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N.º 217
Julho/Agosto 2010
Mensal
2,00 €
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TempoLivre
www.inatel.pt
Viagens
Marrocos: de Tânger
a Alcácer Ceguer
Entrevista Carlos Mamede Lazer Oeiras Portfólio Diu Memória António Assunção
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Durante o Verão estaremos a ensaiar
OS DIAS DOS PRODÍGIOS
de LÍDIA JORGE
adaptação e encenação
CUCHA CARVALHEIRO
ESTREIA
EM
SETEMBRO
BILHETES À VENDA
VE
ENDA T
Teatro
eatro
e
da T
Trindade
rindade 3ª a sáb das 14h às 22h e dom das 14h às 18h | informações
info
ormações e reservas 21 342 00 00 e 92 798
7 28 34
Worten
W
orten
o
| Fnac | Bliss | Lojas Viagens
Viagens Abreu | Liv.
Liv. Bulhosa
Bulhossa (Oeiras Parque e C.C.Cidade do Porto)
Porto) | Pontos MegaRede | www.ticketline.sapo.pt
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INFORMAÇÕES | REGULAMENTOS | INSCRIÇÕES
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. Loja
Dir. Cultural tel. 210 027 147
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Sumário
Na capa
Foto: Humberto Lopes
26
5
6
EDITORIAL
CONCURSO
DE FOTOGRAFIA
VIAGENS
De Tânger a Alcácer
Ceguer
A meio caminho entre
Tânger e Ceuta, Alcácer
Ceguer é uma estância
balnear e um porto de
pesca. Na margem do rio
homónimo, um forte meio
arruinado estende-se na
areia como um barco
naufragado, de quilha
apontada ao mar. Foi a
primeira conquista de D.
Afonso V e, durante quase
um século, ali esteve
hasteada a bandeira
portuguesa. Em Tânger, a
entrada em funcionamento
de um novo terminal para
as ligações marítimas
regulares com a Europa
assinala o início de uma
nova era na cidade que
também já foi portuguesa.
16
8
CARTAS E COLUNA
DO PROVEDOR
9
36
NOTÍCIAS
INATEL 75 ANOS
Amândio Monteiro
LAZER
Inatel Oeiras - Quartos com vista
para o Bugio
O “velho” Motel Continental – Centro
de Férias do Inatel há várias décadas
com 137 apartamentos remodelados,
uma sala de reuniões e congressos para
120 pessoas, uma bela piscina com
vista para o Bugio e um parque infantil
rodeado de árvores, restaurante com
esplanada, café, tudo equipado com
internet sem fios, procura manter o
espírito de modernidade que presidiu à
sua edificação. O ambiente é familiar e
a permanência não é exclusiva dos
sócios do Inatel…. Está a meio do
Passeio Marítimo de Oeiras. Dá para
passear para um lado e para outro.
40
PAIXÕES
43
PORTFÓLIO
Diu
48
20
MEMÓRIA
ENTREVISTA
António Assunção
Carlos Mamede,
vice-presidente da Inatel
Requalificar equipamentos, modernizar
e simplificar a gestão e desenvolver
produtos turísticos mais apelativos são
os objectivos centrais do pelouro de
Turismo e Hotelaria da Inatel, assinala
em entrevista à TL o vice-presidente da
Fundação.
50
52
79
80
Octávio dos Santos,
empreendedor cultural
OLHO VIVO
A CASA NA ÁRVORE
O TEMPO E AS PALAVRAS
Maria Alice Vila Fabião
OS CONTOS
DO ZAMBUJAL
82
55
74
32
FINAIS INATEL
CRÓNICA
António Costa Santos
BOA VIDA
CLUBE TEMPO LIVRE
Passatempos e Cartaz
Desporto e Festa no Parque 1º de Maio
O 13 de Junho último encheu o Parque
de Jogos 1º de Maio de atletas de várias
modalidades e claques ora mais
serenas, ora mais ruidosas. Ali se
realizaram as finais de futebol, futsal,
andebol, basquete e vólei – este
masculino e feminino, assinalando,
simultaneamente, os 75 anos da Inatel.
Revista Mensal e-mail: [email protected] | Propriedade da Fundação INATEL Presidente do Conselho de Administração: Vítor Ramalho Vice-Presidente: Carlos
Mamede Vogais: Cristina Baptista, José Moreira Marques e Rogério Fernandes Sede da Fundação: Calçada de Sant’Ana, 180, 1169-062 LISBOA, Tel. 210027000
Nº Pessoa Colectiva: 500122237 Director: Vítor Ramalho Editor: Eugénio Alves Grafismo: José Souto Fotografia: José Frade Coordenação: Glória Lambelho
Colaboradores: António Sérgio Azenha, Carlos Barbosa de Oliveira, Carlos Blanco, Gil Montalverne, Guiomar Belo Marques, Humberto Lopes, Joaquim
Diabinho, Joaquim Magalhães de Castro, Joaquim Durão, José Jorge Letria, José Luís Jorge, Lourdes Féria, Manuela Garcia, Maria Augusta Drago, Maria
João Duarte, Maria Mesquita, Pedro Barrocas, Rodrigues Vaz, Sérgio Alves, Suzana Neves, José Lattas, Vítor Ribeiro. Cronistas: Alice Vieira, Álvaro Belo
Marques, Artur Queirós, Baptista Bastos, Fernando Dacosta, João Aguiar, Maria Alice Vila Fabião, Mário Zambujal. Redacção: Calçada de Sant’Ana,
180 – 1169-062 LISBOA, Telef. 210027000 Fax: 210027061 Publicidade: Patrícia Strecht, Telef. 210027156; Impressão: Lisgráfica - Impressão e Artes
Gráficas, SA - Rua Consiglieri Pedroso, n.º 90, Casal de Sta. Leopoldina, 2730-053 Barcarena, Tel. 214345400 Dep. Legal: 41725/90. Registo de propriedade na D.G.C.S. nº 114484. Registo de Empresas Jornalísticas na D.G.C.S. nº 214483. Preço: 2,00 euros Tiragem deste número: 132.549 exemplares
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Editorial
V í t o r Ra m a l h o
Responder à crise
N
ão é novidade para ninguém que a
crise em que a maioria dos países do
Ocidente, e em particular os países
europeus, se encontram mergulhados, afecta seriamente os mais desfavorecidos.
As instituições que, como a Fundação Inatel,
se inserem na economia social não podem deixar
de ter presente esta realidade.
A longa e eficaz experiencia revelada pela
Fundação na gestão de programas sociais além da
reconhecida pelo Estado é motivo de inspiração
para a iniciativa denominada Calypso, de
intercâmbio de turismo social, que está a ser
estudada para aplicação no conjunto dos países
da U.E. Aliás, a Inatel integra como perita o
grupo de trabalho que está a preparar o programa.
É por isso que, no quadro das actividades que
ultimamente temos priorizado, a preocupação da
resposta aos mais desfavorecidos está na ordem
do dia. E está tanto mais quanto é certo, como já
reiteradamente invocámos - e estudos insuspeitos
de universidades credenciadas confirmam -, que
os recursos afectos a programas que têm esta preocupação, dinamizados pela Inatel, são uma maisvalia económica para o próprio Estado. Dito de
outra forma – o Estado recebe mais do que os valores que disponibiliza para os programas governamentais. E não se trata apenas dos programas
Sénior e Saúde/ Termalismo, concebidos para os
mais idosos e, naturalmente, mais procurados.
Outros há, recentemente reforçados, como o
“Abrir Portas à Diferença” - criado para responder a objectivos de lazer para todos os cidadãos
que apresentam graus de incapacidade permanente superior a 60%, independentemente da
idade -, e o “Turismo Solidário”, para as famílias
mais carenciadas e portanto mais expostas a
fenómenos de exclusão social, ou o “Portugal no
Coração”, destinado a compatriotas nossos que
tendo emigrado, não viram a sorte sorrir-lhes.
Proporcionar a estes portugueses que, por carências económicas, não vêm, há dezenas de anos, a
Portugal, é dar conteúdo à concepção humanista
do nosso povo e que é uma matriz da sua alma.
F
oi por termos presente estes objectivos
que ousámos alargar também, e recentemente, estas preocupações aos mais
jovens, criando o “Turismo Educativo
Júnior”, em colaboração com o Ministério da
Educação com preços diferenciados em função
dos rendimentos das famílias, sem esquecer,
noutro plano, “A Conversa Amiga”, linha de atendimento telefónico criada a expensas exclusivas
da Fundação Inatel com o exclusivo objectivo de
prestar assistência, apoio e ajuda a todas as pessoas em momentos de dificuldade.
É uma honra, em suma, ser beneficiário associado da Fundação Inatel. E, sobretudo, neste
período de grave crise social e económica em que
a solidariedade deve ser a palavra de ordem. I
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Fotografia
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XIV Concurso “Tempo Livre”
Fotos premiadas
[1]
[3]
[2]
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Regulamento
1. Concurso Nacional de Fotografia da
revista Tempo Livre. Periodicidade
mensal. Podem participar todos os
membros associados da Fundação
Inatel, excluindo os seus funcionários
e os elementos da redacção e
colaboradores da revista Tempo Livre.
2. Enviar as fotos para: Revista Tempo
Livre - Concurso de Fotografia, Calçada
de Sant’Ana, 180 - 1169-062 Lisboa.
3. A data limite para a recepção dos
trabalhos é o dia 10 de cada mês.
Menções honrosas
[ a ] Maria Pinto, Penafiel
Sócio n.º 491595
[ b ] Sérgio Guerra, S. João do Estoril
Sócio n.º 204212
[ c ] Catarina Clemente, Lisboa
Sócio n.º 431600
[a]
4. O tema é livre e cada concorrente
pode enviar, mensalmente, um
máximo de 3 fotografias de formato
mínimo de 10x15 cm e máximo de
18x24 cm., em papel, cor ou preto e
branco, sem qualquer suporte.
5. Não são aceites diapositivos e as
fotos concorrentes não serão
devolvidas.
6. O concurso é limitado aos
beneficiários associados da Inatel.
Todas as fotos devem ser assinaladas
no verso com o nome do autor,
direcção, telefone e número de
associado da Inatel.
7. A Tempo Livre publicará, em cada
mês, as seis melhores fotos (três
premiadas e três menções honrosas),
seleccionadas entre as enviadas no
prazo previsto.
[b]
8. Não serão seleccionadas, no
mesmo ano, as fotos de um
concorrente premiado nesse ano
9. Prémios: cada uma das três fotos
seleccionadas terá como prémio duas
noites ou um fim de semana para
duas pessoas num dos Centros de
Férias do Inatel, durante a época
baixa, em regime APA (alojamento e
pequeno almoço). O prémio tem a
validade de um ano. O premiado(a)
deve contactar a redacção da «TL».
[ 1 ] Manuel Ribeiro,
Penafiel
Sócio n.º 353276
[ 2 ] António Pedro,
Almada
Sócio n.º 383506
[ 3 ] José Reis,
Cantanhede
Sócio n.º 282446
[c]
10. Grande Prémio Anual: uma
viagem a escolher na Brochura Inatel
Turismo Social até ao montante de
1750 Euros. A este prémio, com a
validade de um ano, a publicar na
revista Tempo Livre de Setembro de
2010, concorrem todas as fotos
premiadas e publicadas nos meses
em que decorre o concurso.
11. O júri será composto por dois
responsáveis da revista T. Livre e por
um fotógrafo de reconhecido prestígio.
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TempoLivre 7
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Cartas
A correspondência
para estas secções
deve ser enviada
para a Redacção de
“Tempo Livre”,
Calçada de Sant’Ana,
nº. 180, 1169-062
Lisboa, ou por e-mail:
[email protected]
da “morta” teria pago muito menos e com as
mesmas condições visto que em algumas as
crianças menores de 12 anos não pagam, e eu
tenho duas, mas como gosto das instalações e
tenho confiança na Inatel não me importei
muito com o assunto.
O problema foi mesmo no fim-de-semana
que passamos no Inatel de Piódão e, qual foi o
meu espanto, quando pago o valor da época
alta sendo época baixa, fiquei mesmo indignada pois desconhecia essa condição e em
Dezembro de 2009 quando estive no Luso nas
mesmas condições tal não aconteceu (…).
Anabela Monteiro, Guarda
50 anos na INATEL
Época Média/Época Alta
“(…) Quando em Maio deste ano fui para o
Inatel de Albufeira tive de pagar cama extra
para os meus filhos, coisa que antes não acontecia nas épocas médias, mas como tenho confiança nas instalações não me importei. Fiz
uma análise do mercado posterior e verifiquei
que se tivesse optado por outra unidade no
mesmo período e sendo uma época considera-
Completaram, no bimestre de Julho/Agosto, 50
anos de ligação à Fundação Inatel os associados:
António Conceição Meireles e Rui Gomes
Neves, de Almada; Mª do Rosário Baptista, de
Alenquer; Mário Diogo Miranda, de Águeda;
Maria Alice Fernandes, José António Muralha,
Júlio Raimundo, António Guerreiro Rodrigues
e Margarida Olga Landeiro, de Lisboa;
Jerónimo Augusto Santos, de Loures; Silvério
António Teixeira, de Oeiras; Baltasar Henrique
Silva, de Sintra
Coluna do Provedor
SEMPRE FOI difícil agradar a gregos e
Kalidás
Barreto
[email protected]
8
TempoLivre
| JUL/AGO 2010
troianos. A Revista “Tempo Livre”, da Fundação
INATEL, apesar de quase duas décadas de pu
blicação e de ser lida por centenas de milhar de
pessoas, não consegue, obviamente, agradar a
toda a gente; seria utópico pretendê-lo.
Vem isso a propósito de após a leitura da
revista surgirem, por vezes, observações ou
mesmo protestos sobre este ou aquela personalidade entrevistada. Por outro lado, sobre os mesmos articulistas ou entrevistados, surgem mensagens aplaudindo.
A felicidade de estarmos em Democracia e,
consequentemente, vivermos numa sociedade
plural, a revista “Tempo Livre” tem publicado
artigos, reportagens ou entrevistas com cidadãos
de diferentes sensibilidades. O critério dos editores é, obviamente, plural e respeitador de
princípios constitucionais.
As opiniões expressas são, simplesmente opiniões que tanto podem agradar a uns como incomodar outros.
Como diria Gandhi: “O que é verdade para
um pode ser não verdade para outro. Aquele que
procura a verdade não se preocupa com isso, por
um esforço firme e honesto, verificará que aquilo que parece ser verdade diferente é semelhante às inúmeras folhas da mesma árvore.”
Em qualquer dos casos, o Gabinete do
Provedor, recebe com respeito, as diversas opiniões dos leitores não sendo obrigado a aplaudilas ou condená-las. I
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Notícias
Novas Parcerias Inatel
GA
Fundação Inatel estabeleceu,
durante o mês de Junho último,
parcerias com várias entidades
nacionais, visando o reforço da
oferta de serviços disponíveis
aos beneficiários associados.
Foram, assim, assinados
protocolos com a Reviver Mais –
Associação dos Operacionais e
Dirigentes dos Bombeiros
Portugueses, a Cofac –
Cooperativa de Formação e
Animação Culturais Crl, o
Sindicato dos Jornalista, a
Ordem dos Engenheiros e a
Cooperativa de Ensino
Universitário (UAL).
Os membros dessas
instituições passarão,
Reginaldo de Almeida e Eduardo Costa, da UAL, com Vítor Ramalho na assinatura do protocolo
nomeadamente, a beneficiar de
descontos de alojamento nas
unidades hoteleiras da Inatel nas
ministrados pela Universidade
iniciativas culturais e unidades da
épocas média e baixa e de acesso
Lusófona de Humanidades e
Fundação.
aos espectáculos do Trindade e aos
Tecnologias, Universidade Lusófona
Finalmente, a Cooperativa de
parques desportivos.
do Porto, Escola Superior de
Ensino Universitário, proprietária
A Reviver Mais compromete-se,
Educação Almeida Garrett, Instituto
da Universidade Autónoma de
por sua vez, a desenvolver uma
Superior Manuel Teixeira Gomes,
Lisboa, representada pelo seu
cooperação mútua com vista à
Instituto Superior Politécnico do
presidente, Eduardo Costa, e pelo
resolução de problemas nas áreas
Oeste, Instituto Superior D. Dinis e
director Reginaldo de Almeida,
do lazer, desporto e cultura,
Instituto Superior de Novas
rubricou um acordo que isenta de
podendo ainda colaborar com os
Profissões e Escolas de Gestão.
jóia de inscrição os alunos desta
seus grupos de teatro, canto, musica
E, como a engenharia trata da
cooperativa de ensino que
e etnografia nas diversas
“segurança de pessoas e serviços”,
pretendam torna-se associados da
actividades da Inatel.
como sublinhou o seu Bastonário, o
Inatel, enquanto confere aos
A Cofac, o mais recente CCD
protocolo assinado com a Ordem
beneficiários associados e
(Centro de Cultura e Desporto) da
dos Engenheiros prevê uma acção
trabalhadores da Fundação um
Inatel, acordou a possibilidade de
conjunta na área da resolução de
desconto de 15% na inscrição e 10%
elaborar estudos e sondagens a
problemas ligados à ocupação dos
nas propinas nos cursos conferentes
preços competitivos e organizar
tempos livres e a divulgação junto
de grau. O presente acordo prevê,
palestras, estágios académicos e
dos seus membros das iniciativas e
ainda, em casos especiais a criação
profissionais de interesse para
programas da Inatel.
de cursos sob proposta da Fundação.
ambas as partes. Esta cooperativa de
Também o Sindicatos dos
A Inatel esteve representada por
ensino concede, ainda, a três
Jornalistas verá alargada aos seus
Vítor Ramalho, presidente, e
colaboradores da Inatel, por curso, a
associados, mediante a parceria
Moreira Marques, vogal da
redução de 10% no valor da
estabelecida, a possibilidade de
Administração, na celebração destes
propina mensal em cursos
acesso, em condições vantajosas, às
protocolos.
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TempoLivre 9
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Notícias
Concertinas em Castelo Rodrigo
G Cerca de 170 tocadores de
concertina de grupos oriundos de
várias localidades da zona centro
participaram no 8º Encontro de
Tocadores de Concertina no passado
dia 6 de Junho, em Figueira de
Castelo Rodrigo.
A iniciativa da Agência Inatel da
Guarda e da Junta de Freguesia de
Figueira de Castelo Rodrigo decorreu
em ambiente de grande calor
humano, onde a sã disputa e
“vaidade” em mostrar a moda que
ninguém conhece ou o forma mais
original de interpretar uma musica
animou os corações de todos os que
assistiram ao evento que regressará
em 2011.
“Um Estádio na Cidade”
G Para
assinalar os 50 anos do seu
principal espaço desportivo, e no
âmbito das comemorações dos 75
anos da instituição, a Fundação
Inatel acaba de editar
“Um Estádio na
Cidade – 50 anos do
Parque de Jogos 1º de
Maio”, uma bem
documentada e
ilustrada obra da
autoria de Nuno
Domingos e de
Joaquim Vieira. Os
grandes momentos
desportivos, políticos
(1º de Maio de 1974) e
culturais (Festa do Cinema)
do estádio FNAT/INATEL, apoiados
num valioso espólio fotográfico (de,
entre outros, Óscar Coelho da Silva –
fotógrafo da ex-Fnat, José Frade e
Pedro Bettencout) acompanham, no
livro, a história deste emblemático
10
TempoLivre
| JUL/AGO 2010
espaço lisboeta, frequentado por
milhares de trabalhadores (no activo
ou reformados) e atletas nas suas
múltiplas modalidades desportivas.
Recorda, a propósito,
Vítor Ramalho, no
texto introdutório, a
média diária de 6500
beneficiários que
utilizam as instalações
desportivas do Parque.
Noutra nota, assinada
pelo administrador
Moreira Marques,
sublinha-se a
“significativa
requalificação” que o
espaço “vai sofrer em
breve”, reflectindo a nova
dinâmica da Fundação no seu
relacionamento com a sociedade
portuguesa”. Os interessados poderão
adquirir o livro na direcção
Desportiva na sede da Inatel.
Aprenda a Surfar
G Crianças
entre os 8 e 15 anos de
idade podem aprender a surfar
nas clínicas de surf para
ocupação de tempos livres nas
Férias do Verão, uma iniciativa da
Alfarroba Surf School e da Nokia
Surf Academy, que apresentam
para este verão várias propostas
de semanas de férias ao ar livre,
destinadas a aprendizes de palmo
e meio. Para mais informações
contacte:
http://www.alfarroba.pt/surfschool
/docs/ASS_Verao2010.pdf.
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Turismo Solidário
G Ainda no âmbito dos programas
sociais de lazer, a Inatel vai gerir e
acolher o programa “Turismo
Solidário”, promovido pelo Ministério
do Trabalho e da Solidariedade Social
com a comparticipação financeira do
IGFSS – Instituto de Gestão Financeira
da Segurança Social, IP - que
decorrerá nas épocas baixa e média
nos Parques de Campismo ou Centros
de Férias da Fundação, abrangendo
cerca de 5300 cidadãos. A duração
prevista da estada para estes cidadãos
mais carenciados é de 6 dias (5
noites). São abrangidos pelo programa
os cidadãos residentes em Portugal
com idade superior a 18 anos, com
baixos rendimentos, que poderão ser
acompanhados pelos cônjuges e/ou
outros membros dependentes do
agregado familiar, independentemente
da idade e da nacionalidade destes. A
diferenciação do preço será feita em
função dos rendimentos dos
participantes, promovendo o crescente
acesso ao programa pelos cidadãos
efectivamente mais carenciados.
Os custos do programa são
suportados pela entidade financiadora
e pelos participantes, consoante o
rendimento mensal auferido, a que
corresponde um dos quatro escalões
existentes de pagamento. As inscrições
podem ser feitas nas unidades
hoteleiras da Inatel de Entre-os-Rios,
Luso, Feira, Manteigas, Foz do Arelho,
Vila Ruiva, Castelo de Vide, Albufeira
e Oeiras. O regime é de pensão
completa com animação turístico cultural. No escalão 1 – rendimento
inferior ou igual a 237,50 euros – cada
participante pagará 15 euros. Nos
rendimentos superiores a 475 euros e
inferiores ou iguais a 950 euros, o
pagamento será de 133 euros. As
crianças de três a 11 anos pagam sete
euros.
8:31
Page 11
“Abrir Portas à Diferença”
G Proporcionar aos cidadãos
portadores de deficiência permanente
a “integração e o desenvolvimento
psíquico, físico e social” facilitandolhes o acesso ao “gozo de férias
organizadas, independentemente da
idade”, é o objectivo central do
Programa “Abrir Portas à Diferença”,
uma iniciativa dos Ministérios das
Finanças e do Trabalho e da
Solidariedade Social que prevê, no
ano em curso, de Julho a Dezembro,
a participação de quatro centenas de
cidadãos portugueses com
deficiências e incapacidades em grau
igual ou superior a 60% e respectivos
acompanhantes.
Gerido pela Inatel, a quem os dois
ministérios reconhecem ter
assegurado de forma eficaz a gestão
dos programas governamentais com
características similares (mais de 535
mil cidadãos desde 1995), o
programa promoverá a “integração e
o crescimento sustentado do número
de participantes, a diversificação dos
destinos e o aumento da quantidade
e qualidade das parcerias”,
envolvendo, também, municípios,
freguesias e entidades da economia
social. Tal como ocorre com outros
programas de turismo social, “Abrir
portas à diferença” deverá,
igualmente, contribuir para a
“dinamização da economia regional e
local nas épocas baixa e média da
actividade turística e da restauração”.
Os participantes acederão ao
programa mediante contactos
efectuados pela Fundação Inatel
junto do Instituto da Segurança
Social, IP, do Instituto Nacional para
a Reabilitação, I.P., e das associações
representativas dos com deficiências
e incapacidades. Os custos do
programa são suportados pela
entidade financiadora e pelos
participantes.
“Novas Respostas da Comunicação”
GO
futuro dos media
esteve em foco na
intervenção de Mário
Mesquita na conferência
realizada no final de Maio,
no auditório da INATEL “Casa Pedro Homem de
Mello”-, no âmbito do ciclo
de conferências
promovidas pelas
Fundações Inatel e Mário
Soares. O impacte das
novas tecnologias no
jornalismo actual e futuro
e a proliferação dos ‘sites’ sociais e de outros meios de comunicação gratuitos,
aliados ao desenvolvimento de uma “economia da atenção” baseada no instantâneo
e no imediato e as suas consequências na secundarização dos jornalistas como
intermediários da informação, foram temas da abordagem do antigo director do
“DN” e actual professor de jornalismo.
JUL/AGO 2010 |
TempoLivre 111
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Page 12
Notícias
De Julho a Setembro
12 Festivais CIOFF em Portugal
dos 147 festivais
internacionais de folclore que se
realizam em 2010 no âmbito do
CIOFF (Conselho Internacional das
Organizações de Festivais de Folclore
e Artes Tradicionais) vão ter lugar em
Portugal, com o apoio da INATEL,
representante oficial de Portugal,
desde 1994, naquela organização
internacional cultural nãogovernamental associada à UNESCO.
Cada um dos 12 festivais que vão
decorrer, de Julho a Setembro, em
várias pontos do nosso país, deverá
ter, a par de representantes nacionais,
a participação de um mínimo de
cinco grupos estrangeiros, que
exibirão, entre nós, as suas artes
tradicionais, através de espectáculos
de dança e música ao vivo, mostras
de artesanato, workshops, exposições,
conferências, jogos tradicionais, entre
outras actividades.
A UNESCO, registe-se, deliberou
que 2010 será o Ano Internacional
para a Aproximação das Culturas,
com o objectivo de favorecer o
Fátima Alves
G Doze
diálogo e o conhecimento recíproco,
favorecer o respeito pela cultura do
próximo e atenuar as barreiras entre
as diferentes culturas, valores que os
Festivais CIOFF assumem e praticam
desde há dezenas de anos.
O primeiro dos festivais nacionais,
Folk Cantanhede, decorre de 3 a 10
de Julho, seguindo-se o
Festitradições de Povos do Mundo, de
9 a 18, em Lorvão (Penacova); o
“Festimaiorca” (Figueira da Foz), de
16 a 22 de Julho; o Festival
Internacional de Folclore Rio,
Barcelinhos (Barcelos), 21 de Julho a
1 de Agosto; o Danças do Mundo Festival Internacional de Folclore nas
Terras da Feira, Argoncilhe, 21 de
Julho a 2 de Agosto; o FESTARTE Leça da Palmeira (Matosinhos), 23 de
Julho a 2 de Agosto; o Festival
Internacional de Folclore de
Gulpilhares (Gaia), de 31 de Julho a 9
de Agosto; o Festival Internacional
Folclore “Ponte do Mouro e
Alvarinho”(Alto Minho), 2 a 9 de
Agosto; o Festival Internacional de
Folclore dos Açores, Angra do
Heroísmo ( Terceira), de 8 a 14 de
Agosto; o FOLKFARO (Faro), 21 a 29
de Agosto; o Festival Internacional
Alto Minho, Viana do Castelo, 30 de
Agosto a 6 de Setembro; e, po fim, o
Festival Internacional “Celestino
Graça”, em Santarém, 1 a 7 de
Setembro.
“Os UBach”
Candidaturas CCD’s
G
No âmbito das
candidatura dos CCD’s
para os subsídios
do 2.º semestre de 2010 –
acções de índole desportivo
–, os resultados das
mesmas já se encontram
na nossa página
www.inatel.pt .
Poderá solicitar mais
informação na sua
Agência.
12
TempoLivre
| JUL/AGO 2010
G Desafiado, em 2001, no decorrer de
umas jornadas históricas do concelho
de Gouveia, a contar a saga dos
Ubach, uma família catalã que veio
para Portugal em meados do século
XIX, por razões de perseguição
política, José Álvaro Ubach Chaves
Rosa – engenheiro mecânico
reformado - concretizou, nove anos
depois, o seu próprio sonho de
transformar em romance a história do
antepassado Esteve Ubach. Membro
de uma família de industriais de
lanifícios, este emigrante catalão criou
na freguesia de S. Paio (Gouveia) uma
empresa similar que marcou, durante
um século, a vida económica e social
do concelho serrano.
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José Régio e David
Mourão Ferreira
“José Régio em Portalegre”
G Portalegre
continua a comemorar, ao longo de 2010, os 80
Anos da chegada do Poeta José
Régio à cidade.
A par de um ciclo de conferências
que tem vindo a decorrer,
continua patente, no Castelo, até
19 de Setembro, a exposição “José
Régio em Portalegre”, uma mostra
de um conjunto de documentos e
obras de arte com os quais se
pretende retratar o quotidiano do
"Porta Aberta"
em Braga
Atrair os bracarenses
para a actividade da Inatel
foi o objectivo da iniciativa
"Porta Aberta", promovida
pela agência de Braga da
Fundação no passado dia
19 de Junho. Actividades
desportivas, momentos de
teatro e música e um
animado churrasco
minhoto atrairam
numerosos populares,
conquistados pelo intenso e
diversificado convívio que assegurou Vítor Esteves,
director da agência - terá
continuidade nos próximos
anos.
G
Poeta na capital do Alto
Alentejo.
Chegado em Outubro de 1929 à
cidade como professor de
Português e Francês, José Régio
aí permanecerá por mais de 30
anos, desenvolvendo a par do
ensino e da escrita uma
constante procura por objectos
de arte, principalmente de arte
popular e interessando-se por
tudo o que é original.
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Notícias
Mora: Músicas no Rio
Festa do Cinema 2010
G Sinfonnieta
de Lisboa, com
Bernardo Sassetti (no sábado, 16
GA
Festa do Cinema Inatel 2010, a
decorrer de 24 de Julho a 7 de Agosto,
no Parque Desportivo 1º de Maio,
exibirá cerca de três dezenas de
filmes
repartidos pela
programação na
tela gigante
(Zona Mega) e
pelo espaço de
cinema
independente
programado
pela Zero a Comportamento (Zona
Watt), entidade organizadora do
Festival IndieLisboa. Os espectadores
têm assim a oportunidade de ver não
só os últimos grandes êxitos do
cinema mundial mas também
programação cinematográfica
totalmente inédita no nosso país.
Às sextas e sábados na Zona Watt
todos os espectadores podem dar
continuidade às noites de Verão com
DJ e VJ Sessions. A oferta cultural
será alargada com presença de
entidades e associações que
divulgarão as suas actividades e
produtos no espaço da Festa.
A programação já confirmada
para a Zona MEGA desta 9ª edição
da Festa inclui, entre outros filmes,
“Sexo e a Cidade 2”, “Sacanas sem
lei”, “Invictus”, “Kick Ass-O Novo
Super Herói”, “Alice no País das
Maravilhas”, “Como treinares o teu
dragão”, “A Bela e o Paparazzo”, “O
Príncipe da Pérsia”, “Uma noite
atribulada” e “Shrek para sempre”.
Na Zona WATT grandes filmes
inéditos em Portugal que vão desde
a ficção, o documentário e curtasmetragens dos quatro cantos do
mundo. Uma oportunidade a não
perder para conhecer o que se faz
de melhor no cinema
independente.
Os bilhetes variam entre os 4€
(zona Mega e Watt) e os 25€ (passe de
13 filmes para qualquer uma das
zonas). Os jantares marcam
novamente presença e o seu valor é
de 18€. Para beneficiários da
Fundação INATEL aplicam-se os
descontos habituais. Os ingressos
estão à venda nos locais tradicionais.
Julho), Maria João/ Mário Laginha
(domingo, 17 Julho), Mafalda Arnauth
(sábado, 23 Julho) e Sérgio Godinho
(domingo, 24 Julho), integram o cartaz
da primeira edição do festival “EDP Musicas no Rio, os outros sons do
Fluviário”, a decorrer em Mora. Os
quatro espectáculos têm lugar num
palco em pleno rio Raia, defronte da
praia fluvial do Parque Ecológico do
Gameiro, junto ao Fluviário de Mora.
“…and then again…”
G No
museu da Cidade (Campo
Grande 245, Lisboa) está patente até
5 de Setembro a exposição “.and
then again…”, mostra colectiva de 70
obras de 31 artistas portugueses e
ingleses. Tomando como ponto de
partida o universo da impressão
(gravura, serigrafia, litografia entre
outros) os trabalhos apresentados
contemplam técnicas diversas e
híbridas em que o processo da
imagem múltipla se torna mais
relevante que nunca no acelerado
contexto da era digital.
XII Porto Cartoon
G O XII PortoCartoon - World
Festival, abriu oficialmente no
passado dia 23 de Junho, na Galeria
Internacional do Cartoon, do Museu
Nacional da Imprensa, com o tema
“Aviões e Máquinas Voadoras”, em
homenagem ao pioneirismo de
Bartolomeu de Gusmão. A sessão
inaugural contou com a presença
dos premiados que receberam os
respectivos prémios e troféus,
desenhados por Siza Vieira e
assistiram à inauguração da a
exposição que reúne cerca de 400
14
TempoLivre
| JUL/AGO 2010
cartoons vindos de todo o mundo.
O cartunista polaco Jerzy Gluszek
foi o vencedor do Grande Prémio,
seguido por Mahmood Azadnia, do
Irão, e Stefaan Provijn, da Bélgica,
segundo e terceiro prémios,
respectivamente. A elevada
qualidade dos trabalhos levou o júri
internacional do concurso a atribuir
ainda 18 menções honrosas a
artistas de 11 países: Alemanha,
Argentina, Bélgica, Brasil (3), Cuba,
Escócia, França, Irão (2), Portugal
(3), Roménia e Turquia (3).
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Lazer
Inatel Oeiras
Quartos com vista
para o Bugio
João Gaspar, 54 anos, lembra-se dos lanches que tomou no velho Motel de
Oeiras, há uns 40 anos, quando a família se sentava na esplanada, numa
tarde de fim-de-semana e os miúdos tinham direito a beber laranjada, em
vez dos costumeiros copos de leite morno.
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TempoLivre
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DO PRATO DE BOLOS sortidos que vinha para
a mesa, João escolhia sempre um branco de coco,
com o formato de um pastel de bacalhau, feito de
miolo ralado. Hoje, o hábito perdeu-se - já não se
encontram nas pastelarias tais delícias de coco,
foi pastel que passou de moda, e a "ditadura
higiénica", como João lhe chama, proibiu há
muitas décadas a devolução de artigos alimentares, depois de passada a fronteira do balcão -, mas
o lanche de domingo à tarde, com vista para o
Bugio, sobrevive e, diz este ex-aluno do Liceu de
Oeiras, só não é ainda mais agradável do que
então, porque ter 12 anos e uma avó que oferecia
aos miúdos um Rajá de fruta ou chocolate eram
trunfos imbatíveis.
O habitué do Motel Continental vai ao extremo de afirmar que agora é que lhe dava jeito ser
outra vez criança, para andar a esfolar joelheiras
de pelica no excelente Passeio Marítimo de
Oeiras (Paredão para os amigos), em que o complexo da Inatel se insere "e quase se pode dizer
que foi precursor, pelo menos já cá estava quando a ideia do passeio à beira mar-e-rio foi lançada". Aos 2400 metros iniciais, entre a praia da
Torre e o restaurante Saisa, juntaram-se, em 2009,
mais 1450 metros, podendo agora dar-se uma
passeata de quase quatro quilómetros até à praia
"nova" de Paço d'Arcos - "nova", por oposição à
"velha", a dos pescadores, frente ao jardim, e a
que os mais velhos da zona ainda às vezes se referem como a "praia do inglês morto", recordação
de 1808, quando ali deu à costa o corpo de um
capitão da armada britânica abatido pelos marinheiros de Napoleão.
O paredão, que um dia, a cumprirem-se as
promessas da Câmara Municipal, chegará a
Algés, num extremo, e há-de ligar-se ao seu congénere do concelho de Cascais, em Carcavelos,
no outro, enche-se de utentes, mal o sol abre um
pouco ao fim-de-semana. E no Verão, nem se fala.
A longa praia de Santo Amaro enche-se de lisboetas, como é sabido, e o Passeio Marítimo é percorrido pelos banhistas. No dia-a-dia e a todas as
horas, incluindo à noite, é palco de joggings e
caminhadas, estando só vedado a quem opta pelo
exercício de bicicleta, para não haver atropelamento de peões. Ao longo do ano, desde que não
caiam cargas de água, há sempre gente, mais que
não seja os pescadores amadores, infatigáveis
"residentes" do paredão, com os seus bancos desJUL/AGO 2010 |
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Lazer
GUIA
poetas (os clássicos, claro,
Versalhes, têm uma notável
mas também contemporâneos
cascata decorada com
como Natália Correia, ou Ary
estátuas em terracota.
Visitar
dos Santos) e lápides com os
Em Algés, Oeiras tem o
O mais novo pólo de atracção
seus versos.
Palácio Anjos, sempre com
do concelho de Oeiras é o
Em Caxias, visite-se os jardins
exposições de arte; em
Parque dos Poetas, um vasto
da Quinta Real, espaço de
Barcarena, as recuperadas
jardim (as árvores jovens dão
recreio da rainha D. Maria I,
instalações da Fábrica da
sinal da criação recente),
que D. Luís utilizou como
Pólvora; e em Paço d'Arcos, o
perto da saída da A5,
residência, antes de se mudar
recuperado Jardim do Paço, à
polvilhado de estátuas de
para a Ajuda. Inspirados em
entrada da vila.
dobráveis, o balde de levar o peixe para casa (não
vá algum nesse dia deixar-se apanhar, o que não
é costume) e as canas. Curioso espectáculo é visitar o passeio com o sol já posto e observar a marcha dos pirilampos artificiais em que se transformam as bóias dos pescadores no fim da linha.
Outro João, este Semedo, de 37 anos, morador
numa urbanização junto ao Tagus Park, confirma
a grande utilização deste equipamento oeirense,
até porque, ao longo do ano, não perde uma
manhã de domingo no local. O local é a chamada Praia das Fontainhas, entre Paço d'Arcos e
Santo Amaro, uma zona de muita pedra e pouca
areia, que não vê banhistas, nem nos dias mais
tórridos - só tem pescadores. Semedo é o que faz,
religiosamente, aos domingos - pescar, ou "fazer
que pesca", confessa, porque é muito raro tirar
um sargo ou uma savelha destes últimos metros
de Tejo, primeiros de oceano. "Venho dar banho à
minhoca e ver as vistas, descansar a olhar para o
Mar da Palha. Sem medo, como é o meu nome.
Faça sol, ou faça chuva, o ano todo".
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TempoLivre
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Quando Semedo nasceu, em Paço d'Arcos,
já havia Motel e estava quase a haver o 25 de
Abril, que marcou, passado pouco tempo, a
passagem desta estrutura revolucionária, em
termos turísticos, das mãos dos privados que a
edificaram, para as do recém-baptizadoo
Inatel. "Namorei muito, não no motel, mas na
esplanada e na praia em frente, que é conhecida por praia do motel e tem uns vestígios de
um cais que o Marquês [de Pombal, Conde de
Oeiras] mandou construir para ir de casa ao
mar, pela Ribeira da Laje. Mas sei, pelos mais
velhos, que foi uma ideia revolucionária. O
motel, digo eu".
Os mais velhos confirmam. "O aparecimento
de um equipamento destes foi uma grande sensação", diz Inácio Rodrigues, que, acompanhado
pela mulher, apanha sol junto ao forte Catalazete,
enquanto vigia as tentativas do neto para se equilibrar nuns patins ("Joguei hóquei no Oeiras e
quero meter-lhe o vício"). "Não só o pessoal
daqui, como gente de Lisboa, as famílias vinham
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usufruir disto e sentíamo-nos muito modernos".
A avó do Tiago dos patins acrescenta: "Haver um
motel em Portugal era um sucesso. Costumo juntar essas recordações ao primeiro drugstore (era o
nome dos centros comerciais) que conheci, o
Apolo 70. E (as raparigas novas) íamos a Lisboa
comprar roupa aos Por-fí-ri-os. Era a nossa loucura, entre aspas, dos anos 60. Motel, drugstore e
Por-fí-ri-os."
O Motel nunca foi, ao modelo norte-americano, "um hotel com estacionamento para veículos
motorizados, no qual se tem acesso aos quartos
directamente da área em que ficam os veículos",
como diziam os dicionários em 1925, mas foi
criado nos anos 60, por Sousa Brito, empresário
hoteleiro, que fez fortuna em Moçambique e de lá
trouxe para a "metrópole" ideias mais arejadas
como esta, usando a aura mítica que lhe davam
os road movies.
"Houve um tempo em que era muito chic vir
de carro ao Motel, mesmo que fosse só para beber
um refresco", conta a D. Suzete Marques, uma
oeirense que, porém, "só cheirou isto, depois de o
Inatel ter comprado" as instalações e democratizado o acesso ao equipamento. "Na era Inatel",
como diz a senhora, até chegou a "passar cá uns
dias", só para experimentar. Gostou, mas não
repete a experiência porque lhe "faz confusão
estar de férias tão perto de casa". Prefere a Foz do
Arelho, declara. "É mais longe."
Presentemente, o "velho" Motel Continental Centro de Férias da Inatel - tem 137 apartamentos e uma sala de reuniões para 120 pessoas,
onde se realizam congressos e outros eventos
profissionais, uma bela piscina com vista para o
Bugio e um parque infantil rodeado de árvores,
restaurante com esplanada, café, tudo equipado
com internet sem fios, para manter o espírito de
modernidade que presidiu à sua edificação. O
ambiente é familiar e a permanência não é exclusiva dos sócios da Inatel. Está a meio do Passeio
Marítimo de Oeiras. Dá para passear para um
lado e para outro. I
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Entrevista
Carlos Mamede
Vice-presidente da Fundação Inatel
“A ligação à Inatel
será cada vez
mais vantajosa...”
R
equalificar equipamentos, modernizar e simplificar a gestão e
desenvolver produtos turísticos mais apelativos são os objectivos
centrais do pelouro de Turismo e Hotelaria da Inatel, liderado pelo
seu vice-presidente Carlos Mamede. Licenciado em Administração Regional
e Autárquica, com pós-graduações em Contabilidade, Finanças Públicas e
Gestão Orçamental e cursos de Gestão Pública e Estratégica, o antigo
membro da Comissão Executiva da CGTP-IN e ex-presidente das Lojas do
Cidadão sublinha, em entrevista à TL, a imagem “mais moderna e actual” e
o “novo dinamismo” da Fundação, com “serviços e equipamentos de elevada
qualidade” e preços competitivos face à hotelaria tradicional.
Com quase dois anos de mandato cumpridos na
vice-presidência da Inatel, que balanço faz do
trabalho desenvolvido?
O balanço é muito positivo! A INATEL é uma
grande instituição e uma das mais antigas e respeitadas da sociedade portuguesa, pela relevância do seu papel, único a nível nacional, e pela
diversidade das actividades desenvolvidas e a
dimensão do seu património. A transformação do
anterior Instituto Público numa Fundação de
direito privado e utilidade pública, para responder às novas realidades sociais e económicas do
País e dar respostas mais eficazes e de qualidade
às crescentes solicitações dos seus beneficiários e
do público em geral, determinou que desen20
TempoLivre
| JUL/AGO 2010
volvêssemos, uma intensa actividade de reestruturação orgânica, de alteração de processos e
métodos de trabalho, de modernização de equipamentos e racionalização de estruturas, de estabelecimento de novas parcerias e de ampliação
da nossa oferta de serviços.
Essa reestruturação já deu resultados visíveis?
A INATEL está diferente, todos o sentem, tem
uma nova imagem, mais moderna e actual, e um
novo dinamismo que corresponde de facto a uma
nova realidade – a de uma organização com tradição mas aberta aos mais jovens, acessível a
todo os que a procuram e não apenas reservada a
“sócios” (embora tenhamos ampliado as regalias
e benefícios ao dispor destes), com serviços e
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José Frade
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Entrevista
equipamentos de elevada qualidade, como sucede com a maioria das nossas unidades hoteleiras
que só no preço são inferiores à hotelaria tradicional.
Nestes dois anos realizou-se um elevado
investimento na requalificação de muitos dos
nossos estabelecimentos, em particular nos
Parques de Campismo e em unidades hoteleiras
(Albufeira, Porto Santo, S. Pedro do Sul, Foz do
Arelho, Oeiras), estando já em curso uma grande
obra de remodelação em Vila Nova de Cerveira,
tendo em vista o seu licenciamento como hotel
de 4 estrelas.
O licenciamento dos “Centros de Férias” é um
imperativo legal?
O Decreto-Lei que institui a Fundação, obriga-nos
a proceder a esse licenciamento, pelo que os chamados “centros de férias” passarão a ”unidades
hoteleiras”, tendo que adequar-se
às normas e requisitos em vigor
para toda a hotelaria. Neste trabalho, temos contado com uma
A Inatel está
excelente colaboração do Turismo
diferente, todos o
de Portugal e de várias das autarsentem, tem uma
quias envolvidas, tanto nos pronova imagem, mais
cessos de licenciamento, como
moderna e actual
nos processos de candidatura a
linhas de apoio comunitárias,
para obtenção de meios financeiros que permitam à Fundação
fazer face ao conjunto de intervenções e requalificações que será necessário realizar até 2011.
Abriram, entretanto, novas unidades hoteleiras...
É um facto. A partir de Setembro de 2009, os nossos beneficiários passaram a dispor de alojamento de elevada qualidade em Linhares da Beira e
também na Região Autónoma dos Açores, com a
abertura de hotéis de 4 estrelas nas ilhas das
Flores e da Graciosa, para onde os nossos associados podem viajar a preços verdadeiramente
imbatíveis.
A gestão da área do Turismo e das Unidades
Hoteleiras da Fundação foi objecto de uma
grande reestruturação….
O Turismo de viagens e a Hotelaria (incluindo as
Termas e os Parques de Campismo) constituem o
principal sector económico da Fundação e, como
tal, são o seu primeiro instrumento para a
geração das receitas indispensáveis ao funciona-
“
”
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TempoLivre
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mento da estrutura administrativa e ao desenvolvimento das áreas de intervenção social da
Fundação – cultura, desporto, programas seniores e juvenis, programas de solidariedade e
inclusão social. No final de 2009, a Fundação
INATEL dispunha de 17 Unidades Hoteleiras,
com 1325 quartos e de 2716 camas, tendo servido uma média anual superior a 700 mil almoços
e jantares. Além de dois balneários termais, em
Manteigas e Entre-os-Rios, e de quatro parques
de campismo, na Caparica, Cabedelo, S.Pedro de
Moel e Bragança.
Um vasto património com problemas de gestão?
A realidade que aqui encontrei, em 2008, foi a de
uma organização geradora de muito desperdício
de recursos, com muitos trabalhadores empenhados e competentes, mas sem os necessários
suportes de gestão que lhes permitissem ter uma
acção competitiva, capaz de ser bem sucedida no
contexto de mercado em que o INATEL se viu
inserido quando passou a Fundação de direito
privado.
Por isso inscrevemos no ano passado, e prosseguimos este ano, a prioridade para a rentabilização da sua produção, através de uma acção
decidida em três eixos centrais: uma profunda
alteração do modelo de governação dos Parques
de Campismo e da rede de Unidades Hoteleiras
da Fundação INATEL, assente numa estrutura de
gestão regionalizada e em novos procedimentos
funcionais; uma visão comercial que incremente
a afirmação e comercialização das nossas
Unidades e do nosso Turismo, assente em ferramentas informáticas que permitam a criação de
uma “Central de Reservas” e a venda de viagens
e de alojamento nas nossas Unidades Hoteleiras
por via da Internet; e a formação dos nossos trabalhadores nas vertentes comercial, informática
e de atendimento ao público.
Nesse sentido, as quinze unidades hoteleiras
do Continente foram agrupadas em três grandes
regiões, com o objectivo interno de melhorar a
eficiência operacional da rede e aumentar os seus
resultados. Está em curso um vasto programa de
formação “top-down”. E está já a ser ultimado um
mecanismo informático de reservas on line, no
portal da Fundação, que além da venda de viagens, irá permitir também a venda de quartos dos
nossos hotéis através da rede de Agências da
Fundação, e estão a ser desenvolvidos novos
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canais de venda das Unidades Hoteleiras, em sistemas de internet, como o Lifecooler, Booking,
HRS ou Central R.
Nos Parques de Campismo também houve alterações importantes...
Também aí se fez uma pequena revolução. A
começar pela autonomização e valorização desta
área, com a criação de uma “gestão nacional dos
parques”, a cargo de um Gestor Nacional a quem
cabe dar expressão a uma promessa que eu já fiz
aos próprios campistas: a de que comigo e com
este Conselho de Administração, os parques de
campismo não continuarão a ser os “parentes
pobres” do turismo social da Fundação. Além
disso, aprovámos o “Regulamento Geral dos
Parques de Campismo” que veio adequar esta
actividade ao novo enquadramento legal da
Fundação, e modernizar as regras de convivência
comum nos nossos Parques de Campismo,
reforçando a aplicação dos princípios campistas
e das novas técnicas e tecnologias de gestão e
exploração destes espaços de lazer. Aspecto relevante, porque o “campismo”, sendo naturalmente associado ao ar livre e à evasão, é cada vez
menos uma actividade isolada, de “tenda às costas”, para ser uma actividade social, pressupondo
a utilização de equipamentos mais ou menos
sofisticados e de espaços cada vez mais infraestruturados e organizados. Iremos prosseguir
este trabalho, assim não nos faltem as condições
humanas e financeiras, aprofundando a requalificação e reorganização dos parques de campismo, permitindo a sâ utilização dos espaços de
lazer postos à disposição de todos os beneficiários.
A actual crise económico-financeira não afecta
esse esforço de aumento dos resultados?
A crise financeira internacional, e alguns fenómenos naturais, como a chamada “Gripe A” e as
cinzas do vulcão da Islândia, afectaram seriamente a procura dos mercados, interno e externo,
em relação ao turismo e à hotelaria nacional. O
sector privado registou fortes quebras de receitas
e de taxas de ocupação e a Fundação acompanhou essa quebra. Uma quebra que se reflectiu
ainda no primeiro trimestre deste ano mas que, a
partir de Abril, começou a dar sinais de recuperação que espero tenham continuidade no 2º
semestre.
Pela nossa parte, e no âmbito da política de
racionalização e profissionalização da gestão dos
estabelecimentos hoteleiros, procurámos acautelar uma rentabilidade que contribua para os fins
sociais que são a principal missão da Fundação,
intensificando os esforços de redução de custos
operacionais e de aumento dos resultados do
turismo e da hotelaria, com o apoio do nosso
departamento de Marketing e das nossas
Agências e Delegados Regionais, na venda de viagens e na captação de novos clientes e de grupos
para as unidades hoteleiras.
E há novidades na oferta turística Inatel?
Temos procurado inovar na oferta, como sucede
com o projecto “cooking”, desenvolvido com o
chefe Carlos Capote nas nossas unidades hoteleiras e que tem sido muito bem aceite pelos clientes que à mesma têm aderido, assim como pelas
equipas de cozinha onde o chefe Capote tem
estado. E desenvolvemos ofertas
distintivas para as regiões, alinhadas com a proposta de valor da
Os parques de
INATEL,
capitalizando
na
campismo não
vocação natural de cada região e
continuarão a ser os
desenvolvendo os seus factores
“parentes pobres” do
de qualificação, como sucede
turismo social da
com as duas unidades inseridas
Fundação
em Aldeias Históricas, de cuja
Associação fazemos parte.
Vamos apostar no Turismo de
Natureza, com o lançamento do
programa “Caminhar com a INATEL”, que oferecerá circuitos pedestres em torno da maioria das
nossas unidades, com trilhos demarcados e a
possibilidade de realização monitorizada do circuito (com GPS) e, no âmbito das viagens estamos a desenvolver produtos apelativos, direccionados a novos segmentos de mercado, como o
turismo activo e para famílias, mantendo ainda
programas de sucesso como o “55+Espanha”,
para o segmento sénior e o “Turismo para Todos”
que relançaremos na próxima época baixa.
Portanto, e apesar da crise, não parece estar
pessimista quanto ao futuro...
Sem duvida que a situação é difícil e vai obrigar
a decisões nem sempre simpáticas, mas confio
nas orientações já aprovadas pelo Conselho de
Administração, no sentido de prosseguir e aprofundar o processo de mudança orgânico, funcional e cultural da Fundação, com o funcionamento em rede dos serviços de contacto com o clien-
“
”
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Entrevista
Carlos Mamede
rodeado pelos mais
directos
colaboradores e
directores das
Unidades Hoteleiras
te externo, a articulação entre todos os departamentos e áreas de actividade, a ligação aos beneficiários e associados individuais e colectivos, o
desenvolvimento de parcerias a nível nacional e
internacional, o incremento das vendas do turismo e o aumento das taxas de ocupação das nossas unidades hoteleiras.
E acredito que temos uma proposta de valor
atractiva, baseada nas características diferenciadoras do turismo
social da INATEL e em recursos
Diria aos nossos
excepcionais em termos de localibeneficiários: pela
zação e potencial geo-turístico,
sua saúde e pelo
património histórico e cultural,
bem-estar da sua
experiência e disponibilidade dos
família, ligue-se à
nossos profissionais.
Inatel
Os preços praticados na
Unidades Hoteleiras, têm suscitado algumas reacções negativas.
Ainda é vantajoso ser associado?
Cada vez será mais vantajoso ser beneficiário associado da Fundação Inatel. Não só porque temos
mais e melhores serviços, com descontos que rapidamente “pagam” o, já de si baixo, custo da quota
anual, mas também pelo conjunto de vantagens na
utilização ou aquisição de bens e serviços das
várias entidades com quem temos estabelecido
protocolos e parcerias.
No que diz respeito a viagens, para além do
menor preço, o beneficiário tem na Fundação
uma equipa de programação que opera em
função das suas necessidades. Já referi o preço
imbatível de umas férias na ilha das Flores, mas
muitos outros poderia citar. Em suma, diria aos
nossos beneficiários: pela sua saúde e pelo bemestar da sua família, ligue-se à INATEL!
“
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E os preços das unidades hoteleiras?
Quanto às tabelas de preços das nossas unidades
hoteleiras, publicadas este ano pela primeira vez
com um preço para o público em geral, o chamado “preço de balcão”, houve alguma incompreensão que importa esclarecer devidamente.
De facto, ao passar a ter um estatuto de
Fundação privada de utilidade pública, a INATEL
alargou o seu âmbito a todos os trabalhadores, no
activo ou reformados, sejam ou não seus associados. Isto obrigou à alteração das tabelas de
preços, que passaram a ter um preço de balcão,
válido para todos os beneficiários, mas sobre o
qual se aplica um desconto de 20 por cento para
os associados, para quem se mantiveram praticamente inalterados em 2010 os preços praticados
em 2009.
E na alimentação?
Convém lembrar que os preços da alimentação
apenas sofreram meros ajustamentos, continuando a ser muito inferiores aos praticados na generalidade da hotelaria.
Mas ainda quanto ao alojamento, permitamme realçar que a nova realidade estatutária obrigou igualmente à segmentação e à flexibilidade
na fixação dos preços e, a exemplo do que se
passa em toda a hotelaria, também nas nossas
unidades hoteleiras se aplicam descontos comerciais para grupos e empresas e se fazem promoções regulares com baixas de preço, dentro de
limites razoáveis e sempre que a ocupação das
suas unidades o justifique, mantendo-se o valor
global de desconto praticado em 2009 sobre o
preço de balcão, para os reformados, pensionistas
e pessoas com um grau de deficiência igual ou
superior a 60%. I
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Viagens
Alcácer Ceguer
A fortaleza esquecida
A meio caminho entre Tânger e Ceuta, Alcácer Ceguer é uma estância
balnear e um porto de pesca. Na margem do rio homónimo, um forte meio
arruinado estende-se na areia como um barco naufragado, de quilha
apontada ao mar. Foi a primeira conquista de D. Afonso V, durante quase
um século, ali esteve hasteada a bandeira portuguesa.
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É
a história e a sina das fortalezas:
são edificadas com objectivos
muito precisos e datados no tempo, delimitados por circunstâncias
políticas e militares concretas.
Virada a página, o que se segue é o
abandono, eventualmente mitigado pela conservação que serve para alimentar a memória colectiva. Com a fortaleza luso-marroquina de Alcácer
Ceguer, quase só o desamparo faz figura na fotografia.
A povoação fica perto da encruzilhada dos
caminhos que levam a Ceuta, Tetouan e Tânger.
Nas imediações, ergue-se o Djebel Moussa, a
montanha que, com a elevação gémea de
Gibraltar, forma os míticos pilares de Hércules.
Alcácer é um povoado piscatório que durante a
época estival se transforma numa estância balnear, frequentada essencialmente por famílias
marroquinas. Os projectos de construção de
dois ou três grandes hotéis prometem mudar o
futuro da vila, que desempenhou em certos
momentos da sua história alguns papéis relevantes. Para Portugal - a partir de 1458, data da
conquista por D. Afonso V - representou um
reforço significativo do controlo daquele troço
da costa mediterrânica e um esteio da defesa
das praças de Ceuta e Tânger; para os Almóadas, os Almorávidas e os Merínidas, Alcácer foi
porto de embarque para as invasões da
Península Ibérica. Mas a importância estratégica de Alcácer Ceguer parece ter sido reconhecida ainda antes desses períodos: já no virar do
primeiro milénio, a dinastia omíada havia tentado a sua conquista, por ordem do califa Al
Hakam. Alcácer era conhecida então pela
Madinat Al Yam – “a cidade do mar” – ou por Al
Kasr al Awwal – “o primeiro castelo”. Na verdade, já no século VIII, e a atestar a relevância
estratégica do lugar, ali teria existido uma outra
fortaleza, conhecida pelo nome de Ksar
Mesmouda.
Alcácer Ceguer esteve sob domínio português
quase uma centena de anos, até meados do século XVI. O avanço de Mohamed Cheik sobre Fez e
a pressão sobre as possessões portuguesas conduziram à decisão do abandono de uma parte das
praças africanas. A notícia do perigo que ameaçava os invasores europeus chegou a Lisboa a 12
de Fevereiro de 1549 e terá lançado o pânico. A
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Viagens
sentença caiu, rápida, sobre os lugares difíceis de
defender, que deveriam ser evacuados: Arzila e
Alcácer Ceguer.
Pedra sobre pedra
Quando se iniciou a ocupação portuguesa, já
existiam no lugar estruturas islâmicas, que foram
substituídas por novas construções. Os recémchegados aproveitaram, todavia, uma parte dessas estruturas, tendo os edifícios públicos mais
importantes sido construídos sobre alicerces
anteriores, como, por exemplo, a prisão, que se
ergueu sobre o antigo hammam, e a igreja, edificada sobre a mesquita. Nesse sentido, o castelo
de Alcácer Ceguer representa uma das mais paradigmáticas fortalezas luso-marroquinas.
Francisco de Danzilho terá sido, provavelmente, o principal mestre responsável pela intervenção
lusitana em Alcácer Ceguer
(trabalhou também em
Tânger e Arzila). Certo é
que Diogo Boytac, mestre
ligado a outras obras de
engenharia militar portuguesa em África, terá sido
mandatado para fazer a fiscalização das obras de Alcácer.
Se os acrescentos arquitectónicos portugueses
prolongaram, por vezes, construções anteriores,
há novas estruturas, perfeitamente identificáveis
ainda hoje, que constituem, verdadeiramente,
notáveis exemplos da arquitectura militar portuguesa na região. Como acontecia com todas as
fortificações portuguesas erguidas no norte de
África, os abastecimentos eram feitos por via
marítima, face à permanente hostilidade da gente
local para com os invasores. Uma das estruturas
acrescentadas pelos portugueses em Alcácer
Ceguer foi uma nova couraça, que se adiantava
pelo areal e terminava na Porta do Mar. Esse elemento é, justamente, um dos mais emblemáticos
entre o que resta da fortaleza, a par do espaço
interior do castelo. A partir de vários pontos da
muralha é possível ter uma boa perspectiva do
conjunto, incluindo o espaço interior do castelo e
as fiadas de canhoneiras. A Porta da Terra e os
vestígios da igreja são outros pontos de interesse
para o viajante, que não deixará de se assombrar
com a sobrevivência, durante mais de cinco sécu28
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los, de parte da Couraça e da Porta do Mar – elementos continuamente sujeitos à acção das
marés vivas. Pensará na qualidade da construção,
que garantiu tal prodígio de resistência. E, eventualmente, há-de concluir que é tempo de fazer
alguma coisa antes que se apague do areal de
Alcácer esse impressivo testemunho da presença
portuguesa no litoral norte-africano. Antes que,
como soe dizer-se, não fique pedra sobre pedra
no castelo de Alcácer.
Sortilégios da velha Tânger
Tânger tem tido dificuldade em livrar-se de uma
certa fama que conquistou desde os tempos em
que era cidade internacional – nos anos 50 do
século passado, quando a comunidade estrangeira residente ultrapassou os cinquenta mil habitantes, praticamente metade da população da
cidade. Dizem as más-línguas que há razões para
tal. Haverá quem ainda por lá arribe à procura de
indícios de tais tempos, mas a cidade – e um
pouco por vontade do actual monarca marroquino – tem vindo a ser sujeita a uma renovação
urbana com o objectivo de apagar a memória
(menos boa) daqueles tempos e de se tornar um
pólo de atracção turística no norte de Marrocos.
A candidatura à Expo 2010, que acabou por perder para a cidade sul-coreana de Yeosu, foi um
dos pretextos para lançar o programa de requalificação, que inclui uma renovação de toda a frente marítima. Oficializado em Fevereiro passado, o
projecto visa enquadrar a cidade entre as principais urbes mediterrânicas, transformando-a num
importante porto de turismo, com capacidade
para integrar as rotas dos cruzeiros da região. A
entrada em funcionamento este ano de um novo
terminal para as ligações marítimas regulares
com a Europa assinala o início desta nova era da
vida de Tânger.
Os restos de muralha portuguesa podem ser
um dos atractivos para os viajantes portugueses,
mas se o móbil da viagem for esse, e uma vez que
pouco resta de visível em Tânger, então será melhor pensar, para além da visita a Alcácer Ceguer,
em rumar a Arzila, que fica a cerca de meia centena de quilómetros e conserva uma excepcional
fortaleza lusitana. Há várias ligações rodoviárias
e ferroviárias que permitem organizar facilmente
um passeio de um dia a partir de Tânger.
Mas a velha Tânger, geminada com Faro desde
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GUIA
a uma hora e as formalidades
039333314, fax 039930443), no
hospitaleiro. Para os
de fronteira são cumpridas
cruzamento entre a
contumazes leitores de
durante a viagem.
Mohammed V e o Boulevard
Bowles, há a opção do Hotel
Pasteur, e o Hotel de Paris, no
Continental (tel.039931024),
COMO IR
Com a possibilidade de
ALOJAMENTO
Boulevard Pasteur (tel.
que terá sido um dos
circular em auto-estrada até
Ainda que haja alguma oferta
039931877), a cinquenta
preferidos do escritor em
ao sul de Espanha, torna-se
em Alcácer Ceguer, a melhor
metros.
Tânger. Já não é o que era,
perfeitamente exequível sair
opção é Tânger, quer por
O primeiro é um bom
mas conserva mobiliário da
de casa de manhã e jantar em
razões de qualidade e de
estabelecimento de três
época, uma fotografia de
Tânger. A viagem pode ser,
maior abundância de
estrelas, com uma atmosfera
Bowles na sala de jantar e,
portanto, programada para um
alternativas, quer porque a
que guarda algum carisma
obviamente, a mesma vista
fim-de-semana alargado, se
cidade detém uma razoável
dos tempos áureos de cidade
sobre o porto e o
não se dispuser de mais
variedade de atracções que
internacional. O segundo, de
Mediterrâneo, que Bertolucci
tempo. A passagem de barco
podem complementar a visita
duas estrelas, mais simples,
incluiu num plano de «Um
pode ser feita tanto em Tarifa
a Alcácer Ceguer. Na faixa de
conserva na decoração
Chá no Deserto». Fica na
como em Algeciras, sendo
preços intermédios, duas
interior alguns elementos de
Medina, na Rua Dar Baroud,
melhor opção a primeira. O
opções a considerar são o
art deco e um suplemento de
no seguimento da Rua de
tempo de travessia não chega
Hotel Rembrandt (tel.
valia: o acolhimento é assaz
Portugal.
1985, mantém uns tantos sortilégios, que convidam
a uma estada de vários dias. Os souks (o grand
souk, sobretudo), a medina (que tem vindo a ser
renovada nos últimos anos), os antiquários, o antigo palácio dos sultões agora convertido em Museu
de Antiguidades, os velhos cafés frequentados por
figuras literárias conhecidas, como Paul Bowles ou
William Burroughs (o Café de Paris, junto da Place
de Faro, ou o Café Central, poiso da beat generation), Samuel Beckett, Tennessee Williams e Mark
Twain, são algumas das razões para justificar, pelo
menos, um fim de semana na cidade.
Há, claro, muitos outros “pormenores” que
compõem a aura e a identidade de uma urbe: o
velho café Hafa (fundado em 1921), onde se juntam muitos estudantes (não propriamente para
estudar), com a sua soberba vista sobre o
Mediterrâneo e a Península Ibérica, a doçaria
marroquina (que se pode encontrar nas imediações do Boulevard Pasteur, na Rue de
Moutanabi, por exemplo), ou os salões de chá,
como o La Giralda e o Zagora, no Boulevard
Pasteur. Para a visita a Alcácer Ceguer, há duas
alternativas (sem contar com a possibilidade de
apanhar o autocarro que vai para Fnideq): partilhar um dos táxis colectivos (os chamados “grand
taxi”) que partem da Rua de Portugal, ou alugar
um táxi por umas horas (que poderá custar entre
30 e 40 euros, dependendo da arte de negociar).I
Humberto Lopes (texto e fotos)
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Desporto e Festa
no Parque 1º de Maio
O 13 de Junho último encheu o Parque de Jogos 1º de Maio de atletas de
várias modalidades e claques ora mais serenas, ora mais ruidosas. Ali se
realizaram as finais de futebol, futsal, andebol, basquete e vólei – este
masculino e feminino, assinalando, simultaneamente, os 75 anos da Inatel.
O CAPITÃO DA EQUIPA já leva 24 épocas a
jogar no CCD de Almoster, tantas quantas as de
sócio da Inatel. Aos 39 anos, Dário Inácio nunca
jogou por outro clube. E o presidente da colectividade quer convencê-lo a ficar por mais uma
época, para lhe agradecer com uma festa, pelos
25 anos de futebol e por muitos arranhões ganhos
em campo, simplesmente por amor ao desporto.
Nesta final nacional, o Almoster tinha pela
frente o CCD da Azambujeira, equipa do mesmo
distrito, o de Santarém – facto inédito neste torneio. “Começamos a jogar em Outubro e terminamos hoje”, conta o presidente do Almoster. As
duas equipas disputaram, entre si, ao longo da
época, cinco jogos, cabendo ao onze da
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Azambujeira a vitória final, 1-0, e a conquista da
Taça. Mas “a festa”, sublinha José Manuel Brito,
fez-se nas bancadas, com tambores e batuques e,
findo o jogo, em animado convívio e piquenique,
no parque de merendas, com centena e meia de
apoiantes, atletas e até um ou outro jogador do
Azambujeira.
“A rivalidade existe dentro de campo mas
acima de tudo há desportivismo”, revela o presidente do CCD de Almoster, 49 anos, ligado desde
1995 à colectividade ribatejana.
Espinho e Viana dominam vólei
Muito festejada – e muito renhida – foi a vitória
da final de vóleibol feminino, em que as mulhe-
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res de Viana, do CCD de Perre, levaram a melhor
sobre as lisboetas do Clube PT (Portugal
Telecom). A nortenha Letícia Cruz, 27 anos,
1,82m, estava eufórica, no final do jogo. Atribui a
vitória ao facto de o grupo se conhecer há muito,
ela há três anos que ali joga. Para esta médica
anestesiologista, que atribui a vitória ao facto de
o grupo se conhecer há muito, não é fácil conciliar horários da vida profissional com treinos e
jogos, mas na próxima época estará de volta.
Nos homens, a final de vólei foi mais tranquila, com os três sets ganhos pelo CCD “Os
Mochos”, de Espinho (Aveiro), onde pontuava
João Brenha (ao lado na foto), que ganhou notoriedade nacional e mundial quando, com Miguel
Maia, se dedicou ao voleibol de praia. Sereno e
humilde a receber o troféu de melhor jogador em
campo, Brenha destaca que “o mais importante
agora é fazer desporto e conviver com esta malta
amiga com quem já tinha jogado”.
Basquetebol a Norte, Andebol em Lisboa
Muita paciência teve a equipa de basquetebol
do CCD da Caixa Geral de Depósitos (Porto),
para bater os rivais lisboetas da Fidelidade M.
Império Bonança. Com cerca de centena de
apoiantes nas bancadas, a emoção foi até ao
último minuto, já que a vitória só sorriu aos
portuenses muito perto do fim da partida. Para
Hugo Guerreiro, dirigente da equipa vitoriosa,
foi o coroar de uma época em que “este grupo
esteve sempre no topo”, isto apesar de ter tido
algumas baixas por lesão.
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Equipa campeã de Vólei Masculino
Equipa campeã de Vólei Feminino
Equipa vencedora de Futebol. À direita, Moreira Marques, administrador da Inatel,
entregou a taça aos campeões de Andebol Masculino
A Taça da Liga de Andebol ficou a 20Km de
Lisboa. Arrecadou-a o CCD do Sobralinho, finalista pela segunda vez na competição nacional da
Inatel, mas só agora vencedor. Nesta equipa, que
mantém um grupo de 16 atletas há três anos, o
presidente para a área do andebol também vai a
jogo. Praticante da modalidade desde muito
cedo, Paulo Crisóstomo diz que se sente muito
bem em campo e todos o tratam por tu. Queixas?
Apenas de uma ou outra arbitragem…
Futsal: a surpresa Padornelos
Quem não esperava triunfar no Futsal era o CCD
de Padornelos (Paredes de Coura). Avisados, a
meio da semana, que uma equipa havia sido desclassificada e que tinham acesso à final, pouco
tempo tiveram tempo para estudar novas tácti34
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cas. Boa, também, foi a surpresa à chegada.
“Sensibilizou-nos muito o apoio incondicional
dado por um grupo de courenses a viver em
Lisboa. Apoiaram-nos e deram-nos tudo”, sublinha, emocionado, Fernando Silva, director técnico. O golo madrugador premiou o esforço deste
grupo que pela primeira vez disputou um campeonato inteiro. Os festejos alargaram-se a
Paredes de Coura, onde há chegada a equipa
subiu à varanda da câmara municipal para ser
aplaudida por todos. Não admira que este responsável afirme que “Só o fim-de-semana valeu
pelo esforço de ter participado nesta competição”. Esta é também uma forma de motivar o
meio milhar de habitantes daquela freguesia para
apoiar este CCD, remata. I
Manuela Garcia (texto) José Frade (fotos)
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Inatel 75 anos
Amândio Monteiro,
associado desde 1943
O camisola amarela
A vida de duplo emprego que teve de levar ao longo de mais de 40 anos podiam
tê-lo feito um homem pacato e vulgar pai de família. Mas não. Amândio Monteiro foi
sempre muito curioso e com gosto pela escrita.
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COM A BICICLETA ficou a conhecer o país
como a palma da mão e arrecadou várias taças da
então FNAT para o grupo dos Correios, onde
sempre trabalhou. Aos 90 anos diz ser um
homem realizado. E tem razões de sobra para o
afirmar. Nesse dia o Faíscas, assim era conhecido
José Albuquerque, o vencedor de duas voltas a
Portugal em bicicleta, chegou ao pé do amigo e
disse-lhe: “ Ó Amândio, ganhei uma bicicleta que
é uma espada! Mas eu não preciso dela. Dás-me
1000 escudos (5 Euros). O preço dela é 1800
escudos (9 Euros), dás-me 100 escudos (50 cêntimos) por mês”. Amândio ofereceu-lhe 500 escudos (2,5 Euros) a pronto pagamento e o negócio
ficou ali firmado. Estava encontrada a bicicleta
talismã que haveria de dar muitas alegrias a este
trabalhador dos Correios de Picoas, em Lisboa.
Mais: ao longo de sete anos foi destacado ciclista
pela FNAT, e em 1949 fez parte da equipa que se
sagrou campeã do primeiro Campeonato Ibérico
de Ciclismo. No ano seguinte, foram vice campeões em Madrid – mas por uma alteração
das regras da corrida à última hora, afiança…
Das cartas e das taças…
As taças e as medalhas que lhe ocupam boa parte
da cave atestam as vitórias da equipa dos
Correios. Com uma memória prodigiosa exibe os
troféus, referindo datas e pormenores de como
foram conquistados. Lá está a taça ganha na primeira prova de ciclismo organizada pela FNAT,
em Santo Amaro de Oeiras, em 1945. E também
a miniatura de uma taça nacional recebida pelas
cinco vitórias consecutivas ao longo de outros
tantos anos, também atribuída pela FNAT – a original de quase um metro de altura, está em exposição nos Correios, e mesmo hoje não o deixa
indiferente: “Quando lá vou aos Corrreios, reparo
sempre: a mãe e as filhas, há essa taça grande e
depois há todas as outras”.
No campeonato da vida desde a então instrução primária feita em Tábua até aos anos da
Escola Comercial, em Aveiro, Amândio sempre
levou a melhor nas redacções. Daí até à escrita
nos jornais foi um passo. Desde há muito que
escreve para A Comarca de Arganil e para todos
os boletins dos Correios – chegaram a ser quatro,
mas agora são apenas dois; escreve ainda para “O
Tabuense” e “Olivais”, um boletim da junta de
freguesia homónima; por intermédio de um colega que lhe conhecia os dotes da escrita, chegou a
colaborar com o Notícias do Bombarral.
Durante mais de 40 anos, o dia de trabalho
deste agora nonagenário começava às 7 da
manhã nos Correios e terminava, muitas vezes à
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Inatel 75 anos
uma da madrugada, hora de saída da última
sessão do cinema Lis, que depois tomou o nome
de Roxi, onde era fiscal. “E isto até eu fazer 60
anos!”, altura em que se reformou, “já tinha 44
anos de actividade, chegou e bem!”. Onde arranjava tempo para tantos afazeres? É simples, explica: “Sempre fui muito curioso e durmo pouco,
umas três horas por noite; o resto do tempo estou
a magicar”.
…para os jornais e livros
Desde há muito que os amigos e os leitores mais
fiéis lhe pediam para publicar um livro com as
suas crónicas. Em 1999, publica o primeiro:
“Estes Correios que eu amo… Histórias verídicas”, hoje já está a ultimar o oitavo. Na sua escrita perpasse o espírito de um humanista que sempre teve facilidade em fazer amizades em todos
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os estratos sociais. É por isso que lá podemos ler
relatos de episódios com a actriz Beatriz Costa
mas também sobre os “filósofos” da aldeia que o
viu nascer, Touriz, ou sobre “Como uma piedosa
mentira evitou uma tragédia”. São cenas da vida
que nos levam à Lisboa desde os anos do pósGuerra: às relações entre homens e mulheres, aos
factos desportivos em que foi interveniente, no
fundo, ao olhar de alguém que trabalhou desde
sempre nos Correios e que também quis homenagear a classe dos carteiros.
Anda agora num afã a ultimar as derradeiras
crónicas para o livro que ainda espera publicar
este ano intitulado “Ciclismo e ciclistas”. “É tudo
sobre o ciclismo, desde a descoberta da bicicleta
até hoje, incluindo as provas em que participei,
os amigos que tive, tudo”. Ele redige os textos e o
amigo José Cardoso passa-os à máquina. Uma
amizade que leva mais de 30 anos. Cardoso
acompanha-o com mais assiduidade desde que
Amândio há três anos enviuvou. Não passa um
dia sem que ligue a Amândio uma ou duas vezes.
Vai agora com ele a Caldas da Raínha e também
ao Cartaxo, fazer fotografias que hão-de ilustrar
outras tantas crónicas do próximo livro.
Com 90 anos cumpridos no dia de Natal,
Amândio Monteiro habita só no tranquilo Bairro
da Encarnação em Lisboa. Tem em cada vizinho
um amigo. E tem amigos por toda a parte. Tem
por hábito dizer que “se na vida fez mal a alguém
foi sem saber”.
Depois de percorrer o país de lés a lés, este
sócio nº190 da Inatel (desde 1943), assevera com
autoridade: “Não autorizo ninguém a dizer que
conhece Portugal melhor do que eu, pode conhecer tão bem, mas não conhece melhor”. E a prova
está nos inúmeros lugares que enuncia ao relatar
os percursos da Volta a Portugal, da Volta ao
Algarve ou do clássico Lisboa-Porto, entre tantas
outras tiradas que fez. Também correu mundo.
De tal modo que durante muitos anos o grupo
desportivo dos Correios incumbia-lhe a tarefa de
escolher o roteiro e fazer de guia turístico não só
no país, mas em Espanha, Inglaterra e em tantas
outras paragens. “Sempre tive a mania de correr,
de viajar”. Conseguiu tudo, de tal modo que em
jeito de balanço de vida não tem dúvidas em afirmar: “Digo em voz alta e sem vaidade nenhuma:
sou um homem realizado!”. E com razão. I
Manuela Garcia (texto) José Frade (fotos)
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Paixões
Octávio Santos
Empreendedor cultural
A PRIMEIRA VEZ de que se lembra de não
Começou pelo jornalismo, também é virar caras à polémica foi por alturas do 25 de
escritor, mas assume-se como sendo
Abril. Frequentava a então chamada escola
primária e não se coibiu de enfrentar os colegas e
um “empreendedor cultural”.
a professora com os seus argumentos sobre a situNa história de Portugal, fascina-o o
ação que o país vivia. Ao longo da vida, que já
século XVIII mas ao mesmo tempo é leva 45 anos, tem sido sempre assim: frontal na
dos poucos jornalistas especializados defesa do que tem por certo ou mais correcto.
É o caso do Acordo Ortográfico de que é actiem sociedade da informação. Na sua
vo opositor. “Causa-me espanto ver até que ponto
discoteca prevalecem a música clássica
algo que é um atentado não só à nossa dignidade,
e o heavy metal, simbolizando os
à nossa identidade linguístico cultural, mas tamgostos deste homem de cultura,
bém à nossa soberania nacional, passar pelos vistos sem grandes protestos, querendo impor altecom um pé no presente e outro
rações à nossa forma de escrever que não são
no passado…
necessárias”. E esta é uma bandeira que não é de
agora, pois há cerca de 25 anos que tal assunto
lhe merece reflexão. Não só com recolha de informações, leitura e publicação de artigos, mas também na escrita de um livro de que é co-autor com
Luís Teixeira Lopes: “Os novos descobrimentos –
Do Império à CPLP: ensaios sobre História,
Política, Economia e Cultura Lusófonas”.
Lusófono
Este amor à língua portuguesa e à portugalidade
muito o deve a um encontro com Agostinho da
Silva. Aos 19 anos, Octávio dos Santos passou a
ser visita regular da casa que o filósofo e investigador habitava junto ao Príncipe Real, em Lisboa.
E foi “um abrir de portas e janelas”.
“Eu já antes – explica - tinha predisposição
para reflectir sobre as questões da portugalidade
mas com ele foram exponenciadas. Ao dar-me o
privilégio da sua companhia, das suas palavras,
sinto-me na obrigação de fazer jus à confiança
que ele depositou em mim; de tentar, dentro das
minha possibilidades, defender o que é correcto,
construir algo de diferente”.
E é esse o caminho que tem vindo a trilhar. O
Movimento Internacional Lusófono, o MIL, de
cuja direcção faz parte, é um desses projectos cul40
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turais criados e desenvolvidos à sombra do pensamento de Agostinho da Silva, com o intuito de
mobilizar e pensar o sentido e o destino de
Portugal e da comunidade lusófona espalhada
pelo mundo. Mas nem sempre está de acordo
com a posição oficial deste movimento.
Escritor
Em todas as actividades que desenvolve, quer
sejam o jornalismo, a publicação de obras ou os
projectos culturais, procura sempre fazer algo de
diferente. O projecto “A República nunca existiu”, criado para assinalar o regicídio de 1908, é
disso exemplo. Juntamente com mais 13 autores
propôs que imaginassem a história de Portugal
sem o 5 de Outubro de 1910, como se uma duradoura monarquia perdurasse até aos dias de hoje
– ou não fosse ele membro da Real Associação de
Lisboa. O resultado foi um livro de 14 contos, em
forma de história alternativa.
Leitor compulsivo, “desde sempre, li de tudo e
mais alguma coisa”, a história e mais concretamente o século XVIII merece-lhe um carinho especial por ser uma época subvalorizada, em favor do
século XIX. Mas também o fascinam a ficção científica e o fantástico. Aliás, um gosto que assume ter
ido buscar ao cinema e daí a sua escrita ser “o mais
visual possível”. Tanto assim é que no livro que
lançou há sensivelmente um ano, “Espíritos das
Luzes” (Gailivro, 2009) é o resultado disso mesmo:
“Vou ao passado para construir uma fantasia futurista em que Portugal era um planeta e todos os
países da Europa são um planeta”. Mas esta obra
alberga também um intenso trabalho de pesquisa
histórica: “tudo o que o meu personagem diz, foi
dito ou escrito por esse personagem; no caso de
Bocage, ele fala sempre através dos seus versos”.
Afirma ainda ter mais livros prontos para publicação, desde poesia à ficção. Pelo meio, traduziu e
publicou “Poemas”, Alfred Tennyson, (Saída de
Emergência, 2009), “um amor muito antigo”, já que
passavam dois séculos sobre o nascimento do
poeta e 150 anos da sua passagem por Portugal. Na
blogosfera tem lugar marcado com o Octanas onde
regista o que vai fazendo: os livros que lê, a música
que ouve ou os colóquios a que assiste.
Musicólogo
Ao gosto pela escrita, pela investigação histórica
e pelos projectos culturais, junta-se o da música.
E prefere o heavy metal e a clássica aos outros
géneros. Mais, na blogosfera tem mesmo o
Simetria Sonora onde, todos os anos, no dia
internacional da música, a 1 de Outubro, publica
uma listagem nova de discos
que estão para a ficção científica e o fantástico, como os filmes ou os livros.
Onde tem vindo a reunir
um grupo interdisciplinar de
amigos e a conciliar o passado e o futuro tem sido na
recriação histórica em três
dimensões. O primeiro destes trabalhos onde a
informática se alia à história refere-se à Ópera do
Tejo, “um fabuloso edifício que foi provavelmente no seu tempo a mais
bela e a mais deslumbrante Casa da
Música da Europa
mas que só existiu
durante seis meses,
já que foi inaugurada
em Abril de 1755 e
ruiu a 1 de Novembro
do mesmo ano com o
terramoto”. Tal edifício,
teve honras de inauguração com a estreia da
ópera
Alessandro
nell`Indie, com música
do napolitano David
Perez – compositor da corte de D. José. E é precisamente a gravação e edição integral em disco
dessa ópera – “e quem sabe recriá-la cenicamente”, confessa – é o que de momento ocupa
Octávio dos Santos e o maestro Jorge Mata.
Aguarda agora a resposta de uma instituição
financeira para dar início à música e ao assinalar
dos 300 anos do nascimento de David Perez.
Enquanto isso, o também beneficiário da
Inatel, que se define como empreendedor cultural “por minha conta ou, o que é mais gratificante, em colaboração com pessoas que partilham os
nossos objectivos”, vive a aventura da vida com a
mulher e as três filhas. I
Manuela Garcia (texto) José Frade (fotos)
O projecto “A
República nunca
existiu”, criado para
assinalar o regicídio
de 1908, e o livro
“Poemas”, de Alfred
Tennyson, que
Octávio Santos
traduziu e publicou
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Portfólio
Diu - Índia
Fortalezas para o romance
FELIZMENTE que agora as fortalezas têm outras funções. Bem mais nobres e úteis. São
sobretudo locais para o romance, o convívio e a
contemplação. Os muros e muralhas do antigo
enclave português de Diu, na Índia, são populares entre os guzarates, que ali se deslocam em
família, de cidades como Amedabad, Baroda ou
Banghavar, a centenas de quilómetros de distância. Também os namorados ou os recémcasados em lua-de-mel escolhem-na como
amuleto. Ouvindo-lhes juras e segredos, os
inúmeros e bem conservados canhões são
fiáveis confidentes, agora que as suas bocas
deixaram de vomitar o fogo mortal.
Ao largo desta imponente praça-forte portuguesa passam embarcações de pescadores que a
determinadas horas do dia entram e saem da
barra, de regresso ou de partida para a faina
diária, evitando o fortim de Panikota, antiga
prisão que à noite é foco de todas as atenções,
realçada pelos diversos holofotes que projectam sobre as suas maciças paredes coloridos
feixes de luz.I
Joaquim Magalhães de Castro (texto e fotos)
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Memória
António Assunção,
um fradinho popular
Foi, com o papel de frade da série
«Caldo de Pedra», que o actor
António Assunção se tornou numa
figura popular.
ONDE QUER QUE FOSSE, vinha à baila o seu
«frade» ou o seu detective de «Duarte e
Companhia» para não falar do divertidíssimo
chefe de polícia de «Zé Gato». Isto para dizer que,
apesar de muito e bom teatro que o actor interpretou durante muitos anos, foram ainda os personagens que fêz para a Televisão que o tornaram
numa das figuras mais populares e queridas do
público.
António Assunção era do Norte, de Paços de
Ferreira, onde nasceu a 29 de Agosto de 1945.
Tudo começou no Porto
O Teatro Experimental do Porto foi o seu primeiro poiso. Tinha 20 anos e representou «O avançado-centro morreu ao amanhecer», seguido de
«Desperta e Canta» de Clifford Odets e de «O
Barbeiro de Sevilha», de Beaumarchais. Um ano
depois dá o salto para Paris, escapando à Guerra
de África. Oito anos irá durar o seu exílio. Em
1975 regressa a Portugal e, de novo, ao teatro.
Setúbal tem já o seu Teatro de Animação com
Carlos César na direcção e é aí que Assunção fará
Molière e Alves Redol. Em 1977 passa a integrar
o Grupo de Teatro de Campolide (mais tarde
Companhia de Teatro de Almada), que viria a ser
a sua segunda casa, tantos e tão bons foram os
seus trabalhos com Joaquim Benite. Inesquecível
o seu «tanoeiro» da peça «1383», de Virgilio
Martinho, encenada por Benite. Mas também o
«chefe de redacção» Valadares da peça «A Noite»,
de José Saramago. Mas também todos os personagens que interpretou em peças como «O Santo
Inquérito», de Dias Gomes, ou «A Excepção e a
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Regra», de Brecht ou «Dona Rosinha Solteira», de
Lorca, e Molière e Juan Benet e Almeida Garrett e
Eugene O’Neill e Gil Vicente, eu sei lá. Assunção
foi um actor a tempo inteiro e sempre ligado à
Companhia de Teatro de Almada.
Cinema e Televisão
Já falei atrás das séries televisivas onde António
Assunção foi intérprete magnífico. Mas deverei
citar o seu perfeito Dâmaso em «A Tragédia da
Rua das Flores», realização de Ferrão Katzenstein
ou o seu trabalho em séries como «Retalhos da
Vida de Um Médico», de Artur Ramos e «Uma
Cidade como a Nossa», realização de Luís Filipe
Costa.
No cinema trabalhou com Fernando Lopes
(Crónica dos Bons Malandros), com Luis Galvão
Teles (A Vida é Bela), Luís Filipe Rocha (Amor e
Dedinhos de Pé) e Artur Semedo (O Barão de
Altamira), entre outros.
O excelente actor, que se manteve mais de 20
anos ligado à Companhia de Teatro de Almada e
acabou por morrer durante as férias de 1998 (20
de Agosto) em Nova Iorque, talvez não tenha tido
a consagração que merecia pelo seu talento inesgotável e pela justeza e verticalidade com que
encarou a vida, o trabalho, a política.
Em cima: em “A
Queda dum Anjo” de
Camilo Castelo
Branco (1980).
À esquerda: o
escravo de “A
Excepção e a
Regra”, de Brecht
(1982).
Em baixo: o
“Dâmaso” de “A
Tragédia da Rua das
Flores” (1983)
Sem idade para o D.Maria II
De uma conversa que tive com o actor em 1983,
gravava ele o seu Dâmaso da «Tragédia da Rua
das Flores», não esqueço a resposta que me deu
quando lhe falei na hipótese de trabalhar no D.
Maria II.
«Ainda não tenho idade para isso... Gosto
muito do teatro vivo. Para mim a grande diferença entre o teatro dos grupos independentes e
o do Nacional corresponde à distinção entre o
teatro das forças vivas e o teatro das forças mortas».
Muitas vezes lamentando que o conhecessem
melhor dos papeis que interpretava para a
Televisão do que pelo seu trabalho no teatro a
verdade é que a versatilidade e o empenho com
que dava vida aos «fradinhos» e aos polícias dos
«Zé Gatos» tornaram-no numa figura querida de
Norte a Sul do País.
António Assunção foi de facto um actor de
muito talento e um grande coração. I
Maria João Duarte
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Olho Vivo
Não olhar para o guarda-redes
A barata recomenda
Um estudo da Universidade britânica de Exeter mostra que a famosa
angústia do guarda-redes antes do penalty é, ainda assim, menor que a
ansiedade do jogador que vai marcar a falta. Greg Wood, o psicólogo que
dirigiu a investigação, recomenda: concentrem-se na bola e na vontade de
marcar e ignorem o homem à baliza.
Isto parece evidente, mas o ser humano tem tendência, sob pressão, a
concentrar-se no obstáculo que ameaça a boa realização da tarefa, em vez de
só pensar em fazer balançar as redes. Por isso, quem vai marcar o penalty
perde muita atenção a observar os movimentos do homem que quer
defender o remate. E há guardiões que sabem disso e executam verdadeiras
coreografias para desconcentrar o marcador. O antigo guarda-redes do
Liverpool Bruce Grobbelaar participou neste estudo e recorda que derrotou a
Roma em 1984, a penalties, na final da Liga dos Campeões, utilizando um
pequeno bailado a que chamava "pernas de esparguete", enquanto o
adversário se concentrava para rematar. Esperemos que Ronaldo leia estas
linhas, antes de qualquer eventual desempate a penalties na África do Sul.
Como é que as baratas sabem
onde se come melhor em cada
sítio? Como os humanos seguem
recomendações de amigos,
especialistas ou dos guias
Michelin, as baratas partilham o
conhecimento dos melhores
pontos para encontrar comida e
seguem as "dicas" umas das
outras. Até à investigação da
Universidade Queen Mary, de
Londres, pensava-se que o insecto
andasse sozinho à procura de
alimento e bebida, mas o estudo
prova que grupos de baratas
parecem fazer uma escolha
colectiva dos melhores locais para
se abastecerem. Isto explica por
que os encontramos em grande
número a alimentarem-se juntos,
durante a noite, numa
determinada cozinha ou
despensa. Onde come uma barata,
comem logo duas ou três.
Os grilos não se medem aos palmos
Foi o grande Big Brother dos grilos: cientistas
espanhóis instalaram 64 câmaras de vídeo num
palheiro e gravaram 250 mil horas da vida de duas
gerações de animais, ao longo de dois anos de programa.
Os grilos foram marcados um a um e fizeram-se testes de
ADN para determinar quem era filho de quem, na
segunda geração. A surpresa foi ficar-se a saber que os
grilos mais pequenos acasalam duas vezes mais e têm
descendência duas vezes superior aos grilos dominantes.
Os cientistas crêem que isso se deve ao facto de os nãodominantes terem de se esforçar mais, até no canto, para
encontrar parceira, enquanto que os dominantes esperam que as fêmeas os
procurem. E quem se esforça, ganha, claro. O estudo foi publicado na
revista Science, de 4 de Junho.
A Terra está mais nova
A Terra e a Lua formaram-se quando o sistema solar já tinha 150 milhões de
anos e não apenas 30 milhões, como se pensava até
hoje. Segundo um estudo publicado por cientistas
americanos e dinamarqueses nas Actas de
Ciência Planetária de Junho, o nosso planeta e
o seu satélite resultam da colisão entre dois
planetas do tamanho de Vénus e Marte.
Usando isótopos de tungsténio, a idade do
acontecimento foi medida e revista, pelo que a
Terra está, desde há uns meses, 120 milhões de
anos mais nova.
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Estranhos influenciam
namoros
Quando toca a escolher parceiro
amoroso, pensamos sempre que
temos gostos muito próprios e que
dificilmente sofremos influências
exteriores. Engano. Um estudo da
universidade americana de
Indiana mostra que os homens e as
mulheres se deixam influenciar
não só pelas expectativas dos
amigos, mas também por opiniões
de estranhos. Segundo o director
do programa de investigação, o
processo de escolha não é
exclusivamente individual,
porque, como seres sociais,
estamos atentos às opiniões dos
que nos rodeiam, para auxiliar as
nossas escolhas. O que é bom para
os outros também pode ser melhor
para nós - assim se resume a coisa.
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A n t ó n i o C o s t a S a n t o s ( t ex t o s ) A n d r é L e t r i a ( i l u s t r a ç õ e s )
Eu vi dois sapos
Em 1989, os sapos de todo o mundo começaram a
morrer às centenas, atacados por uma doença fúngica
chamada quitridiomicose. Em dez anos, mais de
cem espécies desapareceram da face da Terra.
Depois, o problema estabilizou, mas, em
2004, biólogos de Maryland, nos EUA,
descobriram que a doença estava de novo a
exterminar os sapos das terras altas do Panamá e
lançaram-se no estudo da doença e das espécies, antes que a
catástrofe se desse. Nos últimos cinco anos, os cientistas têm retirado animais da
zona doente, pondo-os a salvo em locais sem fungos assassinos. A operação, além
de salvar espécies, já permitiu identificar umas 30 novas espécies de batráquios
tropicais. Em Maio, os biólogos descobriram mais duas: o sapo educatoris (cuja
fêmea "educa" os filhos, depois de saírem dos ovos) e o sapo adnu (de ADN, que
foi analisado para tirar a limpo se era mesmo uma nova espécie).
Há vida em Saturno?
Há vida em Saturno? Não se sabe, mas talvez haja em
Titã, o seu satélite. Há uns tempos que os
cientistas andam intrigados sobre o que faz
desaparecer quantidades razoáveis de hidrogénio
e acetileno da atmosfera da lua de Saturno, junto
à sua superfície. Novos dados fornecidos pela sonda
Cassini, da NASA, erguem agora a teoria de que os
elementos são consumidos por uma qualquer espécie de vida
"baseada no metano" e não no oxigénio, como a terrestre, segundo Chris McKay,
um astrobiólogo da NASA. Até à data, não foram encontradas ainda formas de
vida que habitem o metano líquido, em vez da água.
Marte fica em Terra
A 3 de Junho último, sete homens entraram numas instalações com 550 metros
cúbicos, a porta fechou-se e só volta a abrir-se a 5 de Novembro de 2011. Os
quatro russos, um francês, um chinês e um italiano vão simular uma viagem a
Marte, à excepção da ausência de gravidade, que não foi recriada, e a experiência
é dirigida pela Agência Espacial Europeia e pelos técnicos espaciais russos.
Durante os 520 dias, com direito a um duche por semana e a obrigação de
cultivarem vegetais para a sua alimentação, os homens não verão a luz do dia e
as suas comunicações com a "Terra" serão apenas por e-mail, com os atrasos
progressivos que a distância provocaria numa viagem real. Os
efeitos psicológicos e físicos de um confinamento
prolongado serão avaliados por cientistas de uma
universidade holandesa. A missão Marte 500 "chega" a
Marte a 8 de Fevereiro de 2011, passa cerca de um mês no
planeta vermelho (uma semi-esfera de terra encarnada,
sob um céu negro) e regressa a "Terra", abrindo-se as portas
em Novembro de 2011.
E se o café
não tira o sono?
O café pode não ser um
estimulante tão poderoso como
se pensa, segundo um estudo de
psicólogos da Universidade de
Bristol, publicado na revista
Neuropsychopharmacology.
Quase 400 pessoas estiveram 16
horas sem beber café, após o que
ingeriram cafeína ou um placebo,
com sabor idêntico, mas sem
efeitos. Em seguida foram
sujeitos a testes de atenção e os
que tinham ingerido cafeína não
se portaram melhor que os
outros, pelo que o efeito
estimulante do café da manhã
pode não passar de uma ilusão.
Quando a vida
fez reset
Há 360 milhões de anos uma
extinção em massa da maioria
dos peixes existentes terá
reiniciado o processo da vida na
Terra, concluíram cientistas da
Academia das Ciências norteamericana, num estudo
divulgado em Junho. Os
primeiros vertebrados estavam
então a sair dos oceanos,
rastejando para terra, e as poucas
espécies que sobreviveram à
catástrofe, de origem
desconhecida, deram origem a
todos os vertebrados que hoje
existem, incluindo os humanos.
Esta extinção massiva a nível
global está marcada nos fósseis
do final do período devónico,
que passam de vestígios de um
grande número de peixes para
um número muito reduzido, logo
a seguir, mas permaneceu por
detectar até agora. As causas da
extinção são desconhecidas.
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A Casa na árvore
Susana Neves
Dormir à sombra da espada
A lenda de Freixo de Espada à Cinta
lembra que quando uma árvore fala
é preciso ouvi-la até ao fim.
G
línio, o Velho (23/24-79 d.C.), observou nas serpentes uma tal aversão ao
freixo (referia-se sobretudo a “Fraxinus Excelsior L.” ou “Freixo Europeu”)
que as viu não só evitarem a árvore como também a sua sombra, preferindo, no limite, morrer
pelo fogo a terem de passar perto daquela que foi
baptizada, na mitologia nórdica, por Yggdrasil, a
«Árvore Cósmica» que sustenta o mundo.
Desconhecendo se este temor, descrito pelo
mais importante naturalista romano da antiguidade, ainda hoje perdura, mas interpretando a
serpente como símbolo das “forças do mal” é
compreensível que a exaltação do freixo enquanto árvore que afasta os “adversários” tenha levado à sua conservação junto de algumas fronteiras
e a adopção do seu nome para topónimo de
várias localidades.
Situada a cerca de 4 quilómetros de Espanha,
elevando-se a 471 metros de altitude, a antiga
vila de Freixo de Espada à Cinta (distrito de
Bragança), possui um majestoso freixo multi-centenário, junto à Torre do Galo (remanescente de
um desaparecido castelo medievo), que porventura poderá ser exemplo de uma época em que a
simples evocação de uma árvore sagrada assustava mais do que um exército.
Independentemente de ser ou não a árvore em
cuja sombra o rei D. Dinis recuperou forças da luta
contra os correligionários do filho, o príncipe herdeiro D. Afonso, ou em cujo tronco um guerreiro
cristão prendeu o cinto e a espada assustando
desta forma os perseguidores, só para mencionar
duas das lendas ou mitos fundadores mais conhecidos sobre Freixo de Espada à Cinta, terra onde
nasceu o escritor Guerra Junqueiro (1850-1923),
esta árvore inscrita no brasão de armas da vila é,
por este motivo, além de valioso património da
Fotos: Susana Neves
Imagens da folhagem
e tronco da multicentenária árvore
situada junto à Torre
do Galo em Freixo
de Espada à Cinta
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região, a memória viva da cultura europeia ancestral que sempre associou o freixo ao combate e à
vitória sobre as forças oponentes, incluindo nelas
o inimigo interior, identificado com a ignorância.
Considerando a mitologia europeia e os ritos
sacrificiais a Odin (nos freixos eram enforcados
os homens oferecidos a este importante deus
Viking que também se enforcara para obter o
conhecimento das Runas), chamar a uma vila
Freixo de Espada à Cinta poderia criar uma
atmosfera de grande temeridade por parte de
um possível invasor que imaginaria naquela
povoação a existência de um guerreiro invencível, possuidor de uma lança construída com
mais apetecível das madeiras: a de freixo, da
qual era feita a lança de Aquiles, o intrépido
herói da “Ilíada”.
E se esta árvore da família das “Oleaceae” (à
qual pertence a oliveira) espalhava a morte —
recorde-se que a palavra “freixo” provém do
latim “fraxinus” que significa “dardo” ou “lança”
— possuía, ao mesmo tempo, forte poder
terapêutico (era valorizada pelas suas qualidades
antipiréticas, daí a designação de “Quinquina da
Europa”, diuréticas, anti-reumatismais, sudoríferas, como antídoto das mordidas de serpente, no
tratamento da impotência, etc). Das folhas e da
casca do “Freixo-das-flores” também chamado de
“Freixo-das-folhas-redondas” (“Fraxinus Ornus
L.”) e do “Freixo-das-folhas-estreitas” (“Fraxinus
Angustifolia Vahl”), em Julho e
Agosto, colhia-se ainda o “maná”,
uma goma de sabor doce, considerada na Antiguidade Clássica como
uma dádiva celeste, uma espécie de
mel não fabricado pelas abelhas,
com aplicações na farmacopeia.
Árvore protectora não só nas
guerras entre nações mas também
nas tempestades e naufrágios — em
meados do século XIX, fugindo à
“Grande Fome”, os irlandeses que
emigraram para os Estados Unidos
da América levavam como talismã um pedacinho
de freixo sagrado de Creevna —, o freixo é, ao
contrário do que anuncia o provérbio berbere “Se
não existisse a oliveira, eu seria a primeira das
árvores”, na perspectiva europeia, a árvore primordial, da qual até a Humanidade provém.
«Semente de freixo: a raça humana», escreve
Hesychius de Alexandria, o notável lexicógrafo e
gramático grego do séc. V., e com ele outros autores hão-de referir que o primeiro homem e a primeira mulher eram feitos de
madeira de freixo. Por certo, uma
aspiração à estabilidade, resistência e longevidade de uma árvore
cujas raízes sustém os solos e as
folhas produzem o mel que alimentou Zeus, o Deus dos deuses.
Diz a lenda que El-Rei D. Dinis
adormeceu à sombra do freixo e o
Espírito da Árvore, sob a forma de
um velho de grande estatura e longas barbas brancas que envergava
à cinta a própria espada do monarca, aparecendo em sonho, o aconselhou a fazer a
paz com o filho, seguindo assim a vontade da
rainha D. Isabel de Aragão.
Aconteceu, porém, que a precipitação do rei o
impediu de escutar até ao fim os conselhos da
árvore. A paz foi restabelecida, mas nunca chegou a ser duradoura. I
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CONSUMO As férias são uma das boas coisas da vida. Eis um pequeno
contributo para que evite alguns dos perigos que espreitam em férias. Pág. 56
À MESA O sal é um ingrediente essencial em vários sentidos mas deve ser
utilizado sabiamente, ou seja, nem de mais nem de menos! Pág. 58 LIVRO
ABERTO O primeiro destaque deste balanço mensal vai para a biografia do
pintor francês Renoir, agora publicada pela Europa-América. Pág. 60 ARTES
A passagem do tempo, no sentido de vida e morte, é uma constante da
exposição de Graça Morais, patente no Centro de Arte Manuel de Brito, em
Algés. Pág. 62 MÚSICAS O segundo CD dos “Deolinda”, intitulado “Dois
Selos e um Carimbo” é uma brecha no marasmo recente da música ligeira
portuguesa. Pág. 64 NO PALCO Atenção ao 27º Festival de Almada, o mais
importante certame internacional de teatro do nosso
país, até 18 do corrente. Pág. 66 CINEMA EM CASA
George Clooney, Colin Firth, Hugh Grant e o
português Rui Morrison são os (grandes) actores em
destaque nas escolhas deste edição. Pág. 68 GRANDE
ECRÃ “A Teta Assustada” e “Canino”, dos cineastas Claudia Llosa e Yorgos
Lanthimos são duas das estreias de Verão assinaladas por Joaquim
Diabinho. Pág. 69 TEMPO INFORMÁTICO Já se fala na Informática Verde …
um bom pretexto para se falar da utilização da informática mais
consentânea com a crise que vivemos actualmente. Pág. 70 AO VOLANTE A
“democratização” do chassis 4Control de quatro rodas direccionais é uma
das novidades da nova gama Laguna. Pág. 71 SAÚDE Não existem dúvidas
quanto ao impacto que as alterações climáticas terão sobre a saúde das
populações. Pág. 72 PALAVRAS DA LEI O nosso Código Civil presume como
sendo parte comum de um imóvel a dependência destinada ao uso e
habitação do porteiro. Pág. 73
BOAVIDA
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Boavida|Consumo
Dicas para férias sem problemas
As férias são uma das boas coisas da vida. Como só duram um mês, há que as aproveitar em toda a
sua plenitude e evitar alguns dissabores que possam perturbar esse prazer. Aqui fica um pequeno
contributo para o ajudar a evitar alguns dos perigos que espreitam em férias.
Carlos Barbosa de Oliveira
ESCALDÃO
O Sol é o ícone das férias, principalmente para quem gosta
de as passar na praia, mas é melhor não abusar. Evite
apanhar aquilo a que na gíria se chama "escaldão" e que é,
tão-somente, o resultado de uma "overdose" de exposição
solar. Não se exponha ao Sol demasiado tempo nem nas
horas mais críticas (entre as 12 e as 16) e leve consigo um
protector solar.
Nunca é demais recordar que o número de cancros de
pele, provocados pelo excesso de exposição solar, tem
vindo a aumentar à média de 6 % ao ano.
Já agora, leve também uns bons óculos de sol e tenha
em especial atenção a qualidade das lentes.
MORDEDURAS
Vai-te embora ó melga!
Melgas e carraças são dos maiores inimigos para quem faz
férias no campo. E se melgas e mosquitos se evitam usando um bom repelente, o mesmo não se pode dizer das carraças. Esses prodigiosos animais de paciência oriental permanecem longas horas penduradas nos ramos das árvores
ou nas folhas, à espera que alguém passe por baixo delas
para se deixarem cair e encontrar alojamento.
Aconselhamo-lo a inspeccionar o corpo depois de um
passeio no campo, especialmente os sovacos virilhas e
intervalos entre os dedos dos pés. Para diminuir o
risco de dar hospedagem a uma carraça, o melhor é não usar roupa demasiado larga
quando for passear pelo
campo.
Inimigo dos banhistas é o
peixe-aranha, para o qual existem alguns antídotos artesanais. O mais fácil de utilizar
é aproximar o ponto picado de
uma fonte de calor tão intensa
quanto puder ser suportada.
INCÊNDIOS
Com o calor do verão, os
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incêndios nas matas e nos parques de campismo podem
ser temíveis e muitas vezes é o nosso descuido que contribui para os atear.
Observe as medidas de segurança aconselhadas pelos
parques de campismo e quando fizer um piquenique não
ateie fogueiras nem deixe pontas de cigarros acesas.
Quando terminar, deixe o local limpo e assegure-se que
não esqueceu nenhum material potencialmente inflamável. A natureza agradece!
ENJOOS
Tanto podem ocorrer durante uma viagem de automóvel,
como num avião ou barco, mas os sintomas são sempre os
mesmos: sensação de cabeça vazia, náuseas e vómitos,
acompanhados por palidez, transpiração abundante e
dores de cabeça.
Há truques para enganar essa contradição entre a informação de deslocação dada pelo sistema nervoso ao cérebro e a informação de imobilidade transmitida pelo corpo:
jogos, distracções e, em última análise, um medicamento à
venda em todas as farmácias.
INTOXICAÇÃO
Calor e intoxicações gostam de andar de mãos dadas,
pelo que tem todas as vantagens em prestar atenção ao
que come, não vá por aí aparecer uma dose de
salmonelas para lhe pregar uma partida. Evite alimentos de risco e
em determinados destinos
exóticos nunca beba água
sem ser engarrafada.
ROUBOS
Uma das piores coisas que
pode acontecer a uma pessoa
em férias é ser roubado. E se
até há pouco tempo, quando
nos roubavam, tínhamos fortes
probabilidades de receber os
documentos de volta, hoje em
dia os larápios já não têm essa
delicadeza, pois usam-nos (ou comerciaANDRÉ LETRIA
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lizam-nos com colegas de profissão) para falsificações. Os
conselhos que lhe damos para diminuir as probabilidades
de ser assaltado são vários:
Em relação aos documentos, comece por tirar
fotocópias autenticadas dos originais (carta de condução,
bilhete de identidade, número de contribuinte e passaporte) e deixe-as em local seguro antes de partir para
férias.
No caso de ficar alojado num hotel, guarde os documentos no cofre, incluindo o cartão de crédito.
Em relação ao dinheiro, o primeiro e óbvio conselho
que lhe damos é que não ande com muito nos bolsos e
que o distribua por vários locais do seu vestuário, (quanto
mais inacessível melhor...) de molde a evitar que o larápio
se aproprie de todo o dinheiro que tem consigo. Se mesmo
assim for assaltado, não deixe de apresentar queixa na
polícia.
Já agora, lembre-se que os assaltantes não costumam
ir de férias em época alta, por isso é provável que estejam à espreita de ver quais as habitações que estão
vazias para "darem o golpe". Por isso, para além de
deixar a sua casa bem trancada (se dispuser de um dispositivo de alarme ainda melhor) passe pelo posto de
polícia mais perto da sua residência avisando que se vai
ausentar e solicite vigilância. E talvez não seja má ideia
fazer um seguro do recheio da casa que não é caro e dá
para o ano todo.
MALAS
Chegar ao destino sem malas é, infelizmente, uma situação que ocorre com alguma frequência. Diminuir os
riscos é tarefa difícil, mas pode tomar algumas precauções
para assegurar que em caso de extravio a sua bagagem será
mais facilmente encontrada.
Não se esqueça de colocar uma etiqueta com o
endereço em local bem visível e no momento de fazer o
"check in" certifique-se de que tem as malas trancadas à
chave, de preferência com cadeado.
Para evitar grandes perdas, não meta nas malas objectos
de valor, pois em caso de extravio a indemnização a que
tem direito é paga ao quilo, de nada valendo argumentar
que lá dentro tinha objectos valiosos.
Se viajar com bagagem de mão, não se esqueça que não
pode levar produtos inflamáveis, nem frascos com líquidos com capacidade superior a 50 mls.
AUTOMÓVEL
Para um número significativo de portugueses, não há
férias sem automóvel. Por isso, não deixe de proceder a
uma vistoria de rotina antes de arrancar para a estrada:
níveis de água e óleo do motor e travões, bateria, pressão
dos pneus, amortecedores e correias, etc.
No momento de colocar a bagagem, não se esqueça de
evitar desequilíbrios que afectem a estabilidade da viatura.
CONDUÇÃO
Nunca é demais pedir-lhe que conduza com prudência e
segurança. Não guie durante mais de duas horas, respeite
os limites de velocidade e as demais regras de trânsito e
não faça manobras perigosas.
Não se meta à estrada logo após a refeição e nem é preciso dizer-lhe que se conduzir... não beba álcool! E já
agora, também não fale ao telemóvel nem enquanto conduz, nem junto das bombas de gasolina.
Não estacione em cima dos passeios, em curvas, estacionamentos, passadeiras, etc e não pense que lá por ter
aqueles piscas bonitinhos que assinalam aos outros a sua
presença, isso lhe dá o direito de estacionar em segunda
fila, atravancando o trânsito.
Ter respeito pelos outros não custa nada. Tenha umas
boas férias! I
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Boavida|À mesa
Sal nem de mais nem de menos
O sal, que alguns diabolizam, é um ingrediente essencial e indispensável em vários sentidos: tempera e
dá sabor à comida; conserva os alimentos; e fornece ao corpo o cloro e o sódio necessários ao
equilíbrio hídrico do organismo e à actividade muscular e nervosa.
David Lopes Ramos
oi o padre António Vieira, numa das suas
famosas prédicas, quem disse que “a religião
deve ser como o sal na comida; nem de mais;
nem de menos”. Sábias e sensatas palavras. Sal,
na comida, já se sabe: apenas o quanto baste. Caso contrário lá se vai o prazer do tempero, transformado no
abominável salgado como pilha ou no mais desenxabido
dos sabores.
Assim, há que treinar a mão no sal. Há quem goste
mais de temperar com sal fino. No meu caso, prefiro o
sal grosso, o sal marinho. Parece-me a sua utilização mais fácil de controlar e os alimentos
surgem-me mais saborosos quando temperados com sal marinho. A flor de sal deverá
ser guardada para ser aplicada em pratos já
confeccionados ou nas saladas antes da sua
ida para a mesa. Temperar com flor de sal
durante a confecção não é a melhor
solução: a quantidade a utilizar é maior
e o resultado final não é mais sápido.
Tenha-se em atenção, casos se esteja a
preparar carnes para grelhar, fritar ou
assar no forno que o sal, por ser
higroscópico, é sedento de água e seca
a carne. Na preparação do presunto,
por exemplo, o sal evita que a carne
de porco se corrompa e apodreça.
Mas temperar um bife com sal antes
de o grelhar ou fritar, seca a carne,
tirando-lhe suculência e enrijecendoa. Com o peixe fresco acontece o
mesmo.
F
posição que nunca mais acabam. A água do mar é constituída por inúmeros minerais e é a sua mistura que lhe dá
riqueza e possibilita a diversidade ecológica existente nos
oceanos. O mais representativo de todos os minerais é o
cloreto de sódio, ao qual se fica a dever o gosto “rude” de
salgado. Quando se evapora a água do mar, os minerais
nela presentes precipitam e formam cristais a diferentes
tempos. Os primeiros minerais a precipitarem são os carbonatos, os últimos são os magnésios; entre eles mais de
80 minerais diferentes precipitam, um dos quais é o vulgar cloreto de sódio, importante na qualidade, mas talvez
nem tanto na qualidade.
O sal marinho e a flor de sal, devido à
forma tradicional como são produzidos
e à maneira artesanal da sua colheita
conservam praticamente todos os 82
minerais identificados na água do
mar, uma vez que, após a recolha, a
única operação a que são submetidos
é a secagem pelo sol. Por isso, a sua
cor é branca com brilho, o que
revela a forma a estrutura dos
cristais. É, por outro lado, o sal
naturalmente húmido. Essa
humidade revela a presença do
magnésio, elemento essencial ao
correcto funcionamento do sistema nervoso central e inexistente nos sais marinhos vulgares.
O sal marinho tradicional não
“MAIS DO QUE O CLORETO
DE SÓDIO…”
O sal é muito mais do que o cloreto de
sódio a que alguns pretendem reduzi-lo.
O sal marinho tradicional, produzido segundo as melhores regras, tem minerais na sua com58
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ANDRÉ LETRIA
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tem qualquer tipo de aditivos químicos e não é lavado.
A cena da colheita de sal, que tem tudo a ver com as
técnicas agrícolas, uma vez que este condimento e agente
de conservação dos alimentos não é uma dádiva da
Natureza mas sim produto do trabalho transformador dos
homens, pode, em Portugal, ser vista nas recuperadas salinas algarvias e, também, no que resta das salinas aveirenses ou de Alcácer do Sal. Todos os dias, na época da safra,
que começa pelo São João, a não ser que Junho seja chuvoso, e se prolonga até Setembro, colhe-se a flor de sal,
trabalho moroso e cansativo.
“DESDE TEMPOS IMEMORIAIS…“
Portugal é, desde tempos imemoriais, uma região produtora e exportadora de sal. Na Idade Média o nosso sal era
enviado para toda a Europa e vendido a preços substancialmente superiores ao do produzido nas minas da
Europa Central. A sua importância era tanta que Portugal
recuperou o Brasil, ocupado pelos holandeses, a troco do
monopólio da comercialização do nosso sal. Houve um
dia, porém, que o sal português deixou de ser produzido.
A decadência iniciou-se nos anos 1960, acentuou-se na
década seguinte e as paisagens do Algarve, Alcácer,
Setúbal, terras ribeirinhas do Tejo, Figueira da Foz e
Aveiro deixaram de ser sinalizadas por pirâmides brancas
de sal marinho produzido de forma tradicional. Nas nossas salgadeiras e cozinhas passou a usar-se um sal produzido em salinas industriais, sobretudo no Mediterrâneo,
ou através da dissolução de sal-gema. Piorou a nossa qualidade de vida. Vá lá que, recentemente, se assistiu a alguma recuperação de salinas e da produção de sal marinho,
a que se juntou a flor de sal. Encontramos um e outra em
alguns supermercados e em mercearias finas. São mais
caros? São. Mas temperam muito melhor.
Em Portugal, dizem os dietistas, temos tendência para
usar sal em demasia, nomeadamente na confecção do pão,
dos queijos e dos enchidos. Tem havido campanhas de
sensibilização para a questão, que tem consequências
nefastas na saúde. Vale a pena dar a atenção aos alertas e
não se deixar tentar pelo desmazelo. Sal: utilizar sempre
do marinho, colhido de forma artesanal; e nunca passar as
marcas do bom gosto e do bom tempero. I
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Boavida|Livro Aberto
Renoir, o divã dos filósofos, boa
ficção, e outras leituras para férias
Em tempo de revalorização das histórias da vida privada, e sobretudo das vidas que marcaram as
nossas vidas e a própria humanidade, assiste-se a uma nova corrida aos grandes textos biográficos,
autobiográficos e memorialísticos. Durante muito tempo, esta esteve longe de ser a tendência no
mundo editorial português, contrariamente ao que nunca deixou de acontecer no britânico, no francês
ou no espanhol.
José Jorge Letria
ai, por isso, o primeiro destaque deste balanço
mensal para a excelente biografia do pintor
francês Renoir, agora publicada pela EuropaAmérica, na sua criteriosa colecção de obras
biográficas, com autoria do investigador e historiador
Pascal Bonafoux, que nos conta de que
forma um modesto filho de alfaiates,
nascido na vizinhança do Museu do
Louvre, se tornou um dos maiores pintores de todos os tempos e uma das figuras centrais do movimento impressionista. Renoir viria a marcar, com o
seu estilo e o seu olhar sobre a vida e os
seres humanos, toda a pintura dos tempos que se lhe seguiram e a própria modernidade artística,
sendo hoje um clássico em termos absolutos. Seu filho,
Jean Renoir, viria a ser um dos mais marcantes e geniais
realizadores do século XX. Uma biografia a não perder,
que se lê e saboreia como se de um romance se tratasse.
Da mesma editora e com idêntico sublinhado de qualidade e interesse para o leitor é o ensaio “Os Filósofos no
Divã”, de Charles Pépin, que de uma forma original e cativante familiariza quem o lê com as questões centrais do
pensamento filosófico, de Platão a Sartre, passando naturalmente por Freud, dado que foi quem introduziu o divã
na prática psicanalítica. O recurso à técnica do diálogo,
torna o livro ainda mais divertido e capaz de prender a
atenção do leitor, dado que o autor deita os filósofos de
referência no divã e põe-nos a falar.
V
PARA ASSINALAR os 120 do nascimento do poeta Mário
de Sá-Carneiro, a Dom Quixote acaba de editar, ainda a
tempo das feiras do livro de Lisboa e Porto, uma antologia poética do escritor, que se suicidou em Paris em
1916, com apenas 26 anos. A organização, o prefácio e a
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cronologia biográfica são da responsabilidade de outro
poeta, Fernando Pinto do Amaral, que nos convida para
uma viagem, sempre reveladora, pelo fascinante universo
poético de um dos fundadores da revista “Orpheu” e
amigo de Fernando Pessoa. A melhor forma de homenagear um poeta é sempre ler e dar a ler a sua obra. Mário
de Sá-Carneiro merece esse “pouco mais de azul” que a
sua poesia acrescenta às nossas vidas.
PARA QUEM gosta de literatura
de viagens e do muito que
pode revelar sobre lugares
conhecidos e desconhecidos e
sobretudo acerca de nós mesmos, recomenda-se a leitura de
“Viagem ao Tecto do Mundo o Tibete Desconhecido”, do
português Joaquim Magalhães
de Castro, com a chancela da
Editorial Presença. É um
Tibete inesperado e fascinante
que se nos revela neste livro.
Também grande viajante e ficcionista com obra
reconhecida, Pedro Rosa Mendes acaba de lançar
“Peregrinação de Enmanuel Jhesus” (D. Quixote), na qual,
tendo como referência “A
Peregrinação” de Fernão Mendes
Pinto, constrói uma narrativa
poderosa e original em que está
presente Timor-Leste. Um livro
de maturidade do autor de “Baía
dos Tigres”.
Em matéria de ficção narrativa
de qualidade, destaque ainda para
“Todos os Homens São
Mentirosos - o Que É a Verdade?”
(Teorema), do argentino universal
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Alberto Manguel, que nos fala de um
assassinato que não se sabe ao certo
se aconteceu, “Os Lamb - Uma Família
de Londres” (Teorema), do grande biógrafo de William Shakespeare e
Charles Dickens que é Peter Akroyd,
“O Meu Amigo Matt e Hena, a
Puta”(Teorema), de Adam Zameenzad,
vencedor de um importante prémio
internacional e nomeado para o
Booker Prize, e ainda “Os Laços Que nos Unem”,
(Pub. Europa-América), de Linda Gillard.
NA PRESTIGIADA e antiga Colecção Saber, a mesma editora
acaba de lançar, de Patrick Savidan, o pequeno e esclarecedor ensaio “O Multiculturalismo”, que nos ajuda a compreender esta realidade complexa e fundamental deste
mundo globalizado em que vivemos e do qual somos, no
dia a dia, testemunhas e agentes de transformação. Na
mesma colecção acaba de ser publicado outro título que
aqui se recomenda: “Os Grandes Movimentos Literários
Europeus”, de Francis Claudon. A não perder.
COM A PRESTIGIOSA chancela do Centro de Estudos
Clássicos e Humanísticos da Universidade de
Coimbra, dois títulos que merecem destaque e leitura:
“Cidadania e Paideia na Grécia Antiga”, de Delfim
Ferreira Leão, José Ribeiro Ferreira e Maria do Céu
Fialho, académicos de referência da Faculdade de
Letras daquela Universidade, e “Paisagens Naturais e
Paisagens da Alma no Drama Senequiano “Troades” e
“Thyestes””, de Mariana Montalvão Matias.
REALCE ainda para o corajoso e denso “O Prazer Memórias Desarrumadas”( Verso de Kapa), do maestro
Miguel Graça Moura, que neste livro de quase 600 páginas revisita momentos da sua vida, bem como ideias e
conceitos associados ao modo como optou por viver e ver
o mundo. Um livro onde o autor vai mais longe do que
muitos escritores, trilhando caminhos análogos, conseguiram ou conseguem ir. Um livro no qual, como não
podia deixar de ser, a música está bem presente.I
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Boavida|Artes
Graça Morais revisita
mitos da natureza
Dimensão quase sempre presente na pintura de Graça Morais, a passagem do tempo, no sentido de
vida e morte, é uma constante da exposição que o Centro de Arte Manuel de Brito, em Algés, tem
patente até 19 de Setembro.
Rodrigues Vaz
exposição apresenta um
conjunto de obras referenciais para uma leitura histórica da evolução estilística,
técnica e temática da obra de Graça
Morais até aos dias de hoje, desde os
desenhos do seu Trás-os-Montes profundo, especialmente a aldeia de
Vieiro, onde viveu até aos sete anos,
que na altura não tinha electricidade,
nem estradas nem telefones, até à sua
experiência em Cabo Verde, onde a
artista revisitou de novo os mitos ligados à natureza.
Como diz Miguel Matos no catálogo, "Graça Morais apropria-se dos
mitos (principalmente soteriológicos,
morais e naturalistas), histórias, imagens e símbolos da sua
terra e come-os, torna-os seus. Nesse processo, a pintora afasta-se do mero registo gráfico, da pura etnografia, situando-se
no campo entre o sagrado e o profano, o factual e o inventado, o social e o pessoal. Perde-se dos seus suportes religiosos
e antigos, afastando-se de referências narrativas para chegar
aos territórios da ficção."
A
VICTOR COSTA E JOAQUIM CARVALHO
Por outro lado, englobando pintura e desenho, a exposição
"Teorema da Cor", de Víctor Costa, que a Fundação D. Luís I
apresenta no Centro Cultural de Cascais, é uma oportunidade
que permite dar a conhecer a obra recente de um dos mais
interessantes artistas portugueses contemporâneos. O crítico
de arte João Pinharanda definiu assim o trabalho do artista
vimaranense, que dirige desde há tempos o Centro de Arte de
S. João da Madeira: "o fazer de Vítor Costa vai criando um
discurso visual capaz de sustentar a simulação do tempo
longo, de um tempo que ultrapassa o da vida do próprio autor
e da própria pintura, nas imagens apreendidas pelo instantâneo de um olhar e na brevidade de um espaço específico".
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Obras de Graça Morais,
Victor Costa e Joaquim
Carvalho
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Outra é a proposta que Joaquim Carvalho apresenta na
Galeria Municipal Artur Bual, Amadora, denunciando
pelo hieratismo dos seus perfis a sua origem profissional
do ramo da engenharia, que, entretanto, virou docente.
Recorrendo constantemente ao traço como definidor
do clima da mancha, que a utilização de monocromias
ajuda a realçar, Joaquim Carvalho apresenta, antes de
mais, uma grande evolução técnica em relação às suas
anteriores propostas, pelo que comemora, do melhor
modo, os seus 25 anos de pintura.
Acrescente-se ainda a segurança com que apresenta
uma iconografia muito peculiar, muito sua, misturando o
mistério e o prazer do olhar, numa linguagem directa e
com um método compositivo que procura efeitos sobretudo através do inesperado, que é, ao mesmo tempo, o mais
simples e o mais lógico.
VITORALVES VISITA A CASA AMARELA
A novel galeria Paula Cabral apresenta, por sua vez, uma
exposição de Vitoralves, que ousa fazer uma visita à Casa
Amarela de Vincent Van Gogh.
Trata-se de uma recriação da célebre casa amarela à
frente da qual o célebre pintor jantava diariamente em
Arles, que era terrível, especialmente porque, só depois
do sol é, que vinha "a incomparável frescura do azul…"
Conforme diz Sophie Laszlo, é nesta altura que "Van
Gogh afasta-se do impressionismo para se concentrar
sobre a expressão da forma e da cor. Realiza séries de
quadros sobre temas similares (girassóis, pomares em flor,
retratos da família Roulin) e obras-primas mundialmente
conhecidas como o seu quarto, ou mais tarde o seu autoretrato com a orelha cortada."
Vitoralves sugere-nos tudo isto através de pinceladas
cheias de sensibilidade, onde a cor amarela é fundamental, assim como os índigos que vai interpenetrando em
todas as composições. I
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Boavida|Músicas
“Deolinda” retratam Portugal
com “Dois selos e um carimbo”
Os “Deolinda” acabam de lançar um segundo trabalho discográfico com o título genérico “Dois Selos e
um Carimbo”. Uma brecha no marasmo da música ligeira portuguesa dos últimos anos.
Vítor Ribeiro
xcepção feita para o fado de Lisboa, algum rap e
(ou) hip hop, a música portuguesa não tem conhecido novidades por aí além. A “crise”, não
apenas económica mas também (ou por consequência) de valores, tem-se traduzido numa pobreza artística confrangedora, com criadores incapazes de produzir
obra que reflicta minimamente a realidade em que vamos
sobrevivendo.
Uma boa parte do mérito dos “Deolinda” resulta justamente da perspicácia e mordacidade provocatórias com
que abordam pequenos nadas da nossa maneira de ser e
de estar no mundo.
As cantigas dos “Deolinda” são minuciosos quadros de
pessoas e situações que caracterizam Lisboa, a Grande
E
Lisboa, com subúrbios de Torres Vedras a Palmela e onde
cabe um país de Trás-os-Montes até às regiões autónomas.
É, pois, neste contexto que “Dois Selos e um Carimbo”
acaba por nos oferecer um curioso retrato do País.
Os “Deolinda” “põem à vela” uma pretensiosa e bem lusitana consciência crítica de café (outrora de tasca…), local de
eleição onde todos nós, algures na nossa vida, já dissertámos
sobre o futuro do Mundo e enumerámos soluções infalíveis
para os males que nos vão surgindo ou impondo.
Têm também lugar de destaque no trabalho dos
“Deolinda” a ternura e a ironia, outros dois traços do
carácter colectivo da Nação, que “leva a vida” conforme
pode, até que a paciência se esgote. Neste caso, poderá
suceder o que se afirma no fecho de “Fado Notário”, último tema do álbum: “Foi com dois selos e um
carimbo/bem assentes no focinho/que este amor eu
anulei”. “Dois Selos e um Carimbo” é genuinamente português. Muito bom. I
BETHÂNIA NO PORTO
A cantora brasileira Maria Bethânia efectua um concerto dia
24 de Julho, no Coliseu do Porto. As portas da sala abrem às
21h00 e o espectáculo decorrerá a partir das 22h00.
CAETANO EM LISBOA E PORTO
O cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso vai actua no
Coliseu de Lisboa, dias 26 e 27 de Julho, e no Coliseu do
Porto, dia 29 de Julho, a partir das 22h00. O espectáculo
baseia-se no mais recente trabalho discográfico do cantor –
“Zii e Zei” – galardoado com um Grammy.
KNOPFLER NO CAMPO PEQUENO
O guitarrista e compositor escocês Mark Knopfler efectua um
único concerto, dia 27 de Julho, no Campo Pequeno, em
Lisboa, pelas 21h30. O fundador e líder dos extintos “Dire
Straits” interpretará sobretudo temas do seu mais recente
álbum a solo “Get Lucky”. Os preços dos ingressos oscilam
entre os 25 e os 60 euros.
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Boavida|No Palco
Lição de Vida
“Uma lição do Aloés” é uma lição sobre a vida, sobre as pessoas e sobre aquilo que as une e identifica
como seres humanos, algo que é deveras mais importante do que a raça e cor da pele.
Maria Mesquita
Numa altura em que olhos do Mundo estão
virados para a África do Sul (devido ao
futebol, desporto que liga todas as nacionalidades), um país onde na prática ainda
existe segregação racial entre o africano negro e o branco,
mas que “oficialmente” já não se confronta com o estigma
do apartheid, a peça de Athol Fugard, “Uma lição do
Aloés” em cena pela companhia Teatro dos Aloés, não
poderia ter sido melhor escolhida. Steve, africano, que
cumpriu pena de prisão por questões políticas, desiste do
seu país e decide partir para Inglaterra à procura de melhores condições de vida ou, se preferirmos, de outra vida.
Piet é um africânder, que vê em Steve um amigo, mesmo
que seja um “homem de cor”. Enquanto Piet espera Steve
para o jantar de despedida, entretém-se na identificação de
mais uma espécie de Aloés, planta que curiosamente tem
“
66
U
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também origem sul-africana, cuja
existência se alarga num vasto espectro de tipicidades e curiosidades distintas para cada exemplar.
Gladys, mulher de Piet, igualmente presente para o jantar em
honra do amigo do marido, é um ser
perturbado, cujos diários já foram
apreendidos pela polícia e, embora
extremamente influenciada politicamente por Piet, revela toda a sua
descrença pela sociedade (hipócrita e
racista) em que vive, a qual, sobretudo, não compreende. Quando finalmente Steve chega, sem a sua mulher
(que está convencida de Piet ser um
denunciante dos negros activistas),
inicia-se o processo de identificação
de cada uma das três personagens em
palco, mediante um contexto políticosocial muito específico, onde as pessoas são comparadas e inventariadas,
tal como os Aloés, e outras tantas
plantas. Contudo, ao contrário do que
muitos esperam, o ser humano é
capaz de se desprender dos paradigmas, das estruturas enraizadas das sociedades, criando e
destruindo interdependências entre si, construindo muros
algumas vezes e pontes em tantas outras. O ser humano é
um animal social, que não poderia nunca ser enjaulado
ou excluído, porque é altamente influenciável e influenciador.
Para ver a partir de 21 de Julho até 1 de Agosto nos
Recreios da Amadora, estando disponível para digressão a
partir de 2 de Agosto. I
FICHA TÉCNICA:Autor: Athol Fugard; Tradução: Angélica
Varandas e Graça Margarido; Encenação: José Peixoto;
Assistente de encenação: Joana Vidal; Cenografia e Figurinos:
José Carlos Faria; Design Gráfico: Rui Pereira; Fotos:
Margarida Dias; Desenho de Luz: Jochen Pasternacki;
Interpretação: Daniel Martinho. Elsa Valentim e Jorge Silva;
Produção executiva: Gislaine Tadwald, Joana Paes
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27º Festival de Almada
epresentações de numerosos países, casos da Bélgica,
Argentina, Cuba, Rússia, Áustria e Angola, várias
companhias nacionais, exposições e uma significativa
homenagem a Maria Barrosos pautam a 27ª edição do
Festival de Almada, de 4 a 18 de Julho.
“Um jantar muito original”, em cena no dia 11 de
Julho, da autoria de Alexander Search (um dos vários heterónimos criados por Fernando Pessoa em 1899, quando
ainda era um estudante na África do Sul e escrevia em
inglês), interpretada pela Dielaemmer, companhia austríaca sediada em Viena, é uma das novidades do mais
importante festival de teatro em solo nacional. I
R
“A Casa dos Anjos”
encedora do Grande Prémio de Teatro da Sociedade
Portuguesa de Autores, a peça “A Casa dos Anjos”
encontra-se em cena até 11 de Julho no Teatro Aberto, em
Lisboa.
Acreditando na premissa que por vezes, as histórias da
História conseguem cativar os espectadores de uma forma
apaixonante e apaixonada, “A Casa dos Anjos” é um desses raros exemplos onde se consegue transpor para e em
palco os cruzamentos que as vidas de três personagens
fazem entre elas mesmas e a História recente de Portugal.
Datada entre 1936 e 1974, num ambiente político
primeiramente totalitário e depois revolucionário, o texto
de Luís Mário Lopes, com encenação de Ana Nave, conta
o percurso de Ana, Eduardo e Maria dos Anjos, que irá
ficar para sempre ligado aos vários acontecimentos e personagens que marcaram praticamente quatro décadas de
Portugal. Este conto, de amor e poesia, leva o público a
interrogar-se sobre a política e os costumes de um país tão
antigo, como evoluído, do passado e presente. I
V
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Boavida|Cinema em casa
Bons Actores
Em destaque, para os meses soalheiros, um conjunto de filmes com alguns dos melhores actores da
actualidade: "Nas Nuvens", com George Clooney; "Um Homem Singular", com Colin Firth; "Ouviste Falar
dos Morgans", com Hugh Grant; e "Os Sorrisos do Destino", com um notável actor português, Rui
Morrison. Sérgio Alves
NAS NUVENS
UM HOMEM SINGULAR
OUVISTE FALAR
OS SORRISOS DO DESTINO
A odisseia de Ryan Bingham,
Los Angeles, 1962. Depois de
DOS MORGANS
A relação de Carlos, famoso
um burocrata cuja função é
ter perdido o seu compa-
Dois nova-iorquinos bem
jornalista de 55 anos e da sua
despedir funcionários de
nheiro num acidente de
sucedidos, Paul e Meryl, estão
esposa Ada, uma mulher com
empresas em dificuldades e
viação, George, professor uni-
a viver um momento difícil
uma vida social preenchida
um homem moderno que
versitário, sente-se incapaz de
no seu casamento…Mas
parece estar a chegar ao fim
passa maior parte do tempo a
enfrentar a realidade. Com o
quando se tornam nas únicas
quando Carlos apanha aci-
viajar de avião, a
apoio da amiga Charley, ele
testemunhas dum homicídio
dentalmente uma mensagem
coleccionar mi-
questiona a sua vida e a pos-
violento, a Polícia esconde-os
no telemóvel de Ada. Com a
lhas e dormir em
sibilidade de voltar a ser feliz
juntos numa pequena cidade
ajuda de um amigo vai procu-
quartos de hotel.
quando se depara com uma
do interior. Agora vão ter de
rar descobrir o autor da men-
Desta vez a sua
série de acontecimentos ines-
se entender e sobreviver jun-
sagem e entrar nesse mundo
vida vai começar
perados que o fazem nova-
tos ao clima, aos ursos, ao ar
secreto "de amores virtuais e
a mudar quando conhece
mente acreditar na vida. "Um
puro e ao tempo passado em
adultérios electrónicos". Em
alguém que o faz mudar...
Homem singular" foi uma das
conjunto...
vias de celebrar os 50 anos de
George Clooney, fiel á imagem
boas fitas que passou pelas
Realizado por
carreira, Fernando Lopes assi-
que criou (homem solteiro,
salas nacionais e marca duas
Mark
na o seu filme mais autobi-
charmoso, sedutor), protago-
estreias positivas: a do actor
Lawrence,
ográfico. É uma crítica a uma
niza um yuppie deste novo
Colin Firth, num registo mais
autor e rea-
certa moda de relacionamen-
milénio num filme conven-
sério e dramático - quando
lizador com
tos virtuais, dependentes das
cional embora assente num
nem era a
experiência em televisão, o
novas tecnolo-
argumento hábil, com diálo-
primeira esco-
filme é uma deliciosa e ani-
gias que carac-
gos e ritmo certos. Realizado
lha para o
mada comédia sobre como
teriza a Lisboa
por Jason Reitman ("Obrigado
papel -, e do
encontrar o amor nos sítios
do século XXI.
por Fumar" e "Juno") o filme,
estilista norte-
mais inesperados.
Depois de
americano
Protagonizado por Hugh Grant
nomeado para seis Óscares
"Belarmino",
(incluindo Melhor filme e
Tom Ford na realização. Um
e Sarah Jessica Parker,
"Abelha na Chuva", "Crónica
Melhor Realizador) e outros
olhar fresco no cinema con-
"Ouviste Falar dos Morgan" vai
dos Bons Malandros" e o
tantos prémios, é uma crítica
temporâneo de um nome
certamente animar as tardes
"Delfim", chega-nos este filme
acertada ao lado mais negro
maior da moda mundial que
em família como alternativa
de amores, amizades, "boleros
da economia global - o des-
acerta no tom grave, na hábil
ao deserto cinematográfico
e dor de corno" que permitiu
pedimento injustificado.
construção do argumento, no
das televisões portuguesas.
a Rui Morrison ganhar o
ritmo intenso e numa estética
TÍTULO ORIGINAL:
Air; REALIZADOR: Jason
apurada (fotografia e banda
About The Morgans;
Reitman; COM: George
sonora impecáveis).
REALIZAÇÃO:
Clooney, Vera Farmiga, Anna
TÍTULO ORIGINAL:
TÍTULO ORIGINAL:
Up in The
A Single
Kendrick, Jason Bateman,
Man; REALIZAÇÃO: Tom Ford;
Sam Elliot; EUA, 108m, Cor,
COM:
2009; EDIÇÃO: Zon
Lusomundo
TempoLivre
| JUL/AGO 2010
Marc Lawrence
Hugh Grant, Sarah
Globo de Ouro para melhor
actor.
TÍTULO ORIGINAL:
Os Sorrisos
do Destino; REALIZAÇÃO:
Jessica Parker, Sam Elliot,
Fernando Lopes; COM: Rui
Mary Steenburgen; EUA,
Morrison, Ana Padrão, Milton
Moore, Nicholas Hoult,
103m, cor, 2009; EDIÇÃO: Sony
Lopes, Teresa Tavares, Cristo-
Matthew Goode; EUA, 101m,
Pictures
vão Campos; Portugal, m, cor,
Colin Firth, Juliane
cor, 2009; EDIÇÃO: Prísvideo
68
COM:
Did You Hear
2009; EDIÇÃO: Atalanta Filmes
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Boavida|Grande Ecrã
Fulgores e banalidade
Quando pensamos em cinema grego e latino- americano (no caso, peruano), o espectador menos
exigente e pouco informado tem a tendência a reduzi-los à dimensão daquilo a que se
convencionou chamar pequenas cinematografias periféricas, com raro ou nenhum impacto
internacional. Só que, de vez quando, vai-se constatando o aparecimento de obras de grande
solidez narrativa capazes de transcender barreiras, darem a conhecer novos e criativos talentos,
ganharem impacto mundial.
Joaquim Diabinho
e alguma coisa haverá a esperar de filmes como
“A Teta Assustada” e “Canino”, respectivamente,
dos cineastas Claudia Llosa e Yorgos Lanthimos
é a capacidade de reflexão, a subtileza psicológica, o gosto na criação de ambiências, que são alguns
estimáveis denominadores comuns.
Metáfora sobre a vida e a dor de um país, “A Teta
Assustada” faz alusão a uma estranha enfermidade (do
medo) transmissível através do leite materno das mulheres
que foram vítimas de violação ou maltratadas nos anos do
terrorismo no Perú e que contagiam o seu medo aos seus
filhos ao amamentá-los. Depois da morte da mãe, Fausta, a
jovem protagonista, não tem outro caminho senão o de
enfrentar os seus medos e o segredo que oculta no seu
interior - uma batata na vagina - como uma protecção
contra quem desejar tocar-lhe e reunir forças para superar
a situação. O que interessa a Llosa é mostrar através de
uma pintura amarga e ao mesmo tempo bela como é possível levar as pessoas e o país a superar os traumas desses
anos de violência e morte. O filme ganha a sua coesão
também pelas portentosas interpretações da actriz Magaly
Solier.
S
RETRATO ALEGÓRICO da família em ambiência concentracionária, “Canino”, do jovem cineasta grego Yorgos
Lanthimos, coloca à cabeça a questão (especulativa, já
se vê) sobre o futuro da instituição familiar. Um pai,
uma mãe e seus três filhos vivem numa casa em absoluto isolamento do
exterior. A aprendizagem dos conhecimentos e o
entretenimento dos
jovens são assegurados pelos pais com
o propósito de lhes
preservar a inocência. Apenas uma pessoa de fora as
visita regularmente.
O tema, que se presta ao bizarro e ao absurdo, está
contaminado de surrealismo e é a exteriorização de uma
disfunção social em que o colectivo se sente ameaçado e
actua como autodefesa perante a agressividade e violência
da realidade no mundo exterior. Se “Canino” é mais do
que um acto de rebeldia também é verdade que convida à
reflexão e traz á memória o nome de Michael Haneke, o
cineasta austríaco de “Brincadeiras Perigosas”.”Canino”, é
uma pedrada no charco. É sim senhor.
DO LADO DAS BANALIDADES, o lote de estreias cinematográficas anunciadas para os meses de Julho e
Agosto é mais “sumarento”. Destaquemos um entre
muitos: “o remake de Karate Kid, - filme de culto dos
adolescentes nos anos 80- pela mão do realizador
Harald Zwart, pouco mais que competente artesão. Pode
ser que a miudagem acorra e esgote as salas mas Jackie
Chan não tem o ar respeitável e doce de Pat Morita nem
o juvenilíssimo Jadden Smith (filho do actor Will...) é
Ralph Macchio, um dos actores mais promissores
menos aproveitados depois do fulgurante “The
Outsiders” (1982), de Francis Ford Coppola.
Exclusivamente para quem gosta de divertimentos em
clima brincalhão. I
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Boavida|Tempo informático
Informática verde (1.ª parte)
O termo Informática Verde tem sido utilizado por diversas organizações com
finalidades de carácter ambiental.
Gil Montalverne
[email protected]
o nosso caso queremos aqui chamar a atenção
para uma utilização da informática mais consentânea com o momento de crise em que vivemos actualmente de modo a poupar recursos
naturais para fabrico de dispositivos aumentando o seu
tempo de vida e poupando energia.
Dando o benefício da dúvida aos fabricantes que nos
dizem estar a colaborar nestes conceitos, vamos trazer
aqui alguns exemplos que devemos seguir. A SBS,
www.sbs-power.it, tem um dispositivo que se enquadra precisamente no corte de despesas
e poupança de energia. O seu
Surge Protector com 4 tomadas
de corrente, 2 saídas para telefones e protecção contra picos
de corrente vem com comando
à distância para ligar e desligar.
Sabemos como os equipamentos eléctricos e electrónicos, mesmo desligados mas desde
que com a ficha na tomada, consomem energia, o que com
este produto ajudamos a evitar. Podemos ligar-lhe 1 PC, o
Monitor, a Impressora e o Router. Mas de qualquer ponto
da casa desligamos tudo com um simples toque no comando. Deixar todo este equipamento em Stand-By numa
tomada ou utilizar o Surge Protector SBS pode significar
uma poupança anual de 30 Euros e menos 90kg de anidrido carbónico. PVP: € 49,90 e para sócios da INATEL,
desconto de 20%, ou seja, € 39,90. (Net-bit – 213616310)
N
OS DISCOS EXTERNOS que se ligam a qualquer
PC para aumentar a sua capacidade,
copiar documentos e transportar
para outro PC noutro
local ou fazer os
backups regulares, necessitam de corrente
que recebem
através de um
transformador ou
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TempoLivre
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através de uma porta USB. Estão de qualquer forma a consumir energia. Começam no entanto a aparecer discos
externos que poupam energia. É o caso do StorJet25D3 da
Transcend que recebeu ultimamente o certificado
SuperSpeed USB 3.0, extremamente rápido em relação
aos das portas USB 2.0 e dispondo de tecnologia ecofriendly (amigo do ambiente) entrando automaticamente
em power-saving sleep mode após 10 minutos de inactividade, o que resulta numa poupança de
energia que atinge os 40%.
TAMBÉM JÁ EXISTEM várias marcas de carregadores solares
como o Solar I-take que
podemos ligar a
telemóveis, leitores de
MP3, PDAs e câmaras digitais para carregar as respectivas baterias. Possuem normalmente várias fichas
adaptadoras e cabo USB que
abrangem uma grande variedade de dispositivos. Ideal
para quando se está de férias
mas sobretudo para poupar
energia. De acordo com o preço
podem carregar um telemóvel em 60
minutos ou mais tempo se forem mais
baratos. A escolha é sua.
Mas no que diz respeito a computadores, a
Toshiba lançou nada menos do que 125 portáteis que possuem actualmente aquilo a que chama de Eco Utility.
Com um simples clique configuramos e passamos a usar
um plano de poupança de energia ao mesmo tempo que
estamos a visionar a sua medição. Alguns modelos
possuem mesmo um led cuja luz é activada
quando estamos em eco mode. Mas esta novidade é ainda mais completa ao permitir facilmente monitorizar o uso de energia diário,
semanal ou mensal e assim facilmente ter a
noção de quais os momentos ou situações em
que usámos mais energia e o quanto poupámos
em colocar o portátil em Eco mode. I
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Boavida|Ao volante
Nova gama Renault Laguna
A “democratização” do chassis 4Control de quatro rodas direccionais é uma das novidades da nova
gama Laguna, que será comercializada em Portugal, a partir de Setembro, com as motorizações 1.5 dCi
110, 2.0 dCi 150 FAP e 2.0 dCi 180, com a garantia de três anos ou 150 quilómetros.
Carlos Blanco
m pouco mais de um ano de comercialização, o
Laguna III alterou alguns paradigmas: quebrou
com o monopólio das marcas Premium no TOP3
de diversos inquéritos independentes de fiabilidade – o inatacável ADAC 2009 é sintomático disso
mesmo – e obrigou a rever o conceito de comportamento
em estrada de excepção. Na realidade, com o chassis
4Control de quatro rodas direccional, difícil é adjectivar e
descobrir os limites do Laguna III.
Ao contrário de modelos do mesmo segmento, o Laguna
III tem sido, sistematicamente, comparado com níveis de
potência bastante superiores e com vocação estritamente
desportiva. O objectivo é encontrar quem rivalize em comportamento e segurança com o Laguna III equipado com
este novo chassis.
Com a sua nova gama, o Renaut Laguna “democratiza”
um conjunto de tecnologias que estavam até agora, reservadas às versões topo de gama. A partir do segundo nível de
equipamento (Dynamique S) estará disponível o inovador
chassis 4Control de quatro rodas direccionais, um equipa-
E
mento de alta tecnologia que transforma o Laguna no
modelo mais seguro e eficaz do seu segmento.
Em paralelo com a introdução do sistema 4Control, o
“look” desportivo, actualmente reservado às versões GT,
passa a estar disponível também a partir do nível de equipamento Dynamique S.
Na gama Laguna 2010 passam a ser duas as motorizações diesel que se distinguem por receberem a assinatura “Renault eco2”: o motor dCi 110 e o motor dCi 150 FAP.
Com mais de 7% do mix de vendas na Europa, a versão
GT suscitou um interesse acima das expectativas da marca
francesa. Uma inovação que conquistou um elevado número de clientes, desejosos de usufruir das vantagens das quatro rodas direccionais, nomeadamente ao nível da maneabilidade e comportamento dinâmico de excepção. Ou seja,
um comportamento digno de um automóvel desportivo,
com um complemento de segurança sem paralelo em
situações extremas de contorno de obstáculos, travagem
em pisos assimétricos e escorregadios.
Toas as versões equipadas com o chassis 4Control possuem um logo identificativo com a assinatura “4Control”
colocada no pilar central do automóvel. I
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Boavida|Saúde
As alterações climáticas e a saúde
Depois dos fracassos sucessivos das grandes conferências internacionais destinadas a estabelecer
novas metas programáticas para conter, ou se possível reverter, as alterações climáticas a nível global, é
um imperativo de consciência trazer este problema para as páginas da revista.
M. Augusta Drago
medicofamí[email protected]
s compromissos assumidos dentro de um
determinado cenário económico tornam os
líderes das grandes potências surdos e cegos
àquilo que todos nós podemos verificar: as
alterações que se prevêem, num futuro próximo, vão afectar drasticamente as nossas vidas e, mais ainda, a dos nossos filhos e a dos nossos netos.
Não existem dúvidas quanto ao impacto que as alterações climáticas terão sobre a saúde das populações:
sabemos que, com as temperaturas elevadas e o aumento
da poluição, vão multiplicar-se os casos de doenças respiratórias, cardíacas e cerebrovasculares. Lembremonos que, no Verão de 2003, o calor que
então se fez sentir vitimou mais de
25.000 pessoas na Europa, predominantemente idosos e crianças.
As altas temperaturas
provocam tempestades, tornados e tufões, que vão
também destruir e poluir as
fontes de água potável, com
o inevitável aumento das
doenças infecciosas. As
doenças que hoje estão confinadas a zonas restritas, de clima
quente, como o paludismo e o
dengue, espalhar-se-ão por toda a Europa e pelo
resto do mundo. Tudo isto contribuirá para o
empobrecimento generalizado, com consequentes carências alimentares.
As publicações científicas na área da
medicina já há algum tempo que publicam
matérias sobre estes conteúdos, com o
intuito de sensibilizar os médicos para a
necessidade de se prepararem para o
desafio de conter e tratar as novas
doenças que irão surgir, fruto das
alterações climáticas.
O que é realmente novo nesta
O
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TempoLivre
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temática veio, em Novembro último, na conceituada
revista Lancet. Esta publicou uma série de estudos que
mostram que as estratégias individuais para reduzir a
emissão de gases com efeito estufa – causa do sobreaquecimento da atmosfera – trazem benefícios imediatos para
a saúde das populações.
As estratégias preconizadas para reduzir a emissão de
gases para a atmosfera passam por comportamentos individuais mais ajustados com esta nova realidade. A mensagem que fica dessa leitura é que não podemos ficar à
espera que os grandes senhores do mundo se entendam.
Cada um de nós deve olhar à sua volta e pensar no que
pode fazer, à sua escala, para salvar o planeta e, ao fazê-lo,
está também a contribuir para melhorar a sua própria saúde.
Só para dar um exemplo:
em todas as casas é sempre possível reduzir o
consumo de energia
eléctrica e de gás, utilizando equipamentos
amigos do ambiente e
evitando perdas de
calor no aquecimento
das casas. Assim como
quando se vai para o trabalho, e sempre nas deslocações
curtas, optar por andar a pé. Nas
outras, quando isso não é possível, utilizar os transportes públicos. Com medidas simples como estas, está-se a reduzir a emissão de
gases para a atmosfera e a melhorar a qualidade do
ar que respiramos. E mais uma vez recordo que
fazer uma alimentação simples, pouco elaborada ao
lume e com muitos vegetais, se possível dos que
crescem sem adubos químicos nem pesticidas, melhora a saúde do coração. Este agradece-lhe e todos
nós também.
Não sei se ainda vamos a tempo de evitar
o cenário negro que nos têm anunciado,
mas seguramente podemos minimizá-lo.
Devemos isso às futuras gerações. I
ANDRÉ LETRIA
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Boavida|Palavras da Lei
Habitação
de Porteiro
?
No prédio que habito há uma casa para a
porteira que está vazia desde que deixou de
haver porteira no prédio. Gostaria de saber em
que condições é que essa casa pode ser
arrendada, pois o produto do seu
arrendamento ajudaria nas despesas do
condomínio e todos seriam beneficiados.
Eu sei que a mesma já foi por diversas
vezes alugada, antes de eu aqui morar,
mas sempre com carácter não oficial.
Ana Maria Rebelo - Sócia n.º 16151
Pedro Baptista-Bastos
emos de responder a esta associada levantando,
de antemão, duas considerações:
1ª: se, no título constitutivo da propriedade horizontal a fracção se destina ou não à habitação de
porteiro; 2ª: qual o fim económico a dar a essa fracção, se
se arrendará ou se venderá a fracção e suas implicações
jurídicas.
Conforme lemos, o prédio não tem porteiro e a
dependência encontra-se numa situação de desuso. Estes
condóminos não querem ter um porteiro no imóvel,
querendo dar um fim económico à casa vazia.
O nosso Código Civil presume como sendo parte
comum de um imóvel a dependência destinada ao uso e
habitação do porteiro - art. 1421º, nº 2, al. c). Note-se que
a norma não considera que o porteiro disponha de uma
"fracção", e chama as instalações de "dependência"; por
outro lado, esta presunção é ilidível, podendo ser afastada
mediante prova em contrário - p. ex., escritura pública,
conforme veremos.
De acordo com a primeira consideração, se o título
constitutivo previa a atribuição de uma dependência a um
porteiro, mesmo que haja desuso sobre a mesma, só se
pode modificar o fim dessa dependência havendo uma
assembleia de condóminos em que haja o acordo de todos
os condóminos sobre este assunto, se efectue escritura
pública sobre a decisão e seu novo fim, e se faça a comunicação à autoridade camarária que aprovou o projecto ini-
T
cial do imóvel, nos termos abaixo explicados.
Se o título constitutivo não previa a dependência para
um porteiro, estamos diante de uma fracção, bastando
haver uma assembleia que decida e aprove esta questão
por maioria representativa de dois terços do valor total do
prédio - art. 1422º, nº 4 - e haja escritura pública sobre a
decisão.
A comunicação à câmara municipal prende-se com o
facto de, se nos 60 dias após a decisão da assembleia não
se fizer a comunicação à Câmara Municipal e não se
provar que estão asseguradas as obrigações de limpeza e
segurança do prédio - através de um "porteiro electrónico", p. ex. - , caduca a decisão dos condóminos - Art. 2º,
nºs 3 e 4 do Regulamento dos Porteiros de Lisboa.
De acordo com a segunda consideração, se a assembleia decidir arrendar a fracção, a mesma continua a ser
parte comum, mas sob a administração directa do condomínio e dos seus administradores, nos termos do artigo
1430º, n.º 1.
Se a assembleia decidir pela venda, a fracção passará a
ser autónoma, devendo haver a sua individualização e
atribuição de valor relativo, em permilagem ou percentagem, no título constitutivo, através de escritura pública
anterior à venda do imóvel - art. 1419º, n.º 1 do Código
Civil.
O Regulamento dos Porteiros de Lisboa foi citado a
título exemplificativo, dado que cada Câmara Municipal
terá o seu próprio regulamento de porteiros, devendo o
leitor consultá-lo, se for caso disso. I
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ClubeTempoLivre > Passatempos
1
Palavras Cruzadas | por José Lattas
HORIZONTAIS: 1-Adega; Abastecer; Apertar. 2-Nome feminino;
2
Governanta (pl.); Azedume (pl.); Abreviatura usada para indicar ante-
3
meridiem. 4-Pronome pessoal feminino da 3ª pessoa; Ambiente;
4
Diminutivo de António (invertido); Pedra de altar. 5-Estação espacial
5
cuja casca serve para aromatizar o vinho. 6-Gás nobre que existe em
pequenas quantidades na atmosfera; Idiotas; Jogo de rapazes que se
República do Niger, cuja cidade principal é Agadés; Ocultamos;
9
Apelido de escritor espanhol, nascido em Valência. 8-Deus do Sol, na
10
mitologia egípcia; Alça; Aplicação; Abreviatura de grau, unidade de
11
António Nobre; Cimento; Artigo antigo.
VERTICAIS: 1-Antro; Amigas. 2-Indigo; Malhadouros; Articulação.
3-Forma verbal do verbo ir; Destituído de moral; Gemido. 4-Prefixo
privativo, que indica supressão ou negação; Acervo. 5-Adorar;
6
7
8
9 10 11 12 13 14 15
12
13
SOLUÇÕES
(horizontais):
1-CAVA; ARMAR; ATAR. 2-ANA; ALA; LAI; OLA. 3-VI; AMAS; IRAS;
AM. 4-ELA; AR; C; OT; ARA. 5-R; MIR; COR; AAL; D. 6-NEON;
PATOS; RAPA. 7-AIR; CALAMOS; ROS. 8-RA; ASA; USO; GR. 9-MAL;
L; ROL; L; OCA. 10-AS; R; PAROS; V; AS. 11-N; AIPO; A; AGIA; N. 12ANIMO; N; M; ALISA. 13-SO; ARGAMASSA; EL
comestível; Actuava. 12-Acalento; Afaga. 13-Livro de poemas, de
5
7
8
(pl.); Ilha grega, no Mar Egeu; Arsénio (s.q.). 11-Espécie hortícola
4
6
joga com uma espécie de dado, atravessado por um eixo. 7-Região da
ângulo. 9-Achaque; Apontamento; Vazia. 10-Art. def., feminino de o
3
1
Flanco; Pequeno poema da Idade Média; Olaria. 3-Seis em Romano;
lançada pela União Soviética, em Fevereiro de 1986; Afecto; Árvore
2
Óxido de cálcio; Preposição. 6-Adejar; Espádua (pl.); Cinza. 7-Chefe
etíope; Acabara; Sódio (s.q.). 8-Anotação; Ademais. 9-Acolá; Fundou
Roma com o irmão; Madrasta. 10-Curioso; Pedido de socor-ro (sigla);
Apelido. 11-Associação Internacional de Transportes Aéreos (sigla
inglesa); Calor; Ani-mação. 12-Assembleia da República (sigla);
Burgo. 13-Porco; Abro; Preguiça. 14-Amofina (inver-tido); Pau do
lagar que atravessa os malhais; Acaso. 15-Latadas; Próprio do asno.
Ginástica mental| por Jorge Barata dos Santos
N.º 17
Preencha a grelha com os
algarismos de 1 a 9 sem
que nenhum deles se
repita em cada linha,
coluna ou quadrado
N.º 17
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TempoLivre
| JUL/AGO 2010
SOLUÇÕES
Project1:Layout 1
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ClubeTempoLivre > Cartaz
BRAGANÇA
VIANA DO CASTELO
Julho
Julho
Filmes:
Filmes:
O Mistério da Estrada de
Escola para Totós – dia 23 às
Sintra – dia 24 às 21h na
21h30 na Associação
Associação de Pombal; dia
Cultural de Mujães.
25 às 17h na ACR de Pombal
Bangkok Dangerous – O
de Ansiães; dia 30 às 21h na
Perigo Espreita, dia 31 às
Associação Recreativa
21h30 na GCSRD de Cuide
Cultural de Vilar Chão; dia 31
de Vila Verde
às 21h30 no Auditório
Agosto:
Municipal de Alfândega da
Fé.
Filmes:
Agosto
Patoruzito – O Pequeno Índio
– dia 11 às 21h30 na Assoc.
Filmes:
Cultural de Mujães.
O julgamento – dia 6 às
Amigos Imaginários – dia 14
21h30 na Associação
às 21h30 no GCSRD de
Cultural e Desportiva e
Cuide de Vila Verde
Recreativa de Carviçais; dia 7
às 21h na Associação do
Concertinistas e Cantadores
Paços da Serra no Adro de
Grupo de Cantares de
ao Desafio no Largo do
Paços da Serra.
Sambade; dia 13 às 21h30 no
Pelourinho em Lousã.
Grupo Cultural e Recreativo
Folclore: dia 25 às 16h -
de Avelanoso; dia 14 às
Cortejo de S. Tomé em Ançã.
21h30 no Auditório
Pesca: dia 10 e 11 – provas
Municipal de Alfândega da
do Nacional de Pesca
Fé.
Desportiva de Mar em Gala.
COIMBRA
GUARDA
Julho
Julho
Música
VILA REAL
Julho
PORTO
Folclore
XIII Festival Internacional de
Julho
Folclore “Cantaréu 2010”
com grupos de folclore
Caminhada:
nacional e internacional
dia 11 às 9h30 - 7ª
(México, Bulgária e Polónia)
Caminhada 2010, 12 km,
– dia 7 às 21h em Vila Pouca
início na Igreja da Cidade da
de Aguiar, dia 8 às 21h em
Lixa, org. Rancho Folclórico
Alijó e dia 9 às 21h em Vila
de Macieira da Lixa.
Real; dia 17 às 20h - 2º
Festival de Folclore da Vila de
dia 23 às 22h - grupo Dixie
Concertos:
Gringos - Jazz Band no Salão
dia 9 às 21h - Banda da
Feira:
Vidago na Casa de Cultura
do Rancho Juvenil de Côja;
Assoc. Juvenil “Os Bazófias”
até ao dia 12 - XIV Feira de
de Vidago.
dia 31 às 22h - Cátia
no Castelo de Celorico da
Artesanato da Maia no
Montemor com Quarteto de
Beira; dia 24 às 21h -
Parque Central da Maia, com
Saxofones e Dixie Gringos -
Fanfarra Nemfánemfum
inúmeros artesãos e muita
Jazz Band na Praça do
pelas ruas de Famalicão da
animação, casos do Grupo
Folclore
Comércio em Coimbra, no
Serra e Banda da
de Cavaquinhos da Escola
dia 8 às 15h – Rancho
âmbito das comemorações
Associação Musical Juvenil
Secundária Infante D.
Folclórico e Recreativo de
do 75º Aniv. da Fundação
de Tourais no largo central
Henrique (dia 5), e do Grupo
Borbela em Benagouro; dia
INATEL.
em Lapa de Tourais; dia 31 às
de Metais da Associação
21 às 17h - festival em Santa
Concertinas: dia 18 às 15h -
21h - Banda da Sociedade
Cultural e Musical de Avintes
Eugénia, com a participação
13º Encontro de
de Instrução e Recreio de
(dia 6).
de vários grupos de folclore.
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O Tempo e as palavras
M a r i a A l i c e Vi l a Fa b i ã o
Entre o desejo de Silêncio
e a inevitabilidade das palavras
As palavras são novas: nascem quando / No ar as projectamos em cristais / De macias ou duras ressonâncias. // Somos iguais
aos deuses, inventando / Na solidão do mundo estes sinais / Como pontes que arcam as distâncias. //
José Saramago, “As Palavras são Novas…”, in: Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, “O Campo da Palavra”, 3ª edi., 1985
O
súbito retinir do telefone vem associar-se ao
ruído do estralejar de foguetes e das recémimportadas vuvuzelas.
- Morreu o Saramago! Não vai escrever sobre
ele, pois não? Ele não merece! (Quantas vezes terei de ouvir
isto?)
Não sei se dentro, se fora de mim, o silêncio alastra, fazse espesso, aparentemente impenetrável. “E agora, José?”
Não, não vou escrever. Já escrevi sobre palavras, que
sobre palavras tenho de escrever. De mim, só o silêncio um respeitoso silêncio.
“Tem, porém, o silêncio, se lhe dermos tempo, aquela
virtude, que aparentemente o nega, de obrigar a falar.”1
Inevitáveis as palavras.
1998. Ano de intensa colaboração pessoal com o Jornal
de Poesia, cujo Webmaster2 se dedica no Brasil à divulgação
dos poetas lusófonos. Mais de três mil, eles eram, por esse
então. Dos lusos, cargo meu enviar obra dos que faltavam.
Nas estantes, como mera curiosidade, à sombra de toda a
obra - lida e relida - publicada até então por Saramago, três
livros de poemas de um Saramago prévio a si próprio,
respeitador da ortodoxia gramatical, linguagem e pensamento
quase comezinhos, frequentemente apertados em rimas
insistentes. Saramago, porém - mas ainda não “Saramago”.
Telefonema difícil para Lanzarote: pedido da
indispensável autorização para publicar na NET
Surpreende-me com a lhaneza da recepção. Há riso na voz
do Homem que mais tarde confessará: “O meu riso (…) é
bastante raro”3. Falamos (falo?) da sua obra, de influências,
da corrente experimentalista espanhola dos anos 50/60, de
Ana Maria Matute, de Goytisolo, de Delibes, da
importância da ausência ou alteração dos sinais de
pontuação na criação de um estilo peculiar, pouco
acessível à massa dos leitores. Falamos (falo?) da sua
poesia. Leitora anónima, protegida pela distância a minha
timidez, afirmo, interrogo. Ele, Saramago, concorda,
discorda, responde. Aparentemente divertido. Ouso uma
opinião final: não serão os seus poemas a dar-lhe o
desejado Prémio Nobel - que poderá estar assegurado pela
poesia que, paradoxalmente, permeia a sua prosa.
Irónico na despedida - ele, que dirá: “Sou irónico - mas
sou irónico quando escrevo. Sou incapaz de usar a ironia
na minha relação com os outros. Penso que a ironia dirigida
a outra pessoa é uma agressão4” -, atira-me: “Então, doeulhe muito? Doeu-lhe muito falar comigo?”
Sinto-me descoberta, agredida, de facto. Sirvo fria a
minha vingança: retenho a publicação dos seus poemas.
8 de Outubro de 1998. Mensagem do poeta Soares
Feitosa: “O “Homem” é Nobel. Envie tudo quanto puder. É
importante, ninguém ouviu falar de poemas dele.” Dez
minutos mais tarde, a minha selecção dos poemas de
Saramago está no Brasil, no Jornal de Poesia, sob o número
290. Forçosamente, com o nome de quem enviou.
Dois dias mais tarde e durante meses, o meu correio
electrónico enche-se de mensagens para José Saramago meu “conterrâneo”: da Colômbia, de Londres, do Brasil…;
de leitores, de tradutores, de editores. Respondo com
endereços, reencaminho-as para a Editora, imprimo-as.
Convidada pela Gulbenkian, pela Caminho e pela
Faculdade de Letras para o lançamento da belíssima edição
especial da Colóquio/Letras, entrego-as, mão anónima, à
sua mulher.
Nunca mais falei com Saramago. Não obstante o acaso
me ter sentado mais do que uma vez a seu lado, sem que
ele pressentisse em mim a dona daquela voz cuja aparente
ousadia não conseguira ocultar-lhe a mais aflitiva timidez.
Saramago não voltará a escrever. Nós, porém, jamais
deixaremos de o ler.
O milagre da palavra escrita. I
1Evangelho Segundo Jesus Cristo, pp.300
2O poeta cearense Soares Feitosa
3 José Saramago, in: “Alguns Nomes de José Saramago”, de
Francisco José Viegas, in: José Saramago -Uma Voz contra o
Silêncio
4Ibid.
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Os contos do
O assaltante
E
m três melindrosas ocasiões, Barcolino
penou velozmente pelas ruas da cidade
com a Polícia à perna. Três tentativas de
assalto a transeuntes e outros tantos
insucessos, o mais aparatoso na tarde em que
polícias e civis se juntaram na perseguição.
Barcolino só se livrou deles porque o pânico lhe
deu asas e galgou um muro de dois metros.
No rescaldo do susto, o incompetente marginal resolveu mudar de vida. Não no justo sentido, que seria transferir-se para o lado da Lei e da
Ordem. Decidiu, sim, deixar a cidade, onde as
multidões podem ser tentação mas também
representa uma ameaça.
Escolheu a estrada.
Para arma de intimidação escolheu a navalha,
embora convicto de que jamais seria capaz de
golpear alguém. As potenciais vítimas a quem
apontasse a lâmina, não podiam no entanto adivinhar que Barcolino chegava a desmaiar quando
via sangue. A navalha era para causar medo e do
medo resultaria o êxito do assalto.
Iria, então, para a estrada, de polegar espetado
solicitando boleia.
Os problemas quanto ao modus-operandi
começaram a surgir na atormentada cabeça dele.
Para chegar a um ponto conveniente da estrada,
teria de se deslocar. E ele não possuía carro, nem
saberia conduzi-lo. Os transportes públicos eram
de todo inadequados, tal como pedir boleias.
Pensou, pensou, e tomou a decisão: vou roubar uma bicicleta.
Roubou uma bicicleta.
Nessa tarde Barcolino pedalou em viagem de
reconhecimento da estrada e suas bermas propícia para efectuar o primeiro assalto.
Dois dias depois lá estava ele, de bicicleta
escondida e polegar levantado. Passavam
automóveis, um, dois, dez, trinta, cento e catorze,
e nem um único condutor acedeu à solicitação de
Barcolino.
Pedalou, mudando de poiso.
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No outro lado da estrada, apareceu uma moça
de longos cabelos negros e ergueu também o
braço e o dedo a reclamar boleia. Quase de imediato um carro de luxo travou e ela lá se foi.
Barcolino indignou-se. Por ele passavam acelerados, desprezando a súplica. E aquela sortuda
repimpava-se em escassos minutos.
A jornada foi um fracasso e Barcolino tornou
a casa aos pedais. Voltaria na manhã seguinte.
Na manhã seguinte, a cena foi idêntica.
Quando ele chegou ao local previamente estudado, viu uma mulher esbelta, igualmente de cabelos longos, mas desta vez louros, preparando-se
para pedir boleia.
Entretanto Barcolino situou-se cinquenta
metros atrás para ser o primeiro a solicitar a
atenção dos condutores.
Ele vinha um. Ele acenou mas o carro seguiu,
embora afrouxando a marcha. Deteve-se junto à
loura e levou-a.
Foi nesse instante que se fez luz na cabeça de
Barcolino: as mulheres ao volante detestam dar
boleias e os homens, na maioria, são tarados ou,
no mínimo, mulherengos. Um terceiro grupo é o
dos cavalheiros, sempre prontos para atenções às
senhoras.
Barcolino pensou, pensou, e saltou-lhe outra
ideia: vou comprar uma peruca.
No dia seguinte saiu da loja especializada com
uma peruca de longos cabelos ruivos. Pedalou
quarenta quilómetros até ao trecho da estrada
que lhe pareceu propício para assaltos e reflectiu
no que fazer após o golpe consumado. Este ponto
era importante. À cautela, deveria deixar a bicicleta oculta a alguma distância, uns cem metros,
calculou, de modo que o assaltado não pudesse
avisar a Polícia, se calhar por telemóvel, que o
assaltante ia ali pedalando estrada fora. Outra
precaução indispensável seria furar um pneu do
carro para que o respectivo condutor não fosse
atrás dele, buzinando e berrando pela devolução
da carteira.
ANDRÉ LETRIA
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Foi às quatro da tarde de um dia frio e chuviscoso que Barcolino deu início à operação. Escondeu a
bicicleta entre moitas densas perto da berma e
caminhou, descontraído, dobrando a curva.
A curva era fundamental. Graças à curva, não
se avistaria, do lugar do assalto, o momento da
transição: quando ele, Barcolino, saltava para o
velocípede depois de cem metros, a dar à sola.
Intimidado pela navalha e com um pneu furado,
a vítima nada poderia fazer do que contar à
Polícia o assalto praticado por uma ruiva que
fugira a pé. Nesse momento, talvez o carro policial tivesse já passado, com a sirene sacudindo os
ares, sem olhos para um modesto ciclista, presumivelmente a caminho de casa, depois de um
duro dia de trabalho.
O homem do carro amarelo torrado mostrava
um arzinho guloso quando travou junto à ruiva
de cabeleira basta que gesticulava por transporte.
Com o papel bem estudado, Barcolino envergara
colas cor-de-rosa para ocultar as pernas peludas,
já que substituíra as calças do costume por uma
minissaia. Um lenço de seda azul celeste cobrialhe o rosto até aos olhos que tivera o requinte de
rodear de creme de beleza.
- Entre, menina, entre! – a cara do senhor era
toda um sorriso acolhedor.
Apertando a peruca com ambas as mãos, de
modo a impedir ainda mais a visão do semblante, Barcolino assentou o rabo gorducho no banco
ao lado do solícito.
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- Então, para onde quer ir querida? Podíamos
dar uma voltinha por aí, por mim, não tenho
presa.
- Uma voltinha? – disse Barcolino com voz de
falsete. Acto contínuo puxou da navalha e falou
grosso quando ordenou:
- A carteira, já!
De olhos esbugalhados e as mãos a tremer, o
infeliz procurou o bolso interior do casaco, avisando: - Acho que só tenho dez euros!
- Dez euros?! – irritou-se o assaltante, apoderando-se da carteira. Era verdade: dez euros.
Apesar da decepção, Barcolino quis manter a
cabeça fria. Era imperioso seguir à risca os pormenores da retirada. Depois de insultar o homem
– “seu teso nojento!” – furou um pneu e afastouse em passadas rápidas. Dobrada a curva, retirou
a peruca e a minissaia, mais parecendo um atleta
em exercício de marcha.
Na altura certa deixou o asfalto e obliquou
para as moitas, ia voltar a casa com uns míseros
dez euros. Sorte malvada, a chuva caíra de súbito em bátegas grossas e penosas para um ciclista.
Lembrou-se, sarcástico, do tipo que pretendia dar
uma voltinha com a ruiva e estaria agora, ensopado, a mudar o pneu. Ria-se quando dobrou as
moitas, mas o riso passou a um esgar e a um grito:
- Cambada de gatunos! Roubaram-me a bicicleta!
Sentou-se numa pedra e soltou a indignação:
- Isto só em Portugal! I
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Crónica
Isso da fama é muito relativo
António
Costa Santos
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O
meu sonho era ser realizador de cinema, mas fui para a escola técnica,
quando fiz a quarta, e sou escriturário, desde os quinze. Mesmo assim
acho que tive sorte, porque todos os meus amigos
da Primária, em vez de contabilidade, foram
aprender a acartar cabazes de compras pelas ruas
do meu bairro, manipular ascensores em hotéis,
de pandeireta cinzenta enfiada até às orelhas,
fazer baldes de massa e subi-los aos andaimes do
Jota Pimenta, enfim, largar os estudos e trabalhar,
fazer pela vida, a qual não era para brincadeiras,
naquele tempo. Curtição, como tanto hoje se diz,
só se fosse na indústria dos curtumes.
Os sonhos, porém, não morrem e, ao longo
dos últimos 50 anos, fiz a minha vida de escriturário, adiando a de cineasta, suportando a frustração com sextas-feiras sagradas no nimas. Por
fim, no ano passado, arrumei as mangas-de-alpaca, fui-me à conta poupança-reforma e comprei
uma máquina de filmar (diz-se "câmara"). Dois
meses depois, com a ajuda do meu rapaz, que é
barra em computadores, tinha pronta a minha
primeira fita, com diálogos, história, música,
genérico, tudo.
Mostrei-a ao Fernando, do Recreativo, um
rapaz culto, que gostou e me motivou a fazer
mais. Ignorei as piadinhas dos sócios. "Estás um
verdadeiro Vasco Santana", disse um. Como se
esse fizesse filmes! Ignorantes.
Bem, mais dois meses passaram e fiquei com
uma filmografia de três peças, nada mau para um
realizador português. O Fernando disse, então: "Se
há pintura naíf também pode haver filmes". Não
gosto de rótulos, mas não me demorei a discutir o
conceito. Foi desta forma que o Recreativo realizou
o I Ciclo de Cinema Naïf, "este ano apenas com
obras do nosso associado Artur", dizia o cartaz.
Foi um êxito. No público estava um estudante
de cinema que escreveu uma crítica na Internet,
que o meu rapaz me imprimiu, porque quero
guardar o recorte. Também saiu uma fotografia
minha. "És uma estrela, pai", disse-me o meu
rapaz.
Mas isto da fama é muito relativo. Aqui há
dias, ia a subir a Avenida, por alturas do Tivoli, e
um grupo de jovens abordou-me, a pedir autógrafos. Fiquei, como é natural, um pouco surpreendido, mas discorri: colegas do rapaz da
Internet, com certeza. Que me conheciam da televisão, disseram. "Isso é que é ser-se observador",
elogiei-os eu, dado que apareci na RTP apenas
uma vez e foi de raspão, estava no passeio daquela mesma avenida, a filmar as Marchas para um
dos meus filmes e fui apanhado, L'arroseur
arrosé, como no tempo dos Lumière.
Vi-lhes nas caras algum espanto com a assinatura, mas já estou habituado. O gatafunho que
criei aos 15 anos, quando renovei o B.I., exige
pedras de roseta se alguém, através dele, quiser
perceber o meu nome. Tem, porém, um A inicial
muito distinto, porque, só depois de o grafar me
lembrei que não queria uma rubrica fácil de imitar e tratei de dificultar com uns riscos a tarefa
aos falsários (andava a ler O Santo). Por isso, sem
saberem se sou Artur ou Anacleto, quem me vê o
autógrafo sabe, pelo menos, que não sou Manuel,
por exemplo.
E
foi isso, afinal, que espantou os caçadores de autógrafos. "Desculpe", disse um,
"mas o senhor não é...?" "Sou eu, sou",
cortei embaraçado. "A minha letra é que
é péssima", justifiquei. "Manoel de Oliveira?",
concluiu ele.
Daí que tenha afirmado ser a fama, uma coisa
muito relativa. É óbvio que qualquer nóvel cineasta daria tudo para que o confundissem com
Manoel de Oliveira. Mas não na aparência.
Afinal, por muito bem conservado que o Mestre
esteja, ter 65 anos e ser tomado por um macróbio
de 100, concordarão que é preocupante. Mesmo
assim não dei parte de fraco, diante da juventude, que está a ir cada vez mais ao cinema, e disselhes: "Ah, não, não sou o Manoel de Oliveira. Por
acaso somos colegas, mas não sou eu." E lá fomos
às nossas vidas. I
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da revista Tempo Livre