Anuário da Produção
Acadêmica Docente
Vol. 4, Nº. 7, Ano 2010
Thais de Assis Antunes
Baungart
Faculdade Anhanguera de Campinas
unidade 3
[email protected]
O FALAR E O OUVIR TERAPÊUTICO DA
RELIGIOSIDADE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
PROFISSIONAL
RESUMO
O trabalho de ouvir pessoas é algo que, normalmente, é designado aos
profissionais que lidam diretamente com a subjetividade humana. O
psicólogo é um destes profissionais e, neste sentido, espera-se que ele,
em especial, tenha um ouvir diferenciado do ouvir leigo. Dentro dessa
temática o presente artigo descreve um relato de experiência
profissional da autora sobre o ouvir terapêutico da religiosidade de
leigos católicos e também de candidatos à vida sacerdotal. Todos os
dados dos sujeitos apresentados foram retirados de pesquisas já
realizadas pela autora. Os procedimentos utilizados para esse artigo
foram: levantamento bibliográfico do tema pesquisado e discussão dos
dados com autores como: Merleau-Ponty, Martin-Buber, Paulo Freire e
Cal Rogers.
Palavras-Chave: religiosidade; fala autêntica; psicoterapia.
ABSTRACT
The work of listening to people is something that, normally, is assigned
to the professionals that deal directly to the subjective side of the
human being. The psychologist is one of these professionals and, in this
direction, it is expected that they, have a differentiated listening of the
one a layperson has. Within this thematic, I intend to discuss the
therapeutical listening of the religious experience of the catholics and
also of the candidates to the sacerdotal life. This discussion will be
based on my professional experience as a researcher and also on some
ideas from Amatuzzi (1989, 2001) related to author’s thoughts such as:
Merleau-Ponty, Martin-Buber, Paulo Freire and Cal Rogers.
Keywords: religiosity; genuine talk; psychotherapy.
Anhanguera Educacional Ltda.
Correspondência/Contato
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CEP 13.278-181
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Coordenação
Instituto de Pesquisas Aplicadas e
Desenvolvimento Educacional - IPADE
Informe Técnico
Recebido em: 28/05/2010
Avaliado em: 22/02/2011
Publicação: 30 de março de 2011
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O falar e o ouvir terapêutico da religiosidade: um relato de experiência profissional
1.
INTRODUÇÃO
O trabalho de ouvir pessoas é algo que, normalmente, é designado aos profissionais que
lidam com os aspectos subjetivos do ser humano. O psicólogo é um destes profissionais e,
neste sentido, espera-se que ele, em especial, tenha um ouvir diferenciado do ouvir leigo.
Sobre esse assunto, Amatuzzi (1989) em seu livro: O Resgate da Fala Autentica e também
no livro: Por uma Psicologia Humana (AMATUZZI, 2001), traz importantes contribuições.
Neste texto, em especial, iremos discutir sobre o ouvir terapêutico de uma
população que traz como tema para clínica psicológica, a questão da experiência religiosa.
O trabalho profissional da autora engloba tanto as experiências religiosas de leigos como
as experiências religiosas de pessoas que estão se preparando para a consagração na vida
religiosa, mas, antes de focar na questão do ouvir terapêutico, faz-se importante discutir
sobre o falar e, para esta discussão, utilizaremos os dois livros de Amatuzzi mencionados
acima (“O resgate da fala autêntica” de 1989 e “Por uma psicologia humana” de 2001) no
qual o autor discute com importantes pensadores tais como: Merleau-Ponty, Martin
Buber, Paulo Freire e Carl Rogers.
Uma importante contribuição de Merleau-Ponty no que se refere ao tema falar e
ouvir é a expressão dos sentimentos através da fala. Para isto, o autor discute a questão do
silêncio não apenas como ausência de ruídos, mas também como algo positivo e
embrionário no plano das significações. Amatuzzi (2001), falando sobre o pensamento de
Merleau-Ponty, diz que a plena expressividade ou não da fala, ou seja, sua autenticidade
pode ser descrita a partir da relação com o pré-verbal que a mobiliza. Este algo que a
precede e a mobiliza foi chamado de silêncio. É no silêncio de que fala Merleau-Ponty,
que nasce a intenção significativa, que nada mais é do a maneira pela qual a fala se une
àquilo que antecede o pré-vebal e lhe dá forma, ou seja, é aquilo que lhe constitui uma
significatividade. A fala, portanto, é a ruptura de um determinado silêncio, é a expressão
concreta daquilo que o sujeito sente. Quando a pessoa consegue verdadeiramente falar o
que está sentido, Merleau-Ponty diz que esta é a fala original. O oposto disso seria a fala
segunda, a qual já vem contaminada de pensamentos, preconceitos e outras ideias préestabelecidas. Neste tipo de fala a pessoa está simplesmente relatando pensamentos e/ou
sentimentos que já teve, mas não os pensamentos e sentimentos que está tendo no ato de
falar (FURLAN, 2001).
Martin Buber, um dos autores que fazem parte do percurso reflexivo de
Amatuzzi (1989), ressalta a importância do diálogo genuíno e explica que este é a forma
ideal de se expressar e de ouvir. Um diálogo só é genuíno quando existe um falar-ao-
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outro e não simplesmente um falar voltado para o outro. Este tipo de diálogo se diferencia
daquilo que Buber chama de palavreado, o qual nada mais é do que falar a si mesmo, pois
não existe troca, mas sim um falar sem a intenção de se relacionar com a fala do outro.
Amatuzzi (1989, p.42) comentando o pensamento de Buber diz: “Quando as pessoas estão
apenas preocupadas em falar e não escutam (portanto apenas preocupadas consigo
mesmas), por mais inteligentes que possam ser os discursos não há propriamente o
diálogo, mas só palavreados”.
Quando o diálogo genuíno acontece entre duas ou mais pessoas é possível se
dizer que existe uma relação eu-tu, a qual, segundo Buber é o tipo de relação ideal para
uma comunicação verdadeira. Na relação eu-tu o que predomina é o inter-humano, não
existe o funcional, é a relação pura. O oposto disso seria a relação eu-isso, que se dá através
do palavreado e que tem um caráter mais funcional ou social. Segundo Buber o tipo de
relação que se estabelece na psicoterapia é a relação eu-isso, uma vez que existe um papel
funcional por trás desta relação, ou seja, o cliente procura o terapeuta por um motivo
específico e através deste motivo é estabelecida a relação. Carl Rogers não concordava
com Buber neste sentido, pois acreditava que era possível estabelecer uma relação eu-tu
na psicoterapia.
É importante ressaltar que Merleau-Ponty e Martin Buber não são contraditórios
em suas colocações, mas, abordam o assunto da fala de formas diferentes. Enquanto
Buber enfatiza a relação e o diálogo com o outro, Merleau-Ponty se ocupa com a maneira
pela qual a fala nasce no ser humano.
Paulo Freire participa da discussão sobre o falar e ouvir colocando-se numa
posição mais social e política, enquanto que os demais autores participam de maneira
mais filosófica. Freire enfatiza que enquanto o sujeito não for capaz de dizer a sua própria
palavra ele estará apenas reproduzindo o discurso do opressor. Assim, o sujeito (oprimido)
passa a dizer apenas aquilo que se espera que ele diga, ou aquilo que foi colocado em sua
boca como sendo a palavra certa (opressor). O autor diz que uma verdadeira libertação
não se consegue sem uma atuação externa concreta e transformadora da situação
opressora. Mas essa atuação externa não será verdadeiramente libertadora se não for, ao
mesmo tempo, uma expulsão do opressor de dentro de si.
Carl Rogers fala sobre autenticidade. Este conceito é importante para
compreendermos as proximidades e distanciamentos que Rogers faz em relação aos
demais autores. A autenticidade seria uma busca para que o sujeito possa ser aquilo que
realmente ele é, trata-se de um estado de integração da pessoa no qual seu potencial se
encontra mais plenamente libertado para atuar. Isso é visto como objetivo ou meta para se
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alcançar, como pólo de direcionamento do crescimento o qual caracteriza o que Rogers
denominava de vida plena. Neste sentido podemos dizer que a autenticidade é o
equilíbrio entre: a experiência (aquilo que sinto), a consciência (aquilo que penso) e a
comunicação (aquilo que expresso). “A autenticidade aponta para algo que está além da
fachada, além daquilo que eu devo ser, além do que os outros esperam de mim, além
daquilo que simplesmente agrada aos outros” (AMATUZZI, 1989, p.98).
No que se refere à relação terapêutica, Buber e Rogers (2005) não tem pontos de
vista concordantes. Para Buber este tipo de relação (terapia) não é uma relação eu-tu, uma
vez que não é uma relação pura, mas sim socialmente planejada e com uma hierarquia da
qual não podemos fugir (o terapeuta não está no mesmo nível hierárquico do cliente, pois
se estivesse, o cliente não o procuraria enquanto profissional). Já Rogers acredita que a
psicoterapia, quando autêntica, é o melhor exemplo de relação eu-tu, ou pelo menos deve
ser tomado como meta chegar á este tipo de relação para que o sujeito obtenha um bom
resultado em termos de crescimento pessoal, o qual é o objetivo final da psicoterapia.
Mauro Amatuzzi fala sobre o resgate da fala autêntica (1989). Para o autor a
possibilidade de não-expressividade da fala e a significação de entrar na relação são
questões interligadas. Por ter formação em psicologia e também em educação, carrega
fortes influências das ideias de Carl Roger e Paulo Freire. Neste sentido, a compreensão
das ideias de Amatuzzi será útil para a compreensão sobre o ouvir e o falar da experiência
religiosa.
Amatuzzi ressalta que o que se pode fazer por uma pessoa que está tentando se
comunicar, mesmo que no momento não sinta o sucesso de seu empreendimento, é
basicamente ouvi-la. Mas não um ouvir mecanizado, e sim um ouvir terapêutico que vai
além do simples escutar. Receber as formulações, por mais aproximativas que sejam sem
parcializar ou introduzir esquemas de escuta é o que permite o fluxo expressivo e, com ele
o aprofundamento (pelo próprio sujeito) em direção a maior expressividade e
consequente crescimento pessoal: “se eu não tiver a quem falar e quem me ouça
totalmente, eu não me expresso e, consequentemente, não atualizo o meu ser”
(AMATUZZI, 1989 p.172).
Depois desta breve introdução sobre o falar, podemos agora aprofundar o ouvir,
mas, antes, cabe esclarecer ao leitor que essa separação de conceitos deu-se apenas por
motivos didáticos e que, na prática, o falar e o ouvir acontecem de forma integrada.
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2.
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METODOLOGIA
Para este texto, em especial, pensemos no ouvir terapêutico da experiência religiosa. O
primeiro contado da autora com relatos desse tipo foi durante a elaboração de sua
dissertação de mestrado a qual teve, como tema, a experiência religiosa de leigos católicos
e a relação desta com o desenvolvimento pessoal (ANTUNES, 2005).
O método de análises dos resultados utilizados para o referido estudo foi o
qualitativo-fenomenológico, portanto, ouvir as experiências foi fundamental para se
chegar à essência do fenômeno e assim revelar o que nele há de mais genuíno
(AMATUZZI, 2002). Além deste primeiro contato, a autora também tem ouvido relatos de
experiências religiosas de candidatos à vida sacerdotal em seu consultório particular,
assunto este que foi um dos focos de sua tese de doutorado (BAUNGART, 2010).
Para este artigo utilizamos a pesquisa bibliográfica e as ideias de Amatuzzi,
Merleau-Ponty, Martin-Buber, Paulo Freire e Cal Rogers.
3.
RESULTADOS E ANÁLISE
Os resultados das pesquisas e também da prática profissional da autora têm
revelado que ouvir as experiências religiosas das pessoas, sejam elas sacerdotes ou leigas,
é um trabalho que requer, além de todos os requisitos necessários para se ouvir
terapeuticamente qualquer assunto, uma sensibilidade a mais. Essa sensibilidade que não
é algo que se aprende nos cursos de graduação em psicologia ou em qualquer outro tipo
de curso, uma vez que não é algo técnico, mas sim subjetivo.
As conclusões sobre esse assunto apontaram para a necessidade de
aperfeiçoamento por parte dos profissionais que lidam diretamente com aspectos
subjetivos do ser humano, como é o caso da religiosidade. Nesse quesito é importante que
o profissional esteja tranquilo em relação à sua própria religiosidade. Isso porque tal tema
é algo que pertence ao plano do particular e caso o psicoterapeuta não saiba lidar com o
assunto, recorre o risco de ser o opressor de que fala Paulo Freire e, mesmo sem querer,
acabar hospedando-se em seus clientes. Sobre este assunto, Lopes (2005) ressalta que o
que se tem observado hoje na clinica psicológica é que muitos profissionais têm
dificuldade em compreender a temática da religiosidade naquilo que ela tem de
específico, ou seja, como uma manifestação humana e a consequência disto é, muitas
vezes, um olhar superficial sobre o assunto ou até mesmo a negação da experiência
relatada.
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O risco que alguns psicólogos correm ao lidarem com a experiência religiosa de
seus clientes, sem ter um contato mais profundo com a sua própria subjetividade, é o
mesmo que se corre ao trabalhar com qualquer outro tipo queixa que não esteja bem
resolvida para o terapeuta. No entanto, quando se trata de ouvir as experiências de
religiosidade entramos num campo totalmente desconhecido, pois, tais experiências,
embora tenham aspectos em comum, são, em sua essência, totalmente diferentes umas
das outras, tendo cada uma, seu caráter particular. Neste sentido, podemos levantar a
hipótese de que resulte daí a dificuldade que muitos profissionais encontram ao lidarem
com tal questão.
Sobre esse assunto é possível observar nos sujeitos de pesquisa de Antunes (2005)
e Baungart (2010) algumas situações nas quais eles se sentiram o oprimido de que fala
Paulo Freire. O exemplo da entrevista com Maria (nome fictício de um dos participantes
da pesquisa) revela tal situação.
Maria, ao termino de nossa entrevista relatou que sentiu, pela primeira vez, que havia
conseguido falar tudo aquilo que sente em relação a sua experiência religiosa. Disse
ainda que em outros momentos de sua vida já havia sido questionada a respeito de sua
religiosidade, mas, ao falar sobre esse assunto, era tomada por uma forte sensação de
‘incompletude’ em relação à sua fala.
Sobre o sentimento descrito por Maria, acredito que suas tentativas anteriores de
expressão em relação àquilo que para ela era essencial poderiam ser consideradas falas
banais, no sentido de Merleau-Ponty, palavreado no sentido de Martin Buber, ou uma fala
não autentica no sentido de Roger e Amatuzzi. O ultimo autor diz que:
[...] uma pessoa que não consegue dizer aquilo que gostaria de dizer de fato é alguém
que não está conseguindo sentir-se verdadeiramente ouvida. Quando a palavra viva é
recebida (ouvida), ela se torna disponível para operações ulteriores. Ser ouvida significa
ser plenamente pronunciada. (AMATUZZI, 1990 p. 15)
Paulo Freire diria que a consequência do não sentir-se ouvida é a pessoa voltar a
insistir em dizer aquilo que verdadeiramente gostaria de dizer até sentir-se plenamente
ouvida, ou ainda desistir de dizer aquilo que é essencial e substituir a ‘sua palavra’ por
outras que não são suas.
Ao refletir sobre a colocação da entrevistada (de que pela primeira vez ela sentiuse verdadeiramente ouvida) a autora passou a analisar o que havia de diferente em sua
atitude, que gerou na entrevistada tal sentimento. A conclusão foi que, ao enfatizar seus
sentimentos, repetindo-os na fala da pesquisadora durante a entrevista, Maria se sentiu
verdadeiramente ouvida. Pode-se pensar que naquele momento, a relação que a
entrevistadora estava estabelecendo com Maria tenha sido uma relação eu-tu. Isto porque
a entrevistadora procurou repetir os sentimentos que também a tocaram na fala de Maria,
ou seja, procurou-se ressaltar os sentimentos dela que primeiramente tocaram a
pesquisadora. Neste sentido, não estava acontecendo, naquele momento, uma relação
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hierárquica (pesquisador – sujeito), mas sim uma relação entre duas pessoas na qual uma
estava reproduzindo, através do contato, aquilo que a outra estava tentando concretizar
em seu discurso.
O resultado deste tipo de diálogo é um libertar-se de falas que não são autenticas
ou que estão hospedadas na pessoa por algum opressor. Além disso, ao sentir-se
verdadeiramente ouvida em sua fala à pessoa é capaz de vivenciar situações inesperadas
ou desconhecidas em relação a si mesma, como é o caso das experiências de religiosidade.
Amatuzzi (1998, p. 59) ressalta que: “(...) a experiência religiosa é algo que não pertence ao
plano das ideias e diante da grandeza do experienciado a pessoa se sente como nublada,
infinitamente pequena e entregue”. Esta experiência, pois, repercute diariamente na vida
da pessoa, abrindo para a mesma um mundo inteiramente novo.
Outra situação na qual se pode perceber a importância do ouvir terapêutico foi
durante os encontros de Grupo de Crescimento realizados no Seminário Propedêutico
durante a elaboração da tese de doutorado (BAUNGART, 2010). Neste trabalho a autora
se propôs a ouvir, dentro do contexto de grupo, as experiências de seminaristas católicos
durante a primeira etapa do processo de formação sacerdotal, ou seja, durante o período
do Propedêutico. Os resultados desse estudo revelaram que o movimento do grupo ao
ouvir as experiências particulares dos colegas era sempre no sentido de ouvi-las sob a luz
daquilo que é a sua própria experiência. De acordo com Lopes (2005) isto é semelhante ao
que acontece com alguns psicólogos ao lidarem com a religiosidade de seu cliente, ou seja,
acabam por ouvi-las de acordo com a sua própria referência de religiosidade, o que
resulta num ouvir mecânico ou, como diria Paulo Freire, num ouvir opressor.
A experiência profissional da autora tem mostrado que muitas vezes não há
espaço dentro dos seminários para uma fala autêntica daquilo que se sente ou pensa em
relação às vivencias cotidianas. Portanto, para lidar com tal situação procura-se ouvir cada
um dos participantes naquilo que eles trazem de mais intimo e verdadeiro por detrás de
suas falas oprimidas e, assim, estimulá-los a também ouvir os outros participantes naquilo
que é o essencial da vivência e não naquilo que está superficialmente pronto. O resultado
que tem-se alcançando com isso é um ouvir mais profundo e autêntico por parte dos
participantes do grupo, os quais relatam sentirem-se mais seguros e aceitos em seus
sentimentos.
Para finalizar esta reflexão, apresentamos um pequeno trecho do discurso de Carl
Roger em seu livro: Um jeito de ser no qual ele consegue descrever em palavras aquilo
que a autora sente, enquanto psicóloga, quando consegue verdadeiramente ouvir as
experiências de meus clientes:
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O falar e o ouvir terapêutico da religiosidade: um relato de experiência profissional
Quando digo que gosto de ouvir alguém estou me referindo, evidentemente, a uma
escuta profunda. Quero dizer que ouço as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos
sentimentos, o significado pessoal e até mesmo o significado que subjaz às intenções
conscientes do interlocutor. Em algumas ocasiões ouço por trás de uma mensagem que
superficialmente parece pouco importante, um grito humano profundo, desconhecido e
enterrado muito abaixo da superfície da pessoa. (ROGERS, 1983, p. 5).
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ROGERS, C.R.; BOWEN, M.C. VillasBoas. Quando fala o coração. 1ª ed. São Paulo: Vetor, 2005.
Thais de Assis Antunes Baungart
Doutora em Psicologia como Profissão e Ciência pela
PUC-Campinas.
Professora
de
Psicologia
da
Anhanguera Educacional Campus Campinas e Leme.
Anuário da Produção Acadêmica Docente • Vol. 4, Nº. 7, Ano 2010 • p. 177-184
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Artigo da revista SARE - Psicóloga Thais Antunes