Ernesto Rosa
Por causa de pequenas desavenças com o Colégio, parei de estudar e fui
trabalhar. Montei um boteco, depois troquei por um caminhão, transportei carga e
acabei em Brasília, durante sua construção. Puxava areia para o Bradesco. Ia até o Rio
Corumbá, descia à draga, o pessoal enchia a carroceria de areia e eu tocava para
Brasília para descarregar.
O Caminhão estava registrado na construtora, o que incluía as duas medidas da
carroceria, comprimento e largura, bem como o seu produto. Logo percebi que quando
eu fosse descarregar, bastaria medir a altura da areia, multiplicar pela base, já
calculada, para obter os metros cúbicos da viagem. Mas não foi o que aconteceu. Toda
vez que eu descarregava, o apontador apenas anotava a altura da areia. No fim do
mês, somavam todas as alturas, multiplicavam pela base e encaminhavam para o
pagamento.
Por exemplo. Ao invés de calcular três viagens, “empilhavam” as três cargas e
calculavam uma só vez. Todos nós, caminhoneiros, não reclamávamos, porque
sabíamos que dava no mesmo, apesar de estranho. Aliás, quem nunca passou pela
escola sabe a propriedade distributiva da multiplicação em relação à adição. Apenas
não sabíamos escrever: Bh1 + Bh2 +...+ Bhn = B(h1 + h2 +...+ hn).
O fato é que, depois de um mês de trabalho, na minha cabeça, era como se eu
tivesse levado uma única carga de areia de uns 15 metros de altura. Um bom exemplo
da utilização dessa propriedade distributiva! Não sei quem mandou o apontador fazer
desse jeito.
Uns poucos anos fora da escola me levaram a concluir que estudar era mais
confortável. Larguei o caminhão e fui fazer matemática, na USP.
São Paulo/abril/2009
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