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As mulheres e o
patriarcado nas
comunidades paulinas
Sandra Regina Pereira
São Leopoldo/RS
2015
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Série: A Palavra na Vida – Nº 329 – 2015
Título: As mulheres e o patriarcado nas comunidades paulinas
Autora: Sandra Regina Pereira
Capa: Artur Nunes
Editoração: Rafael Tarcísio Forneck
ISBN: 978-85-7733-241-0
Sandra Regina Pereira é leiga de tradição católico romana. Graduada filósofa, tem especialização em Bíblia. Trabalha em escola pública na cidade de
Maringá, PR.
Sumário
Introdução...........................................................................................5
1. As mulheres antes do Cristianismo...............................................6
1.1 O matriarcado............................................................................6
1.2 A subordinação das mulheres....................................................8
1.3 O mundo grego.........................................................................10
1.4 O mundo romano......................................................................17
2. As mulheres no mundo cristão e nas comunidades paulinas......23
2.1 O mundo cristão e as mulheres das comunidades paulinas......23
2.2 O espaço feminino em 1Coríntios.............................................32
2.3 O casamento (1Cor 7)...............................................................34
2.4 O véu (1Cor 11)........................................................................36
2.5 A submissão (1Cor 14,34-35)...................................................38
Conclusão.............................................................................................41
Referências...........................................................................................43
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Introdução
O presente texto tem a pretensão de investigar as mulheres que
foram colaboradoras nas comunidades paulinas, mais precisamente as
mulheres do capítulo 16 da carta aos Romanos, e, ainda, analisar os textos que tratam de assuntos relacionados ao universo feminino, como em
1Coríntios 7; 11,5 e 14,33-35.
O caminho a ser percorrido no desenvolvimento do trabalho é, primeiramente procurar entender a história das mulheres, partindo da antiguidade, quando existia o matriarcado e a organização da tribo ou da comunidade era realizada por elas. Depois, passaremos pelo espaço do homem e
da mulher no mundo grego e no mundo romano, para que possamos compreender o contexto social, econômico e religioso onde estavam inseridas
e, também, entender como e por que certas ações e atitudes influenciaram
as comunidades paulinas. Por último, no capítulo II, trataremos dos textos
destacados acima, procurando descobrir quem são as mulheres mencionadas por Paulo e qual foi o seu papel na formação da igreja primitiva,
assim como procuraremos destacar alguns assuntos polêmicos com relação
à orbe feminina, como o casamento, o uso do véu e a submissão das mulheres aos seus maridos.
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As mulheres
antes do Cristianismo
1.1 O matriarcado
Na Idade da Pedra, a organização social se dava através do clã matriarcal. As mulheres coletavam de 65 até 80 por cento do alimento da comunidade. Foram elas que descobriram várias plantas comestíveis e medicinais, inventaram recipientes feitos de casca de árvores e peles de animais,
dominaram o fogo e domesticaram animais1.
O mais incompreensível para os homens era o fato das mulheres
produzirem crianças de seu próprio corpo, sem saber de sua participação
na reprodução. As mulheres da Idade da Pedra eram vistas como a própria
incorporação viva da força da deusa. Estima-se que a adoração à Grande
Deusa se deu por 25.000 anos e que, neste período, a mulher era considerada criadora da vida.
A mulher, sendo considerada a encarnação da deusa na terra, exercia o elo entre a comunidade e a divindade. Era a sacerdotisa xamânica2.
Através dos ritos sagrados e das danças que conduziam ao estado de transe,
as sacerdotisas canalizavam a força criadora da deusa para o seu mundo
material. Também eram controladoras de sua própria sexualidade, sabiam
1 ROBERTS, 1998, p. 20.
2 A partir do momento em que as mulheres eram consideradas a encarnação terrena da
deusa, era natural que algumas devessem proporcionar o elo vital entre a comunidade e
sua divindade, e isto elas fizeram como sacerdotisas xamânicas. ROBERTS, 1998, p. 21.
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regular sua fertilidade seguindo a periodicidade menstrual. O sexo era sagrado e era controlado pelas sacerdotisas que lideravam os rituais de sexo
grupal nos quais toda a comunidade participava.
Por volta de 3000 a.C., homens nômades pertencentes a tribos de
guerreiros começaram a invadir os territórios matriarcais, até subjugarem
os povos da deusa, sujeitando-as ao poder patriarcal. Novas formas de
união surgiram para controlar a sexualidade da mulher e determinar a paternidade das crianças. Deuses homens foram introduzidos para competir
com a supremacia da deusa. O governo era de homens e esses criavam leis
para restringir o poder da mulher.
Foi neste ponto da história, por volta do segundo milênio a.C., que
nasce a instituição da prostituição sagrada3. A história da prostituição nasce
com as sacerdotisas do templo, que eram mulheres sagradas e prostitutas.
A Grande Deusa, a princípio era conhecida como Inanna e mais tarde como
Ishtar, adorada desde o início da história até mais menos 3.000 a.C. O
templo detinha o poder religioso, político e econômico na Mesopotâmia4.
As sacerdotisas conseguiram por muito tempo manter o seu poder de
igualdade com o sacerdote homem. As entu, como eram chamadas, vivam
no interior do templo e cuidavam do seu funcionamento5. Realizavam o
ritual do casamento sagrado de reis e sacerdotes e expressavam a harmonia
entre homens e mulheres. Porém, aos poucos, o ritual ficou esquecido. O
matrimônio sagrado passou a ser um ritual de fertilidade; e as mulheres,
a serem vistas como procriadoras e como objeto sexual. Havia também
as naditu, outro grupo de mulheres bem nascidas, que conseguiam alguns
privilégios exercendo funções no templo. Elas eram proibidas de casar e
3 ROBERTS, 1998, p. 22.
4 ROBERTS, 1998, p. 23
5 ROBERTS, 1998, p. 24.
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ter filhos, e tinham um grande poder econômico, pois se envolviam no
comércio em pé de igualdade com os homens6.
Com o patriarcalismo nasce a divisão das mulheres, sejam elas
esposas ou prostitutas. Na medida em que o marido era dono da esposa e
dos filhos, fica maior a lacuna entre esposas e prostitutas, ao mesmo tempo em que as leis para a prostituta e seu trabalho tornam-se cada vez mais
repressivas. Em 1100 a.C., os assírios criaram códigos paras os trajes das
prostitutas, que deveriam usar jaquetas de couro especiais para chamar
atenção e não usar véu, pois este era o símbolo de submissão das esposas
aos maridos7. Embora com toda a repressão, as prostitutas conseguiam
manter sua autonomia sexual e econômica e resistir à domesticação oferecida pelo homem.
Essa supremacia do homem perpassa também os mundos gregos e
romanos, e por isso dedicaremos o próximo capítulo para compreendermos
a exclusão quase que total da deusa destes mundos, e o papel exercido
pelas mulheres.
1.2 A subordinação das mulheres
Na mitologia percebemos constantes lutas entre deuses e deusas,
mas, como em todas as sociedades ancestrais, os primeiros habitantes da
Grécia foram povos adoradores da deusa. A partir de 2000 a.C., com a
invasão indo-europeia que assolou o país, estes trazem consigo os deuses
masculinos8. Uma divindade trazida pelos homens foi Zeus, que se casa
com Hera, representante do culto à deusa. O casal divino vive em constante
luta. Apesar da desarmonia conjugal, Zeus é incapaz de governar sozinho.
6 ROBERTS, 1998, p. 24.
7 ROBERTS, 1998, p. 27.
8 ROBERTS, 1998, p. 32.
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No período da Atenas clássica, as mulheres já estavam firmemente
sob o controle dos homens e a democracia vigente só valia para o homem.
Somente os donos de propriedade podiam votar e as propriedades estavam
sob o poder dos homens. Sólon9, por exemplo, foi um governante que separou as mulheres em classes (esposas e prostitutas), ficando as mulheres do
primeiro grupo cada vez mais restritas à casa. As mulheres respeitáveis
não deviam ser vistas e nem ouvidas. Em muitos casos, eram proibidas
de irem ao mercado, tarefa que ficava a cargo do marido ou dos escravos.
Para o governador Sólon, qualquer mulher que tentasse manter-se por
conta própria, independentemente de ser pobre, estrangeira ou escrava,
deveria ser considerada prostituta. Mas, ironicamente, este governante
aproveitou dos enormes lucros obtidos pela prostituição, tanto comerciais como religiosa; ele próprio organizou em Atenas bordéis oficiais
administrados pelo Estado10.
Muitas prostitutas famosas contrariaram Sólon. As hetairae tinham
fama de serem excelentes mulheres de negócio. Frine, por exemplo, foi
amante do escultor Praxíteles e, por ser considerada uma das mulheres
mais bonitas de Atenas, serviu de modelo para retratos e estátuas da deusa
Afrodite. Outra hetairae famosa foi Aspásia, amante do governante ateniense Péricles. Ela tinha reputação de ser extremamente instruída e excelente filósofa. O filósofo Sócrates frequentemente levava seus amigos e
seus alunos para ouvir as conferências de Aspásia11.
Também na Roma pré-histórica, assim como em todas as civilizações mediterrâneas, a propriedade e o poder eram transmitidos pela
linhagem feminina. Através do casamento com qualquer mulher herdeira de propriedades e trono, ficava, porém, para o homem o direito
de governá-los. Além da transmissão dos bens, o estado ainda criou leis
violentas como o paterfamilias, que mencionaremos mais adiante.
9 Sólon governou Atenas na virada do século VI a.C. ROBERTS, 1998, p. 33.
10 ROBERTS, 1998, p. 34-35.
11 ROBERTS, 1998, p. 44.
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Ao contrário das mulheres gregas, as mulheres romanas eram orgulhosas, animadas e valorizavam sua independência. Quando o Imperador
Augusto introduziu leis obrigando as mulheres aristocráticas a se casarem
e terem filhos, estas se cadastraram como prostitutas, isentando-se das regulamentações estabelecidas. Eram mulheres que vinham de famílias consideradas respeitáveis, mas que se tornaram cortesãs, evidentemente, para
se manterem financeiramente autônomas, sem depender de marido12.
As prostitutas que trabalhavam em Roma, além das mulheres aristocráticas, eram em sua maioria estrangeiras que se tornaram escravas nas
conquistas das colônias, assim como as mulheres campesinas que vinham
em busca de trabalho na cidade e não tinham como sobreviver. Roma se
tornou o maior e o mais rico império às custas da mão-de-obra escrava. Foi
a escravidão que permitiu que Roma mantivesse o poder durante séculos13.
1.3 O mundo grego
1.3.1 O espaço do homem
A polis tem fator fundamental na vida do homem grego. É na Cidade-Estado que os cidadãos gozam de seus direitos de cidadania. E para que
adquirisse a cidadania grega, era preciso passar pela educação recebida no
ginásio. A primeira etapa da educação da criança começava pela leitura da
poesia épica e lírica; quando adolescente, ela ia para o ginásio exercitar o
corpo na ginástica. Após esta etapa estaria apta para atuar no exército. A
outra etapa era aprender as leis. O objetivo de todos era educar os jovens
na virtude política14. A fonte de grande orgulho do homem grego era a
autonomia política e a autossuficiência econômica da cidade, a qual era
local de integração de pessoas de várias línguas, raças e classes sociais.
12 ROBERTS, 1998, p, 72.
13 ROBERTS, 1998, p. 57.
14 CASTRO, p.36.
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