Concentração e
Desemprego no
Pólo Petroquímico de
Triunfo/RS
Sindicato dos Trabalhadores nas
Indústrias Petroquímicas de Triunfo/RS
Março de 2007
1
Considerações iniciais
Os trabalhadores petroquímicos gaúchos foram pegos de surpresa com a notícia da
venda do Grupo Ipiranga no dia 19 de março de 2007. A negociação, efetivada pela
Petrobras, Braskem e Grupo Ultra, passa o controle da Copesul – a central de matériasprima do pólo petroquímico gaúcho - para a Braskem, que ficará com 60% das ações e os
40% restantes para a Petrobras.
Esta situação causa preocupação e angústia aos trabalhadores, tendo em vista
especialmente a atitude tomada pela Braskem quando assumiu o pólo baiano de Camaçari,
tendo demitido dois mil trabalhadores e retirado, de forma unilateral, direitos constituídos
dos trabalhadores, como o plano de previdência complementar. Além deste precedente, o
perfil de gestão desta empresa, dita por ela mesmo como “agressivo ”, tem sido uma
constante não apenas no mercado em relação aos negócios, mas também em sua gestão
interna, na relaç ão com os trabalhadores. No próprio pólo gaúcho, quando esta empresa foi
criada em 2002, foram feitas cerca de 100 demissões.
Os trabalhadores petroquímicos gaúchos, diante da ameaça, em 2005/2006, de entrega
do pólo petroquímico do RS ao grupo Odebrecht/Braskem, desenvolveram em nível
nacional, diversas mobilizações, que contou com o apoio de importantes setores da
sociedade, para impedir que a negociaç ão entre a Petrobras e a Braskem fosse concretizada
à época, o que teria conseqüências danosas para o país, para os gaúchos e para os
trabalhadores. Na ocasião, a voz dos trabalhadores encontrou eco no governo e a Petrobras
acabou não fazendo o que se denominava de “opção Braskem”, que consistia na troca de
ativos entre as duas empresas, dando o controle do pólo gaúcho ao grupo Odebrecht.
Agora, os trabalhadores entendem que a negociação foi feita a revelia da necessária
discussão com a sociedade, visto que envolve uma empresa estatal, e proporciona uma
brutal concentração de um setor importante para o desenvolvimento do país e do Estado nas
mãos de um grupo privado. Por isso, é fundamental que estas discussões sejam
estabelecidas e que a Petrobras garanta que não será apenas uma coadjuvante no processo. O
atual governo tem um compromisso com o desenvolvimento do Brasil, com a melhoria da
qualidade de vida dos brasileiros, com a geração de empregos e com os trabalhadores.
Neste trabalho, estamos apresentando alguns dados e considerações sobre as
empresas envolvidas, número de trabalhadores e o que significa a negociação e que
reflexos poderá ter sobre o setor e os empregos no pólo petroquímico.
2
O que é o negócio
Na segunda-feira, dia 19, os trabalhadores petroquímicos e a sociedade gaúcha foram
pegos de surpresa pelo anúncio de que o Grupo Ipiranga havia sido comprado pela
Petrobras, Braskem e Grupo Ultra. O negócio, envolvendo cerca de R$ 8,3 bilhões (US$ 4
bilhões) é um dos maiores já realizados em nível nacional e permitirá ao grupo
Odebrecht/Braskem ter praticamente o controle do setor petroquímico nacional. Na
negociação, a Braskem ficará, no Pólo gaúcho, com 60% do segmento petroquímico do
Grupo Ipiranga e a Petrobras com 40%. Os segmentos de distribuição de combustíveis serão
divididos entre a estatal e o grupo Ultra. Na refinaria Ipiranga, localizada na cidade de Rio
Grande no RS, os três compradores ficarão cada um com um terço.
Reação imediata dos trabalhadores
Imediatamente após os primeiros sinais de que na segunda-feira, 19, seria anunciada a
compra do Grupo Ipiranga pela Petrobras, Braskem e Ultra, foi realizada uma manifestação
de três horas na Tabaí-Canoas, rodovia que dá acesso ao Pólo Petroquímico, reunindo os
trabalhadores de todas as empresas que estariam iniciando a jornada às 8h, tanto do regime
administrativo, quanto do turno. O ato foi contra a concentração do setor petroquímico com
a Braskem e em defesa do emprego. A categoria questiona também a forma como se deram
as tratativas e a falta de transparência no negócio, fechado no fim-de-semana, sem discussão
alguma, sem transparência e atropelando todas as possibilidades de debates, tanto pelos
trabalhadores como pela sociedade, especialmente porque envolve uma empresa pública,
como a Petrobras.
Os trabalhadores se posicionaram contra a concentração do setor petroquí mico,
considerado estratégico para o país, nas mãos de um grupo privado, neste caso, a
Odebrecht/Braskem. Para eles, a concentração é ruim para o setor, para os
consumidores e para a sociedade. Além desta preocupação, os trabalhadores estão
angustiados e apreensivos quanto a ameaça aos seus empregos.
Durante o ato, a categoria decidiu por unanimidade, pela assembléia permanente e
estado de greve. Esta condição é importante para possibilitar aos trabalhadores agilidade
nas mobilizações, inclusive na deflagração de uma greve, caso seja necessário. Com a
concretização da negociação, cerca de 2.200 dos 2.500 trabalhadores diretos do Pólo
Petroquímico gaúcho ficarão subordinados diretamente à Braskem.
Brutal concentração
A opção da Petrobras de permitir que 60% da Ipiranga Petroquímica ficasse com a
Braskem, cria uma brutal concentração do setor petroquímico nas mãos do grupo Odebrecht
(que controla a Braskem), que já detém o controle do pólo da Bahia e 60% da Petroquímica
Paulínea em SP, que produzirá polipropileno, onde a Petrobras tem 40%. Para se ter uma
idéia de como fica a produção de eteno, o principal petroquímico básico, os dois pólos do
Sudeste (SP e RJ) juntos produzem um milhão de toneladas por ano de eteno, e a Odebrecht,
com o controle dos pólos baiano e gaúcho, será responsável pela produção de 2,5 milhões de
toneladas/ano. Esta concentração se dá tanto na 1ª como na 2ª Geração. (Tabela 1 e 2)
3
Como ficará a Braskem na produção dos
principais produtos de 1ª Geração petroquímica
(Tabela 1)
Projeção
Produção nacional dos principais produtos petroquímicos atualmente
após a
integração
PQU
Copene/Braskem
Copesul
Riopol
Braskem
Ton/Ano % Ton/Ano
% Ton/Ano %
Ton/Ano %
Eteno
500.000 14,5 1.300.000 37,3 1.200.000
33 520.000 15,14 2.500.000 71
Propeno
250.000 17,4
530.000
37 581.000 40,45 75.000 5,22 1.111.000 77
Butadieno
80.000 23
170.000
48 105.000
30 --275.000 78
Benzeno
200.000 22
438.000
49 265.000
29 --703.000 78
Tolueno
75.000 36
40.000
19
91.000
44 --131.000 63
Xilenos
130.000 28
270.000
58
66.000
14 --336.000 72
Quadro relativo aos produtos de 2ª Geração
(Tabela 2)
Produto
Polietileno
(PE)
Polipropileno
(PP)
Policloreto de
Vinila
(PVC)
Caracterização
É a resina termoplástica mais utilizada do mundo,
com cerca de 40% do total do mercado. Existem três
tipos: de alta, de baixa densidade e baixa densidade
linear.
É a resina que apresenta maior crescimento nos
últimos anos. São resistentes a alta temperatura, a
química, a fissura ambiental e apresentam boa
processabilidade. Tem baixas densidade e custo e
não apresentam risco ao meio ambiente, podendo
ser descartado, reciclado ou incinerado.
É utilizado principalmente na construção civil, tubos
de conexões e, mais recentemente, em perfis e
esquadrias e setor de calçados.
Produção
Nacional
aproximada
(t/ano)
Volume
produzido pela
Braskem após a
integração
2.775.000
(100%)
1.730.000
(62%)
1.625.000
(100%)
1.000.000
(61%)
710.000
(100%)
475.000
(67%)
O Pólo após a integração
A compra envolve os ativos do Grupo Ipiranga. Mas como já foi anunciado, o objetivo
que poderá se concretizar até o final do ano é integrar as empresas do Pólo que pertencem à
Odebrecht/Braskem, (Braskem PE e PP) e a Petrobras (Petroquímica Triunfo e Innova) à
4
Copesul. Isso significa transformar as cinco maiores empresas do Pólo em apenas uma.
(Gráficos 1 e 2)
(Gráfico1)
REFAP
(Canoas)
(Gráfico2)
Reuniões com Petrobras e Braskem
Na tarde de segunda-feira (19) o Sindicato esteve reunido com a Petrobras e com a
Braskem. No encontro com a Petrobras, o Sindicato questionou por que a estatal permitiu
5
que a Braskem fique com o controle do setor petroquímico e foi debatida exaustivamente
em relação ao que a Braskem poderá fazer com os empregos no Pólo, a exemplo do que ela
fez em 2002, quando foi criada. Também foi tratada a manutenção dos direitos dos
trabalhadores e qual será a participação da estatal na gestão das empresas envolvidas.
Com a Braskem foi manifestada a preocupação do que significa ela ter o controle do
setor, a angústia e apreensão dos trabalhadores com relação aos empregos e manutenção dos
direitos conquistados, entre outras questões. No que se refere a manutenção dos postos de
trabalho, no mesmo momento em que o presidente da empresa estava dizendo em entrevista
coletiva que não haveriam demissões, no Sindicato a Braskem afirmava que não tem como
manter todos os postos e que haverão demissões. Deixamos claro à Braskem que os
trabalhadores, a exemplo da manifestação realizada, farão quantas forem necessárias e até
tomarão outras iniciativas para preservarem seus postos de trabalho e seus direitos.
A venda do Grupo Ipiranga sob a ótica dos trabalhadores
Os trabalhadores petroquímicos foram pegos de supresa com a venda da Ipiranga
Petroquímica. Depois de terem lutado de abril/2005 a março/2006 contra a entrega do Pólo
petroquímico gaúcho para o grupo baiano Odebrecht/Braskem, em função da troca de ativos
entre a Petrobras e a Braskem, onde a estatal elevaria sua participação na Braskem de 10%
para 30% em troca dos 15% que detém na Copesul, mais a Petroquímica Triunfo, controlada
pela Petrobras, eles viram, no último fim-de-semana, serem fechadas as negociações entre o
grupo Ipiranga e a Petrobras, Braskem e Grupo Ultra, num negócio que envolveu cerca de
R$ 8,3 bilhões de dólares, considerado um dos maiores já realizados no país. A negociação
dá o controle do Pólo do RS para a Braskem, que no final ficará com 65% da Copesul
(central de matéria-prima) o que, somado ao controle que a Braskem tem no Pólo baiano e
no de Paulínea (60%) em SP, faz com que a empresa concentre entre 70% a 80% da
petroquímica nacional nas suas mãos, dependendo dos produtos.
Para os trabalhadores, o resultado dessa negociação terá impactos para muitas
empresas que dependem de petroquímicos, como as de segunda e terceira geração, par a toda
a sociedade e principalmente, nos empregos. Em relação às empresas, há temores de que a
concentração do setor nas mãos do grupo Odebrecht/Braskem, conhecida por sua
agressividade no mercado, venha a prejudicar outros segmentos da cadeia, já que com a
transação, os dois maiores pólos petroquímicos do país ficarão sob o controle grupo. Um
dos reflexos da concentração em geral se dá nos preços produtos petroquímicos de primeira
e segunda geração, que são repassados aos transformadores (empresas de terceira geração)
que repassam aos produtos acabados, sendo finalmente pagos pelos consumidores. O
negócio portanto terá impacto em toda a sociedade.
Um dos setores que poderão ser fortemente atingidos é de calçados, já que os
componentes para colas, tintas , solas e outros necessários ao setor calçadista vem crescendo
nos últimos anos, e dependendo cada vez mais de petroquímicos, assim como os setores
eletroeletrônicos, automotivo e de tintas, só para citar alguns.
Em relação aos empregos, os trabalhadores têm referências concretas que evidenciam
as ameças. Quando o grupo Odebrecht comprou a central de matérias-primas baiana (a
Copene) e outras empresas do Pólo baiano, e criou a Braskem, em 2002, foram feitas cerca
de duas mil demissões, inclusive com reflexos no Pólo gaúcho, onde foram demitidos 100
trabalhadores. Também quando estava em andamento a negociação da troca de ativos entre
6
esta empresa e a Petrobras, envolvendo a Copesul, a empresa admitiu por diversas vezes em
audiências públicas no Estado e em Brasília e na imprensa que haveria demissões. Esses
antecedentes e a forma de gestão da Braskem são indicativos suficientes para que os
trabalhadores do Pólo se sintam ameaçados em relação aos empregos. E embora em todas as
entrevistas à imprensa o presidente da Br askem tenha dito que não haverá demissões, em
reunião fechada com representantes da empresa no Sindipolo ainda na segunda-feira, dia 19,
a empresa admitiu que irá eliminar postos de trabalho. (Tabela 3 e Gr áficos 3 e 4)
Os números do Pólo do RS
(dados de março 2007)
(Tabela 3)
Empresas......................................09
Trabalhadores diretos...................2.567
Trabalhadores terceirizados..........3.460
Trabalhadores por empresa
Empresa
Trabalhadores
Diretos Indiretos
Copesul
953
1.600
Braskem
441
800
Ipiranga
442
550
Petroquímica Triunfo
242
130
Innova
218
135
DSM
109
95
Petroflex
74
160
Borealis
37
50
Oxiteno
51
40
7
Gáfico 3 - Pólo antes da integração (em relação ao número de trabalhadores)
Trabalhadores
Copesul
Braskem
Ipiranga
Petroquímica Triunfo
Innova
DSM
Petroflex
Borealis
Oxiteno
Gráfico 4 - Pólo após a integração
(quando finalizado com a integração da Petroquímica Triunfo, prevista até final de 2007)
Trabalhadores
Braskem
DSM
Petroflex
Borealis
Oxiteno
8
Download

Apresentação