Capelania, órgão integrante e integrador de uma Escola
Confessional
Josué Alves Ferreira
Capelão do Colégio Presbiteriano Mackenzie – São Paulo
Março de 2014
Quando entrei no Instituto Presbiteriano Mackenzie, em 1997, procurei livros, artigos e
pessoas que me falassem a respeito da atividade de um capelão. Observei que muito pouco havia
sido escrito a respeito e o que havia disponível entrava em conflito com tudo que eu estava
presenciando.
Iniciei meu ministério em 1981 na Escola Presbiteriana Vale do Tocantins, em Paraíso do
Norte, na época estado de Goiás, hoje Tocantins. Minha função era dar aulas de Ensino Religioso
e dirigir os cultos. Sentia-me muito preso e desejava ter uma ligação maior com os alunos. Havia
feito um curso de Educação Física e me aventurei a ser professor. Creio que foi a maior benção
para o meu ministério na escola, pois os alunos passaram a ter empatia comigo e comecei a estar
mais presente com todos eles e também com os professores. Meu trabalho fluía mais e mais e a
atenção dos alunos às minhas aulas redobrara.
Naquela época, já me aventurava a brincar com o violão e comecei a trabalhar com
bonecos para contar histórias. Buscava de todas as formas entrar no coração de minhas ovelhas,
ou seja, meus alunos e comecei a pensar em uma forma ideal de transmitir a palavra de Deus
para as crianças. Com isso, fui para o Seminário em Recife e, estando sempre envolvido com o
Ministério Infantil e visitando escolas, voltei para Minas Gerais, minha terra natal, e lá
novamente desenvolvi um trabalho com as crianças.
Em 1989, para me aprimorar mais, procurei a APEC e fiz o Curso de Liderança no
Acampamento Boas Novas em Mairiporã. Em 1991 fui para Belo Horizonte e, novamente me
envolvi com acampamento de crianças e adolescentes na Primeira Igreja Presbiteriana de Belo
Horizonte. Como meus filhos estudavam no Colégio Batista, também trabalhei com essa escola
fazendo visitas e apresentando o meu boneco, o Barnabé. Aproveitei para apresentar uma
proposta de acampamento escolar para a Direção, o que foi aceita e assim fiz diversos
acampamentos. Escolas de diversas cidades vieram fazer os acampamentos escolares no
Acampamento da Primeira Igreja, o Ebenezer, no qual eu era o Diretor. Logo depois fui
convidado para exercer a Capelania do Instituto Presbiteriano Gammon, que na época estava se
instalando em BH na primeira Igreja Presbiteriana de BH, onde eu era Pastor.
Como já mencionei, em 1997, fui para o Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília e lá
tive a oportunidade de exercer a Capelania de forma integral. Procurei um equilíbrio para o
“pastoreio” em uma Escola Confessional com todas as experiências que havia tido e com as
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informações que havia colhido. Encontrava um estilo de Capelania que não me agradava e
também confusões sobre o que seria uma Capelania em uma Escola Confessional.
Escola confessional com uma Igreja e o capelão sendo o pastor dessa Igreja.
Como essa confusão ainda é presente;
A Capelania apenas como um escudo para defender a “confessionalidade”,
distribuindo textos bíblicos para todos os cantos da escola;
O capelão tem uma sala isolada onde faz o seu trabalho, não se envolvendo com
as atividades escolares.
Realização de culto ou assembleias;
Tem professores para Ensino Religioso na Escola coordenados pelo Capelão, ou
ele mesmo é o professor;
Distribuidora de textos bíblicos e mensagens e no final do ano a Bíblia;
Responsável pelas atividades Sociais e de Ação Social da Escola
Creio que tudo isso deve fazer parte de uma Capelania em uma Escola Confessional, mas
não pode ser apenas isso. Pouco tempo atrás, tive o privilégio de ser preletor em um Congresso
da ACSI no Colégio Presbiteriano Mackenzie e me pediram para falar sobre a Capelania.
Naquela época fiquei pensando em uma metáfora para falar sobre a Capelania e recorri à Bíblia
Sagrada, que é a nossa Regra de Fé e Prática, e tomei do apóstolo Paulo a figura da Igreja como
um corpo. Mesmo sabendo que a Escola não é uma Igreja, vou apresentá-la com o meu ponto de
vista:
Uma escola é como um corpo vivo. Precisa da cabeça para dirigir, pensar, gerir; a
Direção da Escola é essa cabeça. Existem os membros, todos ligados, uns parecem mais
importantes mas nenhum deles pode dizer não preciso de você e, para mim, são eles: professores,
funcionários em geral, alunos e pais de alunos. A Capelania seria exatamente o coração, um
membro ativo, que tem por objetivo atingir todos os outros membros com a vida, com o sangue,
bombeando a verdade do evangelho, o amor de Cristo com alegria com disposição.
E para que isso aconteça, é preciso paciência. Não se muda o cenário de uma hora para
outra com uma canetada, com um documento em cima da mesa. O processo de conquista de
espaço tem de ser pautado pelo amor, respeito, trabalho, companheirismo, organização e
cumplicidade, e não de imposição, como se a Capelania e o Capelão fossem o Centro. Creio que
é um trabalho de SERVO, servir a todos, e como recomenda o Salmista “Servi ao Senhor com
Alegria”.
Por isso, não gosto que chamem a Capelania de “parceira”. O parceiro vem de fora e a
Capelania tem de estar dentro. Não gosto muito de fazer relatório da Capelania, o relatório tem
que ser da Escola. Mas, infelizmente, tenho de fazer o meu relatório, sempre ressaltando que é
um trabalho de todos. Por fim, creio que é muito difícil encontrar um trabalho tão abençoado
como o de uma Capelania. As oportunidades são enormes, a diversidade de atividades faz o
tempo voar e o carinho de todos faz o coração alegre.
Enfim, para mim, a Capelania não pode ser apenas uma armadura, externa, que protege
aquilo que acontece dentro da escola. A Capelania é parte integrante e integradora de uma Escola
Confessional.
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Em nossa Cosmovisão, não pode haver separação entre o santo e o sagrado, por isso, a
Capelania tem de transitar livremente em toda a Instituição. O trabalho do Capelão não pode se
limitar em fazer devocionais, dar aulas de Ensino Religioso, orar e ler a Bíblia. Fazer apenas isso
é continuar com o secularismo que existe na maioria das escolas de nosso país.
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