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N.º 222
Janeiro 2011
Mensal
2,00 €
TempoLivre
www.inatel.pt
Cesário Borga e Fernanda Bizarro
A viagem de dois jornalistas aos 75 anos da Inatel
Destacável 12 págs. Guia de vantagens
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Sumário
Na capa
14
INATEL
Uma História com Futuro
Dois conceituados
jornalistas, Fernanda
Bizarro e Cesário Borga,
investigaram durante meses
a história dos 75 anos da
Inatel para a realização de
um documentário. Emitido
já na RTP e exibido,
sucessivamente, em duas
sessões para convidados e
trabalhadores no Trindade,
o seu trabalho (“Uma
História com Futuro”) é um
retrato vivo e emotivo de
uma instituição criada pela
ditadura mas que
sobreviveu ao 25 de Abril
graças à decisão sindical de
aproveitar as suas
estruturas e experiência
para lhe conferir uma
dimensão adequada à nova
realidade democrática.
5
6
18
EDITORIAL
CARTAS E COLUNA
DO PROVEDOR
8
12
NOTÍCIAS
CONCURSO
DE FOTOGRAFIA
32
TERMAS DE PORTUGAL
As boas águas do Estoril
34
MEMÓRIA
Carlos Paredes: o poeta
da guitarra portuguesa
38
OLHO VIVO
40
A CASA NA ÁRVORE
67
O TEMPO E AS PALAVRAS
Maria Alice Vila Fabião
68
RITUAIS
Carnaval Luso-Galaico
No seu programa de Viagens
Nacionais Outono/Inverno
2010/20111, a INATEL Turismo
propõe uma viagem pelo norte do
país, entre paisagens de montes e
aldeias da região de Montalegre, com
um complemento festivo: um salto ao
outro lado da fronteira, ao grande
Entrudo galego de Xinzo de Limia
(localidade situada entre Verín e
Ourense), em cujo carnaval persistem
aspectos que assinalam o seu
parentesco com as celebrações
entrudescas das aldeias da província.
24
INATEL CULTURA
Oficinas de Tempos Livres
Anteriormente chamadas Escolas do
Lazer, as OTL oferecem aos
beneficiários da Fundação INATEL os
mais variados cursos de média e curta
duração para a ocupação do tempo
livre, acessíveis tanto para os
associados como para os não
associados.
OS CONTOS
DO ZAMBUJAL
70
CRÓNICA
António Costa Santos
Guia de Vantagens
DESTACÁVEL DE 12 PÁGINAS
43
62
BOA VIDA
27
CLUBE TEMPO LIVRE
PORTFÓLIO
Passatempos, Novos
livros e Cartaz
Nepal: o domínio
dos Himalaias
Revista Mensal e-mail: [email protected] | Propriedade da Fundação INATEL Presidente do Conselho de Administração: Vítor Ramalho Vice-Presidente: Carlos
Mamede Vogais: Cristina Baptista, José Moreira Marques e Rogério Fernandes Sede da Fundação: Calçada de Sant’Ana, 180, 1169-062 LISBOA, Tel. 210027000
Nº Pessoa Colectiva: 500122237 Director: Vítor Ramalho Editor: Eugénio Alves Grafismo: José Souto Fotografia: José Frade Coordenação: Glória Lambelho
Colaboradores: António Costa Santos, António Sérgio Azenha, Carlos Barbosa de Oliveira, Carlos Blanco, Gil Montalverne, Humberto Lopes, Joaquim
Diabinho, Joaquim Magalhães de Castro, José Jorge Letria, José Luís Jorge, Lurdes Féria, Manuela Garcia, Maria Augusta Drago, Maria João Duarte, Maria
Mesquita, Pedro Barrocas, Rodrigues Vaz, Sérgio Alves, Suzana Neves, Vítor Ribeiro. Cronistas: Alice Vieira, Álvaro Belo Marques, Artur Queirós, Baptista
Bastos, Fernando Dacosta, Joaquim Letria, Maria Alice Vila Fabião, Mário Zambujal. Redacção: Calçada de Sant’Ana, 180 – 1169-062 LISBOA, Telef.
210027000 Fax: 210027061 Publicidade: Direcção de Marketing (DMRI) Telef. 210027189; Impressão: Lisgráfica - Impressão e Artes Gráficas, SA Rua Consiglieri Pedroso, n.º 90, Casal de Sta. Leopoldina, 2730-053 Barcarena, Tel. 214345400 Dep. Legal: 41725/90. Registo de propriedade na
D.G.C.S. nº 114484. Registo de Empresas Jornalísticas na D.G.C.S. nº 214483. Preço: 2,00 euros Tiragem deste número: 152.727 exemplares
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Editorial
V í t o r Ra m a l h o
Memória e Futuro
E
ste é o primeiro número da TL de 2011.
Não poderia por isso deixar de me dirigir à sua pessoa, pela ligação que sei ser
muito estreita com a nossa Fundação,
desejando-lhe os maiores sucessos para este
novo ano.
Pela nossa parte tudo iremos fazer para, numa
conjuntura difícil, contribuirmos para preencher
com inovação e exigências de qualidade, a ocupação dos seus tempos livres com ofertas crescentemente diversificadas.
O facto do plano e do orçamento para 2011
terem obtido parecer e aprovações que foram
votadas por unanimidade pelos membros órgãos
estatutários competentes, encoraja-nos a não
afrouxarmos nos objectivos que desde a primeira
hora nos propusemos - modernizar a Inatel respondendo com serviços adequados a todas as faixas etárias. Daí a verba de dez milhões e quinhentos mil euros que no ano em curso afectaremos ao investimento.
A consciência que o futuro se suporta na
memória e na sua valorização esteve assim presente nos eventos com que, em 2010, ano da passagem dos 75 anos da Inatel, assinalámos a
efeméride. O documentário Inatel "Uma História
com Futuro", encomendada pelo Conselho de
Administração aos jornalistas Cesário Borga e
Fernanda Bizarro, exibido integralmente na RTP,
nos canais 1 e 2, e que abriu também a Gala
Inatel e a Festa de Natal dos trabalhadores no
Teatro da Trindade, é um dos testemunhos da
perenidade da marca de excelência, que é a
Inatel tal como o livro escrito pelo Professor Dr.
José Carlos Valente "Para a História dos Tempos
Livres em Portugal da FNAT à Inatel" que na
mesma altura foi publicado.
É com suporte nesta memória, que envolve
acontecimentos históricos e personalidades marcantes dos últimos 75 anos da nossa vida colectiva, que estamos a preparar com muita esperança o futuro, como as reportagens e as noticias
desta TL o demonstram no início deste novo ano,
que desejamos o melhor para todos. n
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TempoLivre 5
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Cartas
A correspondência
para estas secções
deve ser enviada
para a Redacção de
“Tempo Livre”,
Calçada de Sant’Ana,
nº. 180, 1169-062
Lisboa, ou por e-mail:
[email protected]
Parques de Campismo
(…) Não quero ser injusto mas parece que a
única vez durante o ano em que se fala de campismo na nossa revista é só para nos comunicarem o aumento da tabela de preços.
Já uma outra vez, há anos, mandei um email
ao Senhor Provedor “reclamando” contra os
aumentos, principalmente do parque de São
Pedro de Moel que, a partir de determinada altura e injustamente na minha opinião, passou
também a ter o mesmo tratamento que o da
Costa de Caparica quando, até pela área geográfica em que está inserido, servem pessoas, na
maioria dos casos, socialmente diferentes em
termos de poder de compra, como é o meu caso.
Depois, a acrescentar a isto, há o facto do parque,
em termos de equipamentos, como WC, balneários etc., estar muito esquecido.
Sou frequentador de São Pedro de Moel
desde que me tornei associado da Inatel, já no
tempo da FNAT. Infelizmente este ano não pude
passar lá as minhas férias por causa da tal
questão económica. Sei também que, em 2010, a
taxa de ocupação de São Pedro foi ainda pior do
que em anos anteriores. Porquê então teimar-se
em pôr São Pedro de Moel no mesmo saco da
Caparica, provocando ainda mais a sua desertificação? Será para acabar Porque razão é que um
associado com deficiência não tem bonificação
nos parques de campismo ao contrário do que
“acontecia” nos centros de férias?
Saberá o Dr.Vítor Ramalho que nem todos os
associados podem passar férias nos hotéis da
Inatel?
José A. Martins (via email)
50 anos na INATEL
Completaram, este mês, 50 anos de ligação à
Fundação Inatel os associados: José Luis
Almeida, de Faro; Afonso José Tobias e Renato
Manuel Casco, de Évora; Mª Lourdes S. C. Rosa,
Edmundo S. Silva e Joaquim Gabriel A.
Pinheiro, de Lisboa.
Coluna do Provedor
Kalidás
Barreto
[email protected]
6
TempoLivre
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NA REVISTA de Dezembro de 2009 escrevemos sobre os festejos natalícios que se transformam mais em lugares comuns e cada vez mais
em negócios da China, do que práticas solidárias
e fraternas; enfim...é a vida!
Criticando esta postura afirmava que
“enquanto uns trocam prendas e enchem o bandulho com opíparas ceias “natalícias”, outros,
mesmo ali ao lado, têm fome!
Ora houve um nosso associado que, então,
não gostou da expressão usada; todavia, segundo os dicionários, bandulho, tem o significado
de barriga!
Não é isso porém o importante. O importante é analisar-se o problema da pobreza e das assimetrias sociais. Não é aceitável que neste
mundo de abundância, haja crianças com fome
e trabalhadores com salários que não chegam a
mínimos decentes. Isso reflecte-se em toda a
nossa vida e é compreensível quando uma velha
associada diz que vai anular a sua inscrição por-
que o dinheiro já não chega para tudo e outros
que pensam ser exagerados os mínimos aumentos que se apresentam nas tabelas de preços.
Estes mínimos, que representam um esforço
de equilíbrio para a Fundação - agora entidade
de direito privado de utilidade pública – , é, em
numerosos casos, muito para pessoas socialmente diferentes em termos de poder de compra.
Cortadas ou diminuídas muitas receitas,
anteriormente existentes oficialmente, sabemos que a Administração procura manter o
possível, não esquecendo os objectivos sociais.
Todos estamos a passar uma crise que outros
criaram, de que a Inatel não tem culpa, mas
sofre as consequências como os seus associados. Sem falsos optimismos, acreditamos que
iremos dar a volta. No limiar do novo ano,
devemos ter esperança num Portugal melhor,
mas é preciso que todos façamos por isso, para
além dos desejos.
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Notícias
Inatel 75 anos
“Uma História com Futuro”
na Gala do Trindade
Plano e
Orçamento 2011
l
O Plano de Actividades e o
Orçamento da Inatel para 2011
foram aprovados por
unanimidade pelos pelos
Conselho Fiscal, Consultivo e
Geral em reuniões realizadas,
respectivamente, nos passados
dias 10, 13 e 14 de Dezembro. O
presidente, Vítor Ramalho, e o
administrador financeiro,
Rogério Fernandes, deram
conta, em pormenor, aos
membros daqueles orgãos
estatutários das perspectivas de
gestão para o ano em curso,
sublinhando a determinação do
Conselho de Administração em
A exibição do documentário “Uma
História com Futuro”, dos jornalistas
Cesário Borga e Fernanda Bizarro, uma
intervenção do Presidente da
Fundação, Vítor Ramalho, e um
concerto pela Orquestra Académica
Metropolitana de Lisboa, na sala
principal do Teatro da Trindade, foram
os momentos altos da Gala
comemorativa dos 75 anos da INATEL.
Ao sublinhar a necessidade de uma
celebração condigna do 75º aniversário
da instituição, Vítor Ramalho
enalteceu a importância social e
cultural da fundação de que – frisou –
o documentário, já exibido nos dois
canais da RTP, dá testemunho
eloquente. Um trabalho que –
salientou ainda o presidente da
l
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TempoLivre
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fundação – “representa uma
homenagem devida aos beneficiários e
destinatários da INATEL e a sua razão
de ser, mas também a todos os que, no
passado e no presente deram e
continuam a dar o seu melhor para
servir, com qualidade e excelência a
ocupação dos tempos livres dos
trabalhadores”.
A sessão terminou com um
belíssimo concerto da Orquestra
Académica Metropolitana que
interpretou as peças“Prelúdio para
Cordas”, de Alexandre Delgado, e
“Serenata para Cordas” em Dó maior,
de Tchaikovsky
Estiveram presentes na Gala, entre
outras individualidades, Maria
Barroso, os os ex-presidentes da Inatel,
Garcez Palha e Alarcão Troni, o
secretário-geral da UGT, João Proença,
um representante da CGTP (por
impossibilidade do seu coordenador
Carvalho da Silva), Vasco Lourenço,
presidente da Associação 25 de Abril,
a vereadora da cultura da Câmara
Municipal de Lisboa, Catarina Vaz
Pinto, o antigo director do Trindade,
Serra Formigal, e o governador civil de
Lisboa, António Galamba.
garantir e reforçar o
investimento da fundação
apesar dos cortes
governamentais e da diminuição
de verbas provenientes do
Euromilhões.
Rectificação
Brochura
“Hotelaria INATEL”
Na brochura “Hotelaria
Inatel”, publicada na edição
de Dezembro da revista
“Tempo Livre”, foi por lapso
indicado, na penúltima
página dedicada à tabela de
preços do Parque de
Campismo Caparica uma
redução das taxas diárias
de 30% no período de
Outubro a Maio de 2011.
Deverá ler-se “As Taxas
diárias de utilização, que
incluem o titular, têm
redução de 15% no período
de 01.10 a 31.05.”
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“Para a história dos Tempos
Livres em Portugal”
Campanha Inatel/Viva
Bons Tempos
l
Fundação INATEL realizou em
Novembro a Campanha INATEL|
Oferecido ao convidados presentes
na Gala, o livro “Para a história dos
Tempos Livres em Portugal, da
FNAT à INATEL (1935-2010)”, de
José Carlos Valente
(Edição Colibri/Inatel),
comemorativo também
dos 75 anos da
fundação, teve
lançamento público,
um dia antes, no
Trindade. Edição revista
e aumentada da obra
“Estado Novo e alegria
no trabalho: uma
história politica da Fnat
(1935-1958)”, do mesmo
autor, publicada em 1999, o livro
inclui numerosas imagens que
documentam a história da
instituição.
Presente no lançamento, Vítor
Ramalho recordou figuras e
momentos relevantes da história da
fundação referidos numa obra que –
sublinhou – representa também uma
“homenagem aos trabalhadores da
Inatel”.
António Garrido, investigador e
professor da Universidade de
Coimbra, fez a abordagem científica
da obra, assinalando a sua
relevância para a história da Inatel.
l
Trata-se – acentuou - de “um livro
sério de história, que reflecte
opiniões muitíssimo documentadas,
decorrentes da dissertação do
mestrado do autor e marcam
a historiografia de
Portugal, do Estado
Novo e do
Corporativismo”.
Presente no
lançamento, o editor da
Colibri, Fernando Mãode-Ferro, destacou a
importância da
fundação na vida
sociocultural do país,
manifestando
disponibilidade para novas
edições que documentem a história
da Inatel no período posterior ao 25
de Abril.
O autor, mestre em História do
Século XX pela Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da
UNL e membro do Instituto de
História Contemporânea é
actualmente docente no Instituto
Politécnico de Santarém. A obra
pode ser adquirida no Centro de
Documentação, na sede da
Fundação. Preço para sócios
beneficiários: 14, 31 euros. Não
sócios: 23,85 euros.
Viva Bons Tempos, integrada nas
comemorações do 75º
aniversário,
tendo como
objectivo a
promoção e
angariação de
novos
Associados. A campanha teve
lugar nos centros comerciais
Colombo e RioSulShopping e
registou a inscrição de dezenas
de novos associados.
Apoio à agricultura
biológica
l
Introduzir novas dinâmicas na
área ambiental e alimentar, em
especial, no que respeita às
hortas biológicas, produtos
biológicos, conservação de
alimentos e bio-compostagem, é
o sentido do protocolo
estabelecido entre a Inatel e a
Associação Portuguesa de
Agricultura Biológica (Agrobio).
O acordo contempla, ainda,
formação e visitas a quintas
pedagógicas e de agricultura
biológicas, uma mais valia para a
rede de turismo e restauração da
fundação.
Campismo Inatel
l
Também a Federação de Campismo e Montanhismo de
Portugal (FCMP) assinou uma cooperação
que prevê a
disponibilização aos associados Inatel de serviços de
emissão de licenças desportivas e outros relacionados
com o campismo e montanhismo.
Ambas as organizações poderão usufruir das nossas
actividades nas áreas do turismo, cultura e desporto,
incluindo teatro da Trindade e alojamento na nossa rede
hoteleira.
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TempoLivre 9
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Notícias
Maratona
Seaside
Vasco Azevedo, do SC Lamego, foi
o grande vencedor da 25ª edição da
Maratona de Lisboa, no passado dia
5 de Dezembro, sagrando-se
campeão nacional da especialidade.
Vencedor da mesma prova em 2007
e 2009, o maratonista de Lamego, de
36 anos, fez o tempo de 2:23.09
horas. O ucraniano Oleksey
Rybalchenko repetiu o 2º lugar de
2009, seguido de Carlos Santos, do
Benfica. No sector feminino, a russa
Marina Kovaleva triunfou com
2:42.40, quase 14 minutos de
vantagem sobre a sua compatriota
Ekaterina Shlahova.
A prova, recorde-se, teve início e
final no Parque de Jogos 1º de Maio
da Inatel
l
“Sempre em Férias” arranca no próximoVerão
Destinado a cidadãos portugueses
com mais de 60 anos, em pleno gozo
das suas capacidades físicas e
psíquicas, que lhes permitam uma
vida autónoma e independente, o
programa «SEMPRE EM FÉRIAS» vai
ter início em Julho próximo e as
inscrições podem ser feitas a partir do
próximo dia 31 de Março.
O programa assenta num plano
rotativo, ou seja, de 3 em 3 meses, os
participantes alteram a morada de
férias em dois grupos de unidades
hoteleiras INATEL. No Grupo A,
haverá uma estadia inicial em
Manteigas, seguida de outra, também
de três meses, em Albufeira. No
Grupo B, o programa começa no Luso
e conclui-se, igualmente, na unidade
hoteleira de Albufeira.
Estão previstos quatro escalões:
l
10
TempoLivre
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- No primeiro escalão, os titulares
de rendimento mensal inferior ou
igual a 350 euros pagarão 350 euros
(associados) ou 400 (não associados);
- 2º escalão, para rendimentos
superiores a 351 euros ou iguais a
600 euros: associados pagam 600
euros e não associados 650;
- 3º escalão, para rendimentos
superiores a 601 euros ou iguais a
1010 euros: associados - 1010; não
associados. 1120 euros;
- 4 ºescalão, rendimentos
superiores a 1071 euros: associados –
1500 euros; não associados - 1550.
Serviços de apoio e transporte
Os serviços do “Sempre em
Férias” incluem alojamento em
regime de pensão completa e meia
pensão; serviço permanente de
acompanhamento especializado,
nomeadamente médico e de
enfermagem; seguro de acidentes
pessoais e responsabilidade civil
durante as estadias; actividades de
carácter recreativo desenvolvidas e
adaptadas ás diferentes realidades
culturais e turísticas de cada região;
acompanhamento permanente nas
actividades por um animador
sociocultural; serviço de bagageiro no
primeiro e no último dia na unidade
hoteleira; e, por fim, transporte em
autocarro entre o distrito de origem e
a unidade hoteleira e entre as
unidades hoteleiras seguintes.
A participação encontra-se
limitada a cotas mínimas definidas
para cada um dos escalões.
Mais informações: T. 210 027 142
| [email protected] |
www.inatel.pt . Solicite regulamento
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Caminhadas Inatel
l Os amantes da natureza têm à
disposição vários trilhos com
interessantes propostas de
caminhadas a locais recônditos e de
elevada beleza paisagística. Saiba que
por, apenas, 5 euros pode aluguer um
GPS com o trilho programado e partir
à aventura com total autonomia na
escolha do dia, hora e número de
acompanhantes. O GPS orientá-lo-á
na aventura onde, sob a tónica da
preservação da saúde, poderá
usufruir do melhor que a natureza
lhe oferece.
Os interessados deverão contactar
a recepção das unidades hoteleiras da
Fundação Inatel em Piódão, Luso,
Castelo de Vide, Foz do Arelho, Vila
Ruiva e Linhares da Beira e escolher
um dos dois trilhos disponíveis. Não
necessita de estar alojado, apenas ter
iniciativa e desejo de quebrar a rotina,
em grupo ou sozinho, mas sempre
com roupa e calçado confortável e, de
preferência, com água na mochila.
país”.A anteceder o espectáculo “Fado
– História de um Povo” de Filipe La
Féria foram distinguidos os melhores
prestadores de serviço dos programas
Turismo Sénior e Saúde e Termalismo
Sénior casos de: Inatel Piodão, Inatel
Manteigas, Inatel Vila Ruiva, Hotel
São Pedro e Grande Hotel Lisboa na
categoria de melhor unidade hoteleira;
e nas restantes categorias, o
restaurante Estalagem da Pateira, o
Casino da Figueira, o Grupo Mil
Raízes” – Grupo Etnográfico do Clube
Millennium BCP, o Rancho Folclórico
“As Tecedeiras”, o Grupo de Cantares
do Pindelo dos Milagres, o Grupo de
Concertinas da Beira Alta, António
Ferreira, Luis Oliveira (Vamos Cantar),
a discoteca Três Pinheiros, a agência
de viagens Leitur – Viagens e Turismo,
Lda e TPM – Viagens e Turismo, as
transportadoras Rodoviária do Tejo e
Autoviação Micaelense, os
espectáculos “Gaiola das Loucas”
(Politeama), as termas de São Vicente,
os palestrantes António Borges Martins
e José Brites Inácio, os animadores
Angelique Câmara, Susana Sousa e
Carlos Medeiros e os vencedores do
concurso: Manuel Rodrigues Pato
(categoria texto) e João Rodrigues
Freire (categoria foto). No Programa
Turismo Educativo Júnior receberam
troféu Joana Araújo Lopes pela melhor
foto apresentada a concurso, enquanto
a Rede de Centros de Ciência Viva foi
eleita a colaboração mais marcante e
Patricia Mariz a melhor animadora.
Gala Sénior
l Cerca de sete centenas de seniores
marcaram presença na Gala de Natal
que decorreu no passado dia 21 de
Dezembro na sala Preto e Prata do
Casino Estoril, uma iniciativa que
assinala o encerramento dos
programas Sociais organizados pela
Inatel. Após o almoço, Vitor Ramalho,
Presidente da Fundação Inatel, deu as
boas vindas a todos os presentes e,
dirigindo-se os seniores, evocou o
contributo de todos na sociedade,
afirmando que “através da vossa
participação reforça-se, na época baixa,
a taxa de ocupação das nossas
unidades hoteleiras e de todos os
hotéis privados que connosco
trabalham, criando e preservando
empregos nas diferentes regiões do
40º Congresso Mundial do CIOFF
l De 6 a 13 de Novembro realizou-se
o 40º Congresso Mundial do CIOFF®,
no Tahiti, Polinésia Francesa. A
Fundação INATEL, representante
portuguesa do Conselho Internacional
das Organizações de Festivais de
Folclore e Artes Tradicionais
(CIOFF®), marcou presença através
da participação da Vogal do Conselho
de Administração e Presidente do
CIOFF® Portugal, Cristina Baptista.
O CIOFF®, uma organização
internacional cultural nãogovernamental (ONG), em relações
consultivas formais com a UNESCO,
celebrou também os seus 40 anos de
salvaguarda, promoção e divulgação
da cultura tradicional e do folclore.
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Fotografia
XV Concurso “Tempo Livre”
Fotos premiadas
[1]
[3]
[2]
12
TempoLivre
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Regulamento
1. Concurso Nacional de Fotografia da
revista Tempo Livre. Periodicidade
mensal. Podem participar todos os
associados da Fundação Inatel,
excluindo os seus funcionários e
colaboradores da revista Tempo Livre.
2. Enviar as fotos para: Revista Tempo
Livre - Concurso de Fotografia, Calçada
de Sant’Ana, 180 - 1169-062 Lisboa.
3. A data limite para a recepção dos
trabalhos é o dia 10 de cada mês.
4. O tema é livre e cada concorrente
pode enviar, mensalmente, um
máximo de 3 fotografias de formato
mínimo de 10x15 cm e máximo de
18x24 cm., em papel, cor ou preto e
branco.
5. Não são aceites diapositivos e as
fotos concorrentes não serão
devolvidas.
6. O concurso é limitado aos
associados da Inatel. Todas as fotos
devem ser assinaladas no verso com o
nome do autor, morada, telefone e
número de associado da Inatel.
[ 1 ] Ricardo Portugal,
São João da Madeira
Sócio n.º 455647
[ 2 ] Sérgio Guerra,
São João do Estoril
Sócio n.º 204212
[ 3 ] Maria Esteves,
Amadora
Sócio n.º 242303
Menções honrosas
[ a ] José Barreiro, Albufeira
Sócio n.º 36010
[ b ] José Gonçalves, Venda do Pinheiro
Sócio n.º 284945
[ c ] Maria Pereira, Montemor-o-Novo
Sócio n.º 486828
[a]
[b]
7. A «TL» publicará, em cada mês, as
seis melhores fotos (três premiadas e
três menções honrosas),
seleccionadas entre as enviadas no
prazo previsto.
8. Não serão seleccionadas, no
mesmo ano, as fotos de um
concorrente premiado nesse ano
9. Prémios: cada uma das três fotos
seleccionadas terá como prémio duas
noites para duas pessoas numa das
unidades hoteleiras da Inatel, durante
a época baixa, em regime APA
(alojamento e pequeno almoço). O
prémio tem a validade de um ano. O
premiado(a) deve contactar a redacção
da «TL».
[c]
10. Grande Prémio Anual: uma
viagem a escolher na Brochura Inatel
Turismo Social até ao montante de
1750 Euros.
A este prémio, a publicar na «TL» de
Setembro de 2011, concorrem todas
as fotos premiadas e publicadas nos
meses em que decorre o concurso.
11. O júri será composto por dois
responsáveis da revista T. Livre e por
um fotógrafo de reconhecido prestígio.
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Entrevista
Cesário Borga/Fernanda Bizarro
A viagem de dois
jornalistas aos 75 anos
da INATEL
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D
etentores de longa e sólida carreira
jornalística, Fernanda Bizarro e
Cesário Borga aceitaram, ao longo
de seis meses, mergulhar na história dos 75 anos da Inatel para a realização de um documentário. Emitido a 14 de
Dezembro, no Canal 1 da RTP, e dois dias depois,
no Canal Dois e numa Gala comemorativa realizada no Teatro da Trindade, o documentário
(“Uma História com Futuro”) dá-nos, nos seus 42
minutos, um retrato vivo e emotivo de uma instituição criada pela ditadura para ‘controlo’ dos
trabalhadores e que sobreviveu ao 25 de Abril
graças à decisão sindical de aproveitar as suas
estruturas e experiência para lhe conferir uma
dimensão adequada à nova realidade democrática. Repleto de imagens e depoimentos que ilustram a espantosa evolução da FNAT/INATEL
desde 1935 à actualidade, o trabalho destes experientes jornalistas mostra como a renovada
Fundação adquiriu uma invulgar importância na
defesa e promoção do lazer social, do desporto
amador e da cultura popular, envolvendo centenas de milhares de seniores e jovens portugueses.
Uma história que nos mostra factos, experiências
e testemunhos inesquecíveis, como o de Rosa
Mota sobre os seus primeiros treinos e primeiras
vitórias na pista de Ramalde da Inatel…ou o de
um jovem e talentoso músico que, graças à fundação, está em Madrid à aprofundar a sua arte
junto de um grande mestre, podendo sonhar com
uma carreira de nível mundial.
Enquanto jornalistas o que mais vos surpreendeu na pesquisa para este documentário?
Fernanda Bizarro – Todos nós sabíamos da
existência da FNAT-INATEL mas eu não conhecia a sua história. Surpreendeu-me, talvez, a realidade inicial dos Centros de Férias e o facto de
até ali nunca nenhum trabalhador ter tido férias
e poder agora gozar os primeiros quatros dias. E
os centros em si, como funcionavam: os tais
pavilhões de cada ministério e as pessoas vinham
desfrutar as férias em camaratas. Foi para mim
uma revelação muito curiosa. E o conceito em si,
que surgiu da Alemanha nazi, da “Força pela
Alegria”, modelo copiado e aplicado em Portugal.
Cesário Borga – Eu tinha já uma visão em relação
à FNAT-INATEL, da sua história política e da sua
relação directa de instituição politicamente marcada num regime com os trabalhadores. Isto porque vivi na altura do 25 de Abril o aparecimento
da Intersindical, integrei o plenário como representante do Sindicato de Jornalistas. Nas discussões que houve à volta da FNAT havia uma
relação muito grande do lado humano da instituição, e que as outras não tinham. E havia histórias que se diziam, que houve pessoas que só
viram o mar graças à FNAT… A verdade é que é
dessa consciência que os sindicatos na altura
decidem apadrinhar a continuidade – embora
não se soubesse na altura como - relativamente à
FNAT.
E depois havia outra coisa. Pelo lado da cultura, muita gente adversa ao regime, sobretudo no
final anos 60 princípios dos anos 70, já tinha tido
colaborações com a FNAT. Era o caso da
Companhia Portuguesa de Ópera, de algumas
coisas do Trindade, onde entravam pessoas como
o Artur Ramos, que era do Partido Comunista,
embora na clandestinidade. E tudo isto deu-me
logo a consciência de que se tratava de uma
estrutura diferente.
Mas há uma adaptação do seu papel ao longo
do tempo…
FB – É muito interessante ver e analisar como
uma instituição que nasce com um objectivo
político desagradável em si, que era o domínio
absoluto dos trabalhadores, depois se traduz na
prática por direitos dos trabalhadores. Porque as
férias, as sessões e os serões para trabalhadores
eram outra coisa extraordinária. O Artur
Agostinho explica isso muito bem no documentário.
Numa época em que não havia televisão e as
vozes dos artistas eram conhecidas sobretudo
através da rádio, o público teve, pela primeira
vez, a oportunidade de os conhecer e isso transforma-se, de um dia para o outro, numa coisa
extraordinária. Os serões para trabalhadores
começaram nas empresas, mas as salas eram tão
pequeninas para a curiosidade que despertou
que eles tiveram de passar para o Pavilhão dos
Desportos. Mas como era de tal maneira apreciado por todos, passou a haver dois tipos de serões:
os do pavilhão, seguido pela Emissora Nacional,
e em pequena escala, os das empresas.
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Entrevista
“
Nas discussões que
houve à volta da FNAT havia
uma relação muito grande do
lado humano da instituição,
e que as outras não tinham.
E havia histórias que se
diziam, que houve pessoas
que só viram o mar graças à
FNAT…
”
Acabou por não cumprir o objectivo do regime
de ‘adormecer’ as reivindicações…
CB – Não, a FNAT adaptava-se, era uma organização como as suas congéneres mas não fazia a
repressão directa. A repressão cabia à PIDE e a
outras estruturas.
A partir do 25 de Abril tem um papel diferente…
FB – Hoje, a Inatel tem importância não só como
operador turístico e não só ao nível do desporto
amador e das actividades culturais. A sua função
social é notável. Veja-se o caso dos portugueses
emigrantes, ausentes no estrangeiro há cinco e
seis décadas, e sem condições económicas para
revisitar o país. Esta é uma parte dos portugueses
de que ninguém fala, de que ninguém se lembra,
mais: de que ninguém se quer lembrar. Já achamos triste que os portugueses tenham de emigrar
e se pensarmos que uma parte deles vai ser profundamente infeliz e nunca mais vai ter possibilidades de regressar… Isso é um sentimento de
culpa tão grande para todos enquanto sociedade
que ninguém se quer lembrar deles. E o programa
“Portugal no Coração”, gerido pela Inatel, que
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possibilita esse sonho aos nossos compatriotas de
voltar à sua terra e reencontrar familiares tem
uma extraordinária dimensão humana e social.
CB – A Inatel é uma instituição diferente das
outras na forma de actuar. Tem turismo mas não
é uma organização turística exclusivamente; tem
desporto mas é amador, não é para pessoas federadas, tem outro tipo de competição; e tem a cultura a apoiar áreas que não são apoiadas de outra
maneira. Esta diferença é a marca que aparece no
documentário. Não encontramos nada igual nem
nada que a possa substituir.
Para este documentário consultaram diversas
fontes…
FB – Temos que falar da importância que foi para
o nosso trabalho a vossa revista, a Tempo Livre, e
que por lapso não vem mencionada na ficha técnica, o que é uma grande injustiça. A direcção
cultural da Inatel deu-nos, igualmente, todo o
apoio no arquivo, na parte de documentação.
Contámos ainda com a consultadoria científica
do historiador José Carlos Valente. Fomos, também, à Biblioteca Nacional ler história da época;
ao ANIME – arquivo de filmes da Cinemateca,
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“
A sua função social é
notável. Veja-se o caso dos
portugueses emigrantes,
ausentes no estrangeiro há
cinco e seis décadas, e sem
condições económicas para
revisitar o país. Esta é uma
parte dos portugueses de que
ninguém fala, de que
ninguém se lembra, mais: de
que ninguém se quer
lembrar.
”
que reúne uma grande documentação da Inatel e
cujas imagens vêm na parte histórica do programa; ao Museu República e Resistência, à
Hemeroteca de Lisboa e ao Arquivo da RTP.
CB – Devo dizer que desde o princípio procurámos que este fosse um encadear de histórias,
embora com uma orientação, uma pesquisa e
com uma distribuição de dados. Neste caso era
uma história longa, com 75 anos, com passado e
presente. E eu acho que é isso que se vê ao longo
dos 42 minutos, são esses encadeamentos de
histórias até ao fim…
E algumas ficaram por contar…
CB – No essencial, abordamos tudo. Claro que
não referimos com profundidade, não era um trabalho enciclopédico. E depois também dependia
muito das imagens que encontrávamos nos
arquivos. Porque é que damos um grande realce
às visitas dos operários alemães entre 1935-39,
que vinham aos milhares visitar Lisboa e a
Madeira? Porque encontrámos boas imagens no
ANIME. Se não encontrássemos nenhuma imagem a nossa referência àquilo teria sido residual…
FB – Mas a vinda desses trabalhadores teve uma
importância crucial para a criação da FNAT. É
preciso que se diga que em 75 anos de existência
é a primeira vez que se fala no assunto. De 1935
a 1939 vieram a Lisboa e à Madeira 20 mil operários alemães. Ninguém tem consciência disto
mas se tivermos em conta o número de pessoas
que tinha Lisboa ou a Madeira nessa época… Nos
paquetes, sempre em número de dois ou de três,
vinham sempre à volta de três mil operários de
cada vez. Chegavam a Lisboa e tinham os eléctricos todos reservados para eles, que se espalhavam pela cidade fora, visitavam tudo e mais alguma coisa.
Eles vinham a Portugal, comparavam e concluíam que o modelo alemão era o perfeito.
Olhavam para a nossa sociedade e viam-na muito
pobre e muito carenciada; os portugueses olhavam para eles e viam um futuro de prosperidade
que poderiam vir a ter através do regime na altura em ascensão. Daí o aproveitamento político
que os dois regimes tinham dessas visitas turísticas dos trabalhadores alemães. n
Manuel Garcia (texto) José Frade (fotos)
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Rituais
Por terras de Trás-os-Montes e
Entrudos sem fronteiras
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Há-de a Primavera estar por um
fio, coisa de semanas, e breves.
Para esse tempo, Fundação
Inatel propõe uma viagem pelo
norte do país, entre paisagens
de montes e aldeias, com um
complemento festivo: um salto
ao outro lado da fronteira, ao
grande Entrudo galego de Xinzo
de Limia.
A
s e Galiza
lista da UNESCO não se confina
apenas a lugares e a património
edificado. O património imaterial
tem também aí lugar, desde 2001,
através de um certo número de
manifestações de carácter religioso ou artístico,
de festas e rituais. Os Entrudos do mundo rural
galego bem poderiam lá figurar, pelo significado
que continuam a ter nos calendários locais, pela
riqueza das funçanatas, em que participa normalmente, e em grande número, a população local, e
ainda pela resistência à introdução arbitrária de
elementos espúrios. Se em Xinzo de Limia, uma
localidade situada entre Verín e Ourense, o carnaval tem eminentes características urbanas, persistem, todavia, aspectos que assinalam o seu
parentesco com as celebrações entrudescas das
aldeias da província. A animação convivial dos
desfiles, tal como o carácter fortemente satírico e
lúdico de muitos elementos da festa, justifica,
enfim, a inclusão de Xinzo no itinerário de umas
breves férias de Carnaval. Mas antes de lá chegarmos, no itinerário proposto pela Inatel, esperaJAN 2011 |
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Rituais
Carnaval em Xinzo de
Limia e em Sarreaus.
Em baixo, a Banda de
Gaitas de Xinzo de
Limia
nos um périplo por alguns dos recantos paisagísticos e patrimoniais mais interessantes da região
de Montalegre.
Nos caminhos do contrabando
A região é terra de lendas - e das antigas, como
devem as lendas ser. Os passeios inscritos no programa levar-nos-ão a pontes que só por um fio –
ou uma pedrinha – não ficaram rematadas. Como
uma que lá pela Serra do Barroso se quedou
incompleta, tal e qual as famosas capelas. É o que
conta o povo, que sabe, também, que enterrar o
vinho – como faz a gente das bandas de Boticas –
não é coisa que se faça por dá cá aquela palha.
Uma prova de vinhos – no singular: do “vinho
dos mortos” -, já perto do final da viagem elucidará melhor do que qualquer arremedo de explicação escrita sobre esse costume antigo. Antes de
tal fim de festa, desse último copo antes da estrada de regresso, a cruzar paisagens de montes e
barragens, outros enredos terão subido à cena: a
estância aos pés do castelo de Montalegre, as visitas a Pitões das Júnias - e ao seu mosteiro beneditino - e a Tourém, celebradas com manjares
regionais, a “participação” num entrudo rural na
que foi a capital da “Rota do Contrabando”. E,
ainda, um passeio pela aldeia de Paredes do Rio,
numa volta de reconhecimento e admiração do
seu património – moinhos, fontanário, forno do
povo e o mais que a gente do lugar acarinha como
se da mobília da casa se tratasse. Isto tudo num
só dia – já que quem corre por gosto não cansa -,
que no outro a seguir há-de a folgança manter a
mesma cadência.
Em Meixedo, outra transmontana terreola que
cultiva bem os seus pergaminhos, e porque nem
sempre o profano se separa do religioso, terá o
turista que meter os pés ao caminho na via-sacra
local. A passo de gosto, diga-se, que é o mesmo
que dizer “sem sacrifício”, no prazer de relembrar
retratos de uma vida antiga. Retratos desses, háos também para encher os olhos em Santo André:
o forno do povo, a igreja, o cruzeiro. E num ápice,
que tudo ali é pertinho, ao alcance de um voo de
pardal, vem um salto a Espanha, para repisar os
caminhos do contrabando, na aldeia de Gironda,
antes do regresso a Vilar das Perdizes, para uma
noite animosa. Sem bruxas, mas com um clássico baile de máscaras, a mando, claro, de quem
reina na quadra, el-rei Entrudo.
Mascaradas, carroças e correrias
A avaliar pelo interregno que pesou durante
décadas sobre as folias de Entrudo na Galiza (e
em Espanha), a ditadura franquista não era (ou
não estava) para brincadeiras. Esse foi um tempo
de celebrações à porta fechada, em rituais e festanças censuradas pelas autoridades religiosas
mancomunadas com o (sempre) carrancudo
poder de militares e polícias. Era um tempo em
que as máscaras equivaliam a pecado, um tempo
em que, como escreveu o escritor galego Carlos
Casares, “polas rúas non circulaban máis que a
Garda Civil e xente aburrida”.
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Castelo de
Montalegre, Tourém,
Alto Rabagão e Pitões
das Júnias
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Rituais
Mascarados
em Xinzo de Limia
Tempos que foram: águas trespassadas não
fazem redemoinhos. Hoje, quem anda aos saltos e
reviravoltas em Xinzo de Limia, sem censuras nem
amarras nem estigma de pecadores, são uns tipos
galhofeiros animados por uma espécie de energia
infinitamente renovável. São as «Pantallas», mascarados vestidos de branco, ataviados com uma capa
negra ou vermelha e umas bexigas bovinas nas
mãos, personagens que se fazem anunciar, nas suas
Viagens INATEL
A Fundação Inatel organiza, de 5 a 9 de Março, com partidas de
Setúbal, Lisboa e Coimbra, o circuito Carnaval GalaicoTransmontano, com passagens, nomeadamente, por Montalegre,
Paredes do Rio, Pitões das Júnias, Tourém, Meixedo, Vilar de
Perdizes, Xinzo de Lima, Pisoões, Morgade, Carreira da Lebre e
Boticas. Preços por pessoa: 495 euros (quarto duplo) e 610 (quarto
individual). Incluem alojamento, pequeno almoço; refeições,
bebidas e vistas conforme programa; autocarro de turismo, guia,
seguro de viagem. Mais informações nas agências distritais da
Inatel.
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doidas correrias pelas ruas, pelo som dos chocalhos suspensos nos cintos de couro.
O ciclo de Carnaval de Xinzo de Limia é um
dos mais longos de toda a Espanha, começando
com três semanas de antecedência, com o
“Domingo Fareleiro”, dia de uma divertida batalha
de farinha. Segue-se o “Domingo Oleiro”, com
potes de barro a voar pelos ares, o “Domingo
Corredoiro”, primeira assembleia-geral de foliões,
e o “Domingo de Entroido”, que solta uma espiral
de três dias de colossal folgança. Mascaradas,
carroças satíricas em desfile pelas ruas e as
“Pantallas” aos pinchos são imagens verdadeiramente simbólicas do Entrudo de Xinzo. Nas ruas
e nas praças, bem entendido. Porque à mesa não
faltam também (manjares) rituais a rimar com a
quadra: come-se o “lacón com grelos”, o “cocido”,
a “cachucha” e notórios enchidos tradicionais feitos com carne de porco temperada com alho,
pimento, louro e orégãos. Xinzo de Limia não tem
apenas um dos mais longos ciclos de Carnaval.
Tem também, com toda a certeza, um dos mais
refinadamente temperados. n
Humberto Lopes (texto e fotos)
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Inatel Cultura
Oficinas Tempos Livres
Experimentar, Conviver,
Apreciar
Experimentar, conviver e apreciar são palavras-chave que definem a actividade promovida
nas Oficinas dos Tempos Livres (OTL) da Fundação Inatel.
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A
nteriormente chamadas Escolas
do Lazer, as OTL oferecem aos
beneficiários da Fundação INATEL os mais variados cursos de
média e curta duração para a ocupação do tempo livre. Acessíveis tanto para os
associados como para os não associados, os cursos podem ser frequentados pelo público em
geral, não havendo qualquer restrição ou limite
de idade. Os associados da Fundação beneficiam,
naturalmente, de um desconto na inscrição.
Aprendizagem
Artes plásticas (Pintura, Escultura) e performativas (Dança, Teatro), ofícios (Joalharia em
Esmalte, Bordados Tradicionais), introdução a
novas tecnologias (Informática) e Línguas são
algumas das áreas pelas quais é possível optar,
aliando a aquisição de novos conhecimentos ao
convívio, bem-estar e novas experiências.
Iniciados há mais de vinte anos, estes espaços
de lazer funcionam quer em Lisboa quer noutros
pontos do país, por iniciativa das Agências distritais da Fundação.
Quem participa nos diferentes cursos encontra espaços de aprendizagem, criativos e de apelo
à imaginação, e uma forma original de ocupação
do tempo. As motivações são várias e distintas,
podendo ser, por um lado, uma paixão antiga
que, por motivos profissionais ou de outra
ordem, nunca foi possível concretizar, ou, por
outro lado, um impulso, uma curiosidade de
enveredar por algo totalmente diferente e novo.
De uma forma ou de outra, encontram-se os
pontos em comum na sala do curso, onde todos
se dedicam afincadamente àquilo que se comprometeram experimentar e apreciar, com entusiasmo e vivacidade.
Os participantes são o mais heterogéneo
possível. Não há limites de idade, referências no
que diz respeito a habilitações literárias ou ocupação profissional. Há a determinação para
aprender e estar activo.
curavam não mais que uma ocupação, e que,
com a experiência, já integram associações de
artesanato, cooperando em feiras, a título individual e colectivo, bem como exposições ou venda
de peças em lojas especializadas. O “passa-apalavra” pode se converter rapidamente numa
actividade de sucesso, surtindo, a partir daí, efeitos para um mercado muito interessante de dinamização do ofício escolhido.
Por vezes, a decisão de participar num curso
destes pode levar a potencializar competências e
ser uma solução para uma situação de desemprego, num encontro com uma área para a qual se
tem, afinal, uma aptidão desconhecida até ao
momento. É, pois, parte da missão da Fundação
INATEL a valorização do ser humano, proporcionando reconhecimento a nível das competências.
E neste seguimento, as OTL são a actividade
direccionada para essa valorização.
O estabelecimento de parcerias com entidades
formadoras de prestígio fomentam o valor destas
acções, na medida em que o serviço prestado
prima pela qualidade.
As áreas promovidas variam consoante as
necessidades ou tendências, sendo sempre objectivo principal da Fundação dar resposta eficaz e
imediata às solicitações recebidas pelos interessados.
No ano de 2010, registe, realizaram-se 35 cursos com cerca de 400 participantes.n
Ana Cónim
Valorização
Apesar de serem cursos programados e direccionados para a ocupação dos tempos livres, é de
salientar a importância que a participação nestas
actividades já implicou na vida profissional de
diversas pessoas, sem muitas ambições, que proJAN 2011 |
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Portfólio
Nepal
O Domínio dos Himalaias
CONDICIONADO pela sua situação geográfica,
confinado entre a China e a Índia, o Nepal só
muito recentemente passou de reino a república,
mas nem por isso esqueceu as suas mais genuínas expressões artístico-culturais. Um enorme
vale, onde se concentram os três mais importantes centros urbanos do país – Khatmandu,
Bhaktapur e Patan –, e uma miríade de colinas e
montanhas definem a geografia desta antiga
manta de retalhos de diversas etnias, crenças e
cidades estados, ainda hoje perfeitamente per-
ceptíveis, cujos segredos só no início do século
XVII seriam revelados ao mundo. Graças a um
jesuíta português: o beirão João Cabral, o
primeiro ocidental a transpor o limiar do até
então desconhecido reino do Nepal. A cadeia dos
Himalaias, o «domínio das neves», em sânscrito,
continua a ser o principal íman que ano após ano
atrai milhares de turistas que puseram um ponto
final num dos últimos mistérios do mítico
Shangri La. n
Joaquim Magalhães de Castro (texto e fotos)
Portfólio
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Uma miríade de
colinas e montanhas
definem a geografia desta
antiga manta de retalhos
de diversas etnias, crenças
e cidades estados
”
Portfólio
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“
A cadeia dos
Himalaias, o «domínio das
neves», em sânscrito,
continua a ser o principal
íman que ano após ano
atrai milhares de
turistas
”
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Termas em Portugal [18]
As boas águas do Estoril
Frequentar as águas terapêuticas do Estoril remonta, pelo menos, ao século XVI, mas foi no
século XIX que o local tomou o impulso vilegiaturista que imprimiu um rápido
desenvolvimento a toda esta orla costeira, motivado pelo clima, caminho-de-ferro, pelas
praias e termas. Já na República, e com o patrocínio desta, os anos que se seguiram foram de
esplendor e, a partir do corrente ano, de reencontro com as águas emergentes.
O
florescimento dos Estoris deu-se, primeiramente, no Monte Estoril e, depois, em São
João do Estoril, onde também houve umas
águas curativas, os Banhos da Pôça. Mas foi
a antiga Quinta de Santo António que viria
ser o local onde se construiram, através dos tempos, os principais edifícios de suporte à actividade termal da zona do
Estoril. Primeiro, por intermédio de José Viana da Silva
Carvalho, que desde 1880 remodela toda a quinta e os antigos banhos e constrói um balneário em estilo neo-árabe.
Seria, contudo, a partir de 1913 que um conjunto de capitalistas, liderado por Fausto de Figueiredo, criaria o primeiro centro de turismo desenhado de raiz em Portugal, com
ambições internacionais, em torno da trilogia praia, termas
e jogo, cujo êxito se atribui quer à área geográfica privilegiada – próximo da capital do país – quer à amenidade
climática. A nova “estação marítima, climatérica, termal e
desportiva” do Estoril previu um conjunto completo de instalações e equipamentos: três hotéis, novo balneário, casino
com teatro anexo, palácio de desportos, edifício para banhos de mar e amplo jardim.
Aguarela do plano do
Estoril, do arquitecto
Henri Martinet, 1914.
Ao lado, um anúncio
das Termas de
Novembro de 1930.
Na página da direita,
as actuais instalações
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Fausto de Figueiredo foi uma figura incontornável nas
origens do turismo organizado no nosso país. Passou a residir no Monte Estoril, desde 1910, formando a Sociedade
Estoril-Plage e com a qual conseguiu cativar o interesse do
governo republicano e dos grandes capitalistas lisboetas
que investiram urbanisticamente neste local.
Em 1914, é publicado um folheto-álbum, onde se apresenta todo o programa da obra dos seus promotores e a materialização conceptual do sonho. Com desenhos do arquitecto francês Henri Martinet, o texto do documento desenvolve-se em vários capítulos que reforçam a necessidade de dar
condições à iniciativa privada para desenvolver turisticamente esta região do país. Os projectos de balneário, hotéis
e casino seriam, contudo, transformados por outros técnicos
(condutor de obras públicas Silva Júnior e arquitecto Raoul
Jourde) e construídos até à década de 1930.
O balneário termal que resultou desta iniciativa foi um
dos mais grandiosos do país. Para além da época estival,
abria durante o Inverno a pedido de alguns clínicos. E não
tinha só os banhos e duches de toda a natureza, que constituíam os meios terapêuticos do estabelecimento. A meca-
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noterapia, as massagens e os tratamentos pela electricidade,
pela luz e pelo calor tinham instalações muito completas. A
piscina com galeria era das melhores do país.
A construção dos diferentes edifícios e do espaço público arrastar-se-ia até à entrada dos anos 30, seguindo-se um
período de intensa construção nas zonas conquistadas ao
pinhal, às terras de lavoura e às pedreiras, facilitada, desde
1940, pelo acesso rodoviário proporcionado pela estrada
marginal. O concelho assume-se, então, como centro turístico de primeira ordem, recebendo, durante a II Guerra
Mundial, e mesmo depois, um elevadíssimo número de
refugiados e exilados, bem como inúmeras figuras do panorama desportivo e cultural, tornando-se numa das mais afamadas estâncias, de nível internacional. A sua actividade
termal perdurou até à entrada dos anos 60, quando se permitiu demolir, inopinadamente, o seu balneário, esperandose, agora, um tempo de refundação, através do novo edifício
projectado pelo arquitecto Manuel Gil Graça.
A reactivação das Termas do Estoril corresponde a um
grande investimento, para dotar o local com uma oferta
terapêutica e turística à volta das suas águas termais, captadas a 278 metros, com 34,5º de temperatura. Trata-se de
propiciar a terapia das águas a quem visita este novo balneário termal, numa unidade de excelência, assistida por
um corpo clínico especializado e multidisciplinar, beneficiando das propriedades terapêuticas de uma água reconhecida há já vários séculos e pela sua eficácia na prevenção
e tratamento das patologias das vias respiratórias, musculares, articulares e da pele. A divisão do edifício em duas
áreas distintas, para programas terapêuticos e de bem-estar,
é uma forma de potenciar as vantagens de servir os vários
tipos de necessidades dos clientes, não só dos que estão em
tratamento, mas também daqueles que pretendem simples-
mente desfrutar das instalações como forma de lazer e
entretenimento. O futuro das termas portuguesas pode passar por saber conciliar estes dois aspectos, mas o que verdadeiramente as distingue de outros centros de saúde é a
existência do bem mais precioso, a água mineral natural.
Para além da área terapêutica, o edifício oferece um Spa
de inspiração em tradições asiáticas milenares, propiciando
a quem o utiliza uma experiência única de evasão e bemestar, num verdadeiro refúgio para os sentidos caracterizado pelo conforto, a elegância e o exotismo. As terapeutas,
originárias da Tailândia, recorrem aos mais apreciados e
reconhecidos óleos essenciais, sais, plantas e especiarias.
As sessões terminam com 30 minutos de relaxamento, que
incluem um tratamento de pés, uma bebida refrescante à
base de ervas e alguns minutos de tranquilidade e introspecção. Também a técnica Watsu utiliza a leveza do corpo
na água para libertar a coluna vertebral, mobilizando articulações e sendo profundamente relaxante. É única nas termas portuguesas.
As Termas do Estoril são o único complexo termal da
Grande Lisboa e, como tal, terão um papel importante na
imagem do turismo de saúde associado às águas minerais
naturais. E estas mantêm-se há séculos, no Estoril como em
muitos outros locais do país, cumprindo o seu ciclo e ultrapassando gerações e regimes políticos. Regenerando a vida.
E, numa estância de águas, a vida precisa de outros motivos de interesse que dão ao aquista todas as possibilidades
que o turismo potencia. Restaurantes, cafés, lojas e percursos de Natureza, bem como uma intensa e bem articulada
actividade cultural, manifestada nos diferentes espaços
museológicos e de produção artística e na dinâmica autarquia de Cascais. n
Jorge Mangorrinha e Helena Gonçalves Pinto
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Memória
Carlos Paredes, o poeta
da guitarra portuguesa
Morreu há seis anos e, ao recordá-lo hoje, lembro-me de um excelente título que o jornalista
Fernando Magalhães deu a um artigo sobre o "poeta": "Se Amália foi o fado, Paredes é a sua
transcendência.". E era mesmo.
C
arlos Paredes, pois é dele que falamos, tratado
por muitos como o "poeta da guitarra portuguesa", ficou na história como autor de uma
"música a um tempo popular e culta, tradicional e inovadora, uma música universal". Vale a
pena saber um pouco mais sobre este homem a quem
também chamaram "o homem dos mil dedos".
"Verdes Anos", o hino de Paredes
Da biografia normal do músico consta que nasceu em
Coimbra no dia 16 de Fevereiro de 1925 e morreu a 23 de
Julho de 2004. Afastado da sua guitarra (chamava-lhe a sua
menina) desde 1998 devido a uma
doença fatal chamada mielopatia,
doença neurológica que afecta a
espinal medula, Carlos Paredes foi,
como disse Manuel Alegre, "a
palavra por dentro da guitarra / a
guitarra por dentro da palavra".
Modesto, achava-se um amador
de guitarra, um instrumentista
popular e espantava-se por o admirarem tanto: "Toco guitarra, as pessoas gostam de ouvir. Juntamo-nos,
tocamos e assim vamos vivendo."
Este era o verdadeiro Carlos
Paredes.
Antes da guitarra, o músico ainda tentou o piano e o violino mas cedo descobriu que a guitarra era o instrumento
que mais gostava de ouvir. Muito jovem passou a acompanhar o pai, Artur Paredes, chegando a tocar em programas
da Emissora Nacional.
Foi, no entanto, em 1962 que Paredes se tornou famoso
quando compôs a banda sonora do filme "Verdes Anos", realizado por Paulo Rocha. A partir daí sucederam-se temas
para filmes de Manoel de Oliveira, Fonseca e Costa, Manuel
Guimarães, Pierre Kast e outros. Paulo Rocha voltou a pedir34
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lhe música para o seu "Mudar de Vida". Cinema, teatro, bailado andaram, por esses tempos, muito ligados à música de
Carlos Paredes e à sua guitarra. E enquanto tocava e compunha a música que lhe pediam, Paredes nunca deixou de
ser funcionário público (era arquivador de radiografias no
Hospital de S. José).
A política na vida do artista
Militante do Partido Comunista Português, esteve preso em
Caxias e, denunciado por um colega, foi demitido do hospital onde trabalhava. Já depois do 25 de Abril foi reintegrado e voltou a arquivar radiografias sem deixar de tocar.
Durante algum tempo andou pelo
País a tocar de graça para os trabalhadores.
Acompanhou todos os grandes
artistas portugueses e quando um
dia o José Duarte lhe perguntou se
um dia não gostava de acompanhar
Amália, Carlos Paredes respondeu:
"Não podia. Se acompanhasse
Amália eu desvirtuava. Amália é
uma criadora, não se limita a cantar
o fado. Amália é uma força cultural
da música urbana portuguesa. Para
acompanhar Amália eu destruiria
isso."
O encontro com o contrabaixista Charlie Haden, primeiro no Hot Club numa sessão de improvisos fabulosa, e
depois em Paris na gravação de "Dialogues", uma espécie de
duelo entre o mestre do contrabaixo e o mestre da guitarra
portuguesa, foi, segundo os que puderam assistir, uma
experiência única.
O maestro António Vitorino de Almeida dizia de
Paredes: "A sua maneira de estar na vida e na música é de
uma grande coerência ética e ideológica. Se alguma vez o
Carlos Paredes deixou de estar nalgum sítio foi porque esse
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sítio mudou de sítio. Ele nunca saiu do seu lugar". Esta é
uma grande definição do homem de quem falamos.
Amigo e companheiro de 25 anos
No início dos anos 60, Paredes ligou-se ao violista Fernando
Alvim e foi uma amizade para mais de 25 anos. Alvim confessou a seu respeito: "Tinha que adivinhar a respiração
dele para saber como ia tocar naquele dia. Era imprevisível,
nunca tocava da mesma maneira."
Cerca de vinte anos durou a ligação sentimental de
Paredes com a instrumentista Luísa Amaro. Aliás foi Luísa
quem assistiu aos primeiros sintomas da doença do marido
e quem, dada a gravidade do estado de saúde do músico, o
internou no hospital e, mais tarde, no Lar de Nossa Senhora
da Saúde, em Campo de Ourique. Mielopatia foi o diagnóstico que o prendeu à cama durante cerca de dez anos. E
sempre Luísa Amaro ao seu lado.
Muitas visitas famosas passaram pelo Lar de Campo de
Ourique: Maria Barroso, o casal Eanes, Amália, João Soares,
Álvaro Cunhal entre outros. Conta quem viu que, quando
Cunhal o visitou, Paredes se emocionou muito e teria dito
ao enfermeiro que o assistia: "o meu amigo deve muito a
este homem. Ele lutou pela liberdade de todos…"
Um grandalhão com alma de menino
Foi o amigo Manuel Alegre quem melhor definiu Carlos
Paredes - um grandalhão com alma de menino. Num excelente trabalho de Luís Osório para a revista "Visão", em
1996, ficámos a saber que o músico gostava muito de comer
e falava frequentemente do Galeto e do Alcântara Café,
onde costumava ir antes de adoecer, e adorava os hamburgers do MacDonald´s. Benfiquista ferrenho e fervoroso
comunista costumava dizer: "Quando o Benfica ganha faz a
alegria de uns e quando perde faz a felicidade dos outros."
Distraído concentrado, perdia-se nas ruas, nos aeroportos, confundia as salas de espectáculo e tanto que um dia
deixou o colega e companheiro, Fernando Alvim, a tocar
sozinho durante vários minutos. Tinha-se perdido nos
corredores.
Luísa Amaro, sua companheira na vida, costumava
dizer: "o Alvim foi o pai de Paredes e eu sou a
mãe…Acompanhei o Paredes em momentos extraordinários. Tive realmente o privilégio de o encontrar na minha
vida. Porque ele é único, não se repete nem nos próximos
mil anos. Recebi dele as grandes ensinanças da vida."
(entrevista a Maria Leonor Nunes, no J.L.).
Termino repetindo a bela frase de Carlos Paredes que, no
fundo, define o artista e o homem: "Toco guitarra, as pessoas gostam de ouvir. Juntamo-nos. Tocamos. E assim vamos
vivendo." n
Maria João Duarte
Em cima: Paredes e o
homem das
castanhas; era assim,
entre gente simples,
que ele se sentia
bem.
Ao lado: Carlos
Paredes e a “sua
menina” através da
qual “falava com as
pessoas”.
Em baixo: actuando
com Fernando Alvim,
seu companheiro
musical durante 25
anos
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Olho Vivo
Quentinho Ano Novo
Ninguém diria, com o frio que fez
em Dezembro, mas o ano que agora
acabou foi um dos três mais
quentes, registados desde 1850. A
Organização Meteorológica Mundial
ainda está a fazer as contas, para
saber se não foi mesmo mais quente, à frente
de 1998 e 2005. O ar polar, que trouxe um inverno precoce à
Europa, disfarçou o aumento da temperatura média do planeta. No Canadá,
por exemplo, os termómetros registaram mais 4 a 6 graus do que a média
normal. Os técnicos prevêem, entretanto, que 2011 possa acentuar esta
tendência, mantendo-se quentinho. Não são lá muito boas notícias...
Primatas resistem
O que distingue os macacos e outros
primatas nossos primos das outras
famílias de animais é a sua resistência
aos altos e baixos das condições ambientais,
meteorológicas e alimentares - conclui um estudo
publicado em Dezembro na revista American
Naturalist. Os primatas são menos susceptíveis às
mudanças sazonais, particularmente à chuva, que
fazem mossa na sobrevivência de outras espécies e isso pode ajudar a
explicar o êxito evolucionário da espécie humana. Os factores para o
sucesso são alguma inteligência, vida em sociedade, com troca de
informações e inter-ajuda, e capacidade para comer um pouco de tudo.
Cães ganham
Os cães desenvolveram, ao longo dos milhões de anos, cérebros maiores do
que os gatos porque os mamíferos mais sociais precisam de mais células
cinzentas do que os solitários, diz um novo estudo da
Universidade de Oxford. Os cientistas analisaram
dados sobre o tamanho dos cérebros relativamente ao
corpo de mais de 500 espécies de mamíferos vivos e
fósseis e concluíram que os que cresceram mais
depressa foram os dos primatas, seguidos do
cavalo, do golfinho, do camelo e do cão. Quanto
mais estável é o grupo, maior o cérebro. Os
miolos de animais solitários como os gatos, o
veado e o rinoceronte evoluem mais lentamente.
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Não é o que está
a pensar
Os infiéis em série, que traem
o cônjuge ou o namorado à
mínima oportunidade, têm
uma nova desculpa: não
podem evitar as facadinhas
no matrimónio por causa do
seu gene DRD4. Segundo um
estudo da universidade de
Binghamton, Nova Iorque, a
infidelidade pode estar no
ADN, nesse gene-receptor de
dopamina que influencia a
química do cérebro e, por
conseguinte, o
comportamento dos
indivíduos. Foi analisada a
vida sexual de 181 jovens
adultos, juntamente com
amostras do seu ADN, e
descobriu-se que os que
tinham uma certa variante do
DRD4 eram mais
promíscuos, tinham mais
casos de infidelidade e de
sexo "recreativo".
Medo da inveja
Cientistas holandeses
provaram, num estudo
publicado na revista
Psychological Science, que o
medo de se ser invejado faz
as pessoas portarem-se
melhor com as outras. Quem
é alvo de inveja por parte de
quem faz o que pode para
deitar os outros abaixo tem
tendência para ajudar o
potencial invejoso e ajuda-o
mais do que auxiliaria quem
não mostre vontade de o
atacar por ter êxito. O estudo
dos holandeses dirigidos
pelo Prof. Niels van de Vem,
da Universidade de Tilburg,
não diz se estas tentativas
para seduzir e acalmar um
potencial "inimigo" resultam.
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A n t ó n i o C o s t a S a n t o s ( t ex t o s ) A n d r é L e t r i a ( i l u s t r a ç õ e s )
Há mais estrelas no céu
Dois astrónomos americanos, Pieter
van Dokkum, de Yale, e Charlie
Conroy, de Harvard, anunciaram
em Dezembro que as estrelas no
céu são muito mais numerosas do
que se pensava. Depois de
recensearem astros em oito das mais
antigas galáxias do universo, distantes
entre 50 e 300 milhões de anos-luz,
verificaram que cada uma delas terá
cinco a dez vezes mais estrelas que a
Via Láctea, com os seus 400 mil
milhões. As anãs vermelhas, de fraca
luminosidade, fazem a diferença. O estudo foi publicado na revista Nature.
Aguarda-se agora uma reacção da dupla Rui Veloso/Carlos Tê, que garantia,
há uns anos, que não há estrelas no céu.
Há mais bichos na Terra
Um peixe das cavernas sem olhos
e uma rã que transporta os
filhos às costas são duas novas
espécies descobertas em
Dezembro no território indonésio
da Nova-Guiné, por cientistas
locais e franceses. Numa região
muito selvagem da Papua, junto a
Lengguru, os cientistas percorreram um " imenso labirinto
de ecossistemas isolados ", onde as espécies podem estar protegidas há
milhões de anos. O peixe foi encontrado numa gruta, onde a falta de luz o
fez perder a pigmentação e os olhos.
Adeus à cárie
A cárie dentária pode ter os dias contados. Dois cientistas de
Groningen, Holanda, decifraram a estrutura e a forma de
actuar da glucansucrase, enzima responsável por a placa
dentária se agarrar ao esmalte. Agora é descobrir
substâncias que inibam este enzima e acrescentá-las às
pastas de dentes e a velha cárie deixará de se rir e afectar
os nossos sorrisos. Bauke Dijkstra e Lubbert Dijkhuizen
dizem que a glucansucrase transforma o açúcar numa cola
para o agarrar ao esmalte, onde a sua fermentação vai
comendo o cálcio. Os futuros inibidores do enzima podem
até ser incluídos directamente nos doces.
A montanha pariu
uma bactéria
A NASA fez parar a respiração a
muita gente, quando anunciou
para uma quinta-feira de
Dezembro uma conferência de
imprensa especial, dada por
especialistas em vida
extraterrestre. Teria descoberto,
por fim, marcianos e ETs?
Afinal, era uma nova forma de
vida, sim, mas descoberta aqui
ao lado, na Califórnia, planeta
Terra, como é sabido. No fundo
de um lago, há uma bactéria
capaz de se desenvolver a partir
do arsénico, incorporando-o no
seu ADN, prescindindo do
fósforo. O grupo de elementos
básicos que a ciência considera
necessários à vida - hidrogénio,
azoto, oxigénio, fósforo e
enxofre - tem, assim, mais um
membro, o arsénico (a consumir
com moderação, uma vez que é
um poderoso veneno).
Gordura poluída
A exposição ao ar poluído na
infância e adolescência pode
conduzir à obesidade em adulto,
segundo um estudo do biólogo
Qinghua Sun, da Universidade
de Ohio. Ratos expostos à
poluição cinco dias por semana,
durante dois meses e meio,
criaram mais células gordas e
registaram níveis de açúcar no
sangue mais elevados do que
outros que respiraram ar puro
nos primeiros tempos de vida.
Os animais começaram a
experiência às três semanas de
idade, correspondendo o
período à infância e
adolescência de um ser humano.
A obesidade é independente da
dieta dos ratinhos. Qinghua vai
agora estudar o fenómeno em
humanos da cidade de Pequim.
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A Casa na árvore
Susana Neves
O cálice da maior borboleta
Se Deus tivesse dado o medronheiro
ao Diabo não haveria uma árvore de
Natal portuguesa.
Q
uando se fala de medronheiros
(Arbutus Unedo L.) todos sorriem
com ar cúmplice. “O medronho dá
pedra!”, dizem uns. “É proibido fazer
aguardente”, sussurram outros. “Todos os marinheiro bebiam uma aguardente de
medronho antes de irem para o mar, era o rum
nacional”, ouvimos dizer.
O medronheiro não é só a árvore que, por uns
momentos, liberta os portugueses do fado triste,
na cultura Mediterrânica, onde a espécie é nativa, aparece associado à morte e à imortalidade,
simboliza o início de um novo ciclo.
Poucos conhecerão a deusa romana Cardea,
em cujas mãos o ramo de medronheiro era uma
espada contra as feiticeiras e uma varinha mágica curativa das doenças infantis, mas ainda hoje,
na Córsega, nas celebrações do primeiro dia do
ano, as crianças deixam sobre as mesas das casas
onde receberam fruta, doces e dinheiro, um ramo
de “Albitru” (medronheiro em corso).
“Arbousier” em francês, “strawberry tree”
(árvore dos morangos) em inglês, “madroño”, em
espanhol, entre nós, também “ervedeiro”, “érvodo”, ou “ervado”, muitas são as formas de designar uma espécie silvestre cujo usufruto fica
aquém do seu potencial, motivo pelo qual foi
incluída entre as “NUC” (“Neglected or
Underutilized Crops”), plantas cujas colheitas
estão negligenciadas ou subaproveitadas.
Esquecida a memória dos rituais pagãos – em
Roma, sob os caixões era habitual colocar-se um
ramo de medronheiro – e havendo desde a antiguidade uma reserva quanto à ingestão do fruto
(em latim, “Arbutus Unedo”, significa pequena
árvore de que apenas se pode comer um fruto), o
medronheiro não deixou, no entanto, de ser o
manjar preferido da maior borboleta diurna portuguesa “Charaxes jasius L”.
Para a borboleta do medronheiro alimentar-se
das suas folhas, quando é ainda uma pequena
lagarta, ou de medronhos maduros, uma vez adulFotos: Susana Neves
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ta, só contribuiu para aumentar a sua beleza e graciosidade. Nem embriaguez nem mal-estar, atribuídos ao consumo excessivo de medronho, parecem afectá-la, bem pelo contrário, o colorido das
suas asas (castanho avermelhado, amarelo, branco
e preto) lembram as belas cores desta árvore da
família das “Ericaceae”, à qual pertencem também
os rododendros, azáleas e os mirtilos.
De pequeno porte (pode, no entanto, atingir
cerca de 10 metros de altura, e 200 anos de vida),
capaz de renascer com grande vitalidade após
um incêndio, o medronheiro é antes de mais uma
árvore resistente que não gosta de solos demasiado húmidos e geadas fortes, por isso em Portugal,
cresce espontânea de Norte a Sul, mas encontra
área privilegiada nas serras de Monchique e
Caldeirão (Algarve).
Companheiro da azinheira e do sobreiro, o
medronheiro é uma espécie festiva, um exemplo
de “joie de vivre” do mundo vegetal, que os portugueses poderiam eleger como árvore natalícia.
Em pleno Inverno, mantém verde a folhagem,
exibe delicados cachos de flores bastante melífluas e ainda frutos que são como pequenos sóis,
amarelos, vermelhos, polposos e doces, se totalmente maduros.
É por isso injusto dizer que o fruto não presta,
como se conclui das palavras de Andrés Laguna de
Segóvia, médico, botânico e humanista espanhol,
que no século XVI comparou o medronho a «muitas cortesãs de Roma, as quais, pela aparência,
direis serem ninfas, de tal forma vão cheias de mil
adereços, mas se procurardes debaixo daquelas
roupas, verificareis serem um verdadeiro exemplo
do mal francês [queria dizer, terem sífilis]...».
Indiferente a insultos, o medronheiro sempre
beneficiou quem dele soube tirar proveito, desde
logo a nível medicinal: as raízes, folhas, cascas e
frutos têm propriedades anti-inflamatórias, antisépticas, depurativas, diuréticas, etc. sendo
também usadas no curtimento das peles devido ao
tanino vegetal; a madeira, muito fina, serviu à construção de flautas (Grécia) e enquanto combustível;
do medronho, para além de aguardente, fazem-se
vinagres, licores, doces, geleias e até molhos. «O
prato principal realizado [por ocasião] no último
Capítulo da Confraria do Medronho, levava molho
de medronho», conta a confreira Carla Godinho,
membro desta associação nascida na vila de Tábua
(Coimbra), em 2008, onde se pretende vir a criar
uma destilaria devidamente legalizada.
Muitas são as vidas do medronheiro, para lá
da aguardente, que ligava a gente serrana ao seu
passado árabe, pelo domínio dos alambiques de
cobre usados na destilagem, e que apesar dos
constrangimentos legais e fiscais, impostos a partir dos anos 70 e agravados com a entrada na
Comunidade Europeia, ainda persiste.
Uma lenda, diz que o diabo pediu a Deus para
lhe oferecer a laranjeira e o medronheiro e Deus
sugeriu que ele reclamasse estas árvores quando
não estivessem com flor nem fruto, como sabemos tal nunca acontece. n
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CONSUMO A UE aprovou a comercialização de arroz transgénico. Em
causa um negócio de milhões mas, também, a saúde e segurança dos
consumidores. Pág. 44 l À MESA O chocolate tem uma componente de
fantasia e prazer irresistíveis. Quem o come, gaba-lhe o lado delicioso e
euforizante, mas também a delicadeza. Pág. 46 lLIVRO ABERTO Em destaque
a autobiografia de Victorino de Almeida e a reedição da obra-prima do
Nobel alemão Thomas Mann, “Doutor Fausto”. Pág. 48 l ARTES Até ao dia 15
ainda é possível ver Cadernos de Sombras – Os Contornos da Miragem,
exposição do artista plástico Jaime Silva na SNBA. Pág. 50 l MÚSICAS
“Biografias do Fado” é um imperdível documento sobre dois dos mais
peculiares géneros da música popular portuguesa:
os fados de Lisboa e de Coimbra. Pág. 52 l NO PALCO
Atenção à história de São Julião Hospitaleiro,
baseada na obra de Flaubert, no Teatro Municipal de
São Luís. Pág. 54 l CINEMA EM CASA Para um
animado e divertido começo do ano, uma selecção de quatro boas e
diversificadas histórias de suspense
e comédia. Pág. 56 l TEMPO
INFORMÁTICO Grandes mudanças para 2011 no domínio dos diversos
dispositivos informáticos. Chegou a “globalização”: um só dispositivo para
múltiplas funções. Pág. 58 lAO VOLANTE O novo modelo Peugeot, RCZ, abre
uma nova dimensão na qualidade de condução e na rebeldia das formas.
Um novo objecto de culto? Pág. 59 lSAÚDE A primeira consequência negativa
do trabalho por turnos é a manifestação de perturbações do sono. Pág. 60 l
PALAVRAS DA LEI As convocatórias para as AG’s de condomínios têm que
ser feitas com 10 dias de antecedência e em carta registada… Pág. 61
l
BOAVIDA
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Boavida|Consumo
Poderemos confiar
nos produtos transgénicos?
Mais de metade da população mundial come arroz todos os dias e os portugueses são os maiores
consumidores europeus comendo, em média, 17 quilos por ano. Razão suficiente para as
preocupações que gravitam em torno da aprovação, pela UE, da comercialização
de arroz transgénico. Em causa está um negócio de milhões para a Bayer mas
também, o direito dos consumidores à informação, saúde e segurança.
Carlos Barbosa de Oliveira
á dias, no Algarve, enquanto saboreava um
delicioso arroz de lingueirão, alguém que
comigo partilhava a refeição, conhecedora da
minha desconfiança em relação aos OGM
(organismos geneticamente modificados) sugeriu que
poderíamos estar a comer arroz transgénico, sem nos
apercebermos. Vi, naquele reparo, uma tentativa subliminar da minha interlocutora para me desmotivar do belo
petisco deixando-lhe um maior quinhão, mas depressa a
desiludi, respondendo que era pouco provável, aquele
arroz ser transgénico, pois o ministro da agricultura já
manifestara em Bruxelas a sua oposição à decisão da UE
de autorizar a sua comercialização.
Lembrei-me, no entanto, de uma notícia que tinha lido
pouco antes no Washington Post. A Bayer foi condenada
nos Estados Unidos pela terceira vez, em poucos meses, a
pagar uma indemnização a produtores de arroz cujas culturas foram contaminadas pelo arroz transgénico LL 62,
comercializado pela Bayer Crop, o mesmo que a UE pretende autorizar.
A empresa - que até agora já pagou três milhões de
dólares em indemnizações - terá de enfrentar centenas de
processos em que é acusada de contaminação, mas continua a defender a sua inocência, reiterando o seu empenho
em provar que a biotecnologia é a única solução para
matar a fome no mundo e manifestando a sua discordância com aqueles que denunciam os riscos para a saúde
humana e para a biodiversidade resultantes dos produtos
transgénicos (OGM).
Em Maio, também a Monsanto, uma das maiores
empresas mundiais de produção de OGM, contaminou 82
000 hectares de terras de agricultores sul-africanos, com
uma semente transgénica deficientemente fertilizada em
laboratório. Consequência: a maioria dos agricultores afectados perdeu 80% das suas colheitas.
H
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A Monsanto disponibilizou-se para ressarcir as perdas,
mas culpa o fracasso das três variedades de milho plantadas nestas quintas, em três províncias sul-africanas, com
alegados "processos de sub-fertilização no laboratório" e
alega que menos de 25% de três variedades de milho
foram afectadas.
A activista ambiental Marian Mayet, directora do
Centro de Biosegurança de Joanesburgo, não acredita nas
alegações da Monsanto e exigiu uma investigação governamental rigorosa e uma interdição imediata de todos os alimentos contendo OGM's, alegando não ser admissível que
se cometa o mesmo erro com três variedades de milho
diferentes.
Entretanto, numa manifestação de solidariedade com a
catástrofe do Haiti, a Monsanto demonstrou a sua "generosidade", oferecendo aos agricultores do Haiti 475
toneladas de sementes de OGM. Perante os factos relatados, apetece dizer que se tratou de um presente envenenado...
Tal como a minha interlocutora, a maioria dos leitores
não saberá responder se alguma vez comeu alimentos
transgénicos, ou contendo pelo menos alguns componentes geneticamente modificados. Isto acontece porque,
apesar de todas as normas europeias visando a segurança
e saúde dos consumidores, a UE não consegue impôr a
ANDRÉ LETRIA
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obrigatoriedade de rotulagem desses alimentos. Ainda em
Julho, os eurodeputados recusaram a aprovação de legislação obrigando a rotulagem de alimentos provenientes de
animais alimentados com rações transgénicas. Medida que
viola o direito dos consumidores à informação e (a fazer fé
em diversos estudos que, desde os anos 90 do século passado vêm sendo divulgados, apontam para a perigosidade
dos OGM), consubstancia igualmente uma violação ao
direito à saúde e segurança dos consumidores.
É que - é bom não esquecer - quase todos os transgénicos em circulação se destinam a aviários, suiniculturas e
pecuárias, pelo que para garantir o direito dos consumidores à saúde e segurança, é essencial saber quais são os
ovos, leite, carne (e peixe para aquaculturas) e seus derivados que provêm desse tipo de cadeia alimentar.
Esta polémica em torno dos OGM não é nova. Já em
1999, 170 países estiveram reunidos na Colômbia para
debater as implicações do OGM na saúde humana.
Contando com o apoio do Canadá, Austrália, Chile,
Uruguai e Argentina, os Estados Unidos - em 2010 os
maiores produtores de OGM que representaram 95% das
suas exportações alimentares - conseguiram fazer valer a
sua posição ( não inclusão nos rótulos de esclarecimento
sobre a origem dos produtos, quando em causa estiverem
OGM).
Se quem não deve, não teme, porquê esta recusa?
Na mesma reunião foi rejeitada a aprovação de uma
medida que responsabilize as empresas produtoras de
OGM, no caso de se vir a verificar que estes alimentos
provocam danos ambientais ou põem em risco a saúde dos
consumidores. Apenas os agricultores vítimas de danos
estão neste momento a ser ressarcidos de prejuízos provocados por sementes de OGM.
Mais de 10 anos volvidos esta medida mantém-se. É
pelo menos estranho que num país tão rígido em relação
às tabaqueiras e outras actividades potencialmente prejudiciais à saúde, exista tanta obstinação quanto à rotulagem
dos OGM e se impeça qualquer medida preventiva que
assegure uma indemnização aos consumidores.
É igualmente difícil compreender idêntica perspectiva
da UE. Não é, porém, causa de menor estranheza, o facto
de a UE ter autorizado, recentemente, a comercialização
de batata transgénica, apesar dos veementes protestos de
agricultores e associações de consumidores.
Principalmente, quando é sabido que duas dezenas de
cientistas de diversos países constataram - através de uma
experiência feita com ratos - que aqueles animais apresentaram deficiências nos seus sistemas imunitários, depois
de terem sido alimentados com batatas geneticamente
modificadas. n
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Boavida|À Mesa
Chocolate,
guloseima genial
O chocolate, que é por muitos considerado mais
do que um alimento e menos do que uma droga,
embora tenha um pouco de ambos, tem uma
componente de fantasia e prazer que o tornam
irresistível.
David Lopes Ramos
uem o come, gaba-lhe o lado delicioso e
euforizante, mas também a delicadeza. Os
apreciadores mais exigentes e conhecedores
consideram o negro a quinta-essência do
chocolate. Mas há quem coloque os de leite e os brancos
no lugar mais alto das suas preferências. Já Fernando
Pessoa, aliás, Álvaro de Campos, via as coisas sob outro
prisma: “Come chocolates, pequena;//Come
chocolates!//Olha que não há mais metafísica no mundo
senão chocolates.//Olha que as religiões todas não ensinam
mais que a confeitaria.”
O chocolate consome-se das mais variadas formas: em
pó, em gelado, em pastas crocantes, em bombons recheados com vários sabores, com frutos secos e cristalizados,
com licores e cremes, em “souflés” e “mousses”, em bolos
e pastéis, a acompanhar comidas sérias, como em certas
receitas francesas de “foie gras” ou no “galo de corral”
catalão. O chocolate é mágico, diz-se.
Será, também, afrodisíaco? O rei azteca Monctezuma
tomava várias chávenas antes de visitar as suas mulheres.
Concluiu-se, porém, que o efeito afrodisíaco era mais devido às especiarias (malaguetas) que o temperavam, pois, à
época, o chocolate era servido sem açúcar. Embora nada
prove que o chocolate seja afrodisíaco, é para aí que a
Q
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ANDRÉ LETRIA
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imaginação ainda hoje aponta, talvez por serem notórios
os seus efeitos euforizantes.
Ouve-se muita gente dizer que, quando está deprimida,
trincar uma pasta de chocolate, sobretudo com um alto
teor de cacau, o chamado chocolate preto, não resolve o
problema, mas alivia. Para avanços namoradeiros há quem
continue a não dispensar a ajuda de uma embalagem dos
melhores bombons. E ele há embalagens que, pela modernidade e bom gosto da respectiva concepção gráfica,
tornam ainda os chocolates mais tentadores. Por exemplo,
a oferta de bombons belgas de Pierre Marcolini, nome
obrigatório para os apreciadores que, em Bruxelas, sabem
que a sua loja fica na Place du Grand Sablon.
Um amigo meu, apreciador confesso dos mais famosos
chocolates negros, comia-os acompanhados por um balão
dos melhores e mais velhos Armagnacs (finas aguardentes
francesas da Gasconha). Fascinava-o a associação
doce/amargo do chocolate, cortado a dentadinhas e mastigado lenta e voluptuosamente, com a macieza quente e
alcoólica do Armagnac. Sentia-se apaziguado e feliz.
Começou a preocupar-se, ao fim de algum tempo, por,
quando não podia cumprir o ritual, sentir uma agitação e
nervosismo, que surgem normalmente associados à carência de estupefacientes. Cortou com o hábito, quebrou a
rotina, mas não deixou de, uma vez ou outra, renovar o
prazer da tablete de chocolate preto e do balão de
Armagnac. Um Porto vintage jovem e vigoroso também
emparceira bem com um bom chocolate com alto teor de
cacau.
O fruto do cacaueiro, que lembra um pequeno oval de
râguebi com estrias, de cor amarelo torrado, leva muitas
voltas até à transformação no produto acabado, que é o
chocolate. Primeiro, escolhe-se a variedade botânica, que é
originária da América do Sul e Central. Cultivada actualmente na região equatorial, encontra-se nas Caraíbas,
África (Costa do Marfim, Gana e São Tomé e Príncipe, por
exemplo), Sudoeste Asiático e até nas ilhas da Samoa e da
Nova Guiné, no Pacífico Sul. Há, fundamentalmente, três
variedades de cacaueiros: o “Forastero”, responsável por
cerca de 90 por cento de toda a produção mundial de
favas de cacau; o “Criollo”, o mais raro e apreciado, é pelo
seu aroma delicado que os mais famosos artesãos do
chocolate suspiram; e o “Trinatario”, que resulta do cruzamento dos outros dois. Por cada uma das variedades de
cacaueiro ter personalidade própria, há quem os compare
aos bacelos das videiras. E a associação estende-se à prova,
seno o vocabulário do chocolate igualmente rico em conotações sensuais.
Colhidos os frutos, descascam-se e as suas favas são
sujeitas a dois estágios de fermentação. Secam-se, escolhem-se, seguindo depois para as empresas, que as descascam e torram, operações que lhes acentuam os aromas. As
favas são de seguida trituradas, moídas e depuradas até à
obtenção de uma “pasta” de cacau. Começa aqui o fabrico
do chocolate propriamente dito: é feito o lote com pastas
provenientes de diversas colheitas, até se encontrar o
sabor final pretendido. Depois, é a alquimia do açúcar, da
baunilha, do leite em pó, dos frutos frescos, secos e cristalizados, dos licores e aguardentes, dos cremes com requintados e esquisitos sabores. Negros, de leite e até brancos,
há chocolates que são guloseimas geniais. n
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Boavida|Livro Aberto
Autobiografia, sociologia, boa ficção
e o saber intemporal dos antigos
Homem de múltiplos talentos, António Victorino d’Almeida é também, comprovadamente, um
escritor de mérito e com obra feita, como ficou demonstrado com títulos como “Coca-Cola Killer”
ou “Tubarão 200”.
José Jorge Letria
um país onde raramente se perdoa a capacidade sempre invejável de quem cria em diversos domínios, o maestro e compositor volta a
assombrar-nos com a publicação de “No
Princípio Era Eu”(Clube do Autor), uma notável autobiografia que abarca apenas os primeiros 35 anos de vida do
autor. Profusamente ilustrado, este texto autobiográfico,
confirma Victorino D’Almeida como um grande contador
de histórias, servidas frequentemente por um imbatível
sentido de humor. A não perder.
N
NO DOMÍNIO da ficção narrativa nacional e internacional
de qualidade, em tempo de vacas magras, mas, desejavelmente, de leituras gordas em prazer e descoberta, destacamos títulos de publicação recente como: a reedição da
obra-prima do Nobel alemão Thomas Mann “Doutor
Fausto”(D.Quixote), redigido nos Estados Unidos, no exílio
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do escritor, entre 1943 e 1947 e publicado dois anos
depois; o surpreendente e brilhante “Babayaga Pôs um
Ovo” (Teorema), de Dubravka Ugresic, nascida na exJugoslávia em 1949 e actualmente residente em
Amesterdão; “O Feitiço de Xangai”( D. Quixote), do
catalão Juan Marsé, e “Luka e o Fogo da Vida” (D.
Quixote), de Salman Rushdie, escrito como forma de
prenda para o seu segundo filho no dia em que completou
12 anos de vida.
Ainda em matéria de ficção estrangeira, realce para “A
Beleza e a Tristeza” (D. Quixote), do grande escritor
japonês Yasunary Kawabata; para a reedição do notável
“Filhos e Amantes” (Pub. Europa-América), de D.H.
Lawrence; e para “Coração em Segunda Mão”, da mesma
editora, com autoria de Catherine Ryan Hyde.
No que se refere à ficção de autores portugueses, o
realce vai para “Matteo Perdeu o Emprego”(Porto Editora),
do produtivo, talentoso e sempre surpreendente Gonçalo
M. Tavares, um dos grandes ficcionistas portugueses con-
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temporâneos; destaque ainda para “As Bicicletas em
Setembro”, de um grande jornalista, cronista e ficcionista
chamado Baptista-Bastos; para o romance “Alma de Cão”(
Oficina do Livro), do médico Francisco José Pereira Alves;
para o volume colectivo de ficções “Chocolate”, em que
participam alguns nomes marcantes da ficção narrativa
portuguesa actual; para a oportuna e sempre louvável do
histórico “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel
Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa; e
para o romance histórico “O Livro de Cale”, de Carlos
Cordeiro.
No domínio da escrita memorialística, um destaque
sempre especial para a reedição pela D. Quixote de “Dias
Comuns V - Continuação Sol”, de José Gomes Ferreira.
Para quem gosta de livros de viagens recomenda-se
“Ukuhanba-Manhã de África” (Oficina do Livro), com
texto de Miguel Sousa Tavares e fotos de Martim Sousa
Tavares.
PARA QUEM se interessa pela abordagem do mundo em
que vivemos numa perspectiva sociológica moderna,
recomendamos “Nove Lições de Sociologia” (Teorema), de
Michel Wieviorka, nascido em Paris em 1946 e considerado um dos pensadores mais marcantes da sociologia contemporânea. Abordando as grandes questões do nosso
tempo, o autor prepara-nos com inteligência e uma invulgar capacidade de explicar o passado e antecipar o futuro
para enfrentarmos as profundas transformações que o
mundo está a viver. A não perder, por várias razões.
Um olhar diverso sobre o mundo e a sua história é
“História do Mundo Sem Partes Chatas” (Academia do
Livro), de Fernandom G. Blásquez, uma obra divertida e
no entanto rigorosa e informativa, que dá jeito ter à mão.
“BREVÍSSIMO INVENTÁRIO” (D. Quixote), é um livro de
pequeno formato e sedutor grafismo que confirma o talento do embaixador Marcello Duarte Mathias como autor de
literatura aforística, talento de resto detectado pelo grande
escritor e ensaísta David Mourão-Ferreira. Verdadeiro
exercício autobiográfico, este volume que reúne três
breves textos de Duarte Mathias constitui uma viagem
pela memória da infância e da adolescência, dos lugares,
das mulheres, da morte e da ideia de tempo, afinal pela
própria vida.
NA LINHA de outras obras recentes que se propõem facultar-nos as chaves para alcançar o êxito, para gerir bem o
tempo, para pôr o talento a dar lucro e as empresas a funcionar bem, Mathew Syed, jornalista desportivo do “The
Times” e director de uma agência de “marketing” escreveu
“Bounce”, (Academia do Livro) o seu primeiro livro, no
qual tenta explicar-nos onde reside ou residiu a chave do
êxito de figuras tão diversas como Pablo Picasso, Mozart
ou o tenista Federer. O autor sabe do que fala e desafia de
forma heterodoxa algumas ideias feitas ou desfeitas sobre
a matéria. Na mesma linha e com a mesma chancela
chegou ao mercado “Family Coaching”, de Sandra Belo e
Ângela Coelho, mais um livro de auto-ajuda, desta feita
com 36 desafios lançados a pais com características muito
especiais.
Destaque ainda para um edição de um livro de teatro
da autoria de António Torrado, um dos nomes mais
importantes e profícuos da literatura dramática portuguesa contemporânea, para além da infanto-juvenil, de que é
referência incontornável, que acaba de publicar, numa
edição em que se juntam as chancelas da Ministério da
Cultura e do Inatel, entre outras, o título “Gaby, a
Primeira”, que tem como personagem central a amante do
jovem e desafortunado rei D. Manuel II, de breve e turbulento reinado, a que a vitória republicana de 5 de Outubro
de 1910 pôs termo.
COM A PRESTIGIOSA chancela do Centro de Estudos
Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra
foram publicados em agradáveis volumes de bolso mais
quatro títulos fundamentais para quem quiser conhecer
a obra e o pensamento de grandes autores da
Antiguidade: “Obras Morais-Diálogo Sobre o Amor”,
com tradução do grego, introdução e notas de Carlos A.
Martins de Jesus; “Obras Morais-Como Distinguir um
Adulador de um Amigo, Como Retirar Benefício dos
Inimigos e Acerca do Número Excessivo de Amigos”,
com idêntico trabalho da responsabilidade de Paula
Barata Dias”; e ainda “Obras Morais-Sobre a Face Visível
no Orbe da Lua”, com tradução introdução e notas de
Bernardo Mota, três obras de Plutarco que vale a pena
ler nestas edições cuidadas e exemplarmente rigorosas
do ponto de vista do labor académico; derradeiro
destaque, ainda do mesmo autor clássico para “Vidas
Paralelas-Péricles e Fábio Máximo”, com tradução do
grego introdução e notas da responsabilidade de Ana
Maria Guedes Ferreira e Ália Rosa Conceição Rodrigues.
Quatro títulos que nos mostram o muito que os antigos
já sabiam sobre a condição humana, sobre os comportamentos, sonhos, ambições, medos e vilezas do Homem,
igual no essencial em todas as épocas, com maior ou
menor desconto para o papel das tecnologias na forma
de aceder ao saber e ao conhecimento do mundo, e também ao poder. n
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Boavida|Artes
O Desenho
segundo
Jaime Silva
na SNBA
Até ao próximo dia 15 ainda é possível ver Cadernos de Sombras - Os Contornos da Miragem, exposição
que o artista plástico Jaime Silva tem patente na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa,
e que o consagra como um dos pintores actuais que mais importância tem dado ao Desenho
na formatação do seu percurso artístico.
Rodrigues Vaz
ão cerca de trezentos desenhos, organizados em
cadernos, expostos de forma despojada, caracterizando-se pela utilização explícita da noção
de chiaroescuro, que, como refere o seu apresentador, José Manuel de Vasconcelos, "tem sido o fio condutor de toda a representação na Arte Ocidental".
Os desenhos foram elaborados a partir do final de 2007,
de formato intimista, realizados com meios de grande simplicidade não isenta de "forte majestade e reveladores de
uma estrutura sacudida pelo pensamento, propondo formas
diluídas de dramatismo contido, como se o peso da luta
entre o pensamento e a realidade tivesse sido reduzido à
simplicidade de um dualismo: a luz e a treva, a fonte e o
eco - a sombra como mitigação, como rugosa suavidade".
S
COLECÇÃO BERARDO EM ELVAS
Até dia 23 é igualmente possível apreciar, no Museu de
Arte Contemporânea de Elvas, a exposição Fragmentos,
uma selecção de Arte Contemporânea feita a partir da
Colecção Berardo, que assim procura uma maior divulgação ao mesmo tempo que ajuda à descentralização cultura cada vez mais desejada.
Através da colecção Berrado pode estabelecer-se uma
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cartografia das principais tensões e problemas que atravessam a arte contemporânea, sendo que a partir de algumas das suas obras conseguem-se identificar as rupturas,
prolongamentos e acontecimentos que protagonizaram
aquela cena artística.
Diga-se entretanto que a selecção de obras que constitui esta exposição não obedece a nenhum princípio disciplinar, cronológico ou temático, mas estabelece entre os
diferentes protagonistas da cena da arte (movimentos,
artistas e obras) uma rede de prolongamentos e diálogos.
Por último, é de realçar a presença do jovem pintor
espanhol Mário Vela na Galeria Arte Periférica, em Lisboa,
com uma série intitulada Ele, Ela, Eles e Ela.
Trata-se de uma exposição pouco ambiciosa porém
muito expressiva, na qual o autor quis apenas transmitir
mensagens pela cor, pelo desenho e pela expressão. De
vários modos consegue o seu desiderato, reunindo diferentes personagens em diferentes momentos em quadros
independentes e livres.
LUÍS VIEIRA BAPTISTA E MÁRIO VELA
Ao contrário do que anunciámos, conforme informações
fornecidas pela Fundação D. Luís I, o prolongamento da
exposição "Utopias Urbanas" com que a Câmara de
Cascais assinalou os 90 anos do artista plástico Nadir
Afonso, no Centro Cultural de Cascais, foi cancelado à
última hora, por decisão do autor. Tal facto deveu-se a que
Nadir Afonso não aceitou, nos últimos momentos da
montagem, o espaço proposto pela instituição, forçada a
mudar a mostra devido à realização da Trienal de
Arquitectura, que já estava planificada há dois anos.
Do lapso, originado pela necessidade de escrever a
nota de reportagem com alguma antecedência, por
questões de actualidade, pedimos desculpa aos leitores. n
EXPOSIÇÃO DE NADIR CANCELADA EM CASCAIS
Fragmentos é também o título da exposição que o artista
plástico Luís Vieira-Baptista apresenta até dia 21 no Clube
Nacional de Artistas Plásticos - CNAP, em Telheiras,
Lisboa. Fazendo jus ao primeiro grupo artístico que integrou em 1991/2, o Grupo Visionista, Luís Vieira-Baptista
prossegue com uma pintura que deve muito às correntes
simbolistas que vão beber a sua principal inspiração nos
movimentos esotéricos agora muito na berra, pelo que a
sua pintura anda sempre à roda dos principais mitos da
civilização ocidental. De realçar a qualidade técnica e formal da sua obra, onde é possível perceber um certo rebuscamento de efeitos visuais.
Da esquerda para
a direita: Peça de
Bruce Nauman da
Colecção Berardo
e um trabalho
do artista espanhol
Mario Vela
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Boavida|Músicas
Silêncio, canta-se o fado!
Cento e dois fados em cinco CDs. Eis-nos perante o super-álbum “Biografias do Fado”, um imperdível
documento sobre dois dos mais peculiares géneros da música popular portuguesa: os fados de Lisboa
e de Coimbra. Silêncio, está-se a cantar o fado!
Vítor Ribeiro
ão estamos, em boa
verdade, perante uma
novidade, mas em presença de uma oportuna
reedição de temas já anteriormente
publicados, desde 1994, ano em
que Lisboa foi Capital Europeia da
Cultura, acontecimento a propósito
do qual foi então publicado o
duplo-álbum “Biografia do Fado”,
que até hoje vendeu mais de 120
mil exemplares.
Na caixa agora editada, em cuja
capa se reproduz um peculiar
desenho de Stuart de Carvalhais,
àquele trabalho discográfico juntam-se outros entretanto publicados, a saber: “Nova Biografia do
Fado”, “Biografia da Guitarra” e
“Biografia do Fado de Coimbra”.
E é assim que, nos dois
primeiros CDs, podemos ouvir interpretações de, entre
outros “clássicos”, Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos,
António Mourão, Tony de Matos, Maria Alice, Hermínia
Silva, Maria Teresa de Noronha, Argentina Santos,
Fernando Farinha, Fernando Maurício, Carlos do Carmo,
João Braga, Amália Rodrigues…
No terceiro CD, é-nos revelada a pujança do novo fado,
pela voz de alguns dos seus mais convincentes praticantes:
Camané, Mariza, Carminho, Ricardo Ribeiro, Hélder
Moutinho, Raquel Tavares, Aldina Duarte, Kátia Guerreiro,
Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira, Maria Ana Bobone,
Cuca Roseta, Mísia, Ana Moura, Cristina Branco, Pedro
Moutinho, Mafalda Arnauth e Rodrigo da Costa Félix.
E sendo a guitarra portuguesa parte intrínseca dos fados
(de Lisboa e de Coimbra), o quarto CD integra execuções
individuais, ou acompanhamentos, de mestres como
Carlos Paredes, Alcino Frazão, Armandinho, Domingos
Camarinha, Raul Nery, Fontes Rocha, Mário Pacheco,
António Chainho…
N
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O quinto e último CD leva-nos
“em viagem” pelo fado de
Coimbra. A “abertura” cabe a Luiz
Goes, com Fado Hilário, e o “fecho”
a Fernando Machado Soares, com
“Balada da Despedida (Coimbra
Tem Mais Encanto)”. De permeio
podem encontrar-se, entre outros,
Adriano Correia de Oliveira, com
“Trova do Vento que Passa”, José
Afonso, com “Amor de Estudante”
ou “Menina dos Olhos Tristes”.
Registem-se ainda as presenças de
António Portugal, António
Menano, Edmundo Bettencourt,
José Paradela de Oliveira, Fernando
Rolim, Sutil Roque, Luís Marinho,
Alfredo Correia, António Brojo,
Artur Paredes…
O ELECTRÓNICO DAVID GUETTA
O francês David Guetta acaba de
lançar o álbum “One More Love”,
uma edição “deluxe” com dois CDs, apresentado como se
segue: o álbum “One Love” e um CD com 13 faixas extra,
no qual se integra o sucesso “Who`s That Chick?”, com a
participação de Rhianna.
No mesmo álbum deste compositor frequentemente
considerado o “maior artista da música electrónica da
actualidade”, apresentam-se ainda temas produzidas pelo
músico para Madonna, Estelle e Kellis. n
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Boavida|No Palco
Histórias revisitadas
Um homem a lutar contra o seu destino, numa fuga para a frente daquilo que não quer
encontrar e enfrentar. É esta a história de São Julião Hospitaleiro, para ver, até 23 de Janeiro,
no Teatro Municipal de São Luís.
Maria Mesquita
eza a história da lenda de São Julião
Hospitaleiro, escrita por Gustave Flaubert, em
1877, que São Julião, aceitando a culpa e o castigo como actos de Amor a Deus, pelas suas
acções, morreu nos braços de Cristo que o levou até ao
Reino dos Céus.
Flaubert ter-se-á inspirado nos painéis datados do séc.
XIII na Catedral de Ruão, que, em 1912, foram também
copiados na perfeição por Amadeo de Souza Cardozo.
É, então, com base nestes vitrais que ilustram a vida e
perdão de São Julião e na história escrita por Flaubert, que
António Pires e Maria João Cruz decidiram encenar a peça
“A Paixão de São Julião Hospitaleiro”, narrando, numa perspectiva moderna (música ao vivo e sons de hip hop), o
caminho feito pelo santo desde o dia em que lhe disseram
que iria matar os próprios pais, até à data em que deu abrigo a um pobre leproso que se viria a revelar ser Jesus. Para
tal, inspiraram-se também nos esquissos que Amadeo de
Souza Cardozo fez e que foram recuperados para a retrospectiva da obra do pintor em 2006, pela Gulbenkian.
R
FICHA TÉCNICA: Texto: Gustave Flaubert; Adaptação: António
Pires e Maria João Cruz Encenação: António Pires; Vídeo:
João Botelho; Cenografia: João Mendes Ribeiro; Figurinos:
Sílvia Grabowski; Musica: Paulo Abelho e João Eleutério;
Produtor executivo: Alexandre Oliveira; Interpretação: Maria
Rueff, David Almeida, Graciano Dias, Maya Booth, Mitó
Mendes, Marcello Urgeghe; Co–produção: SLTM - Ar de
Filmes; Teatro Nacional D. Maria II 2011.
“Glória, ou como Penélope
morreu de tédio”
Cláudia Chéu, jovem encenadora portuguesa, apresenta no
início de 2011, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D.
Maria II, a peça “Glória, ou como Penélope morreu de
tédio”.
Pathos (Albano Jerónimo), figura masculina presente no
monólogo, prende-se ao passado. Não aceitando nem
ultrapassando a morte da mãe, fecha-se no seu próprio
mundo esperando reencontrá-la ou que ela simplesmente
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regresse. No meio da solidão que o vai rodeando Pathos
não se vê reflectido nos espelhos que o cercam, mas sim a
imagem maternal (sem sequer perceber a diferença), o
que, se por um lado lhe permite fazer um julgamento das
coisas de forma mais natural, num misto de silêncio e
reflexão, por outro, a constante procura de sentido no passado e o sonho no futuro, ideal mas raramente perfeito e
acessível, vão começando a corroer a sua pessoa.
Com esta peça, Cláudia Chéu invoca Narciso, constantemente olhando-se ao espelho, assim como relembra a
personagem de Telémaco, na Odisseia de Homero,
enquanto espera o tempo que for necessário, junto da
mãe, pelo regresso de Ulisses, durante e após a Guerra de
Tróia. Em cena a partir de 6 de Janeiro.
FICHA TÉCNICA: Texto e encenação: Cláudia Lucas Chéu;
Cenografia e figurinos: Ana Limpinho; Desenho de luz: Nuno
Meira; Desenho de som: Vítor Rua; Interpretação: Albano
Jerónimo (na foto) e a participação de um coro feminino; Coprodução: TNDM II, TNSJ e AJ Produções
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Boavida|Cinema em Casa
Acção e Boa Disposição!
Para um animado e divertido começo do ano, seleccionamos quatro boas e diversificadas histórias: do
suspense de "O Escritor Fantasma", ao insólito de "Golpe de Artistas", passando pela acção e diversão
de "Ex-Mulher Procura-se" e "Uma Noite Atribulada". Em suma: acção e boa disposição para o arranque
de 2011. Sérgio Alves
O ESCRITOR FANTASMA
Writer; REALIZAÇÃO: Roman
Heist; REALIZADOR: Peter
Hunter; REALIZAÇÃO: Andy
Um talentoso escritor-fantasma, contratado para escrever
Polanski; COM: Ewan
Hewitt; COM: Christopher
Tennant; COM: Gerard Butler,
McGregor, Pierce Brosnan,
Walken, Morgan Freeman,
Jennifer Aniston, Gio Perez,
as memórias do antigo
Olivia Williams, Kim Catrall;
William H.Macy, Marcia Gay
Adam Rose; EUA, 111m, cor,
Primeiro-Ministro inglês
França/Alemanha/GB, 128m,
Harden; EUA, 90m, Cor, 2009;
2010; EDIÇÃO: Prisvídeo
Adam Lang, vê-se envolvido
Cor, 2010; EDIÇÃO: Zon
EDIÇÃO:
numa teia de intriga política e
Lusomundo
Prisvídeo
UMA NOITE ATRIBULADA
sexual. Lang é
EX- MULHER PROCURA-SE
Claire e Phil são um casal
implicado num
GOLPE DE ARTISTAS
Milo Boyd, um azarado
feliz com dois filhos e uma
escândalo sobre
Três guardas-nocturnos
caçador de fianças sem rumo
bela casa nos subúrbios de
as tácticas secre-
descobrem que o museu onde
nem sucesso no seu trabalho,
Nova Jersey. Para evitar a roti-
tas da sua
trabalham vendeu uma parte
que consegue o trabalho mais
na do casamento e reacender
administração e
da sua colecção a um museu
desejado: capturar e entregar
a chama da paixão decidem
á medida que o escritor-fan-
dinamarquês. Cada um deles
á justiça a sua ex-mulher, a
fazer As coisas não correm
tasma mergulha no passado
tem um quadro favorito e não
jornalista Nicole
bem, e no restaurante são
do político, descobre segredos
aceitam ficar sem eles por
Hurly. Quando
confundidos com outro casal
que ameaçam as relações
perto. Para evitar a transferên-
ele pensava que
procurado por dois polícias
internacionais. Thriller emo-
cia das obras elaboram um
não haveria tare-
corruptos. Numa sucessão de
cionante e de condizente sus-
plano para as trocar por
fa mais fácil,
perseguições e fugas deli-
pense - a lembrar o melhor
cópias antes de embarcarem
Nicole diz-lhe
Hitchcock - do aclamado
para o avião: o esquema é
rantes aquilo
que está a seguir um impor-
que era apenas
Roman Polanski, o filme
complicado e
tante caso de homicídio, e
uma tentativa
obteve já seis prémios do
fica ainda
então Milo percebe que as
de apimentar a
Cinema Europeu 2010
mais quando
coisas não vão ser bem como
relação trans-
(incluindo Melhor Filme e
a mulher de
ele tinha planeado e que vão
forma-se na
Realização) e o Urso de Prata
Roger se
ter de se unir para continuar
no Festival de Berlim. Apesar
intromete …
vivos...Do realizador ameri-
de sempre e numa noite
Um naipe
maior aventura
cano Andy Tennant - "Para
inesquecível. Duas estrelas da
2009, o realizador polaco con-
notável de actores, como os
Sempre Cinderela" (1998),
televisão norte-americana,
seguiu acompanhar toda a
oscarizados Morgan Freeman,
"Ana e o Rei"(1999) e "Hitch"
Tina Fey (30 Rock) e Steve
pós-produção do filme passo
Christopher Walken e Marcia
(2005) - chega-nos este filme
Carrel (The Office) contrace-
a passo e tomou todas as
Gay Harden, além do nomea-
de acção, comédia e crime
nam nesta comédia de Shawn
decisões artísticas definitivas
do William H. Macy, pontua
sobre um casal recém- separa-
Levy, autor de comédias que
num filme no qual as semel-
esta divertida comédia assina-
do que se encontra por um
foram êxitos de bilheteira.
hanças entre Adam Lang e
da pelo jovem realizador Peter
acaso judicial e vai viver uma
TÍTULO ORIGINAL:
Tony Blair, Ruth Lang e
Hewitt. Parábola sobre o
grande aventura. A bela
Realização: Shawn Levy; COM:
Cherie Blair e a Halliburton e
homem contemporâneo, o
Jennifer Aniston e o escocês
Tina Fey, Steve Carrel, Mark
a Hatherthon são intencionais
filme e assenta numa premis-
Gerard Butler interpretam
Wahlberg, Taraji P.Henson,
o que torna o filme ainda
sa simples: um plano, três
bem o ritmo e as cenas diver-
Common; EUA, 90m, cor,
mais interessante.
homens e um assalto falhado.
tidas do filme.
da sua prisão em Setembro de
TÍTULO ORIGINAL:
56
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The Ghost
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TÍTULO ORIGINAL:
The Maiden
TÍTULO ORIGINAL:
Date Night;
2010; EDIÇÃO: Castello Lopes
The Bounty
Multimédia
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Boavida|Tempo Informático
Novidades para o novo ano
Estão previstas grandes mudanças para 2011 no domínio dos diversos dispositivos informáticos. Alguns
deixarão de ser interessantes porque também aqui chegou a “globalização”: um só dispositivo para
múltiplas funções. Portanto enquanto aguardamos, sejamos cuidadosos nas novas aquisições.
mas marcas nomeadamente a porta míniUSB. Preço cerca de 40 Euros.
MAIS UMA NOVA forma de ligar os
seus discos rígidos ao computador. Agora com uma base onde
se podem inserir discos de 2,5”
ou 3,5” e SSDs SATA, ligada a
uma porta USB (1.1 a 3.0). O
CHDDOCK da Conceptronic é Plug
and Play (reconhecimento imediato) e
custa apenas 49 E.
Gil Montalverne
[email protected]
til poderá ser por exemplo um inversor de corrente para ligar ao isqueiro do carro para transformar os 12 volts da bateria em energia semelhante à da rede eléctrica (230 Volts AC).
Suporta a ligação da maioria dos pequenos equipamentos
electrónicos, desde notebooks até leitores de DVD
portáteis, câmaras de vídeo, etc. Inclui também uma tomada USB que pode ser usada com um cabo USB standard
para carregar qualquer pequeno dispositivo portátil. Uma
autonomia sem limites com este Black & Decker
BDPC100C Inverter por um preço de 69 euros (imagem 1).
Ú
de carregadores, acaba de chegar o tão anunciado tapete que substitui os carregadores de telemóveis,
PDAs, Smartphones, etc. Trata-se do MYGRID da Duracell
que permite carregar 4 dispositivos ao mesmo tempo, colocados sobre o pequeno estrado. Carregamento sem fios
mas através da indução, cada dispositivo, enquanto não
passar a trazer já esse chip incluído, será necessário adicionar-lhe um pequeno
sensor-adaptador
para que o
carregamento funcione.
Existem já 4
tipos de sensores para algu-
A PROPÓSITO
58
TempoLivre
| JAN 2011
UM NOVO E PRÁTICO comando universal permite estarmos
preparados para passar ao uso da Televisão com Power
Boxes. O Esotérico permite de imediato controlar um televisor e uma TV box em simultâneo, associando de forma
automática as funções
para cada um dos
equipamentos, sem
necessidade de o utilizador seleccionar cada
um deles. Além de incluir de
origem teclas programadas para
as dez marcas mais usadas na
Europa – basta apontar o comando ao
aparelho e carregar no número associado
ao fabricante – permite também configurar
qualquer modelo, de qualquer marca, de forma quase
automática. Disponível em vários modelos desde um televisor e powerbox a leitor de DVD/Blu-ray e amplificador
AV. Preços: a partir de €15,99.
E CHAMAMOS a vossa atenção para o novo GOOGLE PREVIEWS, uma ferramenta opcional que pode ser accionada
através de um pequeno ícone em forma de lupa disposto
do lado direito dos vários resultados, quando efectuamos
uma pesquisa. Abre-se uma pequena janela que fornece
informações sobre o resultado em questão, incluindo
informação visual. É de facto uma forma de facilitar a
pesquisa pois liberta-nos de estar a abrir páginas que não
tenham o interesse desejado.n
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Boavida|Ao Volante
RCZ
O novo leão
da Peugeot
O novo modelo da marca francesa abre uma nova
dimensão na qualidade de condução, na rebeldia
das formas, e vinca perfeitamente a separação
entre um produto de massas e um objecto de
culto. Mas, mais do que o detalhe e a forma, é a
substância que o torna irresistível.
Carlos Blanco
traço das arestas musculadas, de perfil baixo e
ópticas longas, o arco superior brilhante e as
enormes jantes antecipam uma experiência de
condução única, como só o chassis de um
puro-sangue consegue oferecer, estabelecendo, graças a
uma estrutura imensamente rígida, o equilíbrio perfeito na
equação dinâmica. A performance é o sangue que corre
nas veias de três motores prontos para a acção, sejam os
gasolina 1.6 THP de 156 e 200 cv, seja o Diesel 2.0 HDi de
163 cv.
A escolha pela Peugeot da austríaca Magna-Steyr especialista na construção de automóveis exclusivos produzidos em pequena série, como por exemplo o Aston
Martin Rapid e o BMW X3 - para a montagem final do
RCZ, foi decidida com base no rigor que a
empresa de Graz coloca em cada projecto.
Este processo de parto por onde passa o
RCZ, e que em alguns aspectos é quase artesanal, contempla a montagem de um capot
em ligas de alumínio, aspecto importante
para conter o peso final, que se quer o mais
baixo possível num automóvel destas características. Com menos de 1.300 kg, os
motores turbo de injecção directa, promovem acelerações viris e retomas de
velocidades espontâneas.
O interior do RCZ beneficia de um conforto acústico topo de gama. A excelente
rigidez absorve as irregularidades da estrada, proporcionando um silêncio de rolamento que permite explorara o sistema
áudio JBL com oito altifalantes de 240 W,
O
ou a sonoridade dos motores a gasolina. Graças à óptima
distância entre-eixos, o RCZ acolhe dois passageiros nos
bancos traseiros esculpidos. Mala generosa de 384 litros,
expansíveis a 760, são um incentivo às grandes tiradas.
O RCZ propõe uma oferta de personalização de acordo
com o seu posicionamento exclusivo, deixando que o
cliente o possa transformar num objecto único. Na fase de
encomenda, o cliente tem ao seu dispor uma vasta lista de
elementos decorativos, que darão ao RCZ um estatuto
mais elitista. Tal como acontecera com o concept-car, o
tecto pode ser revestido em carbono, quer em acabamento
mate ou brilhante. O s arcos em alumínio podem ser
fumados, ou em cor "areia". Um pack sport destina-se
exclusivamente ao 1.6 THP de 200 cv, e contempla
volante de diâmetro reduzido e alavanca da caixa de
velocidades curta.
Pneus largo em jantes de grandes dimensões para
explorar ao máximo o chassis do RCZ. De série, o equipamento pneumático tem as dimensões de 235/45 RI8, e em
opção 235/40 RI9. Para assegurar a maior eficácia de travagem em termos de potência e resistência, os discos são
ventilados de grandes dimensões: 302 mm de diâmetro e
no caso do motor 1.6 THP de 200 cv, discos específicos de
340 mm. Os discos traseiros, inéditos nesta plataforma (tal
como acontece com os cubos de roda traseiros e os rolamentos), são também de grandes dimensões: 290 mm.
O novo modelo da Peugeot foi eleito pelo público "o
mais belo automóvel do ano 2009" no 25º Festival
Internacional Automóvel. Foi ainda vencedor de um dos
mais prestigiantes prémios internacionais de design, o
"Red Dot Best of the Best 2010, na categoria de
Automóveis. n
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TempoLivre 59
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Boavida|Saúde
Distúrbio do trabalho por turnos
Hoje, como sempre, pelo menos desde o alvorecer da Terra, o ser humano e todos os seres vivos que
habitam à sua superfície dependem em absoluto da luz solar. Dá-se o nome de Distúrbio do Trabalho
por Turnos às manifestações clínicas resultantes do trabalho nocturno.
M. Augusta Drago
medicofamí[email protected]
ritmo biológico do nosso corpo, isto é, a
maneira harmoniosa como se processam os
complicadíssimos mecanismos celulares que
nos mantêm vivos – tais como, por exemplo, as
hormonas segregadas pelas glândulas endócrinas e outras
substâncias igualmente importantes lançadas na corrente
sanguínea – é comandado rigorosamente de acordo com a
posição que o sol ocupa no firmamento.
O nosso organismo preparou-se ao longo de milhões de
anos de vida natural para usufruir da energia que lhe
chega durante o dia, pelo sol, e está preparado para desenvolver mais actividade durante o período do dia em que
há luz e para descansar e dormir à noite, quando esta
desaparece.
O trabalho nocturno surgiu nas sociedades muito antes
da revolução industrial, mas foi aí que ganhou maior
incremento. Porém, foi com a invenção da lâmpada incandescente, por Thomas Edison, em 1879, que verdadeiramente nasceu o trabalho por turnos.
O desenvolvimento económico e a sua incessante busca
de bem-estar material, a necessidade de produzir bens e
serviços para uma população mundial em expansão e progressivamente mais exigente e, mais recentemente, o fenómeno da globalização deram origem, primeiramente, às
sociedades que funcionam 24 horas por dia e
depois à generalização deste modelo, que se
reproduz continuamente.
É nesta comunidade global, 24 horas em
funcionamento, que maior número de pessoas está sujeita ao trabalho por turnos, o
que contraria o ciclo biológico natural e
gera consequências nocivas para a saúde.
A primeira consequência negativa do trabalho por turnos é a manifestação de perturbações do sono, que se pode traduzir por dificuldade em adormecer, por insónias e por
sonolência diurna. O esforço exigido ao
organismo para se adaptar rapidamente à
inversão do seu ritmo biológico natural, a
alternância de períodos de actividade e de
O
60
TempoLivre
| JAN 2011
repouso, faz com que este fique mais fragilizado.
Diminuem as defesas naturais e o trabalhador torna-se
mais susceptível a contrair infecções, bem como a manifestar sintomas de doenças que se encontram latentes no
seu organismo.
O desajustamento do ritmo biológico leva a modificações do comportamento. É extremamente penalizante,
em termos sociais, viver em contra-ritmo em relação às
outras pessoas. Quem trabalha por turnos tem maior
incidência de sintomas psicossomáticos, nomeadamente a
ansiedade que se agudiza à medida que envelhece. Estas
pessoas têm tendência a consumir mais café, massas e alimentos ricos em gordura, o que contribui para a obesidade e para as doenças cardíacas e gastrointestinais.
Também está provado que consomem em média mais
medicamentos.
Por tudo isto, as pessoas que trabalham por turnos têm
menor qualidade de vida e porque têm de tomar decisões
em períodos do dia em que se encontram diminuídas nas
suas capacidades correm um risco maior de sofrerem acidentes de trabalhos ou de causar danos a terceiros.
Os estudos efectuados sobre o impacto económico e
social desta patologia são ainda escassos, mas não são de
desprezar os custos resultantes da perda da produtividade
e dos acidentes no local de trabalho. A investigação aponta ainda para a necessidade de apoiar estes trabalhadores que desempenham tarefas que têm consequências económicas e que podem pôr em
causa a segurança das comunidades em
que se inserem.
É recomendado o acompanhamento
médico destes trabalhadores para vigiar a
sua saúde em geral e particularmente a
capacidade de adaptação a este tipo de
horário laboral. Numa segunda fase, face a
alterações do sono ou do humor, o trabalhador
deve iniciar o tratamento e, em simultâneo, estudar com o médico estratégias de repouso
compensatório, como um programa de sestas. A educação do doente para melhorar a
qualidade do sono e a fototerapia têm
mostrado ser úteis neste contesto. n
ANDRÉ LETRIA
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Boavida|Palavras da Lei
Condomínio sem regulamento –
Assembleias Gerais – Actas
?
O condomínio não tem regulamento próprio, não possui
sala de reuniões em condições. As assembleias gerais
são convocadas e realizadas em Fevereiro de cada ano.
A folha de presenças das assembleias gerais não indica a
data, nem o local, onde as mesmas se realizam. Os
documentos das contas anuais são colocados à disposição
para consulta unicamente no dia da assembleia, entre as
10.00h e as 14.00h. Se pretendermos consultar os documentos
noutra data e ocasião, como deveremos proceder?
Amadeu Figueiredo – Sócio n.º 641 – Lisboa.
Pedro Baptista-Bastos
sta carta do nosso sócio apresenta-nos várias
situações que devem ser imediatamente precavidas. O artigo 1418º, n.º 2, al. b) do Código Civil
diz-nos que o título constitutivo da propriedade
horizontal pode conter o regulamento do condomínio, que
disciplina o uso, fruição e conservação das partes comuns
e autónomas do edifício; isto é, no momento da criação da
propriedade horizontal pode constar já o regulamento do
imóvel.
Se houver mais de quatro condóminos no edifício, o
artigo 1429º-A do C. Civil determina a existência obrigatória de um regulamento. Portanto, se neste imóvel
habitarem mais de quatro condóminos, tem que haver um
regulamento, sob pena de haver responsabilidade civil e
criminal dos administradores do condómino, nos termos
do art. 1435º C. Civil.
Por outro lado, a convocatória e funcionamento das
assembleias gerais apresentam vários problemas. As
assembleias podem funcionar noutra data que não a determinada no artigo 1431º, n.º 1 C. Civil – a primeira
quinzena de Janeiro – se isso estiver acordado ou constar
do título ou do regulamento; na ausência, parece-me haver
uma primeira violação grosseira do modo de funcionamento das assembleias.
Depois, em momento algum podem ser convocadas as
assembleias do modo como o têm sido, e muito menos dispor a documentação aos condóminos no modo como é
efectuada. As convocatórias têm que ser feitas com 10 dias
de antecedência e com carta registada, e indicar dia, hora,
E
local e ordem de trabalhos da reunião, nos termos do artigo 1432º do C. Civil. Atenção ao modo e prazos de impugnação das deliberações tomadas, tais como estão determinados no artigo 1433, nº 4º; após uma deliberação ilegal,
se o condómino requerer a realização de assembleia
extraordinária, tem 20 dias para impugnar a deliberação
ilegal, se não requerer este acto, disporá de 60 dias para
impugnar.
Por fim, é dever do administrador prestar contas à
assembleia – art. 1436º al. j) C.Civil – e tem que o fazer do
modo mais completo possível, não podendo nunca,
através dos seus actos de administração, prejudicar o
direito à informação dos condóminos. Se o administrador
se recusar a prestar contas, incorre em responsabilidade
civil e criminal. Por fim, pode-se lançar mão do processo
previsto no Código de Processo Civil para se suprir a
recusa destes actos.
Entendo que têm que consultar um advogado o mais
rapidamente possível, e agir judicialmente contra estas
gritantes ilegalidades. n
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TempoLivre 61
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ClubeTempoLivre > Passatempos
Palavras Cruzadas | por José Lattas
1
Horizontais: 1-Diz-se da tinta ou da pintura, que não tem brilho;
1
Orfeão; Intenção. 2-Declamem; Concubina; Bacia de um curso
de água (inv.). 3-Agulha do pinheiro; Vi; Sufixo de substantivo
e adjectivo, derivado do verbo, e que traduz a ideia de ocupação, ofício ou emprego; Caverna. 4-Madrasta; Alcançar;
Apelido. 5-Forma do pronome pessoal tu; Avenida (abrev.);
Período; A minha pessoa; Raia. 6-Apreciem; Apuro. 7-Selva;
Aderente; Sétima letra do alfabeto grego (pl.). 8-Abandonada;
Brisa. 9-Artigo definido (pl.); Sono infantil; Abonar; Letra
grega; Arsénio (s.q.). 10-Forma antiga do artigo o; Alça; Prefixo
que se emprega em vez de in. 11-Umas; Preposição; Nota musical; Liga ferrocarbónica (pl.). 12-Cerimonial; Tomara direcção.
13-Lados; Escavara; Arrotear.
2
qualidade, propriedade ou natureza. 2-Verga; Caduco. 3Argumento; Preposição; Desfaçatez. 4-Ave pernalta corredora,
da Austrália; Amargoso; Ânimo. 5-Diz-se das pessoas espertas,
finórias ou perspicazes; Atormenta. 6-Óxido de cálcio; O
mesmo que mula; Vínculo. 7-Cala; Apelido do Prémio Nobel
da Fisiologia e Medicina, em 1943, por descobrir e isolar a vitamina K. 8-Graceja; Capelas; Abalava. 9-Hoje; Povoação do concelho de Sintra. 10-Ninho; Patranha; Altar. 11-Soberano;
Cantão da Suíça Central. 12-Lisonja; Osso do braço; Aia. 13Olarias; Embaraça; Alçar. 14-Abafar; Fruto de algumas espécies
de silvas. 15-Ovário dos peixes; Pronome demonstrativo (pl.);
Chefe etíope (inv.).
3
4
5
6
7
8
9 10 11 12 13 14 15
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
SOLUÇÕES
(Horizontais) 1-MATE; CORAL; MOTO. 2-OREM; AMIGA; ELAV. 3SAMA; LI; OR; LAPA. 4-MA; A; TER; R; SA. 5-TE; AV; ERA; EU; RE. 6O; AMEM; M; LIMA; S. 7-MATA; UNIDO; ETAS. 8-B; ERMA; DAURA;
E. 9-AS; OO; DAR; RO; AS. 10-EL; I; ASA; I; IM. 11-UNAS; EM; LA;
AÇOS. 12-RITUAL; I; RUMARA. 13-ALAS; OCARA; ARAR
Verticais: 1-Multidões; Baqueia; Sufixo, que traduz a ideia de
2
Ginástica mental| por Jorge Barata dos Santos
N.º 22
Preencha a grelha com os
algarismos de 1 a 9 sem
que nenhum deles se
repita em cada linha,
coluna ou quadrado
N.º 22
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SOLUÇÕES
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ClubeTempoLivre > Novos livros
miúdo, apercebe-se que a
uma banda
clima e ao Sud Express
admiração por Natallie
de rock e
foram muitas as figuras
A ESTÁTUA - A TORTURA
cresce e, determinado a
namora a
internacionais (banqueiros,
PREFERIDA PELA PIDE
provar que há homens
miúda mais
actores de cinema, reis,
José António Pinho
A obra caracteriza
dignos de confiança, acaba
gira da
condes e outras ilustres
por a seduzir. Mas a atracção
escola.
personagens) que desde a II
politicamente os anos de
entre ambos é ameaçada por
Tudo corre
Guerra Mundial desfilavam
1958 e 59 e faz uma «singela
algo que pode condenar a
bem até
pelo seu areal e pelo luxuoso
homenagem a todos os que
sua felicidade!
ÂNCORA EDITORA
uma espantosa estafeta
casino.
sobre patins começar a
Uma obra que relata como o
passear-se pelos seus
Estoril soube adaptar-se à
sonhos e a cruzar se com ele
evolução e como continua a
nas
em festas. Conseguirá Scott
ser um destino turístico
masmorras da
chegar à menina e derrotar
privilegiado.
polícia em
os seus sete ex namorados
Coimbra, sete
sem dizer adeus à boa vida?
viveram e lutaram por
sonhos de liberdade».
São narrados 40 dias vividos
BOOKSMILE
deles de
EDITORIAL PRESENÇA
autêntica
PRINCESA DAS FLORES
tortura. Um
Janey Louise Jones
O BIG SUR E AS LARANJAS
testemunho da relação com
DE JERÓNIMO BOSCH
os agentes da PIDE, do
medo e do pânico vividos e
Henry Miller
Escrito após regresso do
da tábua de salvação que
autor, nos anos 40, ao
permitiu não denunciar,
paradisíaco Big Sur na costa
escrito em «palavras de
da Califórnia, a obra
lágrimas, de sangue e de
amor».
composta de textos distintos
retrata as vivências e
CAPITÃO FOX: O FANTASMA
DOS SETE MARES
relações
Marco Innocenti
As emoções fortes
familiares e
O aniversário do avô da
de amizade
Catherine Anderson
Zeke compra o rancho
continuam para o Ratinho
Poppy aproxima-se e a Colina
do autor e de
Ricky e para a tripulação de
do Pote de Mel vai organizar
muitas
vizinho de Natallie, uma
piratas do navio Camaleão, a
uma festa surpresa, segundo
pessoas que
divorciada
quem se juntam novas e
uma antiga tradição da
procuravam
atraente
divertidas personagens.
aldeia. Convencido que todos
com dois
Entre perseguições e duelos
esqueceram o seu
região paradisíaca. Uma
filhos e um
desvende os segredos que o
aniversário, o avô não faz
obra de maturidade que
ex-marido
coração de um pirata
ideia da surpresa. Como irá
reflecte uma plena liberdade
envolvido
esconde e saiba como os
ele reagir?
interior.
em
nossos heróis irão superar os
BY THE BOOK
O MUNDO MÁGICO DO
ARCÁDIA
OLHOS BRILHANTES
aquela
negócios escuros. Quando
perigos com a ajuda de uma
um dos filhos vandaliza a
misteriosa criatura que
sua propriedade e face à
ascende das profundezas
ESTORIL, A VANGUARDA
incapacidade de Natallie
dos Sete Mares.
DO TURISMO
Vivian French
No primeiro dia de aulas as
Margarida de Magalhães
princesas do Clube Tiara mal
Ramalho
Nascido sob o signo de um
podem esperar para te
sobre a vida na Academia de
Inesperadamente, enquanto
Bryan Lee O’Malley
Aos 23 anos, Scott tem uma
sonho, o Estoril é a estância
balnear de referência dos
Princesas e como, em breve,
tenta incutir bons valores ao
vida fantástica, faz parte de
últimos cem anos. Graças ao
serás uma Princesa Perfeita.
pagar os prejuízos, Zeke
disponibiliza-se a receber o
SCOTT PILGRIM NA BOA
pagamento através do
VIDA (VOL. 1)
trabalho do adolescente.
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TempoLivre
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CLUBE TIARA
conhecer… Descobre tudo
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vez mais saturado de
analisadas, tendo em conta
tecnologias.
as teorias psicanalíticas e
cognitivo-comportamentais.
99 CLÁSSICOS DO CINEMA
ANITA PROTEGE A
NATUREZA
PARA PESSOAS COM
FELIZ INSUCESSO
Marcel Marlier, Gilbert
PRESSA
PRECEDIDO DE COCOROCÓ
Henrik Lange e Thomas
Herman Melville
Do autor de Moby Dick,
Delahaye
A mais importante colecção
Wengelewski
Para quem nunca viu
uma obra
Um livro fabuloso cheio de
Levou, Matrix e outros filmes
que invoca
surpresas para todas as
que integram a lista dos
vários
princesinhas!
infantil Anita, lida por
chega-nos
Casablanca, E Tudo o Vento
“musts” de
aspectos da
qualquer
tradição,
cinéfilo, saiba
impregnados
O CAPUCHINHO
que com esta
na acidez corrosiva do
VERMELHO
obra poderá
mundo moderno. Mistura
Um Livro Pop-Up
colmatar
explosiva de géneros que
Louise Rowe
Uma versão nova e original
PI
essa falha de forma rápida e
assenta na improvável
divertida. Com elevado
transfiguração do real
diversas gerações, apresenta
sentido de humor apresenta-
quotidiano, onde os dois
uma nova edição dedicada à
se em banda desenhado um
contos oscilam ora entre a
natureza, onde Anita e os
resumo em versão “fast
alegria e a resignação, ora
amigos vão poder apreciar a
reading” de 99 obras-primas
entre a salvação e o
beleza da natureza e de
que irão alargar de forma
fracasso.
muitos seres vivos que a
exponencial a sua cultura
habitam.
cinematográfica.
K4
VERBO
EUROPA AMÉRICA
DOU-TE UM VERSO
Uma agenda intemporal com
de um conto tradicional, com
RECEITAS DO CORAÇÃO
maravilhosas ilustrações
AS FOBIAS – AGORAFOBIA,
Maria de Lourdes Modesto e
Pop-Up em tons de sépia que
FOBIAS SOCIAIS E FOBIAS
saltam à vista de todos!
ESPECÍFICAS
Alva Seixas Martins
Com prefácio de Fernando de
Jean-Louis Pedinielli e
Pádua, este livro revela como
Pascale Bertagne
A obra
a alimentação inteligente –
FAMA
Romance em nove histórias
saudável e
Daniel Kehlmann
À medida que as páginas
descreve os
racional - pode
fenómenos
ser variada e
avançam, definem-se os
comuns a
contornos de um romance
todas as
poemas de Fernando Pessoa,
Inclui
fobias e
José Régio, Miguel Torga,
numerosas
receitas e
engenhoso e
saborosa.
subtil que
ilustra o quadro semiológico
Sophia de Mello Breyner,
reflecte sobre
com exemplos clínicos,
Eugénio de Andrade, David
promove a saúde com
a realidade e
enquanto percorre as teorias
Mourão-Ferreira e de muitos
sugestões interessantes para
as
que visam dar uma
outros maravilhosos génios
pessoas com doenças
aparências, o
explicação sobre a sua
para o fazer sorrir e ter um
cardiovasculares, cancro,
quotidiano e
origem, mecanismos e
dia mais agradável.
diabetes e muitas outras
os sonhos e a noção de
consequências.
identidade num mundo cada
A terapia e sua aplicação são
patologias.
Glória Lambelho
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TempoLivre 65
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ClubeTempoLivre > Cartaz
Voleibol
AÇORES
Dias 7,14,21,28 –
Ilha do Pico
realizam-se jornadas (1ª à 4ª)
Dia 8 - Encontro de Ranchos
da Liga de Voleibol
de Natal da Ilha do Pico, na
INATEL.
Casa do Povo da Criação
Velha.
VIANA DO CASTELO
Ilha do Faial
Até ao dia 31 decorrem
Futebol
inscrições para os cursos das
Dias 16, 23 e 30 às 15h –
oficinas dos Tempos Livres,
realizam-se diversos jogos da
Informações na Agência
Taça Fundação Inatel,
Inatel em Horta.
informações na Agência
Inatel.
COIMBRA
Escola de Musica
Futebol
Futsal
Concerto
Durante a semana decorrem
Dias 9,16, 23 e 29 decorrem
Dias 8, 14, 15, 21 e 22 –
Dia 7 às 21h30 - Orquestra de
aulas de Música, diurnas e
8ª,9ª,10ª e 11ª jornadas de
decorrem jogos da Liga Inatel
Sopros de Coimbra na Igreja
nocturnas, na Agência
Futebol -Taça Fundação
2010/2011, Informações na
da Misericórdia em Tentúgal.
INATEL de Coimbra.
INATEL
Agência INATEL
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O Tempo e as palavras
M a r i a A l i c e Vi l a Fa b i ã o
Noite de consoada – “Noiteboa” –
em tempo de jamais
Deito-me à sombra da árvore sem sombra - a árvore /cujas raízes nascem da infância - e é natal / […] E conto, agora, as
bolas douradas que enfeitam / a árvore - sem nunca chegar ao fim. Conto-as, no entanto, enquanto as vou / colhendo,
como se fosse o tempo dos / frutos. Uma a uma, essas bolas amontoam-se na minha memória, / dando um rosto a cada
um desses que batiam à porta da noite, pedindo o pão / que sobrara do natal.[…]
Nuno Júdice, “Natal”, poema inédito, in: “A poesia dos Calendários”, Dezembro 2004
-A
gora tudo é diferente…
Por um micronésimo de segundo, a voz quebrase-lhe, perde decibéis. Como gaivotas extraviadas, os seus olhos procuram refúgio no mar,
cujo sal lhe corre nas veias, com o sangue dos avós. Há semanas
que a sua verbosidade é espiral em torno de um tema único: o
Natal que se aproxima e o receio de um regresso aos seus natais
de menina sem infância, filha de pescador. E deles vai falando,
enquanto trabalha: da manta festiva estendida no chão da sala;
da “bacia” de barro com as batatas com aparas de bacalhau, colocada sobre a manta; da roda dos trezes irmãos e irmãs sentados
em volta da “bacia”; da ausência de garfos; do gostinho de comer
à mão; das quatro castanhas de sobremesa - com 2 ou 3 figos em
“natais de maior abundância”; do jogo do rapa - a feijões, que
depois irão engrossar uma sopa; da alegria da partilha com
outros ainda mais desafortunados. Que fome não havia; apenas
um apetite jamais saciado.
Ao longo do relato, o sorriso vai-se-lhe abrindo, belo como
flor de cacto. É certo que brinquedos não havia, que o Menino
sabia que também não havia sapatos.
Noite de consoada, noite de negro-negro em tempo de
jamais!
- Agora tudo é diferente!
Como que atraída pelo ritmo encantatório das palavras, a
serpe de um insidioso sentimento de culpa vai-me sufocando.
O meu silêncio é vergonha.
Afinal, não é apenas o risco azul do rio nascido nos
Cantábricos o que nos separa no mapa da nossa infância.
Do fundo da memória, as imagens surgem silenciosas contra
o fundo negro-verde bordado a prata da escarcha das invernosas noites galegas, povoadas de lendas e mistério.
“Cozinha velha”, na “casa de baixo”, sobre a qual, séculos
antes, alguém construíra a meândrica Casa da Avó. Do lado
esquerdo, à entrada, no enorme lar de granito, imola-se, cantando, o roble que um dia foi deus em terras gróvias, e hoje é o
Tizón, ou Cepo de Nadal (sic!). No canto oposto, o presépio, “o
Belén”, onde, sobre uma multidão de figurinhas toscas, impera
um tosco Menino Jesus, a quem a Avó retira das quatro palhinhas para que cada criancinha possa, à vez, fazer-lhe uma leve
carícia, ao som de um “villancico” mais ou menos desafinado.
No centro, sobre o lajedo nu, a mesa imensa, onde todos têm
assento: adultos e crianças, familiares, amigos e pessoal sem
família. Num topo da mesa, a Avó vigia atentamente o cumprimento das tradições, a mais importante das quais, instituída
por ela, é, para nós, a de que, em “Noiteboa”, todas as crianças
são inimputáveis. No extremo oposto, um cadeirão vazio desde
a morte do Avô, um quarto de século atrás, é olhado por adultos com respeito e pelas crianças com temor.
Sobre a mesa, marisco, bacalhau (português!) com couve-flor,
e o capão recheado, acompanhados por vinho Ribeiro e cidra da
casa, (mélhor qué champán!). Sobremesas, frutos secos, “turrón”
(duro e mole), as inesquecíveis “filhoas” da Avó, de sangue de
porco, com nozes, pinhões e torrões de anis, e, em honra da
nora portuguesa, bolinhos de jerimu e rabanadas de leite.
O cansaço das crianças traz, finalmente, quietação àquela
babel galaico-portuguesa, em que a língua franca é a língua de
cada um.
Chega o momento de pôr os sapatos na chaminé (os “portugueses” não estarão para os Reis) e de deixar a mesa para os
Ausentes, que, presididos pelo Avô, virão, no silêncio da noite,
velar o Menino e ajudá-lo a distribuir os presentes pelos sapatos dos netos.
Levantada a mesa no dia seguinte, e distribuídas as cinzas do
Tizón pelos adultos, fecha-se a Cozinha. Até à próxima
Noiteboa.
Em vésperas de natal, escrevo na solidão da noite as palavras
que a culpa me fez silenciar.
Noiteboa, noite de negro-verde, em tempo de jamais!
Feliz 2011, Senhores Leitores! n
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Os contos do
Perseguição
E
mbora habituado a estranhos impulsos
da mulher, Afonso não reteve o protesto
quando a viu equipar-se de fato – de –
treino e trocar os sapatos de verniz
pelos ténis de corrida.
— Onde vais tu, Letícia?
— Correr no parque. Preciso, passei um dia
enervante e não conseguiria adormecer sem cansar o corpo. Acompanhas-me?
Afonso abandonou o livro em que mergulhara
com interesse e ouviu a irritação da sua própria voz:
— És doida? Faltam minutos para a meia
noite, o parque é um deserto negro e, bem sabes,
trata-se de um lugar perigoso.
— Não me sejas medricas – riu-se Letícia apertando os cordões dos sapatos. Perigoso é qualquer
sítio onde uma pessoa se encontre. Quando tu
partiste o braço foi por escorregar na banheira.
— Por favor, Letícia – insistiu Afonso cada vez
mais incomodado com o disparate da mulher.
Não era raro ela eliminar calorias numa hora de
corrida pelas alamedas do parque mas sempre
acompanhada pela amiga Olga ou, de quando em
quando, pelo próprio Afonso. E sempre a desportiva jornada ocorrera ao início da manhã ou ao
cair da tarde, nunca a entrar na madrugada,
quando as próprias ruas da cidade se despem de
transeuntes. Tanto mais, o Parque.
— A Olga vai contigo?
— Não quer. Afinal o discurso dela é semelhante ao teu, o perigo, ai, o perigo, como se o
parque fosse um reduto de malfeitores á espera
de mulheres parvas para lhes caírem em cima.
Vou sozinha, e então?
— Então demonstras a mais tonta das
imprudências, talvez penses que tarados à coca
no parque seja invenção de filmes e séries de televisão. Assaltos e crimes de morte também acontecem por cá, nesse mesmo parque que nos delicia ao sol da manhã são diferentes as noites e por
ali se move uma fauna de marginais.
Letícia soltou uma gargalhada:
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— Tu não me assustas, Afonso! O que está a
acontecer, uma Vaz mais, é que me faltas com o
teu apoio sempre que me afasto um pouco do que
consideras o procedimento correcto.
— Pois bem, avisei-te.
Da janela do quarto andar, Afonso ficou a
olhar Letícia que se afastava já em passo de corrida, assim aconteceria nas três ruas que distanciavam a casa do parque. E aí, ela percorreria o
grande espaço acelerando o movimento das pernas até que o cansaço lhe recomendasse dar o
esforço por findo.
Afonso tentou retomar a leitura mas em vão.
Ouvira contar de assaltos e violações naquele
parque, constava, mesmo, que duas mulheres
que desafiaram conselhos tinham acabado esfaqueadas.
Bem diferente era o ânimo de Letícia ao pisar
o corredor central, em passada certa e vigorosa, a
respiração calma, o cabelo longo agitando-se à
medida dos movimentos do corpo.
Na realidade a noite era de breu e a luz baça
dos candeeiros não iluminava mais que um apertado circulo em volta. Ninguém. Não sentir a presença de outros seres humanos causava a Letícia
uma doce sensação de liberdade plena, só ela e a
relva, os arbustos e arvores do parque.
Correra já umas centenas de metros quando
lhe pareceu ouvir o som de passadas, atrás de si,
ainda distantes. Olhou para trás, nada se via para
além da escuridão. Mas o ar lavado da noite favorecia o som e o ruído ritmado – Plac! Plac! –
anunciava que por aquele mesmo trajecto alguém
corria e talvez se aproximasse.
Não se assustou. O seu optimismo natural
levou-a a pensar que seria outro ocasional atleta,
talvez mulher, que não resistira à tentação de uma
noite amena e do gosto de correr. De qualquer
modo, obliquou para uma álea transversal, na convicção de que assim deixaria de ouvir os passos –
Plac! Plac!— pelo menos com a mesma nitidez.
Enganou-se. O som parecia mesmo crescer de
ANDRÉ LETRIA
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intensidade – Plac! Plac!— sugerindo que quem
assim corria viesse na peugada dela. Só então se
assustou um pouco e acelerou a passada, consciente de que a sua rapidez de pronto a afastaria
de um eventual perseguidor. Perseguidor?
Custava-lhe ainda admitir essa eventualidade,
mas quando ziguezagueou entre alamedas e o
som das passadas à sua retaguarda crescia de nitidez, o susto abeirou-se do pânico. O telemóvel,
ligaria ao Afonso, à Olga, á polícia, a quem lhe
acudisse na aflição crescente.
Zangou-se com ela própria, arrependeu-se do
orgulho desatinado que a levara a desprezar os
conselhos de Afonso e Olga, lembrava-se agora de
ter lido notícias tenebrosas de ocorrências naquele parque. E rezou. Havia muito que não rezava
mas o pânico puxava-a agora a pedir a protecção
de Deus ou de algum santo especializado em salvar teimosas incautas. Os passos do perseguidor,
plac-plac, por vezes assustadoramente próximos,
depois mais distantes como se o canalha não
resistisse às acelerações desesperada da perseguida, martelavam a noite quase em uníssono com o
bater do coração de Letícia. Ela era por natureza
resistente e o medo parecia redobrar as forças mas
não conseguia afastar-se do perseguidor a ponto
de deixar de ouvir o plac- plac de uns passos pesados que seriam de homem, e robusto, talvez um
tarado disposto a violá-la, se não a pôr fim à sua
existência jovem, com tanto tempo de promessa
de vida. Exausta, forcejou ainda por continuar a
correr sem quebra de rapidez, mas a respiração
ofegante não resultava apenas da fadiga, também
do pânico que se apossara dela. Sabia que não ia
suportar mais uma centena de metros sem tombar
de esgotamento quando ouviu um grito, meio
reclamação, meio lamento:
— Pára, mulher! Não aguento mais a tua passada!
Reconheceu a voz do querido Afonso e sorriu.
Aquele medricas não resistira à tentação de vir
protegê-la.n
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Crónica
Um desejo de Ano Novo
António
Costa Santos
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N
ão sei como foi convosco, mas esta
passagem de ano, cá em casa, foi mais
rápida do que é costume, embora até à
meia-noite, não se tenha notado nada
de anormal.
Jantámos com os mesmos amigos de sempre.
Ficámos à mesa, como é hábito, a projectar o
futuro e a dizer mal do passado, do chefe da
Isabel e da Mariza, que o Carlos acha que exagera nos gritos.
Ao longo da janta, investigámos as razões por
que o "Quem Quer Ser Milionário" nunca deu um
prémio de cem mil euros e pegámo-nos acerca de
Jesus, porque somos todos do Benfica, mas as opiniões sobre o treinador nos afastam mais do que se
fôssemos uns do Glorioso e outros lagartos.
Às dez horas, as crianças começaram a chatearse de morte por nunca mais serem horas de bater
tampas de tachos à janela. Como nas viagens, perguntavam, de quarto em quarto de hora, se faltava
muito e ouviam a resposta que os psicólogos receitam: está quase, vai fazer qualquer coisa para o
tempo passar depressa. A isto seguiam-se outras
perguntas: se podiam beber aquele restinho de
sumo de maçã (era whisky), porque é que o gato as
arranhava quando só queriam pôr-lhe uma bandelete de rena, se para o ano as inscrevíamos finalmente na escola de Hogwarts (vai-te informar de
quanto custam as propinas), perguntas dessas, até
serem, às tantas, enviadas a brincar umas com as
outras, "que a gente já vos chama".
Depois, como também é costume, Ana, a minha
atenta mulher, lembrou-se de que já devia estar
quase na hora e, como de costume, foi nessa altura que se acendeu a televisão. Normalmente, o
lembrete acontece quando faltam dois minutos
para a passagem de ano e este 31 de Dezembro não
foi excepção. Gritámos pelos miúdos e saltámos
para junto do televisor.
Aos dez segundos para a meia-noite, o pessoal
pega nas passas e assiste à contagem decrescente,
à espera do zero. Todos menos eu, que tenho sempre a missão de fazer saltar a rolha da garrafa de
espumante no momento certo. O resto do povo
reconhece que tenho essa arte, embora, ano após
ano, se verifique que nunca acerto no timing. A
explosão uns anos é precoce, outros atrasada e, em
qualquer dos casos, é certo e sabido que o primeiro quarto de litro de champanhe de Lamego vai ao
tapete. Mas dá-lhes jeito.
T
odos os anos é assim: os amigos fazem
batota, engolem as passas de uva à pressa, para apararem nos copos o espumante, mas Ana, não. Faz questão de cumprir todos os rituais, por isso sobe para cima de
uma cadeira e traga as doze passas com cuidado e
demoras, pronunciando um desejo por cada uma
que trinca. Leva muito tempo, até porque não toma
nota prévia dos votos e, às vezes, esquece-se de
onde vai e tem de recapitular os que já proferiu. Se
isso acontece, por exemplo, quando já está no sete
ou no oito, género "que o Papa venha cá e haja
amnistia para as multas da EMEL; espera, este era
o primeiro; já me perdi", estão a ver o tempo que se
perde. Mas adiante.
Esta passagem de ano, como já disse, foi anormal e só espero que isso não seja mau sinal. Ana
subiu à cadeira e à primeira badalada declarou: "só
tenho um desejo para 2011: que a gente sobreviva".
Após o que enfiou as doze passas na boca e ficou à
espera do meu número da rolha. n
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