JORNADA ESCALDANTE - 1
Na rota do ‘vôo’ dos pombos-correios
Ataque de cães, numeração irregular, sol forte (sempre), chuva (às vezes): fomos
viver a difícil rotina dos disciplinados carteiros
Euclides Oliveira
Quarta-feira, sol quente, umidade do ar na casa dos 9% em Ribeirão. Vai ser uma longa
tarde. Por quatro horas, com a repórter-fotográfica Carolina Alves, vou acompanhar o
carteiro Luís Gustavo Sanches. Ele carrega uma bolsa com mais de nove quilos de
correspondência. Haja pernas e haja atenção. Nenhuma carta pode deixar de ser
entregue, salvo em caso de residência fechada ou destinatário não encontrado. Luís
Gustavo, para sorte dele, é jovem e disposto. Tem 25 anos e cobre - das 11h30 às 16h30
- a área do distrito de número 16, correspondente ao Jardim José Sampaio. Tudo o que
ele leva está devidamente computado pelo sistema eletrônico da Empresa de Correios e
Telégrafos, que também registra a pesagem da bolsa (exatamente 9.010 gramas) e
computa cartas que dependem de assinatura do destinatário para serem entregues. Antes
de partir para sua missão, Sanches já passou protetor solar nos braços e no rosto. Ainda
bem, porque o sol é abrasador. E ele vai andar cerca dez quilômetros. Ele sai da rua
Javari com a bicicleta e pedala 15 minutos, passando pela avenida Presidente João
Goulart, rua Antonio Gallão e rua Jan Secaf. Atravessa uma ponte sobre um córrego da
região e vai até um salão de barbeiros na rua Coronel Américo Batista, 2903, onde
guarda a bicicleta, já no José Sampaio. O bairro fica a dez quilômetros do Centro de
Ribeirão. Carteiro há cinco anos e meio, Gustavo mora no Jardim Presidente Dutra I.
Casado, é pai de uma filha de um ano e meio. Ganha R$ 788 mensais (mais R$ 560 de
vale-alimentação) para fazer um trabalho exaustivo (minhas pernas que o digam, ao
final da jornada);
“Eu não estou pronta!”, diz uma moradora da Américo Batista, às 12h10, para justificar
sua negativa em abrir o portão para Gustavo lhe entregar uma carta registrada. Ele,
então, passa o A.R. (Aviso de Recebimento) pelo vão da caixa de correspondência, para
conseguir a assinatura da mulher.
“Tem muita gente que quer tomar banho ou se vestir e deixa a gente esperando”,
comenta.
Entramos na avenida Otávio Golfeto, na altura do número 304. Ele faz um traçado em
ziguezague para alinhavar as entregas nos números pares e ímpares, atravessando várias
vezes as duas faixas de rolamento da via.
No número 288, entrega uma correspondência para Caio da Silva, 18 anos, funcionário
de uma lan-house. Na seqüência, abre uma caixa de coleta da ECT no nº 256 da avenida,
mas nada encontra. Anda mais um pouco, até o nº 138. Não consegue entregar a carta,
pois o destinatário havia-se mudado do local. Gustavo assinala “desconhecido” no rol de
opções para justificar a devolução à ECT.
Corta caminho por um terreno baldio e entra na rua Joana Malfará. Faz a primeira
entrega no número 127. Na casa 192 (onde não havia placa indicativa, mas Gustavo
sabia o número de cabeça), o morador Miguel Jordão recebe a carta pela grade vazada
do portão da garagem.
Com seu jeitão reservado, ele não reclama. Apenas diz: “A numeração aqui é muito
irregular”.
Entramos na rua João Sanches Parra. Gustavo anda rápido. Eu nem tanto. São 12h35.
Sentimos na pele os ardores do sol escaldante. Mas Gustavo não parece se abalar. No
número 86, o morador não está em casa. Às vezes, o que parece um imóvel vazio “pode
ter gente morando”, explica o carteiro.
No número 140 da rua Inês Sandoval Soares de Oliveira, Gustavo novamente não
consegue entregar uma carta. “Ontem (terça-feira) também não havia ninguém aqui”,
comenta ele. Fica frustrado: “amanhã vou ter que repetir o mesmo trabalho”, desabafa.
A aparição dos poodles
Ainda na rua Inês Sandoval: dois poodles ariscos, que latem muito, escapam pelo portão
de uma casa, no momento em que a dona abre o portão para receber a correspondência
do carteiro. E se fossem cachorros maiores ou agressivos? Gustavo já foi mordido duas
vezes, nas pernas, e gostaria que os moradores tivessem mais cuidado. São 12h55. No
número 110 da rua Artur Zuccolotto Filho, Gustavo recebe sorrisos e o primeiro
reconhecimento do dia pelo seu trabalho. “Fico muito alegre quando o carteiro chega!
Eu amo receber cartas”, derrama-se a aposentada Rita Aparecida Eleutério, de 71 anos.
Mas não é só o coração que fica aquecido. O corpo, a essa altura, já se ressente – e
muito - da secura do ar
Calor e receio dos moradores
13h10. Também sofrendo com sol, paro várias vezes para tomar água e até perco
Gustavo de vista, em certos momentos. A caminhada continua, agora pela rua Augusto
Francisco Camelo. A autônoma Sandra Maria Damas Gagliardi, de 43 anos, assusta-se
um pouco com a presença de “estranhos” e mal abre o portão para receber sua carta.
Já na rua Lauro Tonani, a culinarista Sandra Helena dos Santos, de 42 anos, e seu
marido, o metalúrgico Sebastião dos Santos Filho, de 45 anos, nos recebem bem. <br />
São 13h25 e as entregas prosseguem, agora na rua João Manoel de Andrade. A
residência de Maria Tereza Justino Pimenta, de 60 anos, que revende cosméticos, é
outra que não tem número de identificação. Diante da minha dúvida, Gustavo responde,
de bate-pronto: “É a casa 121”, diz, com segurança.
13h40. Estou praticamente sem fôlego, mas Gustavo continua firme. Paro um pouco
para descansar, num banco de jardim de uma praça próxima da quadra de esportes do
Planalto Verde.
13h45: na rua Florinda Sampaio, o carteiro pega uma remessa extra de cartas com 4,1
quilos, na caixa da loja de roupas da comerciante Sandra Cristina Martins. No mesmo
lugar, ele abre uma outra caixa de coleta dos Correios e recolhe oito cartas, que
posteriormente seguiram para a triagem, na Lagoinha.
Pelo menos, a sede não é só minha. O carteiro interrompe rapidamente a jornada para
encher sua garrafa de água numa loja de som e acessórios de automóvel na avenida Luiz
Galvão César. Às 14h10, segue para as entregas na rua Antonio Lápria.
“Hoje está sendo um dia mais ou menos tranqüilo. Acho que acabarei antes das 16h30.”
Mas Gustavo já prevê, também, que a tranqüilidade vai durar pouco, já que “em época
de eleição o trabalho praticamente dobra”. Ele ainda caminha com firmeza. Mas eu não
posso dizer o mesmo. Meus pés já estão doloridos, de tanto andar. “É a terceira vez que
venho aqui e não encontro ninguém”, comenta o carteiro, referindo-se ao morador
ausente de uma casa da rua José Cadamuro Lolato.
JORNADA ESCALDANTE - 2
Carteiro!, grita o rapaz. Mas não vai
fazer a entrega, por causa dos cães
Algumas situações são desafiadoras: é preciso pensar rápido para não colocar a
correspondência – nem o físico – em risco
Euclides Oliveira
Dois cachorros da raça bassê latem bem alto quando Gustavo tenta entregar um
envelopão. “Carteirooo!”, grita o rapaz, mais de uma vez. Ninguém aparece. Como o
envelope é grande e não cabe na caixa de correspondência, ele não faz a entrega, com
receio dos cães: e se eles transformassem a carta em papel picado?
14h35. Rua Marco Aurélio da Silva. Meu “preparo físico” está no limite, mas Gustavo
ainda tem dois calhamaços de cartas para entregar. No número 81, a moradora assina o
comprovante fornecido pelo carteiro, com o portão fechado. As pessoas têm medo de
roubos, de assaltos, enfim. É compreensível, nos dias atuais, ainda mais em bairros
distantes da região central.<br />
Cinco minutos depois, no número 25 da rua Anadir Sampaio Lico, Gustavo tem que
fazer um “improviso”: dobra as cartas e as pendura no vão do portão, pela falta da caixa
de correspondência na frente da casa. Quase no final da reportagem, às 15h10, um
morador do José Sampaio recebe uma carta de Gustavo e valoriza com veemência a
dedicação do profissional da ECT.
“Tem muita gente boa trabalhando, mas ultimamente só vemos notícias falando de
políticos, de bandidos. Sem o carteiro, não pagaríamos nossas contas”, afirma o
administrador de empresas Pedro Louro, de 55 anos. De volta à barbearia, Gustavo pega
a bicicleta e volta para o CDD Entre Rios. Amanhã, ele começa tudo de novo. E nós
também, mas no computador da redação, que felizmente, não exige pernas. Só mãos,
cérebro e coração.
ESTRUTURA
A campanha eleitoral deve dar mais trabalho
38 funcionários da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos trabalham no CDD
(Centro de Distribuição Domiciliar) Entre Rios, no número 4.891 da rua Javari, no
Jardim Marincek, na Zona Norte de Ribeirão Preto.
Sylvio Nardi, supervisor operacional do CDD, há 12 anos na empresa, diz que o
trabalho começa por volta das 7h30. Os carteiros cumprem jornada de oito horas
diárias, com a possibilidade de horas extras, conforme a demanda. Naquela manhã (de
quarta-feira), separaram 25.076 “objetos”, (nome usado para denominar cartas simples,
pacotes e outros tipos de encomendas sem registro).
“Essa é a nossa média, que cresce com a distribuição mensal de contas telefônicas e dos
extratos do FGTS. Agora, nessa época eleitoral, por conta das malas diretas postadas
pelos candidatos, o número de correspondências aqui deve ficar entre 33 mil e 40 mil”,
explica.
Tal volume, segundo ele, é levado ao CDD Entre Rios pela equipe do Centro de
Triagem dos Correios na Lagoinha, que concentra e separa as cartas de todo o Brasil que
são enviadas para Ribeirão e para os municípios da região. Em Ribeirão, existem outros
cinco CDDs (Alto do Ipiranga, Vila Virgínia, Centro, Campos Elíseos e 13 de
Maio).<br />
Raio de ação<br />
O CDD visitado engloba 29 “distritos postais” da Zona Norte e distribui
correspondências em 13.433 pontos de entrega (residências e estabelecimentos
comerciais) em locais de grande concentração populacional.
Abrange a avenida Rio Pardo (Ipiranga), contornando a Via Norte e passando pelos
bairros Jardim José Sampaio, Jardim Procópio, Jardim Alexandre Balbo 1 e 2, Jardim
Heitor Rigon, Jardim Presidente Dutra 1, 2 e 3, Jardim Jandaia, Jardim Marincek,
Jardim Geraldo de Carvalho, Valentina Figueiredo, Adelino Simioni, Quintino Facci 2,
Avelino Palma. Engloba, ainda, um trecho da rodovia Anhangüera e o Balneário
Recreativo.
São contabilizadas cerca de 150 correspondências com número de CEP errado, todos os
dias. Essas cartas passam por nova triagem, para a verificação do CEP correto. <br />
A pesagem das bolsas com as correspondências é procedimento-padrão nos Correios. Os
homens saem do CDD carregando até 10 quilos de objetos nos ombros
(aproximadamente 900 correspondências/dia). Antigamente, eram 15 quilos. As sete
mulheres que exercem a função naquele CDD carregam menos: oito quilos
(aproximadamente 700 correspondências).
Durante a jornada dos carteiros que estão a pé, a ECT coloca oito deles em motocicletas
para a distribuição do chamado “depósito auxiliar” (um pacote com até quatro quilos de
cartas) em pontos estratégicos dos bairros (como farmácias, padarias, lojas e pequenos
mercados, previamente cadastrados pela ECT).
Baixas
Nas estatísticas dos Correios, explica Sylvio, as principais baixas no quadro funcional
ainda são decorrentes de mordidas de cães. A ECT, segundo ele, orienta os carteiros
para preservem ao máximo sua integridade física, mesmo que isso possa comprometer o
trabalho.
“A nossa orientação é que eles não tentem entregar a carta, quando há um cachorro que
represente um problema, num eventual ataque”, comenta o gerente substituto. Em
último caso, quando há acúmulo de cartas não-entregues em determinada casa, Sylvio
vai à casa do cliente para resolver o impasse relatado pelo carteiro.
Depois dos cães, acidentes de moto e torções de tornozelo provocados por quedas e
tropeços, durante a jornada, são as maiores causas de afastamento trabalhista na ECT.
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