O Cadastro Ambiental Rural
Das origens às perspectivas
para a política ambiental
© Frans Lanting/Frans Lanting Stock
Mauro Oliveira Pires
O Cadastro Ambiental Rural
Das origens às perspectivas
para a política ambiental
Mauro Oliveira Pires
Ficha Técnica:
Edição: Mauro Pires
Revisão: Patrícia Baião, Gabriela Savian e Jaime Gesisky
Design: Código Plus
Impressão: Gráfica e Editora Positiva
Tiragem: 500 cópias
Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Nina C. Mendonça - CRB 1228-6
Pires, Mauro Oliveira
P667 O cadastro ambiental rural : das origens às perspectivas para
a política ambiental / Mauro Oliveira Pires. – Brasília :
Conservação Internacional, 2013.
44 p.
Documento preparado para o projeto INOVACAR, da
Conservação Internacional do Brasil.
ISBN: 978-85-98830-25-4
1. Política ambiental – Brasil. 2. Proteção ambiental.
3. Cadastro ambiental rural. I. Título.
CDD : 574
Apresentação
O Inovacar – Iniciativa de Observação, Verificação e Aprendizagem do Cadastro Ambiental Rural
(CAR) e da Regularização Ambiental é um projeto implementado pela Conservação Internacional
(CI) com o apoio da Climate and Land Use Alliance (CLUA). Seu objetivo é trazer conhencimento
e estimular o debate para que a implantação do CAR – esse novo instrumento da política
ambiental brasileira – ocorra de forma efetiva e no menor espaço de tempo possível. Através da
iniciativa, esperamos contribuir para que o país implemente uma política florestal eficaz aliada à
produção sustentável.
Para que possamos compreender o contexto em que envolve o surgimento do Inovacar,
nos remetemos ao segundo semestre de 2012, quando o Brasil estava prestes a concluir um
intenso debate sobre as revisões propostas à legislação florestal federal. Na época, tramitava no
Congresso Nacional a Medida Provisória (MP) No 571/2012, posteriormente transformada na Lei
No 12.651/2012. A MP complementava a recém sancionada Lei No 12.651/2012, que dispunha
sobre a vegetação nativa nos imóveis rurais e que sepultaria de vez o Código Florestal de 1965.
Foi nesse contexto que surgiu o presente artigo, elaborado com o intuito de registrar aquele
momento histórico e tratar do Cadastro Ambiental Rural (CAR), identificado como um dos
principais instrumentos para tornar efetiva a nova política florestal no país. O CAR amplia o
controle e o monitoramento sobre o uso dos recursos florestais e, assim, favorece a recuperação
dos passivos ambientais dos imóveis rurais e o planejamento das paisagens rurais no Brasil.
Assim, apresentamos este documento esperando que ele contribua para disseminar e
aprofundar o conhecimento sobre a política florestal e sobre o CAR na perspectiva da
regularização ambiental do meio rural.
Boa leitura!
Patricia Baião
Diretora de Relações Institucionais, Conservação Internacional
Sumário
Introdução ..................................................................................................................................................................... 9
Origens do Cadastro Ambiental Rural............................................................................................................. 13
Primeiras iniciativas de mapeamento ambiental de imóveis
rurais em escala de paisagem ou municipal....................................................................................................... 17
Gestão florestal e a situação da regularização ambiental na Amazônia...................................... 21
O CAR na política de redução do desmatamento........................................................................................ 25
O CAR no “novo” Código Florestal...................................................................................................................... 29
As promessas do CAR para outras políticas................................................................................................. 33
Considerações Finais................................................................................................................................................ 37
Bibliografia................................................................................................................................................................... 39
Introdução1
O1 Cadastro Ambiental Rural (CAR) é o registro
eletrônico de informações georreferenciadas
do imóvel rural, com destaque para a situação
das Áreas de Proteção Permanentes (APPs),
da Reserva Legal (RLs) e das áreas de uso (cf.
Roper, 2012:1, MMA, 2011, Tofeti et al 2011).
Como se demonstrará neste trabalho, surgiu
como instrumento de monitoramento e
controle no contexto da política de redução
do desmatamento na Amazônia brasileira,
tema que é objeto da atenção nacional
e internacional.
vista como responsável por 20% de todas as
emissões (IPCC, 2007).
Em termos de perda de biodiversidade, o
desflorestamento também figura como a
principal causa, muito além da invasão de
espécies exóticas nos ecossistemas naturais.
É a primeira fonte de degradação dos
solos (Tolba apud Lambin et al. 2001: 262),
e com capacidade de alterar os serviços
ecossistêmicos (Vitousek, 1997 apud Lambin
et al 2001: 262). Sua extensão, causas e
consequências, além de serem assuntos de
O desmatamento da Amazônia constitui a vasta literatura acadêmica, estão no centro
principal fonte das emissões brasileiras de da política ambiental, ao menos no caso
gases de efeito estufa, ao lado da derrubada brasileiro nos últimos anos. O CAR é parte
do Cerrado (Brasil/MCT, 2010). Com dados que dessa política e, por isso, condicionado pelos
vão até o ano de 2005, o Segundo Inventário limites, desafios e status dela. Antes de tratar
Nacional de GEE aponta que o desmatamento diretamente desse assunto, todavia, convém
e outros fatores do setor de mudança do uso conceituar desmatamento e conhecer quais
da terra (i.e, abandono de terras manejadas, os modos de medi-lo no Brasil.
áreas para reservatórios e as mudanças do
Arild Angelsen, no seu trabalho de 1995
carbono no solo) representam 61% das
orientado a analisar a contribuição da
emissões nacionais (Brasil/MCT, 2010). O valor
agricultura itinerante para a expansão do
significa uma queda em relação ao Primeiro
desmatamento, chama a atenção para a
Inventário, que indicava a participação
necessidade de definir o que venha a ser
desse setor em torno de 75% das emissões.
denominado desmatamento. Ora esse é visto
Globalmente, a derrubada das florestas é
como a completa remoção da cobertura
florestal, ora como qualquer alteração na
1 Este texto foi originalmente preparado para a disciplina “Políticas
de Ordenamento Territorial e Mudanças no Uso da Terra” ministrada composição
ecológica dos ecossistemas
pelos professores Thomas Ludeviges e Ludivine Eloy, da Universidade
florestais. A definição proposta pelo World
de Brasília (UnB), em 2012. A esses dois, bem como a Monika Röper,
Nazaré Soares, Alexandre Tofeti e Rejane Cicerelli, o autor agradece seus
Resources Institute (WRI, 1992, apud
comentários e sugestões, eximindo-os de qualquer responsabilidade.
9
Angelsen, 1995) incorre nessa dubiedade.
Para os propósitos do presente trabalho, fazse a separação entre o que é o corte raso e a
degradação florestal, como também entre
conversões permanentes e temporárias, neste
último caso em florestas secundárias.
e o Banco Mundial – faz uma classificação
dos usos das áreas desflorestadas (INPE &
Embrapa, 2010).
Os demais biomas ainda não contam com
um monitoramento sistemático, permanente
e anualizado. Os dados mais próximos são
aqueles levantados pelo projeto Probio, do
MMA, que contratou várias organizações para
mapear a situação da cobertura vegetal, tendo
como ano-base 2002. Para dar continuidade a
esse mapeamento, o Ibama e o MMA passaram
a desenvolver um novo projeto a partir de
2008, cujos resultados já publicados referemse aos períodos de 2002-2008 (sem divisão
anual), 2009 e 2010. A continuidade de tal
projeto, contudo, é incerta.
No Brasil, o órgão responsável por medir a
taxa do desmatamento anual na Amazônia
Legal é o Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (INPE), que desenvolve o sistema
Prodes. Este sistema mantém uma série
histórica anual desde 1988, além de outros
dados que remontam a levantamentos feitos
ainda nos anos 1970. Nele, são computados
os cortes rasos – isto é, a completa remoção
– da floresta acima de 6,25 hectares (ha),
por meio de análise de imagens de satélites,
No sentido estrito, desmatamento é o corte
especialmente o LandSat (INPE, 2008a).
raso da vegetação arbórea, tal como medido
Para medir apenas a degradação florestal, o pelo Prodes do Inpe na Amazônia. No sentido
órgão criou o sistema Degrad. Por sua vez, amplo, é um processo contínuo, que pode
o sistema Deter produz mapas de alertas de começar pela “garimpagem florestal”, em
desmatamento, diariamente disponibilizados que as árvores de maior valor econômico
para apoiar as ações de fiscalização do são primeiramente exploradas, por meio de
Ibama. No Deter, são captados tanto o corte uma prática extrativa impactante (em geral,
raso acima de 25 ha quanto os indícios de com o uso de potentes tratores para abertura
degradação florestal. Em razão do seu objetivo de clarões e arrastes das toras), causando
e dos sensores usados, não tem a mesma derrubadas de várias árvores adjacentes com
acurácia do Prodes (INPE, 2008b).
baixo ou nenhum valor comercial.
Para medir os efeitos da exploração madeireira
por meio de planos de manejo florestal, há o
sistema Detex, executado em parceria com
o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Assim, a
taxa anual do desmatamento amazônico, cujo
anúncio oficial é bastante esperado, considera
apenas o corte raso novo. Isso significa que
uma área desmatada, e que posteriormente
tenha sido naturalmente regenerada, não
é duplamente computada pelo Prodes.
O sistema TerraClass – que vem sendo
desenvolvido pelo INPE e a Embrapa com o
apoio do Ministério do Meio Ambiente (MMA)
10
Da garimpagem, chega-se facilmente à
degradação florestal, seguida de queimadas
do material remanescente e o completo
corte raso. Parte da área desmatada pode vir
a se regenerar, posteriormente, enquanto
a outras é dado um fim econômico ou o
simples abandono2. Distinguir os diferentes
tipos de conversão ou etapas do processo de
desmatamento é importante porque, como
assinala Angelsen, “os efeitos ambientais e os
2 Dados do sistema TerraClass (INPE e Embrapa, 2010) apontam que
a regeneração florestal ocupa cerca de 20% das áreas desmatadas na
Amazônia, algo como 140mil km², e confirma que a maior parte das
áreas abertas são destinadas à pecuária, especialmente a de corte.
custos sociais podem ser muito diferentes” apresentando a situação das propriedades
ou posses rurais e sua relação com cortes na
(1995, tradução livre)3.
floresta. Permite, de modo mais agregado
A detecção das etapas e tipos de
e confiável, a possibilidade de combinação
desmatamentos também é uma medida
entre diversas escalas de análises chegando
necessária para melhor conhecer a dinâmica
até ao plano das propriedades e posses
da expansão ou consolidação da fronteira
rurais. Oferece a oportunidade de verificar a
agropecuária que marca os países detentores
direção, intensidade e velocidade da expansão
de florestas tropicais4. Nesse sentido,
numa determinada região, município, bacia,
contribui para evitar generalizações sem
paisagem etc.
fundamento empírico e que muitas vezes
acabam por condicionar a tomada decisão As possibilidades prometidas por esse
dos agentes sociais e público (Lambin instrumento e o contexto das políticas
de redução do desmatamento levaram à
et. al. 2001:262).
sua inserção dentro da “nova”5 lei florestal
No caso amazônico, as generalizações podem
(Lei No. 12.651, 2012), recentemente
dificultar a compreensão tanto de políticas
sancionada, seguida de complementação dada
quanto de trajetórias individuais associadas à
pela Medida Provisória Nº 571/2012, ora em
ocupação da terra em localidades específicas.
tramitação no Congresso Nacional.
Brondizio e Moran (2012) propõem que, para
melhor conhecer os padrões e variações da Alguns atores sociais chegam a atribuir ao
realidade do desmatamento na Amazônia, CAR a capacidade de “conciliar produção
é preciso combinar vários níveis de análises, [agropecuária] e conservação [ambiental]”
desde os mais gerais, como região e (TNC, 2012a), ou como “fruto das experiências
para a construção de um novo modelo
município, até a escala das propriedades.
de produção e de desenvolvimento
É nessa escala, a de propriedades ou
socioeconômico”(TNC, 2012b).
posses, que o CAR pode vir a contribuir
para a compreensão tanto da expansão da Tal como informado acima, as inovações desse
fronteira quanto daquilo que na literatura se mecanismo consistem em aliar as ferramentas
denomina Land use and cover change (LUCC), geotecnológicas (georreferenciamento de
oferecendo um meio eletrônico de atender imóveis rurais, uso de imagens orbitais para
ao que sugerem os autores acima referidos. o monitoramento, criação de banco de dados
Ele permite o cruzamento de informações eletrônico etc.) às finalidades da aplicação da
do desmatamento com o mapa fundiário, lei ambiental, mais precisamente o Código
Florestal, apresentando uma fotografia digital
do imóvel rural.
3 A esse respeito, vale lembrar a polêmica que ocorreu em março de
2008 envolvendo, de um lado, o INPE e, de outro, a Secretaria Estadual
de Meio Ambiente do Mato Grosso, durante o Governo Blairo Maggi.
Essa aconteceu exatamente em torno do conceito de área desmatada.
As dimensões políticas desse episódio ainda não foram estudadas e
merecem um tratamento à parte.
4 A coincidência entre países detentores de florestas tropicais e, portanto à mercê do desmatamento, e o subdesenvolvimento é assunto
que vem sendo tratado pela literatura especialmente econômica. Contudo, a essa é fundamental considerar o contexto histórico de colonização desses países e o seu papel na distribuição internacional do comércio, que sujeita países periféricos a atividades econômicas de menor
valor agregado e baixa remuneração da mão-de-obra.
5 A atribuição de aspas à palavra “nova” resulta do fato de que a Lei
12.561, de 2012, ao converter em texto legal a matéria debatida no
Congresso Nacional, revoga por completo o até então oficialmente denominado “Novo Código Florestal” (Lei Nº 4.771, de 1965), que veio substi tuir o “velho” Código promulgado em 1934. Além disso, a nova Lei ora
vigente não mais constitui um “código”, pois tão somente “dispõe sobre
a proteção da vegetação nativa”, conforme consta em sua ementa (ver
BRASIL, 2012, Veiga, 2012). O “rebaixamento” para lei ordinária não deixa de ser revelador quanto ao caráter de seu novo conteúdo.
11
Mas promete ser útil também para outras
finalidades, como no caso das políticas de
ordenamento territorial e de planejamento
de bacias hidrográficas, das análises
multiescalares e dos futuros mecanismos
de pagamento por serviços ambientais
e de incentivo à redução das emissões
provenientes de desmatamento e degradação
florestal (REDD).
Contudo, se é um instrumento, não
depende do contexto em que é formulado
e implantado e, portanto, sujeito à perda
de importância política e à consequente
baixa implementação?
O presente artigo procura oferecer uma análise
sobre esse instrumento e suas promessas.
Embora reconheça as potencialidades do CAR,
argumenta que esse não tem o condão de per
si transformar a realidade rural. Sem o firme
propósito para sua implantação, ancorada
na explícita orientação política de reduzir
os passivos ambientais, o que pressupõe a
adoção de outras medidas e instrumentos
de regularização ambiental, o CAR pode se
constituir apenas num meio para a legalização
de desmatamentos outrora ilegais, conforme
apontou Azevedo (2009) no exame dos
resultados do Sistema de Licenciamento
Ambiental em Propriedades Rurais (SLAPR) no
estado do Mato Grosso.
Nesse sentido, argumenta que não pode
ser visto como um instrumento isolado,
importando muito mais o conjunto do
processo de regularização ambiental das
propriedades e da permanência da política
de redução do desmatamento. Considera
que o CAR, estando associado a uma lei
florestal ora em debate no Congresso,
pode se tornar inócuo, caso essa gere
sensação de impunidade ou de baixíssima
responsabilização pelas infrações ambientais.
12
Por isso, o artigo aborda as origens do
instrumento, apresenta as primeiras iniciativas
de cadastramento ambiental de propriedades
em escala municipal, a situação do CAR nos
estados amazônicos, o reforço recebido pela
recente política de combate ao desmatamento
na Amazônia, bem como o papel atribuído a
ele pela nova lei que dispõe sobre a vegetação
nativa, as possibilidades para outras políticas e,
por fim, as considerações finais.
Origens do Cadastro Ambiental Rural
Nesta seção, é apresentado o histórico que
leva à criação do CAR. Sob vários aspectos,
esse mecanismo é o aprimoramento do
antigo Sistema de Licenciamento das
Propriedades Rurais (SLAPR) desenvolvido
pelo Estado do Mato Grosso, por meio da
extinta Fundação Estadual de Meio Ambiente
(FEMA)6, que começou a ser elaborado
nos dois últimos anos da década de 1990,
entrando legalmente em operação a partir
de 2000, após a edição da Lei Complementar
Estadual nº 38/1995, que estabelece o
Código Ambiental do Mato Grosso (ISA & ICV,
2006:15-17; MMA 2011; TNC; 2011; Weigand,
2012; Ropper, 2012).
O SLAPR decorre do apoio do Programa
Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais
do Brasil (PPG7), que, por intermédio do
Subprograma de Políticas de Recursos
Naturais (SPRN), destinou recursos de
doação internacional para que os Estados
da Amazônia desenvolvessem sua área
ambiental, em particular a florestal7.
6 A FEMA foi extinta em 2005 em razão da famosa Operação “Curupira” realizada conjuntamente pela Polícia Federal, o Ministério Público
Federal e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais
Renováveis (IBAMA), que desmontou quadrilha atuante no setor florestal, especialmente no Mato Grosso, e prendeu servidores e dirigentes da FEMA, além de funcionários do Ibama estadual, madeireiros e
despachantes. A Operação fez parte da primeira fase do Plano de Ação
para a Prevenção e o Controle do Desmatamento da Amazônia Legal
(PPCDAm). As atribuições da FEMA, entre elas a gestão do SLAPR, passaram para a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA), criada por
essa ocasião.
7 Pressionados pelos elevados índices de desmatamento, o setor ambiental dos governos federal e estaduais procurou identificar meios
Como mecanismo de controle, o SLAPR
consiste em articular de forma integrada
três esferas de ação distintas: a fiscalização,
o monitoramento e o licenciamento
ambiental dos imóveis rurais (ISA & ICV,
2006). A legislação que o criou estabelece
que o licenciamento ambiental constitui
instrumento do controle do desmatamento.
Assim, para a realização de qualquer
atividade potencialmente poluidora no
imóvel rural é necessária a denominada
Licença Ambiental Única (LAU), obtida
mediante prévio registro georreferenciado
do imóvel, voluntário ou por notificação do
órgão ambiental mato-grossense.
Após
a
entrega
da
documentação
pelos interessados (com a localização
georreferenciada do perímetro e das APPs e
RL, e com as respectivas cartas imagens8), as
informações dos imóveis são cadastradas no
sistema, denominado Sistema Integrado de
Monitoramento e Licenciamento Ambiental
(SIMLAM). O órgão ambiental, de posse
dessas informações das propriedades, as
cruza com imagens de satélites contendo
localização dos desmatamentos, nas suas
de superar ou controlar o problema. O SLAPR surgiu nesse contexto. De
modo mais amplo, o próprio PPG7 ocorreu como uma forma de a cooperação internacional apoiar o Brasil no combate ao desmatamento.
8 A aquisição de cartas imagens pelos proprietários inverte o ônus da
fiscalização e favorece a criação do banco de dados com os cadastros
dos imóveis, pelo órgão ambiental (Cortines e Valarelli, 2008, apud Viergever e Ortega, 2009).
13
rotinas de monitoramento. Caso não haja
irregularidade e com a assinatura de um
termo de compromisso pelo interessado
em cumprir a legislação ambiental (Código
Florestal, mais particularmente), o órgão
emite a licença ambiental.
A antiga FEMA realizou várias campanhas
para adesão ao SLAPR, o que em certo sentido
produziu efeito uma vez que houve até
2004 (Lima, 2005) mais de 6.116 mil imóveis
cadastrados, representando cerca de 15
milhões de hectares9. Por meio do PPG7, o
MMA apoiou sua replicação para boa parte dos
estados amazônicos. Alguns desses chegaram
a contratar a mesma empresa responsável
pela implantação do sistema mato-grossense,
como foi o caso do Pará e Rondônia.
As inovações trazidas pelo SLAPR – a
associação sistemática entre o ferramental
de monitoramento ambiental, com imagens
de satélites, o georreferenciamento digital
do perímetro e da situação das APPs e
RLs dentro das propriedades, a criação de
banco de dados eletrônico, a fiscalização e
o licenciamento –, pareceram promissoras
num cenário de baixa governabilidade
frente à crescente ascensão do corte das
florestas. A experiência do sistema chegou a
ser apresentada, como relembram Azevedo
(2009) e Rajão, Azevedo e Stabile (2012),
como uma das histórias de sucesso do PPG7
(MMA, 2002;). Fearnside (2002), ao analisar
os primeiros anos de resultado do sistema,
chegou a concluir que essa iniciativa “oferece
indicações fortes de ter um efeito na redução
9 Dados coletados por Ortega (2011) indicam que até 2009, a SEMA
havia licenciado cerca de 7.800 imóveis, representando 20,1 milhões de
hectares de área, e 27% de toda a área passível de licenciamento. Esses
valores são próximos dos que foram levantados em documentação do
MMA (MMA, 2009:6). Azevedo, de outro lado, diz que entre 1999 e 2007,
30,7% de todas as terras situadas fora das áreas protegidas (TIs, UCs)
foram inseridas no sistema.
14
das taxas de desmatamento” no Mato Grosso
(Fearnside, 2002:39)10.
Contudo, após a chegada do governo de
Blairo Maggi, houve decisão de evidenciar os
problemas do SLAPR (Azevedo, 2009; Lima,
2005), e o mesmo deixou de contar com amplo
apoio político. Um estudo encomendado pelo
MMA/PPG7 ao Instituto Socioambiental – ISA
e ao Instituto Centro de Vida – ICV, publicado
em 2006, apontou vários problemas do
sistema até então. Entre esses, destacavamse: a) precária fiscalização nas propriedades
pelo órgão ambiental, favorecendo a sensação
de impunidade; inexistente integração de
informações com o Ibama, Ministério Público
e outros; tímida aplicação de sanções às
infrações ambientais; elevada dependência
à empresa responsável pela implantação
do sistema eletrônico; custo demasiado aos
produtores para obtenção das imagens de
satélite e contratação de técnico especializado
(ISA & ICV, 2006).
Associado a esses, embora tenha havido a
inserção de grandes e médias propriedades no
sistema, o Mato Grosso continuava liderando
a lista dos estados que mais desmatava11 a
Amazônia, especialmente nos primeiros anos
do mandato Maggi12, e com contínua derrubada
de florestas mesmo dentro das propriedades
cadastradas (Lima, 2005; Azevedo 2009; Rajão,
Azevedo e Stabile, 2012).
10 Outros estudiosos e agências governamentais e ou multilaterais
também apontaram a importância e a inovação do SLAPR no contexto da gestão das florestas tropicais no planeta (p.e. Chomitz e WertzKanounnikoff, 2005 apud Rajão e Azevedo, 2012).
11 O Estado do Mato Grosso chegou a apresentar, sozinho, taxas acima
dos 11 mil km² ao ano.
12 A relação do governador com a expansão do desmatamento no
Estado foi tão incisiva que acabou por conferir-lhe o prêmio “Motosserra de Ouro”, dado pelo Greenpeace em 2005. A partir daí, parece ter
havido uma mudança tática na condução da sua política ambiental, o
que culminou, anos mais tarde, na edição do Programa MT Legal (Lei
Complementar Nº 343, de 2008), cujo objetivo era aprimorar o SLAPR,
promover a adesão ao Programa pelos proprietários rurais, por meio
da não autuação ou suspensão de multas ou não punição às infrações
anteriores a 2005, expansão do CAR e do licenciamento ambiental rural,
conforme adiante se comenta.
A contradição era clara, pois a finalidade
precípua do sistema estava em reduzir o
desmatamento. Uma possibilidade era a de
que o potencial do sistema não estivesse
sendo implementado. Azevedo (2009)
aprofunda o estudo dessa contradição e
chega a mencionar que, além de ser incapaz
de reduzir o desmatamento, o SLAPR acabou
por permitir a expansão da fronteira agrícola.
Em trabalho posterior (2012), essa autora,
juntamente com Rajão e Stabile, demonstra
que, em 2003, 40% do desmatamento dentro
das propriedades cadastradas foram ilegais,
levando-os a concluir que o sistema acabou
legalizando cortes ilegais da floresta (Rajão,
Azevedo e Stabile, 2012:21).
Aqui, concorda-se com os argumentos
de Azevedo à medida que, a despeito
das inovações tecnológicas e integradas
trazidas pelo sistema, sua implantação
não foi acompanhada de reforço aos
seus pilares conceituais, especialmente
quanto à fiscalização e monitoramento. Sem
investimentos massivos em fiscalização e
integração com os demais órgãos de comando
em controle dificilmente teria a condição
de, per si, reduzir o desmatamento, quando
muito apenas legalizá-lo, mediante assinatura
floresta tropical do planeta, e, de outro, pelos
interesses em favor da contínua expansão da
fronteira agropecuária na Amazônia.
Historicamente, as pressões em favor das
florestas não tiveram peso mais proeminente
do que as da expansão da fronteira
agropecuária. E o Mato Grosso, à época,
constituía – e ainda constitui – a região em
que a expressão política e econômica do setor
agropecuário parecia – e parece – mais nítida.
Embora tenha sido uma inovação, os setores
agropecuários no Mato Grosso encontraram
brechas que lhes permitiram inserir suas
propriedades no sistema de controle
sem que isso impedisse a expansão das
áreas desflorestadas, dada à precariedade
dos órgãos ambientais em cumprir suas
atribuições legais, notadamente num estado
dominado por forças econômicas assentadas
na supressão florestal.
Não se pode esquecer que o SLAPR surge de
um pacto político entre o governo estadual e
os setores da soja, cana de açúcar e algodão
(Viergever e Ortega, 2010:14). Em todo o
caso, o enfoque conceitual de ação integrada,
ressaltada em toda a documentação
disponível sobre o Sistema, demonstra tratarse de instrumento com elevado potencial, a
posterior de um termo de compromisso.
ponto de ter sido replicado noutros estados,
Indaga-se se o problema aqui, em vez de
conforme se verá mais adiante. Antes, porém,
ser propriamente o sistema e seu conceito,
é necessário tratar de outras iniciativas de
não eram as condições e os objetivos não
mapeamento georreferenciado e eletrônico
manifestos durante sua execução, orientados
de propriedades para fins ambientais, assunto
a não prejudicar a expansão dos negócios
da próxima seção.
no campo. É importante registrar que tanto
o contexto que explica a emergência do
SLAPR quanto os seus resultados frente ao
desmatamento nos anos posteriores estavam
condicionados, de um lado, pelas pressões
em favor da redução do corte da maior
15
Primeiras iniciativas de mapeamento ambiental de imóveis
rurais em escala de paisagem ou municipal
Aqui
são
apresentadas
as
primeiras
iniciativas de mapeamento ambiental e
georreferenciamento
de
propriedades,
em escala municipal ou de paisagem,
que ocorreram na Amazônia e noutras
regiões.
Essas
governamentais
não
de
constituem
integração
sistemas
entre
foi possível planejar, na escala de paisagens,
a recuperação das APPs e a necessária
localização das reservas legais a fim de
permitir a formação de maciços de vegetação
de forma convergente com a presença da
unidade de conservação. A iniciativa mobilizou
o Ibama a replicá-la para o entorno de outras
monitoramento, fiscalização e licenciamento
Unidades de Conservação no Estado13.
(funções típicas do aparelho de Estado), tal
O projeto de mapeamento ambiental
rural mais conhecido, contudo, é o que foi
realizado dentro da campanha “Lucas do Rio
Verde Legal”, iniciada ainda em 2006, nesse
município mato-grossense. Fruto de uma
parceria entre a prefeitura, a TNC, a Federação
da Agricultura do Mato Grosso (FAMATO), a
Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja),
as empresas Sadia, Syngenta e Fiagril e vários
outros, num primeiro momento, realizou o
diagnóstico ambiental das propriedades e os
respectivos passivos ambientais, trabalhistas e
uso excessivo de agrotóxicos.
como o SLAPR, ainda que nalguns estados
se valeram desses sistemas ou adaptações
para o início do processo de regularização
ambiental dos imóveis.
Entre essas experiências, está o “Pró-Legal”,
que começou a ser implantado a partir de
2004 conjuntamente pela superintendência
do Ibama de Goiás, o Ministério Público
Federal (MPF), a The Nature Conservancy
(TNC) e algumas organizações locais, como
a Oréades. Envolveu 97 propriedades no
entorno do Parque Nacional das Emas,
Mineiros, Na segunda fase, iniciada em 2008,
sudoeste do estado e próximo da fronteira passou a identificar mecanismos para
apoiar a regularização ambiental. Como
com o Mato Grosso (e seu SLAPR).
é um município com relevo praticamente
As propriedades, muitas delas com enormes plano, não foi tão difícil medir as feições
passivos ambientais, foram georreferenciadas ambientais, sobretudo, das médias e grandes
e, após assinatura de Termo de Ajuste de propriedades, obtendo-se assim um banco
Conduta (TAC), passaram a se adequar quanto
localizado
no
município
de
às APPs e às RLs (TNC, 2010, Weigand, 2012).
Com o mapa digital de todas as propriedades,
13 A expansão dessa iniciativa acabou não se realizando porque, entre
outros motivos, a gestão das UCs deixou de ser atribuição do Ibama
sendo repassada para o ICMBio, criado em 2007.
17
de dados da situação ambiental. Essas
informações deveriam ter migrado para o
SLAPR estadual, algo que entretanto ficou
pendente até 2008, em razão de parâmetros
técnicos distintos.
A TNC também desenvolveu o projeto
similar, na escala denominada “varredura”14,
na bacia do rio São Lourenço, também no
Mato Grosso, iniciado a partir de 2005. Nessa
iniciativa, houve também a participação do
setor empresarial, liderado pela FAMATO,
do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural
(SENAR) e outras organizações vinculadas ao
setor agropecuário. Igualmente, o trabalho
foi o de iniciar o diagnóstico ambiental das
propriedades, e a inserção das informações
das
propriedades
dos
fornecedores
da
empresa multinacional, facilitando o posterior
monitoramento das áreas. Mais de 128 mil
hectares foram cadastrados. Criou-se um
banco de dados que migrou posteriormente
para o órgão ambiental do Estado.
Como se observa, a TNC teve um papel de
destaque na difusão e no desenvolvimento
de tecnologias de mapeamento ambiental
das propriedades e na aceitação do CAR
como um instrumento importante para o
controle florestal. Em parte, isso se deve à
sua posição no campo ambiental brasileiro,
caracterizada
pela
proximidade
com
os
setores governamental e do agronegócio,
o que lhe confere acesso diferenciado aos
num banco de dados.
médios e grandes produtores rurais, que,
Outra iniciativa desenvolveu-se no município
de Santarém e circunvizinhança, no oeste do
Pará, a partir de 2005. O avanço da soja no
planalto santareno, motivado especialmente
pela instalação do porto graneleiro da Cargil
nesse município, passou a ser objeto de
campanhas contrárias realizadas notadamente
pelo Greenpeace15. A empresa teve que assinar
um Termo de Compromisso com o Ministério
Público comprometendo-se a não adquirir
soja proveniente de novas áreas ilegalmente
desmatadas e, no caso de áreas já desmatadas,
adquirir apenas daqueles produtores que
estavam em processo de regularização
ambiental.
em geral, têm resistência ao trabalho com
organizações ambientalistas. Outro motivo,
mais operacional, decorre do fato de que
ao longo da última década, a organização
recrutou antigos especialistas que trabalharam
para o SPRN/PPG7 no MMA, e, portanto,
familiarizados com o SLAPR e o paradigma de
vinculação entre geotecnologias e políticas de
combate ao desmatamento.
Conforme acima mencionado, essas iniciativas
não se referem à constituição de sistemas de
licenciamento ambiental, porém, contribuíram
para a divulgação do CAR e sua viabilidade em
escala. Além disso, aproximaram segmentos
representativos
do
setor
agropecuário
A TNC, com o apoio do sindicato dos produtores (tanto os produtores quanto as empresas
rurais,
realizou
o
georreferenciamento compradoras – traders) dessa ferramenta,
demonstrando sua viabilidade e redução
14
A “varredura” difere do modelo previsto no SLAPR (escala
individual) porque o georreferenciamento dos imóveis é feito de forma
contínua, um após outro, a fim de diminuir os custos e evitar sobreposições de áreas. O modo individual acaba sendo mais oneroso.
15 Além do Greenpeace, outras organizações não governamentais
chegaram a fazer um estudo apontando a relação direta entre soja e
desmatamento na Amazônia.
18
incremental dos custos.
Mais recentemente, outras regiões do País
também contaram com iniciativas similares
de regularização ambiental a partir do
cadastramento das propriedades. É o caso,
por exemplo, a que vem ocorrendo no Vale
do Itajaí – SC em que as prefeituras locais,
por meio da Associação dos Municípios
do Vale do Itajaí (AMAVI), com apoio de
organizações locais e do MMA, realizam
o mapeamento de todos os imóveis, em
geral da agricultura familiar, fazem o
levantamento da situação das APPs e RL e
promovem a regularização dos passivos.
No oeste da Bahia, com o apoio da TNC,
os produtores rurais também estão
registrando as informações ambientais
georreferenciadas de suas propriedades
num banco de dados, que depois segue
para o sistema estadual, denominado CEFIR
(CAR baiano). Mas é na Amazônia que essas
iniciativas encontraram correspondências
em sistemas públicos de regularização
ambiental, conforme se verá a seguir.
19
Gestão florestal e a situação da regularização ambiental
na Amazônia
Na Amazônia, como também em boa parte
do território nacional, a gestão florestal
constitui um desafio de grandes dimensões,
cuja raiz relaciona-se diretamente com o
modelo de ocupação e exploração dos
recursos naturais.
considerada patrimônio nacional e alguns
entes federados alegavam dificuldades
nessa tarefa. Esse papel, contudo, foi razão
de controvérsia, uma vez que a Constituição
de 1988 definia a gestão de florestas como
matéria comum entre os entes da federação.
Nessa região, houve incentivos governamentais Em 2006, no marco das negociações em
voltados
para
sua
incorporação “ao
desenvolvimento nacional” baseado na
implantação de projetos agropecuários e no
desmatamento, mediante incentivos fiscais e
creditícios e estímulos às crescentes ondas
migratórias vindas do Centro-Sul. Em alguns
lugares, a ocupação foi dirigida. Noutros,
essa ocorreu de forma quase espontânea
(cf. Campos, 2006). O resultado num e noutro
foi o vertiginoso índice de perda de floresta.
torno da Lei de Gestão de Florestas Públicas,
definitivamente a gestão florestal figurou
primeiro como atribuição dos estados,
restando ao Ibama outras funções, como
a implantação do Documento de Origem
Florestal (DOF), que controla a transação de
produtos florestais entre os estados.
A Lei de Gestão de Florestas Públicas fez
parte de um ciclo de políticas coordenadas
pelo Plano de Ação para a Prevenção e o
Todavia, em razão do impacto e das críticas, Controle do Desmatamento da Amazônia
a partir dos anos 1980 aumentaram os Legal (PPCDAM), cujo objetivo foi o de reduzir
questionamentos a esse modelo. O Código drasticamente a taxa de corte raso da floresta.
Florestal de 1965 passou ser visto como um
O início dos anos 2000 veio acompanhado
instrumento de auxílio à conservação da
de aumento crescente nas taxas de
Amazônia, especialmente a partir de 1996,
desmatamento. E para fazer frente a esse
quando foi editada a Medida Provisória cuja
problema, o PPCDAM engendrou ações
negociação elevou a reserva legal para 80%
de diferentes eixos. Entre as principais
das propriedades situadas nas áreas de
iniciativas, destacaram-se: criação de novas
florestas na região.
áreas protegidas, especialmente localizadas
Criado em 1989, o Ibama passou a ser o na frente de expansão da fronteira agrícola;
principal executor da política florestal nos centenas de operações integradas de
estados Amazônicos, dado que a região era fiscalização ambiental, de combate ao trabalho
21
escravo e à grilagem de terras; aprimoramento
dos sistemas de monitoramento e controle.
A realização dessas ações no plano federal,
contudo, demonstrava cada vez mais a
necessidade de que os órgãos estaduais
de meio ambiente fossem fortalecidos em
seu papel como gestor das florestas em seu
território. Na verdade, mesmo antes disso, a
fragilidade dos órgãos estaduais já era assunto
de preocupação, como por exemplo, no
âmbito dos primeiros anos de negociação e
expansão da pecuária16 paraense, não foi
difícil ao MPF perceber a relação direta entre
esses fatores. O cerco aos frigoríficos levou
à assinatura de Termo de Ajustamento de
Conduta, com responsabilidades para os
frigoríficos, o governo estadual, os municípios
e os produtores e seus sindicatos. Entre as
obrigações, estava a necessidade de que
os frigoríficos apenas adquirissem gado de
propriedades e posses rurais inseridas no CAR
e em processo de regularização ambiental.
implantação do SPRN/PPG7 (i.e, 1992 – 1999). Para facilitar o atendimento a essa obrigação,
17
flexibilizando o
Daí que os resultados inovadores apresentados foram feitas alterações
instrumento, e criando a etapa denominada
pelo SLAPR, tal como mencionado na seção
“CAR-provisório” (sem limites de APPs e RLs),
1, motivaram sua reprodução pelos demais
com regras distintas para imóveis abaixo de
estados. No Pará e Mato Grosso, houve
quatro módulos fiscais (atestado digital).
a constituição do Sistema Integrado de
Sem dúvida, essa flexibilização facilitou o
Monitoramento e Licenciamento Ambiental
cadastramento de mais propriedades. O
(SIMLAM), mencionado acima, que é um
Estado adquiriu imagens de satélite cobrindo
“software” que operacionalizava o conceito
todo o seu território, e as disponibilizou pela
do SLAPR nas funções de monitoramento,
internet, via sistema/software de adesão.
licenciamento e fiscalização (TNC, 2010:9).
Assim, os custos para os produtores caíram
O Pará, que já contava com o seu SIMLAM, consideravelmente. Até março de 2012, 41%
editou o decreto estadual 2592, de 2006, da área cadastrável já se encontravam inscritos
definindo o CAR como um instrumento de no sistema paraense. Por outro lado, a figura
identificação do imóvel condicionado ao do CAR-provisório trouxe distorções no
licenciamento ambiental (Viergever e Ortega, sistema e ampliou as sobreposições entre os
2010). Posteriormente, esse decreto passou diferentes domínios fundiários.
por alterações, como também as instruções No Acre, vinculado ao Sistema Estadual de
normativas associadas, e o CAR continuou Informações Ambientais (SEIAM), cuja base
figurando como obrigatório e etapa prévia do foi uma adaptação do SLAPR mato-grossense,
processo de regularização ambiental.
o licenciamento ambiental das posses e
Em
2009,
o
Ministério
Público
Federal
desencadeou a operação “Carne Legal”, uma
forte ação contra os frigoríficos e sua cadeia
de fornecedores. Associando os índices de
desmatamento e a instalação das plantas
dos frigoríficos, como fator de estímulo à
22
16 Margulis (2003) apresenta um importante estudo sobre as causas do desmatamento na Amazônia. Para ele, a pecuária é sem dúvida
o principal vetor. Estradas, antes vistas como indutoras de novas derrubadas são, para ele, consequência da pecuária e, portanto, do desmatamento.
17 Como se verá adiante, essas vieram para facilitar a adesão dos
produtores frente às pressões do Ministério Público Federal junto aos
grandes frigoríficos instalados no Pará e em decorrência dos efeitos do
Decreto Federal Nº 6321, de 2007, que criou a lista de municípios prioritários, formada por aqueles que mais desmatam a região.
propriedades rurais faz uma distinção entre O próprio estado do Mato Grosso, em que
pequenos e grandes imóveis, tornando mais surgiu o SLAPR, passou por alterações no
rígidas as regras para o segundo grupo.
sistema de regularização ambiental dos
imóveis. A partir de 2008 em diante, foram
A adoção do CAR nesse estado é mais recente,
feitas várias alterações na legislação18 a fim de
mas diferencia-se dos demais estados porque
instituir e adequar o Programa Mato-grossense
constituía também instrumento para outras
de Legalização Ambiental Rural – conhecido
políticas estaduais, como a de estímulo à
como “MT Legal” – cujo objetivo é “promover a
produção rural e o programa de valorização
regularização das propriedades e posses rurais
do ativo florestal, uma espécie de bônus em
dinheiro e acesso prioritário a outras ações e sua inserção no Sistema de Cadastramento
governamentais (Viergever e Ortega, 2010:15). Ambiental Rural e ou Licenciamento
Muito recentemente é que o sistema esteve Ambiental de Propriedades Rurais – SLAPR”
aberto para registro pelos interessados. Antes (Governo do Estado do Mato Grosso, 2008).
disso, a inscrição ocorria por meio dos próprios Este programa oferece incentivos aos
servidores do órgão ambiental estadual (IMAC) produtores, como a não autuação aos que
no contexto do licenciamento ambiental.
aderirem, com prazos diferenciados por
Por sua vez, Rondônia contava com o sistema
de gestão de lotes (SIGLO), que digitalizou o
cadastro de 117 mil propriedades do estado,
a partir de plantas e memoriais descritivos
fornecidos pelo INCRA. Apenas em 2009 o
estado criou o CAR estadual, por meio de ato
da Secretaria Estadual de Desenvolvimento
Ambiental (SEDAM), associado ao processo
de licenciamento do SIMLAM. Até esse ano
(2009), apenas 5 mil licenças haviam sido
emitidas (Viergever e Ortega, 2010). Tal como
nos outros estados, aprimoramentos no
sistema permitiram o acesso público aos dados
registrados, o que favoreceu a transparência.
tamanho dos imóveis. Nele, duas fases são
distintas e sequenciais: a primeira é o próprio
CAR19, momento da adesão e declaração da
situação ambiental do imóvel, e a segunda é
a obtenção da Licença Ambiental Única (LAU).
Os custos foram reduzidos, pois, em vez de
cada produtor ter que adquirir as imagens
de satélite de sua propriedade, o Estado fez a
compra de imagens do satélite francês SPOT,
cobrindo todo o território mato-grossense e
disponibilizando-as no sistema. Além disso,
aperfeiçoamentos no sistema permitiram que
o registro ocorresse pela internet.
Por outro lado, ao contrário do caso
No estado do Tocantins, a adaptação do SLAPR paraense, a finalização da inscrição no CAR
levou à criação do Sistema Integrado de somente ocorre se o produtor apresentar
Controle Ambiental (SICAM), com o objetivo concomitantemente um plano de recuperação
de integrar procedimentos de autorizações,
licenciamentos e ou regularização dos imóveis.
Por meio desse sistema, são emitidos todos 18 Ver p.ex. a Lei Estadual Complementar Nº 327 de 22 de agosto de
2008, a Lei Complementar 343, de 24 de dezembro de 2008 e o Decreto
os atos administrativos referentes à legislação Estadual 1862, de 24 de março de 2009.
ambiental dos imóveis. Até 2009, cerca de 19 É importante ressaltar que no momento de adesão ao MT Legal o
interessado apenas assume compromisso de recuperação dos passivos
cinco mil imóveis foram licenciados (Viergever nas APP, por meio de PRADs, e não os das RLs, porque o governo estadual e as entidades do agronegócio apostavam nas futuras mudanças
e Ortega, 2010).
a esse respeito no debate do Código Florestal em nível federal.
23
de áreas degradadas (PRADs) de APPs20 , o que
de certa forma inibiu a adesão dos produtores.
Em todo o caso, até março de 2012, cerca de
48% da área cadastrável do estado já estavam
inseridos no SLAPR mato-grossense.
rurais. O mesmo ocorre com o Estado do
Maranhão, que ainda não executa o programa
de regularização ambiental baseado no CAR.
Conforme se tentou demonstrar até aqui, foi
na Amazônia, região em que se concentra
À luz do MT Legal, o estado de Roraima criou a atenção das políticas de redução do
o Programa Roraimense de Regularização desmatamento, que o CAR surgiu como parte
Ambiental, denominado “RR Sustentável”, do processo de controle e regularização
por meio da Lei Complementar No 149, de ambiental. Isso não ocorreu por acaso, como se
2009. Esse, em fase embrionária, define os pretende mostrar na próxima seção.
procedimentos e fase da regularização. O
CAR está previsto como etapa do processo
de regularização mas, na prática, ainda
não está operacional. Apenas 200 imóveis
estavam licenciados até 2009 (Viergever e
Ortega, 2010).
Em julho de 2011, com o apoio do MMA,
o estado do Amazonas sancionou a
Lei No 3.635, que criou o Programa de
Regularização Ambiental dos Imóveis
Rurais do Estado do Amazonas, e instituiu
a obrigatoriedade do CAR, do termo de
compromisso de regularização dos imóveis
e as regras do licenciamento de atividades
potencialmente poluidoras. Como fase
piloto para sua implantação, foi escolhida
a região sul do estado (Boca do Acre e
Lábrea), que concentra a maior parte do
desmatamento. Contudo, esse Programa
está no seu início de implementação, sem
resultados a demonstrar no momento.
O Estado do Amapá ainda não conta com um
sistema de CAR, embora já tenha demonstrado
algum interesse nesse sentido. Atualmente, a
gestão florestal é feita de forma convencional,
isto é, sem sistema informatizado ou uso de
geotecnologias para localização dos imóveis
20 O PRAD, de acordo com o MT Legal, refere-se apenas às APPs e não
às Reservas Legais. Para essas, o Programa cria novos incentivos, tais
como desoneração e compensação.
24
O CAR na política de redução do desmatamento
O CAR recebeu um estímulo com a edição O próprio MMA ensaiou negociação, logo em
do Decreto Federal No 6321, de 2007. seguida interrompida, sobre determinadas
Até o primeiro semestre daquele ano, o mudanças nessa matéria, chegando a elaborar
desmatamento na Amazônia apresentava, uma minuta contendo novos dispositivos
desde 2005, uma trajetória descendente. A no combate ao desmatamento e, por outro
partir de setembro e outubro de 2007, porém, lado, permitindo algumas flexibilizações
os alertas do Deter, do Inpe, bem como do na compensação dos passivos. Parte dos
Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD) do dispositivos da minuta ministerial acabou
o
Imazon, começaram a indicar fortes tendências recepcionada no Decreto N 6321, de 21 de
dezembro daquele ano, situação favorecida
de aumento na derrubada da floresta.
pelo aumento do desmatamento.
Naquele momento, parte da fiscalização do
Esse decreto estabeleceu algumas medidas,
Ibama estava saindo de uma greve provocada
sendo as mais importantes: a) edição
pelos servidores em razão da criação do
anual de lista de municípios prioritários,
Instituto Chico Mendes de Conservação da
formada por aqueles com elevados índices
Biodiversidade (ICMBIO). O engajamento da
de desmatamento; b) possibilidade de
Polícia Federal nas ações ambientais também
recadastramento dos imóveis perante o
enfrentava dificuldades. De outro lado, os
INCRA nos municípios prioritários; c) embargo
preços das principais commodities (carne,
obrigatório de áreas ilegalmente desmatadas,
grãos etc.) voltaram a subir no mercado, em vez de apenas multas e notificações;
aquecendo os produtores em regiões como d) divulgação das áreas embargadas na
Mato Grosso, Rondônia e Pará.
internet. Associada ao Decreto, houve
O PPCDAM já não contava com a mesma também a edição da Resolução do Banco
o
importância política dos primeiros anos. O Central N 3545, em fevereiro de 2008, que
condicionou o crédito rural a mutuários que
ritmo de criação de áreas protegidas começava
comprovassem regularidade ambiental e
a declinar em razão das oposição dentro do
fundiária ou que pelo menos estivessem em
próprio governo e da base de sustentação
processo de regularização.
política. E no Congresso Nacional voltaram
a ganhar proeminência as propostas de Sobretudo a instituição da lista de municípios
teve um impacto grande, pois nesses foram
alteração do Código Florestal.
25
desencadeadas intensas operações de
fiscalização, batizadas de “Arco de Fogo”
(da Polícia Federal, destinada a fiscalizar as
madeireiras) e de “Guardiões da Amazônia” (do
Ibama, destinada a atuar junto aos fornecedores
de madeiras e propriedades rurais).
Para que o município deixasse de figurar
nessa lista, era necessário cumprir alguns
critérios, entre eles, conforme disciplinou
posteriormente a Portaria MMA No 102, de
março de 2009, ter pelo menos 80% da área
cadastrável do município registrados no CAR21.
Outros municípios começaram a realizar
ações visando a reduzir o desmatamento e a
aumentar o número de imóveis registrados no
CAR. A mobilização local, reunindo produtores,
seus
sindicatos,
organizações
prefeitos,
não
vereadores
governamentais,
e
foi
importante para o alcance da meta de registro
de ao menos 80% da área passível de cadastro,
como foi o caso de Paragominas (PA) e
Querência (MT), nos anos seguintes.
Os resultados positivos de cadastramento
em escala municipal levaram o MMA, em
negociação com o Banco Mundial, a convidar a
No âmbito federal, essa portaria foi a que,
pela primeira vez, definiu o que seria CAR: TNC para a execução de um projeto usando os
“registro eletrônico dos imóveis rurais junto recursos remanescentes do PPG7. Esse projeto
ao órgão estadual de meio ambiente por foi negociado em 2009 e executado entre
meio de georreferenciamento de sua área
total, delimitando as áreas de preservação
permanentes e a reserva legal localizada
em seu interior, com vistas à regularização
ambiental e ao controle e monitoramento do
desmatamento” (MMA, 2009).
2010 e 2011, e promoveu o cadastramento
Inicialmente, o MMA apresentou uma lista
de 36 municípios (2008), acrescida para 4322
em 2009 e para 47 em 2011. A divulgação
dos municípios conhecidos como “os
maiores desmatadores da Amazônia” teve
repercussão. A realização de operações de
fiscalização, contudo, causou revolta em
algumas localidades, sendo a mais conhecida
a que ocorreu em Tailândia que, àquela
época não figurava entre os 36 municípios
prioritários, mas era um polo madeireiro.
desde 2010 o cadastramento em outros seis
ambiental rural, usando-se da metodologia
de “varredura” em cinco municípios: Marabá
e Santana do Araguaia, no Pará, e Juína,
Brasnorte e Feliz Natal, no Mato Grosso.
Com recursos da Noruega, o MMA realiza
municípios: Plácido de Castro, Acrelândia e
Senador Guiomard, no Acre; Marcelândia,
no Mato Grosso e Dom Eliseu e Ulianópolis,
no Pará. O municípios de São Felix do Xingu
- PA, recordista no corte da floresta, também
passou a ser alvo de ações de CAR, tanto
por via o MMA quanto da própria TNC. A
finalidade, em todos os casos, é ampliar o
número de imóveis rurais dentro dos sistemas
de controle ambiental.
Em dezembro de 2009, o governo federal
21 É importante mencionar que a Portaria MMA 102 refere-se ao explicitamente ao CAR, diferentemente do que previa o Decreto Nº 6321,
que, em seu lugar, determinava o recadastramento junto ao INCRA, que
não inclui o levantamento da situação das APPs e RLs dos imóveis. Esse
recadastramento fundiário não contou com ampla adesão dos proprietários e posseiros nos municípios prioritários.
22 Atualmente, a lista está com 46 municípios prioritários, uma vez
que saíram Paragominas – PA, Querência – MT, Alta Floresta – MT, e Santana do Araguaia – PA, e entraram mais 7 novos.
editou o Decreto No 7029 criando o programa
“Mais Ambiente”, destinado a promover a
regularização ambiental dos imóveis rurais.
Esse em muito se assemelha ao MT Legal,
na medida em que promove a suspensão de
multas daqueles que aderirem e cumprirem
as obrigações ambientais. O mesmo decreto
criou o CAR no âmbito do MMA e como
instrumento do programa de regularização
federal, mas lhe atribuiu uma definição sem
vinculá-la aos órgãos ambientais estaduais,
prioritários na gestão florestal.
o mérito de trazer a atenção do governo
Para imóveis da agricultura familiar, o decreto
estabelece a simplificação do termo de adesão
e compromisso ao Mais Ambiente, sendo que
o georreferenciamento das informações ficaria
a cargo “do órgão ambiental, de instituição
pública ou privada devidamente habilitada
e sem dispêndio por parte dos beneficiários
especiais” (art. 5o. parágrafo 1o.). Associados
ao programa, o decreto instituiu vários
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
subprogramas a fim de facilitar a adequação
ambiental dos imóveis. O contexto que explica
a edição desse decreto tem a ver com as
discussões em torno do Código Florestal em
debate no Congresso Nacional, assunto que
será abordado na próxima seção.
desses. O próprio Fundo Amazônia já estava
Embora tenha sido criado ainda em 2009, não
se pode dizer, no atual momento (junho de
2012), que o programa sequer esteja em fase
operacional. Primeiro, porque depende das
negociações associadas ao próprio Código
Florestal. Segundo, porque sua criação não
foi precedida de preparação, a começar
pela destinação de recursos23. Vale lembrar
que, inicialmente, sua publicação trouxe
dúvidas sobre o papel do governo federal
na matéria, tendo em vista que, conforme
acima comentado, a gestão florestal desde
2006 era vista como de competência estadual
(Pires, 2009). Por outro lado, o programa teve
Recentemente (maio de 2012), foi concluída a
23 O orçamento do Programa Mais Ambiente para 2012 é de apenas
R$ 3 milhões, e somam apenas R$12 milhões para o quadriênio 20122015 (PPA). Por isso, seus coordenadores privilegiaram primeiramente
a elaboração do “sistema de Cadastramento Ambiental Rural – SiCAR”,
no âmbito do Ibama e a negociação dos Termos de Cooperação entre
MMA, Ibama, os estados e associações de municípios e produtores.
federal para as dificuldades associadas à
regularização ambiental.
Com a finalidade de expandir os resultados
positivos de cadastramento ambiental na
Amazônia, o recém criado Fundo Amazônia,
administrado
pelo
Banco
Nacional
de
a pedido do MMA, lançou no segundo
semestre de 2011 um Programa de Apoio a
Projetos de CAR. Esse se destina, de um lado,
a apoiar os estados na formulação de seus
sistemas de cadastramento e de regularização
ambiental, e de outro, a apoiar outras
iniciativas e campanhas de cadastramento
seja em escala municipal ou de aglomerados
financiando campanhas de CAR por meio de
projetos da TNC, do Instituto Ouro Verde e do
Imazon (BNDES, 2012). Em todos esses casos,
a finalidade era expandir a base de dados
ambientais das propriedades e posses rurais.
negociação dos projetos do Brasil submetidos
ao Forest Investment Program (FIP), que é um
fundo que apoia governos na elaboração de
suas estratégias nacionais de Redução das
Emissões por Desmatamento e Degradação
Florestal (REDD +). No caso brasileiro, e
valendo-se da experiência na Amazônia, a
decisão foi a de submeter um projeto (US$ 35
milhões) para o CAR em 50 municípios críticos,
bem como no fortalecimento dos órgãos
estaduais de meio ambiente, no Cerrado,
seguindo as diretrizes do Plano de Ação para
a Prevenção e o Controle do Desmatamento e
Queimadas no Bioma Cerrado (PPCerrado).
Desde 2009, o Ministério do Meio Ambiente
vem realizando estudos técnicos e seminários
27
com a participação de especialistas dos
governos estaduais a fim de discutir os
problemas,
desafios
e
oportunidades
que o CAR oferece e enfrenta. Nesses,
alguns consensos foram acordados: a)
necessidade de criar uma uniformidade
e base normativa sobre o instrumento; b)
criar meios de integração entre os diversos
sistemas estaduais; e c) criar campanhas
de cadastramento a partir de municípios,
trazendo essa esfera administrativa para um
papel de destaque no processo.
Embora o CAR tenha recebido estímulos
nos últimos anos, sua aceitação perante o
segmento agropecuário não é uniforme
e generalizada, não só na Amazônia. Em
muitos dos municípios contemplados ou que
executaram campanhas de cadastramento
há relatos (coletados pelo autor) de
objeções e empecilhos apresentados pelos
representantes do setor agropecuário. Setores
da própria Federação da Agricultura e Pecuária
do Mato Grosso (FAMATO), por exemplo,
publicamente manifestaram seu desaconselho
aos produtores. Lideranças apostavam que
as negociações em torno do Código Florestal
trariam mais benefícios ao setor, e aqueles que
aderissem seriam penalizados.
28
O CAR no “novo” Código Florestal
Em função dos objetivos do presente
trabalho, não cabe aqui uma análise sobre
os debates, desdobramentos e nuances em
torno da negociação do texto que resultou
na edição da Lei No 12.651, de maio de 2012,
que dispõe sobre a vegetação nativa. Essa lei,
como se sabe, substitui o Código Florestal,
de 1965, e revoga a MP 2166, de 2001, entre
outros dispositivos. Parte dela permanece,
no exato momento, em debate no próprio
Congresso Nacional, uma vez que lá tramita a
MP 571, de 2012, e, portanto, o seu conteúdo
final poderá sofrer alterações.
A despeito dessa limitação, é possível
apontar pelo menos três grandes blocos que
atuaram no debate. O primeiro é formado
pelos ambientalistas. De modo geral, esses
defendiam alguma mudança no Código
Florestal e na MP No 2166, uma vez que o
marco legal existente até então apresentava
baixa operacionalidade e continha lacunas,
como, por exemplo, quanto aos incentivos
econômicos para a conservação, os mecanismos
de compensação de reservas legais.
Outro bloco é representado pelos ruralistas,
que defendiam a diminuição do grau de
proteção à vegetação nativa nas propriedades,
além de defenderem, no mínimo, “parcimônia”
na homologação de Terras Indígenas, na
demarcação de Terras de quilombos e na
criação de Unidades de Conservação, políticas
que tiveram proeminência no primeiro
mandato do ex-presidente Lula.
O terceiro bloco é formado pelo setor
governamental que, vale dizer, conta com
representantes dos dois outros setores,
embora de forma desigual. Um dos principais
embates travados deveu-se ao passivo
ambiental das propriedades. E a “gota d’água”
para sua eclosão foi a edição do Decreto
no 6514, em junho de 2008. O decreto, que
regulamenta a Lei de Crimes Ambientais,
de 1998, estabelece multas pesadas para
quem não averbar a reserva legal. A partir
daí, a mobilização dos ruralistas eclodiu os
movimentos em favor da alteração imediata
do Código Florestal. Enquanto isso, o governo
viu-se obrigado a postergar, cada vez mais,
a aplicação do artigo 55 (que estabelece
multas a quem não averbar a reserva legal)
do 6514. Desse movimento, fez parte a edição
do decreto 7029/2009, que além de instituir o
Mais Ambiente, suspendeu multas e adiou a
aplicação de eventuais novas penalidades a
quem não averbou sua reserva legal.
O resultado desses embates, expresso na Lei
No 12651/2012, é um texto que flexibiliza as
exigências de recomposição florestal, com o
estabelecimento de marcos temporais, regras
distintas para agricultura familiar e tamanho
29
dos imóveis. Para os ambientalistas, essa
nova lei favorece a sensação de impunidade,
penaliza aqueles que cumpriram com a
legislação em vigor e fragiliza a proteção
de ecossistemas fundamentais como os
manguezais, apicuns e pantanais, além de
prejudicar a recuperação das APPs.
No que se refere ao CAR, a lei o define
relativamente igual ao que está disposto no
decreto que criou o programa Mais Ambiente
e na Portaria MMA 102, tal como acima
mencionado. Além disso, estabelece que se
trata de registro público e obrigatório a todos
os imóveis rurais. Prevê que a inscrição do
Para os ruralistas, as concessões alcançadas imóvel deve ser feita preferencialmente nos
até agora são insuficientes, criam insegurança órgãos municipais e estaduais.
jurídica e prejudicam a agricultura brasileira Após a implantação do CAR, os proprietários
por concorrência desleal no mercado poderão
aderir
aos
programas
de
internacional24. Para o bloco governamental, o regularização. Quem aderir não precisará
discursos das autoridades é de que garantiu- averbar sua reserva legal no cartório de
se um “equilíbrio”: “O novo Código Florestal
registro de imóveis, e ainda poderá computar
não é dos ambientalistas nem dos ruralistas
as APPs no cálculo da área de reserva legal.
[..] é de todos que têm bom senso e acreditam
De acordo com o artigo 78-A, após cinco
que o Brasil pode produzir, respeitando e
anos da publicação da Lei, as instituições
preservando o meio ambiente”25. No fundo,
bancárias somente poderão conceder crédito
os embates tiveram como base os passivos
rural a quem tiver inscrito no CAR e esteja em
ambientais, avançando-se pouco no que se
regularidade ambiental.
refere à manutenção dos ativos florestais.
Todavia, entre as inovações da nova lei,
está a previsão de que a União, Estados
e Distrito Federal implantem programas
de regularização ambiental (PRAs) (art.
59) e o próprio CAR (arts. 29-30). Os PRAs
seguem, em linhas gerais, o formato do
Mais Ambiente – e, portanto, do MT Legal
–, pois concede a possibilidade da “não
autuação” a proprietários que aderirem bem
como a da conversão de multas. Também
é “autorizado” ao poder executivo federal
criar programas de incentivos à conservação
ambiental, permitindo o uso de recursos para
o pagamento por serviços ambientais e a cota
de reserva ambiental (art.41-58).
24 A Confederação Nacional da Agricultura (CNA), com o apoio da Embrapa, vem promovendo por exemplo a campanha denominada “APP
Mundial”, lançada durante a Conferência Rio+20.
25
Ministro da Agricultura, deputado Mendes Ribeiro (PMDB/RS),
na coletiva de imprensa que anunciou os vetos presidenciais ao texto
aprovado pela Câmara dos Deputados, Brasília, 25 de maio de 2012.
30
Se essa lei vier a ser implementada, o
CAR entrará numa nova realidade. Até
então, era algo restrito especialmente aos
estados amazônicos, surgido no método de
“tentativa e erro”, baseado nas experiências
dos órgãos ambientais e nas iniciativas de
mapeamento ambiental de escala municipal
ou de paisagens.
Ao se tornar obrigatório a todos os imóveis
rurais, passará a ser algo associado à realidade
rural do País. Para isso, serão necessários
investimentos
para
sua
estruturação,
normatização e implantação. Contudo, isso
depende de como será a sua regulamentação
por decreto, que é quando dispositivos
recebem detalhamento, a ocorrer após as
conclusões da tramitação da MP 571.
Há pontos que hoje figuram na lei, mas que
podem ser subtraídos na tramitação da MP.
Por exemplo, a vinculação da concessão de
crédito rural e o registro obrigatório no CAR
corre o risco de ser retirada do texto legal,
tal como sugerem os debates na Comissão
Especial do Congresso criada para a análise
dessa matéria legislativa. Vale lembrar ainda
que alguns parlamentares da bancada ruralista
já se queixaram do CAR, visto por eles como
o “big brother”26 da produção agrícola. Além
disso, o texto atual não contempla a explícita
divulgação pública dos dados registrados no
CAR (ainda que sua definição como registro
público dê margem a isso), a fim de ampliar
a transparência e o controle social. Também
não ancora a obrigatoriedade de que os
órgãos públicos criem mecanismos de repasse
sejam feitas outras mudanças a fim de adequar
o texto legal ao resultado dos embates entre
forças políticas nesse campo socioambiental27.
Se isso vier a ocorrer, o CAR perderá grande
potencial como instrumento da política de
controle do desmatamento e de regularização
ambiental. Todavia, para além das políticas
de controle ambiental, esse mecanismo
tem potencial para auxiliar outras políticas
públicas, conforme se busca discutir abaixo.
e cruzamento de informações do cadastro
entre si, a fim de facilitar o controle ambiental.
Não há menção sobre fontes de recursos
para criação, manutenção e funcionamento
dos sistemas de CAR e de regularização
ambiental, como também sobre a necessidade
de capacitar especialmente os estados e os
municípios para essa nova realidade. O prazo
para adesão parece pouco crível, tendo em
vista o universo estimado em mais de 5,6
milhões de imóveis rurais em todo o País.
Nesse sentido, muito embora o CAR tenha sido
recepcionado nessa lei, como se desejava no
âmbito da negociação entre o MMA e alguns
parlamentares em 2007 (ver seção 5), esse não
pode ser analisado isoladamente, como algo
externo à própria norma legal.
O sentido da nova lei e, fundamentalmente,
a sensação que passará podem condicionar
sua implementação. Se prevalecer o “espírito”
de impunidade, os passivos provavelmente
crescerão, levando a que, no futuro próximo,
26 Entrevista do deputado Ronaldo Caiado aos jornais no início de
fevereiro de 2012.
27 Ver Capobianco, 2011.
31
As promessas do CAR para outras políticas
Entre as principais discussões ocorridas
em torno da Conferência Rio+20, dedicada
à consagração do conceito de economia
verde, estava a importância da manutenção
dos denominados serviços ecossistêmicos
ou ambientais28. E, nessa esteira, também
receberam atenção os mecanismos e
experiências que atrelam pagamento à
prestação dos serviços ambientais. No
cenário brasileiro, a eventual implantação
de mecanismos de pagamento por
serviços ambientais (PSA) dependerá de
alguns condicionantes. Entre esses, está
a regularização ambiental e fundiária.
No primeiro caso, o CAR tem um papel
importante porque revela a situação
ambiental dos imóveis, identificando passivos
e ativos florestais.
para a elaboração de estratégias nacionais
de REDD, conforme demonstrado na
seção 4, enquanto se aguarda prosperar as
negociações em torno do “fundo verde”, que
apoiaria as estratégias nacionais de mitigação
das emissões associadas às florestas.
Nesse caso, CAR poderá oferecer, de forma
ágil, dados sobre o estado de conservação
ambiental de maciços florestais e atribuí-los
a posseiros ou proprietários rurais, facilitando
análise, monitoramento e avaliação quanto
aos estoques de carbono por propriedade.
Outro campo de possível aplicação do
CAR se refere às políticas de ordenamento
territorial. Na verdade, poderá constituir-se
como mecanismo de associação de diversas
diretrizes, constantes em instrumentos
de planejamento de ampla escala, como
O mesmo vale para o caso das negociações
zoneamentos
econômico-ecológicos,
os
em torno dos mecanismos de incentivo
planos de desenvolvimento regionais e os
ao REDD, que vêm sendo debatidas no
planos diretores municipais, à escala das
âmbito das Conferências das Partes (COP) da
propriedades ou posses rurais. O gestor
Convenção Quadro das Nações Unidas sobre
poderá analisar quais propriedades estão
Mudanças do Clima.
ou não adequadas a esses instrumentos e
Esse tema foi confirmado na última COP de orientar as estratégias de regularização. O
Cancún, e já há alguns recursos disponíveis mesmo vale para o planejamento de bacias
hidrográficas, de paisagens, de formação de
28 A literatura faz uma distinção entre serviços ecossistêmicos e am- corredores ecológicos e manutenção dos
bientais. Os primeiros se referem aos serviços fornecidos diretamente
fluxos gênicos, pois permite direcionar a
pela natureza aos seres humanos (p. ex. polinização natural, belezas
cênicas, umidade natural etc.). Os segundos seriam os produzidos a
partir de intervenção humana, como por exemplo, os sistemas agroflo- localização de reservas legais e a manutenção
restais (ver. Wonder, 2005; Kiss, 2002).
33
e recuperação das APPs de acordo com as ambiental e a fundiária em ritos e processos
orientações mais gerais.
administrativos. Contudo, tendo em vista os
A situação dos municípios que conseguiram
deixar a lista daqueles que mais desmatam
a Amazônia, conforme comentado na seção
5, demonstra que o CAR pode ter um papel
importante na escala local. Por meio dele,
torna-se mais completo o diagnóstico
sobre a ocupação do território, à medida
que as informações dos imóveis rurais
tornam-se disponíveis.
Em Paragominas, Alta Floresta e São Félix
do Xingu há relatos de que a atuação da
prefeitura na notificação dos infratores
inibiu novas derrubadas, ao menos
métodos e os objetivos distintos, optou-se em
seguida pelo descolamento tático.
Os métodos baseados em georreferenciamento
geodésico,
requeridos
no
processo
de
regularização fundiária, são de elevado
custo operacional. De outro lado, para a
regularização fundiária, não há necessidade
de
diagnosticar
e
reparar
os
passivos
ambientais no interior dos imóveis rurais,
algo visto como de competência dos órgãos
de meio ambiente. Contudo, o imóvel rural
é único, embora tenha que responder a
diversas políticas e determinações. Nesse
provisoriamente. Com o CAR, as prefeituras
podem, adicionalmente, direcionar suas
políticas para as áreas de maior pressão ao
desmatamento ou ocupação desordenada,
como também contar com a mobilização
social a fim de garantir o cumprimento da
legislação. A localização de escolas e outras
infraestruturas e equipamentos públicos
podem ser melhor definidosa partir da
informação proveniente do CAR. Além disso,
também pode ser útil para o processo de
arrecadação do Imposto Territorial Rural (ITR).
sentido, advoga-se pela complementaridade
No que se refere à regularização fundiária
na Amazônia, o CAR também pode ser um
instrumento útil. Embora ele não tenha o
papel de conferir legalidade de posse e
títulos, certamente suas informações são
úteis aos gestores de terras interessados
em conhecer os posseiros e sua realidade
ambiental (passivos e ativos).
meio ambiente. A finalidade é cadastrar,
entre ambas regularizações a fim de facilitar,
de um lado, a gestão e controle, e, de outro,
agilizar
as
atividades
econômicas
dos
proprietários e posseiros rurais.
São poucas as iniciativas de realização do CAR
junto à agricultura familiar e assentamentos
de reforma agrária. Entre essas, uma vem
se desenvolvendo em São Félix do Xingu
(PA), por meio de uma iniciativa coordenada
pelo Ministério do Meio Ambiente em
parceria com a secretaria municipal de
na modalidade “varredura”, as posses e
eventuais
propriedades
abaixo
de
300
hectares, incluindo também os assentamentos
localizados na APA Triunfo do Xingu. As
propriedades e posses acima desse tamanho já
receberam apoio por meio de outros projetos
organizados pela TNC. O município pretende
alcançar o mínimo de 80% de área cadastrada.
Conforme comentado na seção 4, em algum
momento imaginou-se, na condução das No caso específico de assentamentos
políticas de combate ao desmatamento, a de reforma agrária, há a questão do
conveniência de combinar a regularização licenciamento. Contudo, a maioria desses não
34
conta com as devidas licenças ambientais,
o que é objeto de sucessivos Termos de
Ajustamento de Conduta, assinados pelo
órgão de reforma agrária. Enquanto isso, os
assentados enfrentam dificuldades em suas
atividades econômicas. Algumas poucas
experiências (assentamento Pingo D’Água
em Mato Grosso, e outros em Marabá e em
São Félix do Xingu, no Pará), em curso desde
2010, indicam que o CAR pode vir a ser um
elemento de facilitação do processo de
regularização. O cuidado, contudo, é para não
incidir sobre o assentado, individualmente,
as responsabilidades que são originalmente
do órgão responsável pela implantação do
projeto de assentamento.
Conforme se buscou demonstrar acima, as
promessas do CAR são variadas, podendo
o instrumento ser útil para diversas
políticas gestão territorial e ambiental.
Contudo, para que essas se concretizem,
são imprescindíveis, de um lado, a firme
decisão política, e de outro, investimentos
condizentes com o tamanho dos desafios.
Nesse caso, a realidade atual demonstra que
há um longo caminho a percorrer
35
Considerações Finais
O presente artigo pretendeu oferecer uma análise sobre o CAR, desde suas origens até aos
papéis que poderá executar diante das diversas frentes da política ambiental e territorial,
a começar pela de redução do desmatamento. Foi no bojo da política de redução do
desmatamento que esse instrumento surgiu, combinando o uso de imagens de satélite,
georreferenciamento digital de imóveis, mapas com desmatamento etc. O uso das novas
geotecnologias, como as de posicionamento global (GPS) (cf. McCracken et al 1999), oferece
novos horizontes para a execução das políticas, como também para a realização de análises
multiescalares (Brondizio e Moran, 2012).
Por outro lado, o texto pretendeu argumentar que esse novo instrumento não pode ser visto
como um mecanismo isolado e suficiente. Para que venha a ser plenamente implementado,
é necessário desenvolver diversas frentes de trabalho. No campo da normatização e
uniformização, um regramento nacional deve definir os seus procedimentos e conceitos.
Situações como as identificadas, por exemplo, no Pará, com o seu mecanismo chamado de “CARprovisório” que esvaziava a obrigatoriedade de registro das feições ambientais dos imóveis, em
nada contribuem ao processo, ficando a ideia de que o instrumento é algo “para inglês ver”.
Os sistemas de inscrição e análises do CAR pelos estados deveriam permitir o registro de vários
imóveis, levantados mediante abordagens do tipo “varredura”, em vez de apenas a inscrição
individual, o que aumenta os custos e favorece os erros de sobreposição. Questões como essas
foram discutidas em reuniões técnicas coordenadas pelo MMA (DPCD/MMA, 2011) e suas
sugestões podem ser úteis.
Adicionalmente, há que ter investimentos em pessoal e capacitação. Todo o processo de
regularização ambiental precisa ser estruturado, e, nesse caso, é uma importante contribuição a
experiência (erros e acertos) dos estados amazônicos, do MMA, de organizações como a TNC (no
que se refere a campanhas de mapeamento em escala de “varredura”) e dos municípios.
Considerando a existência de mais de 5 mil municípios, com novos papéis recebidos tanto
pela Lei Complementar 140, de 2011, quanto pela nova lei florestal, fica claro que há desafios
a superar. A área de meio ambiente nos estados, nos municípios, e mesmo no governo federal,
em geral enfrenta barreiras consideráveis, seja em recursos financeiros, seja em quantidade de
pessoal e qualificação; e não são desprezíveis as dificuldades a serem enfrentadas.
37
Associado a isso, a nova lei florestal ainda não está totalmente delineada e corre o risco de mais
reveses, favorecendo a sensação de impunidade e de adequação futura da lei aos interesses
corporativos, em vez do oposto.
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