Metabolismo dos triacilgliceróis e do etanol; Rui Fontes
Metabolismo dos triacilgliceróis e do etanol
1-
O tecido adiposo contém cerca de 95% dos lipídeos do organismo e constitui a mais abundante
reserva energética do organismo. A quantidade total de triacilgliceróis é variável de indivíduo para
indivíduo mas, se considerarmos um indivíduo normal de 70 kg, valores de 10-15 kg são normais.
Considerando, por exemplo, um indivíduo com uma despesa energética de 2400 kcal/dia, 15 kg de
gordura seriam suficientes para suprir essa despesa durante 2 meses (15000 g x 9,3 kcal/g = 139500
kcal; 139500 kcal / 2400 kcal/dia = 58,1 dias). A mobilização e a oxidação desta gordura ocorrem
sobretudo quando a insulina baixa durante o jejum ou quando há exercício físico. A sua formação
predomina quando, após as refeições, a lípase de lipoproteínas do tecido adiposo hidrolisa os
triacilgliceróis dos quilomicra e os ácidos gordos libertados vão formar os triacilgliceróis dos
adipócitos.
2-
Embora haja uma grande variabilidade, uma concentração de triacilgliceróis plasmáticos de cerca de 1
mM (0,9 g/L) é um valor normal em jejum. Se considerarmos que num indivíduo normal (com 70 kg)
há cerca de 3 L de plasma sanguíneo, a quantidade total de triacilgliceróis plasmáticos em jejum
(maioritariamente nas VLDL) seria de cerca de 2,7 g (0,9g/L x 3L). Uma refeição típica ocidental
pode ter cerca 30 g de triacilgliceróis: se todos esses triacilgliceróis ingeridos entrassem no plasma
instantaneamente haveria uma subida de concentração superior a 10 vezes o valor basal. Mas não é
isso que acontece: 3 a 5 horas após uma refeição contendo lipídeos atinge-se um pico de concentração
que pode ser de 1,5 a 2 mM (no máximo, o dobro do valor basal [1]). A subida de concentração é
menos acentuado do que os cálculos anteriores permitiriam supor porque (i) o processo absortivo dos
lipídeos é lento, (ii) a síntese hepática de VLDL diminui após as refeições1 e (iii) os processos de
hidrólise dos triacilgliceróis plasmáticos (lípase de lipoproteínas actuando nos quilomicra), de
esterificação e armazenamento no tecido adiposo estão estimulados neste período.
3-
Após a ingestão, a digestão e a absorção de lipídeos da dieta formam-se os quilomicra que, via
linfáticos, são vertidos no sangue. Este processo absortivo é muito lento e, por isso, a concentração
máxima de quilomicra só se atinge cerca de 4 hora após a refeição [2]. A lípase de lipoproteínas é uma
ectoenzima presente na membrana citoplasmática das células endoteliais dos capilares de tecidos
extra-hepáticos (como o tecido adiposo, os músculos e a glândula mamária activa) e catalisa a
hidrólise dos triacilgliceróis dos quilomicra promovendo a sua conversão em quilomicra
remanescentes. A actividade da lípase de lipoproteínas do tecido adiposo aumenta após a ingestão de
alimentos mas acontece o contrário nos casos dos músculos esquelético e cardíaco. Esta activação da
lípase de lipoproteínas do tecido adiposo é mediada pela acção da insulina que estimula a sua síntese
nos adipócitos e a sua migração para o endotélio [3]. Assim, o processo de activação da lípase de
lipoproteínas do tecido adiposo é um processo que decorre no mesmo espaço temporal em que os
quilomicra estão aumentados e os triacilgliceróis dos quilomicra são maioritariamente hidrolisados
neste tecido. Os ácidos gordos daí resultantes são captados pelos adipócitos e, de seguida, activados
(via acção da sintétase de acil-CoA) e esterificados. Estas transformações criam um gradiente que
favorece a sua captação para dentro dos adipócitos. Actualmente, pensa-se que o transporte
transmembranar dos ácidos gordos é parcialmente mediado por transportadores proteicos e
parcialmente não mediado.
4-
Nos adipócitos e no período que se segue a uma refeição que contenha lipídeos, os processos de
captação e esterificação dos ácidos gordos estão estimulados e são mais rápidos que o processo de
hidrólise (que está inibido) ocorrendo acumulação de gordura2. Nos adipócitos não existe cínase de
1
A síntese e libertação de VLDL diminui após as refeições mas a sua concentração aumenta no plasma porque os
quilomicra competem com as VLDL pela sua ligação à lípase de lipoproteínas. A diferença entre a concentração dos
triacilgliceróis plasmáticos neste período (1,5-2 mM) e a concentração basal (1 mM) não se deve apenas a
triacilgliceróis dos quilomicra que podem representar menos de metade dessa diferença [Griffiths et al. (1994) Am J
Clin Nutr. 59: 53-9].
2
Nos roedores, existe no citoplasma dos adipócitos (em todos os estados metabólicos) um “ciclo fútil” de hidrólise
(catalisada pela lípase hormono-sensível) e re-síntese (esterificação) de triacilgliceróis. No entanto, no caso do homem,
a percentagem de ácidos gordos libertados pela lípase hormono-sensível que não passam para o plasma e são de
imediato reesterificados parece ser, pelo menos na ausência de doença e de acções de medicamentos, irrelevante
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glicerol; assim, todo o glicerol formado pela acção das lípases de lipoproteínas (e hormono-sensível)
perde-se para o plasma sanguíneo sendo depois metabolizado no fígado e rim (os órgãos onde existe a
cínase do glicerol). O glicerol-3-P necessário para a síntese de triacilgliceróis no tecido adiposo tem
origem na dihidroxiacetona-fosfato que é reduzida a glicerol-3-P por acção catalítica da
desidrogénase do glicerol-3-P (ver equação 1). No período que se segue às refeições a
dihidroxiacetona-fosfato origina-se a partir da glicose via glicólise. O transporte transmembranar de
glicose é mediado pelo GLUT 1 e GLUT 4 e, quer a insulina, quer a proteína estimuladora da
acilação promovem a entrada de glicose para os adipócitos mobilizando GLUT 4 para a membrana
citoplasmática. A proteína estimuladora da acilação é uma citocina dos adipócitos que tem uma acção
parácrina e cuja síntese e libertação é estimulada pelos quilomicra [4]. No período pós-prandial, para
além de promoverem a entrada de glicose para os adipócitos, a insulina e a proteína estimuladora da
acilação promovem a acumulação de triacilgliceróis nos adipócitos porque inibem a lipólise
citoplasmática (ou seja, inibem a lípase hormono sensível) e, simultaneamente, estimulam a
esterificação. O processo de síntese de triacilgliceróis a partir de acis-CoA (ácidos gordos activados) e
glicerol-3-P envolve a acção catalítica de transférases de acilo e da fosfátase do ácido fosfatídico que
são enzimas do retículo endoplasmático. Enquanto a insulina estimula a síntese da acil-transférase do
glicerol-3-P (ver equação 2), a proteína estimuladora da acilação estimula a acil-transférase do
diacilglicerol (ver equação 3), ou seja, respectivamente, o primeiro e o último passos do processo de
esterificação.
dihidroxiacetona-fosfato + NADH → glicerol-3-P + NAD+
glicerol-3-P + acil-CoA  1-monoacilglicerol-3-fosfato + CoA
1,2-diacilgicerol + acil-CoA  triacilglicerol + CoA
(1)
(2)
(3)
5-
A lípase hormono-sensível é uma hidrólase citoplasmática que, nos adipócitos, catalisa a libertação
de 3 moléculas de ácidos gordos e uma de glicerol a partir de uma de triacilglicerol. A lípase hormono
sensível é regulada por fosforilação/desfosforilação induzida por hormonas sendo activada por
fosforilação e inactivada por desfosforilação. Ao contrário do que acontece noutras espécies, no
homem, as hormonas que têm, em situações não patológicas, real influência na lipólise no tecido
adiposo são (i) as catecolaminas (efeito estimulador) e a (ii) insulina (efeito inibidor) [5]. As
catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) promovem a lipólise via ligação aos receptores
adrenérgicos 1 que promovem o aumento da actividade da adenilcíclase; a adenilcíclase leva à
formação de AMP cíclico que estimula a PKA; a PKA promove a fosforilação e consequente
activação da lípase hormono-sensível. A PKA também promove a fosforilação de uma outra proteína
(perilipina) que se situa à periferia da gotícula (ou gotículas) de gordura presente no citoplasma dos
adipócitos. Quando a perilipina está no estado desfosforilado impede o acesso da lípase hormonosensível ao seu substrato mas, quando é fosforilada pela PKA, deixa de ser um entrave à acção da
lípase; assim, a fosforilação da perilipina estimula a acção da lípase. A acção estimuladora das
catecolaminas na lipólise é importante na mobilização de ácidos gordos do tecido adiposo para o
músculo durante o exercício físico [6]. À acção das catecolaminas opõe-se a insulina que promove a
desfosforilação e consequente inactivação da lípase hormono-sensível; durante o jejum a insulina está
baixa estando favorecida a lipólise. Um dos mecanismos pelos quais a insulina inibe a lipólise é, no
tecido adiposo, a sua acção activadora na fosfodiestérase, uma enzima que hidrolisa o AMP cíclico:
sem AMP cíclico a PKA fica inactiva e não há fosforilação nem da lípase hormono-sensível nem da
perilipina [5]. A insulina, para além de inibir a lipólise, também favorece o processo de esterificação;
durante o jejum a insulina está baixa e, consequentemente, o processo de esterificação está
desfavorecido sendo que, destes processos de regulação, resulta a libertação de ácidos gordos para o
plasma. Os ácidos gordos libertados não estão esterificados (por isso chamam-se ácidos gordos livres)
e viajam no plasma ligados à albumina. Como já referido, as catecolaminas estimulam a lipólise
actuando directamente nos adipócitos, mas também têm um efeito indirecto porque inibem a libertação
de insulina nas células  dos ilhéus pancreáticos.
6-
Durante o jejum porque a lipólise é muito mais rápida que a esterificação, o saldo dos dois processos
resulta na libertação líquida de ácidos gordos livres dos adipócitos para o plasma. No jejum não há
[Coppack et al. (1999) Am J Physiol 276: E233; Frayn NK (2003) Metabolic Regulation. A Human Perspective. 2nd
Ed. Blackwell pag. 164].
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quilomicra, e porque a insulina plasmática está baixa os adipócitos têm maior sensibilidade à acção
lipolítica das catecolaminas [5]. No jejum, a concentração plasmática dos ácidos gordos livres está
aumentada e (exceptuando os casos particulares do cérebro, eritrócitos e medula renal) os ácidos
gordos são usados como combustíveis pelos tecidos (nomeadamente o fígado e os músculos
esqueléticos e cardíaco).
7-
Uma parte dos ácidos gordos captados pelo fígado, em vez de sofrer oxidação, é esterificada e os
triacilgliceróis formados são incorporados nas VLDL (que são libertadas para o plasma). Embora haja
síntese e secreção de VLDL em todos os estados nutricionais, durante o jejum a secreção de VLDL
pelo fígado está estimulada porque a insulina, que tem efeito inibidor neste processo, está baixa. Os
triacilgliceróis das VLDL são hidrolisados pela lípase de lipoproteínas dos capilares dos tecidos extrahepáticos e, na ausência de quilomicra (jejum), a acção da lípase nas VLDL não sofre a acção
inibidora competitiva dos triacilgliceróis dos quilomicra, estando, por isso, a velocidade de hidrólise
dos triacilgliceróis das VLDL aumentada. O balanço dos dois processos (estimulação da secreção de
VLDL no fígado e da hidrólise dos seus triacilgliceróis nos tecidos periféricos) favorece mais o
processo hidrolítico permitindo compreender que os triacilgliceróis das VLDL baixem durante o
jejum [7].
8-
O destino dos ácidos gordos libertados pela acção da lípase de lipoproteínas depende do estado
metabólico e do tecido (músculos ou tecido adiposo) onde a lípase opera. Durante o jejum, a síntese
hepática e a hidrólise dos triacilgliceróis das VLDL no endotélio dos capilares do tecido adiposo
fazem parte de um ciclo de substrato que inclui a (1) a captação de ácidos gordos pelo fígado e (2) a
sua subsequente esterificação, (3) a libertação para o sangue dos triacilgliceróis formados
incorporados nas VLDL, (4) a hidrólise dos triacilgliceróis das VLDL pela lípase de lipoproteínas do
tecido adiposo (5) cujos ácidos gordos podem viajar no plasma ligados à albumina e serem captados
pelo fígado. Durante o jejum, os ácidos gordos hidrolisados pela lípase de lipoproteínas do tecido
adiposo não são captados pelos adipócitos. Ao contrário do que acontece com a lípase de lipoproteínas
do tecido adiposo, a actividade da lípase de lipoproteínas dos músculos está mais activa durante o
jejum que no estado pós-prandial e, além disso, a lípase de lipoproteínas muscular é activada pelo
exercício físico. Quando, em vez da lípase de lipoproteínas do tecido adiposo, intervém a lípase dos
tecidos musculares esqueléticos ou cardíaco, o ciclo de substrato acima referido é interrompido: nos
tecidos musculares esqueléticos ou cardíaco, o destino dos ácidos gordos libertados das VLDL é a sua
oxidação [6]. No entanto, é também importante referir que a maior parte dos ácidos gordos oxidados
pelos músculos têm origem no tecido adiposo e não na hidrólise dos triacilgliceróis plasmáticos.
9-
No fígado, parte do glicerol-3-P necessário para a esterificação pode resultar da fosforilação (via
cínase do glicerol que existe nos hepatócitos) do glicerol que se liberta durante a lipólise (lípase
hormono sensível e lípase de lipoproteínas). Uma outra parte do glicerol-3-P deriva da redução da
dihidroxiacetona-fosfato que, durante o jejum, estando a glicólise inibida, resulta da transformação de
aminoácidos, do lactato ou do piruvato. O processo de síntese de glicerol-3-P a partir destes
precursores designa-se por gliceroneogénese; a gliceroneogénese é “uma gliconeogénese mais curta”
não envolvendo as fosfátases da frutose-1,6-bisfosfato e da glicose-6-fosfato. A conversão do piruvato
em glicerol-3-P implica a acção de muitas enzimas de que destacaríamos a carboxílase do piruvato, a
carboxicínase do fosfoenolpiruvato e a desidrogénase do glicerol-3-P (as outras são comuns à glicólise
e catalisam reacções fisiologicamente reversíveis). No tecido adiposo, não existe a cínase do glicerol
mas existe a carboxílase de piruvato, a carboxicínase do fosfoenolpiruvato e a desidrogénase do
glicerol-3-P; no tecido adiposo, durante o jejum, a captação de glicose e a glicólise estão inibidas e o
glicerol-3-P usado na síntese de triacilgliceróis (ver nota 2) tem origem na gliceroneogénese [8].
10-
No período que se segue a uma refeição que contenha lipídeos, uma parte dos triacilgliceróis
plasmáticos está nos quilomicra mas, independentemente do estado metabólico do organismo, a
maioria dos triacilgliceróis plasmáticos está nas VLDL. Os triacilgliceróis incorporados nas VLDL
resultam da esterificação de ácidos gordos no retículo endoplasmático do fígado enquanto os
constituintes proteicos das VLDL nascentes são sintetizados nos ribossomas. Os ácidos gordos que são
incorporados nas VLDL podem ser de diferentes origens: (i) ácidos gordos livres plasmáticos, (ii)
hidrólise lisossómica dos triacilgliceróis dos quilomicra remanescentes e IDL captados pelos
hepatócitos e (iii) lipogénese de novo. Durante o jejum, a velocidade de síntese de VLDL, estimulada
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pela baixa de insulina, aumenta e, neste estado metabólico, os ácidos gordos que, no fígado,
contribuem para a formação de VLDL provêm, em última análise, do tecido adiposo; maioritariamente
da acção da lípase hormono-sensível nos triacilgliceróis intracelulares mas também da acção da lípase
de lipoproteínas nos triacilgliceróis das VLDL circulantes. No homem, com uma dieta mista sem
excesso de glicídeos o contributo da lipogénese de novo para os ácidos gordos das VLDL é pequeno.
11-
Se considerarmos um determinado intervalo de tempo (um mês ou um ano, por exemplo) e admitirmos
que as reservas de glicogénio (e a quantidade total de proteínas) são iguais no início e no fim do
intervalo de tempo considerado, a variação da massa de triacilgliceróis do organismo (quase toda no
tecido adiposo) é equivalente à diferença entre a energia metabolizável da dieta e a despesa energética.
Assim, ignorando as eventuais variações na massa de glicogénio 3 e na massa de proteínas do
organismo, a variação na massa de triacilgliceróis do organismo reflecte o balanço energético (nulo,
positivo ou negativo) no intervalo de tempo considerado. Se, mantendo estes pressupostos, a massa de
triacilgliceróis do organismo se manteve constante deve concluir-se que a massa de triacilgliceróis que
sofreu lipólise no intervalo de tempo considerado foi, no mesmo intervalo de tempo, substituída por
triacilgliceróis que foram sintetizados e armazenados. Isto não significa que a velocidade de síntese foi
sempre igual à de hidrólise: a seguir às refeições predominou a esterificação e, pelo menos, nas horas
que precederam a primeira refeição da manhã predominou a lipólise. Quando há balanço energético
negativo uma parte das reservas que sofreu lipólise não é substituída. A situação inversa ocorre
quando há balanço energético positivo. Dado que, na dieta típica ocidental, a lipogénese de novo é
muito pouco expressiva e que as variações nas reservas de glicogénio podem, em certas condições (ver
nota 3), ser ignoradas, também podemos concluir que, quando há balanço energético positivo, uma
parte das gorduras que comemos não é oxidada mas sim armazenada no tecido adiposo.
12-
Na origem da diabetes tipo II (a forma mais comum de diabetes) está uma incapacidade das células
em responder à insulina. Nas fases mais precoces da doença, a insulina plasmática pode mesmo estar
aumentada relativamente ao normal. São mais conhecidos os efeitos desta resistência à insulina no
metabolismo glicídico mas os efeitos no metabolismo lipídico e, em particular, no metabolismo das
lipoproteínas também é relevante. No tecido adiposo, esta resistência à acção da insulina, provoca
aumento da lipólise intracelular (desinibição da lípase hormona sensível) e diminuição da actividade
da lípase de lipoproteínas do endotélio dos capilares. O aumento da lipólise dos triacilgliceróis
armazenados nos adipócitos provoca, tal como no jejum, aumento dos ácidos gordos livres no sangue4.
Uma das consequências do aumento da concentração plasmática de ácidos gordos livres é o aumento
da sua captação pelo fígado que os utiliza para sintetizar VLDL [9]. Quer o aumento da síntese de
VLDL hepática quer a diminuição da hidrólise dos triacilgliceróis das VLDL (diminuição da
actividade da lípase de lipoproteínas) explicam que, na diabetes tipo II, haja aumento das VLDL no
plasma. De facto a insensibilidade à insulina também ajuda a explicar o aumento da síntese de VLDL
já que a insulina tem o efeito oposto: diminui a secreção de VLDL pelo fígado [9]. Por outro lado, este
aumento das VLDL vai provocar um aumento da velocidade de troca entre os triacilgliceróis das
VLDL e os ésteres de colesterol das HDL (aumento na actividade da proteína de transferência de
ésteres de colesterol – CETP) diminuindo o colesterol associado às HDL. Crê-se que na origem da
aterosclerose precoce do diabético tipo II pode estar, pelo menos em parte, a diminuição do colesterol
associado às HDL [3]. A diminuição do colesterol associado às HDL é um factor de risco de
aterosclerose.
13-
A metabolização do etanol inicia-se com a sua oxidação sequencial em acetaldeído (=etanal) e
acetato. Embora também possa ocorrer nas células do estômago, é no fígado que a maior parte do
etanol ingerido se converte em acetato. No fígado existem três sistemas enzímicos envolvidos na
oxidação do etanol a acetaldeído, (i) um citosólico, (ii) outro do retículo endoplasmático e (iii) um
3
No adulto serão mínimas se admitirmos que a comparação entre o tempo inicial e final do intervalo considerado foi
feita considerando o mesmo estado nutricional (por exemplo, sempre de manhã antes do pequeno almoço).
4
O aumento da lipólise e a diminuição da esterificação não significa necessariamente que o diabético tipo II esteja
continuamente a perder massa gorda e a emagrecer. Como em todos os outros humanos (e mamíferos) é o balanço
energético que determina as variações na massa global de triacilgliceróis do organismo. No diabético tipo II as
alterações nas actividades das duas lípases e da acil-transférase do glicerol-3-P e na síntese de VLDL fazem com que,
independentemente do saldo global (nulo, negativo ou positivo) nos processos de esterificação e lipólise, haja um
aumento na concentração dos lipídeos “circulantes” (ácidos gordos livres e triacilgliceróis das VLDL).
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outro nos peroxissomas. O sistema com maior relevância quantitativa é o citoplasmático, a enzima
chama-se desidrogénase do etanol e o oxidante é o NAD+ (ver equação 4). De notar que o NADH
formado pela acção da desidrogénase do etanol só pode ser oxidado pelo O2 após a acção das
lançadeiras do malato ou do glicerol-3-P. No retículo endoplasmático o sistema enzímico que converte
o etanol em acetaldeído não envolve o NAD+ mas o NADPH. O sistema do retículo endoplasmático
denomina-se Sistema Microssómico de Oxidação do Etanol (MEOS), o oxidante é o O2 (ver
equação 5) e envolve a actividade de um citocromo P450, o CYP2E1. A sua relevância aumenta
quando a concentração plasmática de etanol excede 0,5 g/L e, porque a síntese de CYP2E1 é induzida
pela ingestão crónica de etanol, no alcoolismo crónico. De importância menor é a acção da catálase
dos peroxissomas (ver equação 6). O acetaldeído formado entra para as mitocôndrias do hepatócito e
aqui, por acção catalítica da desidrogénase de aldeídos, ocorre a oxidação do acetaldeído a acetato
sendo o NAD+ o agente oxidante (ver equação 7). Uma pequena parte do acetato é, após activação a
acetil-CoA nas mitocôndrias (sintétase de acetil-CoA: ver equação 8), oxidado no ciclo de Krebs do
próprio fígado ou, numa parte ainda menor, usado como substrato da lipogénese [10]. A maior parte
do acetato formado no fígado é transportada para o plasma sanguíneo sendo, após activação a acetilCoA (ver equação 8), usado como combustível pelos tecidos extra-hepáticos [10-11].
etanol + NAD+  acetaldeído + NADH
etanol + NADPH + O2  acetaldeído + NADP+ + 2 H2O
etanol + H2O2  acetaldeído + 2 H2O
acetaldeído + NAD+ → acetato + NADH
acetato + CoA + ATP  acetil-CoA + AMP + PPi
(4)
(5)
(6)
(7)
(8)
14-
O etanol é um nutriente: o seu valor calórico (7 kcal/g) é superior ao dos glicídeos e proteínas (4
kcal/g) e inferior ao dos lipídeos da dieta (9 kcal/g). Se admitirmos que a conversão etanol 
acetaldeído ocorreu via desidrogénase do etanol (ver equação 4), que a lançadeira operante é a
lançadeira do malato e que na activação do acetato se gastam duas ligações ricas em energia do ATP
(ver equação 8) concluímos que, como consequência da oxidação completa (a CO2) de uma molécula
de etanol, pode haver a formação líquida de cerca de 13 “ligações ricas em energia” do ATP5. O
etanol é um nutriente que, ao contrário dos glicídeos e dos lipídeos, não forma substâncias de
reserva sendo rapidamente oxidado (cerca de 6g/h) até desaparecer do organismo. Para um
determinado nível de consumo de ATP existe uma velocidade de oxidação de nutrientes que permite
manter a velocidade de formação de ATP igual à velocidade de hidrólise. Quando o organismo está a
usar etanol como combustível poupa os outros nutrientes, em particular os ácidos gordos mas
também a glicose [11-12]. Tendo em conta este efeito inibidor da oxidação do etanol na oxidação dos
ácidos gordos poderia pensar-se que um dos efeitos da ingestão de etanol seria o aumento da
concentração plasmática de ácidos gordos mas acontece exactamente o contrário. O acetato plasmática
provoca, nos adipócitos, inibição da lipólise e, consequentemente, diminuição na concentração
plasmática de ácidos gordos livres [10-11]. Tendo em conta o efeito inibidor da oxidação do etanol na
oxidação da glicose poderia pensar-se que um dos efeitos da ingestão de etanol seria um aumento na
glicemia; no entanto, porque a ingestão de etanol também provoca diminuição da gliconeogénese
hepática [13] o computo geral é a ausência de efeito na glicemia [10-11].
15-
A ingestão crónica de etanol pode levar à acumulação de triacilgliceróis nos hepatócitos, uma
condição que se designa de esteatose hepática (ou fígado gordo). Esta condição pode eventualmente
evoluir para hepatite e cirrose. Entre os factores que estão na patogenia da esteatose hepática
alcoólica destacaríamos que o etanol tem, no fígado, um efeito inibidor na AMPK e activador no
SREBP-1c: consequentemente vai haver diminuição na oxidação hepática dos ácidos gordos que vão
ser desviados para a esterificação [14]. Esta activação da síntese de triacilgliceróis não é compensada
por aumento na secreção de VLDL (a ingestão de etanol não afecta a secreção de VLDL [15]) e os
triacilgliceróis formados acumulam-se nos hepatócitos.
5
Este cálculo pressupõe a formação de 5 ATPs como consequência da oxidação das 2 moléculas de NADH formadas na
conversão etanolacetato e de 10 ATPs na oxidação de uma molécula de acetil-CoA no ciclo de Krebs. Pressupõe
também o gasto de 2 “ligações ricas em energia” do ATP na activação do acetato a acetil-CoA; são duas e não uma
porque nesta reacção se forma AMP (e não ADP; ver equação 8).
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