Boas práticas
O governo do Japão anunciou a
criação de um departamento
especial para promover boas
práticas em instituições de pesquisa
e investigar acusações de desvio de
conduta, informou o site de notícias
norte-americano Global Post.
O escritório será vinculado ao
Ministério da Educação, Cultura,
Esportes, Ciência e Tecnologia do
país e terá, entre outras missões,
a de instruir as universidades a
incluir em suas grades disciplinas
que abordem a ética na ciência.
O escritório também deverá
implementar novas diretrizes
que tratem de irregularidades em
atividades científicas. Para que
o escritório saia do papel, o
ministério precisará contratar
funcionários, o que depende da
aprovação de um orçamento maior
para a pasta no próximo ano.
O governo também promete
lançar, até o final do ano, um
manual sobre integridade científica
para os pesquisadores que recebem
recursos públicos. O guia está
sendo desenvolvido pelas principais
agências de fomento do país em
parceria com o Science Council
of Japan, entidade vinculada à
comunidade científica nipônica.
A ideia é que sirva de parâmetro
para que as instituições de pesquisa
elaborem seus próprios manuais
ou programas de treinamento.
Segundo Makoto Asashima,
diretor-executivo da Sociedade
Japonesa para a Promoção da
Ciência (JSPS, na sigla em inglês),
entidade envolvida na elaboração
do documento, o guia irá abranger
questões como o uso apropriado de
recursos para pesquisa, a gestão
de dados e anotações de
experimentos e as responsabilidades
dos cientistas que são coautores em
artigos científicos. “Estamos
tentando colocar os pesquisadores
próximos do que consideramos
o nível mais elevado da conduta
responsável”, disse Asashima à
revista Science.
Ele nega que a iniciativa seja
uma resposta direta do governo ao
episódio de má conduta envolvendo
pesquisadores do Instituto Riken,
uma das principais instituições
de pesquisa do Japão. Segundo
Asashima, as medidas têm o
objetivo de resolver um problema
maior, relacionado à falta de
formação em integridade científica
no país. O caso expôs fragilidades
de um estudo sobre células-tronco.
Em julho, a revista Nature
cancelou a publicação de dois
artigos sobre uma técnica de
produção de células-tronco
publicados por Haruko Obokata,
jovem pesquisadora do Riken. Os
artigos abordavam uma técnica
que prometia simplificar a
produção de células-tronco, mas
perderam credibilidade quando
outros cientistas não conseguiram
reproduzi-la. O instituto fez uma
investigação e descobriu que
daniel bueno
Japão reforça política contra má conduta
Haruko plagiou e inventou dados
dos artigos. Em agosto, o caso
ganhou cores ainda mais dramáticas
com o suicídio do biólogo Yoshiki
Sasai, diretor do laboratório de
organogênese e neurogênese
do instituto. Ele foi orientador de
Haruko Obokata e coautor
dos artigos cancelados.
Fraude científica e desvio de recursos
Um artigo publicado em 2013
no British Journal of Psychiatry
foi cancelado depois que uma
investigação da Universidade de
Genebra, na Suíça, confirmou que
ele contém dados fabricados. O
artigo relata uma incidência maior
do que a esperada de alterações
epigenéticas em pessoas com
transtorno bipolar que sofreram
trauma na infância e tem como
autor principal Alain Malafosse,
professor de psiquiatria pediátrica
da universidade. A epigenética
consiste no estudo de alterações na
expressão gênica que independem
de mudanças na sequência do
DNA. Malafosse é acusado
de inventar dados referentes à
metilação do DNA, que ocorre
quando há adição de um grupo
metila (formado por partículas
de hidrogênio e carbono) à base
citosina do DNA. Ex-diretor da
divisão de psiquiatria do hospital
universitário de Genebra,
Malafosse também é acusado de
desviar cerca de US$ 1,8 milhão de
recursos para pesquisas. De acordo
com o jornal suíço The Local,
ele teria desviado o dinheiro por
meio de contas bancárias a uma
fundação sem fins lucrativos com
sede em Montpellier, na França.
Malafosse foi afastado da direção
do hospital na Suíça.
PESQUISA FAPESP 224 | 9
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