Johan Galtung, 13 de agosto de 2012 – TRANSCEND Media Service
O mapa hexagonal do Mundo Multipolar
Como é que enfrentamos, intelectualmente, o mundo de hoje?
Há algum tempo atrás, o mapa geopolítico era baseado no conflito direto Leste/Oeste, as
duas superpotências EUA / URSS, e os seus aliados, e sendo os não-alinhados neutrais,
considerados como uma categoria residual. O mundo era Bipolar. A implosão da URSS
fê-lo Unipolar , com uma "única superpotência sobrevivente", 2-1=1. Como nos foi dito.
Hoje temos quatro grandes Estados: os três maiores em população, China-Índia-EUA, e o
maior em território, Rússia. E ainda a UE, uma região com cinco estados de tamanho
médio: Reino Unido-França-Alemanha-Itália-Espanha.
Mas há um outro pólo no mapa geopolítico: o Islão.
A Organização para a Cooperação Islâmica - OIC - é menos homogénea mas o maior de
todos os pólos, com 57 países desde Marrocos até Mindanau [ nas Filipinas]. No meio,
entre o Ocidente e o Oriente, como a Rússia ao norte, a OIC é um cinturão sul entre os
dois.
O emergir do Islão no mapa geopolítico, remonta ao final da Guerra-fria, que provocou
um vazio na posição de inimigo, tanto do Ocidente, como dos EUA em particular. A
Perversa URSS, estava para os Bons EUA, como Satanás para Deus. Tanto o Islão
como a China, tinham credenciais suficientes para que a construção bipolar pudesse
recomeçar. Isto também serviu para cristalizar a China geopoliticamente, e fará o mesmo
com a OIC; curto prazo e longo prazo, pura dialética.
Uma grande mudança em apenas duas décadas, 1989-2008, desde o final da Guerra
Fria em Leipzig, até à Grande Depressão vinda de Wall Street. Não há como negar que
os EUA e os seus aliados ocidentais e alguns outros, possuem um considerável poder de
destruição cega, incluindo de morte. Mas as superpotências tinham impérios, com fiéis
elites locais que lhes faziam a maior parte do trabalho. A URSS perdeu o seu império no
início dos anos 90, o mesmo parece estar a acontecer agora com os EUA.
O que foi dito até aqui mostra-nos um mundo multipolar, mais exactamente Hexagonal,
com seis pólos: dois a oeste, dois no meio, dois no Oriente:
MUNDO HEXAGONAL
RÚSSIA
USA
CHINA
EU
INDIA
0IC
O que nos leva a duas questões cruciais:
O mapa hexagonal do Mundo Multipolar –
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* O que é que de melhor cada pólo tem a oferecer pela paz?
* O que é que de pior cada pólo tem a oferecer pela paz?
As respostas são, no mínimo, questionáveis, mas vamos tentar:
O que oferecem de melhor / O que oferecem de pior
PAÍSES/ BLOCOS
ASSOCIAÇÕES
O QUE OFERECEM DE
MELHOR
O QUE OFERECEM DE
PIOR
EUA
Novos começos
Plutocracia Geo-fascista
EU
Comunidade de Paz
Tecnocracia
RÚSSIA
Des-imperialização
Autocracia
CHINA
Taoismo Capit-comunista
Sino-centrismo
INDIA
Federalismo linguístico
Sistema de castas
OIC
Partilha Fraterna
Terrorismo
A coluna positiva, não é má de todo:
EUA - Criatividade, com Novos Começos individuais e colectivos; EU - uma comunidade
em paz de velhos inimigos; Rússia - um discreto desmembramento do império; China capi-comunismo, que combina crescimento com a promoção das classes sociais mais
baixas; Índia - com seu federalismo linguístico; O Islão - com Nossas-culturas e partilha.
A coluna negativa, muito ruim:
Os EUA - regidos pelo dinheiro matando em qualquer lugar; uma UE - gerida por
tecnocratas; a Rússia - governada por autocratas; A China - demasiado centralizada em
si própria; A Índia - apegada às castas; O Islão - ao terrorismo.
O que acima dizemos servirá como introdução aos seis pólos do drama global, dramatis
personae. O projeto Hexágono TRANSCEND, que será elaborado respeitando o
tradicional esquema diagnóstico-prognóstico-terapia, ou seja, análise, previsão e
proposta. Exemplos de temas, [a desenvolver]:
Importância política das diásporas – A diáspora Islâmica, de longe, a maior, 5%
do total, em termos de comunicação, de poder, refém, da forma como se
comportam e como são tratados. A diáspora Ocidental será analisada pelo
número de cristãos e judeus, em face dos outros. Serão feitos estudos separados
de cada um deles, começando pela maior, ou seja, a diáspora do Islão no
Ocidente, na Europa e nos EUA.
Os seis serão analisados de acordo com suas mensagens para paz e
desenvolvimento, seus pontos fortes, fraquezas e limitações, seus altos e baixos,
e os seus melhores e piores aspetos; promotores ou contra-promotores, da paz e
do desenvolvimento.
As 15 relações bilaterais serão consideradas numa perspetiva macro-histórica.
Exemplo: as relações entre a China e o Ummah [1] 500-1500 DC, a "rota da seda"
marítima, e a conquista por Portugueses e Ingleses de Macau-Hong Kong. Poderá
o Islão, uma religião Abraãmica, servir como uma ponte, do Sul para o Oriente
também hoje? E poderá a Rússia, Cristã Ortodoxa, servir como ponte a Norte?
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Os 15 pares serão analisados pelos traumas e reconciliações ocorridas no
passado e pelas presentes contradições existentes e resoluções, tendo mesmo
em consideração os piores aspetos. Apenas cinco são predominantemente
negativos, mas há muitos preconceitos, como o anti-semitismo contra judeus, e
muçulmanos e o anti-ocidentalismo – há muita discriminação a superar.
Os 15 pares serão analisados em termos da cooperação e harmonia latentes;
incluindo o que podem aprender uns com os outros, usando também os seus
melhores aspetos.
A sinergia dos “membros” do Hexágono e suas relações produz tendências
positivas e negativas para os diferentes tipos de globalização, holística e
dialecticamente, com os atores externos do Hexágono, como os BRICS [2] . Este
novo começo da TRANSCEND dará origem a um fluxo de Documentos de
Trabalho à medida que o projeto se desenvolver. Serão publicados na “Weekly
Digest” do TRANSCEND Media Service-TMS e no Canal da Paz TRANSCENDTPC.
Fiquem atentos!
******
Johan Galtung, é professor de estudos da paz, dr. hc. MULT., reitor da TRANSCEND
Peace University-TPU. É autor de mais de 150 livros sobre a paz e estudos relacionados,
onde se inclui “50 Years - 100 Peace and Conflict Perspectives,” publicado pela
TRANSCEND University Press - TUP.
Original em inglês: TRANSCEND Media Service-TMS
http://www.transcend.org/tms/2012/08/the-hexagon-map-of-the-multipolar-world/
Tradução livre da responsabilidade de
Forum Abel Varzim, Lisboa, Portugal,
agosto de 2012.
____________
[1] No Islão, a comunidade constituída por todos os muçulmanos do mundo, unida pela crença em Alá, no
profeta Muhammad (Maomé), nos profetas que o antecederam, nos anjos, na chegada do dia do Juízo Final
e na predestinação divina.
[2] Países emergentes, Brasil, Rússia, Índia, China…
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