O ESTRESSE E A SÍNDROME DE BURNOUT NO TRABALHO DOCENTE:
ALGUMAS REFLEXÕES
Solange Franci Raimundo Yaegashi, UEM, e-mail: [email protected]
Ana Maria T. Benevides Pereira, UEM, PUC-PR, e-mail:
[email protected]
Irai Cristina Boccato Alves, USP, e-mail: [email protected]
Introdução
Ao longo da história, diversos acontecimentos marcaram profundamente a vida do ser
humano, causando danos físicos e/ou psíquicos de todas as ordens. Por isso, o estresse
não é um problema apenas do século XXI, mas faz parte da história da humanidade.
Todas as pessoas, independentemente do sexo e idade podem desenvolver o estresse.
Entretanto uma das variáveis que tem merecido destaque nos estudos realizados nas
duas últimas décadas é a profissão, uma vez que as características do trabalho são
decisivas para o adoecimento psíquico e físico (Yaegashi, 2008; Yaegashi, BenevidesPereira & Alves, 2009; Canova & Porto, 2010).
Segundo Lazarus e Folkman (1984), o estresse se dá quando a avaliação sobre um
determinado evento ou situação indica que não existem recursos suficientes para o
enfrentamento. No estresse há um rompimento do equilíbrio interno – homeostase -,
sendo que o organismo, através de uma série de mecanismos, tenta recuperar o
equilíbrio perdido. O processo de estresse possui três etapas: a) alarme, quando o agente
estressor é percebido, ativando de forma intensa o organismo para seu enfrentamento; b)
resistência, em que há uma adaptação em função da ameaça sentida; c) e de
esgotamento, quando o organismo, após o emprego das estratégias possíveis, se
desgasta, vindo muitas vezes a sucumbir. Desta forma, a pessoa começa a apresentar
uma série de sintomas psicossomáticos que se intensificam, caso este estado perdure,
podendo acarretar problemas sérios, até mesmo a morte.
O estresse característico do ambiente de trabalho é denominado “estresse ocupacional”.
Quando ocorre a cronificação do estresse ocupacional, como resposta e forma, mesmo
2
que inadequada de enfretamento, pode vir a ocorrer o que tem sido designado como
síndrome de burnout.
O Burnout é a resposta a um estado prolongado de estresse,
ocorre pela cronificação deste, quando os métodos de
enfrentamento falharam ou foram insuficientes. Enquanto o
estresse pode apresentar aspectos positivos ou negativos, o
Burnout tem sempre um caráter negativo (distresse). Por outro
lado, o Burnout está relacionado com o mundo do trabalho,
com o tipo de atividades laborais do indivíduo (BenevidesPereira et al, 2003, p. 45).
Para Harrison (1999), o Burnout é o resultado do estresse crônico que é típico do
ambiente de trabalho, principalmente quando neste estão presentes situações de
excessiva pressão, conflitos, poucas recompensas emocionais e pouco reconhecimento.
Além disso, inúmeras pesquisas têm apontado que os profissionais que trabalham
diretamente com outras pessoas, assistindo-as, ou como responsáveis pelo seu
desenvolvimento e bem-estar, encontram-se mais susceptíveis ao desenvolvimento do
Burnout. Dentre estes profissionais destacam-se os profissionais da saúde e os
educadores (Benevides-Pereira et al, 2003; Arantes & Vieira, 2002; Yaegashi, 2009).
Segundo Malasch, Schaufeli e Leiter (2001), o Burnout é considerado um fenômeno
psicossocial constituído por três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e
sentimento de baixa realização professoal.
A Exaustão Emocional (EE), diz respeito à
sensação de não se dispor de nem mais um resquício de energia,
seja mental ou física, para levar adiante as atividades laborais.
Esta dimensão traz consigo uma série de sintomas
psicossomáticos que acarretam absenteísmo e afastamento por
problemas de saúde. É a dimensão central da síndrome e
diretamente relacionada ao estresse. (Benevides-Pereira, 2009,
p. 3927).
A Despersonalização (DE), também denominada de Cinismo (CI) na versão para
trabalhadores de qualquer categoria profissional (Maslach, Jackson & Leiter, 1996), se
3
refere às atitudes ironia e cisnismo com que os profissionais em burnout passam a tratar
as pessoas em seu trabalho. É a dimensão defensiva da síndrome.
A Realização Pessoal (RP) ou Ineficácia (na versão de 1996), faz menção ao fato de que
o idealismo, tenacidade e motivação do início no trabalho, dão
lugar ao sentimento de frustração, insatisfação pessoal e autoavaliação negativa na atividade laboral. (Benevides-Pereira,
2009, p. 3927).
Benevides-Pereira (2002) ressalta que a Síndrome de Burnout tem sido considerada um
problema social de extrema relevância, pois se encontra vinculada a grandes custos
organizacionais,
devido
à
rotatividade
pessoal,
absenteísmo,
problemas
de
produtividade e qualidade e também por encontrar-se associada a vários tipos de
disfunções pessoais. Segundo essa autora, na literatura pode-se encontrar uma lista
bastante extensa de diversos sintomas associados ao Burnout, sendo os mesmos
subdivididos em físicos, psíquicos, comportamentais e defensivos.
Dentre os sintomas físicos, Benevides-Pereira (2002) destaca: fadiga constante
progressiva, distúrbios do sono, dores musculares ou osteomusculares, cefaléias,
enxaquecas,
perturbações
gastrointestinais,
imunodeficiência,
transtornos
cardiovasculares, distúrbios do sistema respiratório, disfunções sexuais, alterações
menstruais nas mulheres. Quanto aos sintomas psíquicos, a autora cita: falta de atenção
e de concentração, alterações de memória, lentificação do pensamento, sentimento de
alienação, sentimento de solidão, impaciência, sentimento de insuficiência, baixa autoestima, labilidade emocional, dificuldade de auto-aceitação, astenia, desânimo, disforia,
depressão, desconfiança, paranóia. No que se refere aos sintomas comportamentais, a
autora aponta: negligência ou excesso de escrúpulos, irritabilidade, incremento da
agressividade, incapacidade para relaxar, dificuldade na aceitação de mudanças, perda
de iniciativa, aumento do consumo de substâncias (álcool, calmantes, etc.),
comportamento de alto risco, suicídio. Por fim, no que diz respeito aos sintomas
defensivos, a autora destaca: tendência ao isolamento, sentimento de onipotência, perda
do interesse pelo trabalho (ou pelo lazer), absenteísmo, ironia, cinismo.
4
Uma pessoa com a Síndrome de Burnout não necessariamente apresenta todos estes
sintomas. Segundo Benevides-Pereira (2002), o grau, o tipo e o número de
manifestações apresentadas dependerá da configuração de fatores individuais (como
predisposição genética, experiências socioeducacionais), fatores ambientais (locais de
trabalho ou cidades com maior incidência de poluição, por exemplo) e da etapa em que
a pessoa se encontra no processo de desenvolvimento da Síndrome. A intensidade, a
freqüência, bem como a concomitância de agentes estressores também influenciam,
podendo acelerar e/ou agravar os transtornos.
No que se refere ao trabalho docente, inúmeros estudos têm demonstrado que os índices
de rotatividade de pessoal, absenteísmo e licenças médicas entre docentes de diferentes
níveis de ensino têm aumentado significativamente nas últimas décadas (Gasparini,
Barreto & Assunção, 2005; Yaegashi & Benevides-Pereira, 2010), o que justifica a
necessidade de investigarmos quais as variáveis que afetam a saúde física e mental
destes profissionais. Neste sentido, o objetivo o presente estudo é investigar os níveis de
estresse e burnout em 499 professores do ensino público fundamental de 25 cidades
paranaenses.
Método
Amostra: A amostra era composta de 499 professores do ensino fundamental
proveniente de 25 municípios do Estado do Paraná. A maioria dos participantes (91,4%;
N=102) era do sexo feminino, com idade média de 36 anos (DP=9,05). O participante
mais novo tinha 17 anos e o mais velho 63.
Instrumentos: foi utilizado um protocolo contendo:
a) Questionário sóciodemográfico e profissional para caracterização da amostra
com dados sobre idade, sexo, assim como contexto familiar e laboral;
b) ISE – Inventário de Sintomatologia de Estresse de Benevides-Pereira e MorenoJiménez (2000). Este inventário é composto por 27 itens, referentes a sintomas
freqüentemente descritos na literatura como pertinentes ao estresse, para ser
respondido por uma escala do tipo Likert de 5 pontos, indo de 0 como “nunca” a
4 como “assiduamente”. A pesquisa de validação foi realizada com uma amostra
5
de 1141 de brasileiros de diversas profissões, sendo 41,9% do sexo masculino e
51,1% do feminino, com idade média de 36,78 (DP=10,34) variando de 18 a 75
anos. A análise fatorial revelou uma porcentagem de variância total de 40,487%,
sendo que os níveis de saturação variaram de 0,754 a 0,390 para a primeira
escala, SP – Sintomatologia Psicológica e de 0,725 a 0,456 para SF –
Sintomatologia Física. Os alfas de Crombach foram respectivamente 0,924 e
0,770 revelando boa consistência interna.
c) MBI - Maslach Burnout Inventory (Maslach & Jackson, 1986) em sua versão ES
Educational Survey, traduzida e adaptada pelo GEPEB, Grupo de Estudos sobre
Estresse e Burnout (Benevides-Pereira, 2002). Trata-se de um inventário
composto por 22 afirmativas, sendo 9 para a dimensão de exaustão emocional
(EE), 5 para desumanização (DE) e 8 para realização pessoal (RP), para serem
respondidas em uma escala do tipo Likert de 7 pontos, que varia de 0 “nunca” a
6 “todos os dias”. Em amostra nacional (Benevides-Pereira, 2002), os alfas de
Crombach de cada uma das dimensões foram de 0,84 para EE, 0,57 para DE e
de 0,76 para RP. Nesta amostra, EE e DE obtiveram exatamente os mesmos
valores, enquanto que RP foi de 0,79, evidenciando nível de confiabilidade
aceitável.
d) Termo de Esclarecimento e Compromisso, conforme o disposto pela Resolução
nº169/1996.
Procedimento: Inicialmente o projeto foi enviado ao Comitê de Ética da Universidade
Estadual de Maringá. Após sua aprovação os professores foram contatados e
esclarecidos quanto aos objetivos da pesquisa e informados de que os dados coletados
seriam avaliados em grupo, o que não permitiria identificação, garantindo o anonimato
e a confidencialidade. Foi exposto o caráter voluntário da participação e que poderiam
vir a solicitar o desligamento em qualquer ocasião do transcurso da mesma. Os
professores foram contatados e responderam aos instrumentos entre os meses de maio a
julho de 2008.
Análise Estatística: para as análises descritivas, de comparação de médias (t de Student
e ANOVA) assim como para o qui-quadrado, foi usado o programa estatístico SPSS –
Statistical Package of Social Sciences em sua versão 13.
6
Resultados e Discussão
Os resultados referentes ao Inventário de Sintomatologia de Estresse - ISE, média,
desvio-padrão, valor mínimo e máximo para cada um dos fatores, apresentados pelo
grupo, podem ser observados na Tabela 1.
Tabela 1 - Médias, desvios padrão, valores mínimo e máximo dos fatores do ISE
Dimensões
Média
DP
Mínimo
Máximo
29,04
SP
13,00
0,00
67,00
9,35
SF
4,91
0,00
31,00
38,38
ISE
16,59
0,00
93,00
SP= sintomatologia psicológica; SF= sintomatologia física; ISE= Sintomatologia de
Estresse.
Observa-se
que
os
docentes
deste
grupo
revelaram
sintomas
de
estresse
predominantemente de ordem psicológica acima da média (SP, M=29,04), bem como os
físicos (SF, M=9,35), refletindo sintomatologia geral de estresse elevada (ISE,
M=38,38).
Considerando que o número de itens de SP é muito maior do que o de SF, para que
houvesse a possibilidade de comparação entre os fatores, as médias obtidas foram
divididas pelo número de itens de cada fator para obter as médias ponderadas. Nota-se
que o resultado de SP preponderou sobre o de SF (Figura 1), ou seja, a sintomatologia
psicológica predominou significativamente sobre a física no grupo estudado (t= 4,55;
p= 0,000).
1,5
SP
1,452
SF
1,45
1,3353
1,4
1,35
1,3
1,25
Média
SP= sintomatologia psicológica; SF= sintomatologia física.
Figura 1 - Médias ponderadas dos fatores do ISE
7
Para determinar se ocorreram diferenças na distribuição dos valores entre a faixa média,
acima e abaixo da média, foram calculados os qui-quadrados, cujos resultados são
mostrados na Tabela 2.
Tabela 2 – Valores elevados, moderados e reduzidos em relação à média dos
fatores do ISE
Elevados
Moderados
Reduzidos
χ2
P
Fatores
N
%
N
%
N
%
261
52,3
165
33,1
73
14,6
1,063
0,000
SP
271
54,3
171
34,3
57
11,4
1,379
0,000
SF
SP= sintomatologia psicológica; SF= sintomatologia física.
Neste caso, quando a amostra foi separada pelo número de casos em cada faixa, as
pessoas com sintomas físicos foram em número superior às que apresentavam sintomas
psicológicos (Figura 2). Nota-se também que mais da metade dos participantes
(SP=52,3%; SF=54,3%) mostraram pontuação acima da média, quando comparados ao
estudo nacional, apresentando diferenças significativas entre as categorias de valores:
elevados, moderados e reduzidos (SP, χ2 =1,063: p= 0,000; SF, χ2 =1,379: p= 0,000).
8
elevado
moderado
reduzido
elevado
moderado
reduzido
14,60%
33,10%
11,40%
52,30%
34,30%
54,30%
Sintomatologia Psicológica
Sintomatologia Física
Figura 2 - Valores elevados, moderados e reduzidos em relação à média dos fatores
do ISE
Os fatores SP e SF do ISE mostraram ser fortemente correlacionados (r=0,643;
p=0,000). Desta forma, percebe-se que 203 participantes (Tabela de Contingência,
N=201: 77,8%) que apresentaram valores acima da média em sintomas psicológicos,
também apresentaram altos escores em sintomas físicos.
Dentre os colaboradores, 30,1% (N=150) afirmaram que frequentemente tinham uma
sensação de cansaço mental, bem como pouco tempo para si mesmos (31,7%; N=158);
sete professores (1,9%) afirmaram que o aumento de consumo de bebidas, cigarro ou
substâncias ocorria assiduamente, sendo que 17 indicaram ser frequente (3,4%). No
entanto, 73,9% (N=369) informaram que isto nunca sucedia. Este é um dado
reiteradamente observado em pessoas sob os efeitos do estresse, mas pouco assumido
por estas.
A elevação da pressão arterial foi constatada como freqüente ou de forma assídua em 34
docentes (6,81%), sendo que 62,9% (N=314) asseveraram que isto nunca ocorreu.
Quanto aos resultados relativos ao Maslach Burnout Inventory - MBI, 44,8% dos
participantes (N=47) afirmaram que podiam entender com facilidade o que sentem seus
alunos todos os dias, enquanto que 14,3% (N=15) se davam conta que trabalhar todos os
dias com pessoas lhes exigia um grande esforço, mas 44,8% (N=47) consideravam que
conseguiam lidar de forma eficaz com os problemas dos alunos e 35,2 (N=37)
acreditavam influenciar positivamente a vida de outros através do seu trabalho. No
9
entanto, 21,9% (N=23) dos respondentes relataram sentir diariamente que seus alunos
os culpavam por alguns de seus problemas. Os padrões considerados para a análise
foram os encontrados por Benevides-Pereira (2002).
Em relação às médias neste instrumento, estas se encontravam dentro do esperado,
quando comparadas com os padrões nacionais como pode ser observado na Tabela 3.
Tabela 3 - Médias, desvios padrão, valores mínimos e máximos
das dimensões do MBI
Dimensão
Média
DP
Mínimo
Máximo
24,74
11,49
0
EE
54,00
5,66
5,38
0
DE
26,00
34,99
8,13
15
RP
48,00
EE=exaustão emocional; DE=desumanização; RP=realização pessoal
Conforme dispõe a concepção teórica (Maslach & Jackson, 1986) as dimensões
mostraram correlações significativas entre si, sendo que entre EE e DE foi positiva
(r=0,451; p=0,000) e estas com RP (r=-0,323; p=0,000; r= -0,340; p= 0,000) foram
negativas (Tabela 4).
Tabela 4 – Correlação de Pearson (r) entre as dimensões do MBI (N=499)
Dimensão
EE
DE
DE
0,451**
RP
-0,323** -0,340**
EE=exaustão emocional; DE=desumanização; RP=realização pessoal
** significativa a 0,01 (bi-caudal).
Para que houvesse uma melhor comparação dos dados, os valores de cada dimensão
foram divididos pelo número de itens. No caso da dimensão de realização pessoal, para
que a comparação fosse realizada segundo o que se leva em consideração na atribuição
da síndrome, foi aferida a reduzida realização pessoal no trabalho invertendo-se os
valores atribuídos pelos respondentes. O resultado segue expresso na Figura 3.
10
2,75
EE
3
1,62
2,5
2
DE
rRP
1,13
1,5
1
0,5
0
EE=exaustão emocional; DE=desumanização; rRP=reduzida realização pessoal.
Figura 3 - Médias ponderadas das dimensões do MBI
Como pode ser notado, o fator que mais se salientou entre os demais foi exaustão
emocional (M=2,75), seguido pela reduzida realização pessoal nas atividades docentes
(M=1,62). Desumanização foi o fator menos proeminente entre os três (M=1,13).
Considerando os padrões estabelecidos como descrito anteriormente, os resultados de
cada dimensão foram distribuídos pelas categorias elevado, moderado e reduzido. A
tabela 5 apresenta os resultados auferidos.
Tabela 5 - Distribuição das pontuações nas categorias elevado, moderado
e reduzido
Elevado
Moderado
Reduzido
Dimensão
χ2
P
N
%
N
%
N
%
218
43,8
168
33,3
113
22,9
33,166 0,000
EE
134
23,8
178
36,2
187
40,0
9,671 0,000
DE
191
31,4
217
45,7
91
22,9
53,210 0,000
rRP
EE=exaustão emocional; DE=desumanização; rRP=reduzida realização pessoal
Desta forma, apesar das médias do grupo se situarem dentro do esperado, ao se
examinar os resultados individuais, 43,8% dos participantes (N=218) denotaram valores
na categoria elevada, isto é revelaram exaustão emocional acima da média, sendo que
tal resultado é significativo, quando comparado às duas outras categorias (EE, χ2=33,16:
p=0,000). Os valores médios predominaram nas demais dimensões (DE, χ2=9,671;
p=0,000; RP, χ2=53,210; p=0,000), mas chama a atenção verificar que 23,8% dos
docentes (N=134) revelavam atitudes de desumanização em seu trabalho, bem como
11
31,4% (N=191) evidenciavam o sentimento de baixa realização em suas atividades
laborais.
Segundo Maslach e Jackson (1986), para que uma pessoa seja considerada em burnout
ela deve apresentar valores acima da média em EE e DE, bem como abaixo da média
em RP. Desta forma, preencheram este critério 62 participantes da amostra, indicando
12,42% já em fase de burnout.
Entre os participantes da pesquisa, 20,4% (N=102) afirmaram sentir cansaço todos os
dias ao final de um dia de trabalho, sendo que 29,1% (N=145) revelaram que tal fato
ocorria uma vez por semana. Boa parte da amostra asseverou que podia entender com
facilidade o que seus alunos sentiam (Uma vez por semana, N=170, 34,1%; Todos os
dias, N=200, 40,1%).
A grande maioria 66,7% (N=333) afirmou que nunca tratava alunos como se fossem
objetos impessoais. Tal item se defronta com a desejabilidade social e tem sido
apontado como difícil de ser admitido em algumas culturas (Schaufeli & Enzmann,
1998).
Quanto ao item Trabalhar com pessoas o dia todo me exige um grande esforço, 26,7%
(N=133) docentes afiançaram que isto nunca ocorria, enquanto que 30,2% (N=151),
declararam que tal se dava uma vez por semana ou todos os dias. A maioria dos
docentes afirmou que lida com os problemas dos alunos de modo eficaz na maioria das
vezes (Todos os dias, N=169, 33,9%; Uma vez por semana, N=169, 33,9%). Ao menos
uma vez por semana 107 dos respondentes (21,4%) relataram sentir exaustão.
Grande parte dos respondentes discordou dos itens “Não me preocupo realmente com o
que ocorre com alguns alunos” e “Sinto que os alunos culpam-me por alguns de seus
problemas”, alegando que tais sentimentos nunca ocorreram, sendo 312 professores
(62,5%) no primeiro caso e 310 (62,1%) no segundo.
12
Considerações Finais
O presente estudo teve como objetivo investigar os níveis de estresse e burnout em
professores do ensino fundamental que compõem o quadro docente da rede estadual de
ensino de diversas cidades paranaenses.
Os resultados encontrados no ISE (Inventário de Sintomatologia de Estresse) revelaram
que os professores que participaram da pesquisa apresentaram uma sintomatologia geral
de estresse elevada, o que coincide com os estudos realizados por outros pesquisadores
(Codo & Vazques-Menezes, 1999; Benevides-Pereira et al., 2003; Lipp, 2006). Além
disso, verificou-se que a sintomatologia psicológica se mostrou um preditor
significativo para exaustão emocional.
No que se refere ao burnout, por meio dos resultados encontrados no MBI (Maslach
Burnout Inventory), verificou-se que a exaustão emocional foi o fator que mais se
salientou entre os demais (reduzida realização profissional e despersonalização). Tais
dados também foram encontrados em outros estudos realizados no Brasil (Gomes &
Brito, 2006; Reis et al., 2006). Vale ressaltar, que 12,24% (N=62) dos participantes da
amostra já apresentavam um quadro de burnout, segundo os critérios de Malasch e
Jackson (1986), ou seja, apresentaram valores acima da média para exaustão emocional
e desumanização, bem como abaixo da média em realização profissional.
De acordo com Lipp (2006), a profissão e o trabalho irão determinar grande parte de
nossas vidas. Portanto, o trabalho satisfatório determina prazer, alegria e saúde.
Contudo, quando o trabalho é desprovido de significação, não é reconhecido ou é fonte
de ameaças à integridade física e/ou psíquica, acaba gerando sofrimento no trabalhador.
No caso específico do professor, vários autores apontam uma série de eventos que
podem ser causadores do estresse, tais como: falta de reconhecimento, falta de respeito
dos alunos, dos governantes e sociedade em geral, falta de remuneração adequada,
sobrecarga de trabalho, conflito de papéis, baixa participação direta na gestão e
planejamento do trabalho, exigência de muito envolvimento com o aluno, inclusão de
crianças com necessidades educacionais especiais em classes de ensino regular, dentre
outros (Barasuol, 2005; Yaegashi, Benevides-Pereira & Alves, 2009; Gomes,
13
Montenegro, Peixoto & Peixoto, 2010). Tudo isso pode levar o professor à insatisfação,
desestímulo e à falta de perspectiva de crescimento, chegando inclusive a desenvolver a
Síndrome de Burnout. Neste sentido, é de suma importância que seja propiciada uma
melhor qualidade laboral para estes docentes, uma vez que o estresse e o burnout
interferem de forma significativa na relação professor-aluno e, conseqüentemente, no
processo de aprendizagem.
Referências Bibliográficas
Arantes, M. A. A. C. & Vieira, M. J. F. (2002). Estresse. São Paulo: Casa do
Psicólogo.
Barasuol, V. (2005). Burnout e docência – sofrimento na inclusão. Três de Maio:
SETREM.
Benevides-Pereira, A.M.T. & Moreno-Jiménez, B. (2000). O burnout em psicólogos de
Madri. Relatório de projeto de pesquisa. Universidade Estadual de Maringá.
Benevides-Pereira, A.M.T. (2002). O processo de adoecer pelo trabalho. In:
Benevides-Pereira, A.M.T. (org.). Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do
trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Benevides-Pereira, A.M.T., Justo, T, Gomes, F.B. Silva, S.G.M. & Volpato, D.C.
(2003). Sintomas de estresse em educadores brasileiros. Aletheia, 17/18, 63-72.
Benevides-Pereira, A.M.T. (2009). O CBP-R em português: instrumento para a
avaliação do burnout em professores. Anais do IX EDUCERE. Curitiba.
Disponível
p.3927.
em
http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/2948_1657.pdf. Acessado
em 05 de maio de 2011.
Canova, C.R & Porto, J.B. (2010). O impacto dos valores organizacionais no estresse
ocupacional: um estudo com professores do ensino médio. Revista de Administração
Mackenzie, 1(5), 4-31.
14
Codo, W. & Vazques-Menezes, I. O que é burnout? In: CODO, Wanderley (Coord.).
Educação, carinho e trabalho. Petrópolis, RJ: Vozes; Brasília, DF: CNTE; UnB, 1999.
p. 237-54.
Gasparini, S.M., Barreto, S. M., & Assunção, A.A. (2005). O professor, as condições de
trabalho e os efeitos sobre sua saúde. Educação e Pesquisa, 31 (2), 189-199.
Gomes, L. & Brito, J. (2006). Desafios e possibilidades ao trabalho docente e a sua
relação com a saúde. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v. 6, n 1, p.24-46.
Gomes, A.R., Montenegro, N., Peixoto, A. M. B. & Peixoto, A. R. B. (2010). Stress
ocupacional no ensino: um estudo com professores dos 3º ciclo e ensino secundário.
Psicologia & Sociedade, 22 (3), 587-597.
Harrison, B. J. (1999). Are you to burn out? Fund Raising Management, 30 (3), 25-28.
Lazarus, R.S. & Folkman, S. (1984). Stress, appraisal and coping. Nova York:
Springer.
Lipp, M.N. (2006). O stress do professor. Campinas: Papirus.
Maslach, C. & Jackson, S. E. (1986). Maslach Burnout Inventory. 2nd ed. Palo Alto,
CA: Consulting Psychologist Press.
Maslach, C., Jackson, S. E. & Leiter, M. P. (1996). Maslach Burnout Inventory Manual.
Palo Alto, C.A: Consulting Psychologist Press.
Maslach, C.; Schaufeli, W.B. & Leiter, M. P. (2001). Job burnout. Annual Review of
Psychology. v.52, p.397-422.
Reis, Eduardo J. F. B, Araújo, T. M., Carvalho, F. M., Barbalho, L. & Silva, M. O.
(2006). Docência e exaustão emocional. Educação & Sociedade, v. 27, n. 94, p.229253.
Schaufeli, W.B & Enzmann, D. (1998). The burnout companion to study & practice. A
critical analysis. London: Taylor & Francis.
Yaegashi, S. F. R. (2008). Estresse e síndrome de Burnout: uma reflexão sobre os
desafios do trabalho docente. In: Rodrigues, E.; Rosin, S. M. (Org.). Pesquisa em
15
Educação: a diversidade do campo. 22 ed. Curitiba: Instituto Memória / Juruá Editora,
p. 179-192.
Yaegashi, S. F. R. (2009). Profissão Docente e Qualidade de Vida: o estresse e a
síndrome de burnout no contexto escolar. In: Rodrigues, E.; Rosin, S. M.. (Org.).
Pedagogia 35 anos: história e Memória. 1 ed. Curitiba: Instituto Memória, p. 245-263.
Yaegashi, S. F. R., Benevides-Pereira, A. M. T. & Alves, I. C. B. (2009). A Síndrome
de Burnout e a Docência no Ensino Fundamental. In: Marquezine, M. C.; Manzini, E.
J.; Busto, R.M.; Tanaka, E. D.O; Fijisawa, D. S. (Org.). Políticas Públicas e Formação
de Recursos Humanos em Educação Especial. 1ª ed. Londrina: ABPEE, p. 223-232.
Yaegashi, S. F. R. & Benevides-Pereira, A. M. T. (2010). Profissão docente, estresse e
burnout: a necessidade de um ambiente de trabalho humanizador. In: Chaves,M;
Setoguti, R. I; M. Moraes, S.P.G.. (Org.). A formação de professores e intervenções
pedagógicas humanizadoras. 1 ed. Curitiba - PR: Instituto Memória, p. 185-202.
Download

Clique aqui para do arquivo