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ID: 49134952
07-08-2013
Tiragem: 45640
Pág: 32
País: Portugal
Cores: Cor
Period.: Diária
Área: 26,65 x 29,90 cm²
Âmbito: Informação Geral
Corte: 1 de 1
Identificada a estrutura do cérebro
que comanda as acções intencionais
Cientista português ajudou a identificar área do cérebro que controla a passagem de uma acção
automática para uma acção intencional. Descoberta pode vir a ajudar pessoas com vícios e compulsões
ENRIC VIVES-RUBIO
Neurociências
Nicolau Ferreira
Muitas das acções humanas são automáticas. Uma delas é carregar no
botão com o número do andar de
casa quando se entra no elevador.
Depois de se repetir esta acção durante dias, é um descanso não gastar
um segundo a pensar neste gesto.
Mas se algo muda, como termos de
visitar o vizinho que mora noutro
andar, então convém prestar atenção ao que estamos a fazer para não
seguirmos, erradamente, para casa.
Esta tomada de atenção, que resulta numa acção pensada mas muito
similar — carregar noutro botão do
elevador —, decorre de uma mudança ocorrida no nosso cérebro. Um
estudo liderado pelo neurocientista
português Rui Costa identificou a
estrutura cerebral responsável por
esta mudança.
Os resultados relativos a esta descoberta, publicados hoje na revista Nature Communications, podem
oferecer uma nova estratégia para
o tratamento de comportamentos
obsessivo-compulsivos.
“Fala-se dos hábitos [acções automáticas] e das acções intencionais,
mas não se estuda muito como é que
se passa de uma acção para outra”,
diz Rui Costa, que agora é chefe do
grupo de Neurologia da Acção do
Centro para o Desconhecido da Fundação Champalimaud, em Lisboa.
Mas este estudo começou antes de
Rui Costa vir para Portugal em 2009,
e conta com Christina Gremel, investigadora do Instituto Nacional para
o Abuso do Álcool e do Alcoolismo,
um dos muitos institutos nacionais
de saúde dos Estados Unidos.
Já se conheciam as três áreas do
cérebro que estavam envolvidas na
passagem de uma acção automática
para uma acção intencional: o córtex órbito-frontal, que fica numa região mais externa do cérebro perto
da testa, e dois gânglios de base que
ficam numa região mais interior do
cérebro, chamados “estriado lateral” e “estriado medial”.
No passado, o estriado lateral foi
associado a acções automáticas, enquanto o estriado medial foi ligado a
acções intencionais. O córtex órbitofrontal fica a montante e projecta
neurónios nos dois estriados. Mas
desconhecia-se se a passagem de
As pessoas que lavam muitas vezes as mãos têm uma compulsão que pode estar associada a uma alteração no córtex órbito-frontal
Rui Costa estuda neurobiologia
do comportamento
uma acção automática para uma intencional implicaria a substituição
da actividade neuronal no estriado
lateral pela actividade no estriado
medial ou se, ao invés, estaríamos
perante um jogo com actividade entre os dois gânglios.
“Pusemos eléctrodos muito finos
dentro do cérebro de ratinhos para
poder ler a actividade destas três
zonas”, diz Rui Costa, explicando a
experiência que realizou. Depois, a
equipa colocou os ratinhos em duas
casinhas, cada uma com uma alavanca que, pressionada, dava direito
a água com açúcar. Mas as alavancas
funcionavam de modo diferente: numa das casas, havia uma espécie de
slot machine, que dava a recompensa à sorte. Na outra, quanto mais o
ratinho carregava na alavanca, mais
água com açúcar recebia.
Isto permitiu à equipa testar a mudança de um comportamento repetitivo nos ratinhos que estavam na
casa com a slot machine e que ficavam a carregar na alavanca — como
as pessoas que jogam nas slot machi-
nes dos casinos — para um comportamento intencional na outra casa.
“A actividade no córtex órbitofrontal correlacionava-se muito
com a mudança do hábito para um
comportamento intencional”, diz
Rui Costa, referindo-se às medições
feitas nas três regiões do cérebro dos
ratinhos. Mais: quando silenciaram a
actividade no córtex órbito-frontal,
os animais mantiveram-se sempre
com comportamentos automáticos.
Já quando a estimularam, todos os
animais transitaram de uma acção
automática para uma intencional.
A equipa também verificou que
esta mudança não significou o silenciamento da actividade neuronal
do estriado lateral e a activação do
estriado medial. Apesar de a actividade passar a ser maior no estriado
medial, os dois gânglios mantiveram-se activos numa única rede.
A descoberta da importância do
córtex órbito-frontal nestas acções
pode vir a ser importante no controlo de vícios ou problemas obsessivocompulsivos. “Esta área é a que mais
aparece afectada na compulsão, em
que a pessoa perdeu o controlo: lava
as mãos frequentemente e, apesar
de ter acabado de lavar as mãos, não
consegue controlar o gesto”, exemplifica Rui Costa.
“A nossa esperança é fazer com
que estas pessoas voltem a controlar as suas acções através de uma
experiência não invasiva.” Para
isso, o cientista pretende colocar
eléctrodos na cabeça de doentes,
na zona do córtex órbito-frontal, para activar os neurónios nesta região
utilizando uma estimulação electromagnética. Poderá assim testar se
estas pessoas voltam a ter controlo
das suas acções.
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