Ano 6 · Nº 22 · 2014
HPV
Conheça tudo sobre o vírus que pode causar
o câncer de colo do útero, o tipo de câncer
mais comum entre as mulheres maranhenses.
66ª SBPC
Acre vai receber o maior evento
científico do país.
ACIMA DO PESO
Saiba como driblar a obesidade,
doença que atinge 17% da
população brasileira.
A VOZ DA INTERNET
Veja como essa ferramenta têm
modificado as relações entre
cidadania e liberdade.
COMIDA ENVENENADA
Agrotóxicos podem causar danos à
saúde humana e ao meio ambiente.
Cada vez mais, o Maranhão destacase na área de inovação tecnológica
e científica. Para impulsionar esse
avanço, o Governo do Estado e a
Fundação de Amparo à Pesquisa
e ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão (FAPEMA)
criaram o PATRONAGE, um sistema
de administração de bolsas e auxílios.
Vantagens do novo PATRONAGE:
• Pedido e acompanhamento de solicitação
de bolsa ou auxílio;
• Gerenciamento de avaliação;
• Cadastro de consultores ad-hoc e
avaliação de proposta on-line;
• Relatório parcial e final do projeto;
• Solicitação de Renovação de Bolsa.
O PATRONAGE é um instrumento
indispensável para facilitar a gestão
de informação e apoio logístico
aos pesquisadores. O acesso foi
aprimorado e agora está muito mais
fácil, inclusive para estrangeiros.
2
Revista Inovação nº 22 / 2014
www.fapema.br/patronage
Editorial
Expediente
Em 2014, pela primeira vez, a
população brasileira teve acesso
gratuito a uma vacina que protege contra câncer. O Ministério
da Saúde disponibilizou doses da
vacina para imunizar meninas de
11 a 13 anos contra o HPV, vírus
responsável por 95% dos casos de
câncer de colo do útero, que apresenta a primeira maior taxa de
incidência entre os cânceres que
atingem as mulheres no Maranhão
e a segunda no Brasil, atrás apenas
do de mama.
Para esclarecer alguns mitos
sobre a vacina e mostrar o que
está sendo desenvolvido na área
científica de nosso estado sobre o
assunto, a matéria de capa desta
edição da Revista Inovação traz
a fala de especialistas e a história
de Luiza, que teve que lutar contra
um câncer de colo de útero por ter
descuidado da saúde. Você vai ver
que a prevenção ainda é o melhor
remédio para evitar essa doença
tão devastadora.
Falando em ciência, a cidade
de Rio Branco, no Acre, se prepara
para receber a 66ª Reunião Anual
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que traz
o tema “Ciência e Tecnologia em
uma Amazônia sem Fronteiras” e
tem como proposta discutir o impacto que a ciência e tecnologia
podem causar no conhecimento e
desenvolvimento da Amazônia.
Voltando à área da saúde, preparamos uma matéria especial sobre obesidade. Os dados sobre a
doença são preocupantes, já que
metade da população brasileira
está acima do peso. Vamos mostrar os resultados de pesquisas que
apontam que a maior aliada na
luta contra os efeitos da doença,
que acomete as pessoas cada vez
Governadora do Estado
do Maranhão
Roseana Sarney Murad
Secretário de Estado da Ciência,
Tecnologia, Ensino Superior e
Desenvolvimento Tecnológico
José Ferreira Costa
Fundação de Amparo à Pesquisa
e ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão - FAPEMA
Diretora-Presidente
Rosane Nassar Meireles Guerra
Diretora Científica
Cláudia Maria Coêlho Lopes
mais cedo, ainda é a alimentação
saudável.
Você também vai ler nesta edição que a presença de agrotóxicos
na plantação pode causar riscos à
saúde humana e ao meio ambiente. Pesquisas realizadas com tomates e pimentões mostram que a
utilização dessas substâncias pode
interferir até no metabolismo dos
vegetais.
E por falar em vegetais, pesquisadoras maranhenses estão
investigando as propriedades de
alimentos naturais, como a amora
e a soja, como alternativas para o
desconforto sentido pelas mulheres durante a terapia de reposição
hormonal. Quer saber mais detalhes sobre essa e outras pesquisas
realizadas em nosso estado? Leia a
Revista Inovação.
Diretora Administrativo-Financeiro
Stael Chaves Pereira
Coordenadora do Núcleo de Difusão
Científica - NDC
Nathalia Ramos
Editora responsável
Priscila Cardoso
Redação
Carol Neves, Elizete Silva, Ivandro
Coêlho, Tatiana Salles, Tayna Abreu e
Venilson Gusmão
Design Gráfico
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Fotos
Venilson Gusmão, Paulo Fernandes
Keller, Roberto Santos Ramos e
divulgação.
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Uma nova voz para um
novo mundo
Riqueza que vem das
mãos
Sumário
Vem aí a 66ª SBPC!
06
10
16
Reposição hormonal
44
Futuro ameaçado
50
22
De olho no HPV
32
O que você está
comendo?
38
Obesidades, a grande
vilã da vida saudável
6
Revista Inovação nº 22 / 2014
Vem aí a
SPBC!
A Fundação de Amparo à Pesquisa do
Maranhão apresenta a produção científica
do estado na 66ª Reunião Anual da SBPC,
que será realizada em julho, no Acre
Por Elizete Silva
A
s produções científicas
produzidas no Maranhão
e apoiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão (FAPEMA)
poderão ser vistas na 66ª Reunião
Anual da Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC), durante
o período de 22 a 27 de julho de 2014,
na Universidade Federal do Acre, em
Rio Branco. Quem visitar o stand da
Fundação instalado na ExpoT&C vai
conhecer trabalhos desenvolvidos nas
mais diversas áreas.
No local, além de livros, revistas
e CDs com a temática Ciência, Tecnologia & Inovação, estarão expostos
folders e revistas das áreas de Turismo, Cultura, Indústria e Comércio,
revelando um estado com uma carta
de investimentos de R$ 100 milhões
e que se destaca como uma grande
oportunidade para implantação de novos negócios.
“A SBPC é um espaço de interação para pesquisadores, professores e
estudantes. O governo do Maranhão
não poderia ficar de fora de tão importante evento onde podemos mostrar as ações, produtos e serviços do
estado e conhecer a produção de todas
as regiões do país, já que todos os estados estarão representados, seja com
stand, com palestras, minicursos ou
oficinas”, disse a diretora presidente
da FAPEMA, Rosane Nassar Meireles
Guerra.
O stand da Fundação na SBPC de
2013, realizada em Recife, recebeu milhares de pessoas durante os cinco dias
do evento. O público maior de visitan-
Revista Inovação nº 22 / 2014
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Universidade Federal do Acre, onde será
realizada a 66ª edição da SBPC.
tes ocorreu durante o lançamento de
livros de pesquisadores maranhenses
apoiados pela FAPEMA. Dentre os livros lançados, destaque para o livro
Pesquisadores do Maranhão, organizado pelo Núcleo de Difusão Científica da FAPEMA. A publicação traz o
resumo de projetos de pesquisas que
receberam o financiamento da Fundação por meio de editais como o Universal, PPP e Maranhão Faz Ciência
entre 2012 e 2013. “Esperamos uma
visitação ainda maior este ano no
nosso stand”, salientou a presidente.
SEM FRONTEIRA
O tema da SBPC deste ano, “Ciência e Tecnologia em uma Amazônia
sem Fronteiras”, tem como proposta
a discussão sobre como a ciência e a
tecnologia podem causar impacto no
conhecimento e desenvolvimento da
Amazônia. “O estado do Maranhão,
por também fazer parte da Amazônia
Legal, juntamente com o Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Mato Grosso,
tem todo o interesse em participar dos
debates que surgirão a partir do tema
proposto”, reforçou Rosane Guerra.
APOIO
Em 2013, o stand da FAPEMA, instalado na ExpoT&C,
expôs as produções científicas produzidas no
Maranhão. Este ano, a experiência será repetida.
Como contribuição para o sucesso
do evento, a FAPEMA está apoiando,
por meio de edital, a participação de
alunos com o financiamento de parte
das despesas com passagem, alimentação e inscrição no evento. Ano passado, o Maranhão foi o segundo estado com maior número de inscritos na
SBPC realizada em Recife, perdendo
apenas para o estado sede do encontro.
NOVIDADES
8
Abertura oficial da 65ª SPBC, realizada em
Recife.
A edição
teve
recorde
Revista
Inovação
nº 22
/ 2014 de público.
A SBPC deste ano inova ao abrir
um espaço maior para a participação da família. A ideia da abertura
do evento na terça-feira e o encerramento no domingo – nas outras edições a abertura era no domingo e o
encerramento na sexta-feira – visa,
exatamente, dar oportunidade para as
famílias conhecerem o que está sen-
SOBRE A SBPC
Realizada desde 1948, com a
participação de representantes de
sociedades científicas, autoridades e gestores do sistema nacional
de ciência e tecnologia, a Reunião
Anual da SBPC é um importante
fórum para a difusão dos avanços
da ciência nas diversas áreas do
conhecimento e um fórum de debates de políticas públicas para a
ciência e tecnologia.
A programação científica é,
geralmente, composta por conferências, simpósios, mesas-redondas, encontros, sessões especiais,
minicursos e sessões de pôsteres.
Também são realizadas outras
atividades, como a SBPC Jovem
(programação voltada para estudantes do ensino básico), a
ExpoT&C (mostra de ciência e
tecnologia) e a SBPC Cultural
INSCRITOS NOS ÚLTIMOS 5 ANOS:
(apresentação de atividades artísticas regionais e discussões sobre
temas relacionados à cultura).
A cada ano, a Reunião Anual
da SBPC é realizada em um estado brasileiro, sempre em universidade pública. O evento reúne
milhares de pessoas - cientistas,
professores e estudantes de todos
os níveis, profissionais liberais e
visitantes.
Ano
Edição da Reunião
Local
Nº de Inscritos
2010
62ª
Natal (RN)
8.853
2009
2011
2012
2013
61ª
63ª
64ª
65ª
O Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco
Antonio Raupp, entre o Secretário da Ciência, Tecnologia,
Ensino Superior e Desenvolvimento Tecnológico do
Maranhão, José Ferreira Costa, e a Presidente da FAPEMA,
Rosane Guerra, na 65ª SPBC.
Lançamento do livro “Pesquisadores do Maranhão”,
organizado pelo Núcleo de Difusão Científica da
FAPEMA.
Manaus (AM)
Goiânia (GO)
São Luís (MA)
Recife (PE)
6.215
9.022
11.913
22.930
do exposto e apresentado no evento já que
os passeios em família geralmente acontecem nos fins de semana. O Dia da Família na
Ciência promete atrair um grande número de
pessoas.
Outra novidade, a SBPC Indígena que
inclui debates acerca do universo indígena
como “Ciência e Educação Indígena”, “Saúde Indígena”, além da realização de rituais
e apresentações musicais de povos indígenas
do Brasil, Bolívia e Peru, também deve ser
uma atração de sucesso do evento.
Nesta edição, também será promovida a
reunião das principais associações científicas
dos Estados Unidos, da China, da Europa e da
Índia, além de pesquisadores renomados da
América Latina, para participarem de debates
sobre temas de impacto em política científica.
Entre as Instituições estão a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), a
Associação Chinesa para a Ciência e a Tecnologia (CAST, na sigla em inglês), a Associação Europeia para Ciência (EuroScience) e o
Congresso de Associações de Ciência da Índia
(ISCA).
Como em anos anteriores, o acesso é livre
e gratuito em todas as atividades da reunião,
exceto minicursos: conferências, mesas-redondas, encontros, sessões de pôsteres, atividades culturais (SBPC Cultural), atividades
para estudantes do ensino básico ou técnico
(SBPC Jovem) e exposições (ExpoT&C).
Revista Inovação nº 22 / 2014
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CIÊNCIAS
SOCIAIS APLICADAS
Uma nova
voz para
um novo
mundo
10
Revista Inovação nº 22 / 2014
Como as interações
entre o virtual e o real
têm modificado as
relações de cidadania
e liberdade
Por Tayna Abreu
Fotos divulgação
A
década de 10 do séc. XXI vem,
mais que as anteriores, quebrando antigos paradigmas e
com uma rapidez impressionante. Não seria exagero afirmar que vivemos em outro mundo, completamente diferente daquele em que a internet foi criada,
nos anos 1990.
Se, por um lado, o mundo offline parece
em perigo, por outro, é justamente online
que as pessoas estão buscando voz para
as suas questões do dia a dia. Desde novas
formas de comércio, prestação de serviços,
passando pela busca de direitos e, mais recentemente, ampla participação política, a
internet tem tomado a frente em questões
até então resolvidas no mundo físico.
O pesquisador Francisco Paulo Marques
desenvolveu no Maranhão o projeto Internet, participação e representação política um estudo dos mecanismos de participação
presentes nos websites de parlamentares
brasileiros, onde investiga como o parlamento faz uso da internet.
Revista Inovação nº 22 / 2014
11
Para Marques, duas questões
devem ser debatidas quando se
trata do uso da internet. Questões
essas que refletem preocupações
das Ciências Sociais e Humanas.
“De um lado, a inquietação com as
consequências promovidas pelas
tecnologias digitais de comunicação e, de outro lado, a preocupação
revelada por uma reinterpretação
das teorias da democracia. Mais
exatamente, refere-se à reflexão
sobre os modos de se fortalecer a
participação política da esfera da
cidadania”, explicou.
“Considere-se ainda que, se,
por um lado, a existência de ferramentas de comunicação digital,
bem como seu uso por agentes políticos, sobretudo em épocas eleitorais, não é mais um fenômeno tão
recente, por outro lado, ainda são
escassos os estudos brasileiros que
procuram dar conta disso”, comentou Francisco Marques, que recebeu apoio da Fundação de Amparo
à Pesquisa e ao Desenvolvimento
Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) para realizar a
pesquisa.
A forma como se dá esse uso
já é, entretanto, questionada abertamente na própria internet, e a
queixa se refere ao modo ultrapassado de lidar com comunicação.
Sites especializados em discutir as
preocupações recentes em comunicação questionam o status de “político 2.0” e o “efeito manada” que
levou muitos às redes sociais e à
criação de sites.
Para o especialista em marketing digital, Gabriel Rossi, as duas
redes com maior expressão atualmente, Facebook e Twitter, têm
papel decisivo no uso e na forma
de uso da internet, principalmente em ano de eleições. “O Twitter,
por exemplo, possui duas funções
na política. A primeira é munir jornais, revisas e grandes portais com
informação sobre os candidatos. A
segunda é a comunicação mais direta e humana com o eleitorado”, explicou Rossi em entrevista ao Portal
TechTudo.
O jornalista Marcelo Tonetto, do
Observatório da Imprensa, lembra
que o boom da internet como forma de interação entre o político e o
É visível um crescente aumento na
percepção de que o meio virtual é sim um
local onde o cidadão pode expressar suas
ideias, podendo estas serem ouvidas por
aqueles que devem intervir.
Diego Lira, jurista
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Revista Inovação nº 22 / 2014
eleitor começou nos Estados Unidos,
com a campanha de Barack Obama para se tornar presidente. Já no
Brasil, “as eleições presidenciais de
2010 inauguraram uma nova era
nas campanhas políticas do Brasil:
a das redes sociais”, afirmou.
Tonetto explica que, na época,
os principais candidatos à presidência do Brasil, José Serra e Dilma Rousseff, trilharam um “caminho sem volta” ao estreitar “seus
vínculos com milhões de anônimos
e foram pautados por eles, descentralizando o foco das campanhas”.
Fato esse que o jornalista chama de
“vitória democrática”.
Já Francisco Marques lembra
que hoje as próprias instituições
do Estado vêm procurando incrementar seu relacionamento com
os cidadãos através da Internet.
“A rede é hoje o lugar do debate. E é nela que se apoiam figuras
políticas, seja prestando serviços e
informações, seja colhendo sugestões de aprimoramento quanto à
elaboração e execução de políticas
públicas”, disse.
O teórico João Pissarra Esteves,
por sua vez, afirma que “desde a
emergência da internet que lhe são
associadas possibilidades políticas
fantásticas, mas se a dado momento esse entusiasmo inicial esmoreceu, logo a seguir o mesmo foi retomado ainda mais vigorosamente,
com a Web 2.0, em função de suas
características participativas, interativas e pluralistas”.
através da Internet relacionados à
jurisdição são os juizados virtuais
e as petições de requerimento coletivo. Lira explica que, enquanto
os primeiros são ambientes virtuais
onde advogados e leigos podem fazer petições, as petições coletivas
são requerimentos que angariam
pessoas em prol de uma causa.
“Antes da Internet, para que a população pudesse apresentar um
projeto de lei ou até mesmo requisitar um direito coletivo, era necessário que milhares de assinatu-
percepção de que o meio virtual é
sim um local onde o cidadão pode
expressar suas ideias, podendo estas serem ouvidas por aqueles que
devem intervir”, finalizou.
ALTO-FALANTE
Outro sintoma de que a Internet
tem afetado as relações de poder,
está na dinâmica consumidor –
empresa. Antes restrita aos canais
de reclamação da própria “acusada”, hoje as reclamações por
serviços mal prestados ou mercadorias com defeito, para citar
CIDADANIA E
os mais comuns, têm tomado
DIREITOS
proporções que preocupam
grandes e pequenas empresas,
Lado a lado com a explodos setores público e privado.
são do uso da Internet para
Sites como o Reclame Aqui,
fins políticos, está a busca
criado exatamente por um
por direitos e celeridade na
cliente comum e frustrado,
concessão destes. Outra esfuncionam como verdadeiros
pera de importância na conalto-falantes na hora do consudução da cidadania também
midor exigir reparos. Lançado
Maurício
Vargas,
criador
do
site
está, pouco a pouco, entranem 2001, hoje o site aparece
do na escala virtual, o Poder
como a ferramenta mais rápiJudiciário.
ras fossem tomadas pessoalmente, da na hora de fazer uma reclamaO jurista maranhense Die- o que certamente gerava imensos ção, chegando a cerca de 500 mil
go Lira, falou com exclusividade transtornos. Hoje temos sites es- consultas diárias de consumidores,
para a Revista Inovação, sobre pecíficos onde tais petições podem bem mais que canais mais “ortodoessa nova realidade. Para ele, os ser preenchidas com segurança em xos” como o Procon.
meios jurídicos tem que acompa- instantes, facilitando que os cla“As empresas começaram a finhar o passo dessa nova realidade mores populares cheguem aos res- car preocupadas com sua imagem
2.0. “Justamente por conta disso é ponsáveis”, contou.
e passaram a responder aos consuque nos últimos 15 anos é notáQuestionado sobre se essa nova midores via Reclame Aqui. A repuvel o avanço dos Tribunais sobre realidade afeta de fato a busca de tação está sendo vista como mais
meios alternativos de processo, es- direitos ou se as relações de poder importante que o preço”, explicou
pecialmente quanto aos processos continuam inalteradas, Diego Lira o criador do site, Maurício Varrealizados em juizados virtuais”, é enfático ao afirmar que a voz que gas, em recente entrevista à revista
justificou.
move a Internet move o mundo. “É Época.
A jornalista Raquel Soares, que
Bons exemplos de movimentos visível um crescente aumento na
As empresas começaram
a ficar preocupadas
com sua imagem e
passaram a responder aos
consumidores via Reclame
Aqui. A reputação está
sendo vista como mais
importante que o preço.
Revista Inovação nº 22 / 2014
13
Câmara dos Deputados, durante aprovação do
projeto do Marco Civil da Internet, considerado a
“Constituição da Web”.
MARCO CIVIL
Após as denúncias de espionagem mundial na internet promovida pela Agência Nacional
de Segurança Americana, NSA,
o governo brasileiro deu o start
na aprovação do Marco Civil da
Internet, com a lei nº 12.965. O
objetivo do Marco, que vinha
sendo discutida desde 2009, é
proteger os cidadãos brasileiros
no ambiente digital e regulamentar os direitos e deveres de provedores de sinal, governo e consumidores.
Confira os pontos chave:
- Neutralidade da rede: onde
todas as informações devem ser
tratadas da mesma forma e com
mesma velocidade de conexão.
- Segurança de informações:
já que a obtenção de dados de
conexão só será possível mediante pedido judicial.
Pesquisa apoiada pelo edital
UNIVERSAL/FAPEMA 004/2010,
sob protocolo: 1114/2010
14
Revista Inovação nº 22 / 2014
trabalha diariamente em um portal de notícias maranhense, explica que a força das reclamações e
de tudo o que se diz hoje é muito
maior, graças à dispersão em redes sociais. “Hoje os consumidores
costumam chegar à reputação de
uma empresa nos sites de reclamação, antes mesmo de efetuar a
compra. E isso tudo graças à Internet e às novas formas de comunicação que têm mudado questões
de direito e participação”, argumentou, acrescentando que “se
antes foi a fonte de notícias que
mudou, passando cada vez mais
a ser a Internet em detrimento
de outros meios, hoje a Internet
é também responsável por uma
nova dinâmica de mercado”.
Além das reclamações com empresas, outro tipo de manifestação
tem começado no mundo virtual.
Reuniões em grupos do Facebook
e do Twitter resultaram na chamada Primavera Árabe, e mais recentemente, nas manifestações do
“Vem Pra Rua” no Brasil.
Se, no Oriente Médio, o estopim das manifestações, que
começaram na Tunísia e se espalharam pela Líbia, Egito, Argélia,
Síria, entre outros, foi o caso do
jovem Mohamed Bouazizi, vendedor de frutas morto pela polícia
por se recusar a pagar propina,
no Brasil, a população foi às ruas
para protestar, primeiro contra o
aumento das passagens de transporte coletivo e, mais tarde, por
melhorias na vida social como um
todo.
E o que liga esses dois episódios recentes na busca por cidadania e direitos é a interação nas
redes sociais, possível apenas com
a evolução para a Web 2.0. Esse
fenômeno dos novos meios de
comunicação é explicado por especialistas como uma nova forma
de democracia. “É uma nova perspectiva para os media, dessa vez a
serviço da democracia, como base
de reforço da discussão aberta, da
deliberação dos cidadãos”, explicou Pissarra Esteves, ao exemplificar o modelo de democracia
deliberativa do teórico alemão
Habermas.
Revista Inovação nº 22 / 2014
15
CIÊNCIAS
HUMANAS
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mara
Por Ivandro Coêlho
Fotos Paulo Fernandes Keller e divulgação
P
ara muita gente, o artesanato é uma atividade de valor meramente
estético e cultural. Os
dados, porém, desmentem esse
pensamento, mostrando que o
artesanato é mais que um patrimônio cultural imaterial: trata-se
de uma fonte de renda para milhares de famílias e envolve uma
rede de relações de trabalho e de
produção.
Estima-se que há 8,5 milhões
de artesãos ativos no Brasil. Nesta economia produzida de forma
artesanal, seriam movimentados
R$ 52 bilhões ao ano. A renda
média da atividade seria de R$
515,00. De acordo com o SEBRAE, somente no Maranhão,
existem cerca de 50 mil famílias
vivendo dessa atividade, praticada em sua maioria por mulheres.
Entre os diversos tipos artesanato encontrados em nosso
estado, destaca-se o artesanato
feito à base da fibra de buriti palmeira típica da região, da qual
se extrai o material utilizado para
a confecção da maior parte dos
produtos fabricados pelas artesãs
(bolsas, chapéus, sacolas, toalhas,
caminhos de mesa etc). A matéria
-prima - a fibra de buriti - é parte
do ecossistema natural (buritizais) e também da cultura local.
Para produção de suas peças, as
artesãs utilizam técnicas manuais
como crochê, ‘ponto batido’ e
macramê, entre outras.
A produção de artesanato à
base de fibra de buriti no Ma-
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17
ranhão ocorre de forma predominante em grupos de produção
familiar e de vizinhança, seja no
ambiente rural intercalado com a
agricultura familiar, seja no ambiente semi-rural ou próximo de
área urbana, intercalado com pequenos trabalhos informais. “Trata-se de uma importante fonte de
renda para trabalhadores das classes populares. Em geral, é fonte de
renda complementar para grande
parte de famílias de artesãs”, explicou o professor Paulo Fernandes Keller, do departamento de
Sociologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Doutor em Ciências Humanas
(Sociologia), Paulo Keller, desde
2008, vem estudando o artesanato
maranhense sob diversos ângulos
– passando por questões socioculturais até as relações do trabalho
artesanal com o mercado. Para ele,
18
Revista Inovação nº 22 / 2014
a atividade artesanal não envolve
apenas um lado estético, mas está
inserida também numa economia.
“Como vivem esses profissionais,
que transformações ocorrem nessa atividade e que consequências
essas transformações trazem são
nossas preocupações constantes”,
disse o pesquisador.
Em sua pesquisa mais recente, intitulada Trabalho e economia
do artesanato: o caso da produção
artesanal à base de fibra de buriti
no Maranhão, Paulo Keller está desenvolvendo uma investigação social do trabalho e da economia do
artesanato no Maranhão contemporâneo, incluindo as condições e
formas de organização dessa atividade, a partir de estudos de casos
selecionados (grupos de produção
artesanal na região do arranjo produtivo e criativo do turismo e arte-
sanato de São Luís). O projeto já foi
realizado em Barreirinhas e Tutóia.
Atualmente a equipe do professor
Keller está visitando grupos de São
Luís e Alcântara.
“Partimos da perspectiva de
que o trabalho artesanal, enquanto
atividade econômica, encontra-se
enraizado na vida sociocultural e
institucional da sociedade. Assim,
investigamos os artesãos e sua
imersão em redes de relações sociais de produção que são parte da
cadeia produtiva ou da cadeia de
valor do artesanato, assim como
sua imersão em redes socioculturais e institucionais”, contou o pesquisador.
Para empreender essa análise,
Keller utiliza instrumentos teóricos
da sociologia do trabalho e da sociologia econômica, observando as
especificidades do trabalho artesa-
nal enquanto produtor de cultura e
de mercadoria inserido numa economia popular. A pesquisa envolve
alunos de graduação e pós-graduação do Curso de Ciências Sociais
da UFMA, e conta com o apoio da
Fundação de Amparo à Pesquisa e
ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) e do CNPQ.
CADEIA PRODUTIVA
No caso de Barreirinhas, depois
de fazerem uma análise das relações de trabalho e de produção das
artesãs cooperadas da Artecoop, o
professor Paulo Keller e sua equipe
chegaram à conclusão de que ali
não há trabalho assalariado, por ser
uma forma de trabalho autônomo
ou por conta própria. Contudo, as
artesãs, como trabalhadoras coo-
Revista Inovação nº 22 / 2014
19
Etapas produtivas do artesanato a base de fibra de buriti
1 Extração do ‘olho’ do buriti
2 Extração do linho ou fibra
3 Beneficiamento da fibra
4 Tingimento da fibra
5 Produção ou confecção das peças utilizando diversas técnicas
Os saberes e as habilidades destas trabalhadoras são transmitidos de geração para
geração no seio das famílias e na comunidade local. As atividades de extração do ‘olho’
(broto) da palmeira do buriti na região dos Lençóis Maranhenses são realizadas em sua
grande maioria por homens como uma atividade econômica secundária e informal. Existe
uma clara divisão sexual do trabalho nesta produção artesanal: os homens extraindo a
matéria-prima da natureza (extração do ‘olho’ do buriti) e as mulheres produzindo o artesanato (extração e beneficiamento da fibra e confecção do produto).
20
Revista Inovação nº 22 / 2014
peradas, produzem uma mercadoria (objeto artesanal) que tem valor
(mercantil, cultural e simbólico) e
que circula ao longo da cadeia de
valor do artesanato. Ou seja, embora operem de forma informal e
precária, mesmo assim atendem a
mercados que funcionam segundo
a lógica econômica capitalista.
“Existem práticas cooperativas
na produção artesanal que ocorrem
predominantemente no ambiente
doméstico (sistema de produção
domiciliar), entre as artesãs e seus
familiares (filha e marido, principalmente), assim como no ambiente comunitário e de vizinhança
(pequena oficina coletiva), entre as
artesãs de povoado. As artesãs da
Artecoop estão enraizadas nestas
redes de produção locais e cooperam, sobretudo, na comercialização de seus produtos”, afirmou o
professor.
RESULTADOS
Os principais resultados desse
estudo são artigos científicos publicados em congressos nacionais
e internacionais, entre eles o VI
Congresso Latino-Americano de
Estudos do Trabalho – ALAST, realizado em julho de 2013 na Universidade de São Paulo – USP, e
o 2nd ISA Forum of Sociology –
International Sociological Association, ocorrido em agosto de 2012
na Universidade de Buenos Aires,
Argentina. Atualmente a equipe
de professor Keller está produzindo um vídeo estabelecendo relação
entre o trançado da fibra de buriti e
as redes de relações sociais presentes na economia do artesanato. O
título provisório do documentário
é A trama do trabalho artesanal.
De acordo com o professor
Paulo Keller, o que chamou a atenção no trabalho sobre os artesãos e
artesãs maranhenses foi a relativa
invisibilidade, a carência de dados
estatísticos e a importância deles
tanto para a cultura (nacional e regional) como para a economia de
muitas famílias. Uma das metas futuras do projeto é realizar atividades de extensão e contribuir para
maior valorização do artesão e de
suas associações e cooperativas.
Entre as sugestões, estão maior
integração das associações de artesãos no APL – Arranjo Produtivo Local Turismo e Artesanato
de São Luis (Região dos Lençóis e
Alcântara). Para ele, hotéis e pousadas localizados nessas áreas poderiam atuar como parceiros dos
artesãos, utilizando o artesanato
na decoração dos seus ambientes
ou oferecendo espaços para venda
de artesanato. “Seria uma forma de
garantir maior dinamismo a essa
economia, de forma a superar um
dos maiores gargalos desta cadeia
que é a comercialização”, declarou
o pesquisador.
Para Keller, a pesquisa Economia do Artesanato: Fibra de Buriti poderá trazer maior visibilidade
para o trabalho artesanal. “Além
disso, poderá contribuir para se
valorizar não apenas o produto artesanal enquanto mercadoria, mas
também para valorizar o trabalho e
as relações sociais de produção do
artesanato”, finalizou.
Pesquisa apoiada pelo edital
UNIVERSAL/FAPEMA 001/2012,
sob protocolo: 461/2012
Revista Inovação nº 22 / 2014
21
CIÊNCIAS DA
SAÚDE
22
Revista Inovação nº 22 / 2014
De olho no
HPV
Vacina, prevenção, diagnóstico
precoce, conscientização. Saiba o
que é possível fazer para evitar as
consequências do Papiloma Vírus
Humano.
Por Venilson Gusmão
Fotos Venilson Gusmão e divulgação
U
m inimigo que você
não vê, mas suas
ações são devastadoras. Essas características são do Papiloma
Vírus Humano (HPV), doença sexualmente transmissível
mais comum entre homens e
mulheres. Há mais de 200 sorotipos diferentes de vírus e
alguns deles são considerados
oncogênicos, que apresentam
maior probabilidade de ocasionar ou contribuir para o surgimento de um tumor canceroso.
Dentre as possibilidades de
câncer que o HPV pode provocar, os mais comuns são:
câncer de pênis, de canal anal,
de vulva, cabeça e pescoço e o
câncer de colo de útero, tipo
que mais mata no Maranhão.
Para se ter a dimensão dessa
gravidade, em 2011, segundo
o Instituto Nacional do Câncer
(INCA), o câncer do colo uterino fez 5.160 óbitos no Brasil e a previsão para 2014 é de
15.590 novos casos desse mesmo tipo de câncer.
Esses dados alarmantes
também foram analisados no
estudo da pesquisadora Flávia
Castello Branco Vidal Cabral,
que é doutora em Biologia Humana e Experimental. Com o
apoio da Fundação de Amparo
à Pesquisa e ao Desenvolvi-
Revista Inovação nº 22 / 2014
23
A pesquisadora Flávia Cabral manipula o NanoVue,
aparelho que quantifica o DNA extraído da amostra
e avalia também sua qualidade.
mento Científico e Tecnológico do
Maranhão (FAPEMA), ela realizou
uma investigação sobre o Impacto da infecção pelo Papiloma Vírus Humano na tumorigênese dos
carcinomas de colo de útero, pênis,
cabeça e pescoço na população
maranhense, interpretando dados
nacionais e internacionais.
“Analisamos se o HPV está presente em tumores de colo do útero,
cabeça, pênis e pescoço. A maioria
das pessoas sabe do grande envolvimento entre o HPV e o câncer do
colo de útero, mas esquece que o
HPV também é um agente etiológico (causador de doenças), como
câncer de pênis, alguns tumores
de cabeça e pescoço, tumores orais
e de boca. O nosso trabalho consiste em analisar amostras frescas
ou amostras antigas, parafinadas,
de tumores retirados de mulheres.
Depois, avaliamos se há ou não infecção por HPV”, explicou Flávia
Cabral.
A análise em tumores de pênis
também é feita dessa mesma forma.
Quanto aos de cabeça e pescoço, a
pesquisa analisa, principalmente,
tumores de laringe em crianças.
“Estudos internacionais apontam
que durante o parto normal de mulheres que tenham condilomas, que
são verrugas na vagina, às vezes
podem transmitir os vírus para as
crianças e aí algumas delas podem
desenvolver papilomas de laringe,
causados por HPVs, de baixo risco, do tipo 6 e 11, principalmente”,
comentou a pesquisadora, salientando que, durante o estudo, foram
analisadas quatro ocorrências no
hospital Materno Infantil.
Em muitos desses casos, as
crianças precisam sofrer procedimentos dolorosos como traqueostomia para retirada dos papilomas
na laringe. Vale ressaltar que essas
crianças submetidas à cirurgia têm
geralmente meses ou poucos anos
de idade.
[...] o câncer de colo de útero é mundialmente
o terceiro mais comum entre as mulheres. Já
em países em desenvolvimento, ele já vai para
segundo lugar. Em regiões pobres como a nossa,
no Nordeste, mais especificamente no Maranhão,
o câncer de colo de útero sobe para primeiro lugar.
Flávia Cabral, doutora em Biologia Humana e Experimental
24
Revista Inovação nº 22 / 2014
DNA extraído das amostras
tumorais congelados a
oitenta graus negativos.
Todas as amostras de tumores
que foram extraídas dos pacientes
ficam armazenadas no Biobanco
de Tumores e DNA do Maranhão
(BTMA), que é o centro de pesquisa sobre câncer do Hospital Universitário da Universidade Federal
do Maranhão (HU-UFMA). Dentro do espaço físico do BTMA, há
um laboratório, onde são feitas as
pesquisas não apenas sobre HPV
relacionado a neoplasias genitais,
como também câncer de mama,
câncer de pênis, cavidade oral e
região anal.
Flávia Cabral diz que o procedimento feito em todos os tipos de
tumores permite extrair o DNA do
tumor, conseguindo-se, assim, obter não só o código genético humano, mas também o DNA viral.
Para verificar a existência do
vírus no tumor, o estudo utiliza o
método PCR, que é uma reação em
cadeia da polimerase com um alvo
específico para detectar o vírus. Se
o vírus estiver no material em análise, o resultado dará positivo, ou
seja, poderá se afirmar se aquele
tumor está com infecção por HPV
ou não.
Nos tumores de colo de útero, praticamente 100% dos tumores têm e são causados pelo HPV.
Isso já é mundialmente conhecido.
Segundo a pesquisadora, a comparação com os dados nacionais
Manipulação de amostras por meio do método PCR, uma reação
em cadeia da polimerase para verificar a existência do vírus.
é importante, porque é possível
observar como as regiões Norte e
Nordeste, que são consideradas as
mais carentes do Brasil, estão em
relação às doenças por câncer e
destinar a merecida atenção à realidade local.
“Segundo dados do INCA, o
câncer de colo de útero é mundialmente o terceiro mais comum
entre as mulheres. Já em países em
desenvolvimento, ele já vai para
segundo lugar. Em regiões pobres
como a nossa, no Nordeste, mais
especificamente no Maranhão, o
câncer de colo de útero sobe para
primeiro lugar. Sendo assim, diz-se
que o câncer de colo de útero é um
câncer de países pobres, porque é
um tumor totalmente evitável, que
depende de um programa de saúde
bom para isso. Se descoberto no
início, as lesões do câncer do colo
de útero são retiradas e não evoluem de jeito nenhum para um tumor”, afirmou Flávia Cabral, acrescentando que o exame de rastreio
da doença é o Papanicolau, que é
um teste muito simples, rápido e
gera um resultado confiável.
Para avaliar a presença do HPV
no câncer de pênis, foram utilizados cerca de 80 tumores de homens, cuja participação do vírus
ficou evidente. Mais de 60% dos
tumores são causados pelo HPV
e, comparando esse resultado com
dados internacionais, o nível é
muito alto.
Segundo a pesquisadora, o
câncer de pênis está totalmente
relacionado ao comportamento
cultural da população e a seus
hábitos de higiene. “Por exemplo, a
taxa de câncer de pênis em Israel é
menor que 1%, porque a circuncisão é um procedimento considerado higiênico, evitando o acúmulo
de sujeira no pênis. A prevalência
aumenta quando os hábitos de higiene são mais precários. A diferença cultural também é grande
e isso, de novo, a gente relaciona
ao nível socioeconômico: quanto
mais pobre e menos educação tem
a população há maior probabilidade de tumores de pênis”, revelou
Flávia.
Alguns cientistas afirmam também que o sexo oral é um dos comportamentos de risco para o surgimento do câncer de boca. Nesse
segmento, um estudo de detecção
do HPV-DNA oral e sua associação
com o DNA-HPV genital, feito em
conjunto com outros Banco de Tumores, analisou a cavidade oral de
mulheres que tinham lesões no colo
do útero. A intenção era saber se
mulheres com essas lesões também
tinham HPV na boca. O resultado
foi o seguinte: as mulheres avalia-
das, que tinham lesões de colo de
útero, também apresentavam HPV
bucal e, embora não apresentassem
lesões na boca, o Papiloma estava
presente.
“Os dados dos cânceres de cavidade oral no Maranhão são semelhantes aos internacionais. Isso
porque cerca de 20% dos tumores
de boca são causados por HPV e o
restante é causado, principalmente,
pelo consumo frequente de bebida alcoólica e tabagismo”, disse a
doutora Flávia Cabral.
VACINAÇÃO
De acordo com o médico oncologista do Hospital Aldenora Belo e
coordenador do Serviço de Oncologia Clínica do Instituto Maranhense de Oncologia Aldenora Belo
(IMOAB), Ronald Coelho, todo o
câncer de colo uterino na fase inicial é curável. Nas fases avançadas
da doença, no entanto, a maioria
dos tratamentos tem a intenção de
aliviar os sintomas, são os chamados tratamentos paliativos.
Quando um câncer de colo uterino não é operável, que é uma modalidade de tratamento curativo,
ele ainda pode ser tratado com radioterapia e quimioterapia. Entretanto, segundo o médico, quando
a doença apresenta estágios mais
Revista Inovação nº 22 / 2014
25
GRAVIDADE
O Papiloma Vírus Humano pode
ser de alto ou baixo risco oncogênico. É considerado de alto risco
quando o vírus é capaz de transformar a lesão num câncer. Já o de
baixo risco causa lesão, mas com
menos risco de se transformar num
câncer. Um exemplo de HPV de baixo risco é o de laringe, observado
em crianças.
O HPV de alto risco é o que causa
o câncer de colo de útero, principalmente, o tipo 16 e 18. Esses são os
dois de alto risco que causam mais
de 70% dos tumores de câncer de
útero. A vacina inclui a imunização
a esses dois tipos de HPV e também
aos tipos 6 e 11, que causam os papilomas genitais (verrugas).
Pesquisa apoiada pelo edital
UNIVERSAL/FAPEMA 001/2012,
sob protocolo: 612/2012
26
Revista Inovação nº 22 / 2014
avançados, não é possível erradicá-la, mesmo recorrendo
a esses tratamentos.
“Uma fotografia muito
cruel disso tudo é a estatística de morte por câncer no
Hospital Aldenora Belo, único CACON (Centro de Alta
Complexidade em Oncologia)
do estado: de cada três cânceres que o hospital atende, um
é de colo uterino; e de cada
quatro mortes que ocorrem
no hospital, uma é causada
pelo câncer de colo de útero. Então, quando ouvimos a
notícia da vacinação contra
HPV há oito ou nove anos, e
quando essa vacina foi lançada e oferecida pelo Ministério
da Saúde para meninas de 11
a 13 anos, o sentimento foi
de muita alegria, embora saibamos que os resultados não
serão vistos imediatamente”,
afirmou.
Desde a infecção até o
desenvolvimento do câncer
de colo uterino, existe um
intervalo variável de acordo
com cada caso, mas o tempo
estimado é de algo em torno
de 10 anos até o desenvolvimento da doença.
“O que se conclui é que
mulheres que iniciam a vida
sexual muito precocemente,
como meninas de 11 a 13
anos, provavelmente teriam
essa doença por volta dos 20,
25 ou 30 anos. Então, o impacto da vacinação que está
acontecendo agora só será
sentido daqui a uma ou duas
décadas. Esperamos que, daqui a 20 anos, quando estivermos olhando as estatísticas, tenhamos uma mudança
drástica desses números. Sabemos que essa doença não
será varrida totalmente do
mapa, mas ela terá uma diminuição muito significativa”,
observou o médico.
No Brasil, existem basicamente duas formulações
comerciais das vacinas para prevenir o HPV, uma se chama Engerix,
que age contra dois dos principais
sorotipos do vírus (16 e 18) e, por
isso, é chamada de bivalente. A
outra vacina é a Gardasil, que é
tetravalente (previne contra os sorotipos 6,11,16 e 18) e está sendo
oferecida pelo Ministério da Saúde
nos postos de atendimento médico
de todo o país. “Essa vacina é importante para a saúde da mulher de
uma forma geral. Mesmo que a paciente não tenha câncer, o aparecimento de uma verruga genital, dependendo do volume, pode mutilar
a mulher, deformando a anatomia
da vulva, vagina, ânus e períneo”,
enfatizou o doutor Ronald Coelho.
A vacina contra o HPV está
sendo oferecida para meninas na faixa etária de 9 a 13
anos. Entretanto, sua implantação vem sendo realizada de
maneira gradativa. Em 2014,
o público alvo foi formado
por meninas de 11 a 13 anos.
Em 2015, as beneficiadas serão garotas de 9 a 11 anos e, a
partir de 2016, serão vacinadas
pré-adolescentes de 9 anos de
idade.
Lidiane Oliveira, mãe de Maria
da Glória, revela que esclareceu a
sua filha as razões da vacinação e
acredita que o futuro das crianças
será de dias mais saudáveis. “Falei
que a vacina doía, mas que valia
a pena para o resto da vida. Você
tem que explicar para seu filho o
porquê da vacinação, não adianta
esconder. A prevenção é o segredo
de tudo, porque, quando você começa desde cedo, tudo tem jeito”,
comentou.
A meta da vacinação contra
HPV definida pelo Ministério da
Saúde é atingir pelo menos 80%
do grupo alvo, que em 2014 é de
5,2 milhões de adolescentes de 11
a 13 anos. A estratégia orientada
[...] mulheres que
iniciam a vida sexual
muito precocemente, como
meninas de 11 a 13 anos,
provavelmente teriam essa
doença por volta dos 20,
25 ou 30 anos. Então, o
impacto da vacinação que
está acontecendo agora só
será sentido daqui a uma
ou duas décadas.
da para os pais que não precisarão
se deslocar até um posto de saúde.
Além disso, prevenção é sempre
um bom negócio”, argumentou.
Fernanda falou que, embora
sua filha ainda não tenha despertado para sexualidade, já conversou com ela sobre doenças sexualmente transmissíveis, gravidez e a
importância da prevenção. “Luana é uma multiplicadora. Quando
aprende alguma coisa na escola,
chega em casa contando para todo
mundo e acaba conscientizando
toda a família sobre alguns temas.
E com o assunto HPV não foi diferente”, contou.
O doutor Ronald Coelho explica que é possível que ocorram
efeitos colaterais, mas os ganhos são muito maiores. “Você
pode ter uma reação adversa
assim como pode acontecer
com qualquer outra medicação ou vacinação. A questão
é do ponto de vista da saúde
pública, já que não existe nenhuma intervenção que tenha
um impacto tão importante sobre o câncer como a vacinação
contra o HPV”, defendeu o oncologista.
Luana e Maria da Glória, no
O Ministério da Saúde estaentanto,
não sentiram reações
beleceu essa faixa etária para
após
a
aplicação
da vacina. As
vacinação porque, segundo esduas
garotas
também
concorRonald Coelho, médico oncologista
tudos, essas meninas não codam
que
a
dor
momentânea
meçaram a vida sexual, não tida injeção foi pequena diante
veram o contato com o HPV e,
pelo Ministério da Saúde e adotada de seus benefícios. “Não tive neainda, porque é nessa faixa etária
pelas secretarias municipais e esta- nhum efeito colateral. Só a picada
que a vacina tem uma melhor resduais foi a imunização no ambien- que doeu um pouco, mas é melhor
posta, além de maiores chances de
te escolar.
sentir essa dor agora que contrair
proteção contra lesões que podem
a doença futuramente”, destacou
Luana
Coelho,
de
11
anos,
por
provocar o câncer uterino.
exemplo, ouviu falar da doen- Luana.
Para garantir proteção contra o
ça pela primeira vez durante uma
Segundo uma pesquisa feita
HPV, a imunização deve ser feita, aula em que a professora propôs
pela Universidade de Toronto, no
necessariamente, em três doses. A uma atividade, explicando mais
Canadá, aplicar a vacina em menisegunda aplicação ocorrendo 6 me- detalhes da doença, seus sintomas,
nos poderia ajudar muito a preveses após da primeira, e a terceira, 5 causas e formas de prevenção, ennir a doença no mundo. O trabalho
anos depois.
focando principalmente a vacina.
foi divulgado na revista internaMaria da Glória Oliveira, 11
“Quando a vacina chegou à es- cional Sexually Transmitted Infecanos, já recebeu a primeira das três cola, levei uma autorização para tions. “Os homens são, em grande
doses da vacina contra o HPV. Ela minha mãe assinar, ela imedia- parte, os vetores dessa infecção, já
sabe bem o principal benefício da tamente concordou”, comenta a que, historicamente, possuem mais
vacina. “É importante porque pre- garota. Fernanda Coelho, mãe de parceiros sexuais. Dessa forma,
vine o câncer do colo do útero”, Luana, achou ótima a iniciativa da com a vacinação de homens, diafirmou.
vacinação na escola. “Muito cômo- minuiriam a transmissão do vírus,
Revista Inovação nº 22 / 2014
27
Luciane Brito é coordenadora geral do Banco de Tumores e DNA do
Maranhão e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em HPV. Por meio
de entrevistas, ela traça um perfil das pacientes e, com a ajuda de
exames, investiga a relação entre as neoplasias e o HPV.
interrompendo essa cadeia, e o
índice de câncer de pênis, ânus e
orofaringe entre eles”, afirmou Ronald Coelho.
PREVENÇÃO
Algumas mulheres, no entanto, não tiveram a oportunidade de
imunização e contraíram o HPV.
Observando essa realidade, a doutora em Medicina na área de Mastologia e coordenadora geral do
Banco de Tumores e DNA do Maranhão, Luciane Maria Oliveira Brito,
realizou o estudo sobre Associação
do Papilomavírus Humano e as
Neoplasias Genitais, que investiga
se as mulheres que possuem alteração sugestiva de neoplasia no
exame preventivo estão infectadas pelo HPV. “A neoplasia é uma
proliferação anormal do tecido,
que foge parcial ou totalmente
ao controle do organismo e tende
à autonomia e à perpetuação,
com efeitos agressivos sobre o
hospedeiro”, explicou.
28
Revista Inovação nº 22 / 2014
Foi utilizada uma amostra
constituída por mulheres atendidas no Ambulatório de Ginecologia do Centro de Pesquisa Clínica
do Hospital Universitário da UFMA
(CEPEC/HUUFMA). Estas mulheres
foram submetidas a uma entrevista
com questionamentos sobre variáveis sociodemográficas e ao exame
ginecológico, com coleta de material do colo uterino. Em seguida,
este material foi encaminhado para
análise do DNA viral no laboratório de pesquisa multiusuário do
Banco de Tumores do Maranhão.
A identificação molecular do HPV
foi realizada por meio da reação
em PCR e as amostras positivas foram submetidas ao sequenciamento para determinar o tipo de HPV
presente na amostra.
“Uma vez conhecendo o perfil
das mulheres maranhenses que estão sendo infectadas por este vírus
e o comportamento sexual, novas
campanhas preventivas podem ser
traçadas e executadas, visando à
mudança do comportamento de
risco e estimulando a detecção precoce da infecção por meio do exame preventivo de câncer de colo do
útero”, enfatizou Luciane Brito.
Os resultados encontrados destacaram que a prevalência do HPV
de alto risco para câncer foi mais
frequente que o de baixo risco, demonstrando a associação entre a
lesão do colo e o HPV de alto risco.
“Dentre os fatores de risco significantes, foram identificados a idade
(30 a 49 anos), frequência de visitas ao ginecologista (mulheres que
nunca foram ao ginecologista) e a
ausência de métodos contraceptivos, demonstrando a necessidade
da instalação de medidas educativas e exames de triagem”, relatou
a pesquisadora.
Como forma de prevenir esse
problema de saúde pública, algumas estratégias são apontadas.
“Uma das principais medidas é a
educação popular preventiva em
saúde pública, informando sobre
os fatores de risco que contribuem para desencadear essa doen-
ça, como alcoolismo, tabagismo,
comportamento sexual de risco,
nutrição deficiente, dentre outros,
somada à estimulação da população para a procura de atendimento
ginecológico para detecção da infecção pelo HPV em sua fase inicial”, afirmou a coordenadora geral do Banco de Tumores e DNA do
Maranhão.
sia favorece o processo de cura”,
observou Luciane Brito, que também é coordenadora do Núcleo de
Pesquisa em HPV.
Com o intuito de ajudar mulheres na detecção do HPV, os
tipos do vírus e tratamento de lesões de baixo e alto grau, os profissionais do Banco de Tumores
promovem exames e aplicação
As demais pesquisas produzidas de questionário para identificar
no Banco de Tumores têm contri- os fatores de risco. A partir desse
buído de forma significativa para a diagnóstico, as mulheres são ensaúde oncológica no Maranhão ao caminhadas ao Centro de Pesquiestudarem outros tipos de câncer, sas Clínicas (CEPEC-UFMA) para
prevalência, fatores associados e receber o devido atendimento
terapêutica aplicada. “Em um dos médico.
“Fazemos análise clínica, contrabalhos realizados, 105 mulheres
foram avaliadas quanto à presença versamos com a paciente e ela
do HPV. Destas, 58% apresenta- pode levar o seu parceiro tamram HPV no colo uterino e 38% na bém, já que fazemos um estudo
cavidade oral. A detecção precoce do câncer de pênis e encaminhada infecção pelo HPV nestas mu- mos para os urologistas que estão
lheres contribuiu para o combate atrelados ao nosso projeto. No
ao câncer, visto que a terapêutica caso das pacientes, encaminhaaplicada na fase inicial da neopla- mos para tratamento no IMOAB”,
contou Luciane Brito.
As datas para realização do exame preventivo devem ser pontuais,
haja vista que muitas
O Banco de Tumores oferece
mulheres adoecem por
falta de assistência méatendimento, com realização de
dica,
desinformação
exames e aplicação de questionário,
ou
por
negligência
ao
para mulheres que apresentem verpriorizarem outras atirugas na região da vagina ou ânus, e
vidades. E quando se
a partir desse diagnóstico, promove
trata de saúde, o tempo
o encaminhamento das pacientes ao
é implacável, ou seja,
deixar passar o moCentro de Pesquisas Clínicas (CEPEmento de ir ao médico
C-UFMA) para receber o devido trae fazer os exames nas
tamento.
datas previstas pode ser
Os encontros com os pacientes
a circunstância mais fasão feitos todas as quintas-feiras no
vorável para um grande
perigo.
CEPEC, que fica próximo ao Hospital Universitário Presidente Dutra. O
Situação
parecida
viveu Luiza, nome ficagendamento pode ser feito pelos
tício da administradotelefones do Banco de Tumores (98
ra, pós-graduada, de 47
2109 1273) ou do Centro de Pesquianos, que, para presersas Clínicas (98 2109 1294).
var sua imagem, teve
sua identidade mantida
em sigilo. Ela conta um
Pesquisa apoiada pelo edital
pouco dos momentos de
UNIVERSAL/FAPEMA 004/2010,
aflição ao descobrir que
sob protocolo: 1240/2010
tinha um câncer de útero em 2009.
ATENDIMENTO
[...] conhecendo o
perfil das mulheres
maranhenses que
estão sendo infectadas
por este vírus e o
comportamento sexual de
risco, novas campanhas
preventivas podem ser
traçadas e executadas,
visando à mudança do
comportamento de risco
e estimulando a detecção
precoce da infecção
por meio do exame
preventivo de câncer de
colo do útero.
Luciane Brito, coordenadora do
Núcleo de Pesquisa em HPV
“Sempre fazia meu preventivo anualmente, claro que sempre
atrasava uns dois ou três meses,
afinal minha vida sempre foi muito corrida. Trabalhava muito tempo sentada e apareceu uma dor do
lado direito do abdômen inferior.
Chegou a época de fazer preventivo e comecei a adiar, estava sempre muito atarefada. Então, fui a
uma consulta e, diante das minhas
queixas de um corrimento meio
rosado e dor, a médica me atendeu, coletou algumas amostras e
quando, mostrei o resultado, ela
me tranquilizou dizendo que era
apenas um pico ovulatório”.
Luiza relata que passou por um
tratamento rotineiro e que voltou a
sua rotina, bastante aliviada por sinal. Porém, com o passar dos dias,
observou que a dor só aumentava,
a perna direita começava a doer e
parecia que tinha um caroço interno mais ou menos do tamanho de
um limão médio. “Estava preocupada, já tive casos de câncer na família e sei que a genética às vezes
é um fator de risco determinante”.
A administradora ficou ainda
mais preocupada e resolveu fazer
novos exames e procurar uma nova
Revista Inovação nº 22 / 2014
29
opinião médica. “Após os exames,
a médica me informou que o caso
era cirúrgico e que iria fazer o laudo imediatamente. A essa altura,
já não comia, dormia, trabalhava
e nem pensava em outra coisa”,
lembrou.
A médica disse que Luiza estava
com vários tumores nas trompas,
no ovário, no útero e a indicação
realmente era cirúrgica e urgente.
Pelos marcadores e pelo ultrassom,
Luiza estava com câncer. “Não
ouvi nada do que a médica falou,
só ouvi a palavra câncer. Fiquei
revoltada, culpada, indignada. Por
que comigo? Por que a médica anterior não diagnosticou antes? E eu
que deveria ter trabalhado menos
e me cuidado mais? Meu mundo
desabou, meu futuro acabou, nada
mais tinha graça, e minha esperança sumiu por completo”, disse
Luiza, que na época estava com 43
anos.
Ela fez a cirurgia para retirada dos tumores, passou dez dias
internada, tendo um pós-operatório com fortes dores abdominais.
E como é de praxe nesses casos,
mandaram os tecidos retirados na
cirurgia para verificação do nível
30
Revista Inovação nº 22 / 2014
da doença. “Foi então que o médico
me deu a notícia que eu teria que
fazer quimioterapia. Foi um choque e tanto, imaginei que não fosse necessário. Tinha tanto medo da
quimioterapia que consultei quase
todos os especialistas de São Luís
para saber se realmente era necessário, e todos me disseram que
sim”, apontou a administradora.
Depois do tratamento, Luiza
voltou à rotina normal de trabalho,
mas não como antes. “Aprendi a
dizer não e a respeitar minhas vontades e meus limites em detrimento
da dos outros”, ensinou.
Hoje, depois de curada, a administradora faz acompanhamento
médico de ano em ano. Ela revela
que, após essa fase difícil, se sente
temerosa com a doença. “Diria que
a realidade de quem teve a doença
e sobreviveu é a insegurança e o
medo de que a doença volte”.
ATENÇÃO REDOBRADA
A rotina corrida das mulheres
modernas tem sido um obstáculo quando o assunto é prevenção.
Muitas alegam falta de tempo e
acabam adiando a visita ao médico.
As alterações das células que
podem desencadear o câncer, no
entanto, podem ser descobertas muito facilmente no exame
preventivo, conhecido como Papanicolau, que deve ser realizado
periodicamente por toda mulher
que tem ou teve vida sexual ativa,
principalmente na faixa entre 25 e
64 anos. Os dois primeiros exames
devem ser feitos com intervalo de
um ano. Se esses resultados forem
normais, a frequência do exame
pode aumentar para cada dois
anos.
Na maioria dos casos, a infecção é combatida espontaneamente
pelo sistema imunológico e muitas
mulheres nem ficam sabendo do
contato com o vírus. No entanto,
quando o pior acontece e as lesões
se agravam, o tratamento é muito
mais sofrido e, às vezes, pode não
trazer os resultados esperados.
O velho ditado cai muito bem
quando o assunto é câncer de colo
de útero, afinal, prevenir é melhor
que remediar.
Proteja sua criação
Objetivo: Proteger os sinais que individualizam
os produtos e serviços de outros iguais ou
semelhantes de uma determinada empresa
distinguindo-os de seus concorrentes.
Objetivo: Proteger uma invenção e garantir
ao titular os direitos exclusivos para usar sua
invenção por um período limitado de tempo,
sendo invenção definida como uma nova
solução para um problema técnico.
Objetivo: Proteger o aspecto ornamental ou estético de um
objeto. Pode consistir de características tridimensionais,
como a forma ou a superfície do objeto, ou de características
bidimensionais, como padrões, linhas ou cores.
Objetivo: Proteger a qualidade e reputação dos produtos,
vinculando qualquer expressão ou sinal utilizado
para indicar a origem do produto (uma região, lugar
específico ou, excepcionalmente, um país).
Objetivo: Proteger todas as obras do domínio literário,
científico e artístico, qualquer que seja o modo ou a
forma de expressão.
COORDENAÇÃO DE INOVAÇÃO
E EMPREENDEDORISMO
(98) 2109 1400 / (98) 2109 1445
e-mail: [email protected]
www.fapema.br
Revista Inovação nº 22 / 2014
31
CIÊNCIAS EXATAS
E DA TERRA
á
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comendo
Presença de agrotóxicos
pode causar alterações
químicas em vegetais,
gerando riscos à saúde
humana e ao meio ambiente.
Por Elizete Silva
Fotos Divulgação
A
pontado pelo Ministério da Saúde
como a segunda maior causa de intoxicação depois de medicamentos, os
agrotóxicos são utilizados em grande
escala no Brasil sem levar em consideração a existência ou não de autorização do Governo Federal
para o uso em determinados alimentos, o que representa um risco para a saúde e para o meio ambiente. Esses efeitos nocivos, no entanto, ainda são
desconhecidos para muitos agricultores, o que tem
levado pesquisadores a se debruçarem sobre estudos que possam contribuir para a utilização desses
produtos químicos de forma mais responsável.
O controle do uso, comércio, armazenamento, transporte interno e da destinação final das
embalagens de agrotóxicos no Maranhão cabe à
Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Maranhão (AGED). “Todo o comércio de agrotóxico
tem que ser registrado na AGED. Hoje nós temos
424 estabelecimentos registrados, 48 prestadoras
de serviço na aplicação de agrotóxicos e 1.338
produtos cadastrados”, contou a coordenadora
de Defesa Sanitária Vegetal da AGED, Filomena
Matos. Antes de serem comercializados, os agrotóxicos passam por três Ministérios: Agricultura,
Saúde e Meio Ambiente. Para receber o certificado
de registro do Ministério da Agricultura, o pro-
Os
agrotóxicos
podem ser
divididos
em duas
categorias
Agrícolas:
Destinados ao uso nos setores de
produção, no armazenamento
e beneficiamento de produtos
agrícolas, nas pastagens e
nas florestas plantadas - cujos
registros são concedidos pelo
Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento, atendidas
as diretrizes e exigências dos
Ministérios da Saúde e do Meio
Ambiente.
Não-agrícolas:
Destinados ao uso na proteção
de florestas nativas, outros
ecossistemas ou de ambientes
hídricos - cujos registros são
concedidos pelo Ministério do
Meio Ambiente/Ibama, atendidas
as diretrizes e exigências dos
Ministérios da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento e da Saúde.
Destinados ao uso em ambientes
urbanos e industriais, domiciliares,
públicos ou coletivos, ao tratamento
de água e ao uso em campanhas
de saúde pública - cujos registros
são concedidos pelo Ministério da
Saúde/Anvisa, atendidas as diretrizes
e exigências dos Ministérios da
Agricultura e do Meio Ambiente.
34
Revista Inovação nº 22 / 2014
duto precisa antes ter o “ok” dos dois outros
Ministérios. “Depois desse processo, a empresa fabricante envia para o estado a solicitação
para cadastramento do produto. Todos os 1.338
produtos que temos cadastrados são aqueles
aptos a serem comercializados no Maranhão”,
detalhou a representante da AGED.
Ela explica que, se durante as fiscalizações
do órgão, forem encontrados no comércio algum produto que não esteja na lista de produtos cadastrados no Estado, o estabelecimento
será automaticamente autuado. “Além da fiscalização, compete à AGED desenvolver ações
educativas de divulgação e de esclarecimento
que assegurem o uso correto de agrotóxicos e
afins e a destinação adequada de resíduos e embalagens vazias”, completou.
USO INDEVIDO
Todos esses cuidados, no entanto, não têm
sido suficientes para evitar o uso indevido de
agrotóxicos em muitas lavouras maranhenses.
A presença de agrotóxicos tem gerado alterações químicas em vegetais no Sul do estado, segundo constatou uma pesquisa coordenada pelo
professor Alan Bezerra Ribeiro, da Universidade
Federal do Maranhão, campus Imperatriz.
O trabalho financiado pela Fundação de
Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento
Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) demostrou que o cultivo de vegetais como
pimentão e tomate, na maioria das vezes, é feito
com o uso abusivo de agrotóxicos. A pesquisa
adotou como uma de suas bases os dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde (ANVISA) sobre o monitoramento de agrotóxicos
em alimentos feito pelo Programa de Análise de
Resíduos de Agrotóxico em Alimentos (PARA)
de 2008.
O relatório constatou que o pimentão é um
dos vegetais mais contaminados com esses resíduos, com 64% das amostras analisadas. Além
deste, o tomate também foi um dos que obtiveram alto índice de contaminação, com 18% das
amostras analisadas contaminadas.
Diante deste fato, o pesquisador tomou
como elementos de análise pimentões e tomates
cultivados pelos profissionais de Agronomia da
Universidade Estadual do Maranhão (UEMA),
campus Imperatriz, que atuaram em parceria
no projeto. Uma parte dos vegetais foi plantada com o uso de agrotóxicos e a outra parte
não recebeu essas substâncias. Essa estratégia
foi adotada para que fosse possível perceber as
alterações ocorridas nos vegetais com agrotóxicos.
N
DICAS PARA EVITAR OU DIMI UIR A INGESTÃO DE AGROTÓXICOS
1
Dê preferência a frutas e verduras da época. Fora da estação adequada, é quase certo que a fruta, verdura ou legume tenha recebido cargas maiores de agrotóxicos. É por isso que, quando você não
encontra tomate, cebola ou outros produtos na feira orgânica, é porque
não está na época deles. Escolha outro alimento que os substitua em termos nutricionais.
2
Procure sempre descascar as frutas. Os resíduos de agrotóxicos
concentram-se especialmente nas cascas das frutas. Nesse caso,
é importante descascá-las, principalmente os pêssegos e maçãs.
3
Lave bem as frutas e verduras. Use água corrente durante pelo
menos um minuto, limpando sua superfície. Ou coloque-as numa
solução de água (1 litro) com um pouco de vinagre (4 colheres
de sopa), durante 20 minutos. Mas atenção: como a atuação da maior
parte dos agrotóxicos é sistêmica (quando aplicado às plantas, circulam
através da seiva e por todos os tecidos), descascar e lavar as frutas não
garante a eliminação total dos resíduos, somente sua diminuição.
4
Retire as folhas externas das verduras. Em geral, ali se concentram mais agrotóxicos. Com sua retirada, a carga mais pesada é
eliminada.
5
Diversifique nas hortaliças e frutas. Além de propiciar boa mistura
de nutrientes, reduz a chance de exposição ao mesmo agrotóxico
usado pelo agricultor.
6
Dê preferência aos produtos nacionais e de sua região. Alimentos
que percorrem longas distâncias, normalmente, são pulverizados
depois da colheita e possuem um nível maior de contaminação.
Revista Inovação nº 22 / 2014
35
O estudo mostrou que o uso de
agrotóxicos modifica compostos químicos naturais que são fontes de nutrientes para o ser humano. “Estamos
observando quais as reações causadas
nesses alimentos e já constatamos que
pelo menos três substâncias que não
são naturais a eles estão sendo produzidas por causa dos agrotóxicos”, contou Alan Ribeiro.
Logo após o cultivo do pimentão
e do tomate, a equipe realizou análises laboratoriais, utilizando a técnica
de cromatografia, que consiste na separação das substâncias presentes no
alimento. Com essa separação, será
possível realizar uma análise mais detalhada de cada substância para que se
percebam os impactos que elas podem
causar no ser humano e no meio ambiente. Os pesquisadores, que integram
o grupo de pesquisa Estudos químicos, físicos e biológicos de produtos
de interesse da indústria de alimentos,
pretendem estender os estudos, analisando outros vegetais que também
contenham alto índice de agrotóxicos.
LEGISLAÇÃO
O Brasil é o maior consumidor de
produtos agrotóxicos no mundo. Em
decorrência da significativa importância, tanto em relação à sua toxicidade quando à escala de uso no país,
os agrotóxicos possuem uma ampla
cobertura legal no Brasil, com um
grande número de normas legais. O
referencial legal mais importante é a
Lei nº 7802/89, que rege o processo de
registro de um produto agrotóxico, regulamentada pelo Decreto nº 4074/02.
Segundo a legislação vigente,
agrotóxicos “são produtos e agentes de processos físicos, químicos ou
biológicos, utilizados nos setores de
produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, pastagens, proteção de florestas, nativas ou
plantadas, e de outros ecossistemas e
de ambientes urbanos, hídricos e industriais”.
A substância visa a alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de
preservá-las da ação danosa de seres
vivos considerados nocivos. Também
são considerados agrotóxicos as subs36
Revista Inovação nº 22 / 2014
REGISTRO
Os agrotóxicos, para serem
produzidos, exportados, importados, comercializados e utilizados devem ser previamente
registrados em órgão federal,
de acordo com as diretrizes e
exigências dos órgãos federais
responsáveis pelos setores da
saúde, do meio ambiente e da
agricultura. O Ibama realiza a
avaliação do potencial de periculosidade ambiental de todos os
agrotóxicos registrados no Brasil.
Segundo a Lei 7802/89, artigo
3º, parágrafo 6º, no Brasil, é proibido o registro de agrotóxicos:
a) Para os quais o Brasil não disponha de métodos para desa-
tivação de seus componentes,
de modo a impedir que os seus
resíduos remanescentes provoquem riscos ao meio ambiente e
à saúde pública;
b) para os quais não haja antídoto ou tratamento eficaz no Brasil;
c) que revelem características
teratogênicas, carcinogênicas ou
mutagênicas, de acordo com os
resultados atualizados de experiências da comunidade científica;
d) que provoquem distúrbios
hormonais, danos ao aparelho
reprodutor, de acordo com procedimentos e experiências atualizadas na comunidade científica;
e) que se revelem mais perigosos para o homem do que os testes de laboratório, com animais,
tenham podido demonstrar, segundo critérios técnicos e científicos atualizados;
f) cujas características causem
danos ao meio ambiente.
tâncias e produtos empregados
como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores
de crescimento.
PLANO NACIONAL
DE AGROECOLOGIA
Em outubro do ano passado, a presidente Dilma Rousseff lançou o Plano Nacional
de Agroecologia e Produção
Orgânica (Planapo) que tem
como objetivo articular políticas e ações de incentivo ao
cultivo de alimentos orgânicos
e agroecológicos, com investimento inicial de R$ 8,8 bilhões, divididos em três anos.
Como resultados, espera-se
o fortalecimento da produção
orgânica e de base agroecológica em 182 mil unidades
familiares de produção; a adequação de 28 mil unidades de
produção aos regulamentos
da produção orgânica; fortalecimento de 30 redes locais
e apoio produtivo a 450 em-
preendimentos de agroecologia; implantação de 60 mil
unidades de acesso à água
para produção no Programa
Segunda Água em propriedades de produção agroecológica
e duplicação dos recursos do
Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) para aquisição
de produtos orgânicos ou de
base agroecológica; entre outros objetivos.
No Planapo, estão envolvidos os Ministérios do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA); Secretaria-Geral
da Presidência da República;
ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa);
Saúde, Educação (MEC); Ciência, Tecnologia e Informação
(MCTI); Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS);
Meio Ambiente (MMA); da
Pesca e Aquicultura (MPA) e
da Fazenda.
Pesquisa apoiada pelo edital
UNIVERSAL/FAPEMA 010/2009,
sob protocolo: 1154/2009
Revista Inovação nº 22 / 2014
37
CIÊNCIAS
DA SAÚDE
38
Revista Inovação nº 22 / 2014
Obesidade,
a grande vilã da vida saudável
Metade da população brasileira está acima do peso, sendo que 17%
sofre de obesidade. Pesquisas apontam que a maior aliada na luta contra
os efeitos da doença, que acomete as pessoas cada vez mais cedo,
ainda é a alimentação saudável.
Por Carol Neves
Fotos divulgação e acervo pessoal
D
esde os 5 anos de idade,
Aline Chaves, hoje com
35, sofria com esse problema. Ultimamente já
sentia muita dificuldade para fazer
atividades básicas como caminhar,
pegar um ônibus ou sentar na pequena cadeira de uma lanchonete.
Com muitas dores na coluna, inchaço nos joelhos e tornozelos, ela
também passava por certos constrangimentos por causa de sua
condição física. Assim como Aline,
17% da população brasileira também encara as dificuldades e limitações trazidas pela obesidade.
De acordo com dados do Ministério da Saúde por meio da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco
e Proteção para Doenças Crônicas
por Inquérito Telefônico – Vigitel, mais da metade dos brasileiros
estão acima do peso considerado
ideal. Segundo estudos realizados, pela primeira vez na história,
o número de pessoas com excesso
de peso supera o de desnutridos.
Outro dado alarmante revela que
a obesidade em crianças e adolescentes cresceu 240% nas últimas
duas décadas.
A obesidade é uma doença
crônica
endócrino-metabólica,
que pode ser agravada por fatores
ambientais. Ela resulta em um desequilíbrio nutricional e acúmulo
de tecido gorduroso, localizado ou
generalizado, podendo ter como
fatores de intensificação a idade,
renda familiar, escolaridade, con-
sumo de bebidas alcoólicas, comportamento alimentar impróprio e
sedentarismo.
Estudos afirmam que as tendências nutricionais têm passado
por mudanças. Observa-se o maior
consumo de alimentos com alta
densidade energética, como carnes
e laticínios, que concentram altos
níveis de gorduras. Em paralelo a
esse quadro, verifica-se o baixo
consumo de frutas, verduras, hortaliças e legumes, que, em conjunto com atividades físicas, podem
resultar numa vida mais saudável.
Essas informações podem servir
como uma das explicações para
o aumento do número de pessoas
com excesso de peso. A mais recente Pesquisa de Orçamentos FaRevista Inovação nº 22 / 2014
39
miliares - POF (2008-2009), realizada em parceria com o Ministério
da Saúde e o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística – IBGE,
aponta para esse crescimento, afirmando que, de 1974 para cá, o
excesso de peso em homens com
mais de 20 anos, quase triplicou,
passando de 19% em 1974-75 para
50% em 2008-2009. Nas mulheres,
o aumento foi de 29% para 48%.
Já a obesidade nos homens passou
de 3% para 12% e, nas mulheres,
de 8% para 17%, no mesmo período.
No Maranhão, apesar de São
Luís ter sido a capital a apresentar
Excesso de Peso
1974/
1975
2008/
2009
1974/
1975
2008/
2009
Fonte: Pesquisa de Orçamentos Familiares - POF (2008-2009)
40
Revista Inovação nº 22 / 2014
16,9%
12,4%
8%
2,8%
48%
50,1%
28,7%
18,5%
Obesidade
menor índice de obesidade (13%)
dentre todas as demais capitais segundo a Vigitel, pesquisadores têm
se preocupado com essa doença,
caracterizada como um grave problema de saúde pública. A exemplo, podemos citar a pesquisadora Camila Guimarães Polisel, que
coordena um estudo apoiado pela
Fundação de Amparo à Pesquisa
e ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão (FAPEMA). O trabalho tem como foco
principal conhecer o perfil clínico e laboratorial de adolescentes
obesos em escolas públicas de São
Luís.
O projeto, que teve início em
novembro de 2012 e tem término
previsto para novembro de 2014,
conta com a participação de 347
adolescentes, de 11 a 18 anos, que
estão regularmente matriculados
em escolas da rede pública. A pesquisa visa auferir, entre outros fatores, o índice de massa corporal
(IMC), a circunferência abdominal
(CA), a relação cintura-quadril e a
glicemia de adolescentes obesos. A
intenção, é correlacionar esses índices com a obesidade, para estimular a prevenção e o controle dos
principais fatores de risco para o
desenvolvimento de doenças cardiovasculares, levando-se em consideração que a obesidade é fator
facilitador dessas doenças.
O trabalho fez a separação de
três grupos de adolescentes. Os
eutróficos (peso normal), os com
sobrepeso e os obesos. Do total,
quase a metade (49%) estava acima do peso adequado. A hipertensão arterial nos estágios 1 e 2 foi
detectada em 4%. A maioria dos
eutróficos (72%) não apresenta fatores de risco cardiovascular. Em
contrapartida, os outros dois grupos têm 42% de adolescentes com
riscos de desenvolver doenças no
coração. Além disso, os que estão
com excesso de peso apresentaram
glicemia alterada e resistência à
insulina. Elevações nos triglicerídios e LDL (colesterol ruim) foram
observadas em todos os grupos.
De acordo com o estudo, o fator
de risco mais prevalente no grupo
À esquerda, Aline Chaves antes da cirurgia. À direita, com 36 quilos a menos após seis meses da cirurgia bariátrica.
com excesso de peso foi a circunferência abdominal (CA) alterada,
constatada em 60% dos participantes. Segundo o gastroenterologista
Gutemberg Fernandes de Araújo, a
CA alterada representa uma grande
quantidade de gordura visceral no
abdômen. “Isso pode resultar numa
maior probabilidade para o desenvolvimento de doenças cardiovas-
culares”, explicou.
Segundo a coordenadora, o
projeto é relevante, sobretudo, pela
detecção de alterações não só nos
obesos. “O estudo demonstra a importância do diagnóstico precoce
de fatores de risco cardiovascular,
bem como a necessidade em se adotar ações educativas que tenham
como objetivo estimular mudanças
no estilo de vida dos
adolescentes, especialmente aquelas
relacionadas com o
desenvolvimento de
hábitos alimentares
mais saudáveis, prática de atividades
físicas e controle do
peso corporal, medidas que podem prevenir o desenvolvimento de obesidade
e das comorbidades
associadas”, declarou Camila Polisel.
Aline
Chaves,
que apareceu no
início desta repor-
tagem, estava incluída nas estatísticas de obesidade no Brasil.
Vinda de uma família de pessoas
que também enfrentam o problema, Aline, que nasceu em Fortaleza, no Ceará, veio para São Luís
trabalhando como missionária. As
atividades que tinha que desenvolver por conta de sua profissão
exigiam um bom condicionamento
físico, pelo fato de ter que visitar
vários lugares e caminhar bastante. A partir daí, começou a sentir
as consequências de estar muito
acima do peso (chegou a pesar 120
kg, com 1,58 cm de altura), sendo
diagnosticada com obesidade mórbida. As dores no corpo se tornaram cada vez mais frequentes e sua
pressão arterial começou a oscilar.
“A minha família toda tem pressão
alta e diabetes. Eu fiquei no limite
dessas doenças, já sabendo que eu
iria desenvolvê-las”, disse.
A vida de Aline teve que se
adequar à doença, como conta.
“Eu pensava várias vezes se deveria ou não sair com meus amigos.
Eles caminhavam mais rápido e eu
Revista Inovação nº 22 / 2014
41
não conseguia acompanhar e sempre ficava pra trás. Alguém sempre
tinha que voltar pra ficar comigo e
eu poder continuar”. Aline declarou que a junção de situações semelhantes a essa faziam com que
sua autoestima diminuísse cada
vez mais.
O Dr. Gutemberg Araújo, afirma
que, além de outras complicações,
as pessoas obesas têm uma maior
propensão a desenvolver doenças
psicológicas e psiquiátricas ao enfrentar o preconceito da sociedade.
Sobre as demais consequências da
doença, o médico, que é especialista em cirurgia bariátrica e metabólica, afirmou que “a obesidade
é considerada fator de risco para
uma série de doenças, tais como,
hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes, sendo que a união
dessas doenças pode ocasionar na
síndrome metabólica, que, por sua
vez, pode resultar em derrames cerebrais e infartos. Quando o nível
42
Revista Inovação nº 22 / 2014
de obesidade atinge o que consideramos mórbida (IMC maior que
40) surgem as outras doenças associadas como a apneia do sono,
doenças articulares, infertilidade,
maior propensão ao câncer, sobretudo de mama, útero e intestinal”,
detalhou.
DE OLHO NO CARDÁPIO
Ainda sobre a obesidade, uma
pesquisa ligada à Universidade Federal do Maranhão (UFMA) trata da
influência de fatores sociodemográficos e nutricionais na ocorrência da doença em pacientes adultos
atendidos em unidades básicas de
saúde em São Luís. O trabalho tem
a coordenação da professora mestre e nutricionista Deysianne Costa
das Chagas, e a equipe é composta
por graduandos, professores e profissionais de Nutrição.
O estudo realizado com maiores
de 18 anos já atendeu 440 pacientes com excesso de peso nas unidades de saúde dos bairros da Vila
Janaína, Radional e Anjo da Guarda, na capital maranhense. Já foi
observado que, em geral, as pessoas consomem dietas balanceadas
em termos quantitativos. O aspecto qualitativo, no entanto, não é
adequado. “Conseguimos ver, por
exemplo, que a quantidade de gordura consumida estava dentro das
recomendadas pelo Ministério da
Saúde, só que essa quantidade era
composta, na grande maioria, por
gorduras saturadas, que é a gordura que não faz bem à saúde”, contou Deysianne Chagas.
Sabe-se que o comportamento
alimentar das pessoas é uma das
principais influências para o aumento da massa corporal. A alimentação de Aline Chaves, por
exemplo, era composta de grandes
quantidades de arroz, feijão, macarrão e chocolates, o que piorou
TABELA 1
Conheça a classificação do excesso de peso e o risco para a saúde.
IMC
Classificação
Risco para a saúde
Menor que 17
Magreza excessiva
Aumentado
17 a 18,5
Magreza
Moderado
18,6 a 24,9
Peso normal
Normal
25 a 29,9
Sobrepeso
Pequeno
30 a 34,9
Obesidade classe I
Moderado
35 a 39,9
Obesidade classe II
Aumentado
Acima de 40
Obesidade classe III ou
Obesidade mórbida
Muito aumentado
seu estado de saúde. Mas, em outubro de 2013, ela começou a deixar
a obesidade no passado quando
decidiu fazer a cirurgia bariátrica,
conhecida como redução de estômago. A decisão pelo procedimento cirúrgico se deu pelo intenso
sofrimento que a doença trouxe a
sua vida. Após a realização de uma
série de exames, Aline foi submetida à cirurgia.
Ela conta como se sente hoje,
seis meses depois da cirurgia, já
tendo perdido 36 quilos. “As dores
no joelho passaram, as pernas não
incham mais. Ainda sinto um pouco de dor na coluna, porque meu
corpo carregava 36 kg a mais. A
coluna tem que se adaptar agora.
Hoje, todas as minhas taxas estão
dentro do padrão e até melhores do
que meu médico esperava”, comemorou.
VIGITEL 2013
Diante da insistente tendência de crescimento dos índices
relacionados ao excesso de peso
e obesidade, os dados da mais recente pesquisa Vigitel, revelaram
que, pela primeira vez em oito
anos consecutivos, esses índices
no Brasil permaneceram estáveis.
Os números indicam que 51% dos
brasileiros estão acima do peso,
enquanto 18% estão obesos.
Porém, apesar desse avanço, a
pesquisa também mostrou que a
população ainda permanece com
hábitos alimentares inadequados,
o que mantém a necessidade de
combate e prevenção da doença.
Os números constatam que 17%
dos brasileiros trocam o almoço
ou jantar por lanches, como pizzas, sanduíches ou salgados diariamente. Além disso, o consumo
de gordura saturada chega a 31%.
De todos os entrevistados, 23% ingerem refrigerantes, no mínimo, 5
dias por semana.
A pesquisa também constatou
que São Luís ainda é a capital com
menor porcentagem de indivíduos
com excesso de peso e obesidade,
42% e 13% respectivamente.
Para a nutricionista Deysianne
Chagas, os resultados das últimas
pesquisas preocupam. “Os últimos
levantamentos comprovam que
mais da metade dos adultos brasileiros estão com excesso de peso.
Apesar de São Luís não estar na
ponta inicial, isso ainda é sério. A
gente vê que se não for feito nada,
se a educação nutricional não começar desde a infância, esses índices só tendem a piorar”, finalizou.
fica o excesso de peso em adultos.
“A medida de massa corporal mais
utilizada tem sido o peso isolado
ou peso ajus­
tado para a altura.
Para obtê-lo em adultos, o parâmetro utilizado mais comumente
é o do índice de massa corporal
(IMC)”.
Para chegar ao IMC, basta pegar o peso em quilos e dividir pelo
quadrado da altura em metros. “Por
meio desta conta, classificamos as
pessoas como saudáveis de 18,5 a
24,9. A partir de 25, existe excesso
de peso. A partir de 30, denominase obesidade”, afirmou.
Diante da realidade mundial
em relação ao excesso de peso e à
obesidade, é necessário que toda a
população brasileira compreenda
que esse é um mal que, se não for
tratado com a devida seriedade e
atenção, pode trazer graves riscos
à saúde. Sendo assim, mudanças
para hábitos alimentares mais saudáveis, com a ingestão de frutas,
legumes e hortaliças e a redução de
alimentos ricos em gorduras, juntamente com a prática de atividades físicas pode, sim, salvar muitas
vidas.
CALCULANDO O IMC
O Dr. Gutemberg Araújo explica como ocorre o cálculo que veri-
Pesquisa apoiada pelo edital
AEXT/FAPEMA 019/2012, sob
protocolo: 1614/2012
Revista Inovação nº 22 / 2014
43
CIÊNCIAS
BIOLÓGICAS
44
Revista Inovação nº 22 / 2014
Reposição
hormonal
Amora e soja podem ser
alternativas naturais para
diminuir desconforto de
mulheres na menopausa
Por Tatiana Salles
Fotos arquivo pessoal e divulgação
O
s quarenta anos trazem consigo a
maturidade, mas também alguns
desconfortos sentidos literalmente
na pele e no corpo da mulher, a famosa fase da menopausa. A menopausa é um
período de transição em que a mulher passa da
fase reprodutiva para a fase de pós-menopausa. Dessa forma, a menopausa ocorre durante
o climatério (transição do período reprodutivo
ou fértil para o não reprodutivo). Nesse período, há uma diminuição das funções ovarianas,
fazendo com que os ciclos menstruais se tornem
irregulares, até cessarem por completo.
Revista Inovação nº 22 / 2014
45
Estatisticamente, a menopausa ocorre em média aos cinquenta
anos. O climatério tem início por
volta dos quarenta e se estende
até os 65 anos. Essa fase se dá em
função do desequilíbrio hormonal,
que causa modificações no funcionamento fisiológico e psicológico
da mulher, que tende a ficar mais
irritada, com sintomas depressivos
e sentir mal-estar. Mas nem tudo
está perdido. Para amenizar esse
período de desconforto e manter
uma boa saúde, há uma alternativa: a Terapia de Reposição Hormonal (TRH).
Segunda a ginecologista da Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão, Ana Maria Nogueira Silva,
a TRH é um tratamento que tem o
objetivo de aliviar vários desconfortos causados pela menopausa.
“A menopausa é uma fase natural
da vida de todas as mulheres. É
nesse período que o corpo feminino para de produzir os hormônios
estrógeno e progesterona e, por
isso, a Terapia de Reposição Hormonal é indicada”, explicou.
A reposição hormonal é uma
terapia que deve começar no climatério, ou seja, na fase de transição do período fértil para o
não-fértil, a fim de amenizar as alterações no corpo provocadas pela
diminuição dos hormônios femini-
46
Revista Inovação nº 22 / 2014
nos. A Terapia de Reposição Hormonal feminina consiste na utilização de hormônios (sintéticos ou
naturais) para substituir o estrógeno e a progesterona que os ovários
deixam de produzir nesse período.
“O tratamento geralmente é realizado com dosagens relativamente
baixas de estrógenos, por via oral
ou transdérmica, que são adesivos
sobre a pele ou gel”, disse Ana Maria Nogueira.
Algumas recomendações sobre
a reposição hormonal, no entanto,
devem ser levadas em consideração
como a não indicação para mulheres com câncer de mama ou endométrio, pacientes com trombose e
problemas de coagulação, pessoas
que já tiveram infarto ou derrame
cerebral e pessoas com doenças
graves do fígado, por exemplo.
Quanto à indicação, a médica
diz que, de acordo com o Comitê
de Nomenclaturas da Federação
Internacional de Ginecologia e
Obstetrícia, o tratamento é indicado para mulheres que deixaram
de produzir os hormônios estrógeno e progesterona. “Para mulheres
que retiraram o útero, no entanto,
não há necessidade de reposição de
progesterona, uma vez que a função da substância é evitar o risco
de cancro do útero associado aos
estrógenos”, afirmou, lembrando
que o tratamento existe para aliviar os sintomas e não para inter-
romper o processo da menopausa.
A psicopedagoga Dolores Melo
revela que sentiu muitos desses incômodos a partir dos 45 anos. Nesse
momento, ela procurou ajuda médica
para iniciar o tratamento de reposição hormonal. Só então começou a
sentir alguma melhora. “Sentia muito
calor, corpo quente, ressecamento da
pele, então busquei acompanhamento médico e usei os discos adesivos.
Isso ajudou bastante para acabar com
os desconfortos”, lembrou.
DE MULHER PRA
MULHER
Os sintomas variam de mulher
para mulher. Enquanto algumas sentem muitas manifestações da menopausa, outras, nem tanto, como é o
caso da operadora de marketing, Maria das Graças da Anunciação, de 57
anos. Ela parou de menstruar aos 47
anos e diz nunca ter sentido os sintomas relatados pela maioria das mulheres. A esse fato, Maria das Graças
atribui o cuidado com alimentação
balanceada que teve desde a adolescência. Ela conta que não consome
frituras e carnes gordurosas. “Nunca
fiz reposição hormonal, mas sempre
tive cuidado com alimentação. Consumo alimentos a base de soja e seus
derivados, abuso das frutas, legumes,
fibras e folhas. Acho que
isso contribui bastante.
Me sinto bem até hoje”,
falou, satisfeita.
A soja e seus derivados são ótimas opções
para uma reposição hormonal natural, podendo
ser utilizados por todas as
mulheres sem restrições e
sem provocar efeitos colaterais ou interações medicamentosas.
No entanto, segundo
a médica Ana Maria Nogueira, os alimentos são
importantes para manter
o equilíbrio hormonal,
mas às vezes é necessário
fazer uma reposição dos
hormônios. “Para isso,
um médico deve ser con-
CONTRAINDICAÇÕES
ABSOLUTAS DA REPOSIÇÃO
HORMONAL
• Insuficiência hepática
• Câncer de mama
• Câncer de endométrio
• Triglicerídeos altos, acima de 750mg/dl pelo
risco de pancreatite
• Porfiria
• Sangramento genital anormal de causa desconhecida
• Trombose venosa profunda
• Doença coronariana
Mulheres que tenham sido diagnosticadas
com estas doenças não podem realizar a terapia de reposição hormonal clássica pelo risco
de aumento da gravidade de suas doenças,
mas podem recorrer à terapia de reposição
hormonal natural para vencer os incômodos da
menopausa, pois existem alternativas fitoterápicas para isto.
CONTRAINDICAÇÕES
RELATIVAS DA REPOSIÇÃO
HORMONAL
• Fumar
• Hipertensão arterial tratável
• Diabetes
• Dislipidemia
Estas situações merecem alguma atenção
por parte do médico, pois os medicamentos
utilizados na terapia de reposição hormonal podem trazer riscos para a paciente. Se forem utilizados na apresentação e na quantidade correta,
podem trazer mais benefícios que malefícios, e
isto fica a critério da mulher e do médico.
Pesquisa apoiada pelo edital
UNIVERSAL/FAPEMA 030/2010,
sob protocolo: 405/2011
Revista Inovação nº 22 / 2014
47
Equipe da pesquisa que analisa o uso da amora como repositora hormonal durante a menopausa. Elaine,
Caroline, Marilene, Selma e Renata.
sultado, a fim de que seja realizada a intervenção de acordo com o caso”, alertou.
Já para a relações públicas
Dalete Sampaio, a chegada da
menopausa não foi tão tranquila. “Minha menstruação
vinha a cada dois meses e,
com o tempo, o espaçamento
foi aumentando. Eu tinha insônia, sentia ondas de calor,
suava até mesmo em lugares
refrigerados, era muito desconcertante”, contou. Foi então que Dalete procurou um
médico, realizou exames de
praxe e iniciou um tratamento com uso de creme. Porém,
sem sucesso. “Usei o creme
não gostei. Resolvi procurar outro especialista que me
aconselhou remédios naturais.
Hoje estou bem e raramente
sinto uma pequena onda de
calor”, observou.
Marilene Oliveira da Rocha Borges, que
investiga os efeitos dos fitoestrogênios
ou fitohormônios como alternativa
natural à terapia de reposição hormonal.
48
Revista Inovação nº 22 / 2014
A ginecologista acrescenta
à lista de desconfortos sentidos durante a menopausa
outros sintomas que podem
variar de mulher para mulher,
como insônia, diminuição do
desejo sexual, osteoporose,
ressecamento vaginal, dor durante o ato sexual e diminui-
ção da memória. Ela explica
que, além de suavizar essas
reações, o tratamento de reposição hormonal traz outros
benefícios. “Com o tratamento, as doenças cardiovasculares e osteoporose podem ser
prevenidas, já que melhora o
cálcio no esqueleto, age beneficamente nos níveis de colesterol bom (HDL) e diminui a
possibilidade de doença coronariana”, pontuou.
PESQUISAS NO
MARANHÃO
No Maranhão, existem trabalhos na busca de tratamentos alternativos de reposição
hormonal. As pesquisadoras
Marilene Oliveira da Rocha
Borges e Selma do Nascimento Silva, desenvolvem respectivamente os estudos Efeito
de fitoestrógenos na reposição
hormonal em ratas ootorectomizadas e Efeito de Morus Nigra L (amora) como terapia de
reposição hormonal em ratas
oofectomizadas. As pesquisas
são apoiadas pela Fundação
de Amparo à Pesquisa e ao
Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão (FAPEMA).
A pesquisa da professora
Marilene Borges, que é doutora em Farmacologia, aborda a
utilização de fitoestrogênios ou
fitohormônios como alternativa
natural para mulheres com contraindicação, medo ou receio de
usar a terapia de reposição hormonal. Já a pesquisadora Selma
Silva, analisa em seu trabalho o
uso da amora como repositora
hormonal durante a menopausa.
Marilene Oliveira Borges explica que a terapia de reposição
hormonal é uma forma eficaz
para o tratamento das condições relacionadas com a pósmenopausa, entretanto está relacionada à presença de efeitos
indesejáveis, que levam muitas
vezes ao abandono pelas mulheres. “Por causa das mulheres
que temem esse tratamento, tem
sido cada vez mais frequente a
busca de alternativas seguras
para tratamento desses sintomas, como os fitoestrógenos”,
falou.
Os fitoestrógenos são compostos naturais de origem vegetal cuja estrutura e função
se assemelham ao estradiol, o
hormônio ovariano feminino.
Mas, segundo a doutora Marilene Borges, apesar do emprego
dos fitoestrógenos ter se difundido muito nos últimos anos, os
estudos científicos que comprovam o seu benefício ainda são
contraditórios, o que motivou
o estudo das pesquisadoras.
“Queremos avaliar o efeito das
isoflavonas de soja e da amora
utilizadas pela população feminina a fim de contribuir para o
conhecimento sobre suas propriedades benéficas nos sintomas do climatério”, explicou.
Os estudos das pesquisado-
ras foram experimentais, realizados em animais. Segundo Marilene
Borges, nesses animais
foram investigados os
efeitos dos produtos naturais no peso corporal
e consumo de alimento, no esfregaço vaginal, na concentração
hormonal e bioquímica
do sangue e na histomorfometria da mama
e útero. “Mostraram os
nossos resultados que
a administração oral
de isoflavonas de soja,
durante noventa dias
consecutivos, diminuiu
o peso corporal e a gordura total dos animais. Não alterou a
concentração endógena do estradiol, glicose, colesterol total
e triglicérides, porém aumentou
o HDL, que é o colesterol bom,
mostrando um efeito benéfico
das isoflavonas no metabolismo
dos animais”, detalhou.
A pesquisa mostra, ainda,
que as isoflavonas de soja não
alteraram, na dose empregada,
a histomorfometria endometrial e mamária indicando que o
uso delas, pelo período do tratamento de noventa dias, não
estimulou o útero e as mamas,
o que também é bom para um
tratamento de longo prazo. “Os
resultados obtidos com as isoflavonas vem de encontro a outros estudos empregando doses
e tempos de tratamento diferentes”, considerou a pesquisadora.
Já na pesquisa de Selma do
Nascimento Silva, doutora em
Biotecnologia de Produtos Naturais, a outra espécie vegetal
estudada, as folhas de amora,
apesar da dose de seu extrato hidroalcoólico ter induzido
redução do peso corporal dos
animais, foi observado que esta
dose estimula o útero. “Vimos
aumento no peso do útero e
efeitos proliferativos na análise
dos tecidos uterinos”, disse. Ela
explicou que esse efeito é visto com cautela. “A estimulação
uterina não deve ser desejada
em um tratamento para reposição hormonal”, ponderou. O
extrato das folhas da amora
também diminuiu a concentração de triglicerídeos no sangue.
Os resultados apresentados
pelas pesquisadoras mostraram os efeitos benéficos que
o consumo dos fitoestrógenos
avaliados (isoflavonas de soja e
amora) promovem após a menopausa, mas as pesquisadoras
fazem uma ressalva. “Assim
como para todos os produtos
naturais utilizados pela população, devem ser considerados a
dose e o tempo de tratamento
empregados e, ainda, a avaliação da toxicidade, fatores importantes para o uso racional e
seguro dos produtos”, concluíram.
Pesquisa apoiada pelo edital
UNIVERSAL/FAPEMA 004/2010,
sob protocolo: 1156/2010
Revista Inovação nº 22 / 2014
49
CIÊNCIAS
BIOLÓGICAS
Futuro
o
d
a
ç
a
ame
Sustentabilidade da pesca
artesanal no Maranhão
é avaliada a partir da
experiência no município
de Guimarães
Por Ivandro Coêlho
Fotos Roberto Santos Ramos
A
pesca artesanal é uma prática milenar que vem garantindo alimento
e renda para diversas comunidades costeiras e ribeirinhas, além de
abastecer os centros urbanos que utilizam recurso pesqueiro, principalmente no setor de alimentos. No Maranhão, essa atividade está atualmente marcada por problemas e incertezas quanto
ao futuro, devido, principalmente, à exploração
predatória dos recursos naturais e às fragilidades das políticas governamentais voltadas para
a pesca.
Foi partindo dessa observação que o professor Roberto Santos Ramos, da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA), decidiu empreender um diagnóstico de cunho social, econômico,
tecnológico e ambiental da atividade pesqueira
no município de Guimarães, localizado no litoral ocidental do estado. O objetivo do estudo
foi avaliar a sustentabilidade da pesca artesanal praticada naquela localidade e, a partir daí,
apontar subsídios para uma política de gestão e
manejo ambiental pesqueiro na região.
Revista Inovação nº 22 / 2014
51
Embora a pesquisa esteja focada na cidade de Guimarães, as informações obtidas também podem
ser utilizadas para analisar outros
municípios do litoral maranhense
que desenvolvem essa atividade,
tanto em relação à precariedade
da assistência técnica, social, econômica e operacional oferecida,
como pelo grande aumento das
taxas de exploração dos peixes,
impulsionadas pelas demandas de
segurança alimentar e produção
econômica.
“A pesquisa é fundamental
para explicar os fenômenos de esgotamento de recursos pesqueiros,
além ensejar a reflexão sobre a
pesca predatória e sobre todas as
nuances voltadas para as pescarias”, esclareceu o professor Roberto Ramos, que atualmente leciona
no campus de Pinheiro/UFMA, no
curso de Licenciatura em Ciências
52
Revista Inovação nº 22 / 2014
Naturais, e desenvolve atividades
junto ao Grupo de Estudos Socioambientais das Zonas Úmidas
da Baixada Maranhense (GES-BM).
O interesse do professor Roberto Santos Ramos pela pesca artesanal e pela cidade de Guimarães
tem raízes na própria experiência
pessoal e familiar do pesquisador. No início da década de 80,
Ramos fez várias viagens de barco com seu pai, Manoel Leonardo
Ramos, saindo da rampa Campos
Melo, em São Luís, com destino à
cidade de Guimarães. Nessas viagens, o porto era sempre o lugar
mais movimentado, não só pelas
viagens comerciais de barco, mas
pelo descarregar das embarcações
que chegavam de longas distâncias
em busca do peixe. Esse cenário
encantou o menino e futuro pesquisador.
O estudo do professor Roberto
Ramos tem como base os resultados de uma dissertação apresentada junto ao Programa de
Pós-Graduação (mestrado) em Sustentabilidade de Ecossistemas da
UFMA, que depois deu origem ao
livro intitulado A sustentabilidade
da pesca artesanal do município de
Guimarães: desafios emergentes. A
publicação da obra foi patrocinada
pela FAPEMA, por meio do Programa de Apoio à Publicação, e foi
editada e publicada pela Editora da
Universidade Federal do Maranhão
(EDUFMA).
DIAGNÓSTICO
Uma das constatações da pesquisa é de que há um aumento
do esforço de pesca nas capturas
(maior tempo no mar, maior comprimento das redes, embarcações
de maior potência, mais pescado-
TIPOS DE EMBARCAÇÃO
Bote: Embarcação que varia de pequeno a médio
porte, o comprimento varia de 6 a 10 metros. Possui a
proa (frente da embarcação) fechada, pois utiliza uma
peça chamada beque de proa que faz parte da armação
da embarcação. Utiliza como petrechos, a serreira e a
pescadeira (camurim, pirapema, gurijuba etc). Abarca até
1000 metros de rede. Normalmente é motorizado. Sua
autonomia em alto mar varia numa média de 7 dias.
Biana boca fechada: Formato da proa achatada.
Segundo pescadores, é a melhor embarcação para o mar. Ela
acompanha a onda, portanto tem mais velocidade. Possui
toldo (espécie de cabine), por isso se diz que ela é fechada.
Usa-se como principais petrechos espinhel, zangaria,
pescadeira e serreira. Pode abarcar como tamanho de rede
de 1000 a 1500 metros. Usa-se como propulsão o motor e a
vela. Sua autonomia de viagem varia em torno de 8 dias.
Copama: Embarcação de médio porte de tamanho fixo.
Constituído de fibra de vidro. Utiliza como petrechos
pescadeira e serreira. Pode abarcar até 2000 metros de
rede. Como propulsão, usa-se motor de centro variando
de 20 a 40 hp. Sua autonomia de pesca em alto mar varia
de 6 a 8 dias.
Biana boca aberta: Possui as mesmas
características da biana boca fechada, só que sem o toldo.
O petrecho mais utilizado é a malhadeira com a metragem
chegando até 1500 metros.
Bastardo (curicaca): Embarcação de pequeno
porte com média de 5 metros de comprimento. Utiliza
todos os tipos de petrechos de pesca. Podendo abarcar
até 500 metros de rede. Sua autonomia de pesca é
normalmente de um dia.
Canoa: Embarcação de pequeno porte. Utiliza
comumente como artes de pesca, a sajubeira, espinhel,
guizo (pulsar), pesca de linha, curral. Não se distancia da
costa, ficando normalmente em águas mais paradas no
estuário. É propulsionada a remo, utiliza a volga como
suporte. Suporta de 100 a 500 quilos de peixe.
Revista Inovação nº 22 / 2014
53
sultados abaixo do potencial produtivo da região, comprometendo
a sua sustentabilidade ambiental,
social, econômica e tecnológica.
PESCADORES E
COOPERATIVAS
No Maranhão, existem cadastrados no Ministério da
Pesca e Aquicultura, aproximadamente 100.000 pescadores.
Ao longo de décadas, diversas
instituições dedicadas à promoção do chamado “desenvolvimento” suscitaram entre
os pescadores a constituição
de sociedades cooperativas,
no entanto, estas organizações
não perduraram por muito
tempo. Os efeitos dessas políticas são percebidos até hoje,
sendo que muitos pescadores
tornaram-se avessos a novas
iniciativas dessa natureza.
Observando essa realidade,
o pesquisador o engenheiro de
pesca e mestre em Sustentabilidade de Ecossistemas, Tito
Carvalho Tsuji, também se debruçou sobre a pesca artesanal
no Maranhão. Prestes a lançar
o livro Pescadores e cooperativas: um olhar sobre pescarias
e sustentabilidade com o apoio
da FAPEMA, ele analisou as
iniciativas de constituição de
cooperativas de pescadores no
Maranhão.
“Parti do ponto de vista dos
pescadores envolvidos com as
res envolvidos, etc). “Mas isso necessariamente não significa maior
produção, pois as capturas principalmente em larga escala, de um
modo geral, ultrapassam o nível
ótimo de sustentabilidade dos estoques pesqueiros, comprometendo,
assim, a capacidade de renovação
dos estoques”, alertou o pesquisador.
54
Revista Inovação nº 22 / 2014
cooperativas, ou seja, centrei
a observação buscando desvendar, de sua lógica, de sua
ótica, os motivos do insucesso
desses empreendimentos. É
possível dizer que os pescadores sócios das cooperativas
vêm de um contexto cheio de
transformações. Nascidos em
comunidades tradicionalmente pesqueiras, estes pescadores aprenderam seu ofício com
seus familiares e integrantes
de suas comunidades, num
processo que envolve prática
e oralidade, que lhes confere
um conhecimento profundo
sobre os ambientes onde estão
inseridos. Entre os anos 60 a 80
esses pescadores vivenciaram
transformações,
produzidas
pelo cenário político econômico que o Estado atravessava e
que introduziram modificações
em seus sistemas de pesca, que
passou a depender do mercado para a venda de sua produção e aquisição dos instrumentos de trabalho”, explicou Tsuji.
Pesquisa apoiada pelo edital
APUB/FAPEMA 010/2012, sob
protocolo: 98577/2014
De acordo com o professor Antônio Carlos Leal de Castro, que
prefaciou o livro, as informações
obtidas nessa pesquisa confirmam a hipótese de que a prática
da atividade pesqueira artesanal
nos moldes atuais no município
de Guimarães (sem controle, sem
organização social para atividade
e sem ordenamento) produzem re-
“Os
resultados
alcançados refletem com propriedade a
problemática vivenciada pelos
pescadores no seu cotidiano, a
etnobiologia, o conhecimento tradicional e a ausência de políticas
públicas para o setor. Fatores que
se agregam e definem a dinâmica pesqueira da região da bacia
hidrográfica de Cumã e, por extensão, de todo o litoral ocidental
maranhense”, declarou.
ALTERNATIVAS
Uma das saídas viáveis para
superar os desafios que se impõem
diante das altas taxas de exploração do recurso pesqueiro, segundo
o professor Roberto Ramos, são os
cultivos como forma de diminuir
a pressão sobre os estoques naturais. Além disso, é preciso identificar novas espécies de valor econômico e incentivar a conquista de
novos mercados, a fim reabilitar
os estoques comprometidos ou os
que diminuíram as capturas, entre
elas cambéua, cangatã, pescada,
tainha e xaréu.
O professor defende ainda que
as políticas pesqueiras devam se
adequar à realidade local e que
aproveitem o conhecimento tradicional. “O reconhecimento dos
múltiplos saberes e sua respectiva
integração com o conhecimento
científico é justo, oportuno e necessário para fazer valer a pluralidade e, junto a ela, o saber tradicional, o que certamente garantirá
a permanência das comunidades
locais e a sustentabilidade dos seus
territórios e modos de vida”, assegurou o pesquisador.
Pesquisa apoiada pelo edital
APUB/FAPEMA 010/2012, sob
protocolo: 23862/2014
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