A HISTÓRIA DA
FRATELLI VITA
NO RECIFE
Gustavo Arruda
Em memória de Francisco Vita Sobrinho e Miguel Vita.
RECEITA
“Nesses tempos em que o sol
Parece fogo, crepita,
Só nos salva o Guaraná
Feito na Fratelli Vita.
A própria insolação,
Já toda a gente o acredita,
Se toma o Guaraná
Somente o Fratelli... evita...”
- Zé Prosa (“Jornal do Recife”, p. 4, 4-set-1927)
Recife, 2014
1ª Edição
CAPA
do autor
O Guaraná de 192 ml dos anos 1960 (Aracaju, 2014 - reconstituição de Anselmo
Vieira da Silva), sobre detalhe de cartão-postal da Rua da Aurora (Recife, 1945 acervo do Arquivo Público do Estado de Pernambuco Jordão Emerenciano APEJE)
ÚLTIMA CAPA
do autor
O engradado de madeira dos anos 1970. Salvador, 2013
(site “Mercado Livre”)
DIAGRAMAÇÃO
do autor
REVISÃO FINAL
Theodulino Miranda
Direitos autorais na FBN sob registro 620.754, do livro 1.191, na folha 174
Agradecimentos
Agradeço a todos que disponibilizaram material para que fosse possível a realização deste
trabalho:
o
Wilson Ribeiro da Silva (“Mágico Alakazam”), Recife - pelas informações sobre o “Cirquinho
Fratelli Vita”;
o
Alexandre Martins Vita (engenheiro civil), Recife, e José Miguel Vita Neto (empresário) e Jário
Barreto Vita (empresário), Salvador - pela disponibilização do rico acervo;
o
André Gil Pereira Lima (cinemateca da Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ), Recife - pela foto
do filme “Jurando Vingar”;
o
Antônio Juvino Dantas (ex-historiador do Centro de Estudos de História Municipal - CEHM),
Recife - pela dica do site da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil, FBN;
o
Anselmo Vieira da Silva (colecionador de garrafas de refrigerantes antigos), Aracaju - pelas fotos
das garrafas;
o
Ayrton José Vita (Consultor em TI), Petrolina - pelas fotos dos brindes;
o
Carlos Bezerra Cavalcanti (professor e pesquisador da história de Pernambuco), Recife - pelas
informações valiosas;
o
Carlos Leal (programador de produção), Recife - pelo anúncio com a ilustração do interior da fábrica
da Rua da Imperatriz;
o
Cristina Vita (funcionária pública) e Carmen Vita (médica), Recife - pela disponibilização das fotos
de família;
o
Dayse Conceição (pesquisadora da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil, FBN), Rio de Janeiro pela pesquisa das matérias antigas no Diário de Pernambuco;
o
Djalma Ferreira Maia (economista) - pelas informações sobre a Rua Francisco Vita;
o
Eliane Moury Fernandes (historiadora e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ),
Recife - pela disponibilização da entrevista de Miguel Vita a Fátima Quintas;
o
Francisco Miranda (pesquisador), Recife - pelas informações sobre a Segunda Guerra Mundial no
Recife;
o
Francisco Vita (Chef de Cuisine), Recife - pela disponibilização do seu acervo de fotos;
o
Hildo Leal da Rosa e Sandra Veríssimo (Arquivo Público do Estado de Pernambuco Jordão
Emerenciano - APEJE), Recife - pelas documentações e foto do letreiro nas margens do Capibaribe;
o
Irineu Souza (ex-controlador de vasilhames da Fratelli Vita), Recife - pelo descontraído depoimento;
o
José Jayme Vita (engenheiro), Recife, e Jonas Ferreira Vita (ex-diretor de vendas da matriz da
Fratelli Vita), Salvador - pelas informações e fotos disponibilizadas;
o
José Lins (ex-chefe de escritório da Fratelli Vita), esposa Aline Grego Lins e filhos Marcelo Grego
Lins, Martha Grego Lins e Milton Grego Lins, Recife - pelas informações e foto da garrafa
gigante;
o
José Vita (ex-gerente de vendas da Fratelli Vita) e Judith Vita (farmacêutica), Recife - pela valiosa
entrevista e disponibilização das fotos de família;
o
Leonardo Dantas (historiador), Recife - pelas informações sempre precisas;
o
Mariana Vita (publicitária), Recife - pela letra do jingle de rádio;
o
Miguel Vita Filho (advogado), Recife - pelo grande empenho e disponibilização do seu acervo de
textos, documentos, fotos e brindes;
o
Mônica Karoline Alexandre da Silva (historiadora), Recife - pela disponibilização do seu trabalho
acadêmico;
o
Romano Farsoun (ex-gerente de vendas da Fratelli Vita), Recife - pela esclarecedora entrevista;
o
Romero Cavalcanti (advogado e ex-procurador do estado de Pernambuco), Recife - pelas
informações sobre o tipógrafo Alfredo Rodrigues da Fonseca;
o
Rostand Medeiros (pesquisador), Natal - pela disponibilização das fotos do seu blog “Tok de
História”;
o
Sandro Vasconcelos (responsável pelo Setor de Pesquisas do Museu da Cidade do Recife), Recife pela foto do outdoor;
o
Sérgio Grinberg (colecionador de tampinhas de bebidas antigas), Rio de Janeiro - pela
disponibilização das fotos das tampinhas;
o
Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP (biblioteca) e Universidade Federal de
Pernambuco - UFPE (biblioteca), Recife - pelo acesso aos livros sobre a imigração italiana no Brasil;
o
Vanessa Petri (coordenadora de vendas dos D.A. Press), Brasília - pela disponibilização das edições
antigas do Diário de Pernambuco;
o
Vanessa Vita (relações públicas), Recife - pela disponibilização do jogo de quebra-cabeça;
o
Virgínia Silva e Lúcia Gaspar (Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundação
Joaquim Nabuco - FUNDAJ), Recife - pelos anúncios nas revistas antigas;
o
Wagner Carvalho (ex-bibliotecário da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco - BPE), Recife pela pesquisa e disponibilização dos anúncios antigos.
Sumário
PREFÁCIO DO AUTOR………………………………………………………………………..
7
A SAÍDA DOS IRMÃOS VITA DA ITÁLIA…………………………………………………..
9
O DIFÍCIL COMEÇO NO BRASIL…………………………………………………………….. 10
O ENCONTRO DO IRMÃO VITA COM O CANGACEIRO………………………………..... 12
A CRIAÇÃO DA FRATELLI VITA………………………………………………………….... 13
O GUARANÁ FRATELLI VITA…………………………………………………………..…... 14
O INÍCIO DA CONCORRÊNCIA…………………………………………………………….... 15
A FÁBRICA DO RECIFE……………………………………………………………………… 16
A MÁQUINA DE AUTOATENDIMENTO…………………………………………………… 18
A FÁBRICA DE GARRAFAS………………………………………………………………….. 19
A NOVA FÁBRICA NA SOLEDADE…………………………………………………………. 20
A INFRAESTRUTURA DA FRATELLI VITA………………………………………………... 22
A REFORMA DA FÁBRICA NA SOLEDADE……………………………………………...... 24
A ESPOSA DE “SEU FRATELLI VITA”…………………………………………………….... 26
A FRATELLI VITA NA HISTÓRIA DO RECIFE…………………………………………….. 27
A Revolução Praieira………………………………………………………………………… 27
A Estrada de Ferro Sul de Pernambuco…………………………………................................ 28
A implantação dos bondes elétricos………………………………………………………….. 28
As revistas de vanguarda…………………………………………………………………….. 31
O Ciclo do Cinema do Recife……………………………………………………………….. 33
A primeira travessia aérea sem escalas do Atlântico Sul………………………………......... 36
A implantação da telefonia automática…………………………………………………........ 37
A primeira viagem do Zeppelin ao Brasil…………………………………………………… 38
A Revolução de 30…………………………………………………………………………... 40
A Era de Ouro do Rádio…………………………………………………………………....... 42
A base aérea norte-americana no Recife………………………………………....................... 44
A primeira visita do frevo a Salvador……………………………………............................... 48
O lançamento dos refrigerantes diet no Brasil…………………………………….................. 50
As primeiras emissoras de TV……………………………………………………………….. 50
Os comerciais……………………………………………………………………………... 51
O “Cirquinho Fratelli Vita”……………………………………………………………… 52
O “Clube Roy Rogers”……………………………………………………………............ 52
O Carnaval do Recife……………………………………....................................................... 53
O VERDADEIRO “TAMPA DE CRUSH”…………………………………….......................... 54
O MARKETING DA FRATELLI VITA DO RECIFE…………………….…………………... 56
A LIDERANÇA DA FRATELLI VITA……………………………………............................... 60
A DISPUTA COM A COCA-COLA…………………………………….................................... 62
FRANCISCO VITA SOBRINHO………………………………………..................................... 66
O ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES……………………………………........................ 68
MIGUEL VITA…………………………………………………………………………………. 70
O GUARANÁ FRATELLI DA BRAHMA…………………………………………………….. 73
O QUE RESTOU DA FRATELLI VITA NO RECIFE……………………………………….... 75
A VOLTA DO GUARANÁ FRATELLI VITA………………………………………………... 76
A SAUDADE DA FRATELLI VITA…………………………………………………………... 77
CRONOLOGIA DA FRATELLI VITA NO RECIFE………………………………………….. 79
REFERÊNCIAS………………………………………………………….............……………... 82
SITES RELACIONADOS………………………………………………………………………. 85
O AUTOR………………………………………………………………………………………. 86
Prefácio do autor
Em 1941, a Coca-cola instalou no Recife a sua primeira fábrica do Brasil. Entretanto, a maior
companhia de refrigerantes do mundo não esperava encontrar na Capital do Frevo a forte concorrência
de uma marca regional: a Fratelli Vita. Os refrigerantes da antiga fábrica dos irmãos Vita eram
tradicionalmente consumidos há décadas e, segundo os contemporâneos, os mais gostosos em qualquer
sabor: guaraná, limão, maçã ou pera. Especialmente no de guaraná. Bem docinho, de cor escura e com
um delicioso aroma, acondicionado em uma charmosa e inconfundível garrafinha. O Guaraná Fratelli
Vita era presença certa na hora do recreio da escola, no lanche de casa e em qualquer ocasião, para
aplacar a sede que o clima quente do Nordeste provoca. As fotografias de casamentos, aniversários,
festas em clubes e comemorações da sociedade local, invariavelmente, exibiam as mesas repletas de
garrafas da Fratelli Vita. Normalmente já vazias ou parcialmente consumidas.
Até que os refrigerantes Fratelli Vita começaram a desaparecer das prateleiras, para se
extinguirem completamente. A idolatrada fábrica havia sido vendida para uma grande indústria
nacional de bebidas, que aos poucos deixou de fabricar os populares refrigerantes regionais. Mas,
embora extintos, a lembrança “gustativa” do líquido daquelas simpáticas garrafinhas permaneceu viva
por 4 décadas na memória dos consumidores, juntamente com a ingênua esperança de um dia sentirem
novamente o sabor incomparável do Guaraná Fratelli Vita. Mesmo que quem quisesse conhecer
melhor a história da extinta Fratelli Vita no Recife não dispunha de um livro sobre ela.
Pelo menos até a publicação deste trabalho, ilustrado com dezenas de imagens raras, que surgiu
após dois anos de pesquisas por 80 anos de informações em bibliotecas públicas e de universidades,
museus, fundações, arquivos públicos e sites. Foram inúmeras consultas a documentos e pessoas
contemporâneas da fábrica, trabalhos acadêmicos e trocas de correspondência eletrônica com os
descendentes da família Vita no Recife e em Salvador. Tudo para tentar documentar a trajetória da
Fratelli Vita na Veneza Americana, com os seus personagens, lendas e curiosidades. Da implantação
do bonde elétrico e do telefone automático, passando pelas visitas do Jahu e do Zeppelin, pelo Ciclo do
Cinema do Recife, pela Revolução de 30 e a Segunda Guerra, até a chegada do rádio e da TV local.
Uma história rica e apaixonante, que precisava ser contada às novas gerações para jamais ser
esquecida.
A saída dos irmãos Vita da Itália
No final do século 19, um rapazinho franzino entra em um dos navios migratórios da Itália com
destino à América do Sul. Era Giuseppe Vita, um pastor de ovelhas da cidade de Trecchina (província
de Potenza, na região de Basilicata), nascido em 10 de maio de 1869, que pretendia “fazer a América”
e enviar dinheiro para ajudar os parentes que ficavam. O primeiro dos 4 irmãos homens da família Vita
que migrariam para o Brasil, entre os 8 filhos de Michele Vita e Magdalena Charelli Vita. Como ele,
milhares de camponeses, principalmente do ainda não industrializado Sul da Itália, aceitaram os
insistentes convites dos
7.169 agentes de emigração que prometiam “enriquecimento
fácil e rápido” no outro lado do Atlântico. Entre 1870 e 1930,
33 agências de emigração lucraram vendendo esperanças aos
italianos. Para os camponeses era aparentemente uma boa
alternativa à falta de emprego e perspectivas futuras, em um
país recém-saído da Guerra de Unificação (1866), com uma
alta taxa demográfica e em depressão econômica.
Panfleto estimulando a emigração para o Brasil, no qual se lê:
"Na América. Terras no Brasil para os italianos. Navios
partindo toda semana do porto de Gênova. Venham construir
seus sonhos com a família. Um país de oportunidades. Clima
tropical e abundância. Riquezas minerais. No Brasil vocês
podem ter o seu castelo. O governo dá terras e ferramentas
para todos". Itália, final dos anos 1800 (site “Wikimedia
Commons”)
Para as famílias pobres da região rural, geralmente
com muitos filhos e um pedacinho de terra (suficiente
para o sustento apenas dos pais e dois filhos), a
emigração era uma solução para reduzir a família. E,
depois das barreiras imigratórias impostas pelos
Estados Unidos da América (até então o principal destino dos
italianos), a América do Sul passou a ser a melhor opção. Entre 1870 e 1959, vieram mais
de 1.507.695 italianos para o Brasil. Mas as viagens nesses navios não eram nenhum passeio turístico
transoceânico. Na maioria das vezes com custeio próprio, duravam entre 20 e 30 exaustivos dias,
durante os quais os passageiros ficavam amontoados na “terceira classe”, enquanto grassavam
epidemias e mortes por envenenamento com comida estragada.
O difícil começo no Brasil
Giuseppe, que depois aportuguesaria o nome para “José”, foi primeiramente para Buenos Aires,
na Argentina. Não se adaptando, encaminhou-se para o Brasil com destino ao interior da Bahia (Santa
Luzia de Alagoinhas), confiante na proteção da incipiente mas dinâmica colônia italiana baiana.
Começou viajando com ciganos ao longo da ferrovia "Bahia-São Francisco" (como vendedor
ambulante de “trabalhos artesanais em cobre”), até precisar retornar à Itália para prestar o serviço
militar e trazer o irmão Francesco, nascido em 17 de abril de 1868, que aportuguesou o nome para
“Francisco” (HEROLD, 2008). A acolhida no Brasil do Segundo Reinado era muito boa. O País
desejava colonizar seus vazios demográficos, obter mão de obra para a lavoura (que não a já rechaçada
escravatura do negro) e promover um “branqueamento” da população nacional. E a política migratória
brasileira para europeus visava preferencialmente os italianos, pela sua “latinidade” (com fácil
assimilação da cultura brasileira), religião católica apostólica romana e por serem
brancos (havia sentimentos antilusitanos e contra os espanhóis). Mas o
enriquecimento na América nem era fácil nem rápido, como garantiam os agentes
de emigração.
O aparelho de gás acetileno (unidade nº 121) em foto do requerimento de
patente na Junta Comercial do Estado da Bahia - JUCEB. Salvador, jul.
1904 (acervo do Arquivo Público do Estado da Bahia - APEB)
Dos outros irmãos da família Vita que saíram da Itália para o Brasil,
Domenico (nascido em 29 de maio de 1875) logo se transferiu para a Argentina, não
revendo mais os irmãos. E Angelo (nascido em 12 de julho de 1870) se instalou em
Jequié, interior do estado da Bahia, fabricando artesanalmente “malas de madeira
revestidas em couro”. Giuseppe e Francesco, mais unidos, em 1889 mudaram-se para Salvador,
começando a tentar ganhar dinheiro em diferentes atividades. A princípio sem profissão definida,
trabalharam como empregados assalariados nas funções de carregadores, garçons e office-boys.
Giuseppe, então, criou um aparelho de iluminação com gás acetileno a carbureto, medindo 267 cm de
comprimento por 200 cm de circunferência, e associou-se com Francesco em uma pequena empresa
artesanal para fabricação desses equipamentos. A ideia era vender iluminação, principalmente para
festas públicas do interior baiano, quando a eletricidade ainda não havia se massificado.
As “irmães Vita”, que não vieram para o Brasil, chamavam-se Maria Teresa (nascida em 6 de outubro de
1865), Caterina (nascida em 31 de janeiro de 1874), Maria Michela (nascida em 8 de outubro de 1878) e a
caçula Rosina (nascida em 11 de novembro de 1896).
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