Maria de Fátima Sousa Silva, Ensaios sobre Eurípides, Lisboa, Livros
Cotovia, 2005, 404 pp. [ISBN 972-795-133-3]
Como esclarece a A. na “Nota Introdutória” (p.9), foram reunidos,
no presente volume, nove estudos, na sua maioria já conhecidos de
diversas publicações, mas outros inéditos, que apesar de incidirem sobre
temáticas diversas de diferentes peças de Eurípides, constituem, no seu
conjunto, «um todo que engloba aspectos relevantes para uma análise de
um poeta tão marcante dentro do séc. V a.C. ateniense».
No primeiro ensaio deste livro, intitulado “O bárbaro e o seu
mundo no teatro de Eurípides”, a Professora Maria de Fátima Sousa
Silva, depois de tecer algumas considerações gerais sobre os matizes
diversificados que, no antigo mundo grego, foram colorindo a dicotomia
Bárbaro/Grego, preocupa-se em demonstrar, com exemplos bem ilustrativos e expressivos, como essa questão ainda permanecia actual na época
conturbada de Eurípides, e como o tragediógrafo a explorou dramaticamente em algumas das suas peças (nomeadamente Ciclope, Ifigénia entre
os Tauros e Helena), onde o efeito realista, o tom crítico e o pendor
reflexivo viriam a contribuir para uma reconversão dos tradicionais
padrões narrativos ao género dramático. Uma análise fluida, perspicaz e
bem informada, que percorre transversalmente aspectos peculiares da
técnica dramática de Eurípides, revela como, nas três peças supra citadas,
os espaços da acção, o topos da xenia, as questões políticas e as práticas
religiosas são reequacionadas, em função da actualidade e da intelectualidade coevas, fazendo com que a relação civilizado/selvagem estimule
um novo tipo de questionamento dos valores tradicionais, que passe pela
aceitação da diferença, e que ela possa ser perspectivada como um contributo valioso para uma «verdadeira cooperação entre os homens» (p.43).
Uma reavaliação do conceito de barbárie subjazia também ao paradigma
da lendária Guerra de Tróia, que Eurípides utilizou como pano de fundo
de duas tragédias (Hécuba e As Troianas), produzidas numa época de
pós-guerra, em que os atenienses experimentavam as agruras do sofrimento causado pela violência bélica e a instabilidade político-social de
uma pólis em decadência. Assim o conflito entre Gregos e Asiáticos
Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
assumiria, nessas peças de Eurípides, outras nuances carregadas de simbolismo, e também dolosamente dramáticas, que incentivavam uma reavaliação da «velha polémica Grego/Bárbaro, perspectivada noutros
termos: a noção de um Grego selvagem e de um Bárbaro superior vem
subverter por completo as tradicionais regras do jogo à melhor maneira
do poeta revolucionário e do pensamento sofístico de que se sentiu muito
próximo» (p.46). A A. analisa ainda a subversão dessa dicotomia tradicional, numa das primeiras peças de Eurípides, Medeia, onde a exótica
heroína ‘bárbara’, antecipando outras figuras menores de estrangeiros
helenizados, encarna, de forma violentamente trágica, a oposição entre
barbárie e civilização, insinuando que as diferenças e os conflitos entre os
homens parecem ter a sua origem não tanto nas fronteiras geográficas,
mas fundamentalmente em termos de nomos e physis.
Sob o título que se segue, “Philia e as suas condicionantes na
Hécuba de Eurípides”, já conhecido de uma publicação anterior, encontramos um estudo da peça que Eurípides consagrou à pungente figura de
Hécuba, e que, na opinião da A., ainda hoje constitui «um paradigma de
sofrimento, de derrota, de solidão, levadas a um limite extremo» (p.94).
Retomando alguns temas e topoi abordados anteriormente, a A. concentra agora a sua atenção na problemática questão dos «laços familiares»
e no topos da philia, proporcionando-nos uma leitura aturada e rigorosa
da complexa estrutura dramática de uma tragédia, em que a «amizade»
resiste como «um princípio salvador num mundo em desordem, que os
deuses e a justiça divina parecem ter esquecido ou abandonado» (p.13).
O terceiro ensaio recupera igualmente um estudo publicado
anteriormente e aborda um tema — o do ‘sacrifício’ —, tradicionalmente
associado às origens do género dramático e à inovadora técnica
dramático-teatral do «πολυµήχανος» Eurípides. Em “Sacrifício
voluntário. Teatralidade de um motivo euripidiano”, sublinha-se a ideia
de como o mais controverso dos tragediógrafos áticos ao acrescentar ao
tema tradicional do sacrifício um elemento inovador, «o da adesão
voluntária» (p.129), introduziu na estrutura da tragédia um tipo de
episódio invulgar, inesperado até, mas inquestionavelmente eficaz em
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termos dramático-teatrais. O facto de Eurípides ter escolhido preferencialmente como protagonistas das cenas de sacrifício voluntário figuras
femininas jovens, pelos maiores efeitos patéticos que podiam produzir no
público, os episódios de Macária (Heraclidas), de Políxena (Hécuba) e de
Ifigénia (Ifigénia e Áulide) são aqueles que a A. elege para tecer algumas
considerações de fundo sobre a relevância dramática e a eficácia teatral
deste motivo euripidiano. Compreensivelmente, por isso, não foi incluído,
neste estudo, o episódio de Meneceu, de Fenícias. Depois de uma análise
meticulosa dos três episódios de sacrifícios voluntários femininos, a A.
conclui: «uma distância, na graduação do efeito teatral e densidade
dramática, separa os episódios de Macária e Políxena», enquanto que em
relação ao sacrifício de Ifigénia, «embora seja concebido segundo o
mesmo plano, ele é sobretudo motivo para o desencadear de sucessivos
confrontos psicológicos, de consequências imprevistas» (p.165).
Uma comunicação apresentada, em Abril de 2005, no Colóquio
hispânico Fedras de Ayer e de Hoy, subjaz ao texto do quarto ensaio, intitulado “Fedras de Eurípides. Ecos num escândalo”. Depois de tecidas
algumas considerações gerais sobre as preferências temáticas mais polémicas de Eurípides, e sua repercussão nas críticas da comédia e em
Aristóteles, procura-se identificar, de forma contextualizada, os
elementos tradicionais do mito de Fedra, na literatura grega anterior à
tragédia, para providenciar um enquadramento mais esclarecido das
Fedras euripidianas, que independentemente das diferenças entre as duas
produções dramáticas, procurariam representar uma projecção estéreotipada da vulnerável natureza feminina, irremediavelmente sujeita à força
destrutiva do desejo erótico. A avaliação do drama de Fedra, subjacente à
versão conservada em Hipólito (Stephanephoros), parece todavia reger-se
pela duplicidade e pela ambiguidade de uma caracterização muito
complexa, influenciada certamente pelo pensamento dos sofistas, que por
um lado atenuava a faceta adúltera e incestuosa da mulher casada, vítima
de um eros irrefreável, mas por outro lado não a ilibava completamente
da paixão fatal, porque, como a A. bem observa, «falta-lhe a força de
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
vontade para agir bem, a resistência para ultrapassar a tentação para o
mal»(p.183).
Em “Etéocles de Fenícias. Ecos de um sucesso”, publicado em
Humanitas (1991), apresenta-se um sugestivo estudo sobre a personalidade de Etéocles e o papel dramático que Ésquilo e Eurípides lhe atribuíram, nas peças Sete contra Tebas e Fenícias, respectivamente. O facto de
retomar um mito tradicional, e que já fora objecto de uma representação
anterior na produção de outro tragediógrafo, não inibiu Eurípides de
experimentar outras técnicas dramáticas e efeitos teatrais, que actualizavam, de modo inovador e perspicaz, uma história de todos conhecida.
Sublinha a A. que as duas peças, inspiradas no mesmo mito, «se concretizaram, por força de um entendimento dramático diverso, em duas realizações de estrutura, expressão e sentido diametralmente opostos» (p.197).
A austeridade e a majestade da figura esquiliana, que apareciam como um
elo de coesão dramática, esvanecem-se na peça de Eurípides, porque representado como um homem comum, semelhante a muitos outros, exposto por isso a todas as limitações que condicionam a natureza humana.
Dedicado a um tema literário recorrente já na Antiguidade, o
estudo intitulado “Expressão dramática do tema ‘viagem’. A Ifigénia
entre os Tauros de Eurípides”, apresentado numa conferência em 2005,
no Brasil, retoma a problemática dessa peça ‘romanesca’ de Eurípides,
onde o tema da viagem granjeia uma invulgar expressão dramática,
acrescentando à tragédia toda uma série de ingredientes típicos do modelo
aventuroso que o género épico — particularmente a Odisseia — havia
acolhido de um modo exemplar. Não é de admirar que, num tragediógrafo, por vezes, tão desconcertante e inovador como Eurípides,
os elementos convencionais da estrutura complexa que a aventura
reclamava tivessem sido adaptados, com inquestionável destreza e
eficácia, ao género dramático, onde pela palavra foi possível superar
todos os condicionalismos impostos pelo contexto teatral, como
demonstra a leitura circunstanciada que a A. nos oferece da peça.
Sob o título “Eurípides, crítico teatral”, recolhe a A. o texto de uma
conferência proferida em Espanha, em 2004, onde persegue, com argu-
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mentos sugestivos e convincentes, o trilho crítico de um tragediógrafo
que a comédia aristofânica não se cansou de censurar. Se bem que algumas peças euripidianos pareçam encerrar, ocasionalmente, breves apontamentos de crítica teatral, é em Helena que se podem rastrear indícios de
uma intencionalidade reflexiva metateatral mais consistente, não isenta de
significado dramático. Dentre as inúmeras observações e comentários
tecidos, ao longo da peça, pela rainha de Esparta, que, como argumenta a
A., se converte numa «projecção do poeta dentro da ficção dramática»
(p.244), é possível identificar uma série de questões de índole poético-teatral, como é o caso, por exemplo, do questionamento dos pormenores
do próprio mito ou das várias alusões a questões estruturais ou cénicas,
que, ao longo da peça, vão contribuindo para uma evolução profundamente invulgar e espectacular de uma intriga que conjuga mechane e
anagnorisis.
Em último lugar, surge um extenso ensaio consagrado a uma
temática muito pertinente e sugestiva, se tivermos em consideração um
dos aspectos mais marcantes e peculiares da poesia de Eurípides: «a sua
predilecção e sensibilidade pelos motivos visuais e pictóricos» (p.287).
Sob o título “Elementos visuais e pictóricos na tragédia euripidiana”
pretende-se realçar a plasticidade de alguns processos artísticos utilizados
pelo último dos tragediógrafos para recolorir, com tons mais atraentes e
expressivos, os espaços, os caracteres e as acções dos seus dramas.
O primeiro exemplo aduzido pela A. recupera uma peça já focada,
Fenícias. Procura-se agora demonstrar como o peso dos intertextos
esquiliano e homérico terá levado Eurípides a explorar estratégias
poético-dramáticas mais modernas — talvez inspiradas na técnica revolucionária do pintor Polignoto — fazendo com que o arquétipo mitológico
em que o drama se inspirava se actualizasse através de um processo que
pressupunha a reescrita da tradição, não só em termos poéticos, mas
também plásticos, pictóricos, sob a influência de outras formas artísticas.
Por exemplo, na cena de teichoscopia, uma técnica descritiva inusitada
terá pretendido estimular a imaginação do espectador a participar na
criação de uma moldura dramática, que conferisse «ao seu quadro
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
guerreiro (...) maior flexibilidade e consequentemente maior realismo»
(p.297). Mas o espírito criativo e plástico do tragediógrafo que parece
associar a pena ao pincel, distingue-se ainda na construção dos espaços
cénicos de outras peças. Por exemplo, Medeia e Bacantes, mas também
nas descrições ecfrásicas que, em Íon, se fazem do templo de Apolo e das
tapeçarias do deus que recobrem o exterior da tenda, ou que, em Electra,
encontramos na célebre ode coral que canta as armas e principalmente o
escudo de Aquiles. A descrição pictórica do exército grego feita pelas
mulheres do Coro, no párodo de Ifigénia em Áulide, figura como mais um
dos abundantes exemplos que mereceram, por parte da A., uma análise
minuciosa e bem enquadrada na problemática das respectivas peças.
Independentemente de Eurípides ter experimentado ou não a pintura,
antes de se dedicar à poesia, parece incontestável que, como conclui a A.,
as inúmeras «telas poéticas» das suas tragédias, bem como as próprias
referências que faz a esse outro tipo de arte, contribuem para «apoiar o
enquadramento dramático e cénico, alagar infinitamente as fronteiras
espaciais da acção, trazer à presença do público os acontecimentos extra-cénicos»(p.393). O espírito virtuoso e visionário do último tragediógrafo
ter-lhe-á despertado um gosto invulgar pelo visualismo que, no seu teatro,
se assumiria «para além de uma orientação estética pessoal da sua
sensibilidade de artista, um sintoma da posição crítica e céptica do poeta
em relação ao mito» (p.393-4).
Em suma, estamos perante uma colectânea de ensaios excepcional,
que revela o conhecimento aprofundado e actualizado que a Professora
Maria de Fátima Sousa Silva possui do drama euripidiano e, por isso,
representa um precioso instrumento de trabalho ao serviço de especialistas académicos, de estudantes de estudos clássicos e mesmo do leitor
em geral que se interesse pela obra daquele que, no seu tempo e no nosso,
ficou conhecido como um dramaturgo revolucionário e controverso, por
vezes desconcertante e algumas vezes incompreendido.
MARIA FERNANDA BRASETE
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
Homero. Ilíada. Trad. de Frederico Lourenço, Lisboa, Livros
Cotovia. 2005, 505 pp. [ISBN 972-795-118-X]
Com palavras naturalmente elogiosas recenseámos, no nº 6 desta
revista (pp.213-15), a tradução da Odisseia, aquando da sua publicação, e
ainda em primeira edição. Hoje contam-se já seis edições, o que nos
parece ser uma prova irrefutável do êxito que o excelente trabalho de
tradução da antiga epopeia de Ulisses colheu junto do leitor de língua
portuguesa. É evidente que, neste caso, o mérito tem que ser divido, pois
se por um lado há que homenagear o poeta genial que a criou —
o lendário Homero — por outro lado devemos reconhecer o contributo
valioso que o autor da tradução prestou à divulgação, no espaço cultural
português, de uma obra suprema de um cânone que não é nem ocidental
nem oriental, mas universal.
No ano de 2005, Frederico Lourenço, realizando um desejo já
formulado, brindou-nos com a publicação de uma versão portuguesa da
mais antiga epopeia homérica, a Ilíada. Fechou-se assim um ciclo na
história da cultura portuguesa que, só a partir de então, pôde contar com a
tradução integral das duas epopeias homéricas — por sinal, excepcionais.
A qualidade literária, o rigor estilístico, o ritmo harmonioso
sobressaem uma vez mais nesta versão portuguesa da mais antiga epopeia
homérica, com cerca de 17 000 versos, que só o trabalho persistente e
exímio de um helenista devotado e bem informado podiam converter num
texto que convida à leitura. O seu modo de fazer com que cada discurso,
cada frase, cada sintagma ou cada palavra conserve a sua importância
originária na economia da narrativa reflecte uma erudição sólida, actualizada, mas sóbria, que nunca inibe a fruição do texto.
A tradução é precedida de uma “Introdução”, de grande utilidade
para qualquer leitor, facultando uma abordagem bem informada, precisa e
clara de alguns dos tópicos mais discutidos pela crítica homérica e relevantes para a compreensão do poema.
Convidamos, por isso, todos os leitores a experimentarem o prazer
da leitura do poema que inaugurou a literatura ocidental, com o canto da
‘cólera destruidora’ de Aquiles.
Recensões e Notícias Bibliográficas
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
Terminamos, saudando uma vez mais esta magnífica publicação e
formulando o voto de que a editora Cotovia continue a servir, de forma
tão meritosa a cultura portuguesa, entregando à responsabilidade de
helenistas ou latinistas a tradução de obras da Antiguidade Clássica, que
serão para todo o sempre testemunhos inalienáveis da história da
Humanidade.
MARIA FERNANDA BRASETE
Francisco Oliveira, Paolo Fedeli, Delfim Leão (edd.), O Romance
Antigo. Origens de um género Literário, Coimbra, Universidade de
Coimbra–Università degli Studi di Bari, 2005, 281 pp. [ISBN 9729057-21-4]
São dezoito os estudos reunidos no presente volume, dedicado às
origens e persistência do romance antigo, numa edição conjunta do
Instituto e do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, e
do Departamento das Ciências da Antiguidade, da Universidade de Bari.
Num breve e conciso “Preâmbulo”, assinado por um dos editores
portugueses, Francisco Oliveira, esclarece-se que esta publicação
concretiza um projecto de dimensão internacional, nascido no âmbito da
linha de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra,
e que esteve na origem de um congresso realizado em Março de 2005.
Um texto sedutor e poético de um dos maiores mestres da Filologia
Clássica portuguesa, Walter de Sousa Medeiros, intitulado “Na Aurora do
conhecimento: do Túmulo à Pacificação”, abre da melhor maneira esta
colecção de artigos de reputados especialistas nacionais e estrangeiros,
evocando dois romances paradigmáticos da Antiguidade: o Satyricon de
Petrónio e o Asinus Aureus de Apuleio.
Uma discussão teórico-literária bem fundamentada e pertinente da
uexata quaestione, que engloba a problemática taxonómica da narrativa
de ficção da Antiguidade e a delimitação do género, constitui o cerne do
estudo de Marília Pulquério Futre Pinheiro, intitulado “Origens gregas do
género”.
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
No artigo de Maria do Céu Fialho, sob o título “Novas tendências
narrativas nas Argonáuticas de Apolónio de Rodes”, o epos do
bibliotecário de Alexandria é objecto de uma fecunda e importante
reflexão. Recordando alguns expedientes da técnica narrativa homérica
— nomeadamente o narrador, o motivo do sonho, o tema do nostos, os
símiles e a temática erótica — a A. pretende demonstrar como o
tratamento poético da expedição dos Argonautas pressupõe a utilização
de novas modalidades narrativas, não completamente estranhas ao padrão
da epopeia arcaica, em particular à Odisseia, mas genologicamente
inovadoras e com repercussões significativas ao nível da estrutura do
poema, das estratégias narrativas e da caracterização das personagens.
Seguidamente, Maria de Fátima Sousa Silva, em “O motivo do
sonho no Romance de Cáriton”, centra a sua leitura daquela que se pensa
ser a obra mais antiga do género (séc. I d.C.) na análise dum topos
literário proveniente da tradição literária anterior — épica e dramática,
principalmente —, mas que a ficção narrativa da época helenística
reconfigurou em termos discursivos, conforme as novas exigências do
género, para actualizar a sua eficácia no desenho dos caracteres e na
construção da intriga.
Em “Imagine Poetiche — Sulla funzione delle Bildeschreibungen
nel romazo di Achille Tazio”, Bernhard Zimmermann, começa por evocar
alguns dos passos mais emblemáticos da literatura grega que consagraram
a ekphrasis como um recurso retórico-literário permeável à dinâmica
evolutiva dos géneros da antiga literatura grega, desde os Poemas
Homéricos à Segunda Sofística, estendendo-se até à Época Bizantiza.
Quatro Bildeschreibungen presentes no romance Leucipe e Clitofonte, de
Aquiles Tácio, são objecto duma interessante análise, em que se
examinam as diferentes funções consignadas às descrições ecfrásicas,
quer no plano da estruturação narrativa da acção, quer na atitude
hermenêutica sugerida ao leitor.
De seguida, com o estudo de Maria Cristina de Castro-Maia de
Sousa Pimental, intitulado “Enquadramento histórico do Romance em
Roma”, inicia-se uma deslocação, geográfica e cronológica, para o
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
mundo da literatura latina. Detendo-se no “século fascinante” (p.71) que
foi o século I d.C., a A. propõe-se definir as coordenadas culturais e
históricas que nortearam a criação do romance em língua latina — em
particular o Satyricon de Petrónio —, tecendo as suas reflexões em torno
de duas questões fundamentais: «Que reflexo da época encontramos no
Satíricon? Para quem foi escrita esta fabulosa narrativa?» (p.74).
Os cinco artigos que se seguem são todos eles dedicados à exegese
do fragmentário romance de Petrónio, que continua a despertar o
interesse dos investigadores contemporâneos. Paulo Sérgio Ferreira
concentra-se no tema da escravatura, tomando como base de análise a
relação de Trimalquião com os escravos. Em “O uso paródico e satírico
do tema da escravatura na Cena petroniana”, pretende-se demonstrar
como um jogo de alusões, baseadas no hipotexto senequiano, serve para
questionar a humanitas do egocêntrico Trimalquião, bem como fazer eco
de um “desencanto pessimista que tantas vezes se pressente no texto
pretoniano” (p.103). Sublinhando a intencionalidade irónica e crítica do
Satyricon, o estudo de Delfim Leão, “Eumolpo e as correntes místicas
gregas”, afigura-se uma abordagem inovadora, orientada para um aspecto
particular que não tem colhido a atenção da crítica petroniana: a relação
entre a personagem do velho poeta Eumolpo e as correntes mistéricas
gregas. Paolo Fideli, sob o título “Il Labirinto nel Satyricon”, considera
que estilo de composição fragmentada da narrativa se aproxima muito
mais do que se poderia pensar dos modelos gregos, e a associação da
metáfora do labirinto à temática da viagem deve ser entendida não como
uma “refinada extravagância aristocrática”, mas como expressão poética
de um motivo típico dos romances de amor gregos: “o da purificação e da
iniciação do herói através da prova” (p. 127). Como o título sugere, o
trabalho de Rosabalda Dimundo, “Le novelle petroniane: forme di
riscrittura dei modeli”, foca a mescla genológica que entretece a narrativa
petroniana, onde a reconversão dos modelos tradicionais apela para uma
dinâmica de leitura activa e múltipla. Ainda dedicado ao romance
petroniano, o artigo de Eckard Lefèvre, “Pterons Kleidernovelle 12-15”,
examina a estrutura bipartida do episódio do “manto roubado”,
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
ressaltando que enquanto a primeira parte está mais próxima dos modelos
tradicionais, a segunda indicia um tratamento paródico de questões
judiciais da época.
O volume prossegue com dois estudos dedicados a Apuleio. Em
“O romance de Cárite em Apuleio”, assinado por José Luís Lopes
Brandão, oferece-se uma análise bem documentada dos elementos
trágicos da história de Cárite, cujo sentido último acolhe a influência
exercida pelas ideias professadas pelo cristianismo então florescente.
Cláudia Amparo Afonso Teixeira, em “As histórias no Asinus Aureus de
Apuleio e a sua relação com o romance”, toma como objecto de análise a
estruturação da odisseia de Lúcio, onde se integram diversas histórias
que, em sua opinião, se organizam em duas sequências narrativas
complementares: a primeira, constituída pelo conto idílico de Amor e
Psique e a história de Cárite e Hemo/Tlepólemo; a segunda, o adultério e
as histórias dos ladrões dos livros IX e X.
Muitos séculos depois, a história do romance conheceria uma outra
época de florescimento, durante o império bizantino. Quatro exemplares
romanescos desse período são tomados em consideração por Vitor Ruas,
em “Ethopoeia no romance bizantino do século XII”, para explicar as
implicações que o recurso à ethopoeia produziu na configuração deste
género narrativo.
Tendo sido a Historia Appollonii Regis Tyri um dos textos latinos
mais lidos na Idade Média e no Renascimento, e dos mais glosados na
literatura posterior, a sua actualização em Confessio Amantis incentiva
Paula Mota Carrajana a oferecer-nos um breve estudo comparado no seu
artigo, intitulado “Da Historia Apollonii Regis Tyri à Confessio Amantis:
Leituras de uma narrativa singular”.
Andrés Pociña, em “Comparações impróprias e próprias para
tentar compreender um género indefinido: Petrónio, Apuleio e o Dom
Quixote de 1605”, considera que «dificilmente se poderão achar duas
obras de estrutura e organização mais parecidas do que o Satyricon do
latino Petrónio e o Quixote do espanhol Cervantes» (p.222). É sua
opinião que apesar de o autor de Dom Quixote ter tido possivelmente um
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
conhecimento indirecto da narrativa petroniana, antes de 1605, ao
contrário do que aconteceu com as Metamorfoses de Apuleio, as várias
conclusões que se poderiam tirar da comparação entre os dois romances
latinos e a primeira parte do Dom Quixote (1605) não viriam resolver a
impossibilidade de definir este género literário.
Na senda dos estudos comparados, inscreve-se também o artigo de
João Domingues (Histórias “mais que verdadeiras” de Luciano ou de
Voltaire”) que, como o título indica, aborda a questão da recepção da
narrativa fantástica da História Verdadeira em autores franceses como,
por exemplo, Rabelais, Cyrano de Bergerac e Voltaire.
Por último, algumas questões genológicas, decorrentes da evolução
do romance como género narrativo que, desde a Antiguidade aos nossos
dias, se foi remodelando sob a influência de novos padrões estético-literários e de diversos estilos de época, constituem o âmago do estudo
de Ana Paula Arnaut, intitulado “Em trânsito: do romance ao romance?”
Para se avaliar o interesse desta publicação, bastará salientar o
mérito dos seus autores e o das duas instituições de estudos clássicos
envolvidas, bem como a temática tratada. A importância desta colectânea
reside na complementaridade dos diversos estudos que acompanham as
origens e sobrevivência de um género narrativo que das suas matrizes
greco-latinas conservou muitas das suas características temáticas e
formais.
Não é possível, no entanto, deixar de lamentar que em sete dos
dezoito artigos coligidos nesta edição, destinada não só a especialistas
mas também a um público mais alargado, mesmo até internacional, não
tenha sido incluído um “resumo”, e um dos estudos, escrito em língua
alemã, apresente, nesse mesmo idioma, um “résumé” (p.145).
Apesar desta observação de pormenor, registamos com agrado a
publicação deste volume, um importante instrumento de divulgação dos
estudos clássicos, em Portugal e no estrangeiro.
MARIA FERNANDA BRASETE
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
Aurelio Pérez Jiménez, José Ribeiro Ferreira e Maria do Céu Fialho
(coordenadores): O Retrato e a Biografia como estratégia de teorização
política (Coimbra e Málaga, Imprensa da Universidade de Coimbra –
Universidade de Málaga, 2004), 288 pp. [ISBN 972-8704-25-9
(Portugal) / 84-608-0166-7 (Espanha)]
Esta notável publicação, fruto da colaboração entre as
Universidades de Coimbra e de Málaga, reúne doze trabalhos, que têm
como objectivo, segundo a definição dos seus editores, “focar alguns
exemplos, desde a origem greco-latina até à modernidade, de um recurso
expressivo de cariz poético-político que constitui uma das múltiplas
linhas de força da linguagem cultural europeia de matriz clássica” (p.8).
O conjunto dos doze artigos é ordenado por um critério cronológico dos
autores tratados, embora por vezes seja apenas aproximado. Isso, à
medida que se avança na leitura, permite ficar com ideias claras relativamente à evolução que o retrato literário foi tendo ao longo das diferentes
épocas, a partir da proposta dos diferentes autores.
Jeffrey Rusten abre o livro com o artigo “Pericles in Thucydides”
(pp. 9-22). Outros autores gregos são estudados: Maria de Fátima Silva
apresenta “Os Cavaleiros de Aristófanes. Um padrão de caricatura biográfica do político” (pp. 23-36); José Luis Calvo Martínez analisa a
“Oratoria y biografía. El retrato de Alcibíades en Lisias e Isócrates”
(pp. 37-48); e Aurélio Pérez Jiménez questiona “Las Biografías de
Plutarco como medio de propaganda imperial?” (pp. 49-64).
O primeiro trabalho, relativo a autores da época romana, é de
Maria Cristina de Sousa Pimentel, com o título “Virtus ipsa: O retrato
literário nos Annales de Tácito” (pp. 65-82). Seguem-se mais dois artigos:
um, de José Luís Lopes Brandão, trata dos “Retratos dos Césares em
Suetónio: do eidos ao ethos” (pp. 83-114); outro, de Francisco de
Oliveira, apresenta “Biografia dos Imperadores em Plínio o Antigo”
(pp. 115-130).
Seguidamente, um outro artigo centra a sua atenção na época
medieval, embora não se limite a ela. É de autoria de António Manuel R.
Recensões e Notícias Bibliográficas
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Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
Rebelo e tem como título “A estratégia política através da hagiografia”
(pp.131-158).
À época do Renascimento são dedicados dois trabalhos: um, de
Rita Marnoto, trata de “Il Principe ou De Principatibus de Niccolò
Machiavelli. O príncipe novo que parece antigo” (pp.159-180); outro, de
Nair de Nazaré Castro Soares, estuda “O retrato do Príncipe como
estratégia política e modelo educativo no Renascimento” (pp.181-230).
Os últimos dois estudos centram-se em autores dos séculos XIX e
XX. O primeiro, de Maria Helena Santana, tem como título “Retrato e
anti-retrato: o grande homem em Eça de Queirós” (pp.231-242);
o segundo, de Fernando Catroga, aborda “O Magistério da História e a
exemplaridade do ‘grande homem’. A biografia em Oliveira Martins”
(pp.243-287).
A publicação, que agora se analisa, é de agradável leitura, para o
que muito contribui a disposição gráfica dos textos. Há, no entanto, um
reparo a fazer em relação a algumas gralhas existentes neste volume, que
uma revisão prévia poderia ter evitado. Damos apenas alguns exemplos:
na capa, coordinadores por coordenadores; no Índice, padrâo por
padrão, propaganga por propaganda, Brandâo por Brandão, Suetonio
por Suetónio, Plinio por Plínio, hagiografía por hagiografia, principe por
príncipe (p.5); assim com por assim como (p.8); critica por crítica
(p.205); exilílio por exílio (p.235), entre outros exemplos. Estas
incorrecções, porém, em nada retiram o mérito e a qualidade a este
conjunto de artigos.
Em síntese, estamos perante um livro muito útil para todos quantos
desejem aprofundar os seus conhecimentos sobre a evolução do conceito
de “História” e a forma como diversos autores, desde a Antiguidade
Clássica, foram delineando o retrato político dos vários agentes,
perseguindo sempre um exemplum e um speculum para as gerações
vindouras.
ANTÓNIO M. GONÇALVES MENDES
172 Recensões e Notícias Bibliográficas
Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
Carlos Ascenso ANDRÉ, Ovídio. Arte de amar. Tradução, introdução e
notas de Carlos Ascenso André, Lisboa, Livros Cotovia, 2006
(125 pp.).
Todos nós, estudiosos e docentes de literatura latina em Portugal
interessados em Ovídio, nos perguntávamos quando surgiriam traduções
da obra do poeta de Sulmona. Eis que o Prof. Carlos André vem
preencher uma lacuna importante da literatura romana traduzida para a
língua portuguesa. É, portanto, com grande satisfação que se recebe este
livro entre os amantes do mundo clássico.
A editora Livros Cotovia parece empenhada numa luta titânica
contra o ostracismo a que se quer condenar os estudos clássicos por parte
das instâncias superiores. Sem margem de manobra nos planos do ensino
secundário e com uma avassaladora publicidade negativa, a cultura
clássica parece sentenciada a perecer, não fosse por iniciativas como esta,
que demonstram, pelas vendas e pelo número de leitores, que, contra
ventos e marés, a literatura greco-latina continua a ter um público fiel, à
espera tão só de que os especialistas a tornem acessível com traduções
elegantes. A Odisseia (e a sua versão adaptada para jovens), a Ilíada e o
Satyricon iniciaram esta senda, agora continuada pela Arte de amar. Só
por este facto a publicação já merece todos os nossos elogios.
Trata-se, como fica claro pelas minhas palavras, de uma tradução
dirigida a um público amplo, não especializado, que simplesmente deseje
desfrutar de uma obra imortal e actual, porque os clássicos nunca passam
de moda. Com Ovídio o leitor poderá visitar a Roma antiga, as ruas,
os banquetes, os costumes, os jogos de sedução, e simultaneamente o
mundo mítico que assoma por entre os símiles atrevidos e as digressões
narrativas. E, graças à sóbria e elegante tradução de Carlos André e às
notas explicativas, breves e claras, o leitor inexperiente na literatura latina
avançará com passos firmes pelo saboroso texto ovidiano.
A edição não está pensada para especialistas. O erudito que
procurar na introdução um estudo aprofundado ficará desapontado. Quem
quiser encontrar um estudo deste tipo, dirigido a especialistas, terá de
acudir à outra publicação que Carlos André lança em simultâneo na
Recensões e Notícias Bibliográficas
173
Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
mesma editora, Caminhos do amor em Roma. A introdução da Arte de
amar é concisa, apenas dirigida a esclarecer quem foi o autor e qual o
assunto da obra, numa dúzia de páginas em que se desvenda, numa
espécie de paráfrase, o que se pode encontrar no texto do poeta latino.
Seria fácil cair no erro de exigir ao autor uma introdução mais
aprofundada e extensa, mas estaríamos a falar então de outro tipo de
trabalho, mais restrito e menos divulgativo.
O mesmo se pode dizer da bibliografia final. Resumir a vastíssima
bibliografia sobre Ovídio e a Arte de amar em treze livros pode parecer
excessivamente redutor, mas tem de se ter em conta que se trata apenas
de uma orientação para o leitor não especializado. É, no entanto, de
estranhar que a maior parte desses livros recomendados seja tão antiga, e
que se tenha deixado de parte, sem a mencionar, a bibliografia mais
recente que aponta para novas vias de interpretação do texto (a título de
exemplo entre muitas possíveis, a obra de Holzberg). Muito mais
estranho se considerarmos que algumas destas obras (como as de
Dimundo, Gibson ou Sharrok) aparecem citadas mas quase que
escondidas, sob o epígrafe Edições.
Se a introdução e a selecção bibliográfica nos parecem coerentes
com o intuito do livro (dá-se maior importância à clareza expositiva para
o poder dirigir a um público alargado), no estilo da tradução, porém,
teremos de levantar um pequeno senão. Embora o autor afirme, na página
25, que optou por uma tradução em verso, a verdade é que o não fez.
Trata-se de uma tradução por linhas, o que é diferente. A tradução de
cada verso ovidiano numa linha tem a incontestável vantagem de facilitar
a consulta do texto latino. Obviamente, isto será de um valor inestimável
para os nossos alunos de licenciatura que trabalharem futuramente o texto
da Arte de amar. Mas para esse público não especialista que lerá a obra
pelo simples prazer da leitura não há vantagens evidentes na tradução
linha a linha. Neste caso, seria proveitosa uma tradução realmente em
verso (rítmica, ainda que fosse em verso branco e sem número exacto de
sílabas), mesmo que não respeitasse exactamente a extensão do dístico
ovidiano.
174 Recensões e Notícias Bibliográficas
Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
Mas esta opção, naturalmente, beneficiaria uns leitores e
dificultaria o trabalho de outros. Cada tradutor está obrigado a fazer
escolhas e em cada eleição ganha uma parte do público leitor e perde
outra. Nós só podemos alegrar-nos por ver mais uma tradução de um
texto clássico e esperamos surpreender pessoas na rua com o livro na
mão, redescobrindo o prazer dos clássicos.
CARLOS DE MIGUEL MORA
CATALDO PARÍSIO SÍCULO, Epístolas. II Parte. Fixação do texto latino,
prefácio e notas de Américo da Costa Ramalho e de Augusta
Fernanda Oliveira e Silva. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da
Moeda, 2005, 293 pp. [ISBN: 972-27-1378-7].
A publicação integral das Epístolas de Cataldo, iniciada com esta
segunda parte, constitui um marco significativo no quadro dos estudos do
Humanismo Renascentista português. De facto, Cataldo Parísio Sículo
desempenhou um papel crucial e pioneiro na introdução e divulgação dos
ideais humanistas em Portugal, como justamente tem demonstrado
Américo da Costa Ramalho nos vários trabalhos que lhe dedicou ao longo
de mais de quatro décadas. O humanista siciliano veio para Portugal, em
1485, a convite de D. João II, como secretário latino e orador oficial.
Algum tempo depois veio a desempenhar as funções de preceptor de
D. Jorge, filho bastardo do monarca, e de várias figuras proeminentes da
nobreza.
Este livro vem colocar à disposição de um público variado um
conjunto de epístolas que retrata com particular fidelidade as relações
privilegiadas que Cataldo estabeleceu com inúmeras individualidades,
sobretudo portugueses, do seu tempo. Os autores do trabalho referem,
aliás, ter começado pela publicação da segunda parte das Epístolas de
Cataldo, precisamente por aí se encontrar a maioria do seu epistolário
dirigido a portugueses.
Não é por demais notar a cuidada apresentação das cartas, quer do
texto original latino, quer da excelente tradução portuguesa, que está
acompanhada de notas bastante proveitosas, cuja simples leitura fornece
Recensões e Notícias Bibliográficas
175
Ágora. Estudos Clássicos em Debate 8 (2006)
ao leitor os dados necessários para uma interpretação correcta dos passos
mais complexos. É de assinalar também a existência de dois índices
(onomástico e toponímico) de grande utilidade, pois permitem aos
interessados uma consulta fácil das referências nas cartas que se
encontram devidamente numeradas. Por último, importa ainda referir a
publicação do fac-símile da obra original na parte final do volume.
Saudamos, portanto, com muito agrado a publicação desta obra
notável, integrada na prestigiada colecção dos Estudos Gerais – Série
Universitária da Imprensa Nacional–Casa da Moeda, que representa, no
fundo, o corolário da profícua investigação desenvolvida pelo Prof.
Américo da Costa Ramalho no âmbito dos estudos sobre a figura de
Cataldo e o Humanismo Renascentista português. Fazemos votos, por
último, de que este trabalho meritório venha, muito em breve, a ser
concluído com a publicação da primeira parte das Epístolas de Cataldo,
que contém o núcleo mais antigo, dado à estampa em 1500.
ANTÓNIO ANDRADE
176 Recensões e Notícias Bibliográficas
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