III SEMINÁRIO DE ESTUDOS CULTURAIS, IDENTIDADES E RELAÇÕES
INTERÉTNICAS
GT 2 - Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea
UM ESTUDO SOBRE A RELAÇÃO ENTRE VISITANTES E VISITADOS NA
ALDEIA XOKÓ-SE
Gisélia de Souza Cardoso
Rosana Eduardo da Silva Leal
UM ESTUDO SOBRE A RELAÇÃO ENTRE VISITANTES E VISITADOS NA
ALDEIA XOKÓ-SE
Gisélia de Souza Cardoso
Universidade Federal de Sergipe
Graduanda do Curso de Turismo da Universidade Federal de Sergipe
[email protected]
Rosana Eduardo da Silva Leal
Doutora – Docente do Curso de Turismo da Universidade Federal de Sergipe
[email protected]
INTRODUÇÃO
O presente artigo busca apresentar parte da pesquisa realizada durante o trabalho de
conclusão de curso, que teve como objeto de estudo a comunidade indígena Xokó. A
pesquisa foi desenvolvida pelo Núcleo de Turismo da Universidade Federal de Sergipe,
por meio do Grupo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Antropologia e Turismo ANTUR/UFS/CNPQ.
Situados na Ilha de São Pedro, que está localizada no município de Porto da Folha, os
índios Xokó são considerados como único grupo remanescente indígena do território
sergipano na contemporaneidade. O território dos índios Xokó atualmente possui 4.317
hectares e faz limite com o rio São Francisco e com o município alagoano de Pão de
Açúcar. (BARRETO, 2010, p. 19).
A região que abriga a aldeia foi “historicamente a região que atraiu missões religiosas e
foi palco de disputas entre portugueses e holandeses, sendo também apresentada quase
sempre como área de disputa entre criadores de gado” (BARRETO, 2010, p.30). Tais
disputas duraram um longo período, refletindo consequentemente na vida dos Xokó.
Júnior (2005, p. 37) destaca que “a missão de São Pedro permaneceu sendo
administrada pelos capuchinhos franceses até sua expulsão, em 1700. Após um
conturbado e violento período, em 1709, os capuchinhos italianos assumiram a
responsabilidade das missões franciscanas que outrora eram geridas pelos franceses”. A
missão de São Pedro foi dirigida pela ordem até o início do século XIX e tinha como
objetivo catequizar os índios tornando-os “aculturados”. Não diferente das demais
missões existentes no território sergipano e brasileiro, a missão de São Pedro também
tinha o mesmo viés de imposição da cultura europeia.
Portanto, assim como demais povos indígenas brasileiros, o povo Xokó sofreu
momentos turbulentos de imposições de hábitos, crenças e costumes eurocêntricos no
decorrer de sua existência. Barreto (2010, p. 45) afirma que tal população “também teve
embates com grupos negros, e ainda estiveram submetidos à situação clássica de
redução de diferentes grupos indígenas em um mesmo aldeamento, sob a gestão
temporal e espiritual de determinadas ordens religiosas”. A autora ratifica que
os Xokó passaram por mudanças jurídicas e administrativas diversificadas.
Durante mais de um século foram dados com extintos e suas terras ficaram
nas mãos da administração provincial, que terminou por vendê-las a
particulares, mas reassumiram sua identidade, reconhecida após os
confrontos com os grupos dominantes. São vistos como descendentes e
pertencem a um dos grupos básicos de formação da etnia brasileira
(BARRETO, 2010, p. 45- 46).
Diante do que foi exposto anteriormente, é visível que os Xokó sofreram um processo
de expropriação violento, sendo dados inclusive como extintos no estado. Entretanto, no
decorrer da trajetória histórica e política protagonizaram uma intensa disputa pelo
território, obtendo somente o direito as extensões de terra a partir de 1979. Entretanto, a
retomada total do território perdurou por um longo período de tempo, tendo finalmente
o direito total a posse da terra em março de 2003.
Ilustração 01: Território Xokó
Fonte: http://ti.sociambiental.org/pt-br/al/pt-br/terras-indigenas/3631.
Por serem índios remanescentes, carregam aspectos diferenciados da realidade de uma
comunidade que está diretamente ligada ao mundo contemporâneo. Isso não quer dizer
que a comunidade tenha abdicado de hábitos da sociedade moderna, porém manteve
seus sinais diacríticos. Por isso, a comunidade remanescente dos Xokó tem grande
representatividade para a historiografia do Estado de Sergipe e, devido a sua
importância, têm sido centro de visitação, atraindo constantemente estudantes e
pesquisadores interessados em conhecer os modos de vida da comunidade, as práticas
culturais, bem como o cotidiano que compõe a vida da aldeia. Para compreender tal
demanda, foi necessário uma pesquisa minuciosa, que buscou pontuar a relação entre
cultura, turismo e educação em território indígena, tendo como campo empírico o povo
Xokó. Com a pesquisa, ampliou-se o olhar científico e técnico sobre a comunidade,
através do estudo de elementos ainda não abordados sobre o tema, como, por exemplo,
o estudo sobre a relação entre visitantes e visitados, temática amplamente tratada no
campo da Antropologia do Turismo. O estudo buscou também entender como tem
ocorrido o recebimento destes grupos, por meio da pesquisa bibliográfica, pesquisa de
campo, observação direta, entrevistas e aplicação de questionários.
A pesquisa bibliográfica foi baseada nas leituras dos trabalhos já publicados sobre o
assunto, ocorrendo por meios de livros, dissertações e teses. Através da pesquisa de
campo houve a possibilidade de visualizar a reação da comunidade Xokó em relação ao
fluxo de visitas constantes.
A pesquisa de campo foi empreendida por meio do método etnográfico, que possibilitou
a coleta de dados sobre as práticas cotidianas entre os membros da comunidade Xokó e
a sociedade mais ampla. Através da pesquisa de campo foi possível ter acesso ao
universo simbólico dos povos Xokó, coletando informações sobre o grupo, sobre o seu
território, suas produções culturais e econômicas, bem como seus membros. Também
foi utilizado o registro fotográfico identificando os costumes, como também os
elementos da cultura material e imaterial. Tais registros tiveram por finalidade
compreender os múltiplos aspectos do modo de vida da tribo Xokó na atualidade.
Por meio da observação direta foi possível ter conhecimento do perfil dos visitantes que
costumam conhecer a aldeia, analisando e entendendo os desejos individuais de cada
visitante, adquirindo assim um olhar diversificado sobre as práticas da comunidade
visitada e os comportamentos e interesses dos visitantes. Com a realização das
entrevistas e aplicação dos questionários se pode colher opiniões diversas sobre a
relação entre visitantes e visitados na aldeia.
Estudar os elementos que constituem o cotidiano da comunidade Xokó possibilitou
entender o contexto do respectivo grupo, identificando práticas e particularidades que
fazem parte da vida da comunidade, reconhecendo a representatividade da mesma para
sociedade Sergipana, já que é a única aldeia indígena do Estado.
A relação entre visitantes e visitados na comunidade Xokó
Os Xokó têm recebido com freqüência um fluxo de visitantes na aldeia, que chega à
comunidade buscando conhecer a história, a cultura e os modos de vida. Isso se deve ao
fato de que os assuntos abordados teoricamente em sala de aula, muitas vezes não são
suficientes, uma vez que não dão suporte completo para se conhecer a realidade de
diferentes povos e lugares. Neste caso, faz-se necessário o conhecimento in loco, pois
assim é possível perceber a vivência, o modo de vida, os valores, os costumes e práticas
desenvolvidas pelos indivíduos no cotidiano.
As práticas educativas em territórios indígenas permitem que os visitantes possam
visualizar as especificidades locais atreladas à interação entre teoria-prática e ensinoaprendizagem em que se necessita ir a campo para vivenciar as realidades relatadas em
sala de aula e textos científicos. Trata-se de um complemento educacional que
proporciona aos estudantes, professores e pesquisadores maior aprofundamento da
realidade cultural do local.
No caso da aldeia Xokó, há a manutenção de particularidades que atraem a atenção de
estudiosos e pesquisadores de diferentes níveis, ampliando o leque de informações
daqueles que os buscam, proporcionando também maior valorização para comunidade
visitada. Os alunos, pesquisadores e professores que costumam visitar os Xokó podem
perceber como se deu todo o processo de construção da identidade cultural dos
remanescentes indígenas de Sergipe, uma vez que a comunidade costuma recepcionar os
visitantes de forma acolhedora, apresentando a história de lutas e conquistas adquiridas
ao longo dos anos. Fator este determinante para ampliar o aprendizado dos alunos que
visitam a aldeia, pois se pode ver in loco a realidade contada pela própria comunidade,
unindo assim a teoria da sala de aula à realidade local.
Ilustração 02: Encenação do processo de retomada do Território Xokó
Fonte: Arquivo de Pesquisa, Abril de 2013.
A atividade educativa na aldeia proporciona a interação do conhecimento-aprendizado
aliado ao lazer, uma vez que promove a saída da sala de aula para um espaço
diferenciado, permitindo sociabilidade e aproximação de algo diferente do cotidiano
vivenciado. Demo (1996 apud SOUZA; MELO; PERINOTTO 2011, p. 56) “enfatiza
que a ligação entre teoria e prática é necessária para que o educando seja capaz de
tornar-se autônomo, um ser crítico, capaz de criar, recriar e manejar conhecimento”. A
teoria e prática possibilita que o aluno possa interagir em diferentes contextos,
adquirindo experiências únicas e particulares.
Visando identificar como vem ocorrendo a relação e o diálogo entre visitantes e
visitados Xokó se fez necessário a aplicação de questionários, que foram aplicados com
lideranças da comunidade e demais índios, bem como os visitantes. O roteiro de
perguntas foi estruturado dando aos interlocutores a oportunidade de fazer colocações
pertinentes. Foram intrevistados lideranças e índios da comunidade Xokó para se obter
informações que viessem a reforçar a compreensão das relações estabelecidade entre os
visitantes e a comunidade Xokó. As informações coletadas por meio dos intervistados
foram determinante para ter uma dimensão do ponto de vista da comunidade com
relação ao fluxo de visitantes.
Ilustração 03: Visitantes chegando a Aldeia Xokó
Fonte: Pesquisa de campo, 2011.
Aos serem inqueridos sobre as visitas externas para comunidade Xokó, os índios
demonstraram que a comunidade fala a mesma linguagem. Os entrevistados destacaram
que a visitação contribue para difundir cada vez mais a cultura, bem como para o
reconhecimento e a valorização da história do grupo. Segundo os Xokó, as visitas
servem para representar a busca de conhecimento da cultura étnica, por meio do
artesanato e dos artigos produzidos pela comunidade, bem como a troca de
conhecimento com a cultura externa. Para eles, os visitantes trazem novos
conhecimentos e melhorias para comunidade através de projetos, visto que após
vivenciar a cultura Xokó alguns estudiosos despertam para a pesquisa na comunidade e
consequentimente elaboram projetos que venham beneficiar o grupo. Destacam também
que é por meio da demanda externa que se tem uma outra maneira de divulgação da
história e cultura do povo Xokó.
Diante das colocações dos índios é possível perceber que os visitantes proporcionam o
conhecimento, o intercâmbio cultural, a divulgação, dando também contribuições para
aldeia por meios das iniciativas dos estudiosos.
Ao serem indagados sobre os conflitos gerados pelos visitantes, os índios indicaram
diferentes opiniões, pois alguns diziam não existir nenhum conflito, em contrapartida
outros destacaram algumas insatisfações, dizendo que existem alguns visitantes que não
compreendem e nem se integram a cultura do povo Xokó fazendo algumas críticas aos
rituais a eles pertencentes.
No dia 09 de setembro de 2012 na festa da retomada presenciei as críticas por
meio de risadas descontroladas de três jovens meninas ao ver a apresentação
da dança do Toré, chegando a serem repreendidas pelo cacique Bá de
maneira discreta1.
Comportamentos desrespeitosos normalmente ocasionam a apatia por parte dos
visitados. Porém, esta ainda não foi uma realidade observada na comunidade Xokó
durante a pesquisa de campo. Ainda questionados sobre os conflitos, fizeram
comentários a respeito de alguns visitantes que não entendem a cultura e o modo de
1
Informações fornecidas por Maria Gedalva dos Santos no dia 06/08/2013 através de entrevista. Maria
Gedalva trabalha nos serviços gerais da Escola Estadual Indígena Dom José Bradão de Castro, localizada
na aldeia Xokó.
vida da aldeia e por isso tecem comentários e opiniões preconceituosas, gerando assim
alguns transtornos.
Alguns visitantes costumam vir a comunidade buscar informações sobre a
cultura Xokó e depois fazem publicações de modo distorcido. Aqueles que
não gostam do espaço da aldeia, da cultura Xokó que voltem a suas casas
sem interferir na vida da comunidade 2.
Os comentários citados anteriormente dizem respeito ao modo de vida atual da
comunidade, uma vez que os índios Xokó não têm mais traços característicos dos índios
do tempo do descobrimento do Brasil, pois não moram em ocas e muito menos andam
nús. Realidade de que promove o descontentamento por parte de alguns visitantes, que
não compreendem que a identidade indígena envolve outros elementos que não sejam os
aspectos tradicionalmente passados pela sociedade mais ampla. Os que não entendem as
características da comunidade passam a fazer comentários preconceituosos sobre a
imagem dos Xokó. Mas é preciso compreender que,
as comunidades indígenas também passam por processo de ‘modernização’.
A ideia é a de que a modernidade pode ser incorporada à tradição, num dueto
que à primeira vista pode parecer confuso, mas que, quando observado a
fundo, revela-se especialmente eficaz para entendermos a história de culturas
diversas (MAGALHÃES, OLIVEIRA E FERREIRA, 2010, p. 03).
Os índios como uns dos povos mais antigos do Brasil sofreram um intenso processo de
aculturação desde a colonização em que mudanças e transformações foram impostas por
meio da cultura eurocêntrica, forçando um contato direto do índio com o não-índio. Tal
realidade permitiu que novos costumes culturais fossem incorporados a cultura
indígena. Além disso, é preciso também salientar que a própria diversidade cultural
existente no Brasil ocasionou uma mistura de costumes nos diferentes grupos da
sociedade. Atualmente povos indígenas têm passado por um processo de reinvenção
cultural para atender a demanda da sociedade moderna.
As crescentes alterações sociais propiciam a reinvenção das tradições como forma de
reafirmar-se no espaço que estão inseridos. Porém, é necessário refletir sobre
determinadas invenções ou reinvenções uma vez que distintos grupos sociais se
apropriam de determinadas mudanças, podendo dar-lhes novos valores e significados, o
2
Entrevista realizada com o Pajé Raimundo no dia 07/08/2013, o senhor Raimundo é um dos líderes mais
velhos da comunidade Xokó.
que pode causar uma perda das características de um grupo, podendo receber diferentes
interpretações, como podemos observar no trecho que a seguir:
[...] as produções de objetos tradicionais passam por mudanças em resposta a
imposições comerciais e estéticas de consumidores de lugares às vezes bem
distantes - o que é, nas aldeias pataxós, o caso de europeus que encomendam,
por exemplo, brincos no atacado para serem vendidos no exterior, mas
recomendam um formato para o brinco que venderia bem na Europa e não o
habitual indígena (APPANDURAI, 1986 apud GRÜNEWALD, 2001, 137).
Quando questionados sobre os benefícios adqueridos por meio do fluxo dos visitantes,
os Xokó destacaram que, através das visitas, é possível ganhar visibilidade e respeito,
visto que é a partir de um contato mais próximo com uma cultura alheia que se pode
obter admiração pela mesma, adquerindo assim novos conhecimentos através da troca
de experiência culturais. Os entrevistados falaram também dos benefícios por meio da
ampla divulgação da história Xokó e a oportunidade de desenvolvimento de possíveis
projetos para a comunidade e a comercialização de serviços prestados por alguns índios.
Sahlins (1997) observa que, diferentemente do que se pensou, ou seja, que os
povos indígenas seriam subjulgados pela hegemonia da globalização, muitos
grupos tem se posicionado conscientemente diante dessa realidade,
acionando a cultura não só como marcador de identidade, mas também como
mecanismo de retomada do controle da própria autonomia indígena. Nessa
realidade global coexistem realidades sincréticas, translocais e multiculturais
que viabilizam tais culturas a partir de uma indigenização da modernidade,
ou seja, de compreensão do cenário moderno sob o ponto de vista local,
concebendo outras modernidades (LEAL, 2006, p. 243).
A questão que ganhou destaque entre todos os entrevistados foi a oportunidade de
comercialização do artesanato, pois, além de apresentar para os visitantes, o artesanato
concomitantemente estimula a compra dos mesmos, o que consequentemente dinamiza
a renda dos artesãos, mesmo que ainda em pequena escala.
Ilustração 04: Artesanato comercializado na aldeia
Fonte: Pesquisa de campo, 2013
Por fim, questionou-se sobre o ganho da comunidade por meio da visitação de
pesquisadores, estudantes e professores. O que ressaltado pelos visitados foi a troca de
conhecimento, destacando que a comunidade ganha com a sistematização e a
formalização dos conhecimentos locais que são pesquisados, registrados e divulgados.
Pontuaram a importânica de ter contato com os visitantes pela possibilidade de adquirir
conhecimento do mundo externo e do mundo moderno. Os índios Xokó obtem
informações por meio dos telejornais e, estar em contato com os visitantes, é mais uma
forma de se manter conectados com o mundo constantemente.
Outro fator que foi destacado diz respeito a maior transmissão da cultura para as salas
de aula externas a aldeia, divulgando a história e estimulando novas visitas. É
perceptível que os índios Xokó já têm em mente que a cada visita de estudiosos tem-se
a possibilidade de aumentar o fluxo de novos alunos para conhecer a cultura local. A
demanda constante deste tipo de público vem contribuir para o conhecimento da
sociedade sergipana e da sociedade mais ampla sobre a importância do grupo étnico,
valorizando consideravelmente o legado que a comunidade detém para a cultura do
estado.
Ilustração 05: Encenação do processo de retomada do Território Xokó
Fonte: Arquivo de Pesquisa, Abril de 2013.
Os comportamentos inadequados na maioria das vezes partem da ausênica de
conhecimento sobre a importância da cultura indígena para a construção da identidade
sergipana, partindo de indivíduos que buscam a comunidade apenas para vivenciar um
dia de lazer, ocasionando o desconforto para a comunidade receptora, uma vez que estes
apresentam comportamentos atípicos, não respeitando os limites definidos pela
comunidade indígena. Sabemos também que alguns alunos vão à aldeia por exigência,
devido à proposta de atividade estabelecida pelos professores e acabam não sendo
sensibilizados suficientemente.
Com relação aos visitantes se percebeu que os mesmos dão valor para comunidade
visitada, uma vez que na visão dos mesmos a cultura Xokó constitui-se como um
vínculo que retrata a memória da cultura indígena, que faz parte do patrimônio cultural
e identitário de Sergipe Xokó.
Segundo os visitantes, através de uma maior envolvimento e fluxo de agentes ligados a
área de estudos, se pode dar um maior reconhecimento da cultura Xokó para sociedade
mais ampla, em especial para os sergipanos. Ressaltaram ainda que o fluxo de visitação
possibilitará um maior apoio à comunidade nativa, uma vez que se ganha
reconhecimento, fortalecendo a tradição e os saberes Xokó.
Os visitantes também destacaram a boa relação com a comunidade Xokó, uma vez que
os anfitriões conseguem com simplicidade demonstrar acolhimento. Diante da pesquisa,
pode-se dizer que a comunidade Xokó na grande maioria das visitas recebidas, tem uma
relação harmoniosa com os visitantes, havendo a interação e o respeito aos costumes e
hábitos cotidianos, o que permite o intercâmbio cultural e o conhecimento entre
distintas formas de vida. A comunidade Xokó costuma atrair um público ligado à
instituições de ensino médio e superior, possibilitando a consciência da necessidade de
conhecer e entender os hábitos da cultura alheia.
Ilustração 06: Interação de conhecimentos entre estudantes da UFS e índio Xokó.
Fonte: Arquivo de pesquisa, Setembro de 2013.
Os visitantes costumam escutar atentamente as informações passadas pelos índios da
aldeia Xokó, questionando e interagindo com frequência, demonstrando não só a busca
por conhecimento. mas também um respeito com a cultura da comunidade que os
recepcionam.
Muitos visitantes costumam considerar a hospitalidade um elemento primordial para o
fluxo de visitantes. “Decididamente, a hospitalidade é o meio, acima de todos os outros,
de criar ou consolidar relacionamentos com estranhos”. Selwyn (2004, p. 47). Na
comunidade Xokó há uma constante preocupação dos anfitriões com o bem estar e a
integração dos visitantes durante o período de permanência na aldeia. Tal hospitalidade
não seria disponibilizada pelos índios Xokó se não existisse uma aceitação e um bom
relacionamento entre as partes.
Considerações Finais
Diante da pesquisa pode-se observar que a comunidade indígena Xokó recebe com
frequência grupo de visitantes. O que não quer dizer que haja uma constante relação
hamônica, já que alguns relatos demonstraram situações de desaprovação diante dos
comportamentos dos visitantes. Porém, boa parte dos integrantes da aldeia que fizeram
parte da pesquisa descreveu a possibilidade de fortalecimento do relacionamento entre
os visitantes e visitados, a ponto de criar fortes laços de amizade e visitas consecutivas.
Diante do crescente fluxo de visitante é possível ver que a identidade étnica Xokó está
ganhando evidência e valorização. Por isso, que conforme salientaram os entrevistados,
é interessante manter o contato com os visitantes, uma vez que a partir do contato com a
sociedade mais ampla os visitados estão conseguindo estabelecer intercâmbios sociais e
culturais que os beneficiam a comunidade.
Diante do estudo, identificou-se que a presença de visitantes no território Xokó
constitui-se como uma forma de resgatar e expandir a cultura do grupo diante da
sociedade mais ampla. Trata-se também de uma maneira da comunidade se reafirmar
como protagonista de seus costumes e práticas cotidianas, possibilitando que a
identidade Xokó torne-se fonte de intercâmbio e conhecimento histórico, ambiental,
social e cultural.
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