Autorrealização: como os discursos de Veja e IstoÉ orientam o comportamento
contemporâneo através do individualismo1
Alexandre Rossato AUGUSTI2
Universidade Federal do Pampa, São Borja, RS
RESUMO
Analisando-se reportagens de capa da revista Veja em trabalho anterior, foram
mapeados os valores dos quais a revista se apropria para nortear o comportamento
contemporâneo. Medida a frequência com que aparecem em Veja, indicam-se saúde,
beleza, prazer e inteligência como os valores que formam o eixo dominante a partir do
qual funciona o discurso da revista em relação aos valores que direcionam o
comportamento contemporâneo.3 Nas reportagens analisadas, saúde está presente em
77,27% do corpus, enquanto inteligência aparece em 54,54%. Realizo um pequeno
recorte, no presente trabalho, para demonstrar como Veja apresenta estes dois valores de
autorrealização e traço um paralelo com IstoÉ, apontando como funciona o discurso da
última na reportagem selecionada, capa do exemplar de 28 de agosto de 2013.
PALAVRAS-CHAVE: jornalismo; revista; comportamento; valores; autorrealização
Em pesquisa posterior4, desenvolvida em 2008, demonstrou-se que o valor mais
frequente no corpus analisado de Veja – a saber, saúde – é apresentado de modo muito
similar em relação às semanais de informação Época e IstoÉ. No presente trabalho,
propõe-se uma nova avaliação sobre a continuidade dessa abordagem, verificando-se
uma reportagem de capa de IstoÉ, que destaca sobretudo os dois valores de
autorrealização mais defendidos pelo discurso de Veja, ou seja: saúde e inteligência.
A metodologia utilizada é a Analise do Discurso de linha francesa, a partir da
qual são adaptadas algumas ferramentas para viabilizar esta análise. Os principais
referenciais teóricos têm por base autores como Zigmunt Bauman, Anthony Giddens e
Gilles Lipovetsky, cujos apontamentos teóricos direcionam para a constatação de que o
1
Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho Estudos em Jornalismo do V SIPECOM - Seminário Internacional de
Pesquisa em Comunicação.
2
Jornalista formado pela Faculdade de Comunicação Social da UFSM; mestre pelo Programa de Pós-Graduação em
Comunicação e Informação da UFRGS; doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da
PUCRS; e professor adjunto do Curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, da UNIPAMPA; e-mail:
[email protected]
3
Tal pesquisa resultou em minha dissertação de mestrado, intitulada Jornalismo e comportamento: os valores
presentes no discurso da revista Veja (2005), e desenvolvida através do PPGCOM da UFRGS.
4
Apresentada no artigo intitulado Os valores presentes no discurso jornalístico sobre comportamento das revistas
Veja, Época e IstoÉ, publicado nos anais do VI Congresso SOPCOM, realizado em Lisboa (2009).
1
indivíduo contemporâneo é acentuadamente orientado para o individualismo, através da
afirmação de determinados valores, como saúde e inteligência, pertencentes ao tipo
motivacional5 autorrealização. Nesta direção, o jornalismo aparece como um campo
que reforça esta lógica, suscitando constantes decisões sobre o comportamento.
Podemos pensar sobre a influência da mídia em nossa cultura cotidiana a partir
da posição que assumem os valores individualistas, que sugerem a transformação dos
modos de vida, dos gostos e dos comportamentos.6 Bauman (2001) caracteriza a
individualidade contemporânea como uma fatalidade, não uma escolha. Isso se deve,
explica o autor, justamente ao cenário da liberdade individual de escolher, onde não
existe a opção de escapar à individualização. Segundo Giddens (2002), o indivíduo vive
uma biografia reflexivamente organizada em termos do fluxo de informações sociais e
psicológicas sobre os possíveis modos de vida.
Defende-se o jornalismo como um campo atravessado por relações de poder e
que exerce influência ativa na construção das notícias nas mais diversas etapas de sua
produção, atuando também ativamente na construção da realidade. A teoria jornalística
que provavelmente apresenta com mais propriedade alguns aspectos importantes para o
estabelecimento de relações com as pesquisas citadas é a teoria interacionista,
sustentada sob o enfoque construcionista (Traquina, 2004). As notícias, sob esta
perspectiva, são o resultado de um processo de produção definido como a percepção,
seleção e transformação de uma matéria-prima, reconhecida como acontecimento, em
um produto (as notícias).
O atual trabalho também considera o jornalismo sob a perspectiva discursiva. A
revista Veja é um órgão informativo de alta circulação, no qual o saber e o poder que o
constituem determinam a estrutura de seu discurso. Por extensão, pode-se pensar
também em IstoÉ a partir desta lógica, conforme se verifica adiante. A opção por atentar
para o discurso se deve a sua constituição como ferramenta que permite a observação de
significações que remetem para outros lugares discursivos, diferentes daqueles
facilmente observados no texto. Entretanto, compartilha-se da opinião de Rosa (2002),
5
Conforme Tamayo (1994, p. 272), um tipo motivacional é um fator composto por diversos valores que
apresentam similaridade do ponto de vista do conteúdo motivacional.
6
Lipovetsky (2004) afirma ser dificilmente contestável a ideia de que a mídia exerce um poder social em matéria de
transformação de modos de vida, dos gostos e dos comportamentos.
2
para quem o discurso jornalístico não reflete a realidade, traduzindo-a e construindo-a
através de recursos discursivos, simulando realidades a partir do sistema próprio de cada
veículo em que os jornalistas captam um certo número de informações e que são
transformadas em notícias por meio do discurso perpassado pelas rotinas produtivas,
experiência do jornalista e pela ideologia e cultura do veículo.
Pêcheux (apud MARIANI, 1999) define discurso como efeito de sentido entre
interlocutores. Os sentidos não estão nas palavras, coisas ou sujeitos, sendo formados no
momento em que se dão os atos verbais e estes materializam uma relação com o
momento histórico e com o lugar social ocupado pelos interlocutores em uma interação
verbal. Orlandi (2001, p. 44) extrai de Pêcheux o conceito de sentido:
O sentido é sempre uma palavra, uma expressão ou uma proposição
por uma outra palavra, uma outra expressão ou proposição; e é por
esse relacionamento, essa superposição, essa transferência
(metaphora), que elementos significantes passam a se confrontar, de
modo que se revestem de um sentido. Ainda segundo este autor
[Pêcheux], o sentido existe exclusivamente nas relações de metáfora
(realizadas em efeitos de substituição, paráfrases, formação de
sinônimos) das quais uma formação discursiva vem a ser
historicamente o lugar mais ou menos provisório.
O conceito de formação discursiva7 como o “lugar da construção do sentido (sua
„matriz‟, por assim dizer)” (PÊCHEUX apud ORLANDI, 1993, p. 108) possibilita
entender que o sentido muda de acordo com a posição de quem o emprega, sendo
determinado por “posições ideológicas postas em jogo no processo social-histórico em
que as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é, reproduzidas)”.
(PÊCHEUX apud ORLANDI, 1993, p. 108).
Orlandi (2001) faz referência aos dois processos que articulam o discurso: a
paráfrase e a polissemia. Podemos compreendê-los da seguinte forma: 1) paráfrase – um
movimento de reiteração do mesmo, ou seja, posso dizer o mesmo de várias maneiras;
2) polissemia – há permissão para que sentidos diferentes apareçam e conversem.
As noções de paráfrase e sentido foram pressupostos essenciais para identificar
as marcas discursivas dos valores representados por Veja em suas matérias sobre
7
Cf. Orlandi (2001, p. 43), a partir de Pêcheux, a formação discursiva se define como aquilo que, numa formação
ideológica dada, determina o que pode e deve ser dito.
3
comportamento e apontar como elas constroem um efeito de reiteração ao longo de
textos diversos, já que se verificaram 22 reportagens de capa sobre comportamento e
considerou-se a frequência com que os valores elencados apareceram nesses
exemplares.
Veja, Época e IstoÉ evidenciam o jornalismo como uma instituição com poder
normatizador. As revistas assumem uma postura capaz de ditar normas para o leitor.
Remetendo o saber científico para ele, os discursos destes meios jornalísticos apontam
para o homem contemporâneo aquilo que deve determinar sua conduta. Segundo
Nascimento (2002), uma das principais características do discurso de Veja é pretenderse explicativo. Época e IstoÉ também participam dessa característica.
Rokeach (apud HERRIOT, 1976, p. 25) identifica duas funções cumpridas pelos
valores: uma diz respeito a padrões que orientem a nossa conduta, ajudando-nos, por
exemplo, a “avaliar e julgar, a louvar e a lançar culpas sobre nós mesmos e os outros”; a
segunda função, que ele denomina motivacional, refere-se ao componente que expressa
nossos esforços no sentido de seguir um valor como, por exemplo, quando nos
esforçamos por ser honestos.
O comportamento de cada indivíduo é aceito pelos seus próximos quando
subordinado a parâmetros (D‟AMBROSIO, 2000), que denominamos valores e que
determinam os acertos e os equívocos na produção e utilização das intermediações
criadas pelo homem para a sua sobrevivência e transcendência.
É a partir dos tipos motivacionais, apontados por Schwartz e Tamayo (1994) que
proponho pesquisar os valores individualistas presentes das matérias de comportamento.
Neste artigo são considerados como demonstrativo de análise apenas os valores saúde e
inteligência.
O homem, pela sua própria natureza, luta pela sua autorrealização, e o seu
cabedal de valores se desenvolve com esse esforço (HORNEY, 1966). Ele é direcionado
a pensar que o ideal, para nós e para os outros, consiste sempre na libertação e no
cultivo das forças que levam à autorrealização. O ser humano desenvolve, se encontrar
condições favoráveis, suas próprias potencialidades, as forças vivas que são peculiares a
seu eu: a clareza e a profundidade dos seus próprios sentimentos, pensamentos, desejos
e interesses; a habilidade de canalizar os seus próprios recursos; o poder da sua força de
4
vontade; as capacidades ou talentos especiais que possa ter; a faculdade de expressar e
de se por em contato com os outros por meio de seus sentimentos espontâneos. Para
Horney, tudo isso vai ajudá-lo a encontrar o seu conjunto de valores e os seus objetivos
de vida.
Ramos (1980) define a autorrealização como uma necessidade existencial. Frick
sintetizou o pensamento de numerosos psicólogos humanistas-existenciais ao escrever
que “o organismo humano é guiado, energizado e integrado por uma necessidade ou
motivo soberano, o de auto-realização.” (FRICK apud RAMOS, 1980). Guiar, energizar
e integrar é uma necessidade soberana porque inclui a satisfação de todas as outras
necessidades básicas do homem. Essas necessidades constituem as motivações mais
profundas que levam as pessoas a se comportarem das mais variadas maneiras.
Segundo Schneider (1985), o homem não é livre para escolher entre ter ou não
ter ideais, mas o é para escolher entre diferentes espécies de ideias, ou seja, ideais de
poder e destruição, de razão e amor, pois a necessidade de um sistema de orientação faz
parte intrínseca da existência humana. O comportamento se torna, desta forma, cada vez
mais flexível, existindo uma participação sempre mais individual no quadro de um
esquema coletivo.
Análise dos Valores
A análise de 22 reportagens de capa da revista Veja, sobre comportamento,
definiu os principais valores que a revista destaca como centrais para nortear o
comportamento contemporâneo. Com o objetivo de se compreender como Veja constrói
comportamentos contemporâneos e institui sentidos sobre os valores que os norteiam,
foram mapeados os valores da escala de Schwartz e distribuídos conforme a freqüência
com que aparecem em Veja. O quadro abaixo demonstra essa frequência, organiza esses
valores de acordo com os grupos em que foram identificados e aponta ainda os tipos
motivacionais referentes a cada valor.
5
Quadro 4: Valores estabelecidos por Schwartz, antecedidos pelos grupos em que foram
reunidos, e seguidos dos tipos motivacionais a que pertencem e da frequência com que
aparecem em Veja.
Grupos
Dominantes
Intermediários
Valores
Tipos motivacionais
Freqüência
Saúde
Autorrealização
77,27%
Prazer
Hedonismo
54,54%
Beleza
Hedonismo
54,54%
Inteligência
Autorrealização
54,54%
Riqueza
Poder social
40,90%
Vida espiritual
Autodeterminação
40,90%
Sucesso
Autorrealização
36,36%
Que goza a vida
Hedonismo
31,81%
Criatividade
Autodeterminação
31,81%
Autodeterminação
Autodeterminação
31,81%
Responsabilidade
Autorrealização
27,27%
Autoridade
Poder social
27,27%
Abertura
Autodeterminação
27,27%
Independência
Autodeterminação
27,27%
Poder social
22,72%
Capacidade
Autorrealização
18,18%
Liberdade
Autodeterminação
18,18%
Audácia
Estimulação
18,18%
Devoção
Autodeterminação
13,63%
Sentido da vida
Estimulação
13,63%
Sabedoria
Autorrealização
9%
Ambição
Autorrealização
9%
Vida variada
Estimulação
9%
Polidez
Autorrealização
4,5%
Influência
Poder social
4,5%
Auto-respeito
Autodeterminação
4,5%
Curiosidade
Autodeterminação
4,5%
Vida excitante
Estimulação
4,5%
Reconhecimento
poder social
Residuais
social
e
6
A reportagem de IstoÉ intitula-se “O nascimento da inteligência” e aponta as
condições de saúde necessárias para que os pais possam gerar filhos inteligentes e
desenvolver suas aptidões intelectuais, bem como manter e melhorar também a saúde
dos filhos. A reportagem faz referência à conduta do leitor, reafirmando sua condição de
público que acredita no veículo e que deveria seguir suas orientações. A chamada de
capa para esta reportagem, intitulada “Como nasce a inteligência” remete a esta ideia,
quando afirma “Saiba o que fazer para que seu filho seja mais inteligente”. Para isso, o
conhecimento científico funciona como legitimador do discurso do veículo, da mesma
forma que ocorre em Veja. Diversas vezes os dados científicos são assegurados pelas
fontes especializadas, que legitimam de forma credível as informações fornecidas ao
leitor.
Para o presente artigo, consideremos que as marcas indicativas dos sentidos de
determinadas formações discursivas (FDs) aparecem em itálico para facilitar a
percepção da análise. Também foi criado um código para as reportagens (apenas de
Veja) às quais as seqüências discursivas (SDs) se referem, identificando esses textos
com a letra T.8
Foi feito um mapeamento da presença dos valores saúde e inteligência, o que
nos permite compreender como as revistas instituem sentidos sobre ele, construindo,
assim, comportamentos contemporâneos. Apresentam-se agora alguns exemplos,
ressaltando-se que as SDs têm caráter ilustrativo e não exaustivo, ou seja, não são a
totalidade das SDs efetivamente analisadas.9
No que se refere à saúde, consideram-se os sentidos referentes ao que é
conveniente à saúde tanto física quanto mental. Mentalidade limpa e bem-formada, que
8
Títulos das reportagens analisadas no mapeamento de todos os valores propostos pela dissertação: T 1 – A conquista
do equilíbrio da mente; T 2 – Não perca o sono; T 3 – O homem em nova pele; T 4 – Você tem medo de quê?; T 5 –
Todo mundo quer fazer Ioga; T 6 – O segundo vestibular; T 7 – Quando começamos a crer; T 8 – É de lei: o direito à
beleza; T 9 – Decida: seu sucesso depende de suas escolhas; T 10 – O que torna você sexy?; T 11 – Stress; T 12 – A
tirania adolescente; T 13 – No mundo da Lya; T 14 – Mentes que aprisionam; T 15 – Design: o poder do belo; T 16 –
O menu que prolonga a juventude; T 17 – A descoberta do talento; T 18 – Mudança radical; T 19 – 10 regras fáceis
para educar seus anjinhos; T 20 – Os donos de si; T 21 – Viver mais e melhor; T 22 – Menino ou menina?
9
A análise dos 30 valores trabalhados na dissertação compreendeu 402 seqüências discursivas. As SDs referentes ao
valor saúde são numeradas considerando essa totalidade de Veja. As SDs mapeadas na reportagem analisada de IstoÉ
desconsideram os textos que apoiam as ilustrações, já que, apesar de estarem repletos de referências aos valores
mapeados, são constituídos por informações mais técnicas e muito semelhantes em sua estrutura, não enriquecendo a
análise discursiva quanto aos mecanismos variáveis de atuação discursiva.
7
proporciona bem-estar ao espírito, também caracteriza um estado saudável, essencial
para a conquista da autorrealização.
SDs Mapeadas em Veja
Saúde
Também é importante seguir uma dieta alimentar saudável e praticar exercícios físicos
moderados, como ioga e natação. Essas medidas simples resolvem o problema de até 70% dos
insones. (SD 208; T 2)
Os médicos admitem que pessoas que rezam ou freqüentam igrejas regularmente: vivem mais;
correm menos riscos de adquirir vícios; têm mais chances de abandonar vícios; contraem
menos doenças sexualmente transmissíveis; têm menos depressão; sofrem menos de stress. (SD
225; T 7)
Um corpo saudável, por exemplo, ajuda a reagir melhor às situações estressantes. A prática
regular de atividades físicas auxilia no controle da pressão sanguínea e mantém o coração
funcionando em ritmo adequado. (SD 233; T 11)
“Fico imaginando que se a gente fizesse uma faxina em nossos compromissos e deveres, boa
parte desapareceria ligeiro no ralo do bom senso. [...] sobrariam alguns compromissos reais, dos
quais não há como fugir: provavelmente saúde, prestação do apartamento, escola (a pública
estando como está), e alguns outros (poucos).[...]” (SD 234; T 13)
Hoje, psicólogos evolucionistas defendem suas teorias sobre a beleza calcados na premissa
darwiniana de que ela serve para assegurar a sobrevivência da espécie humana. A preferência
dos homens por mulheres jovens, de quadris largos e cintura fina – atributos ligados à fertilidade
– seria uma forma de garantir a geração de filhos saudáveis. Já as mulheres se sentiriam
atraídas por homens altos e fortes, porque esses seriam atributos de bons provedores e de
defensores da prole em qualquer circunstância. (SD 111; T 15)
Naturais e esperados, os rituais de controlar se está tudo bem com o bebê são importantes para a
segurança e a saúde física e emocional da criança. (SD 239; T 14)
Aos 55 anos, um empresário paulista que é católico devotíssimo e prefere não se identificar,
casado com uma moça trinta anos mais jovem, já teve quatro filhos por fertilização in vitro e
escolheu o sexo de todos eles. “Temos três meninos e uma menina. Ficamos tranqüilos porque
só foram implantados embriões do sexo escolhido e, além disso, perfeitamente sadios”, diz. (SD
275; T 22)
8
Inteligência
Uma pesquisa inédita da Universidade Federal do Rio de janeiro ouviu 1300 homens e
mulheres, entre 20 e 50 anos, para saber o que as pessoas acham que mais as atrai sexualmente.
A maioria das mulheres respondeu “inteligência”, enquanto mais da metade dos homens disse
“beleza” (SD 14; T 10)
A parte boa é que também se constatou que, se a relação perdura, homens e mulheres passam a
valorizar traços mais profundos, como inteligência, senso de humor e orientação religiosa. (SD
167; T 10)
“„Mas o que pode haver de positivo em ficar velho?‟ perguntaram-se um dia. [...] As qualidades
interiores vão sobressaindo, afirmando-se sobre as físicas. Ao contrário da pele, cabelos, brilho
de olhar e firmeza de carnes, elas tendem a se aprimorar: inteligência, bondade, dignidade,
escutar o outro. Capacidade de compreender. Mas é preciso que exista algo interior para
sobressair: o desgaste físico será compensado pelo brilho de dentro.”10 (SD 158; T 13)
“Pessoas inteligentes são aquelas que fazem das dificuldades oportunidades”11 (SD 169; T 17)
Leitura por prazer12
Ler proporciona o crescimento pessoal, estimula o raciocínio e contribui para a longevidade.
Quem lê costuma ser mais ativo e desenvolve idéias próprias (SD 39; T 20)
Descobertas recentes indicam que manter uma vida intelectual satisfatória é uma das maiores
garantias de saúde sensorial que alguém pode se dar. Manter a cabeça funcionando prolonga a
vida e a saúde dos neurônios. Na verdade, a atividade mental talvez faça mais do que isso:
alguns estudos sugerem que ela pode ocasionar o nascimento de novos neurônios, mesmo na
idade avançada [...] (SD 173; T 21)
É exagero imaginar um mundo onde as preferências culturais e a eugenia se impusessem (todos
seriam homens, loiros, de olhos azuis, empreendedores, inteligentes e sem doenças). Mas as
escolhas à disposição da parcela da humanidade que pode bancá-las são cada vez maiores. (SD
140; T 22)
SDs Mapeadas em IstoÉ
No caso de IstoÉ, opta-se por apontar as SDs que apresentam ambos os valores
(saúde e inteligência) simultaneamente, a fim de exemplificar melhor o cruzamento
entre eles. A matéria em questão privilegia esta opção, pois aponta a saúde como
requisito primordial para os cuidados com a saúde dos filhos. As sequências discursivas
neste caso não são numeradas, já que todas se referem a uma mesma reportagem.
10
Trecho do livro Perdas & Ganhos, de Lya Luft.
Definição dada pelo aeroviário Wandrei Passetto.
12
Intertítulo de box.
11
9
Salienta-se, entretanto, que também não representam a totalidade e sim apenas um
demonstrativo.
Pesquisas revelam que fatores como amamentação, suplementação de vitamina D e até a
obesidade dos pais terão impacto no nível do QI da criança do seu nascimento até o resto de
sua vida.
[...] filhos de mães com Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 30 (já classificado como
obesidade) têm maior chance de desenvolver limitações cognitivas. Eles manifestaram três
pontos a menos de QI (quociente de inteligência) em relação aos nascidos de mulheres de peso
normal.
No Canadá, uma análise de vários trabalhos [...] feita pela Universidade McGill concluiu que
crianças nascidas de mães que receberam suplementação do composto [iodo] na gravidez e
após o nascimento tiveram QI entre 12 e 17 pontos mais alto do que as demais.
Igual influência apresenta a vitamina D, segundo pesquisas recentes. Pesquisadores do Centro
de Pesquisas e Desenvolvimento em Epidemiologia Ambiental de Barcelona, na Espanha,
acompanharam 1.820 mães e verificaram que os filhos daquelas com níveis adequados do
composto [vitamina D] na gravidez tiveram melhor desempenho em testes de inteligência do
que filhos de mães com déficit da substância.
[...] outra constatação é a de que o stresse materno na gestação impacta negativamente a
inteligência da criança. “Ele causa danos ao desenvolvimento do córtex pré-frontal”, explica o
neurocientista Antonio Pereira, do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte.
“Mostramos uma conexão direta entre o aleitamento materno e a inteligência”, disse à ISTOÈ
Mandy Belfort, professora de pediatria da Escola de Medicina de Harvard (EUA) e uma das
líderes do estudo. Ela e sua equipe seguiram 1.312 bebês entre 1999 e 2010. Entre os primeiros
achados, o grupo descobriu uma relação interessante. Nas crianças de 3 anos, a cada mês
adicional de amamentação foi registrada uma média de 0,21 ponto a mais em testes de QI em
comparação às que não tiveram o tempo extra. A mesma influência positiva permanece aos 7
anos, em que os participantes contabilizavam um acréscimo de 0,35 ponto em testes orais e
0,29 em exames não verbais.
No Brasil, um trabalho da PUC de Pelotas (RS) encontrou a mesma relação [refere-se à relação
estabelecida na sequência discursiva anterior]. Em 2002 e 2003, os cientistas acompanharam
616 bebês para avaliar a permanência e a frequência com que eram amamentados. Quando as
crianças completavam 8 anos de idade, elas foram submetidas a testes de QI. “Os bebês que
mamaram por mais de seis meses obtiveram desempenho 30% superior”, explica a pediatra
Elaine Albernaz, responsável pela pesquisa. De acordo com o pediatra carioca Daniel Becker,
do Instituto de Pediatria do Universidade Federal do Rio de Janeiro, o benefício transcende o
potencial de raciocínio. “O aleitamento contribui tanto para a inteligência do ponto de vista
cognitivo como social e afetivo”, afirma.
10
Considerações Finais
O artigo foi proposto a partir de teorias e pesquisas que defendem a existência de
uma cultura do individualismo, conforme a própria análise demonstrada reitera. A
posição que assumem os valores individualistas, que sugerem a transformação dos
modos de vida, dos gostos e dos comportamentos, ajuda-nos a pensar na cultura
contemporânea, que é influenciada pela mídia. Tal ideia, defendida por Lipovetsky, e
sugerida por Bauman e Giddens, é também reiterada aqui e exemplificada com uma
pesquisa em âmbito nacional.
Observa-se ainda com a presente pesquisa que as orientações de Veja e IstoÉ
aparecem, geralmente, amparadas em “fatos”, afirmados por depoimentos de pessoas
que vivem ou viveram as situações abordadas pelas matérias, estatísticas, palavras de
especialistas e estudiosos renomados. São fontes, dados e demais informações que
oferecem crédito e ajudam a legitimar as revistas como vozes da verdade, do saber.
Tenta-se, assim, conquistar e garantir aquele que talvez seja o grande capital simbólico
do jornalismo: a credibilidade. Consequentemente, ganha-se público.
Este último estudo sobre valores individualistas em revistas semanais de
informação no Brasil permite constatar que ao menos alguns dos valores principais
afirmados neste tipo de discurso jornalístico continuam presentes e frequentes,
norteando igualmente os leitores a partir da lógica individualista.
Verifica-se ser possível trabalhar com os sentidos referentes à manutenção ou
conquista de uma vida saudável, em relação ao que é conveniente à saúde tanto física
quanto mental, bem como àqueles que defendem a relevância de conquistar e garantir a
inteligência como requisito para uma vida de autorrealização.
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11
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12
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como os discursos de Veja e Isto É orientam o comportamento