EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE: UMA ANÁLISE DOS LIVROS
LITERÁRIOS PARA ABORDAR AS DIFERENÇAS E DIVERSIDADES NO
CONTEXTO ESCOLAR.
Gislene de Oliveira Martins; Isabella Alves Costa.
Universidade Federal de Juiz de Fora
Este trabalho surgiu com a justificativa e proposta de fazer uma análise de três livros de
literatura infantis selecionados a partir dos seus objetivos de trabalhar a questão da diversidade e da
inclusão e juntamente será analisado como em cada livro abordam os seguintes discursos: negação,
comunhão e marcação. A presente pesquisa se baseia nos argumentos de que uma boa escolha e o
uso do livro literário fazem a diferença no trabalho do professor ao problematizar desde cedo a
diversidade e as diferenças nas escolas. O educador pode usá-lo não só com o objetivo da inserção
da criança no mundo letrado, mas também abordar os temas da diversidade e das diferenças. Para
isso Marques e Ferreira (2011) observam que a problematização das diferenças pelo professor deve
ser um elemento fundamental, uma vez que somos todas e todas diferentes e neste processo de
reflexão, e o educador pode trazer a construção e a possibilidade no diálogo com seus alunos deles
se abrirem para buscarem um “enfrentamento” diante de situações de preconceito. Cabe ressaltar
que recentemente, o professor conta com inúmeros livros para abordar a diversidade e diferenças,
devido ao fato que a partir da década de 90 houve uma preocupação da inclusão de temas ligados às
diferenças, seja ela: étnicas, etárias, raciais, de deficiência, de orientação sexual, de gênero ganhou
destaque no panorama social. E um meio aliado nesta temática foram os livros literários, ou seja, a
literatura tornou-se um campo apropriado e fértil na abordagem das diferenças com as crianças. As
autoras (Silveira, Bonin e Ripoll 2010, p.99) destacam que os livros literários produzidos a partir da
questão da inclusão foram baseados à partir das orientações educacionais, os Parâmetros
Curriculares Nacionais (1998). Alguns livros produzidos enfatizam valores como: aceitação à
pluralidade cultural, respeito à sexualidade, defesa pelo equilíbrio do ecossistema. Estas autoras
alertam que estes avanços na discussão se deram pelos motivos de que tanto no Brasil quanto no
panorama o ocidental houve uma enorme visibilidade da temática da diversidade e diferença, na
qual ganhou uma nova roupagem relacionada aos discursos multiculturais e pós-estruturalistas,
alimentado também pelos grupos de movimentos sociais e das minorias e do avanço da ciência que
permitiram questionar o conceito de um ideal (BONIN, RIPOLL, SILVEIRA, 2010, p. 99).
Sabemos que um dos maiores desafios das escolas em todo o mundo é da inclusão educacional. Ao
defender a inclusão nas escolas, estabelece- se aqui que não é uma inclusão só a partir de estudantes
com deficiência, mas que se refere ao respeito à diversidade, como de combate ativo à exclusão. A
inclusão abrange todas as crianças e jovens nas escolas e está focada na presença, a participação e
na realização, de maneira que a inclusão envolve o combate ativo à exclusão ( Ainscow, 2009, p.
20). Marques (2009) entende a inclusão como um princípio alicerçado ao tema da diversidade, esta
que é uma característica maior da existência humana, pois ser negro ou branco, mulher ou homem,
e ser deficiente ou não – deficiente são apenas condições existentes de ser humano. Neste trabalho
defendemos uma educação inclusiva não só com estudantes com deficiência, mas uma inclusão com
respeito à diversidade a todas as pessoas. Assim, cabe a escola levar este debate, com a finalidade
dos alunos compreendam desde a infância que as diferenças são formas concretas de existência e
que ao tentar afirmar um determinado conceito como norma qual deve ser seguido, estamos
hierarquizando as outras identidades. Para fazer a análise dos livros, tomamos como referência os
discursos de negação, marcação e comunhão, pois como bem define Marques( 2012), estes
caracterizam as atitudes humanas diante das diferenças e como se da estas relações com as
diferenças. Para a metodologia analisamos três livros de literatura infantil para abordar e levantar se
estes livros trabalham estes discurso. Utilizamos como referencial teórico na análise a autora
Marques (2012) e seu texto: “Cotidiano Escolar e diferenças” . Os livros literários escolhidos foram
“A arca de ninguém” de Mariana Caltabiano , “O Grande e maravilhoso livro das famílias de Mary
Hoffman e “Na minha escola todo mundo é igual” de Rossana Ramos. Como resultado tanto da
pesquisa de levantamento bibliográficos e juntamente com as análises dos respectivos livros,
observamos que há uma preocupação em ambos os livros com relação ao combate à exclusão.
Porém o tema das “diferenças”, mesmo que em alguns autores enfatizam a inclusão desta na
sociedade, vemos que eles abordam a “diferença” não como uma característica da condição
humana, mas sim como uma condição que necessita de olhares e atendimento especializado
somente. Em especial, a pessoa com deficiência é colocada numa condição de inferioridade e
incapacidade. De acordo com Marques (2012) o conceito da negação busca considerar o fato de não
se trabalhar explicitamente a questão das diferenças presentes no contexto escolar e ao longo do
livro “ Na minha escola todo mundo é igual” encontramos passagens da negação, a começar pelo
próprio título e as seguintes frases: “Lá na minha escola / Ninguém é diferente” (RAMOS, 2008,
p.4); “ Tem uns que não podem andar / E usam cadeira de rodas / jogam vôlei, fazem balé / E só
querem andar na moda” (RAMOS,2008 p.8); “Tem um com síndrome de down/ Que é o mais
prestativo da escola/ Quando alguém tem um problema/ É o que mais colabora.”( RAMOS, 2008,
p.9). Ao analisarmos esta parte percebemos que a autora ressalta que todos os alunos são iguais, ou
seja, nega as diferenças que são características que todos os indivíduos têm. Ao contrário, traz ao
longo da leitura a ideia que a diferença é uma anormalidade e que a normalidade como um
parâmetro, nas frases como “tem gente que não tem braço, mas joga vôlei; tem outro que não
escuta, mas dança; têm outros que não podem falar, mas fazem gestos e se comunicam; outros são
autistas, mas na hora do lanche estão juntos para dividir com um amigo”. Ramos( 2008). Neste
trecho há também a marcação da diferença, pois mesmo que a autora negue a diferença, ela acaba
marcando, porém a partir de dicotomias do tipo anormal, superior versus inferior, capaz versus
incapaz e assim por diante e que para ser igual ele precisa de uma superação, como na frase “tem
outro que não escuta, mas dança”. Marques ( 2012) define a marcação com a identificação do outro
como diferente e, consequentemente, necessitado de olhares e atendimentos especializados, que
nada mais são do que o discurso dos iguais (normais) significando o outro como o diferente”.
(MARQUES, 2012, p.105). O outro conceito definido por Marques (2012) é a comunhão com as
diferenças, na qual tem como fundamento de que a afirmação da vida se amplia e se enriquece na
multiplicidade com o outro e não do diferente como oposto do normal. Ao refletimos algumas
passagens do livro “A arca de ninguém”, apresenta ao longo deste um conceito da comunhão. A
história trata sobre como o personagem Noé teve problemas para convencer os bichos da floresta a
entrarem na arca, pois eles não queriam se misturar. Em nenhuma passagem a autora marca as
diferenças contrapondo anormal versus normal ou ignora as diferenças. O livro já traz a ideia da
compreensão das diferenças como formas concretas da existência, ou seja, como formas possíveis e
dignas de se estar no mundo. Este aspecto é visto na passagem “os animais não percebiam que o
mundo ia acabar e eles continuavam discutindo. “Então, Noé pediu a eles que parassem de agir
como humanos e esquecessem suas diferenças pelo menos naquele dia”. (CALTABIANO, 2003,
p.17). Há também outro trecho, em que os animais não tinham outra solução a não ser estar no
mesmo lugar e tempo convivendo com as suas diferenças. Como é visto na passagem do texto: “lá
dentro, eles viram que conviver não era nenhum bicho-sete-cabeças. Afinal, apesar das diferenças,
estavam todos no mesmo barco. “E ali ninguém era melhor do que ninguém.” (CALTABIANO,
2003, p.22). Então, todos tinham o mesmo valor existencial, eram bichos e deveriam parar de agir
como humanos e esquecerem suas diferenças, e deveriam compartilhar dos mesmos espaços e
tempos, sem qualquer discriminação. Assim, podemos considerar que é mais do que falar das
diferenças, mas é conviver e se falar das/nas diferenças, não falando das diferenças como algo
externo a nós. A partir da leitura do livro “O Grande e maravilhoso livro das famílias” de Mary
Hoffman e Ros Asquith. Podemos refletir sobre a questão da inclusão familiar e sobre a diversa
composição atual de famílias. Dialogando com MARQUES (2012), percebemos neste livro a
existência de pontos que determinam a comunhão, como por exemplo: Muitas crianças vivem com
a mãe e o pai. Mas muitas outras vivem apenas com o pai ou só com a mãe. Algumas crianças têm
duas mães ou dois pais. “E algumas são adotivas ou afilhadas” (HOFFMAN, ASQUITH p. 3 e 4).
Partindo desses fragmentos, refletimos sobre a abordagem central do livro, que é relatar o cotidiano
com elementos concretos das realidades das famílias, não só no olhar de famílias hetero ou homo,
mais também famílias grandes ou pequenas, biológicas ou adotivas e assim todas as maneiras
possíveis do que é se considerado família. Ao analisar o enredo e a sintonia das ilustrações ao longo
do livro, percebemos que além das questões familiares (convívio), o livro tem uma forma humorada
e nos mostra a realidade social, onde em muitos casos a esposa sai para trabalhar e o marido assume
os compromissos do lar. Com uma maneira inclusiva e solidária Hoffman e Ros Asquith, termina
sua história enfatizando: “então famílias podem ser grandes, pequenas, felizes, tristes, ricas, pobres,
espalhafatosas, silenciosas, bravas, bem-humoradas, preocupadas ou desencanadas. A maioria das
pessoas é tudo isso em algum momento. De que jeito está a sua hoje?” Com isso, percebemos que
independente de classe, gênero ou religião todos são diferentes, e que devemos saber lidar com
estas diferenças de uma forma humana e social. Assim, este livro serve como suporte para o
professor abordar os vários tipos de famílias, pois na sociedade contemporânea há uma diversidade
do conceito de formação de família. E a escola é um exemplo vivo destas novas configurações, na
qual há alunos que filhos são filhos de pais separados, ou somente têm o pai ou a mãe ou ainda
filhos de casais homo-afetivos, entre outros. Portanto, a escola não pode desconsiderar esta nova
realidade apresentada. A partir das três análises consideramos que o trabalho com os livros de
literatura infantil constituem um excelente apoio para o educador usar em sua aula a respeito o tema
das diferenças e inclusão. Quando o professor tem uma visão crítica e reflexiva de que as diferenças
são baseadas em um direito humano de existência, ele conseguirá atingir o objetivo de uma
educação inclusiva para propor uma sociedade sem referenciais determinados, sem um referencial
único, mas ter a disposição para lidar com a multiplicidade e a diversidade. Assim junto com a
prática reflexiva do educador, livros literários quando bem selecionados propõem um discurso que
vá além de uma igualdade, mas que o sujeito seja aceito e compreendido dentro de uma
multiplicidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AINSCOW, Mel. Tornar a educação inclusiva: como esta tarefa deve ser conceituada?
Brasília: UNESCO, 2009.
BONIN, Iara Tatiana. SILVEIRA. Rosa Maria Hessel. KIRCHOF. Edgar Roberto.
Apresentação literatura infantil e diferenças. Educ. Real. V. 38. Porto Alegre. Oct. Dec. 2013.
MARQUES, Luciana Pacheco. Diversidade, formação de professores e prática
pedagógica.
Revista
Educação
em
Foco.
Juiz
de
Fora:
Ed.UFJF,2009.Disponível
em:http://www.ufjf.br/revistaedufoco/files/2009/10/Diversidade-forma%C3%A7%C3%A3o-de-professorese-pr%C3%A1tica-pedag%C3%B3gica.pdf. Acesso em 28 de maio de 2015.
MARQUES, Luciana Pacheco. FERREIRA, Adriana Marques. Gestos e silenciamentos
no/do cotidiano escolar. Silêncios e educação. -Juiz de Fora: Ed.UFJF,2011.
MARQUES, Luciana Pacheco. Cotidiano Escolar e diferenças. Revista Educação. Juiz de Fora, v.
17, n1, mar/jun.2012. Acesso
Livros literários:
CALTABIANO. A arca de ninguém. São Paulo: Scipione, 2003.
HOFFMAN .Mary. ASQUITH. Ros. O Grande e Maravilhoso Livro das Famílias.São
Paulo: Edições SM,2010.
RAMOS, Rossana. Na minha escola todo mundo é igual. 6° ed. São Paulo: Cortez, 2008.
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