Saúde Coletiva
ISSN: 1806-3365
[email protected]
Editorial Bolina
Brasil
H. M.NUÑEZ, FEKETE
Leis Gerais da Biografia Humana: descrevendo uma experiência com agentes comunitários de saúde
Saúde Coletiva, vol. 1, núm. 1, 2004, pp. 22-27
Editorial Bolina
São Paulo, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=84226088003
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Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
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Nuñez F. H. M. Leis Gerais da Biografia Humana: descrevendo uma experiência com agentes comunitários de saúde
Leis Gerais da Biografia Humana:
descrevendo uma experiência com agentes
comunitários de saúde
FEKETE H. M. NUÑEZ
Enfermeira sanitarista. Mestre em Enfermagem. Enfermeira do PSF Jardim Monte Azul –CSII Dr Alberto Ambrósio
da Sub Prefeitura M’Boi Mirim - SMS/SP
ste estudo teve por objetivo relatar a experiência sobre uma nova abordagem em promover educação continuada
para os Agentes Comunitários de Saúde (ACS), da equipe de PSF Jardim Monte Azul do CS II Dr Alberto AmbrósioSub Prefeitura M’Boi Mirim-SMS, SP-São Paulo-2003, através do estudo das leis gerais da biografia humana. Como
estratégia de trabalho, foram realizados oito encontros em dois meses consecutivos no ano de 2003. O conteúdo
documentado nos leva a concluir que o conhecimento das Leis Gerais da Biografia Humana é um recurso que nos
torna mais íntegros e mais capazes de assumir nossas vidas e valorizar melhor o outro; também aprofunda as relações
interpessoais e profissionais, acrescentando subsídios que melhoram a qualidade de assistência primária de saúde da
população.
E
Descritores: Agentes comunitários de saúde, Educação continuada, Antroposofia, Saúde
his study aimed to describe the experience of a new approach in promoting continued education for Communitary
Health Agents (CHA) of the FHP team at Jardim Monte Azul of the CS II Dr. Alberto Ambrósio – M´Boi Mirim sub-district
– SMS – São Paulo – 2003 through the study of the General Laws of Human Biography. As working strategy eight meetings
were held in 2003, during two subsequent months. The documented contents lead us to conclude that the knowledge of the
General Laws of Human Biography is a resource that makes us more entire and able to take our lives on our own hands
and value others; also, it deepens interpersonal and professional relationships, adding tools that improve the population´s
primary health assistance quality.
T
Descriptors: Communitary health agents, Continued education, Anthroposophy, Health
ste estudio tuvo por objetivo relatar la experiencia de un nuevo abordaje en la promoción de educación continuada
para los Agentes Comunitários de Salud (ACS), del equipo de PSF Jardim Monte Azul del CS II Dr. Alberto
Ambrósio – Sub-Prefectura M’ Boi Mirim – SMS SP – São Paulo, Brasil – 2003, através del estudio de las Leyes
Generales de la Biografia Humana. Como estratégia de trabajo, fueron realizados, en dos meses seguidos, ocho
encuentros, en 2003. El contenido documentado nos lleva a concluir que el conocimiento de las Leyes Generales de la
Biografia Humana es un recurso que nos torna mas íntegros y más capaces de asumir nuestras vidas y de valorizar
mejor a nuetstro projimo; también aprofunda las relaciones interpersonales y profesionales, añadiendo subsidios que
mejoran la calidad de la asistencia primaria de salud a la población.
E
Descriptores: Agentes comuniitarios de salud, Educación Continuada, Antropoposofia, salud
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Silva, R. M. da; Guimarães, S. B.; Gonçalves, M. J. F. Os Resíduos Sólidos em Unidade Básica de Saúde
INTRODUÇÃO
romulgada a cinco de outubro de 1988, a Constituição Federal trouxe consigo a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) no país, estabelecendo um
novo marco referencial, bem como afirmando novos
princípios para a organização da Saúde no país, tais
como: a universalidade – garantia através do direito de
acesso aos serviços de saúde a toda população brasileira; descentralização da gestão para Estados e Municípios; controle social, exercido por meios de Conselhos
e Conferências de Saúde, de caráter propositivo e deliberativo, composto paritariamente por usuários e o
conjunto dos demais segmentos de trabalhadores, gestores e prestadores de saúde; integralidade da assistência, entendida como um conjunto articulado e contínuo
de ações e serviços preventivos e curativos, individuais
e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis
de complexidade do sistema. A integralidade representa
o desafio da superação do notoriamente insuficiente paradigma clínico de assistência à saúde através de um outro modelo que leve em consideração a determinação
social da doença, redirecionando as práticas e a divisão
do trabalho no interior da própria equipe sanitária e invertendo a relação firmada com o paciente, de forma a
torná-lo sujeito ativo de sua condição sanitária.1
Para melhor atender aos objetivos da Constituição,
o Ministério da Saúde (MS), em 1994, deu início à implantação do Programa da Saúde da Família (PSF), assumindo o compromisso de prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e acima de tudo,
resolutiva à população, tanto na unidade de saúde
quanto no domicílio. Tal atendimento dar-se-ia de forma humanizada, objetivando a integração e organização das atividades, assim como a criação de vínculos
de compromisso e responsabilidade entre os serviços
de saúde e a população.
Assim, o PSF é considerado pelo MS como “eixo estruturante na atenção básica de saúde, que vem reorientando o modelo assistencial, tomando como foco
a família no seu espaço físico e social, proporcionando
à equipe de saúde uma compreensão ampliada do processo saúde-doença, que permite intervenções para
além das práticas curativas”.2
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS),
mais de 2,4 milhões de paulistanos estão cadastrados
no Programa de Saúde da Família, estando o PSF distribuído em 31 Coordenadorias de Saúde das Subprefeituras (CS) que, articuladas com as parcerias de 12 instituições de ensino e serviço, contam com 690
equipes do PSF, totalizando 3544 Agentes Comunitá-
P
rios de Saúde (ACS).3
Implantada pioneiramente no Nordeste para o auxílio no enfrentamento da mortalidade infantil e materna4, a profissão do ACS obteve sua regulamentação
através da Lei nº 10.507 de 10 de julho de 2002, o que
foi um reconhecimento do significativo trabalho por
eles realizados. “A Lei em seus seis Artigos estabelece
que o exercício da profissão de ACS dar-se-á exclusivamente no âmbito do SUS e que a profissão caracterizase pelo exercício de atividade de prevenção de doenças
e promoção da saúde, mediante ações domiciliares ou
comunitárias, individuais ou coletivas em conformidade
com as diretrizes do SUS e sob supervisão do gestor local deste, devendo o ACS preencher os seguintes requisitos: 1- residir na área que irá trabalhar; 2 - ter concluído o curso de qualificação básica para formação de
ACS; e 3 - ter concluído o ensino fundamental”.5 O ACS
deve interagir com a comunidade, ajudando-a a avaliar
o grau de risco das diversas situações de saúde e mesmo sociais que envolvem, o que se dá através de ações
voltadas ao núcleo familiar.
CENÁRIO
a Favela Monte Azul está localizada uma das equipes de PSF do Centro de Saúde II Dr Alberto Ambrósio - Vila das Belezas, pertencente à Coordenadoria
de Saúde da Sub Prefeitura M’Boi Mirim - região sul do
Município de São Paulo.
O Sistema de Informação à Atenção Básica (SIAB)
armazena dados e indicadores das condições sociais
dos moradores da favela. A análise dos dados estatísticos de novembro de 2003 revela que a população da
favela é de 3076 habitantes, sendo que 100% das famílias conta com abastecimento de água fornecida pela
rede pública; 100% são atendidos pela coleta pública
de lixo; 99% tem luz elétrica; 89% mora em casas de
alvenaria e 75% tem acesso à água filtrada. Contudo,
62% delas tem esgoto a céu aberto, o que em muito
aumenta os riscos oferecidos à saúde.
No perfil de morbidade da população, a hipertensão arterial aparece com predominância (194 casos),
logo seguida pela diabete (54), alcoolismo (45) e deficiências físicas ou mentais (14), intercorrências essas
que merecem toda atenção das ações de prevenção e
promoção da equipe do PSF. Presentes na comunidade e também carentes de vigilância estão a hanseníase,
a tuberculose e Doença de Chagas, esta última diagnosticada em usuários que vieram de áreas endêmicas
de outras regiões do Brasil.6
Todos esses dados têm auxiliado a equipe do PSF a
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planejar e executar ações junto à população de maneira a auxiliá-los através da conscientização das necessidades de tratamento e autocuidado, evitando agravos
desnecessários e mortes precoces.
funcionário, com a finalidade de ajudá-lo a atuar, mais
efetivamente na sua vida institucional. Essa educação
contínua tem como objetivo (...) assegurar a eficiência
do funcionário, manter seus conhecimentos em dia,
sem que ocorram mudanças fundamentais em suas funO TRABALHO DA EQUIPE DO PSF MONTE AZUL
ções; visa reduzir diferenças individuais de desempeegundo Vale(2003), “o PSF tem dado a possibilidade
nho em cada função, manter a homogeneidade na exeaos profissionais nele engajados de desenvolverem
cução de procedimentos e estratégias de trabalho,
uma ação interdisciplinar que vincule o saber das ciênelevando assim, o nível da assistência e favorecendo o
cias sociais (antropologia, sociologia e psicologia social)
desenvolvimento de tecnologias próprias da profissão,
às questões de saúde, demografìa e epidemiologia, denutilizando o potencial crítico dos funcionários”.7 Tamtre outras, e que neste contexto, a Enfermagem, que
bém Pimentel menciona que nas instituições de saúsempre foi à categoria que buscou a interface entre a
de a equipe de enfermagem e agora acrescida pela
comunidade e os serviços de saúde, incorporou as esequipe de ACS, constitui o grupo de mais alto grau de
tratégias do PSF, contribuindo de forma significativa
heterogeneidade de seus elementos e de atividades, o
nos processos de planejamento, coordenação, implantaque reforça a necessidade do constante treinamento
ção e avaliação dessa proposta de atenção à saúde”.2
do seu pessoal.8 Isto inclui o ACS já que sua
Desta maneira, a enfermeira passou a ocupar um paresponsabilidade técnica é do enfermeiro.
pel decisivo no gerenciamento das
Os ACS, uma vez que estão em
atividades promovidas pelo PSF atraconstante relacionamento com as fa“ESTE ESTUDO É UM
vés da coordenação das diversas
VALIOSO INSTRUMENTO DE mílias que habitam em suas “microações dos ACS. Trata-se, portanto, de
áreas”, convivem diariamente com
EDUCAÇÃO CONTINUADA
um significativo aumento das atribuiquestionamentos relacionados aos
PARA AS EQUIPES DE
ções e das responsabilidades da endiversos aspectos da saúde de sua
fermeira, o que colocou diante desta
PROFISSIONAIS DA SAÚDE.” população, lidam com carências físinovos desafios e possibilidades.
cas, emocionais e até espirituais. EnA atuação dos ACS necessita de constante adaptafrentam também a necessidade de priorizar os atendição, de maneira a atender as exigências locais de saúmentos de visitas a acamados, idosos, deficientes,
de e garantir um maior enfoque nos problemas de saúrecém nascidos e puérperas. São, também, constantede priorizados pelo Governo, tais como: 1) prevenção
mente solicitados pelos moradores para que soluciode agravos relacionados a doenças crônico-degeneratinem seus mais diversos problemas. Além disso, os ACS
vas; 2) envelhecimento da população; 3) gravidez preencaram a insegurança na atuação frente ao álcool, ao
coce; 4) doenças sexualmente transmissíveis e AIDS;
usuário de drogas e à gestante adolescente. Devem,
5) enfrentamento de situações geradas pelo consumo
ainda, atuar levando em consideração a inconstância
de álcool e drogas; 6) violência intrafamiliar; 7) includo uso de medicamentos por pacientes de tratamensão da saúde mental como agenda básica de trabalho,
tos crônicos, tais como a hipertensão, diabetes e epidentre tantos outros.
lepsia. Presenciam a fome, o desespero, a depressão e
outros.
EDUCAÇÃO CONTINUADA E ESTUDO
Uma das opções para a educação continuada e,
BIOGRÁFICO
deste modo, para a melhoria da qualidade da assistência e orientação prestadas pelo ACS está na própria
or ser necessário à manutenção da sua competênbusca da valorização do Ser Humano, o que se dá atracia, o desenvolvimento profissional é tido como
vés da resposta ao apelo socrático do “conhece-te a ti
um direito do trabalhador da saúde. Assim, a educação
mesmo” fornecida pelo estudo das Leis Gerais da Biocontinuada é um instrumento indispensável dos sistemas de saúde para assegurar a qualidade, aumentar a
grafia Humana, que são fundamentalmente apreendicapacidade de responder à dinâmica política, social,
das através da Terapia Biográfica Antroposófica, pioeconômica, técnica e epidemiológica.
neiramente introduzida no Brasil pela dedicada
Silva et al definem educação continuada como o
atuação da Dra. Gudrun Burkhard.
“conjunto de práticas educacionais planejadas, no sentiPara Burkhard (apud Nuñez, 2002)9 “a Terapia Biodo de promover oportunidades de desenvolvimento do
gráfica Antroposófica é a terapia individual ou grupal,
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na qual se reconhecem as leis gerais de desenvolvimende conhecimento da natureza do ser humano e do unito para cada fase da vida. A visão global de toda biograverso, que amplia o conhecimento obtido pelo métofia permite ver sua vida não apenas nos fatos ‘sombras’,
do científico convencional, bem como a sua aplicação
mas também nos fatos bons que ocorreram. (...) Assim
em praticamente todas as áreas da vida humana.
Desse modo, o estudo das Leis Gerais da Biografia
sendo, o estudo biográfico caracteriza-se por ser um
Humana junto à equipe de agentes comunitários de
processo terapêutico no qual as pessoas revêem seus
saúde, além de ampliar o nível de conhecimento e
passos de maneira que possam trilhar melhor o futuro;
potencializar o acolhimento interpessoal, pode contambém apreendem que a alimentação errada, a falta
tribuir também para uma reflexão dos valores éticos,
de equilíbrio entre o lado afetivo e o profissional, uma
espirituais e sociais rumo à obtenção de atitudes
vida cheia de conflitos, tudo isso influencia a saúde físimais humanizadas e humanizadoras para com as pesca do homem. (...) Também afirma que os desequilísoas, aproximando-as cada vez mais de si mesmo,
brios provocam distúrbios psicossomáticos, que podos colegas de trabalho e das famílias com quem
dem resultar em estresse ou até câncer e que a doença
convivem, e de Deus.
aparece para alertar que existe um desequilíbrio, e só o
uso de remédios não vai resolver o problema. É preciCAMINHO METODOLÓGICO
so mudar os hábitos. Só que a maioria das pessoas ainda não se dá conta da importância de os vários campos
e maneira a relatar e analisar qualitativamente a
da vida estarem em harmonia. Tem gente que desenexperiência do ensino continuado através do
volve muito o plano intelectual, mas
enfoque na terapia biográfica fodeixa o sentimental de lado. Essa de“A ENFERMEIRA PASSOU A ram reunidos os ACS do PSF Jardim
sarmonia cria espaço para que as OCUPAR UM PAPEL DECISIVO Monte Azul para que, em grupo, vidoenças apareçam. Para ser saudávenciassem a aplicação das Leis
NO GERENCIAMENTO
vel, é preciso descobrir se a pessoa
Gerais da Biografia Humana em
DAS ATIVIDADES
obtém realização pessoal no trabasuas próprias biografias; permitinlho, nas relações familiares, se ela
do, assim, que os ACS tivessem
PROMOVIDAS PELO PSF.”
tem tempo para fazer as coisas de
contato com teoria e práxis deste
que gosta ou se vive sempre em conflito.”10
estudo antroposófico.
Assim, em linhas gerais, o trabalho Biográfico visa a
Uma série de oito encontros semanais foi então initrabalhar a História Interna do Ser Humano, lidando
ciada. A abordagem teórica das Leis Gerais da Biogracom as emoções e padrões, de modo a abrir um
fia Humana, bem como a explanação acerca da curva
maior percepção do caminho como possibilidade de
biográfica e seus diversos componentes ocorreu no
fortalecimento do Eu (self) e ativando o exercício
primeiro encontro. As seis reuniões subseqüentes deconsciente do Ser.
ram lugar, cada uma, ao estudo teórico e prático do
Desta forma, estando o ACS dotado do conheciprimeiro ao sexto setênios. Após estas reuniões foi
mento das Leis Gerais da Biografia Humana nas várias
solicitado aos ACSs a realização de um desenho livre
fases da vida de uma pessoa (setênios), dos agravos à
sobre suas reminiscências acerca daquela fase de sua
saúde ou mesmo efeitos do desgaste que são mais provida. No último encontro, por sua vez, após breves
palavras sobre os setênios seguintes aos já estudados,
pensos a ocorrer em cada uma delas, terá mais subsíforam apresentados e comparados os desenhos criadios para atender melhor os membros da comunidade.
dos pelos próprios ACS. Foram feitas três perguntas
Ou seja, após ter ele passado pela experiência da teraconcernentes à vivência da Terapia Biográfica e, por
pia biográfica, os horizontes de seu entendimento e
fim, houve a conclusão do estudo. Vale acrescentar
compreensão serão alargados, de tal maneira que tem
que duas dessas reuniões contaram com a notória
ele sua percepção para as necessidades da comunidapresença da pesquisadora Dra. Vivian Baldi.
de vastamente aguçada.
Para poder realizar este estudo é necessário que o
Participaram do estudo todos os seis ACS da equipe
profissional que ministre a educação continuada dos
do PSF Jardim Monte Azul, com idades entre 27 e 42
ACS tenha a formação na área do Trabalho Biográfico
anos. Cumpre ainda salientar que cada um deles assicom base na Antroposofia. Vale acrescentar que por
nou voluntariamente um termo de concordância para
Antroposofia se entende o "conhecimento do ser hutomar parte do estudo em grupo de sua biografia e
mano", podendo ser caracterizada como um método
seus anonimatos foram plenamente resguardados.
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RESULTADOS
Primeiro setênio: 0 a 7 ANOS “o mundo é bom”
Perguntas-chave: As questões levantadas foram: Como foi o ambiente físico e emocional nos meus primeiros sete anos? Que doenças infantis eu tive nestes anos?
O ambiente foi propício para meu desenvolvimento?
Relatos: A maioria relatou fatos que fizeram lembrar de uma infância vivida como boa. Ao apresentarem seus desenhos, um dos ACS fez seu desenho colorido, ocupando todo o espaço do papel, não escreveu
nada, mas disse: “lembro muito bem que na frente de
casa havia um terreno com árvores frutíferas e que era
muito bom”. Neste primeiro setênio, foram lembradas
também as doenças infantis que mais ocorrem na comunidade, como as doenças febris, diarréicas, gripes e
pneumonias, varicela, sarampo, os perigos de acidentes domésticos, a necessidade de se ter um lar amoroso para a criança se desenvolver bem.
identidade no mundo? Conseguiu sair do ambiente da
família? Teve experiência profissional? Formei família?
Relatos: “foi uma fase cheia de altos e baixos” refere
ao falar de seu desenho uma das ACS, alegando ter tido
muitas dificuldades financeiras e de falta de emprego.
Quinto setênio: 28 a 35 ANOS
Perguntas-chave:Quais são meus reais talentos?Vivências de morte e ressurreição tornam-se evidentes.
O meu trabalho está sendo reconhecido e eu me imponho?
Relatos: um dos ACS ilustrou três cruzes pretas centrais, simbolizando a morte muito significativa em sua
vida: sua mãe, seu pai, seu irmão e uma Bíblia no lado
esquerdo do desenho, à qual refere “encontrei forças
na Palavra de Deus e sinto Sua na minha vida”.
Sexto setênio: 35 a 42 ANOS
Perguntas-chave: Quais são os meus potenciais?
Segundo setênio: 7 a 14 ANOS “o
Aceito as minhas limitações como
mundo é belo”
“O SISTEMA DE INFORMAÇÃO também as dos outros? Possuo a coPerguntas-chave: Como foi miragem de encarar os meus fracassos,
À ATENÇÃO BÁSICA
nha entrada na escola? Tive educae o que posso aprender deles? O ter
ARMAZENA DADOS E
ção artística e religiosa? Qual era o
torna-se o ser.
meu ritmo de vida?
Relatos: “A gravidez, o aborto
INDICADORES DAS
Relatos: Ilustrando, um ACS fez
que não quis que acontecesse, o
CONDIÇÕES SOCIAIS DE
dois desenhos deste setênio: Indo
curso na PRAXIS”.
MORADORES DA FAVELA.”
para a escola pela manhã, seu lazer
Ao finalizar, no último encontro
à tarde era jogar vôlei todas as tarforam postas três perguntas:
des; no outro desenho: o sítio de meus avós com casa,
1a.O que observo na minha Biografia? Eles escrevecerca, lago com ponte, galinheiro - sempre com muito
ram: a presença do sofrimento e das inúmeras dificulmovimento, muitas pessoas e rico em detalhes.
dades, mas também a forma e a força que Deus nos
dava para superar e resolver tais problemas e dificulTerceiro setênio: 14 a 21 ANOS
dades...observo a cor amarela que pra mim significa a
Perguntas-chave: Com três perguntas condensou-se
presença de Deus no meu caminho, sempre... Que
a caracterização deste setênio: Quem sou eu? Do que
tudo que vivi absorvi o máximo de bom, e de mau,
procurei entender, tenho mágoas que são difíceis de
sou capaz? Qual a minha vocação?
esquecer, mas procuro não ficar lembrando e sinto
Relatos: “eu estava com 14 anos e 8 meses de gestaque cada vez mais estou aprendendo a crescer com os
ção” mostra um desenho onde ela é a personagem
sofrimentos e multiplicar as alegrias, ou seja, dividir as
central com sorriso nos lábios, grávida, com cores claalegrias com os que estão ao meu lado... Relato nas foras, flores, sol, mostrando alegria desta nova condição
tos ou desenhos, várias épocas por eu vividos. Primeide mulher. Aproveitamos este momento para falar das
ro passo a casa onde morávamos, depois a necessidagestantes da comunidade, da gravidez precoce, seus
de de ajudar, depois a escola muito forte na minha
riscos, do planejamento familiar, da cultura errônea
memória, depois o sair de casa, depois as mudanças
que muitas adolescentes trazem de que é bom engravide amigos, trabalho, longe do passado, e uma estabilidar porque é um novo status e que temos importante
dade na vida.
tarefa no esclarecimento destas jovens.
2a O que observo em comum nas Biografias do
nosso grupo? Responderam: percebo que apesar dos
Quarto setênio: 21 a 28 ANOS
vários momentos de dificuldades e sofrimentos, todos
Perguntas-chave:Procura encontrar a sua própria
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tiveram também força e capacidade de superação...Muitas mortes, casamento, presente, altos e baixos, escola, vida melhor, travamento de lembranças...Caminhos... Que todos tiveram grandes perdas,
momentos que trouxeram grandes mágoas, mas que
não afetou o lado bom e lutador de cada um, e assim,
cada um da sua maneira lutam para afogar as mágoas
e correm atrás da felicidade... Bom, que a maioria foi
muito espontânea, dentro do possível de cada um...
Todos vivenciam a vida que já de certa forma, quase
idêntica, como o crescer em família, a escola, as mudanças de vida, as novas coisas que surgem para todos, com alegria e saúde.
3a Por eu ser um Agente Comunitário de Saúde,
em que, o estudo da minha biografia, ajuda no relacionamento com os usuários de minha área de atuação? vai fazer eu entender melhor as pessoas e seu
comportamento em todos os sentidos...No entendimento das fases das pessoas, dificuldades e até mesmo um pouquinho sobre as doenças... Ajudou a esclarecer que todos têm perdas, dificuldades,
mágoas, e seu jeito de ser, assim aceitando os seus
defeitos, mas esclarecendo como melhorar ou aceitar as dificuldades. Ex.: criança de 0 a 7 anos que
tem febre (amigo imaginário), e a mãe não entendendo que faz parte da sua vida, e que todos passam
por isso, e alguns pais têm mais dificuldades para
entender e aceitar... Que tudo que eu vivi pode também vir a acontecer com as pessoas que eu trabalho.
Ex.: sempre orientar as meninas e os meninos para
tomar cuidado de não engravidar com facilidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
onclui-se mediante uma análise qualitativa dos dados coletados que o conhecimento das Leis Gerais
da Biografia Humana pelo estudo em grupo das biografias de cada participante serve de apoio e aprofundamento das relações interpessoais e profissionais dos
ACS, dando subsídios que melhoram a qualidade de assistência à população.
Baldi, após suas observações, concluiu ter sido
“interessante observar o sentimento surgido no grupo em função desta atividade. Percebemos que
cada um do grupo nutria sentimentos de solidariedade, de respeito e de compaixão por aqueles seres
humanos, por seus sonhos e expectativas não realizados. Com certeza, naquele momento estávamos
mais próximos uns dos outros: aquelas vidas passaram a ter, para cada um de nós, um valor diferente
até então”. 11
C
Todos os ACS participantes do estudo envolveramse nele do início ao fim neste, demonstrando sempre
um grande interesse e respeito pela sua história e pela
história de seus colegas.
É, pois, o contato humano uma realidade da qual
não podemos fugir; devemos, portanto, empenharmo-nos ao máximo para torná-la uma situação harmoniosa, agradável e frutífera. Assim, concluímos
que o estudo das Leis Gerais da Biografia humana é
um valioso instrumento de educação continuada
para as equipes de profissionais da saúde, uma vez
que auxilia na criação e no fortalecimento de vínculos sadios e construtivos entre o profissional da saúde e aquele de quem ele trata, na exata medida em
que, promovendo o conhecimento de si mesmo, potencializa a compreensão do outro.
Referências bibliográficas
1. Cf. Ministério da Saúde(BR). Secretaria Nacional de Assistência à
Saúde. ABC do SUS: doutrinas e princípios. Brasília; 1990.
2. Cf. Vale, E. G. Programa Saúde da Família. 2000 53 ( n.especial):
edital.
3. Secretaria Municipal da Saúde. Revista Saúde SMS 001/2003. Dois
anos de SUS na cidade de São Paulo. São Paulo, abril , 2003: p
14-15.
4. Souza, H.M. Programa Saúde da Família. 2000 53 ( n.especial): p
7-16.
5. Ramos M.R., Teixeira R. A., Pereira M.J.B., Agentes comunitários
de saúde no Brasil: em enfoque sobre seus pressupostos básicos,
atribuições específicas e o conceito de Promoção de Saúde:
anais, Congresso Saúde Pública, Ribeirão Preto; 2003.
6. Secretaria Municipal da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde/COSAC- DATASUS; SIAB- Sistema de informação de Atenção
Básica: consolidado das famílias cadastradas do ano de 2003 modelo PSF; equipe 137-137 CSII V das Belezas Psf, 45-DS J S Luiz
zona urbana, novembro 2003.
7. Silva M.J.P.,Pereira L.L., Benko M.A., Educação continuada: estratégias para o desenvolvimento do pessoal de enfermagem. São
Paulo (SP): Editora da Universidade de São Paulo; 1989.
8. Cf. Pimentel M. Problemática da educação continuada nas instituições de saúde. Rev. Paul. Enf. 1991 maio/agosto; 10(2): 72-74.
9. Nuñez H.M.F.Terapias alternativas/complementares; o saber e o
fazer das enfermeiras do DA-71 Santo Amaro. [Dissertação] São
Paulo (SP): Escola de enfermagem da USP; 2002.
10. Burkhard G. Tomar a vida nas próprias mãos: como trabalhar na
própria Biografia o conhecimento das leis gerais do desenvolvimento humano. São Paulo: Antroposófica; 2000.
11. Baldi V.M. Enfermagem e antroposofia: uma possibilidade de diálogo, [tese] Ribeirão Preto (SP): Escola de Enfermagem da USP; 2003.
Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):22-27
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