capítulo 1
Vestido preto de funeral. Sapatos pretos de salto alto. Faixa preta no cabelo. A
morte tem seu estilo. Fico feliz por não ter que usá-lo com muita frequência.
Meu vestido, que eu encontrei depois de revirar os fundos do meu closet,
ainda tem um leve cheiro de verão e cloro. O cheiro provavelmente é apenas
uma lembrança.
— Alexi, chegue mais perto, para Craig se sentar com Kayla. — A voz da
minha mãe me desperta do meu sofrimento e me leva de volta para o funeral.
Minha mãe abre espaço para eu me aproximar dela no banco da igreja, e
eu deslizo obediente para baixo de seu braço enquanto o namorado da Kayla se
junta à nossa família. Embora eu não conte isto para minha mãe, é bom quando o braço dela repousa no meu ombro, e sua mão me dá um tapinha-aperto
que demonstra que ela me ama. Se não estivéssemos em um funeral, eu provavelmente a afastaria. Mas isso seria meio egoísta, já que a sra. Lennox sempre
participara do grupo de oração da minha mãe.
— Como está Bodee? — pergunta minha mãe.
— Não o conheço direito — respondo.
— Vocês estão na mesma escola há onze anos.
Dou de ombros.
— Ele é o Garoto Ki-Suco.
O que faz os adultos sempre acharem que as crianças devem ser amigas
só porque suas mães são? Compartilhar a primeira aula e armários vizinhos
não significa que se conhece a pessoa para além de seu rótulo. Do outro lado
do corredor da igreja está Rachel Tate, a garota cuja mãe transou com o diretor James no ônibus 32. Eu sou a irmã mais nova e cópia da Kayla Littrell.
Antes desta semana, Bodee era o Garoto Ki-Suco. Agora, ele vai ser o garoto
cujo pai matou a mãe. Esse rótulo vai ser passado de ouvido em ouvido sempre que Bodee andar pelo corredor. Antes era apenas fofoca maldosa, agora é
por pena.
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— Seria bom se você oferecesse ajuda. — Percebo que minha mãe tem
mais a dizer, mas a música muda, e ela se vira para a frente.
Não há letra na música, e isso me deixa triste. Toda música merece ter
palavras. Merece contar uma história. A história da sra. Lennox acabou, então
talvez ela não precise de palavras, mas Bodee deve precisar. Oferecer ajuda para
ele é uma daquelas coisas cristãs sobre as quais minha mãe fala, mas não dá para
compartilhar um closet e uma pilha de figurinhas de futebol com alguém que
mal se conhece. Então, eu faço uma oração e espero que ele encontre um lugar
para se esconder.
Mas, provavelmente, ele sempre vai voltar a essa questão. Mãe. Sem mãe.
Essa é uma mudança definitiva. Eu nunca entendi que a vida pudesse ser
tão drasticamente dividida, mas pode. E é. Só existe o depois. E o antes.
Aconteceu comigo perto da piscina; para Bodee, é ao lado do caixão. Ou
onde quer que ele estivesse quando descobriu sobre a mãe.
Kayla se afasta do Craig e pergunta:
— Alexi, ele é do seu ano?
Faço que sim com a cabeça e desejo que Kayla abaixe o tom da voz.
— Meu Deus, como ele é feio — acrescenta ela.
— A mãe dele morreu — digo. E me aproximo mais da minha mãe, o
que não é exatamente possível. Kayla está errada, de qualquer maneira. Ele não
é feio; é desleixado, o que é diferente.
Eu preferiria me sentar com Liz e Heather, mas todos os pais estavam com
os filhos amontoados ao redor, como se estivessem tentando compartilhar um
guarda-chuva em uma tempestade. Eu amo minha família, mas parece que, nos
momentos em que estou mais triste, estou sempre cercada de pessoas com quem
não sei conversar. Com Kayla e Craig, sua sombra. Ou com meu pai e minha
mãe, a professora.
— Com quem ele anda? — insiste Kayla.
— Com ninguém.
Minha mãe dá aquele olhar para Kayla, e olhamos os programas.
Repito o Salmo 23 com o restante da multidão e me pergunto se Deus
alguma vez considerou escrever o salmo no passado, já que muitos pastores o
leem em funerais. “Ainda que eu tivesse andado pelo vale da sombra da morte”
é mais adequado para sra. Lennox.
— E agora — diz o pastor — vamos ouvir os dois filhos de Jean: Ben e
Bodee.
Ben vai até a frente sem erguer o olhar. Pega um pedaço de papel no
bolso. O ambiente está silencioso, e eu ouço a folha fazer barulho quando ele
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a alisa no púlpito. Ele entorta os lábios fechados para um lado e para o outro e,
em seguida, abre a boca e canta — meio lendo, meio chorando — parte de um
hino. A canção é linda, e eu me pergunto se a música é a verdadeira linguagem
da tristeza.
— Minha mãe sempre cantava isso enquanto cozinhava. — Ben encara
o teto ao dizer: — Não sei como vou sobreviver sem você, mãe.
Sua dor e seu medo se propagam pelo ar como eletricidade. Eu também
não sei como eles vão sobreviver.
— Obrigado, Ben — diz o pastor. — Bodee, pode subir aqui, meu
filho.
Todos os olhares se voltam para a esquerda, de onde Bodee se levanta do
assento reservado à família.
O cabelo de Bodee está louro, hoje. Sempre pensei que seus cachos coloridos de Ki-Suco fossem para disfarçar a calça jeans desajustada e as camisetas
brancas genéricas. Para fazê-lo parecer artístico, em vez de apenas pobre, mas
agora não tenho tanta certeza.
Minha mãe tira o braço do meu ombro para pegar um lenço de papel e
secar as lágrimas.
— Ai, não consigo nem imaginar.
Não consigo tirar os olhos de Bodee. Os ombros dele estão curvados
como a barra de metal do meu closet, que afunda com o peso do meu casaco
de inverno. Quero colocar a mão no meio de suas costas, forçá-lo a se endireitar. O arrastar preguiçoso de seus pés é tão triste quanto seus ombros.
— Acho que ele está usando a calça cáqui antiga do Craig — diz Kayla.
— Está vendo a marca circular da latinha de tabaco no bolso de trás?
— Metade dos caras em Rickman mascam tabaco — digo. Mas Kayla
tem razão: já vi essa mesma calça se embolando com ela no nosso sofá.
— Bom, é a calça de alguém. — Tem solidariedade na voz dela. — Talvez
você devesse levar o garoto para fazer umas compras.
Mesmo sendo a coisa mais gentil que Kayla disse até agora, eu sussurro:
— Por que você não o leva para umas compras?
— Talvez eu leve mesmo.
Craig revira os olhos para mim, porque ele sabe tão bem quanto eu que
a última coisa de que Bodee precisa é se tornar um dos bichinhos de estimação
de Kayla.
Agora Bodee está no púlpito, e minha mãe não é a única pessoa que precisa de um lencinho de papel. Enquanto o ambiente todo funga, limpa a
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garganta e seca os olhos, ele agarra o nó da gravata como se fosse uma barra de
segurança em uma montanha-russa.
Ele não olha para ninguém. O microfone ecoa sua respiração curta para
o ambiente.
Vamos lá, Bodee. Fale alguma coisa.
Mas ele só respira e ajeita de novo a gravata com uma das mãos enquanto
esconde a outra no bolso da antiga calça do Craig. Eu aliso os amassados do
meu vestido. Kayla faz a mesma coisa. Minha mãe aperta a mão do meu pai. O
resto do ambiente se remexe, desconfortável pelo Bodee.
— Coitadinho, coitadinho — sussurra minha mãe.
Uma letra de música surge em minha cabeça enquanto observo Bodee se
afogar.
Sozinho.
Diante desta multidão.
Sozinho, neste sonho de matar.
Quem sou eu neste silêncio visível?
Será que alguém me ouve gritar?
Eu me pergunto se Bodee conhece essa música. Duvido. Brinco com a
ideia de escrever a letra na parte de trás do programa. Eu podia colocar no armário dele na segunda-feira. Mas talvez ele entenda errado.
Mas meu cara misterioso da carteira não entenderia errado. Ele escreveu
essa mesma letra na minha mesa na primeira semana de aula. Oito de agosto.
Dezenove dias depois que minha vida mudou.
Acho que uma letra aleatória não vai ajudar Bodee.
Ele não vai falar.
É como se ele estivesse amordaçado. Um ladrão de palavras estivesse em
ação.
Bodee sai correndo do púlpito e dispara porta afora.
— Vá — pede minha mãe.
Pela primeira vez, temos o mesmo impulso. Meu joelho bate no encosto
do banco à nossa frente. O barulho anuncia meu movimento e efetivamente
acaba com o silêncio que Bodee iniciou. Craig me apoia enquanto eu pulo por
cima dele e de Kayla.
— Boa ideia — diz ele enquanto eu saio.
Não estou saindo porque minha mãe mandou ou porque Craig acha que
é uma boa ideia. Eu sei como é encarar o silêncio sozinha.
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Bodee está no jardim dos fundos. Estou sem fôlego quando o alcanço,
mas tudo bem, porque a situação já é esquisita por si só. Toda essa empatia, ou
o que quer que seja, vai sumir quando o sinal tocar às 7h55 da manhã de segunda-feira. O corredor da escola é uma guerra de diferenças, e Bodee e eu
temos muitas. Incluída; excluído. Faz compras no shopping; não faz compras.
Calada, exceto com os amigos; calado o tempo todo. Mas hoje nós temos uma
coisa em comum além de sobrenomes que começam com a letra L.
Nós dois perdemos algo que nunca mais vamos recuperar.
O banquinho de concreto treme quando acrescento meu peso a ele.
Bodee me olha por tempo suficiente apenas para registrar quem eu sou. Não
apenas parece surpreso por eu tê-lo seguido até este esconderijo ao ar livre. E
ele não me lança o olhar de quero ficar sozinho.
O tempo passaria mais rápido se eu falasse, mas não me importo que o
tempo passe lentamente. Eu me pergunto o que Liz e Heather estão pensando
de eu ter saído tropeçando do banco da igreja, e se todo mundo lá dentro acha
que eu vou voltar com um Bodee consertado e falante.
Mas não digo a ele para voltar lá para dentro nem que vai ficar tudo bem.
Só fico sentada ao lado dele, mantendo um centímetro entre minha perna e os
destroços dele. Ele estala os dedos compulsivamente, e eu encaro uma rachadura no concreto onde mora uma pequena erva daninha.
Quando o diretor do funeral nos encontra, eu finalmente falo:
— Vejo você na segunda?
— É.
E só. Deixo Bodee no banco. A distância entre nós agora é elástica, se
esticando de um centímetro para alguns metros.
Quando chego perto da minha mãe, ela beija minha testa.
— Lex, eu te amo — diz ela.
— Eu também te amo. — E, enquanto digo isso, penso: ninguém mais
vai falar isso para Bodee.
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