A INSERÇÃO DA CULTURA LÚDICA NO ENSINO DA ARTE
Francisco Souza da Costa¹
Pedagogia-Universidade Estadual do Ceará
e-mail: f.souza39@yahoo.com.br
RESUMO
O artigo apresenta uma abordagem da importância das brincadeiras e brinquedos no
âmbito escolar, especialmente no ensino de Arte, nos anos iniciais do ensino
fundamental. Sendo a brincadeira, uma manifestação cultural, que acompanha a criança
no seu cotidiano, esperamos refletir sobre esse universo lúdico na sala de aula,
sobremaneira, no ensino de Arte, tentando contribuir para essa prática, dando
oportunidade às crianças de aprenderem e desenvolverem-se integral e prazerosamente.
A pesquisa desenvolveu-se pela metodologia da pesquisa bibliográfica. A análise
teórica levou à conclusão de que a cultura lúdica está inserida em práticas comunitárias
que fazem parte de um modo de aprendizado próprio das crianças identificados num
resgate histórico e cultural realizado aqui.
Palavras-chave: Arte, Cultura e Aprendizagem.
INTRODUÇÃO
Nesse artigo temos por objetivo compreender a importância da cultura lúdica
inserida no ensino da disciplina de Arte, nos anos iniciais do ensino fundamental. Pela
relevância dessa disciplina para o desenvolvimento infantil, acreditamos que inserir as
brincadeiras e brinquedos nas práticas de artes, estará colaborando para que as crianças
iniciem o contato com o mundo das artes, através de uma cultura que os acompanha no
cotidiano. O universo cultural é amplo e complexo, no entanto, a criança inserida pela
cultura do brincar estará resgatando uma cultura um pouco esquecida pelo adulto, como
também contribuindo para uma aprendizagem mais prazerosa.
Por ser um tema muito complexo e relevante para a educação, desenvolvemos o
trabalho pela metodologia da pesquisa bibliográfica, onde investigamos algumas obras
referentes ao tema em questão.
Esse texto inicia-se com uma breve concepção de cultura lúdica, sua relevância
para o desenvolvimento infantil e a aprendizagem. Seguindo por uma concepção
brincadeiras e brinquedos, onde o brinquedo complementa o brincar, servindo de apoio
ao mesmo.
Acreditamos dar uma contribuição relevante para o ensino de Arte na sala de
aula, pois o processo de aprendizagem perpassa pela integração entre educando e
educador, compreendemos que, desenvolvendo meios que tragam prazer para as
crianças aprenderem, estaremos colaborando com sua aprendizagem.
CULTURA LÚDICA
A tecnologia a as mídias são, hoje, os meios de entretenimentos mais
utilizados pelas crianças e adolescentes, que gradativamente estão substituindo muitas
vezes o contato pessoal em suas brincadeiras. Os primeiros meios de socialização, como
a família e a escola, estão, aos poucos, sendo renegados á segundo plano. A indústria
cultural e a cultura do espetáculo estão cerceando nossas crianças das brincadeiras e
brinquedos tradicionais, onde por uma necessidade do mercado e a lógica do capital,
que se resumem aos lucros, os brinquedos produzidos cada vez mais se distanciam da
realidade infantil. O mercado globalizado pede uma mercadoria que esteja nos padrões
mundiais e a singularidade do indivíduo fica renegada a segundo plano.
A televisão e as redes sociais tornam-se os principais meios que propagam
esta cultura de consumismo exagerado, estimulando à distância entre os indivíduos. Por
esse motivo, o contato com o outro está sendo substituída por essa nova forma de
relacionamento, as relações afetivas e sociais entre pais e filhos, crianças, jovens e
adultos estão sofrendo um desgaste quase irreparável. As telas da televisão e
computador chamam a atenção das pessoas e as crianças são as mais seduzidas.
As crianças são bombardeadas constantemente por informações e
propagandas, não havendo nenhum critério para selecionar, nem limitar o acesso,
principalmente pelos pais. A rapidez com que crianças aprendem com esses meios de
divulgação não se compara com anos de aprendizagem na escola, mas a leitura e a
escrita ficam comprometidas. É preciso acompanhar essas mudanças, pois a criança
interpreta e assimila os conteúdos das tecnologias mais rápido que a aprendizagem da
leitura e da escrita no âmbito escolar.
Como bem expõe Bernabeu em: “A Brincadeira como ferramenta
pedagógica.”:
[...] Tudo isso produz alguns importantes paradoxos: por um lado,
dedica-se muito tempo para que os estudantes, através de um processo
de muitos anos, aprendam ler a palavra expressa; e, no entanto, se dá
por suposta sua capacidade de ler imagens, de interpretar mensagens
audiovisuais, ou de navegar com rumo pela internet... Por outro lado, a
escola, que perdeu o primeiro lugar como agente transmissor de
conhecimentos, não acaba de assumir a ideia de que mais que apontar
informações deva ensinar a selecioná-las e a ordená-las criticamente
para que adquiram sentido (2012, p. 14).
Pensando nessa falta de interesse das crianças pelo processo de ensino
desenvolvido na escola e procurando um meio termo para que esse paradoxo seja menos
marcante, propomos esse trabalho com base na iniciativa de momentos lúdicos na sala
de aula, principalmente nos primeiros anos do ensino fundamental, usando-se as
brincadeiras e os brinquedos tradicionais, pois esses trazem consigo uma gama de
referências culturais arraigadas nas suas origens. As brincadeiras e os brinquedos podem
assumir uma nova forma de ensinar a Arte às crianças de maneira mais prazerosa,
concordamos com Bernabeu, que afirma, [...] Parece bastante realista a necessidade de
desterrar as atitudes pedagógicas baseadas na mera exposição de conteúdos ou na
tirania dos programas acadêmicos e assumir uma forma de ensinar e aprender muito
mais participativa (2012, p. 15).
As brincadeiras e brinquedos podem aproximar as crianças de sua realidade,
proporcionando uma aprendizagem por meio de algo que é de conhecimento das
crianças: a cultura lúdica. Elas terão a oportunidade de aprender com prazer e,
consequentemente, resgatar a cultura tradicional representada pelas brincadeiras e
brinquedos, que perdem espaço para outros meios de lazer, impostos pela lógica de
mercado e do consumismo.
As brincadeiras e brinquedos tradicionais são atividades lúdicas que
divergem de algumas atividades da modernidade, pois existem atividades de
entretenimento que levam a criança ao isolamento do contato social, levando ao
individualismo e à alienação. As atividades lúdicas, na aprendizagem, promovem o
desenvolvimento mental e físico, levando a criança a interagir com o outro, ocorrendo a
troca de experiências e conhecimentos.
As atividades lúdicas são importantes no processo de aprendizagem das
crianças que estão em contato inicial com o universo da leitura e da escrita. Ambas as
dimensões culturais, lúdicas e a escrita, são relevantes para o desenvolvimento da
criança, pois caminham juntas em seu cotidiano. Segundo Colares:
Trabalhar com a brincadeira, aqui, representa vê-la no conjunto das
relações sociais, tendo em vista que, mesmo sendo uma ação
descomprometida de objetivos imediatos, tem um papel de
transmissora de costumes, ao mesmo tempo em que é inovadora e
criativa, e que contribui, sobremaneira, para a formação humana.
(2011, p. 12)
As brincadeiras e brinquedos estão relacionados a variadas maneiras de
interações entre crianças e o meio, tanto individualmente como coletivamente. As
brincadeiras estão no cotidiano de toda criança e as acompanham para o resto da vida.
Conforme Colares:
A brincadeira, essa manifestação cultural, acompanha o homem desde
o início da sua história. É registrada desde a antiguidade, quando se
gravavam em sarcófagos crianças em momentos de brincadeiras,
como o motivo de um menino brincando com aro, meninas jogando
bola... (2011, P. 12)
A atividade do brincar começa na infância, mas, com o passar do tempo,
esta criança cresce e as brincadeiras modificam-se, quando adultos, os jogos são as
brincadeiras priorizadas. A brincadeira na vida da criança é considerada uma atividade
livre e fictícia, fazendo a criança viajar para fora da realidade, mesmo que a brincadeira,
em alguns momentos, imite a realidade. Sendo uma vivência fantasiosa, ela é
representativa.
BRINCADEIRA
A brincadeira acompanha a criança desde os primeiros anos de vida, em contato
com o adulto, principalmente com a mãe, que a inicia no contato com o universo lúdico,
descobrindo as sensações e o prazer. As brincadeiras, com o tempo, foram evoluindo
como também evoluiu a humanidade. Para a criança, a brincadeira é uma das formas de
descoberta que lhe proporciona muito prazer e contribui para seu desenvolvimento
físico e mental.
Na modernidade, as brincadeiras tradicionais estão perdendo espaço para
outros tipos de atividades lúdicas, como por exemplo, as atividades das áreas
tecnológicas. No entanto, acreditamos que a cultura lúdica das brincadeiras tradicionais
pode ser uma ferramenta para à educação na escola, que contribuirá para uma
aprendizagem mais significativa para as crianças nos anos inicias de escolarização.
BRINQUEDO
O brinquedo é um objeto que dá apoio à brincadeira, nele a criança
desenvolve e usa o imaginário. Não é necessário que haja o brinquedo para que ocorra a
brincadeira, mas ele é importante nas brincadeiras onde é utilizado, pois estimula à
representação da realidade, dando asas a imaginação da criança.
Os objetos reais muitas vezes são substituídos por miniaturas, tornando o
brinquedo a representação desse objeto dentro das brincadeiras. Mas também pode
representar outro objeto no apoio à outra brincadeira. Como bem expõe Ribeiro:
O brinquedo substitui os objetos reais existentes no cotidiano, na
natureza, nas construções humanas e tem como objetivo proporcionar
um substituto das coisas reais a fim de que possa utilizá-las, manuseálas à sua maneira e de acordo com sua imaginação. (2000, p. 28)
O brinquedo representa a cultura de um tempo e em um determinado lugar,
associado à infância primeiramente, mas os adultos são confrontados com sua infância,
quando falam de brinquedos. Segundo Benjamim, o brinquedo, mesmo quando não
imita os instrumentos dos adultos, é confronto, na verdade não tanto da criança com os
adultos, do que destes com as crianças. (1984, p. 72)
A origem dos brinquedos remete à construção desses objetos dentro da
família, em uma produção artesanal, conforme Benjamim:
Originalmente os brinquedos de todos os povos descendem da
indústria doméstica. A primitiva riqueza de formas do povo baixo, dos
camponeses e artesãos, estabelece até os dias de hoje uma base segura
para o desenvolvimento do brinquedo infantil. (1984, p. 93)
Na antiguidade, os brinquedos artesanais eram feitos de material retirados
da natureza. Nas palavras de Benjamim, Madeira, ossos, tecidos, argila, representam
nesse microcosmo os matérias mais importantes, todos eles já eram utilizados nos
tempos patriarcais (1984, p. 69).
Na idade média, os materiais usados eram os restos das matérias primas
usadas por cada artesão, reutilizadas em miniaturas de peças que eles produziam em
tamanho normal, tornando a beleza e a estética dos objetos excelentes. Segundo
Benjamim:
O estilo e a beleza das peças mais antigas explicam-se pela
circunstância de que o brinquedo representava antigamente um
produto secundário das diversas indústrias manufatureiras, (...).
(...) os avanços da Reforma obrigavam muitos artistas- que até então
haviam produzido para a Igreja- a orientarem sua produção em vista a
demanda de objetos artesanais e a substituírem as obras grandiosas por
objetos de arte menores, (...). (1984 p. 67-68)
No século XIX, foi à época que as crianças foram consideradas mais
importantes, consolidando uma mudança de costumes que teve início no século XVII.
As mudanças quanto aos brinquedos também ocorreram, pois as brincadeiras passaram
também por mudanças e os brinquedos que antes eram produzidos de forma artesanal, e
miniaturas de coisas produzidas pelos artesãos, passam a ser produzidos em escala
industrial e, com isso, foi perdendo sua aparência estética e de identidade com a infância
e contexto social onde são produzidos. Nas palavras de Benjamim, Na segunda metade
do século XIX, quando começa a acentuada decadência dessas coisas, percebem-se
como os brinquedos tornam-se maiores, vão perdendo aos poucos o elemento discreto,
minúsculo e agradável (1984, p. 68).
Os brinquedos ganham outras significações no âmbito social e individual,
sendo um objeto que incorpora e transmite cultura, principalmente a cultura infantil, e
carrega com eles um valor cultural rico em significados, de uma sociedade em uma
época e contexto. Como salienta Brougère:
[...] Mas o brinquedo possui outras características, de um modo
especial de ser um portador de significados rapidamente
identificáveis: ele remete a elementos legíveis do real ou do
imaginário das crianças. Neste sentido, o brinquedo é dotado de um
forte valor cultural, se definimos a cultura como o conjunto de
significações produzidas pelo homem. Percebemos como ele é rico de
significados que permitem compreender determinada sociedade e
cultura (2000, p. 8).
O brinquedo não possui para a criança uma definição precisa de sua função
no ato de brincar, diferente dos adultos, que assimilam apenas uma representação do
objeto, a criança usa o imaginário. Nas palavras de Brougère:
O brinquedo, em contra partida, não parece definido por uma função
precisa: trata-se, antes de tudo, de um objeto que a criança manipula
livremente, sem estar condicionando às regras ou a princípios de
utilização de uma natureza. (...) Os objetos lúdicos dos adultos são
chamados exclusivamente de jogos, definindo-se, assim, pela sua
função lúdica (2000, p. 13).
Os brinquedos fomentados pelas indústrias e as mídias são objetos que
trazem outras formas de significação, onde valorizam o valor de mercado em detrimento
ao valor cultural. As crianças ficam cerceadas a terem a liberdade de imaginar qual a
função do objeto que irão utilizar na brincadeira, pois esse objeto já vem determinando
sua função, por exemplo: os bonecos fabricados com a imagem do super-herói, ficam
limitados a cumprir apenas essa função, pois sua imagem simbólica já está expressa. De
acordo com Brougère:
[...] É a imagem que caracteriza a especificidade da boneca. Isso
também é verdade em relação às bonecas ditas com função ( que
andam sozinhas, por exemplo): correspondem menos a uma função, a
um uso do objeto, do que ao aprofundamento de sua imagem, no caso
por animação; a criança não faz mais sua boneca andar, ela anda
sozinha; a imagem se enriquece com um valor dinâmico(2000, p. 16).
Os brinquedos tradicionais são ricos de significados e arraigados de valores
da cultura lúdica, trazidas do passado, que infelizmente perde espaço para os brinquedos
industrializados e divulgados pela mídia. Segundo Brougère, [...] o brinquedo se tornou
uma indústria da imagem, especialmente sob a pressão da televisão, que é hoje o único
meio de se dirigir diretamente à criança (2000, p. 19).
Contrária à forma de produzir os brinquedos de maneira industrial, a
maneira artesanal ou tradicional, pode ser empregados no âmbito escolar, e ser
produzidos pelas próprias crianças, resgatando uma identidade mais próxima da
realidade e contexto em que vivem. Pensando assim, compreendemos que a introdução
dos brinquedos tradicionais nas brincadeiras infantis garante uma aprendizagem
prazerosa e significativa culturalmente. De acordo com Brougère:
A impregnação cultural, ou seja, o mecanismo pelo qual a criança
dispõe de elementos dessa cultura, passa, entre outras coisas, pela
confrontação com imagens, com representações, com formas diversas
e variadas. Essas imagens traduzem a realidade que a cerca ou
propõem universos imaginários. Cada cultura dispõe de um “banco de
imagens” consideradas como expressivas dentro de um espaço
cultural. É com essas imagens que a criança poderá se expressar, é
com referência a elas que a criança poderá captar novas produções
(2000, p. 40).
O desenvolvimento infantil perpassa no contato que a criança tem com o
objeto que brinca, estes deveriam ter uma identidade com sua realidade, pois as
representações, as imagens e os símbolos são dominados por elas. Consideramos que os
brinquedos tradicionais e populares inseridos na aprendizagem das crianças são uma
alternativa viável e econômica para a educação das crianças, principalmente nos anos
iniciais do ensino fundamental.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento humano ocorre desde seu nascimento, passa por várias
etapas e fases, e o lúdico torna-se a melhor maneira de conhecer o mundo, pois ele dá
prazer. O homem, ao brincar, relaciona-se com o meio e também com o outro,
desenvolvendo-se e aprendendo.
Na aula de Arte essas brincadeiras podem estar sendo preparadas pelo
educador e educando, na fabricação de brinquedos artesanais, desenvolvendo as
habilidades criativas das crianças, trazendo assim uma significação do brinquedo mais
próxima da realidade e contexto social.
Conclui-se, portanto, que levando esta proposta de inclusão da brincadeira e
brinquedo para a sala de aula, inserida no ensino da Arte, estaremos colaborando para o
desenvolvimento infantil nas escolas, por meio da cultura lúdica, com as quais elas
compreendem o mundo a sua volta e se identificam.
REFERÊNCIAS
BEJAMIM, Walter. Reflexão: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo:
Summus, 1984.
BERNABEU, Natália. A brincadeira como ferramenta pedagógica. São Paulo:
Paulina, 2012.
BROUGÈRE, Gilles. Brinquedos e cultura. São Paulo: Cortez, 2000.
COLARES, Edite. Corpo e movimento I: recreação, jogos e brincadeiras. Fortaleza:
UAB/UECE, 2010.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo:
Cia. Das Letras, 1995.
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