Em 2009 comemorou-se o ano da França no Brasil. Inaugurando esta seção de conteúdos em história da
física, o Museu Interativo da Física presta um tributo à família Curie, cujo legado constitui um dos mais importantes
capítulos da física feita na França, desde o final do século XIX até o primeiro quarto do século XX.
O legado dos Curie
Prólogo
Quando Pierre Curie e Maria Sklodowska irromperam na cena científica francesa, nas últimas décadas do
século XIX, o mundo era bem diferente do que é hoje. O telefone (1876) e a luz elétrica (1879) eram curiosidades às
quais poucos podiam dar-se ao luxo. As ondas eletromagnéticas haviam acabado de ser descobertas por Heinrich
Hertz (1887) e o Telégrafo sem fio de Marconi (1896), que usava as ondas Hertzianas para
transmitir o código Morse através do espaço, sem fios, eram os primeiros e tímidos indícios
da futura era das telecomunicações. A ciência da eletricidade e do magnetismo saía, a
passos cada vez mais largos, dos laboratórios de pesquisa, começando a transformar a
sociedade e fazer a fortuna de seus inventores, ou daqueles que se apoderaram dos
inventos. Desatentos e desinteressados em tais aplicações, dos fundamentos já
estabelecidos na ciência, muitos acadêmicos continuavam a perseguir um ideal de ciência
pura, de construção de um saber universal, racional, coletivo, patrimônio de toda a
civilização, promotor do progresso e da libertação do homem. Quando perguntado, nos anos
de 1880, pelas aplicações práticas de suas ondas eletromagnéticas Hertz teria dito:
“nenhuma, eu acho”. Quando Röntgen recebeu o primeiro Prêmio Nobel de física,
concedido a alguém, pela descoberta dos raios-X, doou todo o dinheiro do prêmio à sua
Universidade. Entre estes positivistas certamente encontraremos Pierre e Marie.
Talvez possamos começar a saga dos dois a partir da descoberta de
Röntgen, na Alemanha. O estudo de descargas elétricas através de
gases rarefeitos, havia confrontado os físicos com os chamados raios
catódicos. Estes eram gerados dentro de ampolas de vidro, onde se
produzia o vácuo. Sua natureza então desconhecida aguçava a
imaginação dos físicos. Sabia-se que eram carregados negativamente,
mas se desconhecia se eram ondas ou partículas. Foi em experiências
com tubos de raios catódicos que Röntgen descobriu emissões de raios
invisíveis, que escapavam dos tubos de raios catódicos para o ambiente e
que eram capazes de impressionar uma chapa fotográfica. Por não
conhecer sua natureza, os designou raios-X. Estes se distinguiam dos
raios catódicos, entre outras coisas, por serem eletricamente neutros. O
ano era 1895. Entre as primeiras fotografias está uma foto da mão de sua
esposa Anna Bertha, na qual seu anel de casada impede a passagem dos
raios-X.
Nos primeiros meses de 1896 as chapas de Röntgen são exibidas perante a Academia Francesa de Ciências.
Entre os presentes está Antoine Henri Becquerel, que se questiona se haveria uma relação entre os raios-X e o
fenômeno da Luminescência, do qual era especialista. Luminescência é o nome genérico (abrangendo a fluorescência
e fosforescência) que se dá ao fenômeno de emissão de luz, por certos materiais, após
terem sido expostos à luz solar. Becquerel começou então investigar se substâncias
fluorescentes emitiriam também raios X. Em uma primeira série de experiências testou
sucessivas substâncias luminescentes, durante todo o mês de Janeiro, sem obter qualquer
resultado. Quando, finalmente, repetiu o experimento
com o uranilo (sal de Urânio) exposto à luz solar,
constatou que o mesmo era capaz de impressionar a
chapa fotográfica, mesmo através do papel escuro
com o qual a recobrira. Descobrira, assim, uma
substância luminescente que emitia raios X. Foi na
seqüência destes experimentos que descobriu então,
acidentalmente, emissões espontâneas invisíveis do
uranilo, quando este não fora exposto à luz solar.
Tudo se deveu à sua decisão (sabe-se lá porque) de revelar a chapa fotográfica
que ficara guardada com o uranilo em uma gaveta, após vários dias nublados:
nela estava impressa a imagem da amostra de uranilo que com ela havia sido
guardada!
Marie e Pierre
Neste mesmo ano de 1896, uma imigrante de origem Polonesa,
recém formada na Sorbonne, está à procura de um tema para seu
futuro trabalho de Doutorado. É Marie Curie, nascida Sklodowska,
que chegara à Paris em 1991, graduara-se em Física, pela Faculdade
de Ciências, em 1893, em primeiro lugar, e em ciências matemáticas
em 1994, em segundo. Seu brilho pessoal e competência logo lhe
valeram o respeito profissional e o afeto pessoal de seus professores,
como Gabriel Lippmann, seu futuro porta-voz diante da Academia
Francesa de Ciências, e colaboradores. Ali também conhecera
Pierre Curie, que era „‟professeur d'électricité, de magnétisme et du
cours de physique théorique‟‟, na École de physique et de chimie
industrielle de la Ville de Paris. Os dois tinham se conhecido em
1894, casando-se no ano seguinte. O professor Curie, por sua vez,
havia defendido sua tese de Doutoramento em 1895, sobre as propriedades magnéticas dos corpos em diversas
temperaturas, aí enunciando a hoje chamada Lei de Curie e ali definido o hoje chamado Ponto de Curie, que é a
temperatura a partir da qual certos materiais inicialmente magnéticos perdem esta propriedade. Sua notoriedade em
física remontava aos anos de 1880, quando juntamente com seu irmão Jacques, descobrira o fenômeno da
piezoeletricidade, isto é, a produção de uma tensão elétrica por um cristal, a partir de sua compressão mecânica, bem
como o fenômeno inverso. Em 1882, seguindo seus estudos sobre as propriedades da piezoeletricidade, construíra
com Jacques o dinamômetro piezoelétrico, que viria a ser de grande utilidade nas descobertas ainda por vir.
Os primeiros passos de Marie
Marie engravidou naquele mesmo ano de 1896, dando a luz à sua primeira filha Irène em setembro de 1897. É
somente em dezembro de 97 que Marie começa seus trabalhos de doutoramento, na École supérieure de physique
et de chimie industrielles de la ville de Paris, tendo por tema os raios do uranilo, descobertos por Becquerel. Estes
eram então chamados de raios urânicos, por se acreditar que eram específicos deste elemento, ou, como Marie os
chamava, raios de Becquerel. Pode agora parecer curioso, mas o objetivo inicial de Marie, em sua tese, era apenas o
de realizar medidas de alta precisão neste fenômeno recém descoberto. Os experimentos iniciais, dos quais resultou a
descoberta dos raios X e da radioatividade, se baseavam na sensibilização de
chapas fotográficas, sendo a intensidade do efeito avaliada pela intensidade do
enegrecimento da chapa fotográfica, e, portanto, um método qualitativo.
Marie, por sua vez, foi pioneira por introduzir métodos quantitativos no estudo
dos raios de Becquerel. Para medir a intensidade destes raios, o procedimento
introduzido por Marie consistia no seguinte: Era um fato que os raios de
Becquerel ionizavam o ar, isto é, o tornava condutor de corrente elétrica,
podendo a corrente gerada ser medida em um galvanômetro. Esta corrente
podia igualmente ser neutralizada por uma tensão elétrica, gerada por um cristal
piezoelétrico, quando pressionado (o efeito que Pierre descobrira anos antes).
Assim, o valor da pressão, que permitia neutralizar a corrente elétrica, era uma
medida da intensidade dos raios de Becquerel. Por tratar-se de um cristal de
quartzo, este dispositivo ficou conhecido como balança de quartzo
piezoelétrica ou simplesmente balança de quartzo.
Neste mesmo ano de 1897, Joseph John Thomson, chefe do grupo de físicos do
Laboratório Cavendish, em Cambridge, Inglaterra, revela, finalmente, a natureza dos raios
catódicos. Ele mostrou que se tratava de partículas carregadas negativamente. Era e
descoberta do elétron, primeira partícula subatômica “observada” pelo homem.
Entrando pelo ano de 1898, Marie não dá sossego a todos os que lhe possam conseguir
amostras de metais, minérios, enfim qualquer substância que também pudessem possuir a
propriedade de emitir raios de Becquerel, usando, para isso, sua balança piezoelétrica.
Descobre, então, raios de Becquerel no Tório, elemento de número atômico 90 na tabela
periódica. Marie dá o nome genérico de radioatividade ao fenômeno da emissão. Como
provara que o fenômeno da emissão espontânea não era exclusividade do Urânio, Marie
vislumbra, então, pela primeira vez, que a radioatividade era um fenômeno proveniente do
átomo de certas substâncias “privilegiadas”. Nesta ocasião Marie mede também a
radioatividade de minérios de pechblenda e calcolita e fica confusa, pois sua atividade era
muito maior do que se poderia estimar a partir dos teores de Urânio e Tório, neles
presentes. Ela faz então a conjectura de que haveria, nestes minerais, ao menos um
elemento químico então desconhecido, e muito mais ativo que o Urânio ou Tório. No dia 12
de abril, Marie comunica à Academia de Ciências, através de seu ex-Professor Gabriel
Lippmann, a atividade “anormal” da pechblenda e da calcolita dizendo que “esse fato é
muito marcante e leva a crer que esses minerais podem conter um elemento muito
mais radioativo do que o Urânio”. Pierre, percebendo que sua companheira estava
diante de algo potencialmente “grande”, abandona seus trabalhos em magnetismo
juntando-se a esposa no estudo da radioatividade.
Neste mesmo período Ernest Rutherford, que fora um dos membros da equipe de
Thomson, no Cavendish, descobriria que há duas formas distintas na radioatividade, às
quais designou radiação α (alfa) e β (beta), com diferentes poderes de penetração na
matéria.
A descoberta
Após receberem uma tonelada de pechblenda (o
óxido de urânio), que lhes fora ofertada pelo governo
austríaco, o casal Curie inicia seu exaustivo processo de
separar os diversos componentes da pechblenda,
medindo a atividade de cada um deles. Em 13 de junho
de 1898, Marie anota em sua caderneta que medira uma
atividade de 150 vezes a do urânio, em um precipitado.
Em 18 de julho estão seguros para anunciar a
descoberta. No Comptes Rendus de julho anunciam a
descoberta de um novo elemento químico. É um metal,
emissor espontâneo dos raios de Becquerel, ou, para
usar o termo por eles cunhado: um elemento radioativo.
Este viria a ocupar o lugar de número atômico 84 da
tabela periódica e seria batizado, por Marie, de Polônio,
em homenagem a sua terra natal. De certa forma, os
dois se apressaram em batizar o elemento. Após reanálise dos dados ficaram convencidos de que haveria
na pechblenda um segundo elemento, este sim o responsável dominante pela atividade do minério. O polônio, embora
tivesse radioatividade alta, tinha uma vida muito curta o que tornava a possibilidade de isolá-lo, remota. Em setembro
anunciariam a evidência do outro elemento radioativo, presente na pechblenda. Isolariam o segundo elemento, também
radioativo, e que viria a ser o elemento 88 da tabela: o Rádio. A comunicação à Academia se daria em dezembro,
assinada por Pierre Curie, Marie Curie, e pelo químico Georges Bémont. Eles haviam isolado 0,1 g de rádio a partir de
1 tonelada (1.000.000 g) da pechblenda. Sua amostra inicial era 7.500 vezes mais ativa que o minério original.
Paralelamente às conquistas dos Curie, o entendimento da física das radiações começa a revelar que esta era o
caminho de acesso à estrutura e ao interior do átomo. Em 1899 o professor Becquerel e colaboradores mostram que a
radiação beta era, na verdade, a emissão de elétrons, da parte do material radioativo. Em 1900, Paul Villard
descobre que há uma terceira “componente” na radiação dos sais de urânio, mais penetrante que as anteriores, a qual
chamou radiação γ (gama). Em 1901 Röntgen é laureado com o primeiro Prêmio Nobel de Física, a ele concedido
pela descoberta dos raios X. Em 1902, Rutherford e F. Soddy observam a transmutação espontânea do Tório (o
elemento 90) radioativo em Argônio (o elemento 18!). Em 1903, Rutherford propõe a teoria do decaimento
radioativo: cada processo radioativo é uma transmutação de elementos. Um átomo que se transforma em outro. A
radiação são os “dejetos” do elemento primordial.
Nobel e fama
A descoberta dos Curie lhes traria o devido reconhecimento. Neste mesmo ano de 1903 Marie e Pierre recebem
em 5 de novembro a medalha Humphry Davy, da Royal Society of London. Em 12 de dezembro dividem com
Becquerel o Prêmio Nobel de Física. O prêmio estava em sua terceira edição. Ao casal Curie, “Em reconhecimento
aos extraordinários serviços prestados por eles em suas pesquisas conjuntas sobre o fenômeno da radiação
descoberto pelo Professor Henri Becquerel”. A Becquerel, "Em reconhecimento aos extraordinários serviços
que ele prestou através de sua descoberta da radioatividade espontânea”. Com o reconhecimento viria também o
assédio decorrente da fama, que os Curie sempre
considerariam um infortúnio, obstruindo sua
disponibilidade para dar continuidade aos
trabalhos. Em novembro de 1904 Marie é
nomeada assistente de Pierre na Faculdade de
Ciências. Em dezembro nasce Eve, a segunda e
última filha do casal.
Foi neste período que o industrial francês
Armet d’Isle iniciou a instalação do primeiro
complexo industrial voltado para a extração do
rádio, a partir da pechblenda. Na percepção de
Armet o rádio era a matéria prima de muitas
aplicações industriais e médicas futuras. Foi
André Debierne, que fora colaborador de Marie,
quem prestou assessoria ao industrial para
instalação do complexo. Os Curie se recusaram a
receber qualquer royalty ou patentear o processo
de extração do rádio, renunciando à fortuna que
isso lhes teria trazido.
Tragédia
No ano de 1906 a tragédia se abate sobre eles. No dia 19 de abril, ao sair de um
almoço na Associação de Professores da Faculdade de Ciências, Pierre caminhava pela
Rue Dauphine, a caminho da Faculdade, debaixo de chuva, quando é atropelado por
uma carroça de dois cavalos, conduzida por um certo Luis Manin. Após debater-se entre
os cavalos, Pierre caiu e a roda traseira da carroça lhe acertou o crânio. Logo a vítima foi
identificada e o pobre Manin chorava no banco do posto policial enquanto a multidão
ameaçava trucidá-lo. Matara Pierre Curie, o maior orgulho científico da França! Pierre
tinha 46 anos.
Em meio à comoção e ao luto pela viúva mais famosa da França, Marie recusa a
oferta de pensão vitalícia que o Ministério da Educação lhe oferece. O conselho da
universidade decide, por unanimidade, manter a cátedra criada para Pierre, em 1904,
ofertando-a a Marie. Em novembro ela assume a cátedra que fora criada para Pierre, na
Sorbonne. Foi a primeira mulher a ocupar uma posição acadêmica nesta universidade.
Física das Radiações e estrutura atômica
Os desdobramentos da física de radiações começam a revelar a estrutura atômica. Em 1909, Rutherford e T.
Royds descobrem que a radiação α é uma emissão de átomos de Hélio (o elemento de número 2) duplamente
ionizados, isto é, dos quais estão ausentes dois elétrons.
Em 1910, Marie publica seu primeiro tratado sobre radioatividade. Nele admite sem reservas a teoria da
transmutação como base para a explicação da radioatividade. Antes, Pierre e Marie tinham recebido com reservas as
idéias de Rutherford, acreditando que a radioatividade era uma propriedade de átomos “privilegiados” que mantinham
sua “integridade” no processo. Em 1906 Marie dissera “Ela deve ser uma característica absolutamente essencial
do próprio material”.
Neste mesmo ano Marie é incumbida, por ocasião do Congresso de Radiologia, em Bruxelas, de produzir um
padrão para o rádio, necessário para a pesquisa quanto para a terapia. A ampola contendo 20mg de rádio metálico
deveria ser depositada na Agência Internacional de Pesos e Medidas, em Paris. Neste mesmo congresso se
introduziu o Curie (Ci), em homenagem a Pierre, como unidade de radioatividade.
Em 1911 Rutherford, H. Geiger e E. Marsden descobrem o núcleo atômico, em seu clássico experimento de
bombardear uma fina folha de ouro, com um feixe de radiação α . A radiação α é entendida a partir daí como o núcleo
do átomo de Hélio. Nascia a concepção do átomo como uma espécie de pequeno sistema solar.
Neste mesmo ano a nata da física mundial se reuniu, também em Bruxelas, para participar da primeira edição do
Congresso Solvay de Física. Na fala de todos os expositores se podia perceber as dificuldades que os fundamentos
da física, tal como eram então, enfrentavam para explicar os fenômenos antes imperceptíveis e agora “à luz do dia”. Lá
se encontrava Max Planck, trazendo à pauta a natureza quântica do mundo atômico. Kamerlingh Onnes e sua recém
descoberta propriedade da supercondutividade. Rutherford e os problemas da estabilidade atômica. Lorentz, Poincarè,
o jovem Einstein e a teoria da relatividade como resposta aos problemas teóricos relacionados aos movimentos cujas
velocidades eram próximas à da luz, entre outros mais. Este novo mundo da física Marie ajudara a revelar. Na célebre
foto do encontro, vemos Marie acompanhando atenta a explanação do grande matemático francês, Henri Poincaré,
ambos sentados à mesa. Atrás de Marie, em pé, outra grande figura na física de radiações e do átomo, Ernest
Rutherford. Também de pé na extrema direita Albert Einstein. Mesmo não sendo o que hoje chamaríamos uma física
matemática, Marie tinha clara percepção dos impasses teóricos enfrentados pela física. Do jovem Einstein dirá: “Se
considerarmos que Einstein ainda é muito jovem, temos o direito de depositar nele enormes esperanças e de
nele ver um dos primeiros teóricos do futuro”. De fato, Einstein ainda não publicara sua teoria da gravitação, o que
faria apenas em 1915, cujas primeiras confirmações o iram sacralizar na física, como um novo Newton, em 1919. Ainda
durante o encontro Solvay, Marie tem a notícia de que um segundo Prêmio Nobel lhe aguarda. No fim do ano é
laureada com o Prêmio Nobel de Química. Nas palavras da Fundação Nobel, “pelos seus serviços ao
desenvolvimento da química, com o descobrimento dos elementos rádio e polônio”.
Tempo de Guerra
No ano de 1914 Marie assume a direção do recém-criado Institut du Radium da
Université de Paris. Com a eclosão da Grande Guerra (que só seria chamada Primeira
Guerra Mundial após a segunda), o instituto teria que esperar. Marie entra para a Cruz
Vermelha que a nomeia diretora de seu Serviço Radiológico. Equipando ambulâncias
com aparelhos de raios x portáteis, ela deu treinamento intensivo aos enfermeiros e
médicos, e, tendo Irène como assistente, ela também seguiu para o front, fazendo
diagnóstico de feridos.
Instituto do Rádio
Com o fim da Guerra, em 1918, Marie finalmente assume suas funções a frente do Institut du Radium.
Quando viaja com as filhas aos Estados Unidos, em 1921, é presenteada com 1g de rádio, obtido a partir de uma
campanha de uma jornalista, que lhe foi entregue pelo Presidente Harding, pessoalmente. Em 1922 Marie é eleita para
a Academia de Medicina. Seus contatos no meio médico lhe permitiram prosseguir com suas metas (originadas ainda
com Pierre) de se produzir protocolos de segurança para trabalhadores, bem como o aperfeiçoamento daquilo que se
viria chamar “curieterapia” ou “radioterapia”, isto é, a irradiação de tumores cancerígenos ou pré-cancerígenos pelo
rádio.
Marie se manteve frente do Instituto do Rádio até sua morte, em 1934. Ali ainda se produziriam pesquisas
importantes ao desenvolvimento da física das radiações, da física atômica e, a partir dos anos 1930, da física nuclear.
Foi lá que Irenè concluiu sua tese de Doutorado, sobre as partículas alfa, altamente energéticas, geradas pelo Polônio,
em 1925. No início dos anos 1930, seu genro, Frédéric Juliot, juntamente com Irène estiveram ponto de descobrir o
segundo constituinte nuclear depois do próton: o nêutron. Interpretaram-no como raios gama “duros”, já que
produziam um feixe de radiação neutro, tal como a radiação gama. Coube a James Chadwick, seu descobridor oficial,
a identificação correta. Quase foram os primeiros a revelar ao mundo a primeira partícula de anti-matéria, o pósitron.
No ano de 1934, descobriram fenômeno da produção de Radioatividade Artificial com emissão de pósitrons. Nas
palavras de Juliot: “desta vez chegamos na hora”. Marie teve tempo de ver o fenômeno da radioatividade artificial,
mas não pode testemunhas a premiação que isto renderia a Juliot e Irène: o Prêmio Nobel de Química, em dezembro
1935 (James Chadwick
receberia o de Física,
pela descoberta do
nêutron). Marie viria a
falecer no mês de
setembro.
Em
reverência ao legado
de seus sogros, Juliot
decidiu mudar seu
nome para Frédéric
Juliot-Curie, ao casarse com Irene.
Os Juliot-Curie
Com o Premio Nobel de 1935, Juliot iria assumir papel central na política científica francesa, afastando-se
temporariamente da pesquisa. Irène, que seguiu em frente, resolve dedicar-se ao estudo do “suposto” elemento 93,
que Enrico Fermi parecia ter produzido em 1934, irradiando o Urânio com nêutrons lentos. Na conjectura de Fermi, o
processo de formação do elemento 93 seria o seguinte: ao ser exposto a um “banho” de nêutrons, imaginava-se que
algum deles fosse absorvido pelo núcleu do Urânio. Uma vez lá dentro esse nêutron sofreria uma transmutação em
próton (o chamado decaimento beta). Como o Urânio era o elemento 92, gerava-se assim o elemento 93, nunca antes
observado. Irène, e seu colaborador Pavel Savitch, “gerou” e observou as propriedades químicas do “elemento 93” e
encontrou que ele não parecia diferir em nada ora do Lantânio ora do Actínio, todos elementos mais leves que o
próprio Urânio primordial. Como poderia ser? Após esses resultados, publicados em 1937 e 1938, Juliot deve ter
percebido, então, que estava vivendo um momento semelhante ao de seu sogro, em 1898, impelido a deixar de lado o
que estava fazendo para unir os esforços, junto a sua companheira, diante de algo potencialmente significativo que ela
encontrara. Assim o fez, mas já era tarde. Neste mesmo ano de 1938, em dezembro, Otto Hann e Fritz Strassmann,
na Alemanha, são os primeiros a identificar que o processo de geração do elemento 93 era, na verdade, a quebra do
núcleo de Urânio. O que Fermi, Irène, e os alemães estavam vendo era, na realidade, os fragmentos da fissão
nuclear. Todos percebem, de imediato, o caráter extraordinário do novo processo nuclear. Juliot rapidamente retoma
a vanguarda nas pesquisas. Juntamente com seus colaboradores Halban e Kowarski publica na Nature, em abril de
1939, o trabalho “Liberation of Neutrons in the Nuclear Explosion of Unarium”, no qual estima que cada fissão de um
núcleo de Urânio libera aproximadamente 3 nêutrons. Haveria assim a possibilidade de uma reação em cadeia e o uso
do Urânio como fonte efetiva de energia. Com o clima de Guerra, na Europa, cada vez mais onipresente, em maio de
1939, Juliot e colaboradores elaboram patentes secretas, em nome da CNRS (Centre national de la recherche
scientifique) de como se construir um Reator Nuclear, o Método para controlá-lo e a Bomba. Com a invasão e
capitulação da França, nos primeiros meses de 1940, Juliot dispersa o grupo, mandando seus colaboradores e a
matéria prima que dispunha para a Inglaterra. Seus trabalhos seriam depositados como pis cachetés na Academia de
Ciências, e somente seriam abertos em 1948. Contudo, ele volta para Paris, disposto a estar à frente da ciência
francesa durante o período da ocupação e do governo de Vichy. A frustração constante, gerada pela dura negociação
com as autoridades alemãs, o colocariam cada vez mais à esquerda, passando a defender a luta armada e a
derrubada do governo de Vichy, unindo-se aos socialistas e passando à clandestinidade antes do fim da guerra. Irène,
cuja saúde se debilitara muito nos últimos anos, seria levada em segurança, por ele, à Suíça.
Após a guerra, os Estados Unidos não reconheceram devidamente as contribuições da França à conquista
principalmente do Reator, já havendo neste momento reatores em operação naquele país. O primeiro fora posto em
operação por Fermi, em Chicago, em 1942. O general Grooves, chefe militar do projeto da Bomba atômica nutria
abertamente uma inimizade em relação da Juliot que, para ele, era só “um comunista”.
Os Curie hoje
Os Curie são personagens centrais de algumas das conquistas científicas que moldaram e mudaram as
relações entre os homens, no século XX. Em números de 2001, a França era o país que mais proveito pacífico tirava
da energia nuclear em toda a Europa, com 59 reatores em operação, gerando 63,203 Megawatts de energia elétrica.
Atrás dela vinha a Alemanha, com 19 reatores e 21 Megawatts. O primeiro deles, embora não executado em sua
época, por causa da guerra, fora obra de Juliot-Curie. Era, contudo, perfeitamente funcional. Em todos os continentes,
países lançam mão da alternativa nuclear ao menos parcialmente, em suas matrizes energéticas. O ITER (International
Termonuclear Experimental Reactor), que permitirá a geração de energia elétrica sem a produção do indesejável lixo
atômico, seria para eles o coroamento da longa história do uso do átomo para o bem do homem. Não se pode deixar
de pensar que há um significado simbólico em construir-se o ITER, embora seja um empreendimento de toda a
comunidade européia, EUA, China, Índia, Coréia e Japão, no território francês.
As aplicações das radiações na medicina, começando pelos raios-X, passando pela radioterapia, no
tratamento do câncer, deram lugar a medicina nuclear, e estão intimamente ligados aos Curie. A moderna Positron
emission tomography (PET) faz uso da radiação artificial, descoberta por Irène e Juliot em 1934, para produzir a
imagem, através da aniquilação elétron-pósitron.
Em sua ética positivista Pierre e Marie provavelmente ficariam felizes em ver o advento da Internet. Sua
disseminação, a proliferação de conteúdos e serviços de graça: os programas “free-ware”, o “Google earth”, o “EasyWeb of Science”, a “virtualização” das Bibliotecas Públicas do mundo, o “internet Archives”. Usariam o “Linux” em vez
do “Windows”, o “Latex” e não o “Word”. As grandes empreitadas científicas de nosso tempo, envolvendo conjuntos de
nações em colaboração solidária, orçamentos públicos e privados monumentais, para o desenvolvimento da ciência,
seriam acolhidos com grande alegria, por eles. Estariam felizes com a Estação Espacial Mundial, com o ITER, já
mencionado, com o (LHC) o Large Hadron Collider, no CERN, na divisa da França com a Suíça, que poderá revelar a
estrutura mais íntima das partículas subatômicas.
Texto: Marcelo Costa de Lima
Coordenador do Museu Interativo da Física da UFPA
Para saber mais:
Bassalo, J.M.F. “Crônicas da Física”, tomo I, GEU-UFPA, Belém, 1987.
Bassalo, J.M.F. “Nascimentos da Física (3500 a.C. – 1900 a.D)”, Editora Universitária UFPA, Belém, 1996.
Weill, Adrienne R., CURIE, Marie. In: César Benjamin (ed.). Dicionário de Biografias Científicas. 3 vols. Rio de Janeiro: Contraponto Editora Ltda,
2007, V. I, pp. 551 – 557.
Wyart, Jean, CURIE, Pierre. In: César Benjamin (ed.). Dicionário de Biografias Científicas. 3 vols. Rio de Janeiro: Contraponto Editora Ltda,
2007, V. I, pp. 557 – 563.
Giroud, Françoise “Marie Curie”, Martins Fontes, São Paulo, 1989.
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