A teiniaguá
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Em 1850 a vila de Santa Fé foi elevada a cabeça de comarca e seu primeiro juiz de direito, o dr. Nepomuceno
Garcia de Mascarenhas, natural do Maranhão, veio morar com a esposa numa das casas de alvenaria que o
cel. Bento Amaral mandara recentemente construir na rua dos Farrapos. Era o dr. Nepomuceno um homem de
estatura mediana, que impressionava logo pelo comedimento de gestos, palavras e opiniões. Andava sempre
de sobrecasaca preta e dificilmente se separava de sua bengala de castão de prata. De olhos empapuçados e
mortiços, voz velada e lenta, tinha um ar de sonâmbulo acentuado pelo andar tateante e meio cansado, que aos
íntimos ele explicava ser devido ao fato de ter pés chatos. Passava o juiz de direito por bom latinista, razoável
matemático e exímio jogador de xadrez. Era maçom, adorava Chateaubriand e nas horas vagas fazia sonetos.
Juiz íntegro, homem austero, o novo magistrado de Santa Fé se impôs desde logo ao respeito e à
admiração dos habitantes da vila. E afeiçoou-se de tal maneira àquele lugar, cujos bons ares lhe haviam
restaurado a saúde da esposa, que resolveu não mais sair dali. E, como prova de estima e gratidão à vila e seus
habitantes, organizou e mandou publicar por conta própria, numa tipografia de Porto Alegre, o primeiro
Almanaque de Santa Fé, que apareceu em janeiro de 1853, com informações sobre a topografia, a geologia, a
fauna e a flora do município, além dum calendário completo, com conselhos aos agricultores e horticultores,
bem como páginas amenas e instrutivas de literatura e humorismo, charadas, logogrifos, enigmas pitorescos,
etc.
Abria o Almanaque uma descrição literária da cidade, feita pelo próprio dr. Nepomuceno. Começava
assim:
A vila de Santa Fé, cabeça da comarca de São Borja, e da qual temos a desvanecedora honra de ser o
primeiro juiz de direito, é uma das flores mais formosas do vergel serrano. Situada sobre três colinas
e cercada de campinas onduladas, lembra ela ao viandante, singelo mas gracioso presepe.
Prodigamente dotada pela natureza, seus bons ares e suas cristalinas águas são propícios à
longevidade, razão pela qual muitos de seus habitantes, em geral de costumes morigerados, passam
dos noventa anos, como foi o caso extraordinário do preto escravo conhecido pela antonomásia de
Sinhô d’Angola, o qual durou mais duma centúria, e do Cacique Fongue, que viu pela primeira vez a
luz do dia na redução de Santo Ângelo, por volta de 1750, e o qual ainda hoje por aqui vive em pleno
gozo de suas faculdades mentais.
O Almanaque oferecia também a seus leitores um “escorço histórico” da vila, no qual o autor
prestava uma homenagem à família Amaral, cujo fundador foi “esse venerando cidadão, o Cel. Ricardo
Amaral, o primeiro povoador destes campos, um bandeirante na verdadeira extensão do vocábulo, e que
morreu como um bravo, no lendário combate do Passo das Perdizes”. Vinha a seguir uma referência de dez
linhas ao filho de Ricardo, Francisco Amaral, “o fundador de Santa Fé”, e depois uma página inteira dedicada
a seu neto, o cel. Ricardo Amaral Neto, “que tanto contribuiu para o engrandecimento deste município, de
cuja Câmara foi o primeiro presidente”. Após a enumeração das qualidades morais de Ricardo Amaral Neto e
de seus feitos na paz e na guerra, a biografia terminava assim: “e em 1836 baqueou como um bravo, de armas
na mão, dentro de sua própria casa, defendendo a legalidade”. Havia por fim três páginas dedicadas à
personalidade do cel. Bento Amaral, “atual chefe político deste município, deputado à Assembléia Provincial,
verdadeiro varão de Plutarco que perpetua no tempo e na admiração de seus coevos um nome honrado e uma
tradição de virtudes cívicas e privadas”.
O Almanaque circulou em Santa Fé e arredores, onde foi lido, comentado e apreciado. E através de
seus dados estatísticos e de suas informações — escrupulosamente colhidos pelo próprio dr. Nepomuceno —
ficaram os santa-fezenses sabendo que a vila possuía agora sessenta e oito casas, entre as de tábua e de
alvenaria, e trinta ranchos cobertos de capim; e que sua população já subia a seiscentas e trinta almas.
Informava ainda o dr. Nepomuceno que Santa Fé contava com quatro bem sortidas casas de negócio, uma
agência do correio “cuja mala, lamentamos dizê-lo, chega apenas uma vez por semana”, uma padaria, uma
selaria e uma marcenaria.
A ciência de Hipócrates está representada entre nós pelo ilustrado Dr. Carl Winter, natural da
Alemanha e formado em Medicina pela Universidade de Heidelberg e que fixou residência nesta vila
em 1851, data em que apresentou suas credenciais à nossa municipalidade. Não podemos deixar de
mencionar o nosso Clotário Nunes, médico homeopata bem conceituado, e o curandeiro conhecido
popularmente por Zé das Pílulas, muito procurado por causa de suas ervas medicinais cujos segredos
diz ele ter aprendido dos índios coroados, dos quais parece ser descendente.
Causou também muito boa impressão a parte do Almanaque em que o dr. Nepomuceno rememorava
as guerras em que os filhos de Santa Fé haviam tomado parte.
Nossa vila (e aqui peço vênia para usar o possessivo nossa, uma vez que me considero um santafezense de coração se não de nascimento) tem pago pesado tributo de sangue e heroísmo no altar da
pátria. Muitos foram os oficiais e soldados que deu para as lutas de que esta Província tem sido
teatro, e pode-se dizer sem exagero que não houve geração que não tivesse visto pelo menos uma
guerra. Durante a luta civil que por espaço de dez anos ensangüentou o solo generoso do Continente,
muitos foram os santa-fezenses que participaram dela, quer nas hostes farroupilhas quer nas forças
legalistas. Não me cabe aqui, como magistrado e como homem infenso às paixões políticas,
manifestar simpatias ou lançar diatribes. O que passou passou e mais vale esquecido do que
lembrado, pois uma luta fratricida é mil vezes mais horrenda do que as guerras entre as nações.
Graças ao Supremo Arquiteto do Universo, o sol da paz raiou benfazejo no horizonte da Província, e
os inimigos de ontem se deram as mãos e recomeçaram a trabalhar juntos em prol da grandeza da
Pátria comum. Mas, ai!, ainda nem bem se haviam cicatrizado as feridas abertas pela guerra civil e já
de novo eram nossos irmãos arrancados ao aconchego dos seus lares e ao seu trabalho pacífico,
convocados mais uma vez pelo pressago clarim da guerra. Rosas, o tirano argentino, ameaçava a
integridade de nosso Brasil, e era necessário fazer frente a essa ameaça. E assim mais uma vez os
santa-fezenses formaram os seus batalhões de voluntários e nessa luta que nem por ser relativamente
curta foi menos cruenta, muitos foram os filhos desta vila que tiveram atuação destacada. Entre eles
é de justiça salientar o jovem Bolívar Terra Cambará, filho dum intrépido soldado, o Cap. Rodrigo
Severo Cambará, morto heroicamente num combate que se feriu nesta mesma vila em princípios de
1836. Bolívar, esse denodado jovem, cujo nome parece trazer em si uma destinação gloriosa, guiou
os seus cavalarianos numa carga de lança, destruindo um quadrado inimigo e arrancando, ele
próprio, das mãos dum adversário a bandeira argentina! Esse ato de bravura valeu-lhe a promoção ao
posto de primeiro-tenente, e uma citação especial em ordem do dia.
As anedotas do Almanaque foram muito apreciadas, bem como as poesias, algumas da lavra do
próprio dr. Nepomuceno, e outras de poetas famosos como Camões, Tomás Antônio Gonzaga e Gregório de
Matos. No “fecho de ouro” dum de seus sonetos, o juiz de direito concluía com rimas ricas que sob o veludo
da rosa às vezes um acúleo se esconde.
Pouco tempo depois do aparecimento do Almanaque, o sonetista teve ocasião de sentir na própria
carne a pungente verdade do verso. Sim — refletiu o magistrado — , seu anuário podia ser comparado a uma
linda e perfumada rosa que a todos deleitara com suas cores e seu perfume. Mas trazia ela um espinho
escondido e inesperado: o artigo intitulado “Residências de Santa Fé”, que ele próprio escrevera sob o
pseudônimo de Atala. Essa página, traçada com sinceridade e sem a menor intenção de ofender ou criticar
quem quer que fosse, desgostara e irritara o cel. Bento Amaral. Ocupava-se o infeliz ensaio do sobrado que
um tal Aguinaldo Silva mandara construir em Santa Fé. Depois de mencionar a simplicidade rústica da
maioria das casas do lugar e de elogiar a solidez e a sobriedade do casario de pedra dos Amarais, “tão cheio
de invocações históricas”, Atala escreveu:
O forasteiro que chega à nossa vila há de por certo quedar-se surpreso e boquiaberto diante duma
maravilha arquitetônica que rivaliza com as melhores construções que vimos no Rio Pardo, em Porto
Alegre e até na Corte. Referimo-nos à casa assobradada que o Sr. Aguinaldo Silva, adiantado criador
deste município, mandou recentemente erguer na Praça da Matriz, num terreno de esquina com as
dimensões de trinta e cinco braças de frente por uma quadra completa de fundo. Essa magnífica
residência deve constituir motivo de lídimo orgulho para os santa-fezenses. Dotada de dois andares e
duma pequena água-furtada, destacam-se em sua fachada branca os caixilhos azuis de suas janelas de
guilhotina, dispostas numa fileira de sete, no andar superior, sendo que a do centro, mais larga e mais
alta que as outras, está guarnecida duma sacada de ferro com lindo arabesco; por baixo desta sacada,
no andar térreo, fica a alta porta de madeira de lei, tendo de cada lado três janelas idênticas às de
cima. Ao lado esquerdo, do sobrado, no alinhamento da fachada, vemos imponente portão de ferro
forjado ladeado por duas colunas revestidas de vistoso azulejo português nas cores branca, azul e
amarela, e encimadas as ditas colunas por dois vasos de pedra de caprichoso lavor. O terreno, a que
esse portão dá acesso, está todo fechado por um muro alto e espesso que por assim dizer (perdoe-senos a ousadia da imagem) aperta a casa como uma tenaz. O efeito é assaz formoso, pois o ‘Sobrado’
(assim é a residência conhecida na vila) dá a impressão desses solares avoengos, relíquias de nossos
antepassados lusitanos. Não devemos esquecer outro encanto, qual seja o seu vasto quintal todo
cheio de árvores de sombra e frutíferas, como laranjeiras, pessegueiros, guabirobeiras, lindos pés de
primaveras, cinamomos, magnólias e uma esplêndida e altaneira marmeleira-da-índia.
Convidados gentilmente pelo Sr. Aguinaldo Silva para visitar-lhe a residência, pudemos verificar
que esta se acha dividida em 18 amplas peças, mui bem arejadas e iluminadas; com pé-direito bastante
alto; e que as portas que separam essas peças umas das outras terminam em arco, em bandeirolas com
vidros nas cores amarela, verde e vermelha. Os móveis são de autêntico jacarandá, muito pesados e
severos, tendo pertencido, como nos informou o dito Sr. Silva, a uma Casa Senhorial do Recife, e
sendo de lá trazidos para Porto Alegre num patacho e desta última localidade para cá em carretas.
O artigo terminava com um parágrafo que por assim dizer constituía a ponta do traiçoeiro espinho:
“Assim, pois, seria o sobrado do Sr. Aguinaldo Silva um solar digno de hospedar até Sua Majestade D. Pedro
II, caso o nosso querido Imperador nos desse a altíssima honra de visitar Santa Fé”.
Pois esse artigo, escrito com um entusiasmo inocente e desinteressado, deixara o cel. Bento Amaral
furioso.
— Essa é muito boa! — exclamou ele um dia na loja do Alvarenga. — O Imperador parando na casa
do Aguinaldo! É de primeiríssima! Uma idéia estúpida assim só podia ter saído da cabeça daquele pé-de-pato!
Ficou muito vermelho e começou a sentir uma comichão na cicatriz em forma de P que lhe marcava
uma das faces. O pe. Otero, que tinha ido comprar um emplastro na loja, ouviu a explosão, e como era amigo
do juiz de direito, com quem habitualmente jogava longas partidas de xadrez (apesar de sabê-lo pedreirolivre), arriscou:
— O doutor Nepomuceno não escreveu isso por mal, coronel...
— Não sei se foi por bem ou por mal — retrucou o outro, fitando o olhar encolerizado na face
amarela do vigário. — O que sei é que escreveu. Ele devia saber quem é esse Aguinaldo Silva.
Pigarreou com fúria e escarrou no chão.
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