O AMOR DE MÃE COMO PROVA
Paulo Sérgio Markowicz de Lima
O coração gritava que o policial era autor do tiro que matara o filho dela
e seu amor de mãe ultrapassaria a fronteira do imponderável para provar isso.
Quando a atendi, na promotoria, fiquei sensibilizado com sua palidez e
magreza de desnutrição, incompatíveis com sua juventude. Suas palavras
custavam a sair e seus olhos fundos e sem brilho espelhavam portais de um
mundo carregado de angústia e dor. Seu filho de cinco anos brincava no jardim
de casa quando sofreu um tiro na cabeça, foi levado ao hospital e morreu
depois de três dias em coma. Um vizinho da criança foi denunciado como autor
do tiro, um policial que rotineiramente agredia a esposa. Meses antes da morte
do menino, durante uma das brigas com a mulher, ele disparara vários tiros
para cima.
“Ele tirou o que era mais precioso da minha vida!” Era o único filho
daquela jovem solteira. “Tenho certeza que é ele, doutor!” Ela me repetiu várias
vezes, com firme convicção, como das outras vezes que foi ouvida sobre a
morte da criança.
Ninguém presenciou o tiro e o policial tinha um álibi, de estar numa
campana com dois colegas, exatamente quando derrubara num rio o revólver
de uso profissional. Assim, não havia como periciar se o projétil extraído do
crânio da criança fora lançado pela arma suspeita.
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No dia do júri, a mãe da vítima veio falar comigo assim que pus os pés
no plenário: “Doutor, sonhei com meu filho esta noite e ele me disse que o
revólver está no forro da casa do policial!” Muito impressionado, disse que
estudaria como utilizar aquela informação, embora um pedido de busca
fundamentado apenas num sonho me soasse uma pretensão desesperada e
sem argumento jurídico.
O julgamento transcorreu sem incidentes, a prova do álibi se repetiu em
plenário e chegou o momento dos debates. Comecei a apresentar as provas
sem adiantar a proposta da promotoria. Eu não olhava para o público, pois não
tinha coragem de encarar a mãe da vítima.
“Eu só tenho o senhor e Deus por mim, doutor! Sei que conseguirá a
condenação do assassino do meu filho!” O que ela me falara pouco antes do
júri atropelava meus pensamentos, causava arrepios. Estava prestes a trair a
confiança dela, pois a fragilidade da prova exigia que cumprisse meu dever
funcional e pedisse a absolvição. Aquela mãe nunca me perdoaria. Suplicava
no meu íntimo que Deus a consolasse. Nisso, ouvi uma gargalhada de criança
e me voltei para a entrada do plenário. Um menino, vestido com camisa branca
e calção azul marinho, sentou-se no último banco e acenou para mim.
Prossegui a sustentação, falei mais duas frases ao júri e, quando tornei a olhar,
a criança sumira! De súbito, sob forte emoção, contei aos jurados sobre o
sonho da mãe da vítima e propus sua inquirição, ao que o defensor protestava
aos gritos.
2
Quando o juiz perguntou sobre a pertinência do pedido da promotoria ao
júri, composto de cinco homens e duas mulheres, estas acenaram pela colheita
do depoimento. A mãe do menino contou o sonho com riqueza de detalhes
impactante e os jurados decidiram pela busca e apreensão da arma.
Momentos depois, para espanto de todos, os oficiais trouxeram o
revólver que fora encontrado no sótão da casa do acusado.
Quando o juiz decretava a dissolução do júri para ser feita a perícia na
arma, o defensor objetou e pediu novo interrogatório. Então o acusado,
visivelmente arrependido, confessou a autoria do tiro e pediu perdão à mãe do
menino.
Depois da sentença de condenação, a mãe da vítima me abraçou
demoradamente, enquanto explodia em prantos. Em seguida, uma das juradas
me disse: “Doutor, o amor de mãe fez Deus ter compaixão e permitir que o filho
dissesse onde estava o revólver!” Além de mim, ninguém viu criança no
plenário.
Tempos depois, aquela mãe me visitou com o marido e o filho, um lindo
e sorridente menino, que vestia uma camisa branca e um calção azul escuro.
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