Relações para a Inovação no Cluster Têxtil de Blumenau:
a Interação das Empresas com os Sistemas Nacional e Regional de Inovação
Autoria: Micheline Gaia Hoffmann, Nelci Moreira de Barros, Ilisangela Mais, Mohamed Amal
RESUMO
O artigo explora a inovação como um fenômeno interativo, que exige das organizações
habilidades para o estabelecimento de mecanismos de relação não apenas com outras
empresas, mas com diferentes atores componentes dos sistemas nacionais e regionais de
inovação. O número de empresas do setor têxtil instaladas em Blumenau, SC, sua tradição, o
volume de empregos gerados e sua importância na economia regional, são fatores que
justificam a o reconhecimento deste como um importante cluster em nível nacional. A
pesquisa investiga a rede de relações mantidas pelas empresas deste cluster com vistas à
intensificação de sua capacidade de inovação. São identificados os atores com os quais elas
mantêm relações, explorando-se para cada um deles o tipo da relação mantida, bem como a
freqüência. Ao perfil de cooperação identificado são comparados os resultados em inovação
conseguidos. Os dados obtidos levam à conclusão de que há na região um entendimento
predominante da inovação como um desafio solitário que resulta na busca de soluções
próprias, baseadas num processo endógeno de gestão. Com isso, a interação no sistema e o
usufruto das possibilidades de cooperação ficam prejudicados, comprometendo a capacidade
inovativa do cluster, que fica limitada a uma perspectiva mais incremental.
1- Apresentação e objetivos
O ato de inovar está associado a um arcabouço de novos conhecimentos e de conhecimentos
previamente existentes reunidos e combinados com vistas ao desenvolvimento e à
implantação de novas tecnologias de processos produtivos e gerenciais e ao desenvolvimento,
lançamento, comercialização e apropriação de novas tecnologias de produtos no mercado, de
tal forma que possam agregar valor à economia. (SCHUMPETER, 1982; THEMA GUIDE,
1998).
Para a inovação acontecer, todo um espectro de conhecimentos que ultrapassam o escopo da
tecnologia faz-se necessário. Aspectos como o financiamento, a produção, a logística, e a
difusão mercadológica são não apenas pertinentes como essenciais para que se migre da
invenção à inovação. Assim, a inovação pode ser compreendida sob três perspectivas: como
um processo criativo, como um processo de consumo-demanda por produtos inovativos e
como um processo de difusão.
Todas estas questões tornam elevado o grau de complexidade que caracteriza o processo de
inovação. São muitas as variáveis envolvidas, que exigem uma interação sistemática entre
atores de diferentes naturezas, de tal forma que a inovação não pode ser desenvolvida dentro
de um contexto único e específico. Ela envolve também variáveis relacionadas à ciência, à
economia, à sociedade, ao governo, tornando-se necessária a interação entre atores com
vocações e competências complementares em relação aos diferentes desafios que
caracterizam o processo de inovação como um todo.
Neste contexto, surge o conceito de sistemas de inovação, que, segundo Freeman (1995),
derivam das interações e das redes de relacionamento que caracterizam a natureza da arte de
inovar. O entendimento do papel dos sistemas de inovação na capacidade inovativa das
1
empresas transcende a compreensão do conceito de inovação como um fenômeno linear e
endógeno. A partir esta perspectiva, autores como Schumpeter (1982), Christensen (2000) e
Kim (2004) abordam a relevância da interação e da cooperação como elementos do processo
de inovação nas empresas, assim como Lundval (1992) e Freeman (1995) destacam o papel
destes relacionamentos ao desenvolvimento regional, sobretudo aquele desenvolvimento
baseado na capacidade das organizações para produzir, utilizar e difundir conhecimentos sob
a forma de novos produtos, serviços e processos.
Ou seja, sob esta base conceitual, a capacidade de inovação das organizações é diretamente
relacionada a sua disposição e capacidade para se articular com parceiros externos. Tanto
maior será a capacidade de inovação quanto mais esta articulação envolver atores de naturezas
distintas e complementares, com os quais são mantidos processos sistemáticos de interação.
Nesta perspectiva, o objetivo desta pesquisa é caracterizar a rede de relações em prol da
inovação mantida pelas empresas do setor têxtil de Blumenau. Especificamente, a pesquisa
identifica com quais atores do sistema nacional e regional de inovação estas empresas mantêm
relações, a natureza e a freqüência destas relações. Aos perfis de relacionamento
identificados, a pesquisa confronta os resultados em inovação conseguidos pelas empresas
correspondentes, levando-se em conta, como fator interveniente, o porte das empresas.
2- Inovação – um fenômeno interativo
A inovação pode ser compreendida como um ciclo que apenas se consolida quando novos
conhecimentos são apropriados no setor produtivo e difundidos a ponto de gerarem ganhos
econômicos e sociais (SCHUMPETER, 1982). Portanto, embora a geração de novos
conhecimentos esteja associada à pesquisa científica, para que a inovação aconteça, este tipo
de esforço não é suficiente. Fazem-se também necessários processos de transferência de
tecnologia, comercialização e distribuição. Adicionalmente, é preciso reconhecer que embora
as empresas também possam desenvolver novas tecnologias por meio de pesquisas realizadas
internamente, freqüentemente o conhecimento científico poderá ser fundamental.
Mormente quando se deseja realizar inovações que ultrapassem a perspectiva incremental,
baseadas na melhoria e aperfeiçoamento de produtos e processos já existentes, pesquisas
desenvolvidas em diferentes ciências e áreas do conhecimento podem ser de contribuição
decisiva (KIM e MAUBORGNE, 2004;, CHRISTENSEN, 2000). Além disso, interações com
empresas atuantes em outros setores ou mesmo com concorrentes têm se mostrado úteis para
a realização da inovação, por meio de contratos de licença, joint venture, dentre outros
mecanismos (LANDAU, 1991). As inovações incrementais, guiadas pela força das demandas
já estabelecidas em mercados conhecidos, embora tenham sua importância reconhecida, vêm
cedendo espaço ao reconhecimento da importância crescente que inovações de ruptura
possuem num ambiente altamente competitivo e em constante transformação. A noção central
é de que a tecnologia pode progredir mais rápido que as demanda de mercado. Esta
abordagem é sustentada por pesquisas recentes de vários autores, dentre eles Kim e
Mauborgne (2004) e Christensen (2000), assim como encontra respaldo também em
abordagens clássicos de autores como Schumpeter (1982).
Assim, verifica-se uma variedade de atores de diferentes naturezas associados ao entorno da
inovação. Esta variedade justifica-se pelas diferentes fases que compõem o processo de
inovação como um todo, caracterizadas, cada uma delas, por diferentes necessidades. Estudos
sobre inovação realizados por diferentes instituições corroboram esta noção de que a
2
cooperação entre as empresas apresenta importância máxima no processo inovativo. Em
ONUDI (2002), por exemplo, são apontadas três estratégias principais por meio das quais as
empresas estabelecem tais relações de cooperação. A primeira delas é com empresas da
mesma cadeia de valor. Por meio desta estratégia, as empresas podem adquirir tecnologia
desenvolvida por seus provedores de maneira rápida, porém a custos elevados.
A segunda estratégia vislumbra custos e também riscos menores. As alianças e consórcios de
investimentos constituem alternativas plausíveis para amenizar o volume de recursos e a
intensidade de incerteza que caracterizam principalmente as fases básicas e pré-comerciais do
processo inovativo. No escopo desta estratégia, uma alternativa reconhecida para atender as
mesmas necessidades é a aglomeração geográfica. Alvo de várias discussões entre os
economistas, as vantagens da aglomeração geográfica tomaram novo impulso com a
identificação de suas vantagens para o compartilhamento de conhecimentos intrínsecos ao
processo de desenvolvimento de novas tecnologias, além da otimização de recursos,
economias de escala, dentre outros benefícios tradicionalmente reconhecidos. Contudo, estas
estratégias sugerem a viabilização de experiências de cooperação restritas a uma única cadeia
de valor. Por meio de alianças dessa natureza, avanços obtidos em diferentes setores ou áreas
do conhecimento podem passar despercebidos, ficando o processo de aprendizagem
comprometido e a potencialidade inovativa prejudicada. Esta é uma potencial restrição
inerente á potencialidade vista no conceito de clusters e arranjos produtivos locais para a
competitividade das empresas.
A terceira estratégia apontada em ONUDI (2002), contudo, ultrapassa esta limitação. O
relatório demonstra que as empresas estão investindo no estabelecimento de vínculos mais
estreitos com as ciências básicas, buscando os conhecimentos especializados das
universidades e centros de pesquisa. Na medida em que estas instituições têm caráter
multidisciplinar, esta estratégia constitui uma oportunidade para as empresas acessarem
conhecimento de diferentes ciências.
Aos atores externos relevantes ao processo de inovação cabe não deixar de lembrar dos atores
internos. A importância das atividades de P&D desenvolvidas pelas empresas e sua influência
sobre os resultados corporativos no quesito inovação tem seu reconhecimento tão explícito ao
ponto de os investimentos em P&D constituírem um dos principais indicadores adotados em
estudos sobre o comportamento inovador de empresas e mesmo de regiões e países.
Contudo, a ascensão de temas como aprendizagem organizacional (SENGE, 1990) e gestão
do conhecimento nas empresas (NONAKA, 1991; NONAKA e TAKEUCHI, 1997) têm em
comum o fato de despertarem para o ponto em que se deve reconhecer que, no processo
inovativo, há mais por ser considerado nas empresas que o departamento de pesquisa e
desenvolvimento. Freeman (1995) atribui importância crucial para a inovação e para o êxito
das empresas, à capacidade para acumulação e geração interna de conhecimento, por meio dos
processos formais e informais de formação de pessoal.
Seguindo esta linha, Freeman (1995) conclui que a inovação é um processo interativo em que
a empresa adquire conhecimentos a partir de sua própria experiência nas etapas de desenho,
desenvolvimento, produção e comercialização, e também num processo permanente de
aprendizagem em função de suas relações com diversas fontes externas, como fornecedores,
clientes, concorrentes, consultores, universidades e centros de pesquisa. Isso resulta num
processo complexo e interativo, que ultrapassa a compreensão da inovação sob uma premissa
mecanicista, baseada em modelos seqüenciais e lineares, da pesquisa à produção e desta para
3
o mercado (TÖDLING e KAUFMANN, 2002). A interatividade do modelo não linear referese não apenas às colaborações internas entre os diversos departamentos que compõem a
empresa, mas também à interação da empresa com diferentes atores de seu entorno.
3- Os Sistemas de Inovação como fomento e suporte à cooperação
O conceito de sistema de inovação está associado ao conjunto de instituições, organizações e
empresas que interagem em um determinado ambiente com vistas a promover a capacidade
inovativa das empresas. Na visão de Freeman (1995), mais que estarem associados, os
sistemas de inovação derivam das interações e das redes de relacionamento que caracterizam
a natureza da arte de inovar. Lundvall (1992) enfatiza que o processo interativo no qual as
empresas, instituições e organizações se envolvem para produzir, utilizar e difundir
conhecimentos sob a forma de novos produtos, serviços e processos, está na base do conceito.
Portanto, trata-se de termo que ultrapassa o paradigma da inovação como um fenômeno linear
e endógeno às empresas.
Até aqui, dois componentes ficam colocados em evidência como parte dos sistemas de
inovação: as organizações (nas quais estão incluídas as empresas) e as instituições. Silva
(2003) destaca o território como terceiro componente. De maneira gráfica, o modelo proposto
pode ser representado da seguinte forma:
Figura 1 – Componentes dos Sistemas de Inovação
Fonte: Adaptado de Silva, Fábio Q. B. Sistemas Locais de Inovação: Algumas reflexões para a construção de
uma base conceitual. Anais do I Simpósio em Gestão Estratégica de Negócios. Rio de Janeiro, 2003.
A figura 1 facilita a compreensão da classificação dos sistemas de inovação em dois
diferentes níveis: o nacional e o regional, da qual originam-se os conceitos de Sistemas
Nacionais de Inovação e Sistemas Regionais de Inovação. A partir da figura, os Sistemas
Nacionais, podem ser compreendidos como resultantes das interações entre o eixo das
organizações e das instituições, já que o componente território é mais frágil em função do
baixo nível de concentração geográfica intrínseco a este conceito. Já os Sistemas Regionais,
originam-se das interações entre os três eixos, visto que, além das organizações e instituições
de nível local e regional, neste nível a alta concentração geográfica permite a inclusão do
componente território.
Isto pode sugerir que o nível do sistema regional seja superior ao nacional em potencialidade.
Contudo, a partir do que segue, o que se percebe é a complementaridade entre os dois
conceitos.
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Observa-se que nas redes externas em que as empresas interagem com vistas ao
desenvolvimento de sua capacidade inovativa, governos e agências de fomento ocupam
espaço no sentido de criar e desenvolver políticas que contribuam para a consolidação de um
ambiente favorável à inovação, quer sob o ponto de vista da regulamentação, quer sob o
ponto de vista do financiamento. No conceito de sistemas de inovação, estes atores
encontram-se no componente institucional, sendo desejável que o componente territorial atue
no sentido de promover a complementaridade entre os programas oriundos destas políticas.
Isto é, no nível regional, estes atores estariam focados no desenvolvimento de ações capazes
de atender peculiaridades não atendidas pelos programas nacionais, mas em sinergia com a
política comum a todos os componentes do sistema. Neste sentido, o conceito de sistemas de
inovação supõe haver responsabilidades centralizadas no status nacional, acompanhadas de
responsabilidades de interlocução com as empresas que cabem a instâncias regionais e locais.
Adicionalmente, além de reconhecerem peculiaridades regionais, os programas oriundos de
uma política de desenvolvimento tecnológico têm o desafio de estabelecer tratamento
diferenciado às empresas de diferentes portes e setores. A dinâmica de pequenas ou grandes
empresas, ou de empresas atuantes em setores intensivos em capital ou em trabalho, por
exemplo, é diferente. As estratégias que guiam a inovação, bem como as estruturas que lhes
dão suporte, são distintas nestas diferentes categorias de empresas. Portanto, no estrato dos
governos e agências de fomento que compõem os sistemas de suporte à inovação, é desejável
encontrar programas que venham ao encontro de tais peculiaridades. Por outro lado, esta
variedade de programas convergentes com uma política comum, pode enriquecer a
aprendizagem proporcionada pela interação na rede.
Assim, Sistemas Nacionais de Inovação virtuosos reconhecem e executam com eficácia seu
papel no financiamento do investimento inovativo, por meio da ação do governo e agências de
fomento. Financiamento da pesquisa (especialmente da pesquisa básica), incentivos fiscais e
subsídios à inovação tecnológica são questões que compõem o espectro de ação dos SNI. Na
base disso, está o papel da regulamentação, desempenhado exclusivamente pelo governo.
Uma diferença importante entre os sistemas regionais e os nacionais está situada no processo
de aprendizagem proporcionado por cada um deles. Em função do componente território, os
sistemas regionais têm vantagem sobre os nacionais no sentido de que podem proporcionar o
compartilhamento de conhecimento tácito (NONAKA e TAKEUCHI, 1997), que requer
interação direta, confiança, cumplicidade e outros elementos em que a distância geográfica
pode ser prejudicial. Lundvall (1992) e Porter (1998) são grandes defensores desta
potencialidade intrínseca à territorialidade. Contudo, esta vantagem pode facilmente tornar-se
um ponto fraco se os componentes do sistema regional mantiverem sua rede de relações
restritas ao território. Pesquisas ilustram esta assertiva ao apontar que as empresas confinadas
a sua região tendem a caracterizar-se por menor nível de inovação em relação àquelas que
mantêm redes externas (TODLING e KAUFFMANN, 2002).
De um modo geral, o sucesso de um cluster é avaliado em função da capacidade competitiva
das empresas que o compõem. A contribuição do cluster ao incremento da competitividade
destas empresas dá-se em função de uma série de vantagens (TÖDTLING e KAUFMANN,
2002), tais como: suporte ao desenvolvimento de fornecedores locais especializados; geração
de economias de escala; ampliação da disponibilidade e da flexibilidade do mercado de
trabalho; disponibilidade de informação, eliminação de gargalos tecnológicos comuns, dentre
vários outros. Adicionalmente, como observado anteriormente, em função dos processos de
interação e networking intrínsecos ao cluster, facilitados pela proximidade física, ele
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proporciona ainda a seus integrantes maiores possibilidades para o aprendizado coletivo e
para a conversão de conhecimento tácito em ações e benefícios concretos.
Contudo, paralelamente às vantagens que clusters bem sucedidos proporcionam a seus
integrantes, alguns aspectos desfavoráveis têm sido observados em várias experiências (IEDI,
2005; COOKE, 2002) e merecem ser considerados, dentre eles: tendência à localização de
parcerias na própria região; cooperação externa, quando ocorre, especialmente centrada em
clientes e fornecedores da própria cadeia produtiva; baixa freqüência de cooperação com
parceiros externos focados na inovação; pequena cooperação com a academia e com outras
cadeias produtivas; foco maior na solução de problemas do que na exploração de
oportunidades; inflexibilidades geradas pelo excesso de especialização; poucos gastos em
inovação e desenvolvimento de produtos; dificuldades de acesso a informações sobre
produtos e tendências de mercado; carência de serviços técnicos e profissionais
especializados.
Alguns dos aspectos acima podem limitar a potencialidade do cluster para processos mais
vigorosos de inovação, sobretudo inovações de ruptura (CHRISTENSEN, 2000). A interação
proporcionada pelos clusters contribui bastante para o processo de melhoria contínua,
associado aos conceitos de inovação incremental e sustentada (CHRISTENSEN, 2000) A
estes resultados está associado o compartilhamento de conhecimento tácito, viabilizado pelas
relações de confiança, cooperação e interação freqüente estabelecidas no interior do cluster.
No entanto, embora estas inovações sejam relevantes à manutenção da competitividade
empresarial no mercado global, vantagens competitivas mais significativas exigem, cada vez
mais, saltos de qualidade associados a inovações de ruptura. E a ausência de relações externas
à localidade do cluster limita o acesso a culturas, experiências e conseqüentemente,
conhecimentos mais heterogêneos. Além disso, a ausência do componente institucional na
rede do cluster, especialmente de instituições focadas na inovação, podem representar
limitações às empresas no que tange a capacidade para inovações mais intensas e vigorosas.
Algumas instituições que podem contribuir neste sentido são as universidades, centros de
pesquisa, parques tecnológicos e centros de transferência de tecnologia, cujo papel está
relacionado à geração de conhecimento básico e à intermediação entre o ambiente acadêmico
e o empresarial respectivamente. Como visto, apesar de não constituir uma vocação das
empresas, a pesquisa básica é o elemento fundamental de inovações mais vigorosas. Por meio
da interação com a ciência esta limitação pode ser ultrapassada pelas empresas componentes
do cluster.
Assim, mais do que extrapolar a territorialidade, é um desafio ultrapassar as barreiras dos
setores e diversificar a natureza dos parceiros, visando à variedade de conhecimentos
necessária à viabilização da inovação, enquanto fenômeno multidisciplinar.
4- Aspectos metodológicos
A pesquisa tomou como universo o total de estabelecimentos formalmente atuantes no setor
têxtil do município de Blumenau. Visando a intenção de considerar as peculiaridades
inerentes ao porte das empresas nas análises dos dados, foram calculadas amostras
representativas por porte, conforme segue.
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Tabela 1 – Plano Amostral
Porte (1)
Empregados
Pequeno
0 a 49
Médio
Estabelecimentos
Amostra
Realizados
1485
305
270
de 50 a 249
45
40
34
Grande
acima de 249
13
13
13
-
Total
1543
358
317
Fonte: Base de dados PIS-IPS/FURB
A seleção da amostra para as pequenas e médias empresas admitiu uma margem de erro de
5,4% e 8,3% respectivamente.
Os dados foram coletados ao longo do segundo semestre de 2006, por meio de entrevistas
estruturadas realizadas in loco.
Com vistas ao atendimento dos objetivos propostos, o instrumento de coleta de dados foi
estruturado com vistas a identificar os atores com os quais as empresas mantêm relações
voltadas à inovação: Universidades; Instituições de ensino superior; Governo; Entidades de
classe; Concorrentes; Fornecedores; Clientes; Empresas de Consultoria; e Instituições
prestadoras de serviço.
O instrumento não contemplou elementos para a classificação das relações quanto a sua
localização no sistema nacional ou regional de inovação; o julgamento neste sentido foi
estabelecido na análise dos dados.
Verificou-se ainda a freqüência das relações mantidas, se esporádicas ou sistemáticas.
Adicionalmente, foi investigado o objeto da relação: Troca de idéias; Uso de equipamentos e
laboratórios; Ações conjuntas de P&D; Uso de corpo técnico / docente; Transferência de
tecnologia; Treinamento; Consultoria; Orientação empresarial; Ações de marketing; Recursos
financeiros.
Finalmente, foram investigados os resultados obtidos em inovação nos 24 meses que
antecederam a realização da pesquisa.
5- Relações para a inovação no cluster Têxtil de Blumenau – Apresentação e Análise dos
Resultados da Pesquisa
Tendo-se em vista os objetivos da pesquisa, um primeiro conjunto de dados relevante á
condução das análises diz respeito à identificação da rede de relacionamentos para a inovação
mantida pelas empresas. A tabela 2 condensa estes dados, distinguindo-os por porte das
empresas.
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Tabela 2 - Rede de relacionamento
Parceiros
Universidades/Centros de
Pesquisa
Instituições de Ensino
Superior
Governo
Entidade da Classe
Empresarial
Concorrentes
Fornecedores
Clientes
Instituições Prestadoras de
Serviços
Grandes
Médias
Pequenas
Empresas
%
Empresas
%
Empresas
%
7
53,85
4
11,76
3
1,11
5
38,46
0
0
1
0,37
6
8
46,15
61,53
3
9
8,82
26,47
2
23
0,74
8,52
6
10
9
9
46,15
76,92
69,23
69,23
3
13
7
11
8,82
38,24
20,59
32,35
28
41
34
17
10,37
15,18
12,59
7,08
Fonte: a partir da pesquisa
Nota: Grande porte: o percentual foi calculado sobre 13 empresas;
Médio porte: o percentual foi calculado sobre 34 empresas;
Pequeno porte: o percentual foi calculado sobre 270 empresas.
A análise destes dados demonstrou um comportamento significativamente diferente entre as
empresas de diferentes portes, com uma relação direta entre o porte e a amplitude da rede de
relacionamento. É nítida a maior intensidade de relacionamentos externos pelas grandes.
Detalhando-se as análises das empresas de grande porte, levando-se em conta a freqüência
(esporádica ou sistemática) e natureza das relações mantidas, nota-se que clientes,
fornecedores e entidades de classe são os atores com quem as empresas mais mantêm relações
sistemáticas, com freqüência de citação de 46,15% para os clientes e de 38,46% para os
outros dois grupos de atores. Nos três casos, as relações mantidas estão focadas na troca de
idéias. Ações de P&D sistemáticas são mantidas por poucas empresas: apenas duas, com
fornecedores, e uma, com entidades de classe e concorrentes.
Analisando-se as relações esporádicas das grandes, as empresas de consultoria aparecem
como ator mais citado, por 38,46% das empresas. O objeto destas relações são treinamentos,
consultoria e orientação empresarial. Em segundo lugar, apontada por 30,77% das empresas ,
estão as universidades (com relações focadas em compartilhamento de equipamentos e
laboratórios), os clientes (com ações conjuntas de P&D), empresas de consultoria e
instituições prestadoras de serviço (com trocas de idéias).
Uma comparação entre as relações mantidas com universidades e aquelas mantidas com
outras instituições de ensino superior posiciona a universidade com destaque. Não foram
verificadas parcerias sistemáticas; ou seja, relações com este parceiro são em sua maioria
esporádicas. As parcerias com o governo também são bastante pontuais, ocorrendo apenas em
três empresas, para a troca de idéias, e em duas, para recursos financeiros.
Migrando o detalhamento da análise para as médias empresas, as parcerias com universidades
sofrem ainda alguma perda em relação às grandes. Não são verificadas relações sistemáticas e
mesmo as esporádicas são apontadas por um numero muito restrito de empresas. Quanto ao
governo, o foco principal de relacionamentos é relacionado a recursos financeiros. A maior
8
concentração de citações obtida foi para relações sistemáticas mantidas com fornecedores,
para a troca de idéias (20,59%, correspondente a sete empresas). A segunda maior citação foi
de 11,76% (quatro empresas), para relações esporádicas mantidas com entidades de classe,
para trocas de idéias e orientação empresarial, e com clientes, para ações conjuntas de P&D e
troca de idéias, esta última em caráter sistemático.
Passando para as empresas de pequeno porte, o que se verifica é uma queda significativa da
freqüência de parcerias. Aproximadamente 90% das empresas não mantêm relação de
parceria alguma. A mais freqüente citação de relações sistemáticas foi para fornecedores e
clientes; em ambos os casos, apontadas por 8,52% das empresas e focadas em trocas de
idéias. A segunda e terceira maior freqüência de citações, com 4,07% e 2,96%, para
concorrentes e entidades de classe respectivamente, ambos focados na troca de idéias. Nota-se
assim, que das relações sistemáticas mantidas, a mais importante é a troca de idéia, ainda que
bastante tímida, tendo em vista o volume de citações obtido. As relações de caráter esporádico
não são mais intensas. A maior freqüência obtida foi de 6,3% para troca de idéias com
concorrentes. Em seguida vêm a troca de idéias com fornecedores, com clientes e com
entidades de classe, respectivamente apontadas por 5,19%, 4,07% e 2,96% das empresas.
Assim, fica em destaque a troca de idéias como o objeto da parceria mais valorizado por
pequenas empresas. Para finalizar a análise da rede de relacionamento das pequenas
empresas, é válido destacar o quase inexistente contato com universidades, IES e governos.
Um aprofundamento quanto à localização dos parceiros com os quais as empresas mantêm
relações para a inovação demonstra grande concentração no território local ou regional.
Embora instituições como SENAI e SEBRAE tenham aparecido com freqüência significativa
dentre as citações, o que se percebe é que o interlocutor são as agências regionais.
Assim, predomina a interação no Sistema Regional de Inovação em relação a atores do
Sistema Nacional. Mesmo nas linhas de financiamento à inovação oferecidas por agências de
fomento e utilizadas pelas empresas pesquisadas, verifica-se baixa freqüência de atores do
Sistema Nacional de Inovação. Predominam entre as instituições apontadas, BADESC, BRDE
e BNDES. Embora este último seja correspondente ao nível nacional, nenhum dos três
apresentam vocação inata para o fomento à inovação. O fato dos recursos captados junto a
estes órgãos ter sido destinado, em 83,33% dos casos, à ampliação da capacidade produtiva,
comprovam esta observação. Instituições de âmbito nacional focadas no fomento e suporte à
inovação, como CNPq e FINEP, bem como linhas específicas do SEBRAE, não aparecem na
lista apontada pelas empresas, com exceção de dois casos particulares. Vale observar que em
um deles foi justamente o único exemplo de geração de patente identificado na pesquisa.
Analisando-se as interações mantidas com relação à área de atuação dos parceiros, nota-se
concentração quase absoluta na própria área de atuação da empresa. Ou seja, são praticamente
nulas as relações com parceiros atuantes em outras áreas do conhecimento ou setores
distintos.
Estes fatores apontam para uma rede de relacionamentos limitada em sua potencialidade para
contribuir com a capacidade de inovação das empresas, segundo as premissas vistas na
revisão bibliográfica. As relações são insuficientes e pouco sistemáticas, comprometendo o
aprofundamento dos laços. Isso se comprova nos tipos de relações mantidas, notadamente
superficiais, principalmente focadas em troca de idéias. Relações de cooperação mais
profundas, como, por exemplo, ações cooperadas de pesquisa e desenvolvimento, são
praticamente inexistentes. Adicionalmente, reforça a limitação da potencialidade de inovação
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segundo as premissas abordadas na revisão bibliográfica o fato das relações estarem restritas
ao território e ao setor. A ampliação do espectro de conhecimentos que a extrapolação do
território e do setor permitiria, fica, assim, comprometida. A praticamente nula existência de
interações com atores que apresentam vocação inata para a inovação, quer seja sob a
perspectiva da pesquisa e desenvolvimento, quer seja para o financiamento dos processos de
inovação, contribui para o quadro restritivo.
Este panorama quanto aos relacionamentos mantidos pelas empresas pesquisadas com vistas á
inovação deve ser comparado, tendo-se em vista o proposto neste trabalho, aos resultados em
inovação por elas conquistados.
Nos 24 meses que antecederam a pesquisa, o percentual de novos produtos em relação ao total
de produtos oferecidos pelas empresas ao mercado é bastante pequeno e torna-se ainda menor
quando se trata de produtos inovadores. O foco de mercado é local. Mesmo quando falam dos
planos futuros, as empresas apontam o mercado nacional como objeto de seus interesses
estratégicos. A maior abrangência geográfica é proporcional ao porte das empresas. Desta
forma, os casos de exportação concentram-se junto às grandes.
Adicionalmente, os itens a seguir apontam um perfil de inovação mais incremental, focado na
perspectiva de melhoramento e baseado na curva de valor tradicional da empresa:
• Inovação ocorre por meio de melhoramento dos produtos e serviços existentes 84,62% de citação
• Atuam sobre necessidades explícitas dos clientes – 84,62% de citação
• Atuam sobre necessidades não formuladas – 46,15% de citação
• Geram novas necessidades nos clientes – 38,46 de citação
• Permitem à empresa explorar novos mercados – 23,08% de citação
• Influenciam positivamente as exportações – 38,46% de citação.
Assim, tem-se dados que corroboram as premissas teóricas apresentadas anteriormente.
Processos de inovação mais arrojados, capazes de conferir às empresas saltos de qualidade e
sua inserção em novos espaços de mercado, por meio de rupturas nos processos e produtos
tradicionais, não fazem parte dos resultados conquistados pelas empresas pesquisadas.
Estas conquistas podem estar relacionadas a vários fatores que transcendem a rede de
relacionamentos cultivada pelas empresas em prol da inovação. Contudo, não fazem parte do
escopo do presente estudo. Resguardada esta limitação, esta pesquisa permite, de qualquer
forma, destacar pontos de alerta a estas empresas, tendo em vista vários outros estudos de
referência indicados na revisão bibliográfica.
6- Conclusão
A análise conclusiva dos dados levantados na pesquisa deve destacar, inicialmente, o baixo
índice de relacionamentos focados na inovação, sobretudo nas médias e pequenas empresas.
Os relacionamentos existentes são esporádicos e focados em trocas mais superficiais. Não são
identificadas práticas sistemáticas de cooperação com parceiros com grande potencial de
contribuição aos processos de inovação.
Parceiros vistos na revisão bibliográfica como relevantes neste sentido, como é o caso de
universidades, centros de pesquisa e agentes de fomento, tem as menores freqüências. As
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interações pontuais que se identifica, não são focadas no escopo de relação mais apropriada
para ganhos significativos.
As universidades e centros de pesquisa, por exemplo, não estão entre os três atores com os
quais as empresas mais mantêm relações de cooperação e parceria, embora apareça com
freqüência significativa entre as grandes. Contudo, não são identificas práticas de colaboração
em P&D; o objeto das relações é, sobretudo, a troca de idéias, o uso de equipamentos e
laboratórios e a utilização de corpo técnico. Quanto às relações com políticas e programas de
governo e respectivas agências de fomento, verificou-se que os instrumentos disponíveis não
estão atingindo as empresas têxteis blumenauenses, nem contribuem diretamente para a
superação do déficit em inovação destas empresas. Os instrumentos utilizados são destinados
especialmente à ampliação de capacidade produtiva, não a esforços de inovação. Práticas
como estas restringem o acesso a conhecimentos e recursos relevantes para viabilizar
inovações, sobretudo as mais vigorosas, cuja viabilização pelas empresas isolada e
solitariamente torna-se muito mais complexa.
Adicionalmente a esta ausência de parceiros com vocação para o fomento e o suporte à
inovação na rede de relacionamentos das empresas, tem-se ainda outro conjunto de
fragilidades. As interações identificadas estão mais restritas ao território, a empresas do
próprio setor, a fornecedores e clientes atuais. Assim, as limitações ao cluster discutidas na
revisão teórica parecem caracterizar a prática das empresas estudadas.
Da mesma forma a tendência vista da revisão bibliográfica deste tipo de comportamento
confinar as possibilidades de inovação a uma perspectiva mais incremental é confirmada nos
resultados conseguidos pelas empresas nos dois anos que antecederam a pesquisa.
Concluindo, os padrões de relacionamentos verificados no cluster analisado apontam para o
entendimento da inovação sob uma perspectiva endógena. Caracterizada como um esforço
solitário das empresas, ela está baseada em premissas incrementais, limitando a conquista de
saltos competitivos mais vigorosos.
A análise da pesquisa pode inclusive suscitar um questionamento quanto à efetividade real do
cluster têxtil em Blumenau, se considerada a definição de um cluster como uma concentração
geográfica de empresas e instituições de um determinado campo, interconectadas. O
componente “empresarial” está apresente, assim como o componente “territorial” e o
componente “institucional”. Contudo, a interconexão, caracterizada por relações de interação
sistemáticas, existe em baixíssima intensidade, sobretudo nas médias e ainda mais nas
pequenas. A caracterização de um cluster efetivo exige ações no sentido de promover a
intensificação destas relações.
Assim, tanto ações de governança no cluster quanto de cultivo de uma reflexão quanto ao
conceito de inovação vigente apresentam-se como necessárias, especialmente se levada em
conta a importância deste segmento e sua tradição na economia da região, por um lado, e a
pressão competitiva e a urgência da inovação, por outro.
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1 Relações para a Inovação no Cluster Têxtil de Blumenau