Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º.
Seminário Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop,
2009. ISBN: 978-85-288-0061-6
Monarquistas ou Republicanos: Uma reflexão sobre o Contestado
Everton Carlos Crema*
Conta uma anedota militar que um graduado ao servir-se de bifes durante o
almoço é admoestado pelo recruta que supervisiona a linha de serviço de que “somente
poderia comer um”, irritado o graduado questiona o recruta, se acaso ele sabia com
quem estava falando e quem ele era para questioná-lo quanto à quantidade de bifes que
comeria? Responde o recruta: “Sou o controlador de Bifes” fim da história.
De certa forma sempre houve uma preocupação, uma tentativa por parte da
história, ou dos historiadores de categorizar tudo, como se uma tipificação ou
qualificação se tornasse o próprio processo histórico. Longe de tentarmos diminuir a
importância das categorias, tipos ou conceitos na História ou negar-lhes sua condição
apresenta-se extremamente oportuno percebermos como muitas vezes as representações
de que fazem uso os homens são na verdade simulacros, estereótipos, quando não,
idéias distorcidas ou adaptadas pelas forças de seus interesses vários.
Fazer história ou sua escrita se constitui em tarefa hercúlea dada as condições
em que a própria narrativa da história é costurada, onde sua trama é urdida por variadas
mãos em processos escalares, para depois pela mão do historiador ser dissecado,
desconstruído, detalhado, individualizado e ao final de tudo, uma nova trama surgirá,
agora explicada pela mão do especialista, agora autenticada, certificada, pelo menos até,
outra mão, outro historiador, certifique-a novamente de outra forma.
Nesse jogo da história, extremamente positivo, a nosso ver, é que percebemos
as dificuldades de buscarmos por uma rígida metodologia da pesquisa, uma teoria que
permita vislumbrar essa miríade de perspectivas que se apresentam ao historiador,
devemos buscar na amplitude de suas possibilidades, não seu tendão de Aquiles, mas
seu alicerce, aquilo que permitirá construir uma Meta–História1, uma narrativa da
história, dentro de critérios científicos específicos às ciências humanas.
1
* Universidade Federal do Paraná – Mestrando em História em cultura e poder sob orientação do Prof.
Dr. Renato Lopes Leite.
Perspectiva de construção metodológica da ciência da história a partir da narrativa como referencial
teórico.
1
Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º.
Seminário Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop,
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Buscaremos apresentar aqui algumas idéias de Jörn Rüsen2 e sua matriz
disciplinar, sua proposta teórica, articulada a um dos maiores conflitos sociais do Brasil,
a Guerra do Contestado, movimento popular que sacudiu os sertões dos estados do
Paraná e Santa Catarina durante os anos de 1912 a 1916 atingindo uma área de 48 mil
Km² do sudoeste paranaense ao noroeste catarinense, de revolta messiânica a guerra
camponesa o Contestado já foi chamado de várias coisas, suas origens, para nós, por
outro nome, trama ou conceito se relacionam a um processo de modernização3 das
estruturas regionais, potencializadas pela construção da ferrovia São Paulo – Rio
Grande do Sul que corta a região no início do século XX.
O impacto desse processo no cotidiano da sociedade sertaneja pode ser
percebido, na crescente valorização da terra, no fim do tropeirismo, no esmaecimento
das relações de compadrio, na crescente colonização e na ampliação do extrativismo da
madeira e erva-mate. A modernização e a crise do processo de transformação articulado
pela ferrovia se desenvolveram em intensidade e direções diferentes, muitas vezes,
desenvolvidas pelo prolongamento e ampliação da cadeia produtiva ou das inovadoras
possibilidades econômicas.
Sua tecnologia tornava possível trazer regiões outrora inacessíveis de forma
efetiva para a esfera do mercado mundial, por meio da ferrovia e do vapor. As
convulsões sociais que sucederam à transferência da agricultura para um
modelo capitalista, ou pelo menos um padrão de comércio em larga escala,
afrouxaram os laços tradicionais entre os homens e a terra de seus ancestrais,
especialmente quando descobriram que não possuíam praticamente nada dela,
ou pelo menos muito pouco para manterem suas famílias. (HOBSBAWM,
1996: 245).
Evidentemente que a mudança das estruturas econômicas afetou diretamente a
rotina produtiva da sociedade cabocla, a ruptura da economia moral 4 daqueles grupos
com o costume, com sua cultura, engessaram o horizonte de expectativas dos caboclos.
2
Professor titular de teoria da história na Universidade livre de Berlin e professor titular de história
moderna na Universidade de Bochum. Publicou no Brasil uma trilogia composta respectivamente por
(Razão Histórica, 2001), (Reconstrução do Passado, 2007) e (História Viva, 2007).
3
Entende-se por Modernização o conjunto de mudanças operadas a partir de um contínuo processo de
difusão de valores e técnicas européias, se relaciona com o surgimento de formas políticas, econômicas e
sociais dirigidos para fins específicos. ( BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO. 2004: 772 – 773).
4
THOMPSON. E. P. Costumes em Comum – estudo sobre a cultura popular tradicional. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998. Segundo Thompson economia moral seria toda forma de organização,
ideologia, economia, arte, cultura, o tipo de relação, comportamento ou uso funcional desenvolvido,
utilizado e reproduzido por uma sociedade em seu cotidiano.
2
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As mudanças impediram a reprodução lógica das estruturas vigentes, aceitas pelos
grupos sociais inseridos nas regiões do Vale do Rio do Peixe Iguaçu e Negro, regiões
marginais à ferrovia e que puderam sentir toda a força transformadora e a viragem do
seu cotidiano. A reação ao fim das expectativas aceitas e reproduzidas da tradição e dos
costumes pelos sertanejos, os lançaram da negação a luta, contra aquilo que não
compreendiam como seu.
De outra forma a sociedade regional, os grupos sociais nas regiões do
Contestado sentiram e assimilaram esse processo de transformação diferenciadamente, a
cristalização de interesses mostrou-se diversa. Para o caboclo a modernização e a
chegada da ferrovia se mostraram de forma excludente e violenta, já as elites regionais
viram na modernidade, um caminho, um patamar a ser alcançado, a validação de um
sentimento, “o progresso”. Dentro dessa perspectiva podemos dizer que a separação
entre “costumes” e modos de vida, se reproduziu dentro de lógicas e expectativas
específicas. Do lado das elites a nova cultura estava cada vez mais ligada ao
racionalismo dos costumes, ao racionalismo produtivo, ao racionalismo do trabalho e do
capital, impondo-se como cotidiano, adotado como cultura.
A inovação é mais evidente na camada superior da sociedade, mas como ela
não é um processo tecnológico \ social neutro e sem normas (“modernização”,
“racionalização”), mas sim a inovação do processo capitalista, é quase sempre
experimentada pela plebe como uma exploração, a expropriação de direitos de
uso costumeiros, ou a destruição violenta de padrões valorizados de trabalho e
lazer. 5 (THOMPSON, 1998: 19).
Para os grupos subordinados o choque entre o racionalismo capitalista e a
“tradição”, permitiu um certo retorno a ortodoxia dos costumes “tradicionais” no intuito
característico de reforçá-los e defendê-los, ante as mudanças que se operacionalizavam.
Todo o processo de transformação, suas inovações, conflitos e rupturas, seus mais
diversos interesses e a própria luta por sua legitimidade, polarizaram-se dentre outras
perspectivas, a partir dos conceitos políticos do monarquismo6 e republicanismo7.
5
THOMPSON. , E. P. Costumes em Comum – estudo sobre a cultura popular tradicional. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998. p.19.
6
Monarquismo, corrente política que defende um regime de poder unipessoal “dominus”, baseado na
hereditariedade e vitaliciedade do rei, entende-se ainda monarquia como o governo da res pubblica de
caráter monopessoal. (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO. 2004: 776 – 777).
7
Republicanismo, corrente política anti-monarquista, defendem um governo representativo liberal,
baseado na separação dos poderes e um estado federativo, especificamente nos Estados Unidos.
3
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Buscaremos demonstrar que as leituras políticas sobre essas formas de governo não
correspondem aos seus conceitos e estruturas políticas tradicionais, conceitualmente
foram apropriadas conforme interesses e representações específicas, muito mais ligadas
à defesa de um modo de vida e aos desejos dos homens que levantaram suas bandeiras
do que propriamente uma forma de governo historicamente constituído. Seus discursos
foram distorcidos, amoldados num híbrido entre o velho e o novo.
Desejavam os dois lados, o melhor de dois mundos, canalizaram suas
expectativas de mudança e de manutenção dentro dos referenciais políticos que à época
oposicionaram os destinos no Brasil. Lembremos que a proclamação da República em
1981 ainda se fazia muito presente na memória nacional, por vezes sem a devida
compreensão do alcance de seus significados, muito mais ligada às tradições seculares e
ao costume do que presa ao contexto republicano. Não diferentemente nas regiões do
Contestado, observarmos um intenso catolicismo rústico8 desenvolvido em grande parte
do interior do Brasil, o forte sentimento de religiosidade dos caboclos transformou-se
em luta e suas aspirações foram canalizadas em um movimento político de restauração
da “monarquia celeste”, do bom governo, onde primava a lei de Deus e não a dos
homens.
A proclamação da República, trazendo a separação entre o Estado e a Igreja,
repercutiu desfavoravelmente no espírito de João Maria, e ao passo que as leis
republicanas tendiam a ser por ele acoimadas de “leis do diabo”, a Monarquia
passava a representar uma Idade do ouro perdida. (QUEIROZ, 1957: 262).
Do outro lado, as elites regionais e seus asseclas, polarizaram-se, dentro de
uma guerra onde buscavam defender seus interesses articulados as idéias de ordem e
progresso do jovem republicanismo, republicanismo esse que distorcido se desenvolveu
no Brasil muito mais por sua vertente anti-monarquista do que qualquer outro motivo,
era de interesse das elites brasileiras adequar o liberalismo republicano a sua política
caudilhistas.9 Entretanto dos dois lados os conceitos de monarquia e república foram
permeados pelos naturais interesses de grupo. Os “pelados”10 buscavam na restauração
do monarquismo remédio para seus males, suas lembranças e experiências da
8
Forma de sincretismo religioso, fusão do catolicismo romano e a práticas religiosas populares.
Para isso ver. LEITE, Renato Lopes. Republicanos e Libertários: Pensadores radicais no Rio de
Janeiro (1822). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
10
Termo pejorativo, por rasparem as cabeças os revoltosos do Contestados foram denominados pelados,
sem pêlos, pelas tropas federais e milicianos.
9
4
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monarquia eram muito mais favoráveis que a realidade republicana que se apresentava,
além disso, a monarquia era o “governo de Deus”.
Dessa forma podemos articular de que a tentativa da restauração do
monarquismo estava muito mais ligada ao cotidiano vivenciado por aquelas populações
nos sertões contestados do que uma inteligibilidade acerca do que representava um
governo e um estado monarquista. Desejavam muito mais voltar a viver dentro da rotina
de seu costume do que defender uma forma de governo arcaica. Os interesses na
manutenção ou retorno da monarquia foram idealizados pelos caboclos, num desejo de
justiça, amor e fraternidade, compatível com o sincretismo da ética cristã. Por outro
lado aceitar que os caboclos, os “pelados” do Contestado enfrentaram o governo federal
e governos estaduais, os coronéis latifundiários e que por inúmeras vezes rechaçaram
heroicamente seus ataques mantendo regiões inteiras sob seu controle sem nenhum tipo
de organização, politização ou partidarismo parece-nos pouco provável.
Dificilmente aceitaríamos essa perspectiva, a menos que, mais uma vez nos
curvássemos à tranqüilidade de uma definição conceitual hegemônica, abrangente e
precisa do conceito político ou da própria história, pensado de forma restrita, ou ampla,
tudo ou nada, surgiriam mais problemas do que soluções. Importa-nos perceber a
importância da flexibilidade do uso conceitual quando da análise histórica, observando
dentro de sua narrativa, dentro de seu processo de construção escalar as condições
especialíssimas que a criaram. A Guerra do Contestado, não foi um movimento
anômico11 ou fruto de uma “patologia social”, foi história.
Os sertanejos acabaram demonstrando, tanto por discurso como por atos, que
desenvolveram uma nítida consciência das condições sociais e políticas de sua
marginalização, de que se tratava de uma guerra entre ricos e pobres, que
lutavam contra o governo, que defendia os interesses dos endinheirados, dos
coronéis e dos estrangeiros. (MACHADO, 2004: 26).
A defesa da República por seus partidários se processou de forma semelhante,
a modernidade, a ordem e progresso se constituíram em baluarte das elites regionais,
sobretudo se observarmos as redes políticas desenvolvidas pelo coronelísmo regional, a
religiosidade cabocla foi travestida de barbárie, o atraso precisaria ser vencido pela
civilização. Dessa forma o republicanismo condensou ao mesmo tempo a idéia de
11
Significa a ausência de normas ou mecanismos de regulação em uma sociedade.
5
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representatividade política limitada e liberalismo econômico, as elites regionais
buscavam aumentar sua ação dentro dos governos estaduais, centralizando o processo
decisório e conjuntamente flexibilizavam a ação econômica dos governos segundo
interesses muito específicos.
Apresentado o palco, o enredo da história e alguns personagens, passaremos
agora a analisar e articular a contribuição de Jörn Rüsen para os fundamentos do
conhecimento histórico-científico, sua maior preocupação repousa sobre os problemas
da teoria da história, sua crítica e a criação de um modelo metodológico que possa
oferecer uma alternativa ao universalismo histórico à construção de uma teoria histórica
prática, baseada na narrativa e na geração de sentido histórico, uma Meta-História.
Os anos 90 encerram o debate acerca dos grandes modelos teóricos, os
universalismos e as teorias nomológicas,12 e seus modelos de interpretação não mais
produzem garantia de validade do pensamento histórico, suas metodologias teóricas não
se orientam pelas modificações temporais no passado do homem e de seu mundo. Dessa
forma não podem explicar singularmente cada caso e os processos de mudança, não
desvendam o acontecimento, somente buscam articulá-lo a outros fatos e momentos
históricos explicando e encadeando determinados elementos e contextos específicos. Os
pressupostos teórico-metodológicos devem possuir léxicos com o tempo e a
experiência, formadores de identidade, as interpretações do processo histórico se tornam
dependentes das representações de continuidade do espaço-tempo em constante
reformulação.
Os fenômenos do passado humano são especificamente históricos quando se
trata de sua qualidade temporal, de seu valor no decorrer de um tempo
considerado importante em termos de sentido e significado. É exatamente dessa
qualidade temporal, que os fatos do passado ganham luz de uma representação
abrangente da continuidade, que as teorias nomológicas prescindem. (RÜSEN,
2007: 31).
Os grandes modelos teóricos analisam em suma os resultados de um momento
histórico específico, muitas vezes negligenciando, detalhes formadores da história, ou
das possibilidades da formação da história como, por exemplo, a relação intenção /
ação. A análise da ação ou de seus resultados não se torna um equivalente imediato de
12
Refiro-me aqui, segundo Rüsen as teorias hegemônicas dentro da história que se propuseram a criar
uma história universalizante, esgotadas com a crítica dos Pós-Modernistas.
6
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sua intencionalidade ou de suas intencionalidades, pois as ações não possuem apenas
um motivo, mas vários e podem explicar por vezes a base real dos motivos, o que nos
remete a um problema, se escolhermos alhures alguma ação na história, indevidamente
poderemos chegar a resultados diferentes, o que nos remete a necessidade de buscarmos
pela variedade da racionalidade a formação de sentido e não a partir dessa racionalidade
autorizar “um sentido”.
Portanto ao utilizarmos conceitos teóricos nomológicos, incorremos em um
problema de inadequação dos modelos explicativos, construídos em um momento
histórico específico, em relação aos procedimentos explicativos, dentro do processo de
construção da história, pois as teorias hegemônicas isolam a experiência temporal, a
qual deveria se repetir no espaço-tempo para que se possa gerar sentido histórico, algo
como se contar uma anedota duas vezes consecutivas, o contexto da primeira e seu
resultado seriam bem diferentes de uma segunda tentativa, o contexto histórico não seria
mais o mesmo, diferente também seria a geração de sentido.
Dessa forma propõe Rüsen à criação de uma nova teoria da história, capaz de
articular as categorias universais da história aos particularismos culturais, através da
narrativa histórica, segundo o próprio autor, não seria o próprio narrar histórico um
procedimento explicativo? Procedimento este que desfrutaria de um duplo mérito, pois
além de analisar em sua “cena originária” a linguagem e sua relação com o processo
histórico, ainda poderíamos descortinar o próprio narrador – historiador em sua lógica
narrativa. Pensar historicamente, significa articular os arquétipos lingüísticos do
pensamento histórico a própria ciência histórica, dentro de parâmetros específicos onde
a narrativa se tornará síntese desse método.
A validade da narrativa como teoria da história talvez se encontre em sua
própria dinâmica, articulando e configurando diversas racionalidades argumentativas,
abstratas que cientificadas criam perspectivas históricas válidas, variadas e simultâneas
construindo uma racionalidade cognitiva tipificada que se peca pela abrangência e
variedade de conjecturas, escapa ao determinismo de um monolitismo explicativo que
não permite perceber todo o processo de construção histórica da narrativa.
Defendida a narrativa como uma teoria da história, agora se faz necessário
demonstrar como Rüsen propõe a aplicação do paradigma narrativo ou o problema da
narração metodologicamente. Sua matriz disciplinar é um esquema interpretativo
7
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cognitivo-referencial das práticas do pensamento histórico onde a narrativa ou seu
processo de construção, pode se articular sincrônica ou diacronicamente com o todo ou
em parte. Entretanto a articulação de um ou mais campos naturalmente levará a
narrativa a articular-se a um novo campo da matriz disciplinar composta de 5 (cinco)
campos específicos, a saber: 1º. Interesses, (carências de orientação na mudança
temporal do mundo contemporâneo.) 2º. Funções (orientação cultural sob a forma de
um direcionamento do agir humano e de concepções da identidade histórica.) 3º.
Perspectivas da interpretação (teorias, perspectivas e categorias.) 4º. Formas de
representação. 5º. Métodos, (regras da pesquisa empírica). Esses 5 (cinco) campos que
compreendem a matriz disciplinar ainda se dividem em 3 (três) eixos: Vida prática,
princípios do sentido e ciência especializada. As articulações da narrativa aos eixos e
campos da matriz disciplinar permitem a constituição de uma explicação teórica
racional da geração de sentido. Formalmente através da estrutura da história,
materialmente através da experiência do passado e funcionalmente, orientando a vida
humana no tempo, criando um modelo racional na constituição histórica do sentido
dentre todas as suas possibilidades.
A tarefa e a pretensão de racionalidade de uma história cuja auto-afirmação
passa pelo paradigma consistem, por conseguinte, na identificação de um perfil
coerente para essa pluralidade e diferença, e em sua explicação reflexiva sem
manipulá-la ou descartá-la. Essa pretensão capacita o paradigma narrativo da
práxis histórica, que se realiza na plenitude do diferente, a emergir e a motivar a
história a não proceder mais de maneira cega, mas sim esclarecida sobre si
mesma. (RÜSEN, 2001: 170).
Voltando ao palco e seus personagens, antes que as cortinas se fechem,
perguntamo-nos: Monarquistas ou Republicanos? Não se trata aqui de buscar definir
conceitualmente o que esses termos significam, mas sim o que representaram para os
lados envolvidos na Guerra do Contestado ou outra história, percebe-se que os caboclos
defendiam a monarquia, mas se aproximavam muito mais do republicanismo, por suas
carências da vida prática, “a idéia de Monarquia já estava associada, por amplas
camadas da população pobre do país, a uma defesa paternal dos pobres contra os
poderosos” (MACHADO, 2004: 213), desejavam uma monarquia travestida dos
ideários republicanos, suas orientações e suas concepções de identidade mesclaram o
8
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monarquismo e o republicanismo em um híbrido político adequado a suas perspectivas
de interpretação e possibilidades reais que se apresentavam.
De outra forma a pesquisa histórica, a ciência especializada vem cristalizando
interpretações históricas, que contemplam muito mais o contexto histórico do que os
discursos, em si mesmos, escapando ao enquadramento teórico, contribuindo
decisivamente para a criação de modelos explicativos mais abrangentes que se
assemelham metodologicamente a matriz disciplinar proposta por RÜSEN. Se ao
articularmos um dos campos da matriz, às carências da vida prática, em relação aos
rebeldes do Contestado perceberemos que naturalmente passaríamos pelo seu cotidiano
e identidade histórica, ao mesmo tempo compreenderíamos as condições que
permitiram criar ou modificar suas formas de representação.
A construção e implementação da ferrovia São Paulo – Rio Grande do Sul que
corta ao meio a região, de norte a sul, valorizou diretamente a terra, essa mudança, a
ampliação das possibilidades econômicas ligadas a terra alteraram as relações de
dependência e sustentação do sistema de agregação, 13 que tem no compadrio sua forma
mais acabada. A terra era o fiel da balança entre o coronel latifundiário e seus
agregados, mantinha-se na terra um vínculo de dependência e co-obrigações comuns.
Entretanto quando da terra revalorada, os interesses dos coronéis e seus agregados,
entraram em conflito, as funções do agir humano, foram reordenadas em novas bases,
os coronéis desejavam dispor monetariamente da valorização da terra, os serviços e
trabalhos ocasionais prestados por seus agregados como forma de paga e retribuição por
seu uso não mais lhes interessavam.
Os sertanejos não mais podendo dispor da terra como de costume e não mais
servindo aos interesses dos proprietários de terras, delas são expulsos, sua nova
condição econômico-social forçaram o caboclo a reelaborar suas formas de
representação acerca de suas condições e possibilidades em um mundo em profundas
mudanças. Para as elites regionais, do outro lado, mas da mesma forma o
republicanismo se configurou num híbrido de liberalismo econômico e controle político
o que percebemos diferente de uma ampliação da participação política. As mudanças
que as regiões serranas paranaenses e catarinenses vislumbraram no início do século
13
Prática de co-dependência e co-obrigação entre o coronel e seu agregado, recebe o agregado sob
permissão, um pequeno pedaço de terra, por seu uso obriga-se em trabalho e moralmente pelo compadrio
a vontade do coronel latifundiário.
9
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XX, a modernização, o progresso e suas promessas também podem ser articuladas a
matriz disciplinar. Seus interesses e perspectivas acompanharam as mudanças
históricas, as possibilidades que se apresentaram construíram um novo horizonte, a nova
realidade ou sua mudança exigiu um novo contexto histórico, uma nova narrativa
precisou ser costurada, uma nova trama precisaria ser urdida pela mão do especialista.
Finalmente, podemos perceber a importância e contribuição da obra de Jörn
Rüsen, recente é sua penetração no Brasil, o que não lhe é demérito algum, a amplitude
e preocupação do autor com a ciência da história, com a formação de uma metodologia
histórica que possa se construir como teoria, mostrou-se tão inusitada quando poderosa,
usar da narrativa como uma possibilidade de criação de uma teoria histórica prática,
veio responder a crise do debate histórico contemporâneo, amoldando criteriosamente
do universal ao particular dentro da história. Para Rüsen a narrativa é um paradigma,
pois o processo de construção histórico deve se estabelecer dentro de uma relação entre
experiência e tempo, essa relação da sentido as experiências criando um enredo que
passa a organizar o tempo, que por sua vez da sentido ao passado.
Rüsen defende que a história deve se preocupar com a pluralidade, buscando o
historiador em seu trabalho, mais de um sentido, mais de uma perspectiva, construindo
a partir dessa proposta um enredo narrativo articulado a vida prática, as condições
históricas e seus significados que permitam ao homem compreender o desenrolar da
história pelas carências da vida prática. Rüsen nos convida a ampliarmos os horizontes e
olhares sobre a história, nos questionando acerca da forma com a qual nos preocupamos
da escrita da história, não seria essa escrita da história antes uma narrativa?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de
política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004.
HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital (1848-1875). São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MACHADO. Paulo, Pinheiro. Lideranças do Contestado. Campinas, SP: Unicamp,
2004.
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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º.
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QUEIROZ. Maria, Izaura. La “Guerre Sainte” au Bresil: Lê movimente messianique
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THOMPSON. E. P. Costumes em Comum – estudo sobre a cultura popular tradicional.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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