto
lastimando porque o próximo passa mal. Hésed, misericórdia, quer dizer ter a
capacidade de se colocar totalmente no lugar do outro de maneira que veja com seus
olhos, pensa com sua mente e sente com seus sentimentos.
Está evidente que isto é muito mais do que dar uma atenção passageira
emocional de lamento; exige um esforço deliberado de mente e de vontade. Denota
uma simpatia que não se dá de maneira superficial, mas há uma identificação com a
pessoa ao ponto de sentir como ela sente. Isto é o que quer dizer literalmente a palavra
simpatia. Deriva de duas palavras gregas: syn, que quer dizer juntamente com, e
pasjein que quer dizer experimentar sofrer. Simpatia quer dizer experimentar as coisas
juntamente com a outra pessoa passar literalmente o que a outra está passando.
37
É precisamente o que muitas pessoas nem sequer imaginam, e até evitam
inconscientemente. A maioria está preocupada com seus sentimentos próprios que não
tem interesse nos demais. Quando sentem pena de alguém, o sentem de maneira
superficial, não fazem o esforço de se colocarem no lugar do próximo a ponto de sentir
o que o próximo está sentindo para poderem auxiliá-lo.
Se fizermos este deliberado esforço, e nos identificarmos, tornar-nos
idênticos, com a outra pessoa, as coisas nos pareceria bem diferentes.
I. Salvar-nos-ia de amarmos equivocadamente. Há no NT um exemplo forte
de amabilidade instintiva equivocada. Encontra-se no relato da visita que fez Jesus a
seus amigos de Betânia. Lucas 10: 38 a 42. Quando Jesus foi visitá-los faltava poucos
dias para a crucifixão. O que Jesus mais queria era a oportunidade de descansar e
relaxar daquela tensão que se aproximava.
38
Marta amava Jesus. Ele era seu hóspede bem vindo, e como lhe amava
tanto, queria oferecer a melhor comida que se poderia preparar. Estava indo e vindo
apressadamente para preparar a correndo, tensa, apressada... que seria uma tortura
para os nervos tensos de Jesus, o que Ele mais necessitava era de tranqüilidade.
Maria queria ser amável... não poderia ter sido mais cruel. Porém Maria
compreendeu que o que Jesus queria era paz. Quando queremos ser amáveis
oferecemos nossa amabilidade à nossa maneira, e a outra pessoa tem que aceitá-la,
queira ou não. Nossa amabilidade seria duplamente amável, e evitaria muita
crueldade involuntária, se nós tivéssemos a sensibilidade e nos introduzisse no
interior da outra pessoa.
39
II. Seríamos muito mais tolerantes e perdoaríamos com muito mais
facilidade. Há um princípio na vida que esquecemos muitas vezes: sempre
há uma razão para que a pessoa pense e atue de certa maneira; e se
conhecermos esta razão, nos seria muito mais fácil simpatizar e perdoar. Se a
pessoa atua, segundo nossa maneira de pensar, equivocadamente, pode ser
que tenha passado por experiências que fazem com que atue assim. Uma
pessoa inquieta e descortês, pode se comportar assim porque esta
preocupada e sofrendo alguma dor. Se nos trata mal, pode ser que tenha na
mente algum equivoco... ou não.
O provérbio francês diz: Conhecer tudo e perdoar tudo. Porém
nunca chegaremos a conhecer tudo se não fizermos o esforço determinado
de nos colocarmos dentro do coração e da mente da outra pessoa.
40
III. Em última análise. Não foi isto que fez Deus em Jesus Cristo?
Num sentido literal. Deus se introduziu no interior do ser humano. Veio como
homem, vendo as coisas com olhos humanos, sentindo os sentimentos humanos,
pensando com a mente humana. Deus sabe como é a vida, porque se introduziu
até o interior no mais profundo íntimo.
A rainha Vitória da Inglaterra era muito amiga do reitor Tulloch, da
Universidade de São Andrews, e sua esposa. O príncipe Albert morreu, e a
rainha Vitória sentiu-se só. Precisamente nesta mesma data morreu o reitor
Tulloch, e a senhora Tulloch se sentiu só. Sem aviso antecipado a rainha Vitória
veio visitar a senhora Tulloch, que estava descansando em sua casa. Quando lhe
anunciaram a rainha, a senhora se deu conta e se apressou em se levantar e
cumprimentar com reverência a rainha. A rainha Vitória deu passo à frente e
disse: Querida minha não te levantes. Hoje não venho como rainha a uma de
suas súditas, mas como uma mulher que perdeu seu marido a outra mulher na
mesma situação.
41
Isto é precisamente o que fez Deus; veio à humanidade não como
Deus soberano, distante, remoto, majestático, mas como homem. O exemplo
supremo de misericórdia hésed, foi à vinda de Deus a este mundo em Jesus
Cristo.
Só os que mostram esta misericórdia recebem misericórdia. Isto é
verdade a nível humano, porque é a grande verdade da vida que veremos em
outras pessoas e o reflexo de nossas atitudes. Se não temos interesse por nada,
assim serão eles conosco. Se nos preocuparmos com o outro, seu coração
responderá preocupando-se conosco. É absolutamente certo do lado divino,
porque o que revela esta misericórdia tem chegado nada menos que parecer-se
com Deus.
42
Assim que a tradução da quinta bem-aventurança poderia ser:
Ah, a bem-aventurança da pessoa que se põe até tal ponto no lugar dos demais que pode ver
com seus olhos, pensar com sua mente e sentir com seu coração, porque ele assim como os
demais descobrirá que os demais fazem o mesmo com ele e saberá que isto é o que Deus tem
feito em Jesus Cristo1.
ALCANÇARÃO MISERICÓRDIA - Atingirão misericórdia. Isto ocorrerá
tanto agora como no dia do juízo, tanto de parte dos homens como de Deus. O princípio da
regra de ouro 7: 12 aplica-se tanto a nosso trato com outros como ao trato que os demais nos
brindam em resposta. A pessoa cruel, de coração duro e espírito desconsiderado, rara vez
recebe um trato bondoso e misericordioso de parte de seu próximo. Mas muitas vezes os que
são bondosos e considerados com as necessidades e os sentimentos alheios, encontram que o
mundo lhes paga com a mesma moeda2.
1
Comentário ao Novo Testamento, Mateus, vol. 1, William Barclay. Editora Clie, pp. 123 a
127.
2 CBASD, vol. 5, p. 318.
43
SALMO 103
INTRODUÇÃO
O Salmo 103 é um dos mais expressivos; é a manifestação espontânea de um
coração pleno de gratidão a Deus por sua misericórdia e compaixão. Davi louva a Deus por
suas bênçãos recebidas em sua própria vida versos 1 a 5, descreve a bondade amorosa que
Deus manifesta para com seus filhos versos 6 a 14, mostra a dependência do homem diante
da misericórdia de Deus versos 15 a 18 e convida toda criação a adorar a Deus versos 19 a
22. Os Salmos 103 e 104 são paralelos: o primeiro celebra as maravilhas de Deus reveladas
em sua compaixão e sua misericórdia; o segundo canta suas maravilhas na criação1.
Este hino de louvor tem sido chamado uma estrela de primeira grandeza na
galáxia do Saltério D. Kidner por causa de seu sentido todo-penetrante de gratidão a Deus.
Davi exorta a si mesmo a bendizer RSV ou louvar o santo nome de Deus verso 1! Ele
explica a razão mais adiante na expressão paralela, não te esqueças de nem um só de seus
benefícios verso 2, Aparentemente o salmista apreciava profundamente a bondade de Deus
dada a ele. Ele sente o desejo interno de expressar sua gratidão ao Senhor com júbilo.
Bendize o Senhor a minha alma! Verso 1.
1
CBASD, vol. 3, p. 872.
44
Não louvar a Deus significa esquecer de todos os Seus benefícios, não
apreciar os dons de Deus. Só aqueles que louvam não esquecem. Pensar e falar
sobre Deus ainda não é louvá-Lo. O louvor começa quando a pessoa reconhece a
majestade e trabalhos de Deus e responde com adoração Sua bondade,
misericórdia, e sabedoria.
A ausência de louvor não pode ser causada por qualquer falta de
benefícios de Deus. Moisés advertiu que Israel poderia sucumbir ao espírito de
materialismo:
Não aconteça que, depois de terem comido até ficarem satisfeitos, de
terem construído boas casas e nelas morado, de aumentarem os seus rebanhos, a
sua prata e o seu ouro, e todos os seus bens, o seu coração fique orgulhoso e vocês
se esqueçam do Senhor, o seu Deus, que os tirou do Egito, da terra da escravidão.
Deuteronômio 8: 12 a 14.
45
Esquecer de Deus se tornaria evidente ao estar calado sobre os Seus atos. Claus
Westermann diz, O segredo do louvor é o poder que tem para fazer ligação com Deus;
por meio do louvor permanece-se com Deus1. Louvar a Deus por Sua bondade é a forma
mais elevada de oração. Ergue-se por sobre nossos lamentos e orações de petição.
O louvor a Deus reconhece que nós somos criaturas, totalmente dependentes do
Criador pela vida e saúde, pela salvação e significado na existência humana2.
1
The Psalms, Augsburg Publishing House, 1980, p. 6.
2 Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, pp. 221 a 222.
46
Deus é amor
De Davi
1 - Bendize a Iahweh, oh minha alma, e tudo que há em mim ao seu nome
santo!
BENDIZE - Hebraico: barak. Tem vários conceitos. Quando Deus abençoa
uma pessoa, se entende que concede dons, e declara que esta pessoa recebeu dons.
Quando alguém bendiz a Deus reconhece quem concede estes dons. No VT se fala com
freqüência de pessoas que bendizem a Deus Salmo 63: 4; 103: 1, 2, 20 a 22; 145: 2;
etc. Quando uma pessoa bendiz outra, expressa que receba dons para seu bem. Em
geral a LXX traduz barak como elogéo, falar bem de alguém. Em poucos casos se
emprega barak no sentido de maldizer Jó 1: 51.
1
CBASD, VOL. 3, p. 789.
47
TUDO QUE HÁ EM MIM - Para louvar devidamente ao Senhor há que
empregar todas as faculdades1.
NOME - Salmo 33: 21;Salmo 7: 17. O investimento da ordem dos elementos
sintáticos que se utiliza para apresentar as idéias é uma agradável variação retórica do
paralelismo sinônimo2.
2 - Bendize a Iahweh, ó minha alma, e não esqueças nenhum dos seus
benefícios.
NÃO ESQUEÇAS - Advertência repetida com freqüência por Moisés
Deuteronômio 4: 9, 23; etc. Nada temos a temer quanto ao futuro, a não ser que
esqueçamos a maneira como que o Senhor nos conduziu3.
1
CBASD, vol. 3, p. 872.
2CBASD, vol. 3, p. 872.
3 CBASD, vol. 3, p. 872.
48
3 - Ele quem perdoa tua culpa toda e cura todos os teus males.
PERDOA - O benefício primário da graça é o perdão dos pecados Atos 13: 38. Deus
mostra-se compassivo para com seu povo arrependido1.
Comentário Salmo 25: 18 - Hebraico: Nasa, levantar, levar, tirar, e também
perdoar. Com este último sentido aparece em várias passagens Gênesis 50: 17; Êxodo
10: 17; 32: 32; Emprega-se a voz nasa para referir-se à ação de levar a iniqüidade dos
filhos de Israel Levítico 10: 17. Da idéia de levar o pecado alheio à do perdão não há
mais do que um passo. Uma das vozes gregas correspondentes é o verbo áirô, tirar,
levantar, que se usa em João 1: 29: O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo.
Seguindo a ordem do acróstico, este verso deveria começar com uma qof e
não com resh, a letra seguinte, como o faz. O verso 19 também começa com resh2.
1
BG, p. 687.
2 CBASD, vol. 3, p. 700.
49
Razões Para Louvar
Davi lista seis benefícios divinos que ele provou e que causa em sua vida
tal satisfação e experiência feliz:
É ele que perdoa todos os seus pecados, e cura todas as suas doenças, que resgata
a sua vida da sepultura e o coroa de bondade e compaixão, que enche de bens a
sua existência, de modo que a sua juventude se renova como a águia. Salmo 103:
3 a 5.
50
Estas bênçãos abarcam todas as necessidades do homem. Eles cumprem suas
aspirações para esta vida e para toda a eternidade. Davi menciona primeiro: Deus
perdoa todos os meus pecados. Isto realmente é a maior necessidade de todo o mundo.
O Perdão Divino traz paz à alma e à mente. Só Deus pode perdoar; só Ele pode
assegurar a alma do Seu perdão. No Salmo 32 Davi enfatizou o benefício infinito da
graça perdoadora de Deus que vem após o arrependimento e confissão ao Senhor. No
perdão Deus já não conta nossa culpabilidade contra nós Salmo 32: 1 e 2.
Sem o perdão a vida não pode ser livre e alegre, porque há medo na presença
de culpabilidade. O perdão de Deus proporciona a nossa vida um novo futuro, uma nova
esperança. O perdão traz o espírito de Deus em nossos corações. Só então pode a alma
transbordar com a alegria do ser e com louvor1.
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, pp. 222 e 223.
51
4 - É ele quem redime a tua vida da cova e te coroa de amor e compaixão.
REDIME - Da morte1.
AMOR - Hebraico: hésed, amor divino. Coroa de graça. Em sua aliança com seu
povo Deus prometeu amá-lo fielmente. Ele é o autor das condições da aliança que o
vinculava a seu povo2.
5 - É ele quem sacia teus anos de bens e, como a da águia, tua juventude se
renova.
SACIA - Deus provê tudo que é construtivo e benéfico para o seu povo3.
ANOS - Teus anos, literalmente tua existência, hebraico: ´odeki, conjunção:
hebraico: edyekt, teu adorno4.
1
BG, p. 687.
2 BG, p. 681.
3 BG, p. 687.
4 BJ, p. 1062.
52
ÁGUIA - A lenda de que depois de certo tempo o águia mudava suas
plumas e se rejuvenescia não tem base científica. A águia muda suas plumas em
forma pouco atraente. O salmista se referia ao fato de que o águia vive mais do que
muitas outras aves e mantém seu vigor. O pecador perdoado vê seu alento da
juventude renovada.
Depois deste louvor pessoal, Davi comenta o que sucede aos filhos de Deus.
Nota as seis bênçãos registradas nos versos 3 a 5: Deus perdoa, cura, resgata, coroa,
sacia, rejuvenesce1.
Depois da reconciliação com Deus, a vida pode realmente começar. Além
da alegria de viver no presente, Deus nos dá também a segurança de vida eterna, uma
esperança que renova nossa vitalidade como a águia, verso 5.
1
CBASD, vol. 3, p. 872.
53
Mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como
águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam. Isaias 40: 31.
Diz-se que uma águia pode viver até cem anos e ainda reter sua vitalidade.
Quando o verdadeiro conhecimento de Deus entra no coração, isto significa
restauração da dignidade humana e propósito, de vitalidade e esperança. Davi
acrescenta agora o benefício, Ele resgata minha vida da sepultura, verso 4. Esta
expressão pode aludir à sua cura física de uma doença mortal, embora, seguindo o
perdão e a cura, poderia ser de fato que Davi esperou sua redenção do sepulcro Salmo
16: 9 a 11; 49: 7 a 9, 15; 73: 24. Os benefícios de Deus abarcam o passado, o presente,
e o futuro eterno! 1
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, p. 223.
54
6 - Iahweh realiza atos justos, fazendo justiça a todos os oprimidos
Louvor Pela Aliança do Senhor Com Israel
Davi colocou sua experiência de perdão e curando na perspectiva de uma longa
história de libertações divinas a Israel. Continuamente Deus foi o gracioso e compassivo
Libertador em tempos de necessidade.
As manifestações da justiça do Senhor, literalmente: atos de vindicação, na história
de Israel do Egito para a terra prometida era nada mais que expressões da fidelidade do Deus
da aliança para com o Seu povo. O salmista vê a história de salvação de Israel desde Moisés
como uma razão por si só para louvar a Deus. O caráter de Deus é claramente estabelecido
nas experiências de Israel com o Senhor. Mesmo depois da apostasia espantosa ao Israel
dançar em volta do bezerro de ouro, Moisés desceu do Monte Sinai com as surpreendentes
novas de que o Senhor é Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de
fidelidade. Êxodo 34: 6. Ainda, a consciência culpada do homem não podia senão temer a ira
de Deus. A culpabilidade vê Deus como um inimigo. Então agora Davi traz as boas novas
para o Israel1.
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, pp. 223 e 224.
55
7 - Revelou seus caminhos a Moisés e suas façanhas aos filhos de Israel.
MOISÉS - Ao referir-se a Moisés, o salmista relembra as bênçãos
divinas associadas ao êxodo, às peregrinações pelo deserto, e até a conquista da
Terra Prometida1.
Êxodo. 33: 13. Os caminhos de Deus são inescrutáveis Romanos 11: 33.
Dá-se a conhecer algumas vezes por revelação divina, como no Sinai Êxodo 202.
1
BG, p. 687.
2 CBASD, vol. 3, p. 872.
56
8 - Iahweh é compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor
AMOR - São os atributos do nome de Iahweh, revelados a Moisés Êxodo 34:
6, que todo o Salmo desenvolve, colocando o acento sobre a misericórdia e a bondade
versos 17 a 18 e Êxodo 20: 6, preparando para I João 4: 81.
Misericordioso e clemente. Cf. Êxodo 34: 6; Salmo 86: 152.
Deus não é irado por natureza. O Seu amor é eterno. Sua ira só é despertada pelo fracasso
do homem em apreciar o Seu amor. A Escritura declara repetidamente que Israel
provocou Deus à ira Juízes 2: 12; II Reis 17: 17; Salmo 106: 29; Jeremias 44: 8 ou
despertou a ira do Senhor II Crônicas 36: 16; Salmo 78: 58. O propósito de Sua raiva
não é ferir, mas antes curar o homem; não destruir mas salvar o povo de Sua aliança
Oséias 6: 1 e 2.
1
BJ, p. 1062.
2 CBASD, vol. 3, p. 872.
57
Por meio de Ezequiel Deus assegurou a Israel de que Ele não tem prazer na
morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva.
Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de
morrer, ó casa de Israel? Ezequiel 33: 11.
Que o ímpio abandone o seu caminho, e o homem mau, os seus pensamentos. Volte-se
ele para o Senhor, que terá misericórdia dele; volte-se para o nosso Deus, pois ele dá
de bom grado o seu perdão. Isaias 55: 7.
Davi foi profundamente movido pela experiência da misericórdia imerecida de
Deus. Sua alma não pôde deixar de Lhe agradecer tão grande salvação, tal paz de
consciência. Ele veio a conhecer o coração de Deus como nunca antes. Agora ele quer
testemunhar do amor de Deus a todos os que ainda têm dúvidas sobre Deus1.
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, pp. 224 e 225.
58
9 - ele não vai disputar perpetuamente, e seu rancor não dura para sempre.
Um comentário bonito nesta passagem é dado por I. Weiser: Enquanto o
homem não tiver examinado as profundidades do conhecimento do pecado ele não
sabe realmente o que a graça significa. É justamente porque o pecado é a mais
perturbadora experiência em sua vida que o poeta pode reconhecer a verdade de que a
graça de Deus é maior que o pecado do homem e que o Seu amor é mais forte que a
Sua ira.
Davi ilustra a graça imensurável de Deus com notáveis analogias. Seu
quadro verbal de distância infinita no espaço alto como os céus, dificilmente pode
fazer justiça à largura da misericórdia de Deus. Mas Davi agrega a esta figura de
linguagem uma de natureza mais pessoal1.
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, p. 225.
59
10 - Nunca nos trata conforme nossos erros, nem nos devolve segundo nossas culpas.
TRATA-NOS - Pagou-nos. Cristo pagou o castigo do pecado1.
11 - Como o céu que se alteia sobre a terra, é forte o seu amor por aqueles que o temem.
CONFORME NOSSOS ERROS - Como a altura. O amor de Deus é tão
imensurável como a distância infinita que separa à terra do céu, onde ele se encontra2.
12 - Como o oriente está longe do ocidente, ele afasta de nós as nossas transgressões.
DISTA - Quando Deus perdoa pecados, ele os remove completamente. A altura e a
largura de sua misericórdia são vastas3.
AFASTA - Isaias 38: 17; Miquéias 7: 19. Não podemos compreender a imensidão
do universo, mas sim sua paternidade verso 134.
1
CBASD, vol. 3, p. 872.
2 CBASD, vol. 3, p. 872.
3 BG, p. 688.
4 CBASD, vol. 3, p. 872.
60
13 - Como um pai é compassivo com seus filhos, Iahweh é compassivo com aqueles que
o temem;
PAI - A comparação entre Deus e um Pai compassivo e amoroso é desenvolvida
em Romanos 8: 12 a 17; Êxodo 4: 22 a 23; Oséias 11: 1, 8 e 9; Deuteronômio 32: 61.
O homem como uma criação perfeita de Deus só pode viver pela força e sustento de Deus.
Quanto mais uma criatura pecadora, fraca necessita da misericórdia e poder de Deus.
Quando Deus lembra-se de que somos pó, isto indica que Sua misericórdia é despertada
ao Ele nos olhar. Um afável pensamento. No Salmo 90 Moisés nos instrui que nós somos
sábios ao ponderar a brevidade de nossa vida: Ensina-nos a contar os nossos dias, para
que alcancemos coração sábio. Salmo 90: 12. Moisés nos impele a buscar de Deus a
sabedoria do verdadeiro autoconhecimento e humildade diante de Deus.
1
BG, p. 688.
61
A transitoriedade do homem como uma criatura, os seus dias são como a
relva fica mais evidente à luz da eterna existência e majestade de Deus. A revelação
de que o Criador é compassivo como um Pai e que com Ele o perdão é possível, é
para a alma o amanhecer de um novo dia, a maravilha de Sua graça. Mas graça tem
um propósito exaltado; a história da salvação é a história de louvar o Deus da
libertação1.
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, p. 226.
62
Em Demonstrar os Atributos Paternos de Deus
Em todos os atos de benignidade praticados por Jesus, Ele procurou
impressionar os homens quanto aos atributos benévolos e paternais de Deus. Em
todas as Suas lições, procurava ensinar aos homens a verdade de que Deus amou
ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele
que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3: 16. Jesus deseja que
compreendamos o amor do Pai, e procura atrair-nos para Ele apresentando a Sua
graça paternal. Deseja que todo o âmbito de nossa visão se encha com a perfeição
do caráter de Deus. Na oração que fez pelos discípulos, diz: Eu Te glorifiquei na
Terra, consumando a obra que Me confiaste para fazer. Manifestei o Teu nome
aos homens que Me deste do mundo. João 17: 4 e 6.
63
Jesus veio ao mundo para exemplificar o caráter de Deus em Sua vida, e afastou
as falsidades originadas por Satanás, revelando a glória de Deus. Era unicamente vivendo
entre os homens que Ele podia revelar a misericórdia, compaixão e amor de Seu Pai
celeste; pois, apenas por atos de beneficência, podia Ele salientar a graça de Deus.
Firmemente estabelecida estava a incredulidade humana, e, todavia não podiam resistir ao
testemunho de Seu exemplo divino, Seus feitos de amor e de verdade1.
A generosidade da providência de Deus fala a toda pessoa semelhantemente,
confirmando o testemunho de Cristo quanto à suprema bondade de Seu Pai. O Senhor quer
que Seu povo compreenda que as bênçãos outorgadas a qualquer criatura, são
proporcionais ao lugar que essa criatura ocupa na escala da criação. Se mesmo as
necessidades dos mudos animais são supridas, podemos nós apreciar as bênçãos que Deus
concederá aos seres formados a Sua imagem? 2
Deus é amor e cuida de nós. Como um pai se compadece de Seus filhos, assim o
Senhor Se compadece dos que O temem3.
The Youth’s Instructor, 15 de dezembro de 1892.
2 General Conference Bulletin, 1899.
3 The Youths Instructor, 14 de dezembro de 1893.
1
64
14 - Porque ele conhece nossa estrutura, ele se lembra do pó que somos nós.
CONHECE - Deus nos conhece melhor do que nos conhecemos a nós
mesmos1.
SOMOS PÓ - De acordo com Gênesis 2: 7, Deus formou Adão do pó da terra.
A conseqüência do pecado é que os seres humanos morrem tão inexoravelmente como os
animais Eclesiastes 3: 19. Não obstante, Deus tem misericórdia de nós2.
CONHECE NOSSA ESTRUTURA - Conhece nossa condição. A debilidade
do homem e a fugacidade da vida são razões suficientes para recorrer à misericórdia de
Deus Gênesis 8: 21; Salmo 89: 5; 139: 1183.
PÓ - Gênesis 2: 7; 3: 19; Jó 34: 15.
1
BG, p. 688.
2 BG, p. 688.
3 CBASD, vol. 3, p. 872.
65
15 - O homem!... Seus dias são como a relva: ele floresce como a flor do campo;
O HOMEM - Comentário Salmo 8: 4. Que é o homem? Homem,
Hebraico:. hino, vocábulo que se usa para designar ao homem débil e frágil.
Quando uma pessoa contempla a imensidão, o mistério e a glória dos céus
noturnos, pensa no infinito do espaço e os inumeráveis corpos celestes, deve sentirse como um pontinho infinitesimal no universo. Se esta é a admiração habitual dos
mortais iletrados, quanto maior não tem de ser a dos que, equipados com o
conhecimento crescente da astronomia moderna, contemplam o céu com modernos
telescópios! 1
COMO A RELVA - Como a erva. Isaias 40: 6 a 8; 51: 12.
1
CBASD, vol. 3, p. 654.
66
16 - Roça-lhe um vento e já desaparece, e ninguém mais reconhece o seu lugar.
17 - Mas o amor de Iahweh!... Existe desde sempre e para sempre
existirá por aqueles que o temem; sua justiça é para os filhos dos filhos;
AMOR - Há um relacionamento recíproco entre a iniciativa divina e a
reação humana. Deus primeiramente nos ama, e então nós o amamos, conforme é
demonstrado pela fiel obediência de nossas vidas Romanos 5: 8; I João 4: 101.
O amor de Deus não está baseado no amor do homem ou boa vontade em
obedecer à Sua lei. Sua misericórdia antes nos motiva a andar com Ele e inclina
nossos corações para segui-Lo no temor do Senhor. Este é o louvor de que Deus se
agrada. Aqui está o significado da vida e de todas as gerações. Quando Deus é o
centro de nosso interesse e devoção, nosso coração começa a cantar a melodia do
céu2.
1
BG, p. 688.
2 Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, pp. 226 e 227.
67
18 - para os que observam sua aliança e se lembram de cumprir suas ordens.
ALIANÇA - A obediência daqueles que guardam a aliança de Deus mostra a
realidade de sua misericórdia. Eles andam em devotada comunhão com o Senhor que os
amou em sua aliança da graça1.
Louvor de Toda a Criação - O ideal de Deus para nós não é ambíguo. O Seu
coração Se regozija em nossa atitude de gratidão. O poeta inspirado olha agora para cima
ao céu. O seu olhar profético apanha uma visão da glória de Deus da mesma maneira que
uma vez Isaías recebeu Isaias 6. Ele está absolutamente seguro2.
1
BG, p. 688.
2 Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, p. 227.
68
19 - Iahweh firmou no céu o seu trono e sua realeza governa o universo.
ESTABELECEU - O domínio do Rei celestial não abarca uma nação nem um
império, senão todo o universo. Deus é Rei de reis e Senhor de senhores. Apocalipse 19: 16,
e não só rei da nação de Israel.
Davi começa este Salmo com sua própria experiência; depois, poeticamente, inclui
também a todos os que temem ao Senhor como participantes da bondade de Deus. Agora
exorta a toda a criação, animada e inanimada, para que se una em abençoar ao Senhor1.
O Deus de Israel não é o Deus de uma nação, mas o Rei de todas as nações, o Deus
de todas as criaturas no universo. A vontade soberana de Deus domina sobre tudo que existe,
não apenas sobre Israel. O Seu trono é inexpugnável, a Sua salvação invencível, a glória de
sua santidade irresistível ao louvor. A voz de um homem jamais pode fazer justiça à
majestade da Pessoa de Deus. A casa inteira do Rei do Universo é chamada a unir-se na
exaltação de Davi da glória de Deus2.
1
CBASD, vol. 3, p. 872.
2 Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, p. 227.
69
20 - Bendizei a Iahweh, anjos seus, executores poderosos de sua palavra,
obedientes ao som de sua palavra.
PODEROSOS DE SUA PALAVRA - Poderosos em fortaleza. Esta
apresentação dos anjos que executam sua palavra vincula à família dos céus com a
dos filhos de Deus que vive na terra e guardam seus mandamentos1.
Aqui está o tema mais elevado que a mente humana jamais pode
contemplar. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais nos envergonhamos de
nossa falta de fervor em adorar nosso grande Criador. Quando Isaías ouviu os hinos
celestiais do Serafim, Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos exércitos; a terra
inteira está cheia de sua glória. Isaias 6: 3, ele percebeu que os seus próprios
lábios estavam sujos em comparação com as línguas fervorosas dos anjos que
louvam a incomparável fascinação da glória de Deus.
1
CBASD, vol. 3, p. 872.
70
O louvor de Davi a Deus não é definitivamente um solo! O Céu e a terra
declaram a glória de Deus Salmo 19: 1. A proclamação do Serafim de que a terra
inteira está cheia de sua glória Isaias 6: 3 anunciam a certeza de um cumprimento
escatológico futuro na terra. O esplendor de Deus em última instância iluminará
toda a terra Apocalipse 18: 1; 21: 1 e 2. A glória de Deus já reivindica todo
território e cada esfera no universo. Bendigam o Senhor todas as suas obras em
todos os lugares do seu domínio. 1
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, p. 228.
71
21 - Bendizei a Iahweh, seus exércitos todos, ministros que cumpris a sua vontade.
EXÉRCITOS - Uma referência ao exército divino. Estão incluídos os
anjos, os querubins e as outras criaturas celestes, Lucas 2: 131.
Comentário Salmo 24: 10 - Iahweh dos exércitos. Deus é soberano de um
universo de coisas e de seres criados, e que estão ordenados como exércitos dispostos
para a batalha. Seu domínio é universal. Os habitantes do universo, de toda classe e
categoria, reconhecem seu domínio. Algumas vezes se usa o termo exércitos para
referir-se aos corpos celestes Gênesis 2: 1; Deuteronômio 17: 3; em outros casos,
para referir-se aos anjos Josué 5: 14; Salmo 103: 21; 148: 2. Os que levavam a arca
responderam pela primeira vez Salmo 24: 8, mas aparentemente as portas
permaneceram fechadas frente à procissão que espera. Quando respondem pela
segunda vez com a frase Iahweh dos exércitos, em vez de Iahweh forte e valente,
Iahweh poderoso na batalha, parece ter sido um glorioso santo com a chave para abrir
a cidade, com o qual se reforça o efeito do ritual. I Samuel 17: 45; II Samuel 6: 2;
Isaias 1: 9.
1
BG, p. 688.
72
Este Salmo termina em perfeita harmonia com a idéia inicial: só Deus é
o governante do universo; só a ele se lhe deve render reconhecimento universal. A
cerimônia da instalação da arca no monte do Senhor é uma ocasião propícia para
lançar esta proclamação1.
MINISTROS - Equivale a exércitos. Salmo 104: 4; Daniel 7: 10; Hebreus 1: 142.
1
CBASD, vol. 3, p. 696.
2 CBASD, vol. 3, p. 872.
73
22 - Bendizei a Iahweh, todas as suas obras, nos lugares todos que ele governa.
Bendizei a Iahweh, ó minha alma!
TODAS AS SUAS OBRAS - O salmista exorta toda a criação, nos céus e
na terra, o animado e o inanimado, a unir-se ao coro de gratidão Salmo 1481.
BENDIZEI A IAHWEH - Abençoa, alma minha, a Iahweh. Depois deste
hino universal de louvor, expressa um profundo sentimento ao repetir a frase com a
qual começou o Salmo. Consciente de que o universo louva a Deus, o salmista almeja
que também se escute sua própria voz2.
1
CBASD, vol. 3, p. 872.
2 CBASD, vol. 3, p. 872.
74
Davi termina o seu hino exatamente como ele o começou: com sua adoração
pessoal do grande Governante do universo que se preocupa tanto com sua alma
individual e salvação: Bendiga o Senhor a minha alma! A atitude de se lembrar das
misericórdias de Deus como bênçãos por Seus filhos cultiva em nós uma atitude de
gratidão. Isto preparará o cristão para unir-se aos coros do céu no louvar a Deus com
inteligência e com avaliação adequada para o que Ele realmente é: um Salvador
maravilhoso1.
Regozijai-vos, vós puros de coração Regozijai-vos, dêem graças e cantai; Sua
bandeira festiva ondula no alto, A cruz de Cristo seu Rei. Regozijai-vos, Regozijai-vos,
Regozijai-vos, dêem graças e cantai. Sim, pelo longo caminho da vida, Ainda cantar
como vós ides; De juventude à velhice, de noite e de dia, Em alegria e em aflição,
Regozijai-vos, Regozijai-vos, Regozijai-vos, dêem graças e cantai2.
1
Libertação nos Salmos, Hans K. LaRondelle, p. 228.
2 E. H. Plumptre, 1865.
75
Como é Alcançado o Perdão
Pedro se achegou a Cristo, com a pergunta: Até quantas vezes pecará meu irmão
contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Mateus 18: 21. Limitavam os rabinos o exercício
do perdão até três ofensas. Pedro, que, como cuidava, seguia os ensinos de Cristo, ampliou-o
até sete, o número que indica perfeição. Cristo, porém, ensinou que nunca nos devemos
fatigar de perdoar. Não até sete, disse Ele, mas até setenta vezes sete. Mateus 18: 22.
Mostrou, então, o verdadeiro motivo pelo qual o perdão deve ser concedido, e o
perigo de acariciar espírito irreconciliável. Numa parábola, contou o procedimento de um rei
para com os oficiais que administravam os negócios de seu domínio. Alguns desses oficiais
recebiam grandes somas de dinheiro pertencentes ao Estado. E quando o rei investigava a
administração desse depósito, foi-lhe apresentado um homem cuja conta mostrava uma
dívida para com seu senhor, da imensa soma de dez mil talentos. Nada tinha ele com que
pagar e, segundo o costume, o rei ordenou que fosse vendido com tudo quanto tinha, para
que se fizesse o pagamento. Terrificado, porém, o homem prostrou-se aos seus pés, e
suplicou-lhe, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então, o senhor
daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida.
76
Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos que
lhe devia cem dinheiros e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me
o que me deves. Então, o seu companheiro, prostrando-se aos seus pés,
rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Ele, porém,
não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Vendo, pois,
os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito e foram declarar ao
seu senhor tudo o que se passara. Então, o seu senhor, chamando-o à sua
presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me
suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro,
como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o
entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. Mateus 18:
26 a 34.
Esta parábola apresenta pormenores necessários ao remate do quadro,
mas não têm homólogos em sua significação espiritual. A atenção não deve ser
divergida para eles. São ilustradas certas verdades importantes, e estas devemos
entender.
77
O perdão concedido por esse rei representa o perdão divino de todo
pecado. Cristo é representado pelo rei que, movido de compaixão, perdoou a
dívida de seu servo. O homem estava sob a condenação da lei quebrantada. Não
podia salvar-se por si mesmo, e por esse motivo veio Cristo ao mundo, velando
Sua divindade com a humanidade, e deu Sua vida, o Justo pelo injusto. EntregouSe por nossos pecados, e oferece livremente a todos o perdão comprado com Seu
sangue. No Senhor há misericórdia, e Nele há abundante redenção. Salmo 130:
7.
Eis a razão por que devemos ter compaixão de pecadores como nós
também. Se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros. I
João 4: 11. De graça recebestes, diz Cristo, de graça dai. Mateus 10: 8.
78
Na parábola, quando o devedor solicitou um prazo, com a promessa: Sê
generoso para comigo, e tudo te pagarei, a sentença foi revogada. Foi cancelada toda
a dívida. E logo lhe foi concedida a oportunidade de seguir o exemplo do Mestre que
lhe tinha perdoado. Saindo, encontrou um conservo que lhe devia uma pequena soma.
A ele lhe haviam sido perdoados dez mil talentos, o conservo devia-lhe cem dinheiros.
Todavia, ele que havia sido tratado tão misericordiosamente, procedeu com o conservo
de maneira inteiramente oposta. O devedor fez-lhe um apelo semelhante ao que fizera
ao rei, porém, com resultado diferente. Ele, que fora perdoado recentemente, não foi
magnânimo nem piedoso. O perdão que lhe foi demonstrado, não o exerceu em relação
a seu conservo. Não atendeu ao pedido de ser generoso. A diminuta soma a ele devida
era tudo o que pensava o servo ingrato. Exigiu tudo que cuidava lhe ser devido, e levou
a efeito uma sentença idêntica à que lhe fora revogada tão graciosamente.
79
Quantos hoje em dia não manifestam o mesmo espírito! Quando o
devedor pediu ao seu senhor misericórdia, não tinha verdadeiro conhecimento
do vulto da dívida. Não reconheceu seu estado irremediável. Tinha esperança
de livrar-se a si mesmo. Sê generoso para comigo, disse ele, e tudo te pagarei.
Assim há muitos que esperam por suas próprias obras merecer a graça de
Deus. Não reconhecem a própria incapacidade. Não aceitam como dádiva
liberal a graça de Deus, antes procuram apoiar-se em justiça própria. Seu
coração não está quebrantado nem humilhado por causa do pecado, e são
severos e irreconciliáveis para com os outros. Seus próprios pecados contra
Deus, comparados com os do irmão para com eles, são como dez mil talentos
contra cem dinheiros, quase um milhão contra um, e ainda ousam ser
irreconciliáveis.
80
Na parábola, o senhor intimou à sua presença o devedor malvado e
disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me
suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro,
como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o
entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. Mateus 18:
32 a 34. Assim, disse Jesus, vos fará também Meu Pai celestial, se do
coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas. Mateus 18:
35. Aquele que recusa perdoar, rejeita a única esperança de perdão.
81
Os ensinos dessa parábola não devem ser mal-aplicados, porém. O perdão de
Deus não nos diminui de modo algum o nosso dever de obedecer-Lhe. Assim também
o espírito de perdão para com nosso próximo não diminui o direito de justa obrigação.
Na oração que Cristo ensinou aos discípulos, disse: Perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Mateus 6: 12. Com isso não queria
Ele dizer que para nos serem perdoados os pecados não devemos requerer de nossos
devedores nossos justos direitos. Se não puderem pagar, embora isso seja o resultado
de má administração, não devem ser lançados na prisão, oprimidos ou mesmo tratados
severamente; todavia a parábola tampouco nos ensina a animar a indolência. A Palavra
de Deus declara: Se alguém não quiser trabalhar, não coma também. II
Tessalonicenses. 3: 10. O Senhor não requer do trabalhador diligente que suporte
outros na ociosidade. Para muitos, a causa de sua pobreza e vicissitude é um
desperdício de tempo, uma falta de esforço. Se estas faltas não forem corrigidas por
aqueles que com elas condescendem, tudo que se fizer em seu auxílio será como pôr
riquezas em saco sem fundo. Todavia há uma pobreza inevitável, e devemos manifestar
ternura e compaixão para com os desafortunados. Devemos tratar os outros como
quereríamos ser tratados sob circunstâncias idênticas.
82
Diz-nos o Espírito Santo, pelo apóstolo Paulo: Portanto, se há algum
conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no
Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para
que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma
coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um
considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é
propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que
haja entre vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus. Filipenses
2:1 a 5.
Mas, não se deve fazer pouco caso do pecado. O Senhor nos ordenou não
tolerar injustiça em nosso irmão. Diz: Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o.
Lucas 17: 3. O pecado deve ser chamado pelo verdadeiro nome, e deve ser claramente
exposto ao delinqüente.
83
Na admoestação a Timóteo, Paulo diz, por inspiração do Espírito Santo:
Instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a
longanimidade e doutrina. II Timóteo 4: 2. E a Tito escreve: Há muitos
desordenados, faladores, vãos e enganadores... Portanto, repreende-os severamente,
para que sejam sãos na fé. Tito 1: 10 e 13. Se teu irmão pecar contra ti, disse Cristo
vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão. Mas, se não te
ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que, pela boca de duas ou três
testemunhas, toda palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e,
se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Mateus
18: 15 a 17.
Nosso Senhor ensina que dificuldades entre cristãos devem ser resolvidas
dentro da igreja. Não devem ser declaradas aos que não temem a Deus. Se um cristão
for ofendido por seu irmão, não deve ir a um tribunal apelar a incrédulos. Siga a
instrução dada por Cristo. Em vez de procurar vindicar-se, procure salvar o irmão.
Deus protegerá os interesses dos que O temem e amam; e podemos entregar com toda
a confiança nosso caso Àquele que julga justamente.
84
Muitíssimas vezes, quando se perpetram injustiças repetidamente, e o
delinqüente confessa sua culpa, o ofendido se cansa e pensa que o perdão foi
genuíno. Mas o Salvador disse claramente como devemos tratar os relapsos: Se teu
irmão pecar contra ti, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. Lucas 17:
3. Não o consideres indigno de confiança. Olha por ti mesmo, para que não sejas
também tentado. Gálatas 6: 1.
Se vossos irmãos erram, deveis perdoar-lhes. Quando vos procuram com
confissão, não deveis dizer: Não creio que são bastante humildes. Não creio que
sintam a confissão. Que direito tendes de julgá-los como se pudésseis ler o coração?
A Palavra de Deus diz: Se ele se arrepender, perdoa-lhe; e, se pecar contra ti sete
vezes no dia e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me, perdoalhe. Lucas 17: 3 e 4. E não somente sete vezes, porém setenta vezes sete, tantas
vezes quantas Deus te perdoa a ti.
85
Nós mesmos devemos tudo à livre graça de Deus. A graça do concerto é
que prescreveu nossa adoção. A graça do Salvador efetua nossa redenção,
regeneração e exaltação a co-herdeiros de Cristo. Que esta graça seja revelada a
outros.
Não dê ao perdido ocasião para desânimo. Não permita intervir uma
severidade farisaica para ferir seu irmão. Não surja amargo escárnio no espírito ou
no coração. Não manifeste sinal de desprezo na voz. Se falar uma palavra de você
mesmo, se tomar atitude de indiferença, ou denotar suspeita ou desconfiança,
poderá causar a ruína de uma vida. Carece-a de um irmão com o coração
simpatizante do Irmão mais velho para que lhe toque o coração humano. Sinta ela
o aperto de uma mão simpatizante, e ouça o sussurro: Oremos. Deus dará rica
experiência a ambos. A oração une-nos um ao outro e a Deus. A oração traz Jesus
ao nosso lado, e dá à alma fatigada e perplexa novas forças para vencer o mundo,
a carne e o diabo. A oração desvia os ataques de Satanás.
86
Quando alguém se volta da imperfeição humana para contemplar a Jesus, dá-se
uma divina transformação no caráter. O Espírito de Cristo que opera no coração
conforma-o a Sua imagem. Seja pois vosso esforço exaltar a Jesus. Que os olhos do
espírito se dirijam ao Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. João 1: 29.
Empenhando-vos nesta obra, lembrai-vos de que aquele que fizer converter do erro do
seu caminho um pecador salvará da morte uma alma e cobrirá uma multidão de
pecados. Tiago 5: 20.
Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos
não perdoará as vossas ofensas. Mateus 6: 15. Nada pode justificar o espírito
irreconciliável. Aquele que não é misericordioso para com os outros, mostra não ser
participante da graça perdoadora de Deus. No perdão de Deus, o coração do perdido é
atraído ao grande coração do Infinito Amor. A torrente da compaixão divina derrama-se
no espírito do pecador e, dele, na de outros. A benignidade e misericórdia que em Sua
própria vida preciosa Cristo revelou, serão vistas também naqueles que se tornam
participantes de Sua graça. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é
Dele. Romanos 8: 9. Está alienado de Deus e apto unicamente para a eterna separação
Dele.
87
É verdade que pode uma vez haver sido perdoado; porém, seu espírito impiedoso
mostra que agora rejeita o amor perdoador de Deus. Está separado de Deus e na mesma
condição em que estava antes de ser perdoado. Desmentiu seu arrependimento, e os pecados
sobre ele estão como se não se tivesse arrependido.
Mas a grande lição da parábola está no contraste entre a compaixão de Deus e a
dureza de coração do homem; no fato de que a misericórdia perdoadora de Deus deve ser a
medida da nossa própria. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro,
como eu também tive misericórdia de ti? Mateus 18: 33.
Não nos é perdoado porque perdoamos, porém, como o fazemos. O motivo de todo
perdão acha-se no imerecido amor de Deus; mas, por nossa atitude para com os outros
denotamos se estamos possuídos desse amor. Por isto Cristo diz: Com o juízo com que
julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.
Mateus 7: 21.
1
Parábolas de Jesus, EGW, CPB, pp. 243 a 251.
88
Os Misericordiosos Receberão Misericórdia
O coração do homem é, por natureza, frio, escuro e desagradável; sempre
que alguém manifeste espírito de misericórdia e perdão, fazê-lo, não de si mesmo,
mas mediante a influência do divino Espírito a mover-lhe o coração. Nós O
amamos porque Ele nos amou primeiro. I João 4: 19.
É o próprio Deus a fonte de toda a misericórdia. Seu nome é
misericordioso e piedoso. Êxodo 34: 6. Ele não nos trata segundo os nossos
merecimentos. Não indaga se somos dignos de Seu amor, mas derrama sobre nós
as riquezas desse amor, a fim de fazer-nos dignos. Não é vingativo. Não busca
punir, mas redimir. Mesmo a severidade que mostra por meio de Suas providências,
é manifestada para salvação dos extraviados. Intensamente anela Ele aliviar as
misérias dos homens, e aplicar-lhes às feridas Seu bálsamo. É verdade que Deus
ao culpado não tem por inocente Êxodo 34: 7; mas quereria tirar a culpa.
89
Os misericordiosos são participantes da natureza divina II Pedro 1: 4,
e neles encontra expressão o compassivo amor de Deus. Todo aquele cujo
coração está em harmonia com o coração do Infinito Amor, buscará reaver e não
condenar. A presença permanente de Cristo na alma é urna fonte que jamais
secará. Onde Ele habita, haverá uma torrente de beneficência.
Ante o apelo do tentado, do errante, das míseras vítimas da
necessidade e do pecado, o cristão não pergunta: São eles dignos? mas: Como os
posso eu beneficiar? Nos mais indignos, mais degradados, vê almas para cuja
salvação Cristo morreu, e para quem Deus deu a Seus filhos o ministério da
reconciliação.
90
Os misericordiosos são os que manifestam compaixão para com os pobres,
os sofredores e oprimidos. Jó declara: Eu livrava o miserável, que clamava, como
também o órfão que não tinha quem o socorresse. A bênção do que ia perecendo
vinha sobre mim, e eu fazia que rejubilasse o coração da viúva. Cobria-me de
justiça, e ela me servia de veste; como manto e diadema era o meu juízo. Eu era o
olho do cego e os pés do coxo; dos necessitados era pai e as causas de que não
tinha conhecimento inquiria com diligência. Jó 29: 12 a 16.
Muitos há para quem a vida é uma penosa luta; sentem suas deficiências, e
são infelizes e incrédulos; pensam nada terem por que ser agradecidos. Palavras
bondosas, olhares de simpatia, expressões de apreciação, seriam para muitas almas
lutadoras e solitárias como um copo de água fria a uma alma sedenta. Uma palavra
compassiva, um ato de bondade, ergueriam fardos que pesam duramente sobre
fatigados ombros. E toda palavra ou ato de abnegada bondade é uma expressão do
amor de Cristo pela humanidade perdida.
91
Os misericordiosos alcançarão misericórdia. Mateus 5: 7. A alma
generosa engordará, e o que regar também será regado. Provérbios 11: 25. Há
uma doce paz para o espírito compassivo, uma bendita satisfação na vida de
esquecimento de si mesmo em benefício de outros. O Espírito Santo que habita
na alma e Se manifesta na vida, abrandará corações endurecidos, e despertará
simpatia e ternura. Haveis de ceifar aquilo que semeardes. Bem-aventurado é
aquele que atende ao pobre... O Senhor o livrará, e o conservará em vida; será
abençoado na Terra, e Tu não o entregarás à vontade de seus inimigos. O
Senhor o sustentará no leito da enfermidade; Tu renovas a sua cama na
doença. Salmo 41: 1 a 3.
92
Aquele que consagrou sua vida a Deus para o ministério de Seus filhos,
está ligado com Aquele que tem todos os recursos do Universo ao Seu dispor. Sua
vida se acha, pela áurea cadeia das imutáveis promessas, presa à vida de Deus. O
Senhor não lhe faltará na hora do sofrimento e da necessidade. O meu Deus,
segundo as Suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por
Cristo Jesus. Filipenses 4: 19. E na hora da necessidade final os misericordiosos
encontrarão abrigo na misericórdia de um compassivo Salvador, e serão recebidos
nas eternas habitações1.
1
O Maior Discurso de Cristo, pp. 21 a 24.
Que Deus nos abençoe!
Itamar de Paula Marques
93