O desenvolvimento da imaginação por meio da leitura dos gêneros
do discurso na escola
Gislaine Rossler Rodrigues Gobbo. Programa de Pós-Graduação em Educação
Marília – FFC – Universidade Estadual Paulista –USC Universidade do Sagrado
Coração de Jesus. Prefeitura Municipal [email protected].;Stela
Miller. Programa de Pós-Graduação em Educação Marília – FFC – Universidade
Estadual Paulista.
Modalidade comunicação oral
Categoria: pesquisa em andamento
Eixo 3- Linguagem e literaturas nos processos educativos
Palavras-chave: Imaginação; Gêneros do discurso; Teoria Histórico- Cultural;
Mikhail Bakhtin.
Introdução
Focalizamos nossos estudos de doutorado em pressupostos que explicam
o desenvolvimento humano em dois grupos de fenômenos denominados formas
elementares e superiores. As elementares são as herdadas biologicamente; as
superiores são
processos de domínio de conduta dos meios externos do
desenvolvimento cultural," processos de desenvolvimento das funções psíquicas
superiores especiais [...],
que na psicologia tradicional se denominam atenção
voluntária, memória lógica, formação de conceitos, etc. Formam o que qualificamos
convencionalmente como processos de desenvolvimento das formas superiores de
conduta da criança. (VYGOTSKI, 2000, p. 29, tradução nossa).
A metodologia adotada para esse trabalho foi pesquisa bibliográfica, pois
estamos no processo de doutorado, buscando por esse entendimento. Com esse
intuito, explicitaremos pesquisas da constituição da imaginação segundo Vigotski
(2009), e adentraremos a filosofia da linguagem proposta por Mikhail Bakhtin (2003).
Para que a teoria exposta possa ser compreendida na práxis, remeter-nos-emos à
materialização por meio dos gêneros do discurso. Nossa
justificativa para a
realização desta pesquisa surge à medida que percebemos a importância do contato
com os gêneros do discurso desde a educação pré-escolar por meio de ações e
tarefas que promovam a percepção da realidade concreta presente nos contextos
orais e escritos desse instrumento materializado. Visto dessa perspectiva, o
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vivenciamento1 por meio das imagens e conteúdos temáticos presentes nos
conteúdos dos gêneros, que potencializa os processos das funções psíquicas
superiores da conduta, ofertando situações para o desenvolvimento verbal, volitivoemocional e intelectual, quando a criança fala e brinca revelando sua imaginação
reprodutiva e criadora nas experiências com os gêneros do discurso.
Objetivamos demonstrar que a oferta dos gêneros do discurso pautados
na teoria da filosofia da linguagem bakhtiniana e das funções psíquicas especiais
superiores vigotskianas contribui para o desenvolvimento dos processos da
imaginação em situações concretas verbais, volitivo-emocionais e intelectuais
expostas na fala e nas brincadeiras infantis. Assim, buscamos especificamente
explorar conceitos referentes à imaginação segundo Vigotski (2009) e expor a
especificidade da teoria filosófica da linguagem presente na teoria de Bakhtin.
Divulgamos o seguinte problema de pesquisa: a leitura dos gêneros do
discurso na escola pode contribuir com o desenvolvimento da imaginação infantil?
Para a explanação desses conceitos,
dividimos este trabalho nos
seguintes itens: O que é imaginação, filosofia da linguagem em Bakhtin e
a
especificidade de seus estudos.
O desenvolvimento da imaginação representativa e criadora no contato com
os gêneros do discurso na escola
O desenvolvimento humano depende das qualidades de desenvolvimento
do psiquismo, o qual, por sua vez, é submetido às interações culturais e sociais. O
nascimento do homem não lhe garante desenvolvimento intelectual favorável. Suas
qualidades psíquicas elementares, aquelas geneticamente herdadas, estruturaramse e promoveram um processo de continuidade, por meio das funções superiores
especiais em situações de ensino, mediadas por pessoas mais experientes.
Os gêneros ocupam a posição de instrumento material e simbólico, pois
seu conteúdo proporciona aos sujeitos ações mediadas por elementos contidos em
seu contexto oral e escrito. Tais elementos, sendo
socialmente elaborados,
resultam do vivenciamento de gerações, que ofertam e ampliam experiências.
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Vivenciamento é termo usado em estudos do Círculo de Bakhtin; refere-se às vivências, ideias,
pensamentos do outro que contribuem com o sujeito.
2
Ao adquirir a posição de um instrumento, os gêneros medeiam uma
atividade, dando-lhe forma e representando-a em sua materialização. Isso posto,
partimos para a peculiaridade de alguns temas.
O que é imaginação?
A
atividade da imaginação é uma ação complexa, orientada por vários
fatores. A imaginação humana decorre de uma nova formação psíquica superior
elaborada historicamente na vida do sujeito, ou seja, aparece devido às vivências
das
formas
mais
complexas
da
atividade
humana,
não
sendo
herdada
biologicamente.
Os gêneros do discurso
Os gêneros do discurso são concretizados pelos enunciados que dizem
respeito à expressão e à transmissão de pensamentos e sentimentos nas diferentes
esferas da atividade humana divulgados pela linguagem. Cada esfera humana
elabora tipos estáveis de enunciados, que se materializam nos gêneros do discurso.
A escolha por um tipo de gênero é orientada pela necessidade da temática, pelos
participantes do enunciado, pela vontade e pela intenção dos falantes. Os gêneros
são ricos e heterogêneos em conteúdo e temática, classificando-se em primários diálogos do cotidiano e breves réplicas, que são uma comunicação verbal mais
espontânea- e os secundários, os mais complexos, que exigem a dominância das
formas primárias mediadas pela leitura e pela escrita
De acordo com Bakhtin (2003), pelo ato escrito nas histórias, o escritor dirige
todas as vozes alheias, ou seja, a voz criativa do autor-criador torna-se uma
apropriação da voz social. A leitura dos gêneros orais e escritos na escola, por meio
dos tipos secundários, como a literatura infantil, poesia, romance, contos
maravilhosos e jocosos, favorecem a percepção de fatores que compõem o mundo
concreto. Tal instrumentalização contribui para o ato de imaginar, fazendo com que
a criança reproduza mentalmente as descrições das narrativas.
A filosofia da linguagem em Bakhtin e a especificidade de seus estudos.
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Para o Círculo de Bakhtin, o diálogo é um evento que reifica a interação
sociocultural dos grupos, no qual presenciamos a heteroglossia dialogizada pela
consciência e a força socioideológica representada pelos enunciados. (BAKHTIN,
2010). Percebe-se, nas ideias do Círculo, a presença de esferas que constituem a
criação ideológica: a ideologia do cotidiano e os sistemas ideológicos constituídos.
Nelas há "espaços em que já estão embutidas as bases da criação ideológica mais
elaborada e as fontes de sua contínua renovação" (FARACO, 2009, p.62). Entendese que a primeira esfera centra-se em eventos corriqueiros do dia a dia (informação
na rua, cumprimentos, etc.); enquanto
a segunda esfera compreende práticas
sociais mais elaboradas, como a filosofia, a religião e os sistemas constituídos.
Essas duas esferas não são independentes, mas interdependentes, pois se
consolidam uma a partir da outra, constituindo-se nos gêneros do Discurso, já
mencionados.
Nesse contexto, os gêneros do Discurso contribuem para a elaboração da
Heteroglossia dialogizada, da qual o diálogo é
um dos principais componentes,
espaço das interações das vozes sociais. É por meio dessas interações que os
sujeitos imaginam os conteúdos representativos ou criativos apresentados.
Para Bakhtin,
o Ser é comunicação com o mundo, o não ser é não ser
ouvido e não ser reconhecido, é estar morto. A subjetividade se concretiza nas
relações com o outro.
Considerações
Finalizamos este estudo sem esgotar todos os elementos das teorias aqui
iniciadas:
o desenvolvimento da funções psíquicas especiais da conduta
de
Vigotski e a filosofia da linguagem em Bakhtin.
Embora o resultado deste trabalho seja parcial, fundamentamos teoricamente
linhas que podem complementar-se na defesa de um ensino escolar gerador de
motivos e interesse que provoquem nas crianças o desejo de se constituírem
pessoas melhores em vários aspectos: emocionais, afetivos, intelectuais. Sem
dúvida,
a constituição da imaginação reprodutiva e criadora contribui para a
resolução de problemas, para a criação de novas formas de sobrevivência, e para
uma vida melhor.
Entretanto, não é qualquer tipo
de gênero do discurso que possibilita o
conhecimento de mundo e o desenvolvimento do psiquismo, mas especialmente
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aquele cujo processo de instrumentalização provoca alteração e transformação no
sujeito
que aprende. Esse
abre novas possibilidades de ações por meio da
imaginação, e somente os gêneros do discurso divulgados e ensinados por Bakhtin
(2003), presentes nos enunciados, possuem toda a especificidade dialógica
ensinada pelo Círculo,
diferenciando-se integralmente da linguagem morta, sem
vida e decodificada em sílabas.
Referências
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.
FARACO, Carlos Alberto. Linguagem e diálogo: as ideias linguísticas do círculo de
Bakhtin. São Paulo: Parábola editorial, 2009.
VIGOTSKI, L. S. Estudo experimental do desenvolvimento dos conceitos.
In:VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem, São Paulo:
Martins Fontes, 2001, p. 151-239.
______. Imaginação e criação na infância: ensaio psicológico- livro para
professores; apresentação e comentários Ana Luiza Smolka; tradução Zoia Prestes.
São Paulo: Ática, 2009.
VYGOTSKI, L. S.. Investigación experimental del desarrollo de los conceptos. In:
VYGOTSKI, L. S. Obras escogidas II. Madrid: Visor, 2000. p. 119-178.
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