Universidade Estadual de Maringá
27 e 28 de abril de 2010
CONSIDERAÇÕES SOBRE SANTIDADE E EDUCAÇÃO NA “BULA DE
CANONIZAÇÃO” DE CLARA DE ASSIS
DIAS, Ivone Aparecida (UEM)
OLIVEIRA, Terezinha (Orientadora/UEM)
O objetivo de nossa comunicação é apresentar algumas considerações iniciais sobre a
relação entre santidade e educação tomando como recorte temporal o século XIII. A
fonte documental utilizada para traçar essa relação é a Bula de Canonização de Clara de
Assis (1194-1253).
Consideramos importante salientar que a análise da fonte supracitada integra um amplo
corpus de textos escritos por Clara ou a ela endereçados, tais como a Regra de vida,
Cartas, Documentos Pontifícios etc, e que estão sendo analisados para a elaboração de
nossa tese de Doutorado em Educação.
Conforme a introdução feita por Pintarelli, Pedroso e Teixeira (2008, p. 78) às Fontes
Franciscanas e Clarianas, a Bula de Canonização de Clara é um documento conhecido
desde o século XVII. Os autores afirmam que Lucas Wadding, no século citado, teria
visto vários exemplares desse documento ainda com seus selos de chumbo. “Mas um
exemplar garantido só se tornou conhecido, quando foi encontrado pelo Padre Zeffirino
Lazzeri no arquivo do castelo de Sant’Angelo, em Roma”.
A cópia da Bula encontrada por Lazzeri foi dirigida aos bispos franceses “[...] e o seu
descobridor acredita que seja uma espécie de minuta para o documento”
(PINTARELLI, PEDROSO e TEIXEIRA, 2008, p. 78). A própria introdução da Bula
assinala que a mesma fora endereçado aos bispos da França: “[Alexandre, bispo, servo
dos servos de Deus], a todos os veneráveis arcebispos e bispos estabelecidos no reino da
França: [saúde e bênção apostólica]” (BC, 2008, p. 1735)1.
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BC = Bula de Canonização de Santa Clara.
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Quando a Bula foi encontrada a mesma fazia “[...] parte de um fascículo de cinco
pergaminos com las bulas de canonización de San Edmundo de Cantorbery y de San
Pedro Mártir (canonizados el 16 de diciembre
de 1246 y 9 de mayo de 1253)
[...]”(OMAECHEVARRIA e COLS., 1970, p. 107). Essas bulas, todas do século XIII,
procediam do Arquivo da catedral de Anagni, na qual foi realizada a cerimônia de
canonização de Clara (PINTARELLI, PEDROSO e TEIXEIRA, 2008).
De acordo com Omaechevarria e seus colaboradores (1970), a Bula é um documento
intimamente relacionado com o Processo de Canonização de Clara2 e com a sua
Legenda3. Pintarelli, Pedroso e Teixeira (2008, p. 79) também enfatizam que esse
documento, que apresenta um resumo da biografia de Clara de modo “[...] solene e
elegante [...]” é dependente de seu Processo de canonização. Afirmam, ainda, que,
conforme alguns críticos, o documento talvez já estivesse escrito antes da morte do Papa
Inocêncio IV; contudo, quem o publicou foi o seu sucessor, Alexandre IV, o mesmo que
canonizou Clara.
Devido ao estilo do documento, à sua forma de trabalhar com as palavras,
principalmente com a ideia de claridade, de luz, articulada ao nome de Clara, alguns
estudiosos indicam a possibilidade da Bula ter sido redigida por Tomás de Celano
(PINTARELLI, PEDROSO e TEIXEIRA, 2008, p. 78). Não há, contudo, conclusões a
respeito de seu verdadeiro autor.
Conforme a afirmação dos autores supracitados, Clara teria sido canonizada,
provavelmente, no dia 15 de agosto de 1255 (PINTARELLI, PEDROSO e TEIXEIRA,
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O Processo de canonização de Clara de Assis registra o testemunho de religiosas e de leigos a respeito
da vida de Clara de Assis. “Dois meses após a morte de Clara, a 18 de outubro de 1253, o Papa Inocêncio
IV encarregou o Bispo de Espoleto, Bartolomeu, para investigar a santidade da damianita. Foi pedida uma
pesquisa a respeito da devoção e do culto que vinha sendo prestado a Clara, os milagres que vinham se
manifestando, etc.. O resultado disso foi o Processo de Canonização, iniciado por volta de 24 a 29 de
novembro de 1253”. (SILVA, 2007, p. 124-5).
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“A palavra ‘legenda’ quer dizer ‘para se ler’, ‘para ser lido’ [...]” (SOUZA, BERNARDI E KIRCHNER,
2007, p. 149). São duas as Legendas de Clara: A Legenda de Santa Clara e a Legenda Versificada de
Santa Clara.
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2008), sendo que a sua Bula de canonização teria sido expedida pelo Papa Alexandre IV
no primeiro ano de seu pontificado, no dia 26 de setembro de 1255, em Anagni.
Portanto, dois anos após a morte de nossa personagem (BC, 83)4.
Antes de passarmos às considerações a respeito desse importante documento pontifício
do século XIII, no sentido de destacarmos a relação entre santidade e educação nele
presente, julgamos conveniente salientar algumas questões que nos auxiliarão,
posteriormente, em nossas análises. Especialmente, apresentaremos como a santidade
vem sendo explicada por alguns estudiosos do assunto. Assim, iniciamos com a
concepção de santidade destacada por Silveira (1995, p. 11-12). Para ele, “A Bíblia
aplica o termo santo a Deus. Ele é o Santo, o totalmente outro, o transcendente, o
numinoso. Só a Deus cabe por natureza a santidade”. Em sua análise, o termo “santo”
“[...] é aplicado a coisas, lugares, pessoas, não por serem santos por natureza, mas por
estarem em relação com o Santo, Deus. [...]”. No Novo Testamento, segundo o autor,
fala-se em possibilidade de participação do homem na natureza divina. Portanto,
embora os homens não sejam santos por sua própria natureza, podem sê-lo porque
podem participar da santidade d’Aquele que é Santo.
Essa reflexão levou o autor a distinguir duas formas de santidade: a santidade essencial
– atributo divino por natureza – e a santidade ética ou moral, santidade das boas ações,
da união com Deus e de sua imitação – santidade que, em relação à essencial, podemos
marcar como não-essencial.
Podemos dizer, portanto, que a prática da santidade ética ou moral, ou santidade nãoessencial é entendida como a possibilidade para o homem ser partícipe da santidade
divina ou essencial. É com base nesta perspectiva que apresentaremos nossas
considerações a respeito da santidade de Clara a partir de sua Bula de canonização.
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Conforme indicam Pintarelli, Pedroso e Teixeira (2008), o exemplar que compõe as Fontes Clarianas –
com a qual estamos trabalhando – tem a data de 26 de setembro, contudo, há outros exemplares com a
data de 19 de outubro. Para eles, deve ser a data da expedição da Bula.
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Para a efetivação de nosso objetivo, também julgamos relevantes as reflexões de Bartoli
(2007, p. 88), grande estudioso das fontes clarianas, sobre a questão da santidade. O
autor esclarece que a santidade, de modo geral, na Idade Média, era concebida de forma
diferente pelo povo e pelos representantes da Igreja. Assim, ele afirma que a ideia de
santidade, para o povo, estava relacionada tanto com o ouvir falar de alguém que podia
realizar milagres, como com a prática de tocar o túmulo ou de ter contato com o corpo
da pessoa considerada santa. Desse modo, “[...] a idéia de santidade nada tem a ver com
a vida da pessoa santa. Poder-se-ia nem conhecer a vida e, mesmo assim, receber um
milagre”.
Observamos, assim, que era o “ouvir falar” sobre milagres que levava o povo a acorrer
ao túmulo de uma pessoa considerada santa. Portanto, era a “fama pública” referente
aos milagres que respaldava a procura pelo “encontro” com o santo; visava-se, por meio
desse encontro – visita ao túmulo ou toque no corpo do santo – a obtenção de um favor,
a libertação de uma dificuldade, a cura de uma doença.
Conforme Teixeira (2007, p. 20, grifos na obra), a fama pública pode ser entendida
como um meio de comunicação fundamental no período medieval. Para ele,
O temo latino fama tem como significado originário o que se diz de
alguém; o segundo, é a voz corrente entre o povo. Tem inclusive o
significado de boato. Por fama pública poder-se-ia entender, então,
tudo aquilo que o povo noticia, comenta, transmite na vida cotidiana:
um evento, importante ou não, a doença de alguém, um escândalo,
uma tragédia, etc. Pode-se perfeitamente imaginar a vivacidade da
fama pública, quando Francisco se despiu diante do bispo e começou a
viver como deserdado e maltrapilho, ele que gostava de vestir-se bem.
A fama pública interpretou-o como louco. Igualmente, quando Clara
fugiu da casa paterna na noite de domingo de Ramos, escolhendo
tornar-se esposa do Cristo pobre.
A fama pública de Clara também está registrada em sua Legenda (53, 4-5)5 quando, por
exemplo, dois cegos afirmam: “Ouvimos falar há pouco de uma senhora que morreu na
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Os números referem-se ao capítulo da Legenda e seus versículos.
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cidade de Assis, e se diz que o poder do Senhor honra seu sepulcro com graças de cura e
muitos milagres”.
Desse modo é possível observar que a busca do povo não era pelo conhecimento da vida
da pessoa considerada santa, isso pouco importava; a busca visava à satisfação de
alguma necessidade que afligia a vida, que dificultava a existência. Temos “notícias”,
por exemplo, de alguns milagres creditados a Clara nos quais vemos a cura de membros
doentes do corpo, multiplicação de pães quando de sua escassez etc (PC). Assim,
podemos dizer que era a dureza da vida que levava o povo a buscar a obtenção de
favores do céu pela intercessão de alguém considerado santo.
Entretanto, de acordo com Bartoli (apud SILVA, 2007, p. 125), “[...] para o papa
Inocêncio IV era importante estabelecer uma ligação entre a santidade de vida e as curas
que se realizavam junto ao túmulo da damianita”6.
Entendemos que é a partir dessa questão que podemos apresentar a contraposição da
ideia de santidade da Igreja em relação à ideia que o povo tinha acerca de quem era
santo. Assim, por exemplo, na Legenda de Santa Clara, na Segunda parte, na qual estão
descritos os milagres de Clara após sua morte, o autor da Legenda afirma:
Costumes santos e obras perfeitas são o verdadeiro prodígio dos
santos. Esse é o testemunho que devemos venerar em seus milagres.
João não fez sinal nenhum (Jo, 10,41); mas os que fazem milagres não
são mais santos do que ele. Por isso, bastaria sua vida perfeitíssima, se
outra coisa não fosse pedida pela tibieza e pela devoção do povo
(LSC, 49, 1-3)7 .
Ainda na Legenda encontramos outro trecho que evidencia que, aos olhos da Igreja, a
forma de vida da pessoa com fama de santa deveria ser considerada em primeiro lugar,
antes dos milagres a ela atribuídos. Assim, no capítulo 62 o autor da Legenda diz que
6
Inicialmente as clarissas eram conhecidas como Damianitas (religiosas que moravam no convento de
São Damião) ou Damas pobres. Apenas em 1263 as religiosas seguidoras de Clara passaram a ser
chamadas
clarissas,
em
obediência
ao
Papa
Urbano
IV
(http://www.franciscanos.org.br/sav/ordensfranciscanas/02.php).
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LSC = Legenda de Santa Clara.
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após a morte de Clara o Papa Alexandre IV foi “[...] levado pelo acúmulo de tantos
milagres a uma decisão insólita, começou a tratar de sua canonização com os cardeais”.
Assim, podemos dizer que o próprio Papa foi alcançado pela fama pública de Clara.
Desse modo,
Entregou o exame dos milagres a pessoas dignas e discretas,
encarregadas de estudar também sua vida prodigiosa. Viu-se que Clara
tinha sido, em vida, claríssima pela prática de todas as virtudes e,
morta, admirável por milagres autênticos e comprovados. (LSC 62, 35).
Bartoli (2007, p. 88) salienta que
[...] o autor da Legenda sabe que a santidade é a conformação com a
vida de Cristo. Os costumes e a maneira de viver é que fazem uma
pessoa santa. [...] Para ser santo, é necessário ter uma vida santa, de
acordo com o Evangelho. Para aquele tempo, esta era uma idéia
“moderna” de santidade. Era a idéia que a Cúria romana queria fazer
circular no meio do povo. Esta era idéia com a qual o autor escreveu
sua Legenda. Mas ele sabia também que no povo havia “tibieza” de fé
e devoção, que precisavam de milagres. Por isso, escreveu o segundo
opúsculo, que é todo dedicado aos milagres, mesmo que ele,
pessoalmente, não gostasse dos milagres.
Esse mesmo estudioso nos informa, ainda, que nas fontes clarianas, além das
concepções de santidade do povo e da Sé apostólica, uma terceira concepção pode ser
identificada: a das Irmãs de São Damião. Para o autor, a concepção de santidade das
irmãs está descrita nas Atas do Processo de Canonização de Clara e não aparecem na
Legenda. Ou seja, muitos dos milagres relatados pelas irmãs durante o interrogatório
para compor o Processo de canonização não foram relatados pelo autor da Legenda
(BARTOLI, 2007) – fato este que pudemos constatar com a leitura de ambos os
documentos.
Conforme Bartoli (2007, p. 93),
[...] Para o autor da Legenda, não é preciso ver os milagres para ter fé;
mas para as irmãs é preciso ter fé para ver os milagres. Esses milagres
não são apenas episódios extraordinários, mas simplesmente são os
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sinais da presença de Deus na vida dos homens. Pode-se ver essa
presença também nos episódios da vida de cada dia, mas é preciso ter
uma visão que permita vê-los. Essa visão é a fé.
As leituras realizadas até o momento nos permitem considerar que no início do
cristianismo, as concepções de santidade do povo e da hierarquia eclesiástica talvez não
fossem tão diferentes entre si. Uma passagem da Legenda Versificada de Santa Clara
(XXXIII) possibilita levantar a hipótese de que mesmo no século XIII não havia uma
rígida divisão entre o que esses diferentes seguimentos sociais entendiam por santo e
santidade:
A notícia da morte da virgem comoveu imediatamente todos os
cidadãos. [...] O povo aclamava-a como bem-aventurada, venerava-a
como santa, e misturava louvores com as lágrimas.
Apressou-se o podestá, cercado por pelotões militares de homens
armados; ficaram atentos à tarde e usaram guardas durante toda a
noite, cuidando de proteger tesouro tão precioso para que não pudesse
acontecer nada de sinistro, pois foi tão grande a devoção de todos que
os sagrados selos pontificais 8, que brilham nos dedos, foram colocados
nas mãos preciosas da defunta para poderem adquirir algo de sua
virtude: esperavam que a morta não fosse avara para com seus devotos
[...]
Observamos que mesmo homens situados nos níveis mais elevados da sociedade
aguardavam a realização de milagres de Clara. Todavia, cumpre dizer que, apesar da
espera do milagre, este era aguardado considerando-se que já em vida ela realizara
muitos favores, muitos benefícios em prol dos homens. Ou seja, já aparece o
entendimento de que a possibilidade do milagre estava relacionada à maneira como
Clara vivera.
Entendemos que essa questão ainda precisa ser melhor esclarecida. Assim, só em outra
oportunidade poderemos apresentar reflexões mais aprofundadas sobre a mesma.
8
“Os bispos usavam, nos anéis, as insígnias com que carimbavam os documentos”. (Fontes Franciscanas
e Clarianas, 2008, p. 1778, nota de rodapé),
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Outra questão que precisamos trazer à baila é a exigência, pela Igreja, da instauração de
Processos, de pesquisa, de investigação de milagres e da forma de vida do suposto santo
para que a Igreja pudesse reconhecer oficialmente sua santidade por meio do processo
de canonização.
O reconhecimento de alguém como santo, e a autorização para o culto
litúrgico, era (sic) da competência das igrejas locais até o fim do
século X. Em 993, pela primeira vez, o Papa declarou formalmente
santo a (canonizou) S. Ulrich, monge-bispo de Augsburgo. Sem o
rigor do atual processo de canonização. Tal direito lhe foi reservado
aos poucos. A maioria dos santos venerados na Igreja não passou por
um processo de canonização formal. Seu culto imemorial em igrejas
locais foi simplesmente aceito pela Igreja universal (SILVEIRA,
1995, p. 12).
Pedroso também (apud SILVA, 2008) afirma que no século XIII a ideia da instauração
de um Processo como instrumento de respaldo para a canonização era relativamente
recente; entretanto, desde o século XII havia se tornado uma exigência para o
reconhecimento de um santo ou de uma santa.
Desse modo, aos poucos, a palavra final sobre a santidade de alguém com tal fama se
tornou uma prerrogativa do Papa; contudo sua palavra se sustentava nos resultados de
um trabalho de pesquisa sobre a vida do “candidato” a santo – ou tornado “candidato”
por sua fama pública entre o povo. Todavia, é preciso lembrar que era grande a
filtragem de informações pelos notários responsáveis pelos registros de uma
investigação com fins de canonização. Desse modo, havia influências nos testemunhos
de quem era ouvido e a possibilidade de distorções era um fato possível, como lembra
Vauchez (apud SILVA, 2008).
O autor acima citado também ressalta que
A alteração por parte da santa Sé, das causas que conduziam à
santificação foi acompanhada pela instituição de um controlo sobre as
virtudes e os milagres dos servidores de Deus, que eram submetidos a
um exame atento da cúria depois de ouvido o testemunho de todos os
que dele tinham conhecimento ou que tinham beneficiado com sua
intercessão, no quadro de um processo de canonização. A partir daí,
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haverá no Ocidente duas espécies de santos: aqueles que, tendo sido
aprovados e reconhecidos pelo papa, poderão ser objecto de culto
litúrgico, e os outros, que terão de contentar-se com uma veneração
local (VAUCHEZ apud SILVA, 2008, p. 212-13).
Podemos dizer que Clara foi reconhecida como santa tanto na instância local – pelo
povo – como na Cúria papal – oficialmente, portanto –, o que é evidente em sua Bula de
Canonização.
Tendo sido reconhecida e oficializada como santa, Clara precisava ser conhecida, sua
vida precisava ser divulgada. Desse modo, a nosso ver, a Bula não é um documento que
foi enviado aos bispos da França simplesmente para lhes informar que o Papa decidira
colocar Clara “[...] na lista dos santos, com o conselho e o consentimento comum [...]”
dos “[...] irmãos e todos os prelados então presentes na Sé apostólica [...]”. A Bula
contém ensinamentos que os bispos deviam divulgar, como podemos observar abaixo:
Por isso, recomendamos e exortamos atentamente a vós todos,
mandando por esta carta apostólica que celebreis com devoção e
solenidade a festa desta virgem no dia 12 de agosto e que a façais
celebrar por vossos súditos com toda veneração, para que mereçais têla como piedosa e diligente ajuda diante de Deus.
Durante a celebração das missas os bispos, assim como os padres, deviam ressaltar
como Clara vivera de maneira virtuosa, apresentando-a como um modelo a ser seguido,
imitado. Desse modo, a nosso ver, é por essas práticas que, aos poucos, implantava-se a
concepção de que o povo devia, antes de procurar os santos para obter milagres,
conhecer a vida dos mesmos para imitá-los, para aprender a ser santo com eles. Nesse
sentido, a divulgação da vida dos santos pode ser tomada como um recurso educacional
fundamental no século XIII.
Assim, é que, narrando de forma resumida alguns aspectos de sua biografia, a Bula
indica que a santidade de Clara teria resultado de sua forma de viver, de suas opções por
uma vida virtuosa na Igreja:
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De fato, quando ainda menina, no século, procurou desde a mais tenra
idade atravessar por um atalho limpo este mundo frágil e imundo [...]
Quando quis fugir do ruído do mundo, foi para uma igreja do campo
[...]
De família nobre, mais nobre ainda pelo comportamento [...]
Na verdade, ela foi a árvore destacada (cf. Dn 4,8) e eminente, de
ampla ramagem, que deu o doce fruto da religião no campo da Igreja
[...] ela foi um candelabro elevado de santidade (BC, 17, 21, 27, 31,
33, grifos na obra).
Nesse processo educacional para uma vida virtuosa, trabalhando com o nome de Clara,
o autor da Bula permite entender que a santidade era concebida como um processo:
“Foste clara antes da tua conversão, mais clara na conversão, preclara por teu
comportamento no claustro e brilhaste claríssima depois do curso da presente
existência [...]” (BC 6, grifos nossos). Observamos, desse modo, que o próprio nome de
Clara, relacionado à luz, à claridade, é tomado como um instrumento educacional. Ou
seja, a partir do nome dela é construída toda uma explicação de como a mesma,
gradualmente, concretizou a santidade não-essencial, por meio da vivência das virtudes,
tornando-se, assim, participante da santidade essencial.
Por meio da Bula verificamos que há um esforço em mostrar que a vida do santo – no
caso, a vida de Clara – devia ser divulgada, seu comportamento, anunciado, suas
virtudes, destacadas para que o povo começasse a tomá-la como exemplo a ser seguido.
Desse modo, era fundamental mostrar o caminho a ser percorrido, dar a conhecer os
elementos que concorreram para que a sua santidade fosse reconhecida. Nesse sentido, a
vida virtuosa ganhava realce. Assim, eis algumas das qualidades, das virtudes atribuídas
a Clara:
Ela foi a primeira entre os pobres, a comandante dos humildes, mestra
dos continentes, e abadessa dos penitentes. Ela governou o seu
mosteiro e a família que nele lhe foi confiada, com solicitude no temor
e no serviço do Senhor e na plena observância da Ordem: vigilante no
cuidado, esforçada no serviço, atenta na exortação; diligente para
admoestar, prestimosa para se compadecer, discreta para se calar,
madura no silêncio, experimentada em todas as coisas oportunas para
um perfeito governo, querendo mais prestar serviço que dominar, e
mais honrar do que ser honrada. Sua vida era instrução e doutrina para
as outras (BC, 37-39)
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Outra questão que merece destaque é o fato de, na Bula, a Igreja ser apresentada como o
espaço – ou domínio - privilegiado para o desenvolvimento da santidade: “Ela fez no
terreno da Igreja o jardim da humildade [...] Ela edificou nas terras da religião a
fortaleza da abstinência estrita [...]” (BC, 36, grifos nossos). Ou seja, Clara tornara-se
santa porque aprendera com os ensinamentos da Igreja a forma correta de bem viver. A
Igreja fora sua mãe, a sua educadora, aquela que lhe mostrara o caminho para tornar-se
santa: “Alegre-se então a Mãe Igreja, que gerou e educou essa filha que, como genitora
fecunda de virtudes, produziu com seus exemplos muitas discípulas da religião [...]”
(BC, 71). Para a Igreja, portanto, Clara devia ser tomada como um exemplo de alguém
que reconhecera sua autoridade de Mãe e aprendera com ela a arte de bem viver. Essa
Clara, obediente, distinta por suas virtudes, devia ser lembrada, celebrada, tomada como
exemplo a ser seguido; sua vida devia ser divulgada para que os homens pudessem
encontrar nela uma auxiliar, uma intercessora, em seu próprio processo de santificação:
“Esta clara foi distinguida aqui por suas obras fúlgidas, esta Clara é clarificada no alto
pela plenitude da luz divina [...] e na terra, sentem-se os remédios manifestos do seu
auxílio” (BC 5,7).
As considerações acima pontuadas nos permitem observar que, por meio da Bula, a vida
de Clara é tomada como “objeto” ou como instrumento educativo, como exemplo a ser
seguido. Ou seja, a sua canonização representou uma oportunidade para a Igreja ensinar,
para educar, para mostrar como Clara praticara as virtudes, como vivera e conformara
sua vida à de Cristo – o qual havia tomado como modelo maior – e, por isso, tornara-se
santa. Isto é, ela fora reconhecida oficialmente como santa porque sua prática de vida
fora a concretização da santidade não-essencial a qual lhe possibilitara a participação na
santidade essencial, aquela pertencente apenas a Deus, conforme indicamos por meio de
Silveira (1995).
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o caso de Clara de Assis. Brasília: UNB/PPGHIS, 2008. (Tese de doutorado).
SILVEIRA, Ildefonso. Retrato de Santa Clara na literatura hagiográfica. Petrópolis:
Vozes, 1995.
SOUZA, Cleonice Aparecida de., BERNARDI, Orlando, KIRCHNER, Renato.
Francisco de Assis visto a partir da Legenda Maior de São Boaventura. In: MOREIRA,
Alberto da Silva (Org.). São Francisco e as fontes franciscanas. Bragança Paulista:
Editora Universitária São Francisco: IFAN, 2007, p. 145-153.
TEIXEIRA, Celso Márcio. Francisco de Assis: o homem e seu mundo. In: MOREIRA,
Alberto da Silva (Org.). São Francisco e as fontes franciscanas. Bragança Paulista:
Editora Universitária São Francisco: IFAN, 2007, p. 13-50.
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