REDAÇÃO
Para o ENEM
Vestibular e
Concursos
L P Baçan
Edição Eletrônica: L P B Edições
Agosto de 2014
http://www.acasadomagodasletras.net
Direitos exclusivos para língua portuguesa:
Copyright © 2014 L P Baçan
Todos os direitos reservados.
Proibidas a reprodução e a divulgação.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida por
forma alguma ou qualquer meio sem a expressa
autorização do autor.
2014
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO
1a. PARTE – OS PRIMEIROS PASSOS
Os Primeiros Passos
Os Paradigmas
A Prática
A Linguagem
Classes de Palavras
Tipos de Redação
Estrutura do Texto
Técnicas de Redação
Roteiro de Trabalho
Polimento do Texto
Modelos
Correspondência Comercial
a
2 . PARTE – PASSO A PASSO
Justificativa
Novas Tendências do Vestibular
O ESTILO
Desenvolvendo um Estilo Próprio
Qualidades do Estilo
Leitura Obrigatória
Modelos
Temas para Redação
A REDAÇÃO
Introdução
Entendendo os Conceitos
Tipos de Redações
A CORREÇÃO
Roteiro para Correção
APÊNDICE
Erros mais comuns
Novo Acordo Ortográfico
Pontuação
Figuras e Vícios de Linguagem
Erros Graves e Dicas
BIBLIOGRAFIA
REDAÇÃO PARA O ENEM
VESTIBULAR E CONCURSOS
APRESENTAÇÃO
Este livro é uma proposta definitiva para você aprender
e realizar uma redação capaz de dar-lhe a pontuação
necessária para atingir sua meta, seja ela no ENEM, em um
vestibular ou em um concurso.
Você pode nada saber sobre como fazer uma boa
redação ou já ter uma boa base para buscar um
aprimoramento. Em qualquer destes casos, você deve
assumir o compromisso pessoal de acompanhar passo a
passo as etapas aqui apresentadas. Se preferir ou não tiver
uma boa base, inicie pela primeira parte do livro,
PRIMEIROS PASSOS. Se julgar já vencida essa etapa,
considerando seus conhecimentos atuais, siga para a
segunda parte, PASSO A PASSO, e disponha-se a
prosseguir.
Este não é um manual adequado a quem precise
aprender redação para amanhã. Não há como fazer isso, a
não ser buscar as páginas onde são apresentadas as dicas e
torcer para que o tema que lhe seja apresentado facilite as
coisas para você.
Se está se preparando, no entanto, a médio ou a longo
prazo para um exame onde a Redação seja exigida, então
encontrará aqui todo o material necessário para montar seu
plano de trabalho e aprender na prática e dominar o assunto.
Não há mágica, oração ou qualquer outra forma de
aprender a escrever sem praticar. Imagine-se recebendo seis
meses de aulas teóricas sobre a natação e, após isso, ser
lançado ao mar. Conseguiria sobreviver? Por quanto tempo?
Parede difícil, não? Assim é o estudo da redação e sua
preparação. Você tem que começar praticando desde o
início, desenvolvendo-se, preparando-se, até atingir o ponto
ideal.
Para isso precisa de ferramentas e de conhecimento.
Parte disso encontrará aqui, na técnica. A prática será por
sua conta. As duas unidas lhe darão total segurança diante
de qualquer tema. Uma sem a outra resultará em um
trabalho fraco, talvez passável, mas certamente não o
suficiente para garantir aquela pontuação a mais que fará a
diferença entre a aprovação ou não em seu objetivo.
Encare este livro, portanto, como um plano de trabalho,
uma proposta de ação que vai tirar você da lista dos
inseguros e colocá-lo na dos experientes e capazes de
encarar qualquer tema e sair-se bem.
Lembre-se, ao iniciar, que deve assumir um
compromisso consigo mesmo: o de fornecer conteúdo para
construir argumentações sobre absolutamente tudo. Isso
você conseguira através da LEITURA. Leia tudo ao seu
alcance, mesmo assuntos que não goste e, principalmente,
não domine. Na Internet vai encontrar livrarias virtuais que
disponibilizam milhares de livros sobre praticamente tudo e,
o que é melhor, grátis. Assista aos noticiários, leia jornais e
revistas semanais, leia os principais colunistas do país e do
mundo. Mantenha-se atualizado. Conheça a História atual e
antiga. Não ignore a Geografia ou qualquer conteúdo que
possa lhe ser útil para embasar uma argumentação. Conheça
os princípios da Sociologia, da Psicologia. Estude um pouco
de Política. Nada será desperdiçado, tenha certeza disso.
Assim, de espírito preparado para um empreendimento
a médio e longo prazo, comece e siga em frente sem
esmorecer. A vitória será sua, por isso terá que lutar suas
próprias batalhas com as armas de que dispuser. Não há
outra fórmula mágica.
Boa sorte.
L P Baçan
OS PRIMEIROS PASSOS
Você já deve ter observado como os alunos do segundo
grau preocupam-se com o vestibular. É compreensível, pois
esta é uma etapa que decidirá o futuro de cada um deles.
Além das dificuldades naturais com esta ou com aquela
matéria, todos parecem ter um problema comum, com raras
exceções: a redação.
Muitos devem afirmar que não têm imaginação, que
lhes faltam a criatividade, que as regras gramaticais são
difíceis e complicadas, que não entendem a pontuação, que
não sabem como separar um parágrafo e muitas outras
reclamações.
Talvez você também esteja começando a enfrentar
dificuldades. Acha que é muito difícil escrever e que isso é
um dom ou uma vocação. Pode, até, ter algum bloqueio para
realizar essa atividade.
Não se julgue culpado se tem essas percepções. Isso
porque nunca lhe mostraram o ato de escrever pelo seu
ângulo mais agradável nem lhe provaram que escrever é
fácil, gostoso e que você pode escrever o que quiser. Basta
aprender como fazer isso e a partir daí não parar jamais.
Vamos por etapas. Ou por passos. Os primeiros passos
que você deu, quando criança, possivelmente resultaram em
algumas quedas. Com o tempo, seus ossos e músculos
firmaram-se, você dominou o equilíbrio e hoje caminha com
naturalidade e desenvoltura. Aprender a escrever segue o
mesmo processo natural.
Você precisa desde já aprender a ler e a gostar de ler.
Não importa qual é seu gênero de leitura preferido.
Dedique-se ao que lhe dá prazer, mas reserve um pouco de
seu tempo para começar a ler os grandes escritores, os
clássicos que marcaram o mundo. Em pouco tempo você vai
se familiarizar com esse tipo de leitura e acabar gostando.
Em segundo lugar, comece a escrever agora mesmo. Se
alguém lhe disser que você não tem criatividade nem
imaginação, desafie-o a provar o contrário, pois você tem
um cérebro maravilhoso, cheio de vida e inquietação, capaz
de recriar o universo na sua imaginação e na sua fantasia.
Você aceita participar de um desafio? Se eu lhe provar
que você tem imaginação de sobra para escrever, você
continua a leitura até o primeiro capítulo. Se após o primeiro
capítulo eu lhe provar que você é capaz de, com apenas uma
lição simples, escrever uma redação apresentável e um
poema razoável, você assume o compromisso de ler o livro
até o fim.
Veja bem, o desafio é simples:
- se eu não lhe provar que você tem imaginação de
sobra, você desiste;
- se após a leitura do primeiro capítulo você não se
convencer de que fez uma boa redação e um poema
interessante, você desiste. Caso contrário, assume consigo
mesmo o compromisso de ir até o fim, praticando as outras
lições.
Aceita o desafio?
Ótimo! Então vamos lá!
Procure se lembrar da última vez que sonhou ou pense
num sonho que teve e do qual se lembre. Reviva-o agora
mesmo. Pense nos seus detalhes. Havia uma paisagem?
Como era ela. Havia uma construção ou construções? Como
era isso. Havia uma pessoa? Como era ela? O que vestia?
Quais suas expressões. Como foi o andamento do sonho?
Recorda-se?
Se você não tivesse absolutamente nenhuma
imaginação, você sonharia em branco! Mas isso não
acontece. Sua imaginação é capaz de criar pessoas,
paisagens, construções, mobílias, diálogos, sequências e
ação como num filme. Isso é obra de alguém sem
imaginação? Você é capaz de imaginar e de criar. É apenas
uma atividade cujas habilidades você precisa desenvolver.
Convenceu-se de que tem imaginação suficiente para
escrever? O que você precisa é pura e simplesmente
aprender a fazer isso, da mesma forma como aprendeu a
caminhar, a falar, a ler e a escrever as primeiras letras. É
simplesmente dar continuidade num processo natural,
desenvolvendo as técnicas necessárias para isso, de forma
agradável, sem muita preocupação com outra coisa a não ser
explorar seu potencial e pôr no papel suas emoções,
sentimentos, observações e criatividade.
Antes de ir para o próximo capítulo e cumprir a
segunda etapa do desafio, talvez você se pergunte quem sou
eu, como e por que estou me dirigindo a você para provar
que escrever á fácil. Eu sou um escritor e tenho feito isso
nos últimos 35 anos. Já escrevi mais de 120.000 páginas. Se
quiser saber mais sobre o meu trabalho ou precisar de algum
esclarecimento, visite meus sites e minha página no
SCRIBD.
http://www.scribd.com/lpbacan
http://www.acasadomagodasletras.net
OS PARADIGMAS
Prepare-se para a segunda etapa do desafio. Antes de
passarmos a ela, você precisa aprender alguns segredos que
simplificarão sua maneira de ver as coisas.
O ato de escrever é um processo que requer alguns
ingredientes: imaginação, domínio da língua e dos aspectos
gramaticais e prática. Não é um dom ou uma vocação
simplesmente porque ninguém nasce sabendo fazer uma
redação. Você tem que aprender isso a duras penas, precisa
escrever páginas e mais páginas até adquirir a fluência e a
naturalidade. Na realidade, costumo dizer em minhas
palestras que escrever é 90% de transpiração e 10% de
inspiração.
Voltemos aos ingredientes do processo. Inicialmente, a
imaginação. Esta você desenvolve quase que naturalmente,
observando as coisas, vendo as pessoas, seus atos,
participando da paisagem e das cenas no seu dia-a-dia. Você
pode e deve aprimorá-la com a leitura de bons autores, de
jornais (principalmente das colunas fixas), de revistas e
ouvindo noticiários de rádio e de televisão, principalmente
aqueles que comentam as notícias.
Uma sugestão que sempre dou é a de ler a Bíblia, sem
qualquer conotação religiosa, apenas porque ela é uma das
maiores fontes de informações, descrição de caracteres e
cenas, apresentando figuras humanas e passagens
exemplares que você poderá usar, futuramente, em suas
redações como argumentos.
O segundo ingrediente é o domínio da língua e dos
aspectos gramaticais. Significa ter vocabulário e saber como
usá-lo. Lendo e ouvindo você aumenta seu vocabulário,
principalmente se você se habituar a ter sempre ao seu
alcance um dicionário para conferir o significado de uma
nova palavra, procurando usá-la em suas redações. O
conhecimento gramatical certamente você terá assistindo
com atenção às aulas de língua portuguesa e tirando suas
dúvidas com os professores. Há, porém, um método mais
fácil de escrever corretamente, habituando-se a usar
paradigmas.
Se você não sabe o que significa paradigma, pegue seu
dicionário agora mesmo. Com certeza você vai descobrir
que significa modelo ou padrão. Traduzindo então o que eu
disse acima, usar paradigmas nada mais é que usar modelos
ou padrões. E você sabe por que fazer isso? Porque a
estrutura de uma oração obedece a um paradigma básico,
que é este e que você deve conhecer de suas aulas de língua
portuguesa:
SUJEITO - PREDICADO - COMPLEMENTO
A partir desse paradigma básico, você pode criar
variações, incluindo outros elementos ou reduzindo os
elementos acima ao essencial. Como fazer isso?
Construindo uma oração apenas com o predicado, ou o
verbo. Quer um exemplo para entender melhor:
Os livros - carregam sonhos.
Sonhemos - a vida!
Sonhemos!
Os livros - carregam (contém) - sonhos - para os
sonhadores.
Entendeu o que eu quis dizer?
Vamos, então, para a segunda etapa do nosso desafio.
É simples.
Leia devagar e com calma o texto a seguir:
Brincando com o barro
Um dia, Jesus estava na beira do rio com outras
crianças. Haviam cavado pequenas valas para fazer escorrer
a água, formando assim pequenas poças. Jesus havia feito
doze passarinhos de barro e os havia colocado ao redor da
água, três de cada lado. Era um dia de sabá e o filho de
Hanon, o judeu, veio e vendo-os assim entretidos, disselhes:
— Como podeis, em um dia de sabá, fazer figuras com
lama?
— Não seja por isso — disse Jesus, estendendo as
mãos sobre os pássaros que havia moldado.
Imediatamente eles saíram voando e cantando.
(L P Baçan, adaptado de uma antiga lenda)
Antes de prosseguirmos, há uma palavra na história
que você talvez não conheça. É sabá e significa: "descanso
religioso que, conforme a legislação mosaica (leis do tempo
de Moisés), devem os judeus observar no sábado,
consagrado a Deus."
Isso explica porque o filho de Hanon admoestou Jesus.
Agora que você sabe desse detalhe, leia mais uma vez a
história, desta vez prestando atenção às palavras em
vermelho:
Brincando com o barro
Um dia, Jesus estava na beira do rio com outras
crianças. Haviam cavado pequenas valas para fazer escorrer
a água, formando assim pequenas poças. Jesus havia feito
doze passarinhos de barro e os havia colocado ao redor da
água, três de cada lado. Era um dia de sabá e o filho de
Hanon, o judeu, veio e vendo-os assim entretidos, disselhes:
— Como podeis, em um dia de sabá, fazer figuras com
lama?
— Não seja por isso — disse Jesus, estendendo as
mãos sobre os pássaros que havia moldado.
Imediatamente eles saíram voando e cantando.
Você vai agora reescrever a história, trocando as
palavras em vermelho por outras palavras, de forma que o
conteúdo da história seja alterado, mas seu modelo, padrão
ou paradigma mantenha-se o mesmo. Entendeu a tarefa?
Mãos à obra! Se quiser, veja como eu fiz!
Brincando com o fogo
Um dia, Mário estava no bosque com seus amigos.
Haviam juntado pequenas varas secas para atear fogo,
formando assim uma fogueira. Mário havia feito pequenos
montes de terra e os havia colocado ao redor da fogueira,
três de cada lado. Era um dia de vento e a mãe do menino
veio e vendo-os assim entretidos, disse-lhes:
— Como podeis, em um dia de vento, fazer fogueira
perto do bosque?
— Não seja por isso — disse Mário, estendendo as
mãos e empurrando os montes de terra sobre a fogueira.
Imediatamente a fogueira se apagou.
E agora, o que me diz?
Seguindo um paradigma, não é mais fácil escrever?
Pratique bastante, reescrevendo a história com os
seguintes títulos:
Brincando com a terra
Brincando com a água
Brincando com as flores
Brincando com fogo
Brincando com o perigo
Brincando de gente grande
Vamos falar de poesia agora. Veja a estrofe abaixo, a
primeira de um poema chamado Gondoleiro do Amor, de
Castro Alves, famoso poeta romântico brasileiro.
Gondoleiro do Amor
Teus olhos são negros, negros,
como as noites sem luar,
são ardentes, são profundos,
como o negrume do mar.
Há alguma palavra desconhecida para você? Por via
das dúvidas, vejamos o significado das seguintes palavras:
Gondoleiro: "tripulante de gôndola, uma embarcação
comprida, de pequena boca, com as extremidades um tanto
levantadas, movida por um remo na popa, característica dos
canais de Veneza".
Ardentes: "apaixonados."
Negrume: "escuridão."
Além disso, é importante que você saiba ou relembre
que estrofe é o conjunto de versos e o verso,
simplificadamente, é cada linha do poema. No exemplo
acima, temos, portanto, quatro versos.
Ao ler o poema em voz alta, você sente que ele possui
um ritmo, uma cadência marcada por sílabas mais fortes.
Experimente ler a estrofe acima em voz alta e entenderá
melhor isso. Para completar, os poemas podem ter rimas,
formadas pela coincidência de sons no final de cada verso.
No exemplo acima, mar rima com luar porque ambas
as palavras terminam em ar. Entendeu?
Agora que você já sabe o significado das palavras da
estrofe e alguns conceitos de poética, leia de novo,
prestando atenção às palavras em vermelho.
Gondoleiro do Amor
Teus olhos são negros, negros,
como as noites sem luar,
são ardentes, são profundos,
como o negrume do mar.
Reescreva a estrofe, mudando as palavras em vermelho
a seu critério, mas dando sentido ao seu poema. Não se
esqueça de que, ao substituir uma palavra de três sílabas,
por exemplo, você deve usar outra de três sílabas. Pode,
também, duas palavras, sendo a primeira de uma sílaba e a
segunda, de duas. Isso é feito para manter o ritmo do verso.
Use o seu caderno de rascunho para praticar, depois
veja como eu fiz:
Meu poema de Amor
Teus olhos são lindos, lindos,
como as plantas do jardim,
são brilhantes, são alegres,
como as flores do jasmim.
E então, conseguiu?
No princípio você pode enfrentar dificuldades. Isso é
natural, mas pouco a pouco você ganhará fluência e tudo
ficará mais fácil.
E quanto ao nosso desafio? Você aceita meu convite
para continuar a leitura do livro?
Para reforçar o que afirmo, suponhamos que você
tenha que escrever agora um requerimento, pedindo ao
diretor de sua escola um atestado de matrícula.
Como você faria isso?
Usando um paradigma, tudo isso fica mais fácil.
Veja como!
Note que o mesmo modelo pode ser usado para você
requerer uma bolsa de estudos, bastando modificar o
objetivo.
Se precisar fazer um requerimento a um órgão público,
acrescente na sua identificação o seu endereço, o número de
sua carteira de identidade e o do seu Cadastro de
Contribuinte no Ministério da Fazenda (CIC).
Se não tiver um, você deverá constar o de seu pai ou
responsável.
(Requerimento)
Exmo. Sr. Diretor do Colégio...
(deixar espaço de 10 linhas)
(seu nome) brasileiro(a), solteiro(a), estudante
regularmente matriculado(a) na quinta série ( ou
naturalidade, estado civil, profissão, RG, CIC, endereço
completo), vem, respeitosamente, requerer ( a expedição de
Atestado de Matrícula para fins particulares ou outro
objetivo específico).
Nestes termos
Pede deferimento.
(sua cidade), (dia, mês em letra minúscula e ano).
____________________
(sua assinatura)
E se você tivesse vendido a sua bicicleta e precisasse
passar um recibo, como faria?
É simples!
Basta usar o seguinte paradigma!
(Recibo)
RECIBO: R$ 50,00
Recebi de (nome da pessoa a quem vendeu e que lhe
pagou) a importância supra de R$ 50,00 (cinquentas reais),
para pagamento de (uma bicicleta marca C. Mago, de minha
propriedade).
Por ser verdade, firmo o presente recibo.
(Cidade), (dia, mês e ano).
_________________________
(nome e assinatura)
Acho que você já percebeu a facilidade de usar os
paradigmas e as vantagens e necessidade de trabalhar
intimamente ligado ao seu dicionário. Aumentando seu
vocabulário aos poucos, em breve você terá um repertório
adequado para elaborar qualquer tipo de texto.
Lendo, você irá aumentando seu estoque de
paradigmas. Em breve poderá escrever sobre qualquer
assunto, de modo correto e criativo, sem se preocupar com a
gramática. Quando estudá-la, em suas aulas regulares, verá
como será mais fácil entender pontuação, concordância,
regência e outros aspectos que são fundamentais na
comunicação escrita.
E então, vale a pena continuar?
Claro que sim!
Passemos, então, ao Capítulo 3. Não se esqueça de que
em qualquer momento, quando encontrar alguma
dificuldade, volte ao início e releia atentamente.
E se você gostou da história que contei sobre a infância
de Cristo, conheça outra e aproveite para praticar, seguindo
os passos já ensinados.
O Menino Doente
Aconteceu depois, nas vizinhanças de José, que um
menino que vivia doente veio a falecer. Sua mãe chorava
inconsolavelmente. Jesus, ao tomar conhecimento da dor
daquela mãe e do tumulto que se formava, acudiu
rapidamente.
Encontrando o menino já morto, tocou-lhe o peito e
disse:
— Pequenino, falo contigo! Não morras, mas vive feliz
e fica com tua mãe!
No mesmo instante, o menino abriu os olhos e sorriu.
Então disse Jesus à mulher:
— Anda, pega-o, dá-lhe leite e lembra-te de mim!
Ao presenciar o acontecido, os circunstantes encheramse de admiração e exclamaram:
— Na verdade, este menino ou é um Deus ou um anjo
de Deus, pois tudo o que sai da sua boca torna-se um fato
consumado.
Jesus saiu dali e pôs-se a brincar com os outros jovens.
(L P Baçan, adaptado de uma antiga lenda)
A PRÁTICA
O terceiro ingrediente do aprendizado mencionado no
capítulo anterior é a prática. Quanto mais você praticar,
mais fácil ficará escrever. Isso explica o meu ponto de vista:
90% de transpiração e 10% de inspiração. Tenha isso em
mente.
Você pode ter o dom, pode ter vocação para escrever,
mas se você não se sentar diante de uma folha de papel em
branco e escrever, nada nem ninguém o fará por você.
Para resumirmos agora o que já foi ensinado, podemos
concluir que, para escrever, é preciso ter conteúdo (o que
dizer) e conhecer paradigmas (saber como). Dominando
esses dois aspectos, você poderá escrever sobre
absolutamente tudo.
Dominar os paradigmas não significa que você terá que
memorizar uma porção de modelos que serão usados no
momento oportuno. Não, de forma alguma, pois isso
poderia acabar limitando sua criatividade.
É importante você habituar-se a usar os paradigmas,
pois ao fazê-lo com frequência você vai incorporá-los
automaticamente, sem perceber e eles surgirão
automaticamente, no momento em que precisar deles.
Quer testar isso?
Observe o trecho a seguir, que poderia ter sido tirado
de uma página esportiva de um jornal qualquer.
Para começar, se você usar um paradigma assim, será
porque leu o jornal e esse é um passo importante para
formar conteúdo, isto é, ter o que dizer.
Vamos à notícia:
Coritiba embarca
"A delegação do Coritiba embarca hoje às 7 horas da
manhã no aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais,
rumo ao Ceará, onde fará sua estreia na Copa do Brasil
diante da equipe do Fortaleza, amanhã, dia 3, às 20h 30, no
Estádio Presidente Vargas, na capital cearense."
(Gazeta do Povo, Caderno Esportes, página 3, 2/3/99)
Suponhamos agora que você vá fazer uma notícia para
o jornal do colégio, informando a partida de um colega, o
Mário Souto, que viaja para a cidade de Miami, nos Estados
Unidos, onde fará um curso de inglês de um mês, na
Universidade de Miami.
Como ficaria a notícia, se você usasse o paradigma
acima?
Vamos por partes!
Na notícia que recortamos do jornal, temos algumas
respostas a algumas perguntas importantes: quem faz
(fez/fará) o quê, quando, a que horas, de onde, para onde,
para quê, contra quem, quando, a que horas, onde.
Vamos responder as perguntas que sejam possíveis no
caso da viagem do seu amigo.
Quem? Mário Souto
Faz o quê? embarca
Quando? amanhã
A que horas? às 8 horas da noite
De onde? no aeroporto de Cumbica
Para onde? para Miami, na Flórida
Para quê? fazer um curso de inglês de 30 dias
Contra quem? (não usaremos)
Quando? (não usaremos)
A que horas? (não usaremos)
Onde? na Universidade de Miami
Vamos dar forma à notícia, juntando as respostas na
sequência em que foram apresentadas?
Mário Souto embarca para Miami
"Mário Souto embarca amanhã às 8 horas da noite no
Aeroporto de Cumbica rumo a Miami na Flórida para fazer
um curso de inglês de 30 dias na Universidade de Miami"
Deixei propositadamente sem pontuação a notícia
acima, para que você, observando o paradigma inicial,
coloque agora a pontuação. O ponto final não oferece
problema, é claro. Você pode ter alguma dúvida no que se
refere à vírgula.
Vejamos como a Enciclopédia Barsa define a vírgula:
"sinal de pontuação usado para isolar (...) indicações de
tempo e lugar. Assinala breve pausa rítmica, sem quebrar a
continuidade do discurso. ©Encyclopaedia Britannica do
Brasil Publicações Ltda.".
Observação: o sinal de reticências entre parênteses na
citação acima indica que um trecho foi suprimido. Isso foi
feito para destacar apenas o que nos interessa no momento.
Ficou claro? As perguntas onde, quando, a que horas,
para onde e outras assemelhadas têm como respostas
advérbios ou orações adverbiais de tempo e de lugar e
podem ser isoladas através de vírgulas. Como você
pontuaria o texto agora? Eu faria assim:
Mário Souto embarca para Miami
Mário Souto embarca amanhã, às 8 horas da noite, no
Aeroporto de Cumbica, rumo a Miami, na Flórida, para
fazer um curso de inglês de 30 dias, na Universidade de
Miami.
Tudo isso está claro para você?
É importante que você dê seus primeiros passos como
escritor de forma segura e sem hesitação.
Continuando com o mesmo paradigma, faça os
seguintes exercícios em seu caderno de rascunho:
Loja de roupas inaugura novas instalações
Governador visita cidade
Papa viaja à África
Eu vou viajar
Brasil enfrenta Argentina
Estou mudando de casa
Convite para uma festa
A vovó vai chegar
A inauguração do cinema
Concurso de beleza
Nasceu um bebê
O fim do mundo
Vamos agora observar os paradigmas sob um aspecto
mais ampliado.
Observe o exemplo a seguir:
Carta a meu amigo distante
Início
(aqui você justifica sua carta ou apresenta o motivo
por que escreveu)
Meu amigo, que saudade de você! Como sinto sua falta
e como me fazem falta aqueles momentos que passamos
juntos, vivendo nossa juventude com alegria e
despreocupação. Éramos crianças. Não nos preocupávamos
com a vida nem com o futuro e o futuro chegou. Confesso
que estou com medo agora.
Meio
(aqui você desenvolve o assunto que levou você a
escrever a carta)
Lembra-se de nossas brincadeiras no colégio? De como
nós nos sentávamos no fundo da classe e ríamos de tudo,
principalmente de nosso professor de redação, aquele
velhinho que falava das maravilhas ocultas nos livros, à
espera de nossas descobertas? Ele nos contava histórias
assustadoras de alunos que haviam encalhado no vestibular,
porque não sabiam escrever. E nós nem ligávamos!
Fim
(aqui você arremata a sua carta)
Agora eu percebo o quanto ele estava certo. Em breve
enfrentarei o vestibular e confesso que estou preparado para
tudo, menos para a redação. Sabe o que fiz? Vasculhei meus
armários e encontrei os cadernos do nosso curso de redação.
A resposta estava lá: ler e praticar. Era o que ele nos dizia.
Por que não acreditamos nele?
Um abraço e, quando tiver tempo, ligue para mim!
Não se preocupe quanto ao conteúdo da carta. É
importante que você grave agora um dos paradigmas mais
importantes para todo escritor:
saber como começar, desenvolver e encerrar um texto.
Em tudo que escrever, dentro de uma sequência lógica,
deverá haver um início, um meio e um fim. Isso não
significa que o assunto deverá ter um início, um meio e um
fim e veremos isso mais à frente. O que importa agora é que
você grave essa sequência natural em todo texto: início,
meio e fim.
Para transpirar um pouco e praticar, use o paradigma
acima para escrever uma carta a um amigo, informando que
sente saudades dos tempos em que estudavam juntos e, ao
mesmo tempo, comunicando que você vai viajar para algum
lugar, num determinado dia, para fazer algo importante.
Solte a sua imaginação e transpire um pouco.
Quando terminar, leia seu texto em voz alta umas duas
ou três vezes. Se você sentir que algumas palavras não soam
bem em relação ao conjunto, mude-as.
Como?
Ora, consulte seu aliado: o dicionário.
Após ter feito isso e corrigido seu texto, peça para que
dois ou três amigos leiam e comentem o que você escreveu.
Quando eles fizerem isso, leia atentamente o que eles
escreveram. Se não entender, peça esclarecimentos, mas não
rebata, retruque ou tente explicar. O que eles observarem é o
que o seu texto está transmitindo. Não tente convencê-los do
que você quis dizer, pois o que importa é o que você disse
efetivamente.
Após isso, leia, releia e medite em tudo o que foi feito.
Depois disso, reescreva com calma o texto, leia-o em voz
alta e, se estiver satisfeito(a), guarde-o por uns dois meses.
Após esse tempo, leia-o novamente e, se ficar satisfeito com
ele, guarde-o. Caso contrário, volte ao início do processo.
Quanto mais você investir em você mesmo, criando
alternativas para desenvolver seu estilo e suas habilidades
na escrita, mais rápidos serão os resultados.
Você pode contribuir com esse processo e praticar,
reunindo alguns amigos e fundando um Clube Literário, que
deverá se reunir semanal, quinzenal ou mensalmente, a
critério de seus membros. O objetivo do clube é que todos
escrevam e submetam seu trabalho à apreciação dos amigos,
trocando ideias, críticas construtivas, novidades e técnicas.
Uma das regras básicas deve ser esta:
- Após a leitura de um texto, ninguém poderá dizer:
não gostei!
Se houver alguma crítica a ser apresentada, ela deverá
ser precedida de um elogio ao texto ou a um dos aspectos
que se ressaltaram. É preciso estimular os amigos sempre.
- Ler e praticar deverá ser o lema de seu Clube
Literário.
A LINGUAGEM
Uma das dificuldades mais visíveis na maioria de
nossos estudantes é a de diferenciar a linguagem falada da
linguagem escrita. Muitos acabam escrevendo da mesma
maneira como falam e isso compromete todas as suas
redações.
Isso não significa, absolutamente, que você deve abolir
a linguagem falada dos seus textos. Haverá momentos em
que ela poderá ser necessária e seu uso terá sentido e nexo.
Isso vai ocorrer numa narração, quando estiver contanto
uma história e precisar reproduzir a linguagem falada, como
no seguinte exemplo:
Brincadeira
— É, ué! Cê nunca brincou?
— Não.
— Por quê?
— Por quê? Porque sim.
— Sua mãe não deixa, né?
— É.
— O pai falou que cês são entojados.
— Que é entojado?
— É pessoa que não liga pros pobre... Que tem o rei na
barriga.
— Rei na barriga?
— É, rei na barriga. Cê não sabe o que é ter o rei na
barriga?
— Não. Como é que é, conta pra mim? — virando-se
para o outro, cheio de curiosidade. O sol do meio-dia
enlanguescia a sombra do abacateiro e nem chegava a
ressecar o chão, ainda úmido. Pelo ar corria o crem-crem
cadenciado, mas não havia vestígios ainda de uma
queimada, longínqua que fosse.
— Ter rei na barriga, continuou o outro, é pensar que é
o cancã da vila, sabe, né? É pensar assim, sem ligar pros
outros.
— E nós é isso que cê falou?
— Meu pai que falou.
O menino tornou a encostar-se à cerca. Seus olhos
acompanharam uma abelha, revolutearam com alguns
urubus lá em cima, na reta dos aviões, e depois baixaram
para o cordão dos sapatos. Um graveto estalou em suas
mãos. De repente virou-se e encarou o outro, perguntando
sério:
— Cê quer ser meu amigo?
— Ué! Mas eu não sou seu amigo?
— Não, mas não amigo assim de vizinho. Amigo assim
de verdade, pra ajudar a gente, ficar perto da gente, amigo
de verdade mesmo, ara!
— Por quê?
— Porque... ué! Porque sim! — soube somente
responder. Para que, realmente, queria um amigo?
— Cê que sabe, né.
— Mas tem de que ser amigo de verdade.
— Ah, mas não vai dar certo.
— Por quê?
— Porque cê não sai pra brincar com a gente...
— Mas amigo não é só pra brincar.
— Então pra quê?
— Pra quê? Ué, pra que sim — (para que realmente
queria um amigo?).
— Mas amigo só de nome...
— Não, não só de nome. Amigo pra ficar junto,
conversar...
— Como, ué? Cê não sai da barra da saia da sua mãe.
Parece mariquinha...
— Não é verdade, viu? — interrompeu. Na sua mão
pesava uma pedra. Para quê?
— Não?
— Não, se eu sair ela me bate.
— Não falei? Sua mãe é enjoada, não quer ver cê
brincando que nem a gente.
— Não é verdade, viu?
Recostou-se de novo, amuado, à cerca. A inutilidade da
pedra em sua mão exasperou-o. Com raiva, arremessou-a na
direção de um frangote que passava por perto. A ave, com
pulos e bater de asas, safou-se do perigo. O outro riu e
comentou:
— Que pontaria ruim que cê tem!
(Agosto, L P Baçan)
Ao fazer uma dissertação para a sua professora,
seguramente você terá de empregar uma linguagem formal,
mais escolhida, diferente daquela que usaria para mandar
um bilhete para um amigo. Quando falamos em escrever e
escrever bem, estamos sempre nos referindo a essa
linguagem formal, onde os aspectos gramaticais e o
vocabulário são mais exigidos e empregados com correção.
Isso ocorre porque ao empregar essa linguagem, fatalmente
você está passando por um processo de avaliação, que tanto
pode ser um teste de conhecimentos em seu curso como
uma prova eliminatória num concurso público ou no
vestibular.
É por isso que frisamos sempre que toda leitura que
fizer deverá ser acompanhada de um dicionário, de forma
que você possa constantemente enriquecer seu vocabulário,
ao mesmo tempo em que vai memorizando novos
paradigmas.
E por falar em paradigmas, vamos recortar um trecho
do texto que apresentamos anteriormente.
— O pai falou que cês são entojados.
— Que é entojado?
— É pessoa que não liga pros pobre... que tem o rei na
barriga.
— Rei na barriga?
— É, rei na barriga. Cê não sabe o que é ter o rei na
barriga?
— Não. Como é que é, conta pra mim? — virando-se
para o outro, cheio de curiosidade. O sol do meio-dia
enlanguescia a sombra do abacateiro e nem chegava a
ressecar o chão, ainda úmido. Pelo ar corria o crem-crem
cadenciado, mas não havia vestígios ainda de uma
queimada, longínqua que fosse.
— Ter rei na barriga, continuou o outro, é pensar que é
o cancã da vila, sabe, né? É pensar assim, sem ligar pros
outros.
— E nós é isso que cê falou?
— Meu pai que falou.
O menino tornou a encostar-se à cerca. Seus olhos
acompanharam uma abelha, revolutearam com alguns
urubus lá em cima, na reta dos aviões, e depois baixaram
para o cordão dos sapatos. Um graveto estalou em suas
mãos.
Aplicando o que já conhecemos sobre a utilização de
paradigmas, reescreva o texto acima, mudando as palavras
em vermelho e criando uma nova cena. Após ter feito isso,
pare e reflita por instantes. Você recriou uma cena, usando
um paradigma ou modelo. Ao fazer isso, no entanto, teve de
usar elementos de seu conhecimento. Elementos que podem
ter sido assimilados ou incorporados devido a uma
observação sua ou em decorrência de alguma coisa que
tenha lido.
Preste atenção no seguinte trecho, retirado do texto.
O sol do meio-dia enlanguescia a sombra do
abacateiro e nem chegava a ressecar o chão, ainda úmido.
Pelo ar corria o crem-crem cadenciado, mas não havia
vestígios ainda de uma queimada, longínqua que fosse.
Para reescrevê-lo, você terá de imaginar como fica a
natureza com o sol do meio-dia e, ao mesmo tempo,
imaginar a cena completa, como a presença de algum
detalhe interessante no ar.
Vamos supor que você more na cidade e que sua
realidade seja diferente daquela narrada na história. Seu
texto poderia ficar mais ou menos assim:
O sol do meio-dia aparecia timidamente sobre a rua e
nem chegava a secar as poças de água, após o temporal.
Pelo ar corria o cheiro de cimento molhado, mas não havia
vestígios ainda de estiagem, por mais breve que fosse.
Se você morasse a beira-mar, numa aldeiazinha de
pescadores, talvez sua versão fosse esta:
O sol do meio-dia anunciava a chegada dos barcos e
nem chegava a incomodar os olhos, sempre alertas no mar.
Pelo ar corria um sentimento crescente de impaciência, mas
não havia vestígios ainda de uma vela desfraldada, por
mais distante que fosse.
Na realidade, se você mesmo fosse reescrever algumas
vezes o mesmo paradigma, fazendo as alterações, com
certeza escreveria cenas diferentes todas as vezes. Para isso,
estaria usando a sua imaginação, empregando cenas e coisas
que já viu em sua vida ou que leu em outro texto.
Se para escrever você precisa conhecer a técnica e ter
conteúdo, podemos resumir que conhecendo vários
paradigmas e tendo conteúdo, você poderá escrever sobre
qualquer assunto. O que você não aprender pela observação,
aprenderá pela leitura, sendo que, nesta em particular, você
conta com uma vantagem adicional: conhecer novos
paradigmas ou modelos.
Observar e ler, isto é essencial para você ser um bom
escritor. Quer ver o que um especialista no assunto disse?
Leia os dois artigos a seguir. São curtos, mas muito
elucidativos.
A LEITURA
A leitura pode ser considerada como a própria fonte de
todos os processos de assimilação do estilo; engendra-os e
resume-os.
A leitura forma as nossas faculdades, faz que as
descubramos, desperta as ideias, alenta a inspiração. É pela
leitura que nascemos para a vida intelectual. É após a leitura
que nos tornamos escritores. Ensina-nos a arte de escrever
como nos ensinam a gramática e a ortografia.
A leitura é a mais nobre das paixões. Nutre a alma
como o pão nutre o nosso corpo. Dizia Napoleão I,
referindo-se a Hudson Lowe, que o coibia dos seus passeios:
— Este homem devia compreender que o exercício é
tão necessário aos meus membros, como a leitura ao meu
espírito.
Alphonse Karr chamou à leitura "uma ausência
agradável de nós próprios".
Os grandes escritores passaram a metade da sua vida a
ler.
Dizia Montesquieu:
— Um quarto de hora de leitura consola-me de
qualquer desgosto.
Um livro é um amigo com que se pode contar sempre.
Alphonse Daudet aconselhava a um confrade,
vergando à dor de um grande luto:
— Leia muito!
(A Formação do Estilo, Antoine Albalat)
DEVEMOS ESCREVER?
"Uma pergunta nos ocorre desde já: devemos escrever?
Não será mau serviço favorecer as tendências para se cobrir
de letras o papel? Não haverá já bastante escritores? Será
preciso avisarmos o que escrevem mal?
Estamos inundados de livros. Que será a literatura,
quando toda a gente a praticar? Ensinar a escrever não será
impelir o próximo a publicar tolices? Não será baixar a arte
o pô-la ao alcance de todos, e não a amesquinharemos,
tornando-a mais acessível? Eu própria protestei, numa obra
especial, contra essa doença de escrever, que nos invade e
que faz desanimar o público.
Há nisso evidentemente um perigo, mas o abuso de
uma coisa não prova que ela seja má. Todos falam, mas nem
todos são oradores. Vulgarizam-se a pintura, mas nem todos
são pintores. Nem todos os músicos, compõem óperas.
É excelente ensinar-se a escrever, tanto pior para
aqueles que degradem o mister. De mais, aqueles que
quiserem seguir nosso conselho deverão aplicar-se a
escrever bem, e aqueles que se aplicarem, serão obrigados a
escrever pouco.
Além disso, podemos escrever, não só para o público,
mas para nós próprios, para satisfação pessoal. Aprender a
escrever bem é aprender a julgar os bons escritores.
Primeiramente, haverá a vantagem da leitura.
A literatura é um atrativo, como a pintura e a música,
uma distração nobre e permitida, um meio de tornar
agradável as horas da vida e os enfados da solidão."
(Arte de Escrever, Antoine Albalat)
Como se vê, aprender a ler é o primeiro caminho para
aprender a escrever. Observar as coisas ao seu redor o
tempo todo, com olhos críticos e sensíveis ao mesmo tempo,
vai lhe dar elementos para empregar em suas futuras
redações.
Quando mencionamos a leitura e a observação, assistir
aos noticiários na televisão, principalmente dos
apresentadores que comentam a notícia, dará elementos para
compreender o mundo que o cerca, formar opinião a
respeito dos mais diferentes assuntos e fornecerá, por fim,
constantes e renovados paradigmas para serem usados.
Por exemplo: o que você diria se fosse levado a um
programa de auditório, na televisão, e um microfone fosse
colocado diante de seu rosto. Para tornar isso mais divertido,
assinale uma das opções abaixo:
( ) - Perderia a fala e ficaria com tremedeira.
( ) - Chamaria a mamãe.
( ) - Sairia correndo.
( ) - Procuraria me acalmar e pensar num paradigma
qualquer.
Se você escolheu a quarta alternativa, teria dito algo
mais ou menos parecido com isto:
"Bom dia (boa tarde ou boa noite) telespectadores
deste maravilhoso programa. É uma prazer enorme estar
aqui com vocês e com este (esta) apresentador(a)
sensacional, que diariamente nos enche de alegria com suas
brincadeiras e com sua presença encantadora."
E se fosse um programa de rádio?
Fácil também!
"Bom dia (boa tarde ou boa-noite) ouvintes deste
maravilhoso programa. É uma prazer enorme estar aqui
com vocês e com este (esta) locutor(a) sensacional, que
diariamente nos enche de alegria com suas brincadeiras e
com sua presença encantadora."
E se você fosse convidado a saudar os participantes de
uma gincana de sua escola?
Igualmente fácil!
"Bom dia (boa tarde ou boa noite) participantes desta
maravilhosa gincana. É um prazer enorme estar aqui com
vocês e com esta turma sensacional, que sempre nos enche
de alegria com suas brincadeiras e com sua presença
encantadora."
Percebeu as vantagens de se conhecer mais e mais
paradigmas e poder empregá-los em qualquer situação com
correção e estilo, transmitindo sua mensagem ou realizando
sua tarefa de forma simples e objetiva?
Para isso, é preciso ler e observar! E diferenciar a
linguagem escrita formal ou literária da linguagem oral,
usada no seu dia-a-dia. Nesta o compromisso maior é
traduzir necessidades naturais e imediatas, de forma prática,
sem preocupações maiores com a língua e com os aspectos
estéticos ou literários.
Na linguagem oral ou informal você usa construções
típicas de seu grupo, como as gírias, ou de sua região, como
o linguajar do gaúcho, do paulista, do carioca ou do
nordestino. Ela é reforçada afetiva e emocionalmente com
construções, como o uso do diminutivo ou de expressões
como aquelas empregadas em relação a uma criança e até de
expressões técnicas, conhecidas apenas por profissionais de
uma determinada área.
Todos esses aspectos podem e devem ser registrados,
mas dificilmente serão conhecidos e entendidos em outras
regiões de um mesmo país, que dirá de países diferentes. Ao
aprender a escrever, é preciso que você aprenda a escrever
usando a língua nacional, entendida em qualquer canto do
país e até por estrangeiros que aprendem a nossa língua.
Gírias, regionalismos e linguagem técnica podem ser um
grande empecilho ao completo entendimento de seu texto.
Quando você escrever, esforce-se para ser entendido por
todos ou pela grande maioria. Vocabulário rebuscado nunca
foi sinônimo de cultura e erudição. Se o fosse, o autor do
texto abaixo teria recebido um Prêmio Nobel de Literatura.
Leia e aprecie:
Depoimento de um homem numa delegacia de polícia
"Preclaro bacharel: um larápio, numatizando-se na
caliginosidade
da
noite
transacta,
insuflou-se
sorrateiramente em meu tugúrio e surrupiou, de sob o meu
catre, o meu bispote doirado, instrumento com o qual
degluto contumazmente a minha infusão de drupas
elipsoides ou globosas, vermelhas, com escassa polpa
adocicada e duas grandes sementes, torradas e moídas,
como soem deglutir os de minha estirpe."
Entendeu? Consulte seu dicionário para entender o que
foi dito.
Deixando agora de lado os exageros do texto anterior, é
preciso que você jamais se esqueça de que sempre haverá
uma palavra exata para transmitir seu pensamento da
maneira mais simples e eficaz. Pode ser difícil encontrá-la,
pois a tendência de todo aquele que começa a escrever é
buscar as palavras difíceis, comprometendo o sentido. Mais
tarde, fará inevitavelmente o caminho de volta, buscando a
linguagem simples, despojada, mas exata e correta para a
sua comunicação.
Façamos outro teste agora. Escreva 30 linhas, contando
as atividades de um velho, do momento em que ele se
levanta da cama até ir se sentar num banco, na praça de sua
cidade, onde ficará olhando o prédio da igreja. Inclua um
pequeno diálogo, de forma a criar um pequeno conto.
Se já fez o exercício, veja como eu o fiz. Observe que a
linguagem é simples, sem rebuscamento, facilmente
entendível:
O Velho
"A carapinha desbotada emergiu vagarosamente do
travesseiro. Sentou-se, pés à caça dos chinelos. A cada dia
ficava mais difícil encontrá-los.
Vestido, arrastou-se até a cozinha.
— Dia, Cido! Dia, Zefa!
Pouco falavam. Quarenta anos de casamento ensinaram
o significado das coisas: cada gesto, cada olhar, cada mover
de músculos.
À porta, cumprimentou o dia e espreguiçou-se
dolorosamente. Foi até a bacia, no tanque. Lavou o rosto.
Depois foi à privada. Quando voltou, sentou-se à porta. Ela
estendeu a caneca de café. Ele olhou o céu cinzento,
anunciando a estação das águas.
Ela olhou na mesma direção: o que você vai fazer
hoje?
Ele deu de ombros: zanzar por aí.
Desinteressada: e o dinheiro da aposentadoria?
Alheio: já tirei.
Terminou o café ralo. Deixou a caneca. Caminhou
perdido pela casa. Apanhou o chapéu. Saiu. O vento fresco
agitou a camisa contra o peito magro. Parou, como sempre,
na praça da matriz. Sentou-se num dos bancos. Ficou
olhando a construção.
(Sassarico, L P Baçan)
Em menos de 30 linhas foi feita a tarefa. Essa lição é
importante para você se lembrar de que, quando soltar a
imaginação para descrever, narrar ou dissertar sobre alguma
coisa, você terá de usar seu poder de síntese ou selecionar
quais aspectos serão ou deverão ser ressaltados. Nem tudo
que o velho fez após acordar é interessante, mas nessas
linhas, além de descrevê-lo como um velho (carapinha
desbotada), foram acrescentados outros aspectos, como o
corpo dolorido (espreguiçou-se dolorosamente), sua
aposentadoria, sua falta de ação ou atividade (caminhou
perdido pela casa) e que era pobre (terminou o café ralo) e
magro (o vento fresco agitou a camisa contra o peito
magro).
É interessante notar que o texto apresentou o essencial
da história, mas você pode interpretá-la ou desenvolvê-la
através de inúmeros comentários e observações. Veja, por
exemplo, o momento do diálogo dele com a esposa. Imagine
a cena. Imagine duas pessoas que convivem juntas há mais
de quarenta anos. É praticamente uma vida. O entendimento
já dispensa as palavras. Basta um olhar para o outro para
perceber alterações, problemas, mudanças de humor, saúde
e tudo o mais.
Vá um pouco mais longe. Imagine um velho,
aposentado e pobre, sem nada para fazer na vida a não ser
apenas sobreviver com os magros recursos de sua
aposentadoria. Imagine o tédio e, ao mesmo tempo, as
pequenas coisas que faz para passar o tempo. Como se sente
uma pessoa assim? Quais são seus projetos de vida? O que
espera do futuro? O que lhe dá satisfação? O que lhe traz
algum prazer na vida?
Para cada uma dessas respostas, você tem uma história
e é isso que torna o ato de escrever importante. Chamar a
nossa atenção ou a atenção dos outros para esses pequenos,
mas importantes, aspectos da vida e da condição do ser
humano.
Essas características do texto você pode levar para uma
dissertação facilmente e isso só é possível quando você tem
conteúdo ou conhecimento para transmitir, fruto de suas
observações ou de suas leituras. Quer saber como? Vejamos
como exemplo um trecho de um texto já apresentado
anteriormente:
"A leitura é a mais nobre das paixões. Nutre a alma
como o pão nutre o nosso corpo." Dizia Napoleão I,
referindo-se a Hudson Lowe, que o coibia dos seus
passeios:
— Este homem devia compreender que o exercício é
tão necessário aos meus membros, como a leitura ao meu
espírito.
Alphonse Karr chamou à leitura "uma ausência
agradável de nós próprios".
Os grandes escritores passaram a metade da sua vida
a ler.
Dizia Montesquieu:
— Um quarto de hora de leitura consola-me de
qualquer desgosto."
Lembra-se desse texto, não? Observe como o autor faz
uma afirmação (A leitura é a mais nobre das paixões. Nutre
a alma como o pão nutre o nosso corpo.), depois apresenta
rapidamente alguns argumentos para comprovar sua
afirmação. Para isso, cita um exemplo histórico (Napoleão
I), um exemplo literário (Alphonse Karr chamou à leitura
"uma ausência agradável de nós próprios."), refere-se aos
grandes escritores e transcreve uma citação de Montesquieu.
Com esses aspectos, confirma sua afirmação de que a leitura
faz bem para o corpo (tão importante quanto o exercício
físico para Napoleão I) e para a alma (consola de qualquer
desgosto, segundo Montesquieu).
Obviamente, para fazer essas citações e buscar esses
exemplos, o autor teve de ler a respeito. Veja como isso é
importante, pois agora você já conhece essas citações e
esses personagens. Pode usá-los futuramente em uma
redação em que sejam aplicados. Percebeu a vantagem da
leitura? Sem contar que você tem mais alguns paradigmas
para usar.
Quer ir além? Descubra inicialmente quem foram esses
personagens: Antoine Albalat, Napoleão I, Alphonse Karr e
Montesquieu. Depois, procure descobrir mais algumas
citações a respeito da importância da leitura, anotando-as,
bem como o nome do seu autor e obra de onde foram
retiradas. Poderão ser úteis, quando tiver de falar a respeito
do assunto.
Esse exemplo a respeito da leitura pode ser estendido a
todo e qualquer outro tipo de assunto. Organizar fichários
com citações, além de ser muito divertido, pode enriquecer
seu vocabulário e seus paradigmas. Você pode trocá-las com
seus amigos do Clube Literário ou com seus colegas de
escola. Se tiver um computador, organize um arquivo por
ordem alfabética de assunto. Se não tiver, use um fichário
comum, um caderno com divisões em ordem alfabética.
Vamos fazer mais um exercício? Apenas praticando
você atingirá a perfeição. Usaremos o mesmo trecho acima,
novamente marcando em vermelho as palavras que devem
ser alteradas.
"A leitura é a mais nobre das paixões. Nutre a alma
como o pão nutre o nosso corpo". Dizia Napoleão I,
referindo-se a Hudson Lowe, que o coibia dos seus passeios:
— Este homem devia compreender que o exercício é
tão necessário aos meus membros, como a leitura ao meu
espírito.
Alphonse Karr chamou à leitura "uma ausência
agradável de nós próprios".
Os grandes escritores passaram a metade da sua vida a
ler.
Dizia Montesquieu:
— Um quarto de hora de leitura consola-me de
qualquer desgosto.
Substitua a leitura por qualquer outro assunto,
reescrevendo o texto de forma coerente. Para isso, terá de
encontrar três citações: a primeira para substituir a de
Napoleão I, a segunda para a de Alphonse Karr e a última
para a de Montesquieu.
Você pode falar sobre a mentira, a vaidade, a violência,
a ignorância, a caridade, o vício, a preguiça, o medo ou
qualquer outro tema. E já que o assunto é leitura, vamos um
pouco mais longe com isso. Você já deve ter ouvido falar
sobre livros cuja leitura é necessária para enfrentar o
vestibular.
Você já deve ter lido alguns deles ou com certeza irá
lê-los no futuro. Talvez porque goste de leitura, talvez
porque isso será preciso. Não importa a sua motivação para
isso, mas o que importa é que, ao ler cada um desses livros
ou simplesmente ao ler qualquer livro, você deve organizar
uma espécie de arquivo, com as informações básicas a
respeito dele, de forma a poder lembrar-se dessa leitura, a
qualquer tempo, com uma consulta a essas anotações.
A melhor forma de fazer isso é usando uma ficha de
leitura. Há diversos modelos para isso e, para que você
inicie de forma correta e completa o seu arquivo, vou
fornecer-lhe dois modelos e você pode escolher um ou
adaptá-lo conforme sua conveniência. Preenchendo-o você
terá as informações mais importantes a respeito de uma
determinada leitura, livro, autor ou personagens. Nesse caso,
as fichas de leitura também podem ser trocadas em seu
Clube Literário, numa atividade complementada por
pequenas palestras dadas por quem fez a ficha. É uma forma
de repartir conhecimentos e aumentar seu repertório. Ao
ouvir falar do livro, com certeza vai acontecer o seguinte:
você desejará ler o livro também e isso será muito bom.
Vejamos os modelos de fichas, então!
Roteiro para Análise de Obra Literária
Autor
Obra
Personagens
Principais e secundários.
Enredo
Resumo geral e por capítulos.
Caracterização das personagens
Perfil físico e psicológico de cada personagem do livro.
Temas
Principal e secundários.
Tempo
Quando ocorre a história?
Estilo
Estrutura - conto, novela ou romance.
Técnicas da narração - o que chama a atenção na forma
em que o texto é narrado?
Linguagem Empregada
Ressalte aspectos interessantes do vocabulário e das
expressões usadas pelo autor e anote citações que possam
ser usadas futuramente em suas próprias redações.
Opinião Pessoal
Conclusões Pessoais
Outra sugestão é esta ficha de leitura igualmente
útil.
Roteiro para Leitura de Textos
Primeira leitura
Compreensão do conjunto
Segunda leitura
Divisão em partes
Retirada dos termos acessórios
Copiar o texto, excluindo os termos supérfluos,
deixando apenas aqueles essenciais à compreensão
Terceira leitura
Resumo das ideias principais
Resumo das ideias secundárias
Estrutura utilizada
Gênero, forma, aspectos gramaticais e outros
Enredo
Forma de apresentação e desenvolvimento do enredo
Encaminhamento do desfecho ou da conclusão
Aspectos relevantes
Conclusão pessoal
CLASSES DE PALAVRAS
Para escrever bem, você precisa ter um bom
vocabulário, ler e observar para ter conteúdo e conhecer e
aplicar as estruturas da língua adequadamente, seja
utilizando paradigmas, seja dominando os aspectos
principais da gramática.
Estudar gramática pode ser um tormento ou uma
aventura fascinante. Muito mais do que um desfilar de
regras e exceções, esse estudo proporciona um arsenal
invejável a quem gosta, deseja ou precisa aprender a
escrever.
Sabe por quê?
Porque ao invés de ficar copiando e imitando
paradigmas alheios, você poderá criar seus próprios
paradigmas. Não seria realmente sensacional?
Quer uma amostra?
Para escrever, você precisa dominar o uso de duas
classes de palavras: substantivos e verbos.
Por quê?
Simplesmente porque os substantivos são utilizados
para formar o sujeito e os complementos e o verbo é
utilizado para forma o predicado. Sujeito, predicado e
complementos formam as orações. Orações formam
períodos. Períodos formam parágrafos. Parágrafos formam
capítulos e vai por aí a fora.
Voltemos, porém, ao básico: substantivo e verbo.
Vamos começar por aí.
Vamos ver o que o nosso Dicionário Aurélio
Eletrônico diz a respeito dessas palavras:
"Substantivo - Gramática: Palavra com que se nomeia
um ser ou um objeto (substantivo concreto), uma ação,
qualidade, estado (substantivo abstrato), considerados
separados dos seres ou objetos a que pertencem."
Substantivo comum: denota os seres de uma espécie
em sua totalidade.
Substantivo próprio: denota um ser específico entre
todos os de uma espécie.
"Verbo - Gramática: Palavra que designa ação, estado,
qualidade ou existência de pessoa, animal ou coisa."
Vamos entender bem alguns conceitos. Para isso,
responda rápido?
O que todo mundo tem e até o nada tem?
Resposta: um nome.
E toda palavra usada para dar nome a um ser, objeto,
ação, qualidade ou estado é um substantivo.
Conhecendo essas classes de palavras, podemos formar
uma série infinita de paradigmas.
Quer ver como?
substantivo
(sujeito)
Gatos
Crianças
Pedro
verbo
(predicado)
odeiam
fazem
ama
substantivo
(complemento)
ratos.
bagunça.
Maria.
Usando esses paradigmas simples, com apenas duas
classes de palavras, você pode criar um texto.
Logicamente será um texto limitado, mas você poderá
dar seu recado ou contar sua história tranquilamente.
Não teremos uma obra prima literária digna de elogios,
porque resultará em algo mais ou menos parecido com isto:
Pedro e Maria
Pedro ama Maria. Maria gosta de Pedro. Pedro
mandou flores. Maria recebeu flores. Maria aprecia flores.
Ao escrever dessa forma, você percebe que uma das
primeiras coisas que incomodam e limitam a elaboração do
texto é necessidade de ficar repetindo nomes. Pedro aparece
três vezes. Maria aparece quatro vezes. Flores aparece três
vezes. Tudo isso num trecho muito curto.
Como lidar com isso?
É simples!
Basta usar outra classe de palavras, os pronomes, cuja
função principal é justamente a de substituir os nomes.
Vamos consultar nosso dicionário para saber um pouco
mais sobre o assunto!
Pronome - Gramática: palavra que substitui o
substantivo, ou que o acompanha para tornar-lhe claro o
significado.
Essas classes de palavras são matéria do primeiro grau
e com certeza você deve já deve tê-las estudado ou ainda vai
estudar. Quando isso acontecer, fique atento às explicações
de seu professor de gramática, pois o conhecimento desse
assunto é muito importante para o desenvolvimento de sua
redação.
Isso nos leva a outra providência que será sempre
muito útil para você, ao elaborar suas redações. Tanto
quanto ter sempre consigo um dicionário, é da máxima
importância que você tenha também uma gramática ou
reúna seus livros escolares que tratam do assunto, para
poder consultá-los sempre que necessário.
Com o passar do tempo e a evolução dos seus estudos,
você verá que conhecer a gramática não é tão difícil assim.
Empregá-la corretamente desde o princípio do seu
aprendizado vai tornar suas redações futuras uma tarefa
cada vez mais fácil.
Sabendo agora que o pronome substitui o nome,
podemos usá-los para melhorar o nosso texto inicial. Vamos
ver como fica?
Pedro e Maria
Pedro ama Maria. Ela gosta dele. Pedro mandou
flores. Ela as recebeu. Maria aprecia flores.
As repetições diminuíram, mas ainda surgem no texto.
Essas repetições indicam um estilo pobre e um vocabulário
limitado. Como você já tem um vocabulário razoável e quer
enriquecer seu estilo, você pode substituir nomes por
pronomes, mas pode substituir as palavras por sinônimos ou
que levem ao mesmo significado.
Entendeu isso?
Pedro pode ser um jovem, um homem, um rapaz, um
garoto, um aluno, um professor ou outro nome que você
queira atribuir a ele.
Com Maria acontece a mesma coisa. Ela pode ser uma
jovem, uma moça, uma mulher, uma namorada, uma noiva,
uma esposa ou outra coisa.
As flores podem ser margaridas, rosas, cravos, violetas
ou qualquer outra.
Com isso em mente, vamos enriquecer nosso texto?
Pedro e Maria
Pedro ama Maria. A jovem gosta dele. O rapaz
mandou rosas. A garota recebeu-as. Ela aprecia flores.
Leia o trecho da forma como foi escrita inicialmente.
Agora releia o texto acima.
Percebeu a diferença entre os dois?
O segundo é muito mais rico e agradável, sem
repetições que o tornam mecânico e sem beleza.
Mas...
O que é mais importante! Os dois dizem a mesma
coisa! Um de um modo rudimentar, outro com certo estilo.
Assim, nossos paradigmas iniciais podem ser
ampliados.
Poderemos ter:
Sujeito
Substantivo/pronome
Sinônimo
Predicado
Verbo
Sinônimo
Complemento
Substantivo/pronome
Sinônimo
A língua portuguesa é muito rica e tem outras classes
de palavras que podem vir se juntar aos nossos paradigmas,
tornando-os ainda mais expressivos.
Quando você pensa numa flor, automaticamente vem a
sua mente algumas qualidades ou atributos comuns a todas
as flores, como o colorido, o perfume, a beleza e coisas
assim.
Quando você fala de uma pessoa, lembra-se de suas
qualidades e defeitos.
Como fazemos para destacar esses aspectos?
Fácil!
Acho que você já deve ter se lembrado de uma classe
de palavra capaz de proporcionar isso, não é? São os
adjetivos! Vamos ver o que sobre isso encontramos no
dicionário Aurélio Eletrônico!
Adjetivo - Gramática: palavra que caracteriza os seres
ou os objetos nomeados pelo substantivo, indicando-lhes
uma qualidade, caráter, modo de ser ou estado; p. ex.:
pessoa caridosa, mulher honesta, boa casa, céu nublado.
Lembra-se dos adjetivos?
Que tal usar alguns deles para enriquecer nosso texto e
treinarmos um pouco?
Nossa redação poderia ficar assim, por exemplo:
Pedro e Maria
Pedro ama Maria. A linda jovem gosta dele. O
simpático rapaz mandou rosas sem espinho. A adorável
garota recebeu-as. Ela aprecia flores perfumadas.
O que achou agora?
Não ficou um texto mais rico e significativo? Estamos
acrescentando detalhes que permitem ao leitor formar as
imagens contidas nessa pequena história.
Você se lembra do texto sobre o velho, no capítulo
anterior? Detalhes importantes foram acrescentados sobre
ele com simples adjetivos, uma classe de palavras muito
útil, mas muito perigosa também, principalmente quando o
autor se deixa levar pela empolgação e chega ao exagero.
Esse é um risco que você não deve correr, procurando
desde o princípio policiar-se e apenas utilizar aqueles
adjetivos que são realmente importantes e necessários para
transmitir as imagens que você deseja. Se não fizer isso,
pode acabar escrevendo alguma coisa parecida com isto:
Pedro e Maria
O belo e maravilhoso Pedro ama a simpática e
atraente Maria. A linda e delicada jovem gosta dele. O
imprevisível e galanteador rapaz mandou rubras rosas
perfumadas. A estupefata e maravilhada garota recebeu-as.
Ela aprecia flores delicadas e odorosas.
Nosso texto não ficou parecido com aquele do
"preclaro bacharel"? Ficou rebuscado e piegas?
Antes de concordar, consulte o dicionário para saber o
que significa exatamente a palavra piegas. Este é um hábito
que você deve manter sempre em ação.
Você percebeu que seu texto pode ser enriquecido com
o uso adequado dos adjetivos, que embelezam os
substantivos. E quanto aos verbos? E se quisermos ressaltar
uma ação ou uma qualidade, o que podemos fazer? Há
algum tipo de adjetivo para ser usado com o verbo?
Bem, certamente temos uma classe de palavras capaz
de fazer isso. Você já sabe qual é? Falou advérbio? Acertou!
É uma classe de palavras muito poderosa, pois não se limita
a modificar apenas um verbo. Ela vai além disso. Para
descobrir até onde, vamos ver o que diz o nosso dicionário
Aurélio.
Advérbio - Gramática: palavra invariável que modifica
um verbo, um adjetivo ou outro advérbio, exprimindo
circunstância de tempo, lugar, modo, dúvida, etc.
Antes de continuarmos, preste atenção a um segredo
simples que vai livrar você de muitos problemas no futuro.
Na definição de advérbio vemos uma expressão
interessante: palavra invariável. Sabe o que isso significa?
Exatamente!
Trata-se de uma palavra que não varia, não tem
feminino nem masculino, singular nem plural. Você não diz:
elas são muitas bonitas, ou eles são muitos bonitos. Diz
apenas elas são muito bonitas ou eles são muito bonitos.
Ao acrescentarmos advérbios ao nosso texto, não
apenas modificando os verbos, mas também os adjetivos,
poderemos enriquecer ainda mais o nosso texto, ampliando
o alcance de nossa história.
Quer ver como isso pode acontecer?
Pedro e Maria
Pedro ama muito Maria. A linda jovem gosta demais
dele. O simpático rapaz mandou ontem rosas sem espinho.
A adorável garota recebeu-as alegremente. Ela sempre
aprecia flores perfumadas.
O que achou?
Não ficou melhor, muito mais rico, mais cheio de
detalhes, permitindo que as imagens sugeridas sejam mais
completas? Isso significa que o estilo empregado no texto
evoluiu, agregando novos conhecimentos. O paradigma ou
modelo é o mesmo do início. Todos eles dizem a mesma
coisa, mas a forma como isso é feita é que faz diferença.
O nosso texto experimental, como você pode observar,
é todo construído com períodos simples. Há até um nome
para esse tipo de oração. Ela é chamada de oração absoluta.
Você pode escrever um texto inteiro com orações absolutas.
Mas... se quiser enriquecer seu estilo, poderá uni-las. O que
não é difícil. Elas podem se manter independentes, sendo
chamadas de assindéticas. Nesses casos, é fácil reconhecêlas: são separadas por vírgula, como no exemplo a seguir,
baseado no texto com que estamos trabalhando:
Pedro e Maria
Pedro ama muito Maria, a linda jovem gosta demais
dele. O simpático rapaz mandou ontem rosas sem espinho,
a surpresa garota recebeu-as alegremente, ela sempre
aprecia flores perfumadas.
O texto continua legível. Dá para entender o sentido,
mas ficou um tanto estranho, você não achou? Nós podemos
melhorar, usando agora orações unidas ou coordenadas
entre si. Esse tipo de oração é chamado de coordenada
sindética.
Coordenada é uma palavra derivada do verbo
coordenar. Para entender melhor esse processo, vamos ver
no dicionário o que significa coordenar?
Coordenar - Verbo: 1. Dispor segundo certa ordem e
método; organizar; arranjar. 2. Ligar, ajuntar por
coordenação.
Um detalhe importante no sentido do verbo coordenar
é o de exigir certa ordem ou método. Assim, ao coordenar
orações, é preciso que você faça isso seguindo uma
determinada ordem para que o sentido não seja prejudicado.
Ao unir orações coordenadas, você pode ordená-las
conforme o sentido delas. Pode somar ideias semelhantes,
pode juntar ideias opostas, pode alternar ideias, pode
apresentar uma conclusão ou pode usar uma oração para
explicar a outra. Cada um desses tipos de orações recebe um
nome. Se você ainda não estudou isso nas aulas de língua
portuguesa, logo o fará. Caso já o tenha feito, consulte sua
gramática para reavivar a memória.
De qualquer forma, essas orações coordenadas são
chamadas de:
Aditiva: Como o próprio nome já diz, essa oração
acrescenta uma ideia semelhante à oração anterior. Por
exemplo: Pedro ama muito Maria e a linda jovem gosta
demais dele. Outro exemplo: Não brigam nem discutem
jamais.
Adversativa: Aqui o sentido é diferente. A ideia é
adversária, contrária ou oposta à da oração anterior. Por
exemplo: Pedro ama muito Maria, mas a linda jovem não
gosta mais dele. Ou: Não brigam, mas discutem sempre.
Alternativa: Este tipo de oração revela uma alternativa
em relação à oração anterior. Exemplo: Brigam ou discutem
o tempo todo. Outro exemplo: Ora ele manda flores, ora
manda presentes.
Conclusiva: A segunda oração apresenta uma
conclusão em relação à primeira. Exemplificando: Pedro
está infeliz, pois sofre. Ou: Maria é mulher, logo é mais
sensível.
Explicativa: Finalmente, como o próprio nome já diz,
a segunda oração é uma explicação da primeira. Quer um
exemplo? Não fale mal de Maria, porque Pedro gosta muito
dela. Ou então: Pedro mandou flores, porque está
apaixonado.
Você percebeu que, do início do capítulo até agora, já
reuniu elementos capazes de transformar um texto rústico
numa peça literária significativa? Vamos ver o que
poderemos fazer, acrescentando os conhecimentos agora
adquiridos sobre as orações coordenadas.
Como ficaria nosso texto agora?
Eu faria algo assim!
Pedro e Maria
Pedro ama muito Maria e a linda jovem gosta demais
dele. O simpático rapaz ora manda rosas sem espinho, ora
remete presentes. A surpresa garota recebe-as alegremente,
pois aprecia flores perfumadas e surpresas.
Isso é muito diferente do texto original, não concorda?
Já que estamos nesse terreno, vamos avançar só um
pouquinho mais. Você se lembra como os substantivos são
importantes para formar as orações? Percebeu como os
adjetivos e os advérbios acrescentam riqueza e significado
ao texto?
Ao usar um substantivo, um adjetivo ou um advérbio,
normalmente você usa uma palavra ou uma expressão. Se
quiser sofisticar um pouco mais, você pode usar uma oração
ao invés de uma palavra. Nesses casos, você estará usando
orações subordinadas substantivas, adjetivas ou adverbiais.
É fácil de entender, não?
Vejamos alguns exemplos:
Ao invés de dizer Pedro ama muito Maria e a bela
jovem gosta demais dele, você pode dizer Pedro ama muito
Maria, que é uma bela jovem. Neste caso, usei uma oração
subordinada adjetiva para qualificar Maria.
Conhecendo essa matéria — a subordinação — você
estará acrescentando elementos novos e importantes ao seu
conhecimento e isso seguramente tornará mais fácil seu
trabalho na elaboração de redações futuramente.
Como esse é um assunto que possivelmente você ainda
não tenha estudado, espere o momento oportuno para tirar
todas as suas dúvidas com seu professor e explorar ao
máximo esse poderoso recurso. Se já o estudou, pegue sua
gramática e faça uma revisão do assunto, sempre pensando
na aplicação prática dessas preciosas informações.
Além disso, procure conhecer ou revisar
conhecimentos a respeito das outras classes de palavras e
sobre os demais termos da oração.
Após este capítulo, você já poderá criar períodos
compostos, juntando orações. Com isso, terá novos
paradigmas.
Digamos agora que tudo isso que você aprendeu são
ferramentas que podem ser usadas na construção de um
texto. Vamos dar um modelo e você vai elaborar uma
redação.
O tema é simples: uma rosa. Para construir o texto,
preencha os espaços em branco antes e depois das palavras
em destaque, usando substantivos e verbos, juntando
adjetivos e advérbios para enriquecer o texto.
Uma rosa
e
mas
pois
logo
nem
e
Como ficou seu texto? Quer saber como eu faria? Eu
pensaria em algo mais ou menos assim:
Uma rosa
Uma rosa é um presente delicado e as mulheres gostam
disso. Dê uma rosa ao seu amor, mas faça disso um
momento especial. Seja gentil, pois isso conta muito.
Agrade, logo será agradado também. Nem você esquecerá
esse momento nem a outra pessoa o fará. Dê uma rosa e
receberá amor em troca.
No começo isso pode parecer difícil. Com a prática,
isso vai se tornar cada vez mais fácil. Para ajudar você nessa
tarefa, use o modelo acima para escrever sobre os seguintes
assuntos:
A rua onde moro
Uma criança
Meus amigos
O programa do Ratinho
Meu maior medo
O mar
Procure aplicar todos os conhecimentos já adquiridos e,
se for preciso, comece escrevendo o texto da forma
rudimentar, como fizemos neste capítulo, depois vá fazendo
as alterações até chegar à última etapa.
É claro que o exercício visa apenas desenvolver suas
habilidades e o produto deles não pode ser considerado uma
redação acabada. Isso porque precisamos observar alguns
aspectos muito importantes de toda redação. Ao partir de
um tema e desenvolver uma dissertação completa, por
exemplo, precisamos pensar numa estrutura um pouco mais
complexa, mas sem oferecer maiores dificuldades, desde
que você a entenda corretamente.
Estamos falando da estrutura básica de todas as
redações: início, meio e fim, ou apresentação,
desenvolvimento e conclusão, ou isso dito em outras
palavras.
Por fim, vamos considerar como redação a descrição, a
narração, a dissertação e a correspondência.
Tudo bem para você?
Então relaxe!
Só vamos falar sobre isso no próximo capítulo.
Enquanto isso, leia o conto que apresento em seguida,
depois treine, usando-o como paradigma e reescrevendo a
história algumas vezes.
Gatos Miando na Noite
Pai — Por que esses gatos miam toda noite?
Filhinho — De certo eles sentem frio ou trazem
alimentos para os gatinhos e os estão procurando.
Pai — Então por que os gatinhos também miam?
Filhinho — Por certo eles sentem saudade de sua
mamãe e de seu papai. Talvez eles tenham ido buscar
alimentos e só voltem à noite.
Pai — Os gatos podem miar de alegria e de tristeza.
Filhinho — Alegria quando acham alimento e tristeza
quando não encontram?
Pai — Acho que sim. Se eles voltam sem alimentos à
noite, os gatinhos morrem de fome.
Filhinho — Então gato é que nem boia-fria?
(L P Baçan, A Cidade dos Braços Mortos)
Antes de iniciar seu trabalho, faça uma pesquisa a
respeito dos boias-frias.
Vamos treinar um pouco com poemas?
Faça o mesmo com eles, usando o modelo de cada um
para fazer seus próprios poemas.
Rendição
Sem clamor
sem choro
sem pirraça
Apenas estático
no tremor de sua passagem:
rosa passageira
no meu jardim
de brisa.
TIPOS DE REDAÇÃO
Vamos aprender um pouco mais sobre os tipos de
redação, citados no capítulo anterior.
A Descrição
Como sempre recomendamos, vamos verificar
primeiro o significado desta palavra no dicionário Aurélio
Eletrônico. Temos:
Descrição: 1. Ato ou efeito de descrever. 2. Exposição
circunstanciada feita pela palavra falada ou escrita.
Enumeração, relação.
Ficou claro?
Descrever é expor ou detalhar, usando as palavras.
Podemos fazer isso em relação a uma cena, a um ser, a um
objeto, a um cenário, a uma ação ou a qualquer outra
circunstância. Mas... Por onde começar?
Boa pergunta! A maneira mais fácil de começar é
explorar os cinco sentidos — visão, audição, tato, olfato e
paladar —, seguindo um determinado paradigma ou modelo.
Tendo isso em mente, você será capaz de fazer qualquer tipo
de descrição e isso não é uma afirmação gratuita: é um fato.
Vamos imaginar o seguinte paradigma para a descrição
de uma cena. Imaginemos um campo cheio de flores
perfumadas e frutas, com árvores, pássaros e tudo o mais
proporcionado pela natureza.
Para começar, vamos formular algumas perguntas que
poderão ser as mesmas em todas as situações.
1 - Como cheguei a este local ou a este ponto?
2 - O que estou vendo? (à direita, à esquerda, no alto,
no centro, embaixo, próximo, afastado, ao longe, no céu, no
mar, em primeiro plano, em segundo plano...)
3 - O que estou ouvindo?
4 - Que sensações (tato) teria se tocasse? (a flor, a
grama, a fruta...)
5 - Que cheiros ou perfumes estou sentindo?
6 - Que sabores eu posso sentir?
7 - Que impressão geral isso provoca em mim?
8 - Como eu resumiria isso?
Ao responder essas perguntas, seja original e criativo,
fugindo do lugar comum e do óbvio. Procure fazer uma
descrição viva, animada e realista, sem ater-se aos aspectos
negativos nem ao vulgar.
Vamos fazer um exercício? Imagine a cena do campo,
com árvores, flores, pássaros, perfume, ruídos e tudo o mais
que puder se lembrar. Depois siga o roteiro, respondendo às
perguntas. Para facilitar, coloque cada resposta num novo
parágrafo. Mãos à obra! Já está pronto? Leia e releia sua
descrição, eliminando as repetições, acrescentando aqui um
adjetivo significativo, retirando outro dali, pondo um
advérbio para esclarecer ou modificar e... pronto! Você tem
uma redação com início, meio e fim. Sabe como?
A resposta à questão 1 é a apresentação, introdução,
abertura ou início.
As respostas às questões de 2 a 7 são o
desenvolvimento ou o meio.
A resposta à pergunta 8 é o fim, encerramento,
fechamento ou conclusão.
Simples, não? Quanto mais você praticar, mais fácil vai
ficar seu trabalho. Com certeza você vai tirar algumas
perguntas e acrescentar outras, formando seus próprios
paradigmas, seus modelos pessoais que acabarão se
tornando sua marca registrada, identificando seu estilo.
Conheça agora outros paradigmas que poderão ser
usados com o mesmo fim. A questão será apenas escolher
em qual deles você fica mais à vontade para escrever.
Para Descrever uma Pessoa
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Conte como conheceu essa pessoa, ou como chegou até
ela, ou como ela entrou em sua vida.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Descreva as características físicas dessa pessoa, como
sua altura, seu peso, a cor de sua pele, sua idade, como são
seus cabelos, como é o rosto dela, sua voz e roupas que
veste. Trace seu perfil psicológico, abordando algum
aspecto de seu modo de ser, sua personalidade,
temperamento, caráter, preferências, inclinações, postura,
projetos de vida, objetivos ou até mesmo um fato curioso
atribuído a ela.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Finalize descrevendo que impressão essa pessoa
provoca em você ou cite um aspecto ou detalhe que a torna
única ou que a faz inesquecível.
Para Descrever um Objeto
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Comece dizendo o que lhe chamou a atenção nesse
objeto.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Detalhe seu formato. Compare-o com figuras
geométricas ou com objetos da natureza. Fale de seu
tamanho, largura, comprimento e altura. Descreva o
material de que é feito, peso, cor, brilho, textura e
impressões que provoca à visão e ao tato.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Finalize comentando a utilidade desse objeto ou
ressalte algum aspecto que o torna especial para você, para
alguém ou para todos, indistintamente.
Para Descrever um Ambiente
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Diga como chegou até esse local.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Fale sobre os detalhes da estrutura do ambiente,
destacando paredes, janelas, portas, chão, teto,
luminosidade, cheiros e outras impressões. Relacione os
objetos ali existentes, como móveis, aparelhos elétricos,
decoração e outros aspectos relevantes. Comente sobre as
pessoas ali presentes, o que fazem, como agem, como são,
como estão vestidas.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Finalize descrevendo a atmosfera do ambiente e as
sensações que ela provoca em você.
Para Descrever uma Paisagem
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Localize essa paisagem ou faça uma referência de
caráter geral a respeito dela.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Divida a paisagem e explique o que vê do mais perto
para o mais longe ou vice-versa. Se preferir, pode fazê-lo
movendo o foco de observação da direita para a esquerda ou
ao contrário. Use os cinco sentidos para captar todos os
detalhes desse cenário.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Conclua descrevendo a impressão que a paisagem
causou em você ou que poderá causar em quem a
contemplar.
Ficou mais fácil agora fazer uma descrição? Então
mãos à obra. Faça um exemplo de cada um dos modelos
apresentados, depois releia e corrija até ficar satisfeito com
o resultado. Depois disso, vamos passar ao próximo tipo de
redação.
A Narração.
Para não fugir à regra, vamos verificar o significado no
dicionário Aurélio Eletrônico:
Narração: 1. Ato ou efeito de narrar. 2. Exposição
escrita ou oral de um fato; narrativa.
Parece que não ficou muito claro, não? Isso acontece.
Vamos buscar o sentido de narrar e depois o de narrativa.
Narrar: 1. Expor minuciosamente. 2. Expor, contar,
relatar; referir, dizer. 3. Pôr em memória; registrar; historiar.
Narrativa: 1. A maneira de narrar. 2. Narração. 3.
Conto, história.
Agora clareou? Para ficar ainda mais claro, narrar é
relatar um fato, real ou imaginário, seguindo um tempo
cronológico ou um tempo psicológico. Essa narrativa é feita
por um narrador, a partir de um determinado ponto de vista:
ele pode ser o protagonista da história, um observador
neutro, alguém que participou do acontecimento de forma
secundária ou ainda um espectador que aparentemente
esteve presente em todos os lugares, conhece todos os
personagens, suas ideias e sentimentos.
Na narração, os personagens podem ser apresentados
diretamente, descrevendo-os, ou de forma indireta, por suas
ações e comportamentos. Lembra-se do texto do velho que
vimos anteriormente? A sua descrição não é feita
diretamente, mas por detalhes de suas ações e do seu
comportamento.
Finalmente, os diálogos ou as falas, muito comuns nos
textos narrativos, podem ser apresentados de três formas:
1 - Discurso direto — o narrador transcreve de forma
exata a fala do personagem. Exemplo:
Mário disse:
— Jamais farei isso de novo!
2 - Discurso indireto — o narrador conta o que o
personagem disse, usando verbos chamados dicendi ou de
elocução, que indicam quem está com a palavra, como:
"disse", "perguntou" e "afirmou", "retrucou". Quer um
exemplo?
Mário disse que jamais faria isso de novo.
3 - Discurso indireto livre — o narrador registra o
monólogo interior das personagens. Por exemplo:
Mário pensava. Jamais faria isso de novo. Por sua vez,
José pensava consigo mesmo. Como ele espera que eu
acredite nele?
Ou:
Como ele espera que eu acredite nele? Jamais fez nada
certo e nunca cumpriu uma promessa. É de dar nó em pingo
de água e de passar rasteira em minhoca.
Além desses, há outros elementos, como a sucessão de
acontecimentos, chamada de enredo. Este pode ser linear,
seguindo a sucessão cronológica dos fatos, ou não linear,
com cortes na sequência dos acontecimentos.
Outro detalhe importante numa narração pode ser o
cenário, que pode ser um ponto geográfico real ou
imaginário. Finalmente, um texto narrativo pode ser
dividido em exposição, complicação, clímax e desfecho.
Tudo isso, posto junto, deve manter certa unidade, isto
é, uma parte é ligada à outra de forma dinâmica. Para
conseguir isso, evite incluir longas digressões, pouco
interessantes ou estranhas à ação.
Evite também alongar-se em descrições nem em
reflexões. Restrinja-se ao que for absolutamente necessário
para o desenvolvimento do assunto, fazendo com que as
ações fluam de modo natural.
Para terminar, há tipos diferentes de narrações.
Narração Histórica: é uma exposição de fatos tal
como aconteceram, verdadeiros e passíveis de
comprovação.
Conto: é uma pequena narrativa fictícia.
Romance: obra de imaginação, em prosa, baseada ou
não em fatos reais, podendo reunir gêneros diferentes, como
a poesia, o conto, a crítica, a filosofia, a história e a ciência
social. Nele o autor relata acontecimentos pouco comuns,
mas verossímeis, introduzindo situações particulares,
movimentos, ações e emoções.
Fábula: narrativa curta, contendo uma lição moral sob
o véu da ficção, diferindo do conto, pois seu objetivo é o
ensinamento moral e não apenas o desfecho.
Novela: Narração mais extensa que o conto e menor
que o romance.
É bem possível que raramente você seja obrigado a
escrever uma narração, da mesma forma que uma descrição.
Na maior parte das vezes, seus trabalhos escolares exigirão
que você elabore uma dissertação, cuja estrutura e detalhes
veremos mais à frente.
Mesmo assim, caso você goste de escrever e de contar
histórias, será interessante pôr essas histórias no papel.
Para isso, pode usar o paradigma a seguir, adaptando-o
conforme a sua conveniência ou conforme o seu estilo.
Vejamos!
Narração
1º Parágrafo - EXPOSIÇÃO
Faça uma breve introdução ao assunto. Você pode
comentar sobre o que vai ser narrado, determinando tempo e
cenário. Pode explicar a causa dos fatos e mesmo apresentar
as personagens.
2º e 3º Parágrafos - ENREDO
Detalhe como tudo aconteceu. Use diálogos,
reproduzindo as falas dos personagens. Procure ser criativo.
4º Parágrafo - DESFECHO
Relate como tudo terminou ou quais foram as suas
consequências ou como isso pode ser interpretado. Tente
criar suspense e surpreender no final.
A Dissertação
Vamos ao Aurélio Eletrônico:
Dissertação: 1. Exposição desenvolvida, escrita ou
oral, de matéria doutrinária, científica ou artística. 2.
Exposição, escrita ou oral, acerca de um ponto das matérias
estudadas, que os estudantes apresentam aos professores. 3.
Discurso; conferência; preleção.
Entendeu? Dissertação é uma exposição de ideias a
respeito de um tema, com base em raciocínios e
argumentações, defendendo um argumento, o que exige
coerência entre as ideias e a clareza na forma de expressão.
Pode ser dividida em:
1 - Introdução ou apresentação do tema.
2 - Desenvolvimento ou exposição dos argumentos e
das ideias sobre o assunto, fundamentando-os com fatos,
exemplos, testemunhos e provas do que se quer demonstrar.
3 - Conclusão ou desfecho.
Considerando que a dissertação será sempre muito
exigida, tanto nos seus trabalhos escolares como no
vestibular ou nos concursos públicos, vamos nos deter um
pouco mais em seus aspectos mais importantes.
Introdução
Ao iniciar sua dissertação, você deve procurar atrair a
atenção e a simpatia do leitor, preparando-o para que
compreenda o assunto. Para isso, você deve entender
exatamente o que está sendo solicitado no tema de sua
dissertação, para não fugir ao assunto.
Para isso, seja breve e simples, indo direto ao assunto,
evitando ficar dando voltas, naquilo que normalmente
chamamos de "enchimento de linguiça". Evite também
histórias ou anedotas.
O Desenvolvimento
Este é o aspecto principal da dissertação, em que você
manifesta plenamente a ideia geral ou o fato principal. Para
isso, fique atento a três aspectos muito importantes, que são:
Unidade: os pensamentos e argumentos expostos
devem ter nexo e ligação entre si, sempre voltados para o
tema proposto. Não basta amontoar linhas e parágrafos. É
preciso que haja coerência entre eles. Jamais pense numa
redação como um amontoado de linhas ou uma sequência de
parágrafos, sem ligações internas nem compromissos e
coerência entre elas.
Movimento e progressão: tudo que for incluído em
sua dissertação tem que ser relevante e estar ligado ao tema
proposto. Deverão ser expostos de uma forma natural,
fazendo com que as ideias evoluam até o arremate final.
Para isso, dois cuidados principais devem ser tomados.
Evite uma evolução muito rápida ou então muito lenta e
arrastada. Para evitar a primeira, acrescente pequenas
observações, citações (lembra que falamos delas e de sua
importância?) relatos, fatos ou informações. Para não cair na
armadilha da segunda, fuja das reflexões profundas e das
digressões.
Interesse: consiste em manter o espírito do leitor em
constante expectativa, evitando a monotonia ou tornando o
desenvolvimento e a conclusão facilmente presumíveis.
Deve ser sempre crescente e estar habilmente distribuído em
toda a composição.
A conclusão
É o final da dissertação e pode conter uma
recapitulação do que foi desenvolvido, terminando com uma
observação que produza uma última impressão favorável no
espírito do leitor. Deve ser breve, persuadir e convencer.
Posto dessa forma, podemos elaborar agora um
paradigma para as dissertações.
Dissertação
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Apresente o tema com dois ou três argumentos
significativos em relação a ele.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Desenvolva os argumentos apresentados, usando as
informações que tenha sobre o tema, justificando-as ou
comprovando-as.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Resuma suas argumentações e apresente
conclusão final com base em sua argumentação.
uma
Lembre-se que suas dissertações podem partir de
paradigmas, como nos exemplos que vimos ao longo de
todo o livro até aqui. Você pode adotar um modelo de um
escritor já consolidado ou criar seu próprio modelo. Se
ainda acha isso difícil, tenha calma. Você vai aprender.
Correspondência
Já vimos, no início, um modelo de correspondência que
pode ser usado em seus contatos com amigos e parentes.
Quando tiver que se relacionar com autoridades,
instituições, empresas e isso exigir uma correspondência
mais formal, você terá que usar modelos específicos de
correspondência comercial. Já apresentamos um modelo de
requerimento e outro de recibo. Novos modelos serão
acrescentados num capítulo final, que você poderá consultar
e copiar, sempre que precisar. Isso porque a linguagem
usada na correspondência comercial é específica, existindo
modelos para praticamente todos os casos.
No seu emprego, criatividade e originalidade ficam
prejudicadas em função da objetividade e da brevidade.
Ofícios, requerimentos, pedidos, referências, memorandos e
muitos outros exigem de seu redator conhecimento do
modelo específico e das fórmulas comumente empregadas
para cada caso.
Para exemplificar isso e simplificar seu aprendizado,
incluiremos um capítulo com modelos.
E para não fugir à regra, vamos consultar dicionário
Aurélio para entendermos o significado da palavra.
Correspondência: 1. Ato ou efeito de corresponder (se). 2. Troca de cartas, bilhetes ou telegramas. 3. Correio.
Artigo de jornal em forma de carta aos redatores; carta a um
jornal.
Vamos praticar? Na sequência vamos apresentar uma
série de temas para você desenvolver. Para que as diferenças
fiquem bem acentuadas, principalmente em relação à
descrição, à narração e à dissertação, para cada um dos
temas propostos, desenvolva uma redação específica.
Cada tema será, então, desenvolvido na forma de uma
descrição, de uma narração e de uma dissertação. Leia e
releia os aspectos que diferenciam uma da outra. Se tiver
alguma dúvida, você pode saná-la pela Internet, visitando
meu endereço.
Infelizmente não existe outra forma de aprender a
escrever, a não ser escrevendo, da mesma forma que você
não pode aprender a andar de bicicleta por correspondência,
sem usar a bicicleta. Pratique a partir de agora, pois no
futuro (vestibular ou concurso público) isso lhe será exigido.
Se praticar agora, sempre usando seu dicionário e sua
gramática, no futuro, quando for se preparar para um passo
decisivo em sua vida, poderá dedicar uma atenção maior às
outras matérias, uma vez que a redação não será um
fantasma que virá para assombrar sua vida. Concorda
comigo?
Então mãos à obra e divirta-se com os temas
apresentados. Habitue-se a não escolhê-los, mas escrever
sobre o que aparecer. No vestibular isso será muito
importante.
TEMAS PARA REDAÇÃO
Um tipo interessante
A criança e seu brinquedo
Um homem apressado
Amor de mãe
A cidade vista do alto
Violência
Onde estão nossos heróis?
Quem paga a conta do progresso?
Minha escola é um caminho
Como vejo o meu futuro
O que significa crescer
O que já aprendi com meus pais
Onde dorme aquela criança?
ESTRUTURA DO TEXTO
Vamos fazer uma pausa neste ponto. Quero lhe mostrar
uma porção de sugestões e dicas que você poderá aplicar em
suas futuras redações. Se quiser, pegue uma das redações do
capítulo anterior e use nela as sugestões que forem
possíveis. O objetivo é melhorar seu estilo e fornecer novos
paradigmas, facilitando seu trabalho.
Antes disso, porém, vamos falar um pouco sobre
aprendizado. Muita gente ainda acredita que escrever é um
dom e que apenas poucos privilegiados o recebem. Nada
mais falso do que isso.
Todos nascemos com o dom de fazer tudo aquilo que
desejarmos fazer. Basta nos empenharmos naquilo que
escolhermos e desenvolvermos ao máximo nossas
habilidades.
Todos nós temos imaginação. Todos nós somos
criativos. Se nos disciplinarmos e investirmos em nós
mesmos, seguramente alcançaremos todos os nossos
objetivos.
Isso não é apenas um puro e simples blá-blá-blá, mas
resultado das pesquisas científicas que vêm sendo
desenvolvidas nos últimos tempos sobre a capacidade do
cérebro.
Em 350 antes de Cristo, Aristóteles, o célebre filósofo
grego, acreditava que o cérebro nada tinha a ver com o
pensamento, que viria do coração. De lá para cá, muita coisa
foi descoberta sobre o cérebro e seu funcionamento e muita
coisa mais ainda precisa ser descoberta.
Entre as últimas novidades a respeito do cérebro, sabese hoje que o cérebro melhora seu desempenho ao longo da
vida, desde que seja permanentemente treinado e exercitado
com atividades intelectuais. Entre elas são recomendadas o
xadrez e a leitura.
Trata-se de um depósito de informações fantástico, que
melhora quanto mais exigido ele for. Um psiquiatra
brasileiro, num experimento, ligou eletrodos na cabeça de
uma senhora de 52 anos, medindo em seguida o fluxo
sanguíneo em seu cérebro.
Na sequência do teste, pediu que ela memorizasse três
textos, começando com um simples, um médio e um mais
complexo.
No primeiro, o fluxo sanguíneo aumentou um pouco,
no segundo a mudança já foi mais visível e no terceiro o
fluxo foi intenso, aparecendo visivelmente no aparelho
medidor.
Finalmente, já foi comprovado cientificamente que
30% da nossa capacidade intelectual vem de atributos inatos
do cérebro. Isso quer dizer que o dom é comum a todos nós.
Já o restante 70% de nossa capacidade intelectual é fruto de
aprendizado, treinamento e desenvolvimento.
Percebeu o significado disso?
Todos temos dom para tudo. Nossas preferências
pessoais, frutos de nossas observações, experiências e
educação, acabam nos direcionando para esta ou aquela
atividade em particular.
Mesmo que tenhamos o dom para esta ou aquela
atividade, vamos ter que aprendê-la e desenvolver nossas
habilidades para nos tornamos cada vez melhores nela.
É por isso que eu sempre digo e repito: você pode
aprender a escrever.
Se quiser!
Se não quiser, não existe fórmula milagrosa que o faça
aprender.
E você só aprenderá a escrever, escrevendo.
Entendido?
Então vamos ao que interessa.
Aqui temos uma série de dicas e sugestões para você
usar em suas redações.
Vamos começar isso falando a respeito de estruturas do
texto, para você entender ainda melhor o assunto.
Vamos lá!
ESTRUTURA DO TEXTO
1. Narração
Vamos supor que você tenha que escrever uma
narração. Se você tiver um planejamento, um paradigma,
uma estrutura já feita para esse texto, tudo será mais fácil.
Experimente fazer o seguinte:
A - Descrição do cenário
Comece fazendo uma descrição do cenário. Faça isso
seguindo uma determinada direção: do céu para o chão, do
chão para o céu, da direita para a esquerda ou vice-versa.
B - Apresentação do personagem
Fale sobre o personagem, descrevendo-o física ou
psicologicamente. Faça isso com sutileza. Você não precisa
dizer que ele é magro, por exemplo. Diga, sugerindo isso,
"sua sombra magra"...
C - Ligação do personagem com o cenário
Explique o que o personagem faz ali, como chegou, o
que busca, para onde vai. Solte a sua imaginação.
D - Finalização
Temos aqui um momento importante, quando você
finaliza uma cena e, ao mesmo tempo, prepara ou sugere
outra. É mais ou menos como num filme, dividido em
partes. Procure, aqui, criar algum impacto ou um pouco de
suspense para manter o leitor atento à sequência ou
satisfeito com o que foi apresentado.
Observe que cada item significará um novo parágrafo
no texto. Quer experimentar?
Pode fazer isso sozinho ou precisa de ajuda?
Quer um exemplo? Vejamos, então, o que pode ser
feito a respeito.
Medo da Chuva
Um fio de água corria no leito seco do rio. Além da
margem pedregosa, o caminho estendia-se em uma linha
quase reta. Uma tênue nuvem de poeira pairava acima da
estrada. Rápidas lufadas de vento formavam espirais e
caracóis transparentes, que se desfaziam com a mesma
rapidez com que haviam surgido.
Ao longe, os passos miúdos e incertos deixavam
marcas suaves na poeira, como se os pés de um anjo
houvessem tocado levemente a estrada. Um vulto feminino
avançava, como se o leito do rio fosse sua meta final. As
mesmas lufadas de vento que agitavam a poeira brincavam
com seus cabelos, agitando-os. Os olhos azuis apertavamse, tentando enxergar o caminho à frente.
Ela sabia que teria de passar mais uma vez pelo leito
do rio. Sempre fazia isso e sempre sentia o mesmo medo. À
medida que se aproximava da margem, seu coração ia se
apertando e os passos tornavam-se ainda mais miúdos na
poeira.
Parou junto ao fio de água. Fechou os olhos.
Lembrou-se de outro dia. O coração bateu forte. Ela sabia
que não chovia nas cabeceiras do rio, mas ficou ali, trêmula
e assustada, esperando a tromba d'água arrastá-la de novo
rio abaixo.
Quando se tem um roteiro a seguir, as coisas ficam
mais fáceis. Para seu governo, esse texto foi feito agora,
seguindo o modelo. Não vou corrigi-lo nem retocá-lo.
Vamos supor agora que você tenha de fazer uma
narração, usando dois personagens. Como lidar com isso?
Uma das melhores técnicas é usar o conflito de forças. Sabe
por quê? Porque as narrativas são movidas a conflitos.
Imagine uma cena de uma novela de televisão. A vilã
da história está numa sala com o galã. A mocinha vai
entrando, mas o galã não a viu. A vilã, muito esperta, abraça
o mocinho, beijando-o ardentemente. A mocinha, ao ver
aquilo, vira as costas e afasta-se. Para os dois fazerem as
pazes vão demorar pelo menos uns dez capítulos. O conflito
resultante daquele mal entendido vai manter todos em
suspense, esperando o desfecho, o momento em que tudo
vai se esclarecer e em que a vilã será punida por seu ato.
Agora mude o foco e imagine a cena:
Janete entra na sala, vê seu noivo e sua pior inimiga
abraçados e beijando-se. Vai calmamente até eles,
encarando-os como se nada tivesse acontecido. Ele diz:
— Meu bem, essa maluca me abraçou e me beijou sem
motivo.
Janete responde:
— Nem precisava me explicar, amor. Conheço essa
jararaca e sei do que ela é capaz.
Tenho certeza de que, no mesmo momento, você
mudaria de canal, pois não havendo conflito, não há
interesse nem suspense. Ao usar o conflito de forças você
define quem será o protagonista da história e quem será o
antagonista.
A partir daí, é só explorar suas diferenças. Como?
Quer um exemplo?
Está bem!
— Vou parti-lo ao meio — gritou Edson, com os
punhos cerrados e o rosto crispado de raiva.
— E você acha que isso vai adiantar alguma coisa? —
respondeu Mário, abrindo os braços e encarando seu
oponente com olhos calmos e serenos.
Entendeu o que eu quis dizer?
Então vejamos agora alguma coisa a respeito de...
2. Descrição
Temos aqui um bom esquema para você fazer uma
redação, descrevendo um imóvel: casa, escola, hospital ou
qualquer outra coisa. Basta seguir o modelo e você fará um
bom trabalho. Lembre-se sempre que cada item vai
constituir um novo parágrafo.
A - A localização do Imóvel
Fale sobre a cidade e/ou o bairro e/ou a rua onde ele se
localiza. Mencione como se faz para chegar lá, se há
aspectos históricos ao redor ou detalhes dignos de nota. O
imóvel pode estar localizado ao lado de um bosque, à beira
de um rio, próximo de um morro, por exemplo.
B - Aspectos Externos
Descreva o estilo da construção, como está seu estado
de conservação, se há detalhes dignos de nota, como as
janelas trabalhadas, o telhado diferente ou algum tipo de
grade ou portão. Descreve o jardim, se houver.
C - Aspectos Internos
Descreva cômodo por cômodo, como se estivesse
entrando e passeando pelo interior do imóvel. Fale das
paredes, janelas, portas, assoalho, forro e móveis. Informe
se o barulho de fora incomoda, se há iluminação ou não.
D - As Pessoas
Há pessoas no imóvel? O que fazem? Como são?
Como se comportam? Como vivem? Qual a ligação delas
com o lugar.
E - Conclusão
Finalize a descrição com uma observação importante
ou com uma comparação entre esse imóvel e outro. Faça
com que o leitor sinta vontade de conhecer o local ou de
jamais ter que entrar nele. Neste ponto ou ao longo da
descrição, diga que emoções a visão lhe desperta, que
detalhes impressionam, que perfume ou cheiro incomodou.
Use os cinco sentidos para ilustrar sua descrição.
O que me diz disso? Não fica mais fácil, tendo um
roteiro a ser seguido? Então mãos à obra! Descreva uma
casa de sua cidade ou de seu bairro. Escolha uma que tenha
uma história ou que encerre algum acontecimento
importante.
Quer algumas dicas sobre a descrição?
Tudo bem!
Você manda e não pede!
Há diversas maneiras de você enfocar uma descrição.
Você pode usar uma delas no seu trabalho, alterná-las ou
usar todas elas, se isso for necessário.
Vejamos, então, que enfoques podemos dar em uma
descrição:
Enfoques Descritivos
A - Enumeração descritiva de detalhes
O nome pode parecer um pouco complicado, mas a
tarefa é simples: basta enumerar os detalhes do que está
descrevendo. Por exemplo: Aquela era uma sala estranha.
Havia um aparador ao lado da janela, uma cômoda no centro
e um guarda-roupa sem portas no canto direito. Varais
cruzavam o aposento e neles estavam dependuradas toalhas,
camisas, calças, roupas de criança, fraldas e uma porção de
outras peças esquisitas. Nas paredes, alinhavam-se uma
série inquietante de quadros, retratando cenas campestres,
castelos antigos, motocicletas reluzentes, crianças de
diversas idades e outras esquisitices.
B - Semelhanças e Diferenças
Descreva o que vê, traçando paralelos com coisas
semelhanças ou apontando diferenças. Por exemplo: O vaso
havia sido posto sobre um móvel isolado, como uma obra de
arte em destaque num museu. Ninguém, porém, olharia para
ele com prazer ou alegria, pois não se tratava de uma obra
de arte nem de um objeto com elaborado senso estético. Na
verdade, aquele vaso era uma aberração, uma esquisitice,
um erro, possivelmente, de um ceramista descuidado. Tinha,
no entanto, o poder de provocar um mórbido fascínio.
C - Perguntas e Respostas
Pode ser uma boa saída, quando falta imaginação.
Cuide para que as respostas sejam coerentes e as perguntas
sejam bem formuladas. Por exemplo: O que poderia ser ela,
imóvel no centro da praça? Por que as pessoas paravam para
olhar aquela estranha figura? E por que ela nada dizia e
apenas corria os olhos pela multidão, como se procurasse
alguma coisa? No fundo, era apenas uma garotinha
assustada, perdida entre aquelas pessoas, à procura de um
rosto conhecido.
D - Revelando Sentimentos
Aqui você pode ser mais subjetivo em sua descrição,
sem, no entanto tirar o enfoque necessário no objeto ou
coisa a ser descrito. Para descrever uma casa, imagine-se
diante dela e descreva seus sentimentos, fazendo a ligação
entre eles. Exemplo: Uma sensação perturbadora dominava
meu corpo, enquanto eu olhava aquela casa. Suas janelas
fechadas pareciam barrar a entrada do ar e da luz e já me
sentia sufocado, imaginando aqueles cômodos escuros e
abafados...
Vejamos, agora, como isso se aplica à...
3. Dissertação
Vamos ver um modelo de dissertação que pode ajudar
você a caminhar com segurança.
Antes de qualquer coisa, concentre-se no tema
apresentado, procurando entender o que se pede. Nada pior
que iniciar uma redação sem saber exatamente sobre o que
se vai escrever.
Tendo lido e entendido o tema, siga o seguinte roteiro
com calma e tranquilidade:
Dissertação
A - Posicione-se a respeito do tema
B - Apresente argumentos para defender seu ponto de
vista
C - Estabeleça um paralelo
D - Determine consequências
E - Conclua com base no que argumentou
anteriormente
(No esquema acima, o item A é a Introdução, os itens
B, C e D constituem o desenvolvimento e o item E é a
conclusão.)
Vamos fazer um exercício prático? Que tal falar sobre
a violência? Vamos ver o que podemos fazer.
A Violência
A - A violência é, hoje, um dos sintomas mais visíveis
da falência de nossas mais valiosas instituições: a família e
o Estado.
B - A família mostra-se incapaz de educar e controlar
seus membros e está se tornando, a cada dia que passa, uma
das fontes primárias da violência, destacando-se,
vergonhosamente, a violência contra as crianças. O Estado
não consegue cumprir seu papel nem proporcionar à
sociedade os mais elementares meios de subsistência e
proteção.
C - A história está cheia de exemplos de momentos em
que, acuada, a sociedade reagiu de modo irracional,
procurando fazer valer seus direitos.
D - A violência parece fora de controle e as famílias
assistem impotentes sua escalada, sob os olhares
benevolentes dos governantes, que nem atacam as causas,
muito menos as consequências desse flagelo. Até quando a
sociedade suportará isso?
E - Talvez tenha chegado o momento de se levantar,
ainda que timidamente, a voz e demonstrar a insatisfação e o
medo. Seguramente outras vozes se somarão a essa voz
inicial e em breve o coro de vozes insatisfeitas chegará até
quem tem o poder de mudar isso.
Esse tipo de paradigma ou modelo pode ser
desenvolvido por você, criando seus próprios modelos.
Quanto mais você praticar, mais fácil ficará utilizar esse
sistema.
Finalmente, dentro desse nosso capítulo de dicas e
sugestões, vamos ver algumas...
TÉCNICAS DE REDAÇÃO
Admiração e Surpresa
A interjeição é uma classe de palavras que pode ser
usada para evidenciar emoções e sentimentos. Junto com o
ponto de exclamação podem dar mais vida e ênfase a uma
narrativa. Não hesite em usá-los no momento oportuno.
Aumentativo e Diminutivo
O uso do aumentativo ou do diminutivo leva para a
linguagem do texto um tom afetivo e espontâneo. Tanto
podem servir para demonstrar carinho como para
demonstrar desprezo ou reprovação. Exemplos:
Carinho
Amorzinho, paizinho, queridinha, coisinha fofa,
paizão, garotão.
Desprezo ou reprovação
Sujeitinho, bestinha, morcegão, atrasadão, goiabão,
bobão.
Características Diferenciais
Quando você for descrever pessoas, procure registrar
aquelas características que as diferenciam das outras. Todos
nós temos pés, cabeça, tronco, pernas, mãos e pés. Fale
apenas dos diferenciais, daquilo que torna a pessoa especial.
Veja os seguintes exemplos:
Exemplo 1 - Características comuns
O garoto tinha duas pernas, dois braços e uma cabeça.
Seu tronco em nada se diferenciava do tronco dos demais
meninos de sua idade. Em cada mão tinha cinco dedos. Em
cada dedo havia uma unha... (tudo isso é desnecessário, não
acha?)
Exemplo 2 - Características diferenciais
O garoto tinha uma estranha característica: a qualquer
momento do dia, podia-se vê-lo com as mãos cruzadas
diante do peito e a cabeça pendendo sobre o ombro direito,
como se fosse uma estátua. Ficava imóvel, com as pernas
entreabertas, sobre a enorme pedra que havia à margem da
estrada.
Cenas ou Situações Opostas
Quando tiver que escrever sobre cenas, situações e até
mesmo personagens opostos, faça-o usando um parágrafo
para cada um. Com isso você dará igual destaque a eles.
Detalhes da cena
Para valorizar a ação de um personagem, mostrando
sua concentração ou sua atenção ao que faz, narre a cena
com o máximo de detalhes possíveis.
Aqui está um exemplo disso:
Cuidadosamente ele soltou a linha enrolada no caniço,
girando-o entre as palmas das mãos, deixando a chumbada
e o anzol pendentes sobre a água. Depois, escolheu uma
gorda e ágil minhoca, vestindo com ela o anzol. Examinou a
superfície do rio, procurando sinais dos grandes peixes.
Suavemente, com um ligeiro movimento de mão, fez a isca
balançar para frente, pairar por instantes acima do espelho
líquido, depois mergulhar com um ruído característico,
logo encoberto pelo grito acusador de um bem-te-vi.
Descrição de um conjunto
A melhor maneira de descrever um conjunto é
localizando-o de alguma forma. Pode ser no tempo ou no
espaço. No espaço pode ser seguindo uma determinada
direção. No tempo, seguindo certa cronologia. Ou então,
combinando as duas formas.
Vejamos um exemplo!
"Duas horas da tarde. O armazém já estava cheio.
Eles vinham de todo canto: os do cafezal, além da ponte da
estrada de ferro e na entrada do asfalto; os do mamonal ao
redor do campo de aviação que, àquela hora, era uma
panela de pipoca, com o calor explodindo as bagas
espinhudas; aqueles das hortas à beira do Pirianito; os
pescadores do Congonhas; a turma do arrozal, nas várzeas
inundadas; os do gado e, principalmente, os do rami, nova
riqueza ameaçando as outras culturas como uma febre
verde." (L P Baçan, Febre Verde)
Dois Pontos
Sempre que tiver que enumerar uma série de palavras,
use os dois pontos, destacando os termos que serão
apresentados.
Exemplo:
Trazia consigo todos os seus objetos pessoais: uma sela
velha, um chicote partido, um par de botas sem brilho, um
revólver sem bala, uma trouxa de roupas e a moldura
lascada com uma fotografia desbotada.
Feira Livre
Para dar a impressão, num texto, de que várias pessoas
falam ao mesmo tempo, simplesmente registre o que elas
dizem numa sequência. Por exemplo:
A confusão era total e todos queriam manifestar sua
opinião. "Quero meu dinheiro de volta!" "Cadê o gerente!"
"Chamem a polícia!" "Alguém me beliscou." "Quero a
minha mãe!"
Frases nominais
Ao descrever uma cena, evite o uso constante dos
verbos ser e estar, empregando frases nominais. Para isso,
basta retirar o verbo. Ao invés de dizer "o sol estava
quente", diga apenas "sol quente". Vamos aplicar isso,
mostrando um mesmo texto em duas versões, para você
entender bem:
Versão 1
A trilha era apenas uma picada no meio da mata. As
folhas estavam molhadas ainda pelo orvalho. O calor era
insuportável.
Versão 2
A trilha, apenas uma picada no meio da mata. As
folhas, molhadas ainda pelo orvalho. O calor, insuportável.
Ordem Inversa
Vimos na apresentação dos paradigmas, que a ordem
normal
dos
termos
da
oração
é
Sujeito/Predicado/Complementos. Se você quiser dar maior
ênfase a um determinado elemento, coloque-o no início da
oração ou deslocado, entre vírgulas.
Veja os seguintes exemplos:
A - A noite caiu rapidamente sobre a floresta.
B - Rapidamente a noite caiu sobre a floresta.
C - A noite, sobre a floresta, caiu rapidamente.
D - Caiu rapidamente a noite sobre a floresta.
Ao usar esse recurso, dê o devido destaque ao elemento
que você quer realçar ou enfatizar.
Parênteses e Travessão Duplo
Para introduzir um comentário no corpo de uma
narração ou de uma descrição, use o recurso proporcionado
pelos parênteses ou pelo travessão duplo.
Exemplos:
Haviam escolhido a dedo suas roupas e estavam
satisfeitos com a elegância — e que elegância — que
exibiam no início da festa. Ou: Subiu até o palco com a
maior tranquilidade (havia se preparado para isso), certo
de que tudo correria bem.
Presente do Indicativo
O verbo no presente aproxima o leitor do texto, por que
o torna atual, o que não ocorre com o verbo no passado.
Avalie você mesmo, observando os seguintes exemplos:
Verbo no passado
O mal andava à solta pela cidade. Cada esquina
escondia um vulto amedrontador. As sombras dos galhos
das árvores, projetadas contra as paredes das casas,
criavam um cenário tétrico e trágico.
Verbo no presente
O mal anda à solta pela cidade. Cada esquina esconde
um vulto amedrontador. As sombras dos galhos das
árvores, projetadas contra as paredes das casas, cria um
cenário tétrico e trágico.
Sequência de Verbos
Para transmitir a impressão de rapidez, agilidade ou
mobilidade de um personagem, faça isso com uma
sequência de verbos de ação, como no seguinte exemplo:
O cavalo empinava, escoiceava, corria, refugava,
escavava, relinchava, depois desembestava de um lado a
outro do pasto.
Suspense
Crie suspense para sua narrativa, adiantando, na
primeira oração do parágrafo, alguma informação sobre o
que virá a seguir.
Exemplo:
Aquela seria uma experiência da qual jamais nos
esqueceríamos. Naquela tarde, como sempre fazíamos,
esperamos o anoitecer para ir pescar...
Termos Técnicos
Numa redação normal, evite empregar termos técnicos
ou palavras difíceis, que possam prejudicar ou comprometer
o entendimento do texto. Faça isso apenas se o contexto
assim o exigir.
Ao fazer um relatório para sua aula de ciências, isso é
válido. Numa dissertação, pode ser perigoso, principalmente
se você não tiver certeza do significado de uma determinada
palavra.
Zebra
Se você pretende seguir uma carreira e tem planos de,
no futuro, fazer o vestibular para uma determinada
profissão, é bom saber desde já que a redação é obrigatória
para todo e qualquer curso. Ela pode ter um peso maior ou
menor, conforme o curso, mas é eliminatória para todos
eles. Assim, se você não quer que dê uma zebra no seu
futuro, comece a se preparar a partir de já, organizando um
plano de leitura, que lhe fornecerá os elementos para
desenvolver todo e qualquer tema.
Este é um plano de leitura mínimo, que recomendo a
todos aqueles que desejam encarar com seriedade o
aprendizado da redação.
Plano de Leitura
Procure estabelecer um cronograma de leitura. O
conjunto de conhecimentos contido nas obras desses autores
será necessário para seu bom desempenho em qualquer
prova de redação.
Literatura Cristã — Leia a Bíblia, Novo e Velho
Testamentos, observando como eram as pessoas naquela
época, como agiam, quais eram seus sentimentos, o que as
movia, como se relacionavam umas com as outras, que
emoções demonstravam e tudo o mais que julgar
importante.
Literatura Grega — Leia textos de Homero,
Heródoto, Platão, Demóstenes, Plutarco e Epicteto.
Literatura Latina — Leia Vergílio, Cícero, Sêneca,
Tito Lívio, Tácito e Horácio.
Literatura Europeia — Não deixe de ler obras de
Shakespeare, Milton, Dante, Cervantes, Victor Hugo,
Goethe e Schiller.
Literatura de Língua Portuguesa — Procure ler
Garrett, Herculano, Castilho, José de Alencar, Castelo
Branco, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Eça de
Queirós, Rui Barbosa e Euclides da Cunha.
Literatura Atual — Procure conhecer as obras dos
autores que estão em evidência ou que se evidenciaram na
literatura mundial nas últimas décadas. Leia pelo menos
trechos de suas obras, observando seus estilos. Leia também
artigos de colunistas fixos e editoriais de jornais para
manter-se sempre atualizado. (Na Internet, você
encontrará, grátis, centenas de obras de autores
contemporâneos de língua portuguesa. Basta pesquisar.
Ao fazer isso, estará investindo em seu aprendizado e
aperfeiçoamento.)
Como normalmente os textos originais podem ser
complexos, conforme sua faixa de idade, domínio da língua,
vocabulário e hábito de leitura, procure obras resumidas ou
adaptadas desses autores. Sempre que um deles despertar
sua atenção ou ganhar sua preferência, procure ler o texto
completo.
Se você não tem o hábito da leitura, com certeza
enfrentará certas dificuldades. Não se deixe intimidar por
isso. Ler é uma atividade que requer certo método. Não
basta simplesmente passar os olhos pelo papel. Lembre-se
que seu cérebro, à medida que for sendo mais exigido, mais
apto ficará.
Para ajudá-lo nesse processo. Aqui estão algumas
regras simples e básicas:
1 - Leia atentamente e devagar.
2 - Faça-se acompanhar de um dicionário e de uma
gramática, consultando-os sempre que tiver alguma
dúvida.
3 - Tome notas e consulte-as sempre que possível,
mantendo viva em sua mente aquela obra
As anotações são importantes porque suprem a
memória. Se não fizer isso, após algum tempo terá
esquecido a maior parte do que leu. Essas anotações são
também a garantia da precisão em suas citações, quando
usar ou quiser usar uma delas.
Ao fazer suas anotações, tenha em mente que elas são
para seu uso pessoal, portanto você decide o que elas devem
conter e de que forma serão feitas. No entanto, para impor
um método, há algumas observações que você pode seguir
se julgá-las oportunas:
1 - Se está se preparando para uma prova sobre um
determinado livro, leia-o e tome notas de tudo e a propósito
de tudo.
2 - Se você tem dificuldades de encontrar formas ou
imagens corretas para exprimir suas ideias, ao ler uma obra
anote como o autor se referiu a isso ou aquilo, passando a
usar esses paradigmas em suas redações.
3 - Monte um banco de dados para seu uso, anotando
dados históricos, citações, anedotas, palavras características,
observações, meditações pessoais, reflexões e juízos
emitidos pelos autores das obras que ler.
4 - Anote também fragmentos das obras para ilustrar
ou incluir, no momento oportuno, em suas redações. Não se
acanhe e trocar anotações com seus amigos. Ampliará seu
campo de visão e certamente contribuirá para a formação de
seu estilo.
5 - Veja os modelos de fichas que foram fornecidas,
adapte-as a suas necessidades e use-as. O importante é que
você anote sempre.
O melhor método para você fazer suas anotações é à
medida que vai lendo. Registre e classifique suas anotações
em fichas ou num arquivo específico do seu computador,
caso tenha um.
Você pode montar arquivos por nome de autor,
conteúdo (Anedotas, Artes, Biografias, Descrições, Ensino,
História, Imagens, Literatura, Palavras Célebres, Pedagogia,
Filosofia, Psicologia, Retratos, Ciências) ou por outro meio
que julgar adequado. .
Vamos relaxar um pouco?
Então leia o conto a seguir, depois o use como modelo
para contar outra história.
A INFLUÊNCIA DA LUA
L P Baçan
O velho Nogueira deu uma olhada nas iscas que
estávamos preparando, sorriu com bondade e compreensão,
como se fôssemos os maiores ignorantes do mundo.
— Essa isca é para peixe de Lua Cheia... Estamos na
Minguante. A isca tem que ser outra.
Seu tom de voz foi suave, como se temesse nos ofender.
Eu olhei para o meu filho, que olhou para mim e ambos
nada entendemos daquilo tudo.
— O que há de errado com estas iscas? — perguntei.
— Servem para pegar peixe de escama e a lua é para
peixe de couro — explicou ele, cheio de bondade.
— E a lua regula alguma coisa? — indagou meu filho.
— Regula tudo, oras. Não sabia?
— Bem, eu andei lendo uns livros e...
— Já sei, eles falam que lua não "inflói" nada, não é?
— Isso mesmo.
— Tudo ignorante! — afirmou, convicto. — Para vocês
terem uma ideia, em mil novecentos e nada, veio uma turma
de pescador de São Paulo aqui, para pescar no Cuiabá. Era
lua de peixe de couro e eles queriam pescar dourado e
pacu. Eu avisei. Eles deram risada. Fui com eles, de
piloteiro...
— Quanto tempo faz isso mesmo? — eu quis saber.
— Olhe, para falar a verdade, Getúlio ainda estava no
poder e ainda tinha muito peixe no Cuiabá, aqui mesmo,
dentro da cidade. Mas deixe isso para lá. Fomos para o rio,
no meio da noite. Eles soltaram suas colheres — isca
própria para fisgar dourado, tendo o formato de uma colher
para resvalar na água e dar a impressão de um peixe menor
em fuga — e fomos rasgando a água, mas nada de peixe.
Paramos na beira do barranco e eles ficaram falando do
azar que estavam tendo. Nisso escutamos um barulhão na
água, rio acima. "O que foi isso, Nogueira?" perguntou um
deles. "É o jaú batendo", respondi logo. "É lua de peixe de
couro", ajuntei. Aí eles resolveram experimentar e logo
pegaram um jaú de cinquenta quilos...
— Cinquenta quilos, seu Nogueira? — surpreendeu-se
meu filho, que jamais imaginou haver peixes desse peso.
— Dos pequenos — acrescentou o velho. — Já peguei
maior, muito maior, no espinhel, na faixa dos seus cem
quilos.
— Nogueira, como funciona esse negócio de lua? —
pedi.
— Se olhar para a Lua Cheia, você se lembra logo de
um peixe brilhante, com escamas. É na Lua Cheia que você
pega o pacu, a pirapitinga e até a piranha, aquela que dá
bom caldo.
— Sendo assim, na Lua Minguante, escura, deve dar
muito peixe de couro — arriscou meu filho.
— Isso mesmo. Na Lua Cheia, você pesca melhor os
peixes que vivem mais perto da superfície. Na Lua
Minguante, os de couro e os do fundo, como os jaús e os
pintados grandes. Na Lua Nova, os peixes de barba, como o
surubim, o barbado, o bagre e o mandi. Na Lua Crescente,
os peixes pequenos e os dourados que vêm atrás deles...
Quando fomos dormir, naquela noite, nós nos
sentíamos como quem tivesse descoberto o segredo mais
bem guardado do universo.
Dona Jacira, mulher do velho Nogueira, quando nos
viu passar, sorriu e emendou:
— Não acredita em nada do que esse velho diz. É
mentiroso que só ele! Tudo isso aí que ele fala é conversa
de pescador.
Havia um acento de maldade e satisfação no seu tom
de voz. Coisa de mulher mesmo!
E você, não conhece uma boa história de pescadores?
Ou uma história de mentirosos?
Por que não escreve uma?
ROTEIROS DE TRABALHO
À medida que você for se exercitando, tudo irá ficando
mais fácil. Ao usar paradigmas, você tem o roteiro pronto e
o conteúdo é sugerido pelo tema proposto. Vale sempre
ressaltar que o bom entendimento do tema é fator crucial
para a elaboração de uma boa redação.
Isso se justifica porque, caso você fuja do tema, tudo o
que fizer será desconsiderado. Todo cuidado é pouco nisso.
Fugir do tema é um dos principais problemas dos
vestibulandos. Não tendo conteúdo para explorar porque
não leram, não se atualizaram ou não observaram com olhos
críticos as coisas ao seu redor, acabam enchendo linguiça ou
dizendo asneiras.
Um vestibulando, ao falar sobre o tema Comunicação
de Massas, acabou discorrendo sobre um disque-pizza.
Outro, ao falar sobre a televisão, disse que ela informa,
forma e deforma. Justificou essa última afirmação com o
argumento de que o sofá, de tanto o telespectador ficar
sentado, assistindo à televisão, acaba ficando deformado.
Pode uma coisa dessas?
Fuja disso, lendo, observando, trocando ideias e
mantendo-se atualizado(a) e ligado(a) a sua realidade e às
coisas que o(a) cercam.
Vimos diversas maneiras de você utilizar paradigmas,
partindo do que foi escrito por outras pessoas. Alguns você
pode montar, seguindo outras fórmulas que, uma vez
entendidas, tornarão seu trabalho ainda mais facilitado.
Num dos capítulos anteriores, usamos a técnica das
perguntas para montar um texto. Essa técnica merece um
capítulo à parte, pois é um poderoso instrumento para
qualquer redator sair-se bem em suas tarefas.
Tudo parte de um planejamento inicial, que pode ser
feito mentalmente ou memorizado. Se você sabe a direção
para onde tem de caminhar, tudo se torna mais fácil. Essa
técnica lhe proporciona isso.
Vamos começar com uma narração. Você precisa
escrever uma narração sobre um determinado tema. Para
elaborar o rascunho inicial do seu trabalho, responda às
seguintes perguntas:
Roteiro para um Narração
Ambiente: Onde se passa a história?
Tempo: Quando aconteceu a história?
Personagens: Quais são os personagens da história?
Conflito: Qual será o conflito entre eles?
Final: Como vai acabar a história?
Respondendo essas perguntas, você tem o roteiro
básico de sua história. Para desenvolvê-la, continua com a
técnica das perguntas.
Responda às perguntas abaixo, na sequência em que
são apresentadas ou invertendo-as, desde que isso não
prejudique o andamento da narrativa.
Com quem aconteceu?
O quê aconteceu?
Onde aconteceu?
Quando aconteceu?
Como aconteceu?
Por que aconteceu?
Quais foram as consequências ou como acabou?
Isso pode ser comparado com algum outro fato?
Isso pode ter uma conclusão ou uma moral?
Bem, o modelo está aí. Será que podemos fazer alguma
coisa com isso? Vamos pensar num tema...
Não!
Pensando melhor, vou deixar que você faça tudo por si.
Se eu fizer, será fácil para mim, pois tenho dezenas de anos
de experiência.
Vejamos agora um roteiro para fazer uma descrição. O
sistema é o mesmo. Basta observar com atenção o que
deverá ser descrito ou, caso seja algo sugerido, concentrarse, tentando formar a imagem do tema proposto. Em
seguida, responda às perguntas que julgar pertinentes ou
aplicáveis ao seu caso:
Roteiro para uma Descrição
Quem? O quê?
Quais são suas características?
Em que circunstâncias?
Alguma característica especial?
Que impressões provoca? (em relação aos cinco
sentidos)
Que sensações ou emoções provoca? (impressões
subjetivas)
Com o que pode ser associado ou comparado?
A que conclusão se pode chegar?
(Você pode incluir outras perguntas que julgar
relevantes e possam contribuir para o andamento de seu
trabalho. O importante é que elas forneçam respostas
pertinentes.)
Acho que você já se convenceu das vantagens de se ter
um método e de fazer um planejamento de sua redação. Isso
torna tudo mais fácil, pois permite que você demonstre
possuir técnica, habilidade e conhecimentos, pois tudo que
fizer terá um toque de naturalidade perceptível e
demonstrará domínio da língua e do assunto sempre que
isso for exigido.
Falando em planejamento, vamos criar um modelo para
ser usado a partir do momento em que você toma contato
com uma tarefa.
Primeiro passo: analisar o tema proposto para
entendê-lo.
Segundo passo: usar a memória para rever tudo que se
relacionar ao assunto.
Terceiro passo: definir um planejamento ou um
paradigma a ser seguido.
Quarto passo: escrever o rascunho ou a versão inicial.
Desses passos, o principal é o primeiro, pois se você
não entender corretamente o tema, vai caminhar na direção
errada e todo o seu trabalho será perdido.
Mantenha a sua calma e concentre-se:
1) Qual é o tema, o que sei a respeito, qual é a sua
definição ou o que significa? Faça-se estas perguntas ou use
o seu roteiro, previamente elaborado para essas situações.
2) Há pontos de vista divergentes ou convergentes em
relação ao tema?
3) Quais seus aspectos principais, como descrevê-lo,
quais são as suas palavras-chaves?
4) Quem? O quê? Onde? Como? Por quê? De que
forma? Quando? Ou outras perguntas, conforme seu roteiro.
7) Que exemplos, citações, modelos, bibliografia ou
informações complementares tenho a respeito do tema?
8) Que comparações posso fazer?
9) Que conclusão se pode tirar de tudo isso?
Ao responder essas perguntas, você já terá definido seu
roteiro e a sequência de sua tarefa. Agora é só escrever.
Duvida?
Escolha um tema qualquer e percorra todos os passos
recomendados acima. Se tiver dúvidas ou problemas, sabe
onde me achar!
Como você percebeu, a memória é importante para
qualquer bom redator. Vimos no capítulo anterior que,
quanto mais você exigir de seu cérebro, mais ele vai
corresponder. Sua memória vai guiá-lo na seleção das
informações, lembrando tudo que se referir ao tema.
Anote, reflita e siga em frente. Esse trabalho vai se
tornar mais fácil, quanto mais você estimular sua memória
com a leitura de bons autores, boas fontes, atualidades,
novidades e tudo que puder ser explorado ou necessário no
futuro. Isto porque se você souber aplicar bem um
pensamento alheio, terá quase tanto talento como o autor
dele.
Por outro lado, jamais cite algo que não conheça na
íntegra nem cite um autor, se não tiver certeza de que foi ele
que disse essa ou aquela expressão.
Na descrição de uma paisagem, use a memória para
adaptar uma paisagem conhecida àquela exigida na tarefa.
Para dar vida a um diálogo, procure se lembrar de palestras,
de conversas, de frases ou de citações espirituosas e
inteligentes que possa ter anotado ou ouvido.
O terceiro e o quarto passos nem precisam ser
comentados, concorda?
Vamos continuar!
Você pode ter preferência pela narração ou pela
dissertação, mas se pretende seguir uma carreira,
enfrentando um vestibular ou um concurso público, terá,
fatalmente, que aprimorar sua dissertação, pois ela será
exigida e terá um peso razoável.
Se e quando estiver disposto(a) a fazer isso, memorize
a seguinte sequência:
Roteiro para Dissertação
Primeiro passo: siga os passos para o entendimento do
tema, apresentados nas páginas anteriores.
Segundo passo: montar e responder as perguntas do
questionário básico. Para isso, faça-se as seguintes
perguntas: quem, com quem, o quê, com quê, por quê, para
quê, quais as consequências, quais as circunstâncias, quais
analogias ou comparações podem ser feitas, quais os prós e
os contras, qual a síntese de tudo isso, qual é a minha
opinião pessoal e como posso concluir tudo isso?
Terceiro passo: sintetizar, ordenar e ampliar as
respostas para cada uma das perguntas do segundo passo.
Usar a memória.
Quarto passo: rascunho ou versão inicial.
Quinto passo: revisão e polimento do rascunho ou
versão inicial.
Sexto passo: redação definitiva ou versão final.
Seguindo esses passos, seu trabalho se tornará cada vez
mais fácil, mas isso se você desenvolver suas habilidades,
praticando, exercitando e insistindo sempre. Crie seus
próprios paradigmas, use modelos já prontos, mas pratique.
Só escrevendo é que se aprende a escrever.
POLIMENTO DO TEXTO
Habitue-se a polir suas redações, eliminando tudo
aquilo que não for necessário nem contribuir para chegar ao
resultado esperado por você. Isso implica em policiar-se
quanto ao excesso de adjetivos, às repetições, aos períodos
longos demais, às inversões exageradas da ordem dos
termos da oração, ao rebuscamento do vocabulário e outros
detalhes importantes.
Uma das melhores maneiras de testar se o seu texto
está bom é verificar que é fácil de ler e agradável de ser
ouvido. Para isso, simplesmente leia-o em voz alta. A
formação de um Clube Literário é um poderoso aliado para
quem deseja desenvolver seu estilo e tornar fluente, concisa
e correta a sua redação.
Nos primeiros tempos, sempre que fizer seu rascunho
ou versão inicial, faça o polimento do texto, antes de passar
a limpo. Isso será não apenas necessário, mas muito útil,
fazendo com que você ganhe firmeza e incorpore
procedimentos corretos.
Quando isso acontecer, você terá definido um estilo e
vai se sentir à vontade para escrever sobre qualquer assunto,
com um mínimo de erros.
Para estabelecer um procedimento, quando for fazer o
polimento de um texto que escreveu, verifique inicialmente
a introdução, o desenvolvimento e a conclusão, para ver se
formam um bloco coerente, se as ideias estão atreladas ao
tema, se o texto flui com naturalidade e se há harmonia no
conjunto.
Observe em seguida outros aspectos que possam estar
prejudicando seu trabalho.
Para facilitar isso, aqui temos um roteiro. Para testá-lo,
pegue uma de suas últimas redações e mãos à obra.
Ambiguidade
Esta é uma das maiores inimigas de um bom texto,
presente nas expressões ou construções com duplo sentido,
resultando numa ideia imprecisa.
Exemplo:
Ele a pegou com a boca na botija, usando seu melhor
perfume.
Nessa afirmação, de quem era o perfume? Da pessoa
de quem se fala ou da pessoa com quem se fala?
Ouvi um relincho. Era a égua da minha namorada.
Ficou horrível, não? Era a égua (animal) que
relinchava ou a namorada?
Comparações
Empregue, sem abusar e onde for conveniente,
comparações que facilitem a compreensão do texto e fixem
uma impressão, tornando-o mais claro e sugestivo. Para
isso, use "como", "qual", "feito", "que nem".
Exemplo.
Então gato é que nem boia-fria?
Mais um:
As águas desciam o rio rugindo como um bando de
feras desembestadas.
Você pode também empregar metáforas, comparações
e linguagem figurada para embelezar seu texto e dar-lhe um
colorido especial.
Exemplo:
O leito do rio parecia uma panela em ebulição. Os
troncos arrancados às margens eram como cadáveres
boiando sem controle.
Dissonâncias, cacofonias
Muitas vezes, ao construir uma oração, o resultado
pode ser perfeito no papel, mas desastroso quando lido ou
pronunciado. Pequenos cuidados podem afastar esse tipo de
problema de suas redações, tornando-as elegantes e fáceis
de serem lidas e pronunciadas. Não se descarta, porém, o
seu uso consciente, quando o contexto assim o exigir.
Palavras com a mesma terminação. Exemplo: A mão
que segurava o facão bateu no chão, derrubando o pão.
Repetição de vogais. Exemplo: A vaia era para a saia
da aia.
Repetição de consoantes. Exemplo: Fagundes fez fiado
para fazer fregueses. Falido, fugiu.
Duas ou mais palavras formando uma terceira de
sentido ou som desagradável. Exemplo: A boca dela
permanecia aberta. Quem poderá me dar uma mão aqui?
Humorismo
Um pouco de humorismo pode tornar seu estilo mais
leve e agradável. Evite, porém, piadas pesadas, imoralidades
e até mesmo aquela anedota muito conhecida.
Inversões
Muito cuidado ao usar inversões na ordem dos termos
da oração (sujeito, predicado, complementos). Ao fazê-lo,
você pode dar beleza ao seu texto, realçando este ou aquele
termo, ou comprometer-lhe o sentido.
Exemplo:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas, de um povo
heroico o brado retumbante.
Você sabe qual é o sujeito desta célebre oração? A
ordem inversa tem feito muita gente iniciar nosso hino
cantando assim:
Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo
heroico o brado retumbante.
Com essa interpretação, colocam a oração na seguinte
ordem natural:
(sujeito indeterminado) Ouviram o brado retumbante
de um povo heroico às margens plácidas do Ipiranga.
Ocorre que a ordem natural dessa oração é esta:
As margens plácidas do Ipiranga (sujeito simples)
ouviram o brado retumbante de um povo heroico.
Lugar comum
O lugar comum é a expressão já pronta, acessível, fácil
de ser usada e, por isso, tentadora. Seu uso, porém, tira toda
a elegância e a originalidade de um texto, comprometendo o
resultado. Nosso vocabulário é rico e existem alternativas
para fugir a essa tentação.
Exemplos:
Políticos inescrupulosos, grandiosa festividade,
perseguidor implacável, exalar o último suspiro, encontra-se
engalanado, abriu o coração, tradicional festa, inflação
galopante, vitória esmagadora, esmagadora maioria,
caixinha de surpresas, caloroso abraço, silêncio sepulcral,
nos píncaros da glória e coisas assim.
Junte seus amigos do Clube Literário e organizem uma
lista desses lugares-comuns. Criem expressões criativas para
substituí-los.
Opinião pessoal
Evitar externar opiniões pessoais sem base ou fazer
generalizações. Quando afirmar algo, diga-o com base em
elementos que podem ser comprovados. Generalizar é
sempre muito perigoso. Se você afirmar, por exemplo, que
os políticos são todos corruptos ou que os professores são
uns perseguidores, corre o risco de não ter argumentos
sólidos para justificar isso. Numa dissertação, você pode pôr
todo o seu trabalho a perder, chegando a uma conclusão
levado por falsas premissas ou por uma argumentação frágil
e sem sustentação.
Palavras certas
Temos em nossa língua muitas palavras que tem
formas diferentes, mas são pronunciadas da mesma forma,
como caçar e cassar, conserto e concerto, acento e assento,
além de outras cujas grafias são parecidas, como tráfego e
tráfico, por exemplo. Quando recomendamos, desde o início
do livro, o uso do dicionário, é para que você se habitue não
apenas ao significado das palavras, mas a sua grafia
também.
Uma palavra errada pode comprometer todo o sentido
do texto.
Períodos longos
Evite períodos longos em suas redações. A elegância e
a simplicidade dos períodos curtos facilitam seu trabalho,
pois são fáceis de serem compostos, escritos, pontuados e
entendidos.
Pleonasmos viciosos
Este é um problema muito comum na linguagem
informal falada, que pode ser levado facilmente para a
linguagem escrita. Sua presença tira a beleza do texto,
prejudica sua concisão e demonstra um vocabulário pobre e
pouco exercitado. O melhor remédio para curar-se deles é a
leitura e a revisão atenta e constante de tudo que escrever,
eliminando adjetivos e advérbios desnecessários.
Quer alguns exemplos?
Subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro,
sair para fora, deferimento favorável, ver com os olhos,
comer com a boca, dividir em duas metades, um duo de
dois, um par de dois, a mim me parece, a ele nada lhe direi e
muitos outros.
Quer uma tarefa interessante?
Reúna seus amigos do Clube Literário e organizem
uma lista de pleonasmos. Depois criem alternativas para
corrigi-los.
Pontuação
Conheça um pouco mais a respeito do assunto e confira
para ver se está fazendo corretamente a pontuação.
Vírgula — sinal de pontuação que marca uma pausa
de curta duração ou separa termos de uma oração ou orações
de um período. A ordem normal dos termos numa frase é
sujeito, verbo, complementos. Essa ordem é chamada ordem
natural ou ordem direta. Quando a frase é escrita em ordem
direta, não separamos seus termos imediatos e por isso não
pode haver vírgula entre o sujeito e o verbo, nem entre o
verbo e o complemento. Esta só é usada na ordem indireta, o
que ocorre basicamente em dois casos: ao intercalarmos
uma palavra ou expressão entre os termos imediatos,
quebrando a sequência natural da frase ou quando algum
termo, principalmente o complemento, surgir deslocado de
seu lugar natural na frase.
Ponto-e-Vírgula — marca uma pausa maior que a
vírgula, sendo utilizado para separar orações coordenadas
que já apresentem vírgula em seu interior ou que tenham
certa extensão. Nunca pode ser usado dentro de uma oração,
pois serve justamente para separar uma oração de outra.
Dois-Pontos — usa-se antes de uma sequência que
explica, identifica, discrimina ou desenvolve uma ideia
anterior ou quando se quer dar início a uma fala ou citação.
Aspas — utilizadas para isolar citação textual colhida
de outrem, palavras ou expressões que não pertençam à
língua culta, como gíria, estrangeirismo e neologismo, que é
palavra, frase ou expressão nova, ou palavra antiga com
sentido novo.
Travessão — serve principalmente para indicar que
alguém fala de viva voz, no discurso direto e é usado em
textos narrativos em que os personagens dialogam. Pode ser
usado para substituir a vírgula dupla quando se quer dar
ênfase ao termo intercalado.
Reticências — marcam uma interrupção da sequência
lógica do enunciado, deixando ao leitor a responsabilidade
de complementar o pensamento suspenso. Não devem ser
usadas nas dissertações objetivas, que exige clareza e
objetividade na exposição. (O assunto é tratado com mais
profundidade no item Pontuação, do Apêndice deste
livro.)
Que
Esta palavrinha é muito útil, quando corretamente
utilizada. Veja alguns cuidados a serem tomados em relação
a ela.
Orações adjetivas. Ao invés de uma casa que estava
cheia de gente, use uma casa cheia de gente.
Repetições. Em lugar de o trem que acabou de chegar
que trouxe a carga de comida use o trem que chegou trouxe
a carga de comida ou mesmo o trem chegou e trouxe a carga
de comida.
Verbos. Use disse ser impossível em lugar de disse que
era impossível.
Simplicidade
Procure desenvolver um estilo simples, sem
rebuscamento. Para isso, observe as seguintes regrinhas:
1. Prefira a descrição simples à elegante:
— Ele era forte, com mãos enormes.
— Ele era musculoso, com manoplas poderosas.
2. Prefira a palavra familiar à exótica:
— Ele ergueu o copo com mãos trêmulas.
— Ele ergueu o cálice com mãos trêmulas.
3. Prefira um estilo de escrita direto ao estilo
romântico:
— Sua voz era grave e assustadora.
— Sua voz parecia o trovão ecoando por uma caverna
desabitada e provocava frêmitos de pavor em quem a ouvia.
4. Use substantivos sem adjetivação e verbos de ação
sem advérbios, a menos que sejam absolutamente
necessários ao sentido desejado:
— Enquanto estuda em seu quarto, José pensa em seu
futuro. .
— Enquanto estuda arduamente em seu quarto
solitário, José pensa constantemente em seu futuro distante.
Sinonímia
Verifique se há palavras repetidas em seu texto,
procurando encontrar um sinônimo à altura. Não faça disso,
porém, uma regra rígida, se houver prejuízo para o sentido.
MODELOS
Com estes modelos não espero nem pretendo bloquear
sua criatividade, pois ao longo do livro não temos feito outra
coisa a não ser estimulá-la. O uso de paradigmas é a
maneira mais prática de você criar e desenvolver um estilo,
baseado em modelos consistentes e já utilizados e
aprovados. Ao adaptá-los ao seu gosto pessoal, você estará
desenvolvendo um poderoso instrumento, capaz de
solucionar todos os seus problemas com redação.
Vamos ver isso, então.
ORAÇÃO
Vamos supor que você seja o orador de sua turma, na
formatura de sua classe, e tenha que elaborar uma oração.
Se você pensar de imediato no velho esquema normal de
começo, meio e fim, poderá adaptá-lo a sua necessidade, da
seguinte forma:
Começo (invocação)
Meio (desenvolvimento - oração propriamente dita)
Fim (encerramento)
Vamos colocar isso num exemplo?
ORAÇÃO DE FORMATURA
Início:
Senhor Deus, Todo Poderoso, diante de vós, estamos
hoje reunidos, esperançosos quanto ao futuro e satisfeitos
pela etapa vencida.
Desenvolvimento:
Iluminai nosso caminho para que possamos melhor
compreender a missão que o futuro nos reserva e para que
nos empenhemos na busca e na construção de um mundo
melhor para todos nós.
Concedei-nos a força e a coragem para bem
realizarmos nossa missão e atingirmos nossos objetivos,
praticando fielmente seus ensinamentos.
Permiti, Senhor Deus, que encontremos nossa
recompensa na graça de servir, no sorriso de gratidão, na
lágrima de felicidade e no abraço fraterno daqueles que
precisarem de nós.
Encerramento:
Fazei com que possamos render-vos glória através de
nossos atos e de nosso trabalho, dando-nos a chance de
servir e louvar Seu santo nome. Amém!
DISCURSO
O esquema de um discurso é o mesmo de uma redação
qualquer, exceto que seu conteúdo é mais abrangente e um
pouco mais longo. Ao ser escrito, deve antecipar a presença
de autoridades ao evento, pois estas deverão ser
mencionadas, sempre do cargo mais alto para o mais
inferior ou do maior grau de importância para o menor.
Se fosse um discurso de formatura e o prefeito da
cidade estivesse presente, a saudação inicial seria para ele,
depois para o Diretor do Colégio, para os professores, pais
convidados e alunos. Por exemplo.
Tirando isso, deverá obedecer a mesma sequência de
abertura, desenvolvimento e conclusão. Para simplificar,
vamos colocar isso na forma de um esquema:
Saudação aos convidados presentes
Abertura (citar o motivo do discurso ou do evento)
Desenvolvimento (discorrer sobre isso)
Conclusão
Vamos imaginar que você foi eleito para presidente do
grêmio estudantil de sua escola e tenha de fazer um discurso
no dia da posse.
Poderia ser feito assim:
DISCURSO DE POSSE
(Saudação)
Excelentíssimo senhor prefeito...
Ilustríssimo senhor diretor...
Caríssimos senhores professores...
Queridos e amados pais...
Estimados colegas...
Caríssimos companheiros de chapa...
(Abertura)
Estamos aqui hoje reunidos, agradecendo a Deus e aos
amigos pelo privilégio, pois acima de qualquer obstáculo,
somos jovens de paz e de boa vontade, preocupados com o
nosso presente e atentos ao nosso futuro. Nossa natureza
inquieta e preocupada não nos deixa sermos meros
espectadores de uma realidade que nos desagrada. Não
conseguimos ficar imóveis e omissos diante do apelo que
nos chama a participar e a colaborar na solução dos
problemas de nossa escola.
(Desenvolvimento)
Pretendemos uma escola melhor, uma comunidade
melhor, um mundo melhor e na mesma medida em que
trabalhar na solução dos problemas que estiverem ao nosso
alcance. Projetaremos nossa visão no futuro. Planejaremos
ações para que os próximos estudantes encontrem mais
facilidades e vantagens para explorar todo o seu potencial.
A diretoria que assume os destinos do nosso grêmio
estudantil sabe que tem desafios pela frente, que pretende
responder com ações, a partir de metas definidas, sem se
desviar jamais dos lemas e ideais que sempre marcaram a
atuação dos alunos que nos precederam.
As atividades a serem desenvolvidas por nossa
diretoria serão intensas e procuraremos nos superar em tudo.
As preciosas lições da Diretoria que hoje deixa o cargo
serão levadas em conta em todos os momentos, valendo-nos
dessa experiência para traçarmos nosso próprio caminho.
Nosso diálogo com a direção da escola, professores,
pais e alunos será constante, pois acreditamos ser esta a
melhor maneira de juntos atingirmos os objetivos comuns.
(Conclusão)
Agradecemos a presença de todos, numa manifestação
de carinho e de participação, que muito nos emociona e que
ressalta nesta Diretoria o desejo de corresponder à altura
essa confiança. Rogo a Deus que nos ilumine e ajude nessa
missão para juntos construirmos o futuro com ação e
resultados. A vocês, a minha gratidão.
CARTA
Já vimos num dos capítulos anteriores um esquema
para a elaboração de cartas. Estaremos incluindo também
alguns modelos de correspondência comercial, para que
você tenha alguns paradigmas para suas necessidades de
relacionamento com empresas ou instituições.
Vamos comentar inicialmente alguns elementos que
são comuns a todas as cartas.
O primeiro deles é o cabeçalho, onde constam o local
onde a carta foi escrito e a data. Em seguida é feito o
vocativo, que numa carta informal pode ser o nome do
destinatário e numa carta para uma empresa poderá ser o
nome e o endereço dela.
Em seguida, numa carta mais formal, será incluído um
vocativo como Prezado Senhor, Prezados Senhores, Prezada
Senhora, etc. No final da carta, temos a despedida e a
assinatura.
Poderíamos montar o seguinte esquema.
Cabeçalho
Local e data (mês com letra minúscula)
Destinatário
Vocativo
Abertura
Desenvolvimento
Encerramento
Despedida
Assinatura
Vamos aplicar isso?
Que tal escrever uma carta a uma amiga, informando
de sua candidatura a presidente do grêmio estudantil da
escola e alguma coisa sobre suas metas?
Eu faria assim!
(Cabeçalho)
Minha cidade, 1 de abril de 2004.
A
Márcia Riguetto
Rua Nova, 96
Minha Cidade - Meu Estado
Prezada Amiga:
(Abertura)
Desde 1997 estudo nesta Escola, conhecendo suas
necessidades e participando de discussões para a solução de
seus atuais problemas.
(Desenvolvimento)
Nenhuma mudança importante acontecerá se não
passar pelo campo político, onde as decisões são tomadas.
Para provocar essas decisões e essas mudanças, os alunos
precisam ter um grêmio estudantil representativo e forte.
Com o conhecimento que tenho de nossa escola, estou
me candidatando à presidência do nosso grêmio,
convidando você não apenas a votar em mim como também
a participar de minha campanha com sua preciosa ajuda.
(Encerramento)
Certo de sua participação e de seu envolvimento nesta
tarefa que somente será realizada se todos nos unirmos,
manifesto minha gratidão, transmitindo-lhe meu abraço
mais afetuoso.
Atenciosamente,
José Mário
(assinatura)
CORRESPONDÊNCIA COMERCIAL
Se você está se preparando para o ENEM ou para o
Vestibular, talvez este capítulo lhe seja totalmente inútil.
Poderá ter utilidade em um concurso mais específico ou até
mesmo para se candidatar a uma vaga de trabalho. De
qualquer forma, não será um conhecimento inútil, mas você
pode pular esta etapa, se assim decidir.
Uma Carta Comercial exige concisão, dentro de um
padrão comum e conhecido. Para escrever uma Carta
Comercial é necessário dominar os principais paradigmas. A
partir daí, mudam os destinatários, datas, valores, endereços,
mas o paradigma se mantém.
Conhecendo isso, você poderá elaborar tranquilamente
qualquer carta, com a segurança de um especialista no
assunto.
Fornecerei alguns modelos básicos e padrões
normalmente utilizados na Correspondência Comercial. A
partir daí, utilizando os conhecimentos que você
desenvolveu ao longo do livro, estou certo de que
conseguirá se sair bem em qualquer outra situação.
1 - Pedindo Emprego
Minha cidade, 4 de abril de 2004.
À
CASA DO MAGO DAS LETRAS
Rua da Alchimia, 801
Cidade - Estado
Prezados Senhores:
Estou encaminhando meu currículo com todas as
informações sobre minha formação e experiência, em que
V. Sas. verificarão que preencho satisfatoriamente as
qualificações necessárias para ocupar um cargo nessa
empresa.
Chamo a atenção em especial ao fato de haver me
formado recentemente e já ter feito estágio em algumas
empresas do ramo.
Minha pretensão salarial é de um fixo não inferior a R$
350,00, mais acréscimos legais, estando, porém, aberto para
discutir outras ofertas.
No aguardo de V. Sas., subscrevo-me,
Atenciosamente,
(assinatura)
2 - Telegrama
Um telegrama é escrito num formulário próprio do
Correio, sendo que seu texto tem algumas características
básicas. Se você precisar escrever um, saiba que ele é
cobrado por palavras escritas, por isso simplifique ao
máximo a linguagem, cortando acessórios e deixando
apenas a mensagem principal. Elementos como vírgula e
ponto são escritos abreviadamente.
Vamos passar um telegrama para um amigo que não
tem telefone, informando-o que vamos visitá-lo:
Chego próxima segunda vg prepare acomodações pt
Seu nome
3 - Locando um Imóvel
Suponhamos que você vá estudar fora e tenha que
alugar um apartamento ou um quarto junto a uma
imobiliária. Para isso, precisa confirmar seu interesse. Para
isso, poderia mandar esta carta:
Minha cidade, 18 de abril de 2004.
À
IMOBILIÁRIA DO MAGO LTDA
Rua da Alchimia, 1000
Cidade - Estado
A/C: Departamento de Locações
Prezados Senhores:
Conforme contato telefônico, confirmo meu interesse
na locação do apartamento localizado na Rua do Sassarico,
1950. Para tanto, anexamos ficha cadastral preenchida, bem
como cópia do recibo do depósito inicial para garantia da
locação.
Colocamo-nos à disposição para quaisquer outras
informações, solicitando, por outro lado, brevidade na
confirmação.
Atenciosamente,
(assinatura)
4 - Declaração
Se você precisar de uma declaração para ser usada
como referência, pode usar o seguinte modelo.
DECLARAÇÃO
A quem interessar possa
JOSÉ CARLOS DOS SANTOS, brasileiro, casado,
comerciante, portador da Carteira de Identidade n.º 453.4567, CIC n.º 123.654.321-00, residente e domiciliado à Rua
Alchimia, 1200, nesta cidade, e PEDRO AUGUSTO DE
SOUZA, brasileiro, solteiro, bancário, portador da Carteira
de Identidade n.º 123.678-9, CIC n.º 789.321.987-11,
residente e domiciliado à Rua Sassarico, 2400, nesta cidade,
declaram que (Seu Nome), brasileiro(a), solteiro(a),
estudante, filho de (Nome de seu Pai) e (Nome de sua Mãe,
portador da Carteira de Identidade n.º (Número de sua
Identidade) , CIC n.º (Número de seu CIC ou de seu Pai ou
Responsável), residente e domiciliado à (Nome da Rua onde
Você Mora), nesta cidade, é pessoa de irrepreensível
idoneidade moral, nada tendo conhecimento que possa
desabonar sua conduta pessoal e profissional.
Minha cidade, 22 de abril de 2004.
Assinatura
5 - Procuração
Sempre que você não puder fazer alguma coisa
pessoalmente, você pode nomear um procurador. Não se
esqueça de reconhecer sua firma no cartório.
INSTRUMENTO PARTICULAR DE
PROCURAÇÃO
OUTORGANTE: JOSÉ CARLOS DOS SANTOS,
brasileiro, casado, comerciário, portador da Carteira de
Identidade n.º 989.787-6, CIC n.º 121.232.343-44, residente
e domiciliado à Rua Castro Alves, 3600, Minha cidade - PR.
OUTORGADO: PEDRO AUGUSTO DE SOUZA,
brasileiro, casado, comerciário, portador da Carteira de
Identidade n.º 1.02.003-4, CIC n.º 321.987.654-22, residente
e domiciliado à Rua da Alchimia, 801, Minha cidade - PR.
PODERES: Amplos, gerais e irrestritos para o fim
específico de, junto à Secretária do Colégio Estadual Castro
Alves requerer certificado de conclusão do segundo grau,
podendo, para tal fim, assinar recibos e documentos e
praticar todos os atos necessários ao fiel desempenho deste
mandato, inclusive substabelecer no todo ou em parte.
Minha cidade, 22 de abril de 2004.
Assinatura
6 - Atestado
ATESTADO
Atestamos, para os fins de direito, que o Sr. FULANO
DE TAL, brasileiro, casado, estudante, portador da Carteira
de Identidade n.º 1.002.003-4, CIC n.º 321.987.654-22, é
aluno regularmente matriculado nesta escola, na 8ª série do
primeiro grau, com frequência e aproveitamento dentro da
normalidade.
Cidade, 22 de Abril de 2004.
Assinatura
7 - Solicitando Saldo, Talão de Cheques ou Extrato
ao seu Banco.
Minha cidade, 28 de Abril de 2004.
AO
BANCO ... S/A
Ag. ...
NESTA
Ac.: Setor de Contas Correntes
Ref.: Conta Corrente 003.004005-6
Prezado Gerente:
Solicitamos fornecer ao portador desta, devidamente
identificado, Sr. MÁRIO PEREIRA, portador da Carteira de
Identidade n.º 456.321, o saldo atualizado (talão de
cheques/extrato/etc.) de minha conta corrente.
Certos da atenção costumeira, firmo-me,
Atenciosamente,
Assinatura
8 - Autorizando Débito em Conta Corrente
A comodidade de deixar seus pagamentos aos cuidados
do seu Banco pode exigir uma correspondência como esta:
Minha cidade, 18 de abril de 2004.
AO
BANCO ... S/A
Ag. ...
NESTA
At.: Setor de Débitos Automáticos em Contas
Correntes
Prezados Senhores:
Solicitamos e autorizamos o débito mensal de meu
carnê de mensalidades do Cursinho Minhas Letras,
conforme documento em anexo, em minha conta corrente
n.º 001.004.005-6, na data do seu vencimento,
encaminhando-me os comprovantes.
Certos da costumeira atenção, firmo-me,
Atenciosamente,
Assinatura
9 - Sustando o Pagamento de um Cheque
Suponhamos que, por algum motivo, você precise
sustar um cheque. Sustar é cancelar seu pagamento. Você
pode mandar a seguinte carta ao seu Banco.
Minha cidade, 18 de abril de 2004.
AO
BANCO ... S/A
Ag. ...
NESTA
At.: Gerente de Contas Correntes
Ref.: Cheque n.º 234.212 - R$ 12.000,00 - Emitido em
15/09/98
Prezados Senhores:
Pela presente, vimos solicitar o cancelamento do
pagamento do cheque acima, por nós emitido contra a nossa
conta corrente n.º 003.004.005.6, nessa Agência, tendo em
vista o seu extravio.
Agradecendo pelas providências imediatas, firmamonos,
Atenciosamente,
Assinatura
10. Modelos de Currículo
É importante ter seu currículo pronto e atualizado para
fornecê-lo, quando solicitado. Eis um modelo simplificado:
NOME
ENDEREÇO CIDADE, ESTADO, CEP
TELEFONE RESIDENCIAL E COMERCIAL
OBJETIVO DO CURRÍCULO:
Candidatar-se à vaga de...
EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL
Pegue sua Carteira Profissional e relacione um a um
seus empregos anteriores, citando períodos, nomes e
endereços das empresas onde trabalhou, cargos que ocupou
e outras informações relevantes.
ESCOLARIDADE:
Relacione cursos, citando períodos, nome das
instituições, carga horária e outras informações relevantes
de sua escolaridade e dos cursos que frequentou e que
tenham relação com o emprego pretendido.
REFERÊNCIAS:
Relacione pessoas físicas e jurídicas que possam
prestar informações relevantes sobre seu desempenho
profissional, citando nomes, endereços e telefones.
Para facilitar, programas editores de texto como o
Word oferecem diversos modelos de currículos, fáceis de
serem usados, se você tem acesso a um computador.
Não deixe de visitar com frequência meus endereços na
Internet
http://www.scribd.com/lpbacan
http://www.acasadomagodasletras.net
JUSTIFICATIVA
Por que aprender a escrever?
Poder-se-ia enumerar uma série de justificativas para
isso, mas creio que a mais importante delas está ligada ao
seu futuro. Se você pretende seguir uma carreira, vai passar
pelo funil do ENEM, do vestibular ou de um concurso
público, nos quais o item redação tem um peso que não
pode nem deve ser desprezado.
Se você vai ser um professor ou um advogado, saber
escrever será sempre exigido de você. Se vai ser um médico,
cedo ou tarde terá de fazer uma palestra e terá de pôr em
prática seus conhecimentos.
O jornal "Gazeta do Povo", em sua edição de 12 de
janeiro de 1999, trazia na primeira página a seguinte
chamada:
Candidatos da PUC fogem do tema da redação
Até ontem não houve o registro de nenhuma nota 10
entre os 17,6 mil candidatos na prova de Redação do
vestibular da Pontifícia Universidade Católica. Muitos
fugiram ao tema proposto: "Comunicação de Massa e
Conformismo", sendo logicamente zerados. Escreveram
sobre macarrão, a atmosfera e as massas de ar. A banca
examinadora encerra a correção das provas hoje.
Isso já seria o bastante para demonstrar porque a
Redação deve ser encarada com seriedade, considerando seu
peso e sua importância nas aprovações do vestibular. O
mesmo ocorre em concursos onde ela é exigida, inclusive
naqueles que requerem o conhecimento de Correspondência
Comercial, que também é uma forma de redação.
São altamente esclarecedoras e úteis as reportagens que
se seguem a essa chamada, não apenas para dar preciosas
informações sobre as avaliações feitas, como também para
orientar quanto aos aspectos observados pelos professores
encarregados da correção.
Vejamos essas reportagens:
Notas da Redação na PUC-PR ficam entre 5 e 6
Além de confundirem o tema proposto na prova, os
candidatos ainda cometeram erros grotescos de gramática e
concordância.
Embora o nível das redações escritas pelos candidatos
do vestibular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná
(PUC-PR) tenha melhorado em relação ao concurso do ano
passado, segundo os professores que as estão corrigindo, a
banca examinadora das dissertações — que deve encerrar os
trabalhos de correção hoje pela manhã — ainda considera
fraco o desempenho dos vestibulandos. Até ontem, nenhuma
das 17,6 mil redações tinha tirado nota 10. A maioria dos
candidatos ficou com 5 ou 6. Alguns se desviaram
completamente do tema proposto — "Comunicação de
Massa e Conformismo"—, chegando a escrever sobre
macarrão e as massas de ar.
Os candidatos que escreveram sobre comida ou sobre a
atmosfera devem ter visto a palavra "massa" e nem
terminaram de ler sobre o tema proposto para começar a
dissertação, imagina Geraldo Mattos, um dos 28 professores
da PUC que participam da correção das redações.
Além desse tipo de desvio do tema proposto, absurdos
ainda maiores ocorrera. Alguns vestibulandos escreveram
sobre o Descobrimento do Brasil, sobre a cidade de
Curitiba, sobre a Revolução Industrial ou sobre a sua
própria vida; uma espécie de autobiografia. De cada 60
redações, cerca de duas fogem ao tema, segundo os
professores corretores.
Recados
"Espero que muito disso tenha ocorrido por
brincadeira", diz a professora Marta Costa, outra corretora,
que lembra que há candidatos que chegam a deixar recados
na redação destinados ao "senhor, corretor da redação" ou "à
banca examinadora". Além disso, também há aqueles que
explicam a falta de inspiração alegando que "já passaram
em outro vestibular" e por isso nem chegam a escrever as 20
linhas mínimas exigidas. Redações completamente brancas
também foram entregues pelos vestibulandos.
Aqueles que ao menos conseguiram discorrer sobre o
tema proposto, na maioria mostram inúmeras deficiências
em todas as áreas da língua portuguesa: gramática,
pontuação, concordância. Erros crassos foram encontrados
pelos professores: imprença (para designar imprensa), vôsse
(você), bom bardeio (bombardeio) cirquíuto (circuito), entre
outros (veja quadro). Também é muito comum a separação
do sujeito do verbo e a falta de concordância verbal, que
levam estudantes a escrever, por exemplo, "o homem são
importante..."ou "as mulheres é", revela o corretor Basílio
Agostini.
Fala e escrita
O problema, acredita a professora Marta, é que os
vestibulandos de um modo geral escrevem do mesmo modo
que falam, e as escolas ainda não sabem trabalhar essa
relação entre a fala e a escrita formal de um modo
adequado. O mais alarmante, aponta o professor Matos, é
que a estrutura das frases e ideias, de um modo geral, é
completamente aleatória e desconexa. "Isso revela uma
dificuldade de raciocinar de modo lógico", ressalta a
professora Marta. As conclusões também costumam ser
desastrosas, parecendo uma mera lição de moral, diz ela.
Ao afirmar que essas notícias eram extremamente
valiosas, vamos mostrar como a leitura atenta de um texto,
de uma informação e das notícias é importante para o
entendimento, fornecendo elementos para uma análise
lógica do conteúdo, tirando dele importantes subsídios.
Inicialmente, vimos que, de 17,6 mil redações, 586
foram zeradas por fugir do conteúdo. Isso quer dizer que
586 concorrentes foram afastados da competição por esse
motivo. Somam-se a esses aqueles que entregam as folhas
em branco, aqueles que apresentam erros crassos, que
demonstram deficiências em todas as áreas da língua
portuguesa e veremos esse universo aumentar
consideravelmente. Basta citar que a nota máxima, no caso,
foi 6. Quem tirasse acima disso teria preciosos pontos sobre
os demais concorrentes, que poderiam ser importantes na
classificação final, garantindo a aprovação.
Outro aspecto importante é que foram exigidas pelo
menos 20 linhas, número que não varia muito de uma
Universidade para outra. Além disso, a notícia enumera
aspectos que devem ser trabalhados por aquele que deseja
destacar-se no vestibular, fazendo uma boa prova de
redação. Podemos enumerar, por exemplo:
1 - Jamais se desvie do tema proposto. Leia com
atenção o que se pede, até entender exatamente sobre o que
deverá escrever.
2 - Não mande "recados" ao corretor da redação. De
nada adiantará e somente servirá para fornecer material para
os próximos absurdos.
3 - Considere que não existe "inspiração", por isso
evite ficar à espera dela. Ao entender o tema, entre em ação.
4 - Atenção redobrada com a gramática, pontuação,
concordância, ortografia (se não tiver certeza da grafia da
palavra, use um sinônimo) e estrutura da frase.
5 - Aprenda a diferenciar a fala da escrita formal.
6 - Procure impor ordem e nexo a suas ideias,
raciocinando de modo lógico. Leia muito, discuta e troque
ideias. Habitue-se a observar os diversos ângulos de um
mesmo assunto.
7 - Conclua sua dissertação resumindo os argumentos
apresentados.
8 - As chances de ser pedida uma dissertação são
elevadíssimas. Com uma frequência menor, poderão ser
pedidas descrições ou narrações. Esteja preparado para o
inesperado.
Como vê, todas essas informações foram tiradas da
notícia e foram dadas por professores que trabalham na
correção de redações. Haverá pessoas mais capacitadas para
isso?
Se você achou tudo isso importante, faça suas
observações tire suas próprias conclusões sobre outra notícia
publicada na mesma data e no mesmo jornal. Observe que
há importantes informações e orientações sobre como
abordar um tema de redação.
Análise feita mostra massificação de estudantes
Apesar do nível geral das redações ter aumentado, há
10 anos os candidatos eram mais criativos. A avaliação é da
professora Marta Costa, uma das que está trabalhando na
correção das dissertações do vestibular da PUC. Segundo
ela, embora em muitas redações os candidatos condenassem
o comodismo frente aos meios de comunicação,
paradoxalmente os argumentos que a maioria usou para
justificar suas opiniões são muito semelhantes. "Eles
mesmos estão massificados", teoriza a professora.
As maiores notas nas redações, lembra Marta, foram
dadas exatamente para os candidatos que, além da correção
gramatical, apresentaram argumentos que fugiram do lugarcomum e trouxeram alguma novidade. Já o professor Basílio
Agostini, também corretor das dissertações, acredita que a
falta de criatividade apresentada no vestibular, na verdade, é
reflexo da democratização do acesso ao vestibular. Há 10
anos, menos pessoas — a maioria preparadas em colégios
particulares mais tradicionais — conseguiam fazer o
concurso e por isso o resultado parecia melhor.
Falta de qualidade
Para Agostini, embora os erros das redações possam
parecer engraçados, na verdade revelam a falta de qualidade
do ensino médio brasileiro. Como os problemas encontrados
nas redações são praticamente os mesmos, ele acredita que
poderia ser feita uma política educacional para que as
maiores dificuldades dos alunos fossem sanadas ainda na
escola. "Isso só seria possível com investimento público",
defende ele.
Por tudo isso, os estudantes estão entrando na
universidade com inúmeras deficiências — o que
compromete todo o seu aprendizado, já que eles devem ser
instruídos em disciplinas nas quais já deveriam ter
habilidades, diz a professora Marta. E os problemas não
param na universidade, lembra outro professor da PUC,
Jayme Bueno. Ele conta que recebeu em casa um folheto de
uma agência de ecoturismo no qual havia recomendações a
quem fosse participar de um determinado passeio: levar uma
capa de chuva (se tiver), levar dois pares de tênis (um para
usar, outro para ficar seco). Além disso, lembra ele, os erros
se repetem na vida profissional.
E então? Não foram preciosas informações estas
passadas pela notícia? Tudo porque elas foram redigidas
corretamente, de modo lógico, explorando as estruturas da
língua, com um objetivo determinado, um começo, um meio
e um fim.
Informações igualmente importantes poderão ser lidas
no capítulo Leituras Obrigatórias, em que importantes
personagens da literatura abordam o importante assunto do
estilo.
Para terminar e relaxar um pouco, quer conhecer um
pouco dos erros e absurdos de que falaram os esclarecidos
mestres a respeito do tema "Comunicação de Massa e
Conformismo"? Então vamos lá!
Pérolas do Vestibular
A ação de poluentes atmosféricos aquece a floresta.
A AIDS é transmitida pelo mosquito AIDES EGIPSIO.
A Amazônia é explorada de forma piedosa.
A Amazônia está sendo devastada por pessoas que não
tem senso de humor.
A Amazônia está sofrendo um grande, enorme e
profundíssimo desmatamento devastador, intenso e
imperdoável.
A Amazônia tem valor ambiental ilastimável.
A arquitetura gótica se notabilizou por fazer edifícios
verticais.
A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos
poluídas, sem coração.
A camada de ozonel.
A capital de Portugal é Luiz Boa.
A comunicação é de massa porque precisamos utilizar
a massa cinzenta para compreendê-la.
A comunicação é importante porque comunica algo
entre duas ou mais pessoas que querem se comunicar.
A comunicação é moderna porque usa modernidades
da atualidade.
A comunicação é uma junção da verdade com a
falsidade, afinal fofoca é uma coisa feia e é comunicação.
A comunicassão social e feita de mim para voçês.
A concentização é um fato esperansoso para todo
território mundial.
A crise por qual o mundo passa aborrece a população
em massa.
A cultura mudou, os costumes mudaram, até os dentes
dos nossos bisavós eram diferentes, temos dentes a menos.
A diferença entre o Romantismo e o Realismo é que os
românticos escrevem romances e os realistas nos mostram
como está a situação do país.
A empresa e o público ixterno caminhão juntos,
incluindo aí a emprensa.
A falta de consideração para com a natureza ocorre
devido a falta de maturidade da cabeça e dos pensamentos
humanos.
A fé é uma graça através da qual podemos ver o que
não vemos.
A febre amarela foi trazida da China por Marco Polo.
A floresta amazônica não pode ser destruída por
pessoas não autorizadas.
A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que
parar de desmatar para que os animais que estão extintos
possam se reproduzirem e aumentarem seu número
respirando um ar mais limpo.
A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o
homem e créu.
A Geografia Humana estuda o homem em que
vivemos.
A harpa é uma rosa que toca.
A História se divide em 4: Antiga, Média, Moderna e
Momentânea (esta, a dos nossos dias).
A ideia de uma pessoa no oriente por exemplo, poderá
ser examinada e copiada com todas as vírgulas em vários
lugares do ocidente assim tornando essa ideia algo comum,
por mais criativa que ela tenha sido.
A igreja ultimamente vem perdendo muita clientela.
A igreja vem perdendo muita clientela.
A informação fornecida pela TV é pacífica de falhas.
A insônia consiste em dormir ao contrário.
A mudança sempre ocorreu e sempre vai ocorrer. Ela
ocorre para os seres vivos, mortos, para o concreto, para o
abstrato (ideias).
A natureza brasileira tem 500 anos e já esta quase se
acabando.
A natureza está cobrando uma atitude mais energética
dos governantes.
A Previdência Social assegura o direito à enfermidade
coletiva.
A principal função da raiz é se enterrar.
A principal vítima do desmatamento é a vida
ecológica.
A prosopopeia é o começo de uma epopeia.
A relação entre a amizade e o interesse econômico são
adjacentes.
A respiração anaeróbica é a respiração sem ar, que não
deve passar de três minutos.
A situação tende a piorar: os madereiros da Amazônia
destroem a Mata Atlântica da região.
A televisão é influenciativa em nossas vidas. Quantas
vezes não compramos um tênis porque vemos na TV? A
programação da televisão deveria ser mais educante.
A televisão é um meio de comunicação, audição e
porque não dizer de locomoção'.
A televisão leva fatos a trilhares de pessoas.
A televisão passa para as pessoas que a vida é um
conto de fábulas e com isso fabrica muitas abeças.
A televisão pode ser definida como uma faca de trez
gumes. Ela tanto pode formar, como informar, como
deformar.
A Terra é um dos planetas mais conhecidos no mundo.
A TV acomoda aos tele inspectadores.
A TV deforma a coluna, os músculos e o organismo
em geral.
A TV deforma não só os sofás por motivo da pessoa
ficar bastante tempo intertida como também as vista.
A TV é o oxigênio que forma nossas ideias.
A TV ezerce poder, levando informações diárias e
porque não dizer horárias.
A TV no entanto é um consumo que devemos
consumir para nossa formação, informação e deformação.
A TV possui um grau elevadíssimo de informações que
nos enriquece de uma maneira pobre, pois se tornamos uns
viciados deste veículo de comunicação'
A TV se estiver ligada pode formar uma série de
imagens, já desligada não.
A unidade de força é o Newton, que significa a força
que se tem que realizar em um metro da unidade de tempo,
no sentido contrário.
A unidade de força é o Newton, que significa a força
que se tem que realizar em um metro da unidade de tempo,
no sentido contrário.
Abto (hábito).
Abtolado (bitolado).
Ainda não se sabe alcerto qual foi.
Aixo (acho).
Amigos puxam topete um do outro.
Amizade na maioria das vezes é uma conjuntura de
atividades realizadas por duas ou mais pessoas, podendo ser
real ou fictícia.
Anafaquistão, um país que derrubou as torres e que tem
como deus um tal de Bilack.
Animais ficam sem comida e sem dormida por causa
das queimadas.
Antes de ser criada a Justiça, todo mundo era injusto.
Antigamente ao bater uma carroça na outra
dificilmente alguém morria, hoje após a evolução, milhares
morrem em acidentes de carro.
Antigamente há uns 30 anos atrás.
Ao longo dos tempos, como todos esperávamos, a
história mundial vem se modificando.
Ao utilizarmos a comunicação nos comunicamos.
Após cinco anos de sua introdução à sociedade, havia
concluído dois cursos superiores e penetrado na vida
política.
Arriscarão (arriscaram).
As aves têm na boca um dente chamado bico.
As constelações servem para esclarecer a noite.
As glândulas salivares só trabalham quando a gente
têm vontade de cuspir.
As mudanças ocorrem devagarosamente.
As mulheres é...
As múmias tinham um profundo conhecimento de
anatomia.
As pessoas morrem agonizadamente.
As plantas se distinguem dos animais por só respirarem
a noite.
As principais cidades da América do Norte são
Argentina e Estados Unidos.
Atualmente para conseguirmos entrarmos no mercado
de trabalho, temos que estudarmos muito e deixarmos de
lado muitos prazeres.
Bom bardeio (bombardeio).
Bom censo (bom senso).
Bom, vou juntar varias coisas que axei e botar aki, axu
q vae ficar grande xP.
Bomsenso (bom senso).
Caracteres sexuais secundários são as modificações
morfológicas sofridas por um indivíduo após manter
relações sexuais.
Cirquíuto (circuito).
Com ser tesa (com certeza).
Como diz o ditado: é duro agradar a pobres e troianos.
Comunicação de maça (comunicação de massa).
Comunicação em massa (comunicação de massa).
Concerteza (com certeza).
Confessão (confessam).
Convivemos com a merchendagem e a politicagem.
Desde a priori aos tempos remotos.
Desde o seu surgimento o homem galopou pela escala
orgânica, tendo seu cérebro como montaria, pois anda a
frente das demais espécies, dominando-as a seu favor.
Dificilmente vamos encontrar mudanças ou progressos
que são positivamente bons para ambas as partes.
Docê – doce.
E nós estamos nos diluindo a cada dia e não se pode
dizer que a TV não tem nada a ver com isso.
E o Homo Sapiens continua seu progresso:
desmatando, poluindo e usando desinfetantes, só para dar
cheirinho no seu banheiro.
E o presidente onde está? Certamente em sua cadeira,
fumando baseado e conversando com o presidente dos EUA.
E por enquanto a decisão está indecisa.
É preciso deter o avanço bélico e fronteiriço dos EUA.
É preciso melhorar as indiferenças sociais e promover
o saneamento de muitas pessoas.
É um problema de muita gravidez.
Em Esparta as crianças que nasciam mortas eram
sacrificadas.
Em homenagem a Gutenberg, fizeram na Alemanha
uma estátua, tirando uma folha do prelo, com os dizeres: e a
luz foi iluminada.
Enquanto isso os Zoutros… tudo baixo nive.
Então o governo precisou contratar oficiais para
fortalecer o exército da marinha.
Entre os povos orientais os casamentos eram feitos no
escuro e os noivos só se conheciam na hora h.
Entres os índios de América, destacam-se os aztecas,
os incas, os pirineus, etc.
Espero que o desmatamento seja instinto.
Esse processo poderá centralizar as pessoas.
Estamos no apse do mundo digital.
Eu concordo em gênero e número igual.
Eu, particularmente, desenvolvi uma cabacidade de
raciocínio e argumentação incríveis.
Expansivas são as pessoas tangarelas.
Explorar sem atingir árvores sedentárias.
Expressões de baixo escalão (expressões de baixo
calão).
Faço comunicação porque acho importante ser
comunicadora, mas não acho importante ler jornal (suja a
mão), nem ficar em casa vendo TV. Acho melhor me
comunicar entre si.
Fazendo uma comparação das proezas do coelho que se
reproduz em grande quantidade, os humanos já venceram
com maior número populacional.
FMI, gente que nunca veio aqui e nem sabe o que é
sofrer.
Hitler, apesar de tudo, era um grande extrativista.
Houssa (ouça).
Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu
, o verde representa as matas, e o amarelo o ouro. O ouro já
foi roubado e as matas estão quase se indo. No dia em que
roubarem nosso céu, ficaremos sem bandeira.
Imprença (imprensa).
Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos que
recebemos todo dia.
Já está muito de difíciu de achar os pandas na
Amazônia.
Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigênio.
Lenda é toda narração em prosa de um tema confuso.
Marketing em português é mercado, marketing pessoal,
portanto é o mercado que frequentamos.
Meacabei medando mau.
Menos desmatamentos, mais florestas arborizadas.
Milhares de pessoas pegaram epidemia de cólera.
Na América Central há países como a República do
Minicana.
Na América do Norte tem mais de 100.000 Km de
estradas de ferro cimentadas.
Na cama dos deputados foram votadas muitas leis.
Na floresta amazônica tem muitos animais:
passarinhos, leões, ursos, etc.
Na Grécia a democracia funcionava muito bem porque
os que não estavam de acordo se envenenavam.
Na Grécia Antiga um dos maiores césares foi
esfaqueado pelo seu próprio filho adotivo.
Na Grécia, a democracia funcionava muito bem,
porque os que não estavam de acordo, se envenenavam.
Na verdade, nem todo desmatamento é tão ruim. Por
exemplo, o do Aeds Egipte seria um bom beneficácio para o
Brasil.
Não preserve apenas o meio ambiente e sim todo ele.
Nesta terra ensi plantando tudo dá.
No Brasil e no mundo as pessoas é envolvida por
notícias.
No começo os índios eram muito atrazados mas com o
tempo foram se sifilizando.
No passado, não existia absolutamente nada para se
comunicar, se informar e com o passar do tempo as coisas
foram mudando radicalmente. Quem sabe se na pré-história
os indivíduos pertencentes à raça humana já tinham ideia de
se comunicar com os outros mesmo a longas distâncias? Ou
quem sabe se eles eram até mais evoluídos do que nós? Uma
coisa é certa: eles existiram.
No tempo colonial o Brasil só dependia do café e de
outros produtos extremamente vegetarianos.
O Ateísmo é uma religião anônima.
O aumento da temperatura na terra está cada vez mais
aumentando.
O batismo é uma espécie de detergente do pecado
original.
O bem star (sic) dos abtantes endependente (sic) de
roça, religião, sexo e vegetarianos, está preocudan-do-nos.
O Brasil é um país abastardo com um futuro
promissório.
O Brasil é um país muito aguado pela chuva.
O calor é a quantidade de calorias armazenadas numa
unidade de tempo.
O cerumano no mesmo tempo que constrói, também
destroi, pois nos temos que nos unir para realizarmos
parcerias juntos.
O Chile é um país muito alto e magro.
O clima de São Paulo é assim: quando faz frio é
inverno; quando faz calor é verão; quando tem flores é
primavera; quando tem frutas é outono e quando chove é
inundação.
O comodismo e a falta de criatividade são as piores
virtudes do ser humano.
O coração é o único órgão que não deixa de funcionar
24 horas por dia.
O empréstimo para amigos ou parentes são sempre
feitos via oral.
O endomarketing é como se fosse o marketing
endovenoso.
O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas.
(sobre o El Niño)
O examinador não poderia vir corrigir a prova de
pijama porque a resvista Cláudia diz que é errado.
O fidibeque é a mesma coisa que a retroinformação, ou
seja a informação que vem por trás.
O filósofo Nich do início do século já observava que a
evolução gerérica teria que ser de forma moderada.
O grande excesso de desmatamento exagerado é a
causa da devastação.
O grande problema do Rio Amazonas é a pesca dos
peixes.
O hino nacional francês se chama La Mayonèse...
O homem progrediu as custas de outros, como
Frankstein, que deu vida a uma criatura, adquiriu a evolução
mas não teve bom êxito com o monstro criado. Já que este
monstro não tinha noção da sua força e deformação.
O homem são importante...
O homem tem a capacidade infinita de evoluir, mas
não sabe utilizá-la de forma segura e promíscua.
O macaco é descendente do homem.
O maior matrimônio do país é a Educação.
O mundo está reagindo as reações que o homem está
fazendo.
O nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro.
O objetivo da Sociedade Anônima é ter muitas fábricas
desconhecidas.
O petróleo apareceu há muitos séculos, numa época em
que os peixes se afogavam dentro água.
O povo amazônico está sendo usado como bote
expiatório.
O povo vive num mundo de comodidade sem fazer
esforço para que a crise da contradição seja mais que o
comodismo.
O Press release tem esse nome porque realiza as coisas
com pressa.
O problema ainda é maior se tratando da camada
Diozanio!
O problema da Amazônia tem uma percussão mundial.
Várias Ongs já se estalaram na floresta.
O problema da comunicação social no Brasil é que ela
é dirigida por brasileiros, deveríamos trazer os americanos.
O problema fundamental do terceiro mundo é a
superabundância de necessidades.
O proficional de comunicação tem um mercado
bundante a sua disposição, afinal, todos se comunicam na
terra.
O público mixto é composto por aquelas pessoas que
entram e saem da empresa. Ou seja nunca estão totalmente
dentro, nem totalmente fora.
O que é de interesse coletivo de todos nem sempre
interessa a ninguém individualmente.
O que vamos deixar para nossos antecedentes?
O ruído realmente atrapalha muito a comunicação.
Aqui na universidade fico atordoado quando passa o trem,
quase não ouço o professor. As salas deveriam ser à prova
de som.
O ser humano é uma faca de dois gumes e o primeiro é
o amor, que é uma pilastra central da sociedade.
O serigueiro tira borracha das árvores, mas não nunca
derrubam as seringas.
O sero mano tem uma missão.
O sol nos dá luz, calor e turistas.
O terremoto é um pequeno movimento de terras não
cultivadas.
O uniforme da nova geração está ultrapassado.
O vento é uma imensa quantidade de ar.
Oceano é onde nasce o Sol; onde ele nasce é o nascente
e onde desce decente.
Opição (opção).
Opnião (opinião).
Os aminoácidos foram os primeiros habitantes da terra.
Os analfabetos nunca tiveram chance de voltar à
escola.
Os crustáceos fora d'água respiram como podem.
Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza.
Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição
da froresta amazonia.
Os egípcios antigos desenvolveram a arte funerária
para que os mortos pudessem viver melhor.
Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes
enteresse pela Amazônia.
Os estuários e os deltas foram os primitivos habitantes
da Mesopotamia.
Os fungos realmente são bastante nocivos aos
interesses humanos. Fungando, uma pessoa pode estar
inalando milhões e milhões de vírus e bactérias do ambiente
em que se respira. Mas há também a utilidade. Uma boa
fungada pode efetivamente retirar aquele catarro preso na
garganta, sendo que quanto maior o som emitido pela
fungada maior é a sua eficiência e precisão na retirada
daquela substância indesejada. Há quem diga que fungos é
porcaria, mas pesquisas científicas revelam que, além de
serem métodos eficientes, as fungadas fazem parte do dia-a-
dia de pessoas em todo o mundo. É como diz a famosa
frase: aquele que nunca deu uma fungada que atire a
primeira pedra.
Os hermafroditas humanos nascem unidos pelo corpo.
Os maias, por exemplo, pouco se sabe sobre essa
civilização, muitos acreditam que eles chegaram a tal ponto
evolutivo que transcenderam. Ou mesmo as civilizações dos
cristais que ocuparam o planeta há muito tempo atrás e que
obtinham todos os seus poderes dos cristais.
Os plantetas são 9: Mercúrio, Venus,Terra, Marte. Os
outros 5 eu sabia mas como esqueci agora e está na hora de
entregar a prova, o sr. não vai esperar eu lembrar, vai? (e
espero que não vai abaixar a nota por causa disso).
Os principais meios utilizados pelas comunicação são:
meios orais (que são falados), meios auditivos (que são
ouvidos) e mais tácteis (que são sentidos).
Os próprios seres humanos somos mudanças
ambulantes.
Os ruminantes se distinguem dos outros animais
porque o que comem, comem por duas vezes.
Para subir na vida é preciso fazer caminhos descentes.
Paremos e reflitemos.
Partil (partiu).
Pensão (pensam).
Percebece (percebe-se).
Péricles foi o principal ditador da democracia grega.
Pode até ser por acidente. Tropeçamos no progresso,
caimos na mudança e levantamos na evolução.
Pode-se notar que o homem só conseguiu ir para
diferentes lugares do mundo a partir dos primatas, que
desenvolveram a roda, tendo como consequência a
possibilidade de conhecer culturas variadas.
Por isso é que podemos dizer que esse meio de
transporte é capaz de informar e deformar os homens' (sobre
a TV).
Porém o mundo anda em progresso as grandes
maioridades das vezes.
Praminha casa (pra minha casa).
Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna.
Precisamos tirar as fendas dos olhos para enxergar com
clareza o número de famigerados que almenta.
Precisa-se começar uma reciclagem mental dos
humanos, fazer uma verdadeira lavagem celebral em relação
ao desmatamento, poluição e depredação de si próprio.
Provocando assim a desolamento de grandes expecies
raras.
Quando um animal irracional não tem água para beber,
só sobrevive se for empalhado.
Quanto à opinião pública, podemos dizer que ela é
mutável. Por exemplo: na hora do parto, a mulher pode
optar pelo aborto.
Resta-nôs (resta nos).
Retirada claudestina de árvores.
Salvesse quem puder.
São formados pelas bacias esferográficas.
Se a comunicação é pessoal, envolvendo o emissor e o
receptor, como podemos pensar em comunicação
empresarial? A empresa se expressa por si só?
Se os seus pais nasceram e estão embuídos na
sociedade de nível alto, terá facilidade de ter amigos.
Segundo Darcy Gonçalves (Darcy Ribeiro) e o juiz
Nicolau de Melo Neto (Nicolau dos Santos Neto).
Sempre ou quase sempre a TV está mais perto denosco,
fazendo com que o telespectador solte o seu lado obscuro.
Sobrevivência de um aborto vivo.
Somos a própria imagem da evolução refletida no
espelho do progresso.
Sonhamos com um mundo melhor, visto que o
dinossauro cedeu lugar ao cachorro, gato.
Supera-rá (superará).
Também preoculpa o avanço regesssivo da violência.
Tecnologia siginifica dinheiro, e como só um terço do
mundo possui esse recurso.
Técnológica (tecnológica).
Tem certas situações que nem a mãe perdoamos, o que
ela deve, é obrigada à pagar. Apenas não cobramos os juros,
afinal é a mãe.
Tem empresas que contribui para a realização de
árvores renováveis.
Tem que destruir os destruidores por que o
destruimento salva a floresta.
Temos que criar leis legais contra isso.
Tiradentes, depois de morto, foi decapitulado.
Tivemos uma longa conversa de cinco minutos.
Todo ser humano é inédito e inaudito. Então, por que
mudar isso?
Todos os seres evoluem, cada um com a sua evolução,
pois somos todos individualistas.
Todos os seres humanos (menos algumas exceçoes)
habitam esse pequeno e frágil globo chamado planeta terra.
Tornamo-nôs (tornamo-nos).
Tudo isso colaborou com a estinção do micro-leão
dourado.
Tudo vem dos seres vivos, até os seres não-vivos.
Ultimamente não se fala em outro assunto anonser
sobre os araras azuls que ficam sob voando as matas.
Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois
vários xises.
Vamos deixar de sermos egoistas e pensarmos um
pouco mais em nos mesmos.
Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação.
Vamos mostrar que somos semelhantemente iguais uns
aos outros.
Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar
planeta.
Vivemos em um mundo em que vence o melhor, não
importando a maneira do vencimento.
Vôsse (você).
Após esses exemplos, se você tem um bom grau de
leitura e de conhecimentos atualizados, com certeza sairá na
frente de uma porção de outros candidatos menos
capacitados. É um ponto importante para sua reflexão, pois
pode ser um fator tranquilizador, afastando o nervosismo
excessivo e a insegurança.
Sua aprovação no ENEM, no vestibular ou em um
concurso público pode depender, então, de poucos pontos,
que você poderá conseguir se souber fazer uma redação
correta e coerente. Está disposto a investir nisso? Está
disposto a não fornecer material para as colunas de erros e
absurdos? Se a resposta é afirmativa, este livro foi escrito
para você!
NOVAS TENDÊNCIAS DO VESTIBULAR
Durante o vestibular de janeiro de 2000, na
Universidade Estadual de Londrina, uma das cinco melhores
do país, o reitor em exercício informou que o vestibular
daquela instituição passará por modificações significativas,
conforme divulgado pelo jornal Gazeta do Povo.
"Desde o ano passado, nosso processo seletivo vem
sofrendo mudanças que se iniciaram com a redução do
número de questões nas provas, que agora estão mais
dissertativas, acompanhando as mudanças do ensino
médio."
Essa mudança, que indica uma tendência a ser seguida
pelas demais universidades e faculdades, exigirá dos
candidatos habilidades para ler, interpretar e argumentar
com base no conteúdo apreendido. Para quem tem essa
habilidade, o problema inexiste. O que ocorre, no entanto, é
que a grande maioria dos alunos terá nisso uma barreira
ainda maior a suas pretensões de entrada em um curso
superior.
Essa constatação fica evidente nos comentários de
professores que avaliavam os textos dos vestibulandos da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná, no vestibular
2000. Em dez mil provas corrigidas. a média das notas
situava-se entre quatro e seis. Havia surgido apenas uma
nota dez.
A PUC-PR tem por tradição utilizar temas relacionados
ao momento histórico atual e seu modelo foge dos
parâmetros tradicionais de se propor um tema a ser
discorrido. Para entender melhor, veja como foi a prova de
redação em janeiro de 2000.
Sobre o tema escolhido, o candidato deveria escrever
de 20 a 25 linhas, incluindo o título, que deveria ser o texto
da parte selecionada por ele como tema.
ÉTICA E ECONOMIA
"Business is business!" (Negócio é negócio!), ou,
"amigos, amigos, negócios à parte!" são frases que revelam
uma das características centrais de nossas sociedades
modernas. Elas mostram a separação que existe entre a
amizade (e os valores morais) e a racionalidade econômica.
Não somente a separação, mas a subordinação dos valores
como a amizade à racionalidade econômica. Quando a
amizade entra em conflito com interesse econômico, é esse
que prevalece em detrimento do primeiro.
(SENG, Jung Mo & SILVA, Josué Cândido da.
Conversando sobre ética e sociedade. Petrópolis; Vozes,
1995. p.55)
Para efeito de análise, o texto pode ser dividido em três
partes:
1ª - a separação que existe entre a amizade e a
racionalidade econômica.
2ª - a subordinação dos valores morais à racionalidade
econômica.
3ª - quando a amizade entra em conflito com o
interesse econômico, é este que prevalece.
Dessas três, selecione uma parte para tema de sua
redação.
Sobre a parte escolhida, explicite aquilo com que você
concorda ou aquilo de que discorda.
Justifique a sua opinião.
Para ter sucesso com qualquer um dos temas
escolhidos, o candidato deveria "relacionar as categorias
gerais apresentadas com argumentos de prova concreta,
como fatos históricos, notícias recentes, etc. Importante
também que o texto apresentasse um posicionamento claro
de seu enunciador, uma vez que a proposta pede que o
candidato "explicite" os pontos de concordância sobre o
tema escolhido", conforme comentários dos professores
Venícius, Paulo, Wella e Braz, do Colégio Positivo. (Gazeta
do Povo, 5/01/2000, pg.24)
O objetivo dessa prova foi explicado pelo professor
Jayme Ferreira Bueno, coordenador da equipe responsável
pela correção das provas de Redação: "Os alunos deveriam
dar sua opinião, isto é, continuar a análise iniciada pelo
texto por um dos três caminhos propostos." E acrescentou
informações sobre a correção: "Avaliamos o candidato pela
organização e estruturação do texto, pela sequencia lógica
das ideias, pelo uso correto da Língua Portuguesa e por não
fugir ao tema proposto." Estas são informações preciosas
que completam aquelas já discutidas em nosso capítulo
inicial.
As observações da equipe encarregada da correção
também são importantes:
1ª - 5% dos alunos entregaram suas provas em branco.
2ª - a falta de leitura e o uso de linguagem coloquial
prejudicaram muitos candidatos.
3ª - os candidatos usaram muitos "chavões".
4. - alguns candidatos exageraram nos depoimentos
pessoais.
5ª - acharam o tema fácil, mas se descuidaram da
linguagem, da pontuação e das palavras.
6ª - Em algumas provas houve um festival de erros
grotescos nas estruturas de frases e ideias, além de
ortografia.
Ainda sobre o assunto, a professora Marta Morais da
Costa, coordenadora do curso de letras da PUC, declarou:
"O grande problema está na pobreza do vocabulário e na
falta de coesão no texto. Os alunos, infelizmente, não têm
recursos para escrever uma redação por falta de leitura.
Como pedimos a opinião do aluno sobre um tema, eles
acreditam que podem escrever como se estivessem
conversando. Além disso, aparecem na maioria das redações
o uso de histórias pessoais e não a opinião embasada em
conhecimentos. O que demonstra falta de leitura e de
conhecimentos gerais."
Em poucas palavras, a ilustre professora resumiu o
segredo de uma boa redação: conhecimentos aliados à
prática da leitura. E, muito embora o diagnóstico seja
correto quanto à falta de recursos do aluno para a leitura,
pessoalmente julgamos que obstáculos como esse pode ser
superado pela força de vontade e pela criatividade. Uma
delas é organizar um clube de leitura, em que amigos
adquirem a assinatura e uma revista, pagando pouquíssimo a
cada mês. Além disso, jornais, revistas e livros podem ser
consultadas nas bibliotecas públicas e escolares. Se a sua
biblioteca não está atualizada, que tal promover, com seus
amigos, uma campanha para atualizá-la com novos títulos?
E os velhos e sempre úteis "sebos"? Você já visitou algum?
Com pouco dinheiro você e seus amigos podem adquirir
livros importantes para aumentar seus conhecimentos. O
importante é agir!
Em janeiro de 2000, o vestibular da Universidade
Estadual de Londrina teve o seguinte tema em sua prova de
redação: "A preguiça é a mãe do progresso; se o homem não
tivesse preguiça de caminhar não teria inventado a roda."
Um dos candidatos entrevistados ao final do vestibular
disse: "Abordei a questão do desenvolvimento do
transporte...", enquanto que outro firmou: "Defendi a tese de
que os países do primeiro mundo seriam mais desenvolvidos
porque lá a preguiça é menor." (Gazeta do Povo,
11/01/2000, p.13) Obviamente as duas abordagens estão
corretas, dependendo da maneira como foram desenvolvidas
e embasadas, sem fugir do tema proposto. Ambas, no
entanto, para serem válidas, precisariam ser embasadas em
conhecimentos sólidos. A segunda proposta nos parece a
mais temerária, pois precisaria provar a tese de que os países
do segundo e terceiro mundos são mais preguiçosos.
Na realidade, o tema não foi surpresa. A Universidade
Estadual de Londrina tem seguido um modelo ao longo de
seus vestibulares, como se pode notar pelos temas exigidos
em suas últimas provas de redação:
A maneira de trajar reflete os costumes de uma
sociedade.
A rebeldia sem causa não produz transformação
alguma.
A oportunidade só chega para quem sabe reconhecê-la.
A verdadeira liderança está no saber repartir
responsabilidades.
Nossas palavras são o que somos?
Existe, no mundo atual, alguma guerra tão longínqua
que não nos atinja?
A adolescência é ao mesmo tempo um fim e um
começo.
Que se pode esperar de uma sociedade que ignora as
crianças e despreza os idosos?
Do engajamento da mulher no mercado de trabalho
decorrem muitas consequências.
As ideias são como as epidemias: alastram-se.
O homem cresce cada vez que se dispõe a recomeçar.
Conservar hábitos significa reconhecer-lhes o valor?
O amanhã começou ontem.
A lição dos exemplos vale mais que a dos conselhos.
Nada existe de tão fácil, que não se torne difícil, se
você o faz de má vontade.
O que importa não é alcançar a sociedade ideal, é
caminhar para ela.
Possíveis causas e consequências da situação do
desemprego no país.
O grande vencedor é aquele que não se deixa abater
pela derrota.
Fatos históricos: quem os conta? Quem os sofre?
Pagam o preço do progresso aqueles que menos o
desfrutam.
A Escola é o melhor caminho para o exercício pleno da
cidadania.
Os homens de fato se comunicam por meio dos
computadores ou apenas trocam informações?
Não basta saber interpretar o que se lê num texto; é
preciso saber interpretar o mundo em que se vive.
Num noticiário de TV, tão veloz e tão variado, todas as
notícias parecem ter o mesmo peso.
Muitos homens, neste final de século, duvidam de que
a humanidade possa caminhar para melhor sem a
recuperação daquilo que a competição vem insistentemente
abafando: a ideia de coletividade.
Muitos homens, neste final de século, duvidam de que
a humanidade possa caminhar para melhor sem a
recuperação daquilo que a competição vem insistentemente
abafando: a ideia de coletividade.
Num noticiário de TV, tão veloz e tão variado, todas as
notícias parecem ter o mesmo peso.
Não basta saber interpretar o que se lê num texto, é
preciso interpretar o mundo em que se vive.
Os homens de fato se comunicam por meio dos
computadores ou apenas trocam informações?
A Escola é o caminho necessário para o exercício
pleno da cidadania.
Pagam o preço do progresso aqueles que menos
desfrutam dele.
Fatos históricos: quem os conta? quem os sofre?
O grande vencedor é aquele que não se deixa abater
pela derrota.
As Novas Tendências
Enquanto que os professores são unânimes em afirmar
que a redação é um instrumento precioso de avaliação da
qualidade dos candidatos a qualquer curso, alunos batem na
mesma tecla de que essa prova deveria ser excluída do
vestibular. Compare os argumentos:
1º - "Uma das questões pedia a opinião do candidato e
acho que é muito difícil alguém conseguir julgar se a minha
opinião está certa ou errada."
2º - "Acho que a prova de redação não julga o
conhecimento do aluno, principalmente se ele estiver
nervoso. Porque aí, ele acaba escrevendo qualquer coisa,
mesmo que tenha se preparado."
Vejamos o que disse sobre o assunto o professor Braz,
do Curso Positivo, em matéria da Gazeta do Povo: "Para se
comunicar oralmente, explanar um projeto, é preciso seguir
a mesma sequencia lógica de uma redação. É preciso
ordenar as ideias no papel; e só consegue fazer isso quem
sabe redigir. Para redigir um texto, é preciso ter
conhecimento de gramática, hábito de leitura e raciocínio
lógico. Por isso, antes de saber escrever, é preciso saber ler."
Argumentos como este do professor dão a indicação
clara de que a redação não só vai continuar, mas como
passará a exigir cada vez mais dos alunos. Afinal, o
vestibular é um espécie de funil, por onde apenas os
selecionados acabam passando. Quem estiver preparado terá
maiores chances de sucesso.
O reitor em exercício da Universidade Estadual de
Londrina, citado no início do capítulo, informou também
naquela ocasião que a UEL está buscando parcerias para a
elaboração de suas provas e que uma das possíveis parceiras
seria a Universidade Federal do Paraná, que está inovando
no modelo de sua prova de redação, tornando-a ainda mais
seletiva. Tanto que, embora merecendo elogios da maioria
dos professores que acompanharam o vestibular 2000
daquela instituição, todos foram unânimes em reconhecer
que se tratava de uma prova inexequível. Preferimos, aqui,
classificá-la como altamente seletiva, uma vez que a
redução do tempo, de certa forma incoerente em relação ao
número e à dificuldade das questões, tornou-a dificílima,
como você mesmo poderá verificar: Foram estas as
questões:
Questão 1
Na Mostra Comemorativa dos 20 anos de anistia no
Brasil, foi apresentada uma charge, resumida no quadro
abaixo. A partir de sua leitura, escreva um texto, de até 10
linhas, que compare os dois períodos da história recente do
Brasil contrapostos na charge, focalizando os contraste
explorado pelo humorista.
ANISTIA
ONTEM HOJE
PENDURADO NO PAU-DE-ARARA PENDURADO NO
CHEQUE ESPECIAL
PELA VOLTA DOS EXILADOS! PELA VOLTA DOS
EMPREGADOS!
ABAIXO A DITADURA DOS MILITARES! ABAIXO A
DITADURA DO DÓLAR
Questão 2
Foi publicada na revista ISTO É, em 04/08/99, uma
reportagem sobre a previsão de que o mundo acabaria no dia
11 de agosto do mesmo ano. Um trecho da reportagem diz o
seguinte:
Cristãos fanáticos acreditam que o eclipse é o indício
do "fim dos tempos" pregado na Bíblia.
Seguidores de Nostradamus vislumbram o sinal que
deverá marcar a vinda do Grande Rei do Terror, anunciada
nas famosas Centúrias. Dizem que os extraterrestres já
estariam preparando os terráqueos para uma "alteração
vibracional do planeta". Astrólogos e esotéricos falam em
sérias transformações na terra e no surgimento de uma nova
consciência no homem. Tudo isso viria com o eclipse,
também citado nas escrituras dos povos celtas e no Vishnu
Purana, um dos textos sagrados do hinduísmo. Indiferente
ao fato de que a contagem do ano 200 só exista para o
cristão — no calendário dos islâmicos, chineses e judeus
não consta mudança de século nos próximos meses —, essa
turma de supersticiosos, catastrofistas, milenaristas e
fundamentalistas acendeu o pisca alerta.
O astrofísico Carl Segan, em seu livro. O Mundo
Assombrado pelos demônios (1995), apresenta o seguinte
ponto de vista:
"Durante grande parte da nossa historia tínhamos tanto
medo do mundo exterior, com seus perigos imprevisíveis,
que aceitávamos de bom grado qualquer coisa que
prometesse suavizar ou atenuar o terror por meio de
explicações. A ciência é uma tentativa, em grande parte
bem-sucedida, de compreender o mundo, de controlar as
coisas, de ter domínio sobre nós mesmos, de seguir um
rumo seguro. A microbiologia e a meteorologia explicam
hoje o que há alguns séculos era considerado causa
suficiente para queimar mulheres na fogueira. (...)"
Minha preocupação é que, especialmente com a
proximidade do fim do milênio, a pseudociência e a
superstição parecerão mais sedutoras a cada novo ano, o
canto de sereia do irracional mais sonoro e atraente. Onde o
escutamos antes? Sempre que nossos preconceitos étnicos
ou nacionais são despertados, nos tempos de escassez, em
meio a desafios à autoestima ou à coragem nacional, quando
sofremos com nosso diminuto lugar no Cosmos, ou quando
o fanatismo ferve ao nosso redor — então, hábitos de
pensamentos conhecidos de eras passadas procuram se
apoderar dos controles."
Escreva um texto, de até 10 linhas, confrontando a
posição dos apocalípticos com o ponto de vista do cientista
Carl Segan.
Questão 3
Alguns veículos de comunicação, como a revista ISTO
É de 25/08/99 e a Folha de S. Paulo de 12/09/99, noticiaram
a decisão do comitê de educação estadual do Estado de
Kansas, EUA, de excluir de seus exames questões sobre a
teoria da evolução de Darwin e o modelo do Big Bang, para
desencorajar o ensino dessas teorias nas aulas. Um dos
argumentos do comitê foi o fato de que ninguém pode voltar
no tempo para observar diretamente como a vida ou o
Universo se originaram e, por isso, qualquer teoria sobre
essas origens é especulação. Esse movimento é
impulsionado pelos criacionistas, que procuram justificar a
Bíblia como um texto descrito em ciências naturais, ou seja,
que aceitam literalmente as descrições bíblicas das origens
do Universo e da vida no Gênese.
Alguns leitores da revista ISTO É, diante das críticas
que a reportagem apresentou em relação à decisão tomada
pelo comitê, se manifestaram a respeito:
O autor ignora completamente algumas questões
fundamentais. Primeiro: a teoria da evolução ainda é uma
mera teoria, porque não pode ser demonstrada. Segundo,
que ensinar uma teoria nas escolas públicas, como se fosse
já comprovada, é uma imposição grosseira, como as
cometidas na Idade Média. Terceiro, crer na teoria
evolucionista exige uma dose gigantesca de fé por causa das
inúmeras perguntas sem respostas, das incontáveis
incoerências internas e das abundantes descobertas
cientificas que apoiam a explicação criacionista.
(J.M.S. - Goiânia/GO)
"É simplesmente absurdo tratar as descobertas de
Charles Darwin como teorias. Qualquer biólogo sabe que
elas são fatos cientificamente provados e incontestáveis.
Situações como esta só provam a ignorância do povo mais
rico do planeta."
(M.W.S.D. - Brasília/DF)
Posicione-se a respeito, escrevendo um texto de até 10
linhas. Qualquer que seja sua opinião, o importante é
apresentar argumentos para sustentá-la.
Questão 4
É bastante frequente a afirmação de que o inglês é a
língua mais falada no mundo. Considerando as informações
que aparecem na tabela, redija um texto, de até 10 linhas,
comentando essa afirmação.
As línguas mais faladas
Há mais de 4.000 idiomas, mas um grupo de apenas
dez é falado — como primeira ou segunda língua — por
mais da metade da população mundial (em milhões de
pessoas)
Chinês
Inglês
Hindi
Espanhol
Russo
Árabe
Bengali
Português
Indonésio
Alemão
Fonte: Sidney Culbert / University of Washington,
Seattle
(Adaptado de Veja - 19/09/99 - p. 86)
Uma prova como esta, como um tempo reduzido para
sua realização, exige do candidato rapidez de leitura,
facilidade de interpretação, análise e comparação de dados,
raciocínio lógico, argumentação e conhecimento da língua.
É uma prova difícil, mas não impossível de ser realizada,
mas apenas conseguirão superá-la aqueles que estiverem
devidamente preparados.
Nervosismo e outros fatores não interferem quando se
tem a segurança que advém do conhecimento, quando
tarefas como essa já estão automatizadas. Isso exige
dedicação, esforço, empenho e superação. Se dificuldades
existem, devem ser superadas com criatividade, método e
disciplina.
Vejamos, agora, os temas de dois vestibulares recentes
da Universidade de Londrina, que mudam a visão e a
abordagem do teste como forma de aferir a capacidade do
candidato.
Redação
1. Leia o tema dado a seguir e analise as ideias nele
contidas.
TEMA
“A preguiça é a mãe do progresso; se o homem não
tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.”
2. A frase acima é do escritor Mário Quintana. Trata-se
apenas de um pensamento bem-humorado ou de uma antiga
verdade, que a tecnologia moderna vem confirmando?
3. Faça uma dissertação, na qual você argumentará
para esclarecer sua posição diante dessa frase.
4. A dissertação deve ter a extensão mínima de 20
linhas e máxima de 30, considerando-se letra de tamanho
regular.
Redação
1. Leia o tema dado a seguir e analise as ideias nele
contidas.
TEMA
O espaço que o homem habita diz muito de seu modo
de ser.
2. Considerando essa afirmação, leia atentamente o
texto publicitário abaixo.
Apartamento pronto para morar
Zona nobre - 1 dormitório, 2 vagas em garagem
privativa coberta
Central de vendas: Rua Guapuruvu, 503 - Fone:
1052-5616
3. Faça uma dissertação em que você, tendo refletido
sobre a relação entre os dois textos, exponha o que pensa a
respeito do tema.
4. A dissertação deve ter a extensão mínima de 20
linhas e máxima de 30, considerando-se letra de tamanho
regular.
Assim, se você tem dificuldades com a Redação, não
espere facilidades nos próximos vestibulares. A tendência
será exigir conhecimentos abrangentes não apenas na
habilidade de redigir, mas também nas de interpretar textos
e de usar informações.
Em muitos casos, a redação trará temas abstratos,
polêmicos e atuais que podem ser que qualquer natureza,
desde filosóficos e sociológicos a temas sobre a essência
humana, modernidade, redes sociais, trabalho, amizade,
bulling, internet, linguagem telefônica (comparada aos
antigos telegramas), crises nacionais e mundiais de toda
ordem e meio ambiente.
Para não ser pego de surpresa, você precisa estar
preparado e esta parede ser uma tarefa impossível. Antes de
qualquer coisa, afaste de sua mente todo e qualquer
pensamento negativo, pois nem tudo estará perdido, se você
tiver força de vontade e estiver disposto a aprender Redação
Passo a Passo.
PARTE 1
ESTILO
Capítulo 1
DESENVOLVENDO UM ESTILO PRÓPRIO
Estilo, primitivamente, era o nome de um instrumento
em forma de agulha, usado para escrever sobre tábuas
untadas de cera. Modernamente, significa a maneira de cada
escritor ou pessoa ao exprimir seus pensamentos,
sentimentos ou fatos, seja pela escrita ou através da fala,
exigindo de cada um a aplicação de todas as suas
faculdades: inteligência para dar solidez e encadeamento, a
imaginação para dar brilho, vontade para a força e o ouvido
e a língua para exercitar.
Sendo algo tão pessoal, pode-se afirmar que existem,
tantos estilos quantos são os escritores, pois cada um é
único em sua formação, conhecimentos, criatividade,
temperamento, vontade e talento. Para se afirmar que um
escritor tem um bom estilo, acima de tudo, é preciso que, ao
escrever, toda palavra tenha origem na ideia e toda frase
encerre um pensamento. Adaptando isso ao nosso objetivo
específico que é a redação para o vestibular ou para
concursos, podemos afirmar que toda palavra deve ter sua
origem no tema proposto e toda frase deve encerrar um
pensamento vinculado a este objetivo.
A importância do estilo reside no fato de permitir que
possamos dizer alguma coisa de uma forma diferente de
uma outra pessoa. Muitas vezes, não é o que escrevemos,
mas a forma como escrevemos que impressiona mais. Todos
temos mais ou menos as mesmas ideias e pensamos as
mesmas coisas. O que nos diferencia está na forma como
expressamos isso de maneira individual. Uma ideia
transmitida por uma pessoa pode parecer uma coisa trivial e
sem importância, enquanto que a mesma ideia, transmitida
por uma outra pessoa, pode ganhar uma importância fora do
comum.
Sendo algo tão pessoal, não se pode, porém, afirmar
que cada um nasce com um estilo próprio. Ele é formado,
juntamente com o gosto que, como diz o célebre ditado,
"não se discute", pois é próprio de cada um. Para ser um
bom escritor, é preciso aprimorar-se e isso exige
transpiração. Não há dom que consiga passar para sua
cabeça toda a beleza literária de uma poema ou o conteúdo
de um livro de história, sem que você tenha que se debruçar
sobre ele e lê-lo do princípio ao fim.
Para se desenvolver um estilo próprio e adequado,
suficiente para fazê-lo enfrentar sem temor qualquer prova
ou concurso em que a redação seja exigida, você pode
seguir alguns passos importantes. Lembre-se sempre que
nada nem ninguém conseguirá fazê-lo se tornar um bom
escritor, exceto a minha fórmula mágica do CHA que pode
ser reduzida nos seguintes componentes básicos: Inspiração
10%, Transpiração 90%.
COMO DESENVOLVER UM ESTILO PRÓPRIO
É preciso aprender a gostar de escrever e isso só se
consegue através da formação do gosto pessoal. É preciso
provar de tudo e gostar de tudo, independente de
preferências. A educação do gosto pode ser feita pela
leitura, pelos exercícios de análise e de crítica literária, pela
participação em debates ou pela simples troca de ideias com
pessoas que apreciem as letras de modo geral. Buscando
uma forma prática de fazer isso, podemos desenvolver nosso
próprio estilo através de três passos básicos: a observação, a
leitura e a imitação.
A Observação
Inicialmente, para você escrever, a condição inicial é
que você tenha alguma coisa para dizer. Quando se impõe
um tema, é preciso que você tenha conhecimento desse tema
para poder escrever sobre ele. A observação é o primeiro
meio de adquirir conhecimentos e isso pode ser usado em
literatura. Como devemos fazer isso com um certo método,
não basta observar. É preciso aprender a observar.
A observação é tão essencial em redação como na
própria vida. A todo momento somos vitimas dos mesmos
erros que muito bem poderiam ter evitado, se estivéssemos
atentos? Por que erramos constantemente no uso da
pontuação, quando podemos apanhar a gramática e tirar as
dúvidas de uma vez por todas? Ou recorrer ao professor
definitivamente? Assim, linha após linha, redação após
redação vamos cometendo os mesmos erros. E o que é pior:
temos ao nosso alcance, nas prateleiras das bibliotecas,
exemplos de especialistas nessa arte e não aprendemos a
procurá-los, conhecê-los e imitá-los.
Quantos erros podemos evitar, se aprendermos a
observar? Quantos se julgam incapazes de escrever e não
percebem que lhes falta o hábito de observar. Veem as
coisas, mas não as observam, sempre à procura de fórmulas
mágicas que possam transformá-los em bons redatores da
noite para o dia. Infelizmente não existe isso.
Didaticamente, podemos dividir a observação em
material e moral. Na material, aprenda a observar a
natureza, os pormenores de sua obra, os contornos, as cores
e os sons. Seja curioso e procure ver tudo com novos olhos.
Aquela árvore velha próxima de sua casa, por onde tantas
vezes você passou, pode ganhar uma nova dimensão se você
olhá-la com novos olhos, atentando para as diferenças de
cores entre o tronco, os galhos, as folhas e os frutos. Veja
como o vento a movimenta. Acompanhe uma folha que cai.
Note os pássaros movimentando-se por entre os ramos.
Você só vai conseguir descrever com naturalidade uma
árvore, se um dia parar para observar uma com cuidado.
Aprenda a fazer isso com as casas e ruas de sua cidade,
com as pessoas que conhece, enquadrando-as em tipos
semelhantes. Quando viajar, use isso para alargar seu campo
de observação, fazendo comparações entre o que conhece e
o que está conhecendo, incorporando novas imagens e
experimentando sensações desconhecidas.
Não é algo difícil de ser feito. Apenas olhe as coisas
como se tivesse que descrevê-las e, se quiser ir mais fundo
nesse aprendizado, mentalmente faça uma rápida descrição
do que vê ou sente. Se lhe faltar palavras ou expressões,
assim que possível busque-as num dicionário ou peça
sugestões a um amigo ou ao seu professor.
Além da observação material, é importante também a
observação moral. O ser humano revela-se através de seus
atos. Aprenda a reconhecê-los. Saiba o que traduz a cólera
ou alegria. Observe como as pessoas reagem às emoções.
Uma franze a testa, denotando enfado. Outra torce o nariz,
demonstrando contrariedade. Outra pisca fecha os olhos por
algum tempo, para demonstrar prazer. Vá além. Veja como
as pessoas podem ser intransigentes. Como se recusam a
aceitar opiniões contrárias por pura teimosia. Comece a
descrever o perfil moral das pessoas que conhece ou que vir
a conhecer, sempre as observando e comparando as
informações assim obtidas.
Para isso, nada melhor que conversar com as pessoas,
trocar informações com elas, descobrir seus gostos e
preferências, estimulá-las a falar do que apreciam e
desafiando-as a encarar o que não gostam. Sonde suas
reações. Compare isso com as reações de outras pessoas na
mesma situação. Você só conseguirá descrever uma pessoa
irada, se observar uma atentamente. Fora disso, tudo será
intuitivo, empírico, desprovido de originalidade,
naturalidade e com tremendo sabor de coisa falsificada ou
arrancada a fórceps da imaginação.
Finalmente, não limite sua observação exclusivamente
aos que o cercam. Analise-se para se conhecer melhor.
Observe como pensa, como reage diante de determinadas
situações, como ama, como fala, como se comporta e age.
Quando observar uma cena, analise a impressão que ela lhe
causa, se o deixou admirado, satisfeito, triste. Se aprova ou
desaprova, descubra o motivo.
Tenha em mente que a observação é indispensável,
pois vai lhe dar elementos para ter o que dizer, quando for
redigir, mas não deve ser ela o único elemento de formação
de seu gosto e de seu estilo. Uma forma indireta de
observação, a leitura, certamente vai tornar isso mais fácil,
pois poderá suprir a observação direta das coisas, dos
homens e de nós mesmos.
A Leitura
Experimente fazer um simples exercício, na próxima
vez em que estiver fazendo uma redação e sentir que lhe
escasseiam as ideias e que as imagens não lhe ocorrem.
Deixe o trabalho de lado e apanhe um livro qualquer. Leia-o
durante algum tempo e sentirá as ideias brotando, a
imaginação voando solta e a sensibilidade aflorando
espontaneamente.
Após essa experiência, você certamente entenderá
porque os grandes mestres recomendam a leitura para
aqueles que desejam aprender a arte de escrever.
Pela leitura você ganha experiências, você observa
como um escritor tratou habilmente uma situação difícil,
como usou as palavras e as expressões, como descreveu,
como gerou expectativa, como arrancou emoções. Leia e
aprenda. Leia observando, como quem observa a natureza.
A leitura deve ser variada e certamente você gostaria
de fazer isso com um certo método e pode estar esperando
por uma lista do que ler. Não há problema. Isso não é difícil
de ser elaborado. O difícil será você segui-la e isso será feito
na medida exata de sua preocupação com o futuro ou na
importância que dá a seu aprendizado.
Comece lendo bons autores modernos, no gênero que
você mais aprecia. Se gosta de histórias em quadrinhos,
comece com elas. Leia os cronistas de jornal, os
comentários e editoriais, que são pequenos e rápidos.
Observe sempre como eles estruturam o texto, como usam
as palavras e como constroem as imagens.
Sempre que for ler, faça do seu dicionário o
companheiro constante. Jamais deixe passar a oportunidade
de conhecer o significado de uma palavra nova e de
incorporá-la ao seu vocabulário.
Leia depois um livro de contos ou de crônicas. Quem
sabe um romance com capítulos curtos, que motivam a
leitura. Vá ampliando gradativamente, antes de iniciar um
plano de leitura para valer mesmo.
Plano de Leitura
Procure segui-lo, estabelecendo um cronograma de
leitura. Esse conjunto de conhecimentos será o básico
necessário para seu bom desempenho em qualquer prova de
redação.
Literatura Cristã — Leia a Bíblia, Novo e Velho
Testamentos, observando como eram as pessoas naquela
época, como agiam, quais eram seus sentimentos, o que as
movia, como se relacionavam umas com as outras, que
emoções demonstram e tudo o mais que julgar importante.
Literatura Grega — Procure na biblioteca textos dos
seguintes autores: Homero, Heródoto, Platão, Demóstenes,
Plutarco e Epicteto. Leia e pratique suas observações.
Literatura Latina — Leia Vergílio, Cícero, Sêneca, Tito
Lívio, Tácito e Horácio, pondo em prática seus dotes de
observador.
Literatura Europeia — Não deixe de ler obras de
Shakespeare e Milton, de Dante, Cervantes, Victor Hugo,
Goethe e Schiller.
Literatura de Língua Portuguesa — Procure ler Garrett,
Herculano, Castilho, Rebelo da Silva, Latino Coelho, José
de Alencar, Castelo Branco, Machado de Assis, Oliveira
Martins, Eça de Queirós, Rui Barbosa e Euclides da Cunha.
Literatura Atual — Procure conhecer as obras dos
autores que estão em evidência ou que se evidenciaram na
literatura mundial nas últimas décadas. Leia pelo menos
trechos de suas obras, observando seus estilos.
Se você não tem o hábito da leitura, com certeza
enfrentará certas dificuldades para se iniciar. Não se deixe
intimidar por isso. O que basta nesse estágio é sua
ATITUDE, sua vontade de aprender.
Para ajudá-lo nesse processo. Aqui estão algumas
regras básicas, mas simples para você praticar a leitura:
1 - Leia atentamente e devagar, pois a leitura exige,
para ser proveitosa, reflexão nos pensamentos e sentimentos
do autor para que possamos assimilá-los. Assim, não lhe
escaparão a beleza dos sentimentos, a justeza dos
pensamentos, a arte da composição e a perfeição do estilo a
obra. Deve vez em quando, pare e pergunte-se: "Vi isso
antes? Compreendi bem? Como eu teria dito isso?"
2 - Pratique ao máximo suas observação, procurando
achar no obra que lê os elementos da composição literária e
as ideias apresentadas e os argumentos utilizados para
validá-las. Acompanhe as definições, analise os raciocínios,
verifique as descrições e as narrativas, entenda e compare as
personagens, descubra o plano da obra, examine as
expressões e os diálogos, sempre acompanhado de seu
dicionário para não deixar passar nada. Para isso, são
excelentes os exercícios incluídos nos livros escolares. Quer
ir além? Vá a um sebo e compre uma porção de livros
didáticos que contenham textos com exercícios de
interpretação. São ótimos para você se desenvolver e, ao
mesmo tempo, ampliar seus conhecimentos e experiência.
3 - Tome notas e consulte-as sempre que possível,
mantendo viva em sua mente aquela obra. Isso é
particularmente importante para as provas de Literatura,
onde são fornecidas listas de livros para serem lidos.
4 - Se você tiver alguns amigos com os mesmos
interesses, objetivos ou necessidades, fundem o Clube de
Leitura, onde farão em conjunto todas as atividades de
leitura, anotações, troca de ideias, experiências e
observações e poderão elaborar suas redações e submetê-las
ao julgamento. Além de ser estimulante e altamente
motivador, seguramente apressará seu desenvolvimento, sua
formação e seu aprendizado.
Ao fazer anotações, tenha em mente que, são
importantes porque suprem a memória. Se não fizer isso,
após algum tempo terá esquecido a maior parte do que leu, a
menos que tenha uma memória fotográfica. Além disso,
essas anotações são a garantia da precisão em suas citações,
quando se reportar a um texto, um livro ou uma página,
dando valor e autoridade aos seus escritos, economizando
tempo quando necessitar fazer isso.
Ao fazer suas anotações, marque o que julgar
importante e interessante para você, conforme seu gosto e
seu temperamento. Lembre-se que as anotações são para seu
uso pessoal, portanto você decide o que elas devem conter e
de que forma serão feitas. No entanto, para impor um certo
método, há algumas observações que você pode seguir, se
julgá-las oportunas:
1 - Se está se preparando para o vestibular e lê uma
obra que faz parte da relação de livros obrigatórios, tome
notas sobre tudo e a propósito de tudo.
2 - Se ao escrever você tem dificuldades de encontrar a
imagem adequada ou exprimir uma emoção corretamente,
anote como aquele autor tratou esses aspectos, qual a ideia
usada, que metáfora foi selecionada por ele, que sentimento
ele fez aflorar e de que forma.
3 - Se pretende formar um banco de dados para uso
futuro em suas redações, anote ditos históricos, citações,
anedotas, palavras características, observações, meditações
pessoais, reflexões e juízos emitidos pelo autor naquela
obra.
4 - Finalmente, em qualquer um dos casos, anote bons
fragmentos daquela obra, decorando-os para ilustrar ou
incluir, no momento oportuno, como argumento em suas
redações. Não se acanhe e trocar anotações com seus
amigos. Ampliará seu campo de visão e certamente
contribuirá para a formação de seu estilo.
5 - Para facilitar seu trabalho, veja o capítulo Modelos,
onde são apresentadas algumas fichas que poderão ser
utilizadas ou adaptadas segundo sua conveniência. O
importante é que você anote sempre.
O melhor método para você fazer suas anotações é à
medida que vai lendo, marcando a lápis, desde que o livro
seja seu, as passagens ou aspectos dignas de serem anotadas,
transcritas ou admiradas, classificando-as segundo o autor
ou a ideia, em fichas ou num arquivo específico do seu
computador, caso tenha um.
Exemplo: a) Por autor: Antônio Vieira, Castelo
Branco, Manuel de Melo, Rui Barbosa. b) Por ideia:
Anedotas, Artes, Biografias, Descrições, Ensino, História,
Imagens, Literatura, Palavras Célebres, Pedagogia,
Filosofia, Psicologia, Retratos, Ciências.
Se você não dispõe de um computador ou de fichas
apropriadas, pode fazer isso num caderno com índice
alfabético ou em folhas soltas, que arquivará na ordem mais
prática para suas futuras consultas.
Praticando a leitura dessa forma você tornará mais fácil
a formação de seu estilo pela imitação.
A Imitação
Imitar é adaptar ao seu estilo as imagens, as ideias ou
as expressões de um estilo alheio, explorando-as conforme
as suas qualidades pessoais e o seu modo de ver. É uma
prática quase que necessária ao aprendizado e não se um
grande escritor que não tenha praticado a imitação e nenhum
se envergonha de o confessar.
Os mestres do estilo recomendam a imitação, sendo a
paráfrase seu exercício mais eficiente. Quando se fala de
imitação, não se recomenda a reprodução pura e simples,
mas a assimilação das ideias e das imagens usadas por um
autor.
Pode-se imitar o plano de uma obra, parte dele ou
numa simples passagem. É sabido, inclusive, que para
compor a Eneida, Vergílio imitou da Ilíada, de Homero,
duas obras que devem ser lidas por qualquer aprendiz de
escritor.
Pode-se também imitar uma ideia alheia e, para isso, é
preciso assimilá-la e desenvolvê-la de um modo pessoal. Da
mesma forma, pode-se imitar uma imagem, expressão,
pensamentos, sentimentos, mas frisá-los e modificá-los até
se lhes dar outra feição.
Um exercício prático que você pode fazer e que em
muito o ajudará é pegar um poema e transformá-lo em prosa
ou selecionar um trecho em prosa e transcrevê-lo na forma
de um poema. Você pode também reescrever uma anedota,
dando-lhe uma nova versão ou mudando as personagens,
adaptando-as a sua realidade.
Conclusão
Longe de ser um processo instintivo, um dom que se
recebe ao nascer, o estilo e a arte de escrever é um processo
que deve ser desenvolvido com certo método, exigindo
esforço e dedicação pessoal. Considerando a importância da
redação no vestibular e nos concursos públicos, nada mais
lógico e inteligente, para quem deseja alcançar a aprovação,
que impor certa disciplina ao seu aprendizado, esquecendo
antigos conceitos e práticas erradas. A formação e o
desenvolvimento de um estilo próprio é fundamental nesse
processo, garantindo originalidade, conteúdo e correção a
seus escritos, exigências básicas para a uma boa nota.
Entender o processo de formação e desenvolvimento do
estilo é um dos passos mais importantes e isso passa pelo
conhecimento e entendimento das qualidades do estilo.
Para completá-lo, não deixe de ler os textos do capítulo
Leitura Obrigatória, que certamente acrescentarão
importantes conhecimentos ao seu repertório.
Capítulo 2
QUALIDADES DO ESTILO
A Originalidade
Um estilo original surpreende e impressiona por suas
imagens e seu colorido. A originalidade está na maneira
própria de exprimir suas ideias e de fazer valer os
pensamentos. Sem ela não há grande escritor. Para ser
alcançada você deve, inicialmente, escrever com
naturalidade, estabelecendo uma perfeita relação entre
pensamentos e sentimentos, imagens e palavras com a
realidade.
Originalidade implica num compromisso com
reprodução exata e fácil da verdade, sem aparatos e
requinte. Isso leva automaticamente à simplicidade, que é a
ausência de exageros e inutilidades, caracterizando-se por
uma construção de frase simples, fluente, elegante, correta,
clara e concisa, com o uso das palavras que, embora
conhecidas, devem ser escolhidas e apropriadas.
Escrever com originalidade é dizer o que os outros
ainda não disseram, empregando uma linguagem inesperada
e viva, de forma variada e atraente, prendendo a atenção
pela vibração da ideia e pela vida das palavras, fugindo das
armadilhas que caracterizam a afetação, a ênfase e a
perífrase.
A afetação é o uso excessivo de termos inesperados ou
de construções complicadas, dando a impressão de muita
cultura ou erudição, exigindo que o leitor recorra
permanentemente a um dicionário para entender o que lê.
Quem escreve assim fatalmente não é lido.
A ênfase é o exagero desnecessário ou a eloquência
sem nexo ou propósito, como no exemplo abaixo:
Era um grande homem, capaz de atingir o mais
ferrenho espírito, o mais cruento coração. Seu talento
galgava os píncaros da imaginação e ele se apoderava da
força do trovão e da pureza das nuvens para transmitir suas
ideias. Quando iniciava seu trabalho, tinha o fôlego dos
mergulhadores que descem aos pélagos marinhos mais
profundos para apanhar as mais alvas pérolas do saber. Era
um gênio na acepção maior, mais pura e completa desse
termo!
Finalmente, a última das grandes armadilhas é a
perífrase ou toda explicação extensa de algo que pode ser
expresso em poucas palavras ou até mesmo numa só. Um
exemplo disso é dizer "o cantor das madrugadas" ao invés
de simplesmente usar a palavra "galo". Ao usar a perífrase,
mesmo quando ela pode parecer útil, lembre-se que suas
referências e sua experiências podem ser diferentes daquelas
do corretor de sua redação.
Ao citar, por exemplo, "o pedreiro da floresta", ao
invés de "joão-de-barro", fazendo uma referência à celebre
música sertaneja, você precisaria ter certeza absoluta de que
o leitor desse texto conhece a música. Caso contrário, a
clareza do que foi escrito estará irremediavelmente
prejudicada, pois dicionário algum explicará o significado
dessa expressão e clareza e concisão são também atributos
essenciais de todo estilo.
A Clareza
Clareza significa lucidez na exposição dos
pensamentos e dos sentimentos, que devem ser
compreendidos sem esforço e, para isso, duas condições são
indispensáveis, a pureza da língua e a propriedade das
palavras.
A pureza da língua consiste no emprego de construções
e de palavras aprovadas pela sintaxe e consagradas pelo uso.
Seus principais obstáculos são as construções estranhas,
caracterizadas pelo emprego de estrangeirismos. Isso pode
ser visto facilmente nas fachadas de lojas, que anunciam o
"Peter's Bar", o "Grill Lanches", o Aparecido's
Hamburguers e outros ainda piores.
Seus reflexos mais contundentes aparecem nas
construções em que falta uma unidade e campeia a
incoerência. Seus exemplos mais clássicos são as
construções em que as palavras não têm sequencia lógica,
levando a ambiguidades às vezes até cômicas. Aparece
também nas construções em que se misturam, no mesmo
período, a voz ativa e a passiva, com erros de acentuação, de
pontuação e ortografia e não se obedece ao mesmo
tratamento, começando pela segunda pessoa e terminando
pela terceira do singular. Aliás, esse detalhe está muito
presente em várias letras de música, que usam o pronome de
tratamento "você" em determinados momentos e "tu" em
outras, com os verbos flexionando ora de uma ora de outra
maneira.
O que se deve ter em mente é que a escrita deve ser
simples, sem construções intrincadas, mais condizentes com
a linguagem poética, em que o exemplo mais interessante é
o do nosso hino nacional. Você sabe exatamente qual é o
sujeito da primeira oração da primeira estrofe dele?
Fugir ao uso de estrangeirismos não significa, porém,
cair no outro extremo, o purismo, caracterizado pelo amor
exagerado à pureza da linguagem, não aceitando como
vernáculas senão as construções e palavras consagradas
pelos mestres de determinada época literária, distante de nós
há dois ou mais séculos. Afinal, as línguas evoluem,
progridem e renovam-se continua e gradualmente com os
povos que as falam. Não falamos hoje como falava Camões,
nem o Padre Vieira, nem Tomás Antônio Gonzaga. Muito
menos como Fagundes Varela, Castro Alves ou até mesmo
Machado de Assis. Novas construções surgiram, assim
como novos vocábulos foram formados ou incorporados ao
nosso vocabulário. Temos de aceitar isso e fugir daquilo que
é antiquado e ultrapassado.
A propriedade das palavras refere-se à perfeita relação
entre a palavra e o pensamento. Quem não escolhe bem as
palavras, expõe-se a usar as palavras impróprias, que são os
estrangeirismo, já que temos um rico vocabulário em nossa
língua a nossa disposição.
Nesse particular, o estudo dos sinônimos é de suma
importância para quem deseja escrever com acerto,
objetivamente, expressando com clareza e exatidão as
concepções do seu espírito. Que isso seja feito com cautela,
pois boa parte dos sinônimos, que parecem exprimir uma
mesma ideia, não o fazem, se examinados com atenção e
rigor. Nesse particular, o uso do dicionário é a melhor
medida a ser adotada.
É preciso que você tenha em mente definitivamente
que escrever não é um dom, mas uma arte que exige o
desenvolvimento de habilidades e técnicas específicas, da
mesma forma como o exigem a pintura, a escultura, a dança,
a música e todas as outras artes.
A Concisão
A concisão consiste em encerrar um pensamento no
menor número de palavras possível e dois graves defeitos
podem afetá-la. Um é a repetição e ocorre quando se julga
incompleta ou inexata uma frase escrita e alinha-se uma
outra na sequencia para reforçar o pensamento. A melhor
maneira de fugir disso é, quando for fazer o polimento de
sua redação, eliminar tudo que for repetido ou que nada
acrescentar ao que já foi dito. Lembre-se que dissertar é um
ato progressivo. Novas ideias vão se somando às anteriores
para formar um todo harmônico e convincente.
Fuja do palavreado inútil e redundante e terá um estilo
agradável e eficiente, adequado a seus propósitos. Tudo que
estiver repetido, como determinados verbos, expressões ou
palavras, substitua por sinônimos, use uma outra construção
ou simplesmente evite usar.
Quer entender isso? Veja este exemplo, tirado de
Eusébio Macário, obra de Camilo Castelo Branco
"Moscas zumbiam com asas lampejantes em giros
idiotas; gatos agachados como velhos sicários pinchavam
com muitas perfídias à caça dos pássaros nas densas
verduras, desbotadas, dos arvoredos; carros chiavam nas
terras baixas, barrentas, com grandes gretas das calcinações
do grande sol; os lentos bois nostálgicos vergastavam, com
as caudas ásperas, os moscardos que os atacavam dentre os
tapumes com grandes sedes impetuosas de frescores de
sangue. Havia moleza e estonteamento abafadiços no
recheio de sensualidades mordentes."
É sempre bom lembrar, porém, que todo excesso é
prejudicial, assim como todo extremismo. A concisão
exagerada levará seu texto à secura e ao laconismo, podendo
sua imaginação ou negando a magia das palavras.
Conciliando originalidade, clareza e concisão você
conseguira o que existe de mais importante para quem
escreve: a harmonia, qualidade indispensável a todo estilo.
Pratique o que foi aprendido até agora, antes de partir
para a próxima etapa do seu aprendizado, que será a de
conhecer os aspectos mais específicos do tema Redação. Vá
com calma! Estabeleça seu plano de estudos e não fuja dele.
O importante é que você assimile todas as etapas do
processo de aprendizagem. Afinal, você está fazendo tudo
isso porque tem que aprender e precisa aprender, pois será
avaliado por isso e todo o seu futuro depende dessa
avaliação.
Reflita: se você não investir em seu futuro, quem o
fará?
Para terminar, você deve conhecer a principais figuras
de estilo, isto é, processos de expressão destinados a dar
mais graça e força ao pensamento e ao sentimento, devendo
ser encarados como parte do estilo. A maneira como você
vai usá-las caracterizará seu estilo.
Vejamos quais são as mais importantes e significativas:
Figuras de Estilo
Alusão: desperta no espírito a ideia de um fato, de uma
pessoa ou de uma história, sem referir-se a ela diretamente.
Para usá-la é preciso que você tenha sólidos conhecimentos
e que o seu leitor saiba a que você se refere. Um exemplo
foi o caso já citado do "pedreiro da floresta". Numa redação
você poderia criar uma frase assim: "Tenho trabalhado
incansavelmente, como o "pedreiro da floresta", mas sintome feliz em fazê-lo."
A alusão pode ser tirada da historia, da mitologia, das
lendas, das obras literárias ou dos usos e costumes.
Antítese: consiste em tirar de um pensamento o seu
oposto, engendrando contrastes e de oposições. Para ser
bem empregada e surtir efeito, deve resultar do embate das
ideias e não do mero jogo das palavras. Um autor famoso
por suas antíteses é o Padre Vieira. Procure ler alguma coisa
dele. Um exemplo: "Amor é espinho que fere e me faz rir."
Apóstrofe: esta figura caracteriza-se quando o escritor
interpela a si mesmo, alguma pessoa e até objetos
inanimados. Exemplo: "Por que sofres, coração?"
Correção: esta figura surge quando o autor corrige,
modifica ou explica um pensamento, como neste exemplo:
"A maior dor de todas as dores, isto é, das dores espirituais,
é o vazio da saudade."
Exclamação: é pura e simplesmente a expressão de
todo sentimento vivo e súbito, manifestado livremente
através das palavras. Por exemplo: "Que bom é amar! Que
deliciosa e livre prisão ela representa!"
Eufemismo: consiste em abrandar ideias tristes e
desagradáveis, como neste exemplo, ao abrandar-se a ideia
da provocada pela palavra "cemitério": "Nesta mesma tarde,
seu corpo foi levado ao campo santo." É preciso muito
cuidado e critério no uso dessa figura, pois seu excesso ou
uso inadequado pode dar a impressão de um estilo frouxo,
sem naturalidade, prejudicando até a clareza, se o
eufemismo não for bem construído.
Hipérbole: é um pensamento exagerado com o objetivo
de produzir uma forte impressão no espírito do leitor.
Exemplo: "Sofri mil dores num só momento e mil espinhos
cravaram-se em meu coração. Ela partia. A solidão pesoume com a força de mil noites escuras."
Interrogação: utiliza-se perguntas com o fim de dar
força ao argumento ou ao discurso. Deve ser empregado
com critério, pois pode dar a impressão de insegurança ou
de "enchimento de linguiça". Por exemplo: "Quem vai
sofrer com sua partida? Eu, apenas eu. Quem vai chorar a
sua ausência? Eu e mais ninguém."
Ironia: este pode ser um poderoso recurso, se utilizado
com sabedoria. Consiste em exprimir o contrário daquilo
que as palavras dizem no sentido natural. Percebe-se isso
pelo modo de falar da pessoa que a emprega e pelo caráter
daquela a quem se dirige. Exemplo: "Acredite na palavra
dele! Está se esforçando e fazendo o máximo. Preocupa-se
com o desemprego e trabalha de sol a sol para reverter o
quadro atual. Vamos confiar nele. Com certeza tudo vai
melhorar, como vem melhorando. Basta olhar ao redor!"
Litotes: consiste em dizer menos, para dar a entender
mais, como neste exemplo: "Vamos lá, a coisa não está tão
feia quanto parece!"
Metáfora: trata-se de uma expressão de sentido, por
meio da qual se aplica a uma palavra o significado de outra,
em virtude de uma comparação implícita e subentendida.
Não deve ser confundida com uma simples comparação.
Quando dizemos que "a juventude é a primavera da vida",
temos uma metáfora. Se dissermos "a juventude é como a
primavera da vida", temos uma simples comparação.
É preciso muito critério e cautela no uso das metáforas
que são, sem dúvida, um dos mais frequentes recursos
utilizados por quem escreve. Devem ser claras para serem
entendidas, justas e verdadeiras, baseadas numa semelhança
real e próxima, evitando-se a afetação e a incoerência.
Chamar o espelho de "conselheiro da beleza", por
exemplo, resulta numa metáfora que exigiria um contexto à
altura para ser expressiva.
Seu uso indiscriminado pode levar facilmente ao
chavão e às frases feitas, enquanto seu uso com criatividade
e originalidade embeleza e dá força expressiva a um texto.
Para usar esse recurso com acerto, valha-se da observação
indireta, através da leitura de bons escritores, registrando-as
em suas anotações para uso futuro.
Preterição: nesta figura, o autor supostamente finge que
não quer falar de determinado assunto, mas o faz. Exemplo:
"Não vou falar das qualidades dela, de sua beleza, de sua
bondade e de sua ternura, presentes mesmo nos momentos
mais incertos."
Reticência: faz-se presente quando o autor suspende o
pensamento e deixa-o incompleto. Exemplo: "Vendo-a
vestida daquela forma, pensei até que fosse uma..."
Suspensão: interrompe inesperadamente a frase,
provocando curiosidade ou destacando um pensamento,
como neste exemplo: "Quando olhei, você não sabe o que
vi."
O conhecimento e o uso criterioso dessas figuras com
certeza dará força de expressão ao seu estilo. Nunca é
demais lembrar, no entanto, que você seja exigente consigo
mesmo no que se refere à qualidade das figuras, fugindo ao
preciosismo e ao mau gosto.
Capítulo 3
LEITURA OBRIGATÓRIA
DISCURSO SOBRE ESTILO
(Pronunciado por Buffon no dia 25 de Agosto de 1753,
por ocasião de sua posse na Academia Francesa, na vaga do
Arcebispo do Sena)
Senhores:
Vós me cumulastes de honra, elegendo-me como um
dos vossos; mas a glória não é um bem senão quando somos
dignos dela e não creio que alguns ensaios, escritos sem arte
e sem outro ornamento que o da natureza, sejam títulos
suficientes para ousar ocupar um lugar entre os mestres da
arte, entre os homens eminentes que representam aqui o
esplendor literário da França e cujos nomes, celebrados hoje
pelo consenso das nações, repercutirão ainda com brilho na
boca do último de nossos descendentes. Tivestes, senhores,
outros motivos, lembrando-vos de mim; quisestes dar à
ilustre Companhia a que tenho a honra de pertencer há
muito tempo, nova demonstração de respeito; meu
reconhecimento, ainda que partilhado, nem por isso, será
menos vivo. Mas como satisfazer o dever que ele me impõe
no dia de hoje? Não tenho, senhores, para oferecer-vos,
senão o que já é vosso; algumas ideias sobre o estilo,
hauridas em vossas obras; foi lendo-vos, foi admirando-vos
que elas foram concebidas; e é submetendo-as a vossas
luzes que produzirão alguns resultados.
Houve, em toda as épocas, homens que souberam
dirigir os outros pelo poder da palavra. Mas só nos séculos
brilhantes, foi que se falou e escreveu bem. A verdadeira
eloquência pressupõe o exercício do gênio e a cultura do
espírito. Ela é muito diferente dessa facilidade natural de
expressão que é um simples talento, uma qualidade cedida a
todos aqueles cujas paixões são fortes, os órgãos flexíveis e
a imaginação viva. Esses homens sentem vivamente,
sensibilizam-se da mesma maneira e revelam-no fortemente;
e, por uma impressão puramente mecânica, transmitem, para
os outros, seu entusiasmo e sentimentos. É o corpo que fala
ao corpo; todos os movimentos e todos os sinais igualmente
cooperam e servem. Que é necessário para comover a
multidão e arrebatá-la? Que é necessário para abalar a maior
parte dos demais homens e persuadi-los? Um tom veemente
e patético, gestos expressivos e frequentes, palavras rápidas
e sonoras. Mas, para a minoria daqueles cuja cabeça é
equilibrada, o gosto delicado e os sentidos apurados, e que,
como vós, senhores tem, em pouca valia, o tom, o gesto e a
sonoridade verbal, são necessários fatos, pensamentos,
razões; é preciso saber apresentá-los, matizá-los, ordená-los;
não é necessário agradar ao ouvido ou ocupar os olhos; é
preciso atingir a alma e comover o coração falando ao
espírito.
O estilo nada mais é do que a ordem e o movimento
que se põe nos pensamentos. Se eles se encadeiam
estreitamente e são concisos, torna-se firme, nervoso e
conciso o estilo; se sucedem lentamente — e seu único laço
é a torrente de palavras — por mais elegantes que elas
sejam, — o estilo difuso, frouxo e arrastado.
Mas, antes de procurar a ordem em que se apresentarão
os pensamentos, é necessário precedê-los de outro mais
geral e estável, em que só devem entrar as primeiras vistas e
as principais ideias: é assinalando seu lugar sobre este
primeiro plano que um assunto será circunscrito e que se lhe
conhecerá a extensão; é relembrando incessantemente seus
primeiros delineamentos que se determinarão os justos
intervalos que separam as ideias principais e que nascerão as
ideias acessórias e secundárias que servirão para preenchêlos. Pela força do gênio, serão representadas todas as ideias
gerais e particulares sob seu verdadeiro ponto de vista; por
grande finura de discernimento, distinguir-se-ão os
pensamentos estéreis das ideias fecundas; pela sagacidade
que o grande hábito de escrever proporciona, sentir-se-á,
com antecedência, qual será o produto de todas essas
operações de espírito. Por menos vasto e complexo que seja
o assunto, é raro que se possa abarcá-lo dum golpe de vista
ou penetrá-lo inteiro com um único e simples esforço de
gênio; e é raro ainda que após bastante reflexões, se
apreendam todas as suas relações. Não podemos, pois,
ocupar-nos muito disso; é mesmo o único meio de afirmar,
de generalizar e elevar os pensamentos; quanto mais lhes
dermos de substância e de força pela meditação, mais fácil
será de os realizar pela expressão.
Este plano não é ainda o estilo, mas é sua base; ele a
sustenta, dirige, regula-lhe os movimentos e o submete a
leis; sem isso, o melhor escritor se extravia, sua pena
marcha sem diretriz e cria, aqui e ali, traços irregulares e
figuras discordantes. Por mais brilhante que sejam as cores
que ele empregue e as belezas que semeia nos detalhes,
como o conjunto chocará ou não se fará sentir bastante, não
se construirá a obra; e, admirando o espírito do autor,
poderemos supor que lhe falta gênio. É por esse motivo que
aqueles que escrevem como falam, embora falem bem,
escrevem mal; que aqueles que abandonam ao primeiro
ímpeto da imaginação, revelam uma tonalidade que não
conseguem sustentar; que os que temem perder pensamentos
isolados, fugitivos e que escrevem, em diferentes horas
trechos isolados, jamais conseguem reuni-los sem transições
forçadas; em uma palavra, que há tantas obras feitas de
fragmentos de relatos e tão poucas fundidas num só jato.
Entretanto todo o assunto é uno; e, por mais vasto que
pareça, pode ser encerrado num único discurso. As
interrupções, os repousos, as divisões, não devem existir
senão quando grandiosas, escabrosas e dispares, a marcha
do gênio é interrompida pela multiplicidade dos obstáculos
e constrangida, pela necessidade das circunstâncias; doutro
modo, o grande número de divisões, longe de tornar mais
sólida à obra, destrói-lhe o conjunto; o livro parece mais
claro aos olhos, mas torna-se obscuro, o objetivo do autor;
não consegue impressionar o espírito do leitor; não pode
mesmo fazer-se sentir senão pela continuidade da trama,
pela dependência harmônica das ideias, por um
desenvolvimento sucessivo, uma gradação continuada, um
movimento uniforme que qualquer interrupção destrói ou
diminui.
Porque são tão perfeitas as obras da natureza? É que
cada obra constitui um todo, e ela trabalha sob um plano
eterno do qual jamais se afasta; prepara em silêncio o germe
de suas produções; esboça por um simples ato, a forma
primitiva de qualquer ser vivo; desenvolve-a, aperfeiçoa-o
por um movimento contínuo e num tempo prescrito.
Encanta-nos a obra, mas é o vestígio divino cujos traços ela
revela o que nos desperta a atenção. Nada pode criar o
espírito humano; não produzirá senão após ter sido
fecundado pela experiência e pela meditação; seus
conhecimentos são os germes de suas produções; mas se ele
imita a natureza, em sua marcha e trabalho, se ele se eleva
pela contemplação das verdades mais sublimes, se os reúne,
se as encadeia, se delas forma um todo, um sistema, pela
reflexão, criará, sobre alicerces indestrutíveis, monumentos
imortais.
É por falta de plano, é por haver refletido
suficientemente sobre seu assunto que um homem de
espírito se embaraça ou não sabe por onde começar a
escrever. Acode-lhe, a um tempo, grande número de ideias;
e como ele não as comparou, nem as subordinou, nada há
que o induza a preferir umas ou outras; permanecerá na
perplexidade; mas, quando se fez um plano, se houver posto
em ordem e reunido todos os pensamentos essenciais ao
assunto, sabe-se, facilmente, o momento em que se deve
pegar da pena; sente-se o ponto de madureza da produção
do espírito; é-se obrigado a dar-lhe vida; só se sente prazer
ao escrever; suceder-se-ão facilmente as ideias, e o estilo
será natural e fácil; o entusiasmo nascerá desse prazer,
espalhar-se-á toda a parte e dará vida a cada expressão; tudo
se animará cada vez mais; elevar-se-á o tom, os objetos
tomarão cor e o sentimento, juntando-se à luz, aumentá-la-á,
levá-la-á mais longe, fá-la-á transmitir-se do que dissemos
para o que vamos dizer, e o estilo tornar-se-á interessante e
luminoso.
Nada se opõe mais ao entusiasmo que o desejo de pôr,
em toda a parte, traços salientes; nada se opõe mais à luz
que qualquer corpo deve fazer e que deve espalhar
uniformemente por todo o escrito, que essas centelhas
produzidas à força, fazendo-se chocar as palavras umas
contra as outras e que não nos deslumbram, senão durante
breves instantes, para nos deixar em seguida nas trevas. São
pensamentos que não brilham senão pelo contraste;
apresentam apenas uma faceta do objeto; põem na treva
todas as outras faces; e, o mais das vezes, essa faceta que
escolhemos é uma ponta, um ângulo sobre o qual se faz
convergir o espírito com tanto mais facilidade quanto se
afasta ele das grandes faces sob as quais o bom senso tem o
costume de considerar as coisas.
Nada mais contrário à verdadeira eloquência que o uso
desses pensamentos finos, e a luta por essas ideias
superficiais, desligadas, sem consistência e que, como a
folha de um metal batido, não tomam brilham senão
perdendo a solidez. Assim, quanto mais se usar desse
espírito superficial e brilhante numa produção, menos nervo,
luz, calor e estilo ela terá; a menos que esse espírito não seja
ele mesmo o fundo do assunto e que o escritor não tenha
outros objetivo senão divertir. Nesse caso a arte de dizer
pequenas coisas se torna, talvez mais difícil, que a de dizer
grandes coisas.
Nada mais contrário ou belo natural que o trabalho em
exprimir coisas simples ou comuns de maneiras singular ou
pomposa. Nada degrada mais o escritor. Longe de admirálo, lamentamo-lo de haver gasto tanto tempo a fazer novas
combinações e silabas, para só dizer o que todo o mundo
diz; Esta a falta dos espíritos cultivados mas estéreis; têm
palavras em abundância, e não ideias; trabalham, pois, sobre
palavras e julgam haver combinado ideias apenas porque
agruparam frases e ter apurado a língua quando a
corromperam, adulterando as acepções. Tais escritores não
têm estilo ou — se o quiserem — só sombra dele. O estilo
deve gravar o pensamento e eles só sabem traçar palavras.
Para bem escrever, é preciso pois dominar
completamente o assunto; é preciso refletir nele para poder
ver claramente a ordem de seus pensamentos e formar com
eles uma sequencia, uma cadeia ininterrupto em que cada
ponto representa uma ideia; e, quando se toma da pena, é
preciso conduzi-la sucessivamente sobre o primeiro traço,
sem permitir que ela se afaste, sem a apoiar desigualmente,
sem lhe dar outro movimento que o determinado pelo
espaço que deve percorrer.
É isso que consiste a severidade do estilo; é também o
que faz sua unidade e lhe regulará a rapidez; e só isso será
suficiente para torná-lo preciso e simples, igual e claro vivo
e unitário. A esta primeira regra, ditada pelo gênio, se
acrescentarmos delicadeza e gosto, o escrúpulo na escolha
das expressões, o cuidado de só dar às coisas os nomes mais
genéricos, o estilo terá nobreza. Se acrescentarmos a
desconfiança ao primeiro impulso, o desprezo por tudo
quanto só é brilhante, e a repugnância constante ao equivoco
e à brincadeira, o estilo terá gravidade terá mesmo
majestade. Enfim, se escrevermos como pensamos, se
estamos convencidos do que queremos persuadir, está boa fé
para consigo mesmo, que constitui decência para com os
outros e a verdade do estilo, far-lhe-á produzir todo seu
efeito, enquanto esta persuasão interior não se assinale por
um entusiasmo muito forte, por haver nela mais candura que
confiança mais razão que calor.
É assim, senhores, que me parece, lendo-vos, que vós
me falais, que me instruis. Minha alma, que recolheu com
avidez esses oráculos da sabedoria, quis alçar e elevar-se até
vós: Vãos esforços! As regras — vós dizeis — não podem
substituir o gênio; falando ele, elas se tornarão inúteis. Bem
escrever é, ao mesmo tempo, bem pensar, bem sentir e bem
reproduzir; e ter, a um tempo, espírito, alma e gosto. O
estilo supõe a reunião e o exercício de todas as faculdades
intelectuais: somente as ideias formam a base do estilo; a
harmonia das palavras não é senão o acessório e só depende
da sensibilidade dos órgãos. Basta ter um pouco de ouvido
para evitar dissonâncias. E basta praticar, aperfeiçoar com a
leitura dos poetas e dos oradores para que, mecanicamente,
se seja levado à imitação da cadência poética e dos torneios
oratórios. Ora, jamais a imitação criou algo. A harmonia das
palavras também não constitui nem o fundo, nem o tom do
estilo, e é encontrada frequentemente em composições
vazias de ideias.
O tom nada mais é que a adaptação do estilo à natureza
do assunto. Jamais deve ser forçado; nascerá forçosamente
do próprio fundo das coisas e dependerá muito da
generalização dos pensamentos. Se nos elevarmos às ideias
gerais, e se o assunto, em si mesmo, for grandioso, o tom
parecerá elevar-se à mesma altura; e se, mantendo-o nessa
elevação, consegue o gênio dar, a cada objeto, luz forte, se
consegue juntar à beleza do colorido a energia do desenho,
se consegue representar cada ideia por uma imagem viva e
bem concebida, e tomar de cada série de ideias um quadro
harmonioso e movimentado, o tom será não somente
elevado, mas sublime.
Aqui, senhores, a adaptação fará mais do que a regra;
os exemplos instruirão melhor que os preceitos. Como,
porém, não me é permitido citar trechos sublimes que, lendo
vossas obras, tantas vezes me arrebataram, sou forçado a
limitar-me a reflexões. Somente as obras bem escritas
passarão à posteridade. A quantidade dos conhecimentos, a
singularidade dos fatos, a própria novidade das descobertas,
não são garantias seguras da imortalidade. Se as obras que
as contêm, não versam senão sobre pequeninos assuntos, se
são escritas sem gosto, sem nobreza, sem gênio, perecerão,
pois os conhecimentos, os fatos, as descobertas são
arrebatados facilmente, transportam-se e conseguem ser
escritos por mãos mais hábeis. Tais coisas estão fora do
homem e o estilo é o próprio homem. O estilo não pode,
pois, nem elevar-se, nem transportar-se, nem alterar-se; se
ele for elevado, nobre e sublime, o autor será igualmente
admirado em todos os tempos. Pois só a verdade é
duradoira, e mesmo eterna. Ora, um estilo só é efetivamente
belo pelo número infinito de verdades que apresentar. Todas
as belezas intelectuais que nele se achem, todos os laços de
que se compõe, não só são verdades, como úteis, e talvez
mais preciosas para o espírito humano, que os que podem
constituir o fundamento do assunto.
O sublime só pode ser encontrado nos grandes
assuntos. A poesia, a história e a filosofia têm todas o
mesmo objeto, e um grande objeto, o homem e a natureza.
A filosofia descreve e pinta a natureza; a poesia descreve e
pinta; pinta também os homens engrandece-os e exagera-os;
cria ela o herói e os deuses. A historia pinta o homem e
pinta tal qual é. Assim, o tom da historia não se tornará
sublime senão quando pintar os grandes homens, quando
expuser as grandes ações, os maiores movimentos, as
maiores revoluções e, sempre atem disso, bastará que seja
majestosa e grave. O tom do filósofo poderá tornar-se
sublime todas as vezes que falar das leis da natureza dos
seres em geral, do espaço, da matéria, do movimento e do
tempo, da alma, do espírito humano, dos sentimentos das
paixões; no resto, deverá ser nobre e elevado. Mas o tom do
orador e do poeta, desde que o assunto seja grandioso, deve
sempre ser sublime porque eles são os mestres de aliar à
grandeza de seu assunto, tanta cor, tanto movimento, tanta
ilusão quanta lhes apraz; e que, devendo sempre pintar e
sempre engrandecer os objetos, devem também e sempre
empregar toda a força e exibir toda a amplidão do gênio.
PERORAÇÃO
Aos senhores da Academia Francesa
Que de grandes assuntos, senhores, me ferem aqui os
olhos! E que estilo, e que tom é preciso empregar para
pintá-los e representar dignamente! A escol dos homens está
reunida, a sabedoria à frente. A glória, sentada no meio
deles, espalha seus raios sobre cada um e os cobre a todos
com um brilho sempre igual e sempre novo. Raios de uma
luz mais viva ainda, partem de sua coroa imortal, e vão
convergir sobre a fronte augusta do mais poderoso e melhor
dos reis. Não vejo este herói, este príncipe adorável, este
senhor tão querido. Que nobreza em todos os seus traços!
Que majestade em toda sua pessoa! Que de alma, que de
doçura natural em seus olhares! Ele os dirige para vós,
senhores, e vós brilhais com novo brilho; um ardor mais
vivo voz abrasa. Ouço, os vossos divinos acentos e os
acordes de vossas vozes. Vós os reuníeis para celebrar suas
virtudes, para lhe contar as vitórias, para aplaudir a nossa
felicidade. Vós os reunis para fazer brilhar vosso zelo,
exprimir vosso amor, transmitir à posteridade os
sentimentos dignos desse grande príncipe e de seus
descendentes. Que concertos! Penetram eles meu coração.
Serão imortais como o nome de Luiz.
Ao longe, que outra cena de grandes assuntos! O gênio
da França que fala a Richelieu e lhe dita, a um tempo, a arte
de iluminar os homens e de fazer reinar os reis. A justiça e a
ciência que conduzem Seguier e, de concerto, o elevam ao
primeiro lugar de seus tribunais. A vitória que se aproxima a
grandes passos e precede o carro triunfal de nossos reis,
onde Luiz, o Grande, sentado sobre troféus, com uma mão
cede às nações vencidas e com a outra reúne neste palácio as
musas dispersas. E, perto de mim, senhores, que outro
assunto interessante! A Religião em lágrimas, que vem pedir
emprestado o órgão da eloquência para exprimir sua dor e
parece acusar-me de interromper, durante tanto tempo,
vossos lamentos por uma perda que todos devemos chorar
com ela.
(Traduzido de "Discours sur le Style" — Paris —
Librairie de la Bibliothéque Nationale — 1893)
OPINIÃO DE UM TORTURADO DA FORMA
(Da Correspondência de Fradique Mendes e Eça de
Queiroz)
— Não! Não tenho sobre a África, nem sobre coisa
alguma neste mundo, conclusões que, por alterarem o curso
do pensar contemporâneo valesse a pena registrar... Só
podia apresentar uma série de impressões, de paisagens. E
então pior! Porque o verbo humano, tal como o falamos é
ainda impotente para encarnar a menor impressão intelectual
ou reproduzir a simples forma d’um arbusto... Eu não sei
escrever! Ninguém sabe escrever!
Protestei, rindo, contra aquela generalização tão
inteiriça, que tudo varria, desapiedadamente. E lembrei que
a bem curtas jardas da chaminé que me aquecia naquele
velho bairro de Paris, onde se erguia a Sorbonne, o Instituto
de França, a Escola Normal, muitos homens houvera, havia
ainda que possuíam do modo mais perfeito a "bela arte de
dizer".
— Quem? — exclamou Fradique.
Comecei por Bossuet. Fradique escolheu os ombros,
com uma irreverência violenta que me emudeceu. E
declarou logo, num resumo cortante, que nos dois melhores
séculos da literatura francesa, desde o meu Bossuet até
Beaumarchais, nenhum prosador para ele tinha relevo, cor,
intensidade, vida... E nos modernos nenhum também o
contentava. A distensão retumbante de Hugo era tão
intolerável como a flacidez oleosa de Lamartine. A Michelet
faltava gravidade e equilíbrio; a Renan solides e nervo; a
Taine fluidez e transparência; a Flaubert vibração e calor. O
pobre Balzac, esse, era de uma exuberância desordenada e
barbárica. E o preciosismo dos Goncourt e do seu mundo
parecia perfeitamente indecente...
Aturdido, rindo, perguntei àquele "feroz insatisfeito"
que prosa pois concebia ele, ideal e miraculosa, que
merecesse ser escrita. E Fradique, emocionado — porque
estas questões de forma desmanchavam a sua serenidade —
balbuciou que queria em prosa "alguma coisa de cristalino,
de aveludado, de ondeante, de marmóreo, que só por si,
plasticamente, realizasse uma absoluta beleza — e que
expressionalmente, como verbo, tudo pudesse traduzir desde
os mais fugidos tons de luz até os mais sutis estados
d'alma..."
— Enfim — exclamei — uma prosa como não pode
haver!
— Não! — gritou Fradique, uma prosa como ainda não
há. Depois, ajuntou concluindo:
— E como ainda a não há, é uma inutilidade escrever.
Só se podem produzir formas sem beleza; e, dentro dessas
mesmas só cabe metade do que se queria exprimir, porque a
outra metade não é redutível ao verbo.
UMA CARTA DE EÇA DE QUEIROZ
Bristol, 8 de Abril de 1888.
Meu caro Pina
Recebi a ILUSTRAÇÃO de 5 de Abril, e com ela, e
nela, a curta, mas pavorosa demolição que V. faz da minha
pobre pessoa! Famosa sova, na verdade! É desse gênero o
que nós chamamos em Lisboa — dizer as últimas. Porque
enfim até agora, os críticos mais hostis concediam-me ao
menos uma certa arte de escrever; — enquanto V. nega
desde logo, terminantemente, que eu possua sequer os
rudimentos dessa arte — a gramática e a sintaxe. As páginas
dos meus livros, diz V. com ferocidade, estão cheios de
erros de gramática e de erros de sintaxe! E isso é realmente
dizer as últimas.
Há longos anos que um crítico não pronuncia palavras
tão violetas. Em primeiro lugar, porque a doçura e a palidez
crescente dos costumes impede de romper nesses excessos.
E em segundo lugar porque um escritor que não tem
gramática e que não tem sintaxe não é de fato um escritor —
e portanto os críticos não têm ocasião de se ocupar dele,
nem em bem, nem em mal. em todo o caso, se essa é a sua
opinião, caro Pina — que não tenho nem gramática, nem
sintaxe — fez V. admiravelmente em a dizer. O primeiro
dever de quem tem uma pena é escrever aquilo que julga a
verdade.
O que eu não compreendo muito bem é quando V. diz
que os meus livros, cheios de erros de gramática e de erros
de sintaxe, prendem e dominam o público! Aqui, perdoe-me
V., caro amigo, mas creio que há trapalhada! V. de certo não
liga a estes termos gramática e sintaxe a ideia que lhes ligam
as Mestres-Régias de Trás-os-Montes. Sem penetrar mesmo
muito nos requintes da Filosofia da Linguagem. V. conhece
tão bem como eu, ou melhor talvez, o que hoje se entende
por estes termos gramática e sintaxe; e sabe bem que, sem
aquilo que hoje se chama gramática não há clareza de
linguagem e sem aquilo que hoje se chama sintaxe não há
coordenação de pensamento. Ora como é que um livro, sem
gramática e sem sintaxe — isso é um livro composto de
pensamentos desconexos expressos numa linguagem
obscura, pode jamais prender e dominar o público?
Parece-me, pois, — pedindo outra vez perdão do termo
— que houve aí trapalhada.
Toda essa passagem é confusa — e o que ainda a
complica mais é V. dizer que "os gramáticos são os
verdadeiros cultores da língua, os verdadeiros escritores
retoricamente falando." Que diabo quis V. dizer com tudo
isso?
É perfeitamente incompreensível, a não recairmos na
suposição de que V. liga os termos Gramática e Sintaxe a
mesma ideia que lhe ligam as Mestras-Régias, se é que, com
a difusão dos conhecimentos, elas mesmas não têm, já hoje,
uma noção mais elevada dessas coisas. Quero dizer — que
não se pode compreender o que V. diz — a não supor que
V. entende por Gramática e Sintaxe um conjunto de regras
fixas e inalteráveis deduzidas da maneira especial dos
primeiros escritores que apuraram e fixaram uma língua;
definição essa de Gramática e Sintaxe que me levaria a
concluir que Renan, o primeiro escritor da França moderna,
é um trapalhão, sem gramática e sem sintaxe, porque
escreve com uma construção inteiramente diferente da desse
outro grande escritor que se chama Montaigne, e que viveu,
se não me engano, no tempo de Luiz XIII. Sendo assim, se
V. liga, com efeito, essa ideia à gramática e sintaxe — então
toda a passagem da sua crônica se torna clara e lógica; e
com efeito então os meus são cheios de erros de gramática e
de erros de sintaxe — porque não são realmente construídos
com a sintaxe e a gramática de Sá de Miranda e de
Bernardim Ribeiro. E aí está porque, como V. diz, eles
comovem o público.
Quer que lhe diga o que penso, caro Pina? É que V.
escreveu esse começo da sua crônica à noite, muito tarde,
derreado de cansaço, e a cair de sono! E se a for agora reler
fica furioso consigo.
Não o fique comigo, por causa dessa maçada, dê-me
notícias suas e creia-me sempre.
muito dedicado,
EÇA DE QUEIROZ.
ESTILO
José Engenieros
Há estilo em toda a forma que expressa com lealdade
um pensamento — As artes são combinações de gestos que
se destinam a objetivar adequadamente os modos de pensar
ou de sentir; quando a forma exprime o que deve e nada
mais do que isso, revela estilo. Não basta, em qualquer arte,
possuir concepções originais; é necessário procurar a
estrutura formal que fielmente as interprete.
Qualquer ritmo de pensamento humano que alcança
expressão adequada, cria um estilo. Cada característica
intelectual, de um povo ou de uma época, é sentida com
maior intensidade por homens originais que lhe dão forma,
renovando a técnica de expressão; em torno deles os
imitadores se multiplicam e formam escolas, até que a
sociedade sente a sua influência, adapta a ela o gosto e surge
a moda. Seguir uma escola é a maneira infalível de não se
ter estilo pessoal; entregar-se a uma moda é o método mais
eficaz para se carecer de originalidade. Em qualquer arte, só
pode adquirir estilo próprio aquele que repudia escolas e
desdenha modas, pois uma e outras tendem a colocar marcas
emprestados às inclinações naturais.
Não se adquire estilo glosando a forma alheia para
exprimir as ideias próprias, nem torcendo a expressão
própria para adular os sentimentos alheios. Estilo é
afirmação de personalidade; aquele que combina palavras,
cores, sons ou linhas para exprimir o que não sente ou
aquilo em que não crê, carece de estilo, não pode tê-lo.
Quando o pensamento não é íntimo e sincero, a expressão é
fria e amaneirada, ruminam-se formas já conhecidas,
retorcem-se, alambicam-se, procurando em vão suprir a
ausência da virilidade criadora com estéreis artifícios.
A arte de escrever, particularmente, carece de
excelência quando visa acariciar o ouvido ou enganar a
razão com sofisticas dissimulações. Uma máxima de
Epíteto, despida, sem advérbios pomposos, nem adjetivos
sibilinos, tem estilo e deixa uma impressão de serena beleza,
jamais igualada pelos retorcidos discursos que abundam nas
épocas de mau gosto; sobra, na simples sentença, a
acomodação inequívoca da forma ao sentido, conseguindo
uma harmonia jamais alcançada pela prosa torturada para
dissimular a vacuidade. O mais nobre estilo é aquele de que
transparecem ideais profundamente notados, expressados
em forma contagiosa, capaz de transmitir a outros o próprio
entusiasmo por aquilo que embeleza a vida humana: saúde
moral, firmeza de querer, serenidade otimista.
A CORREÇÃO PRECEPTIVA É A NEGAÇÃO
DO ESTILO ORIGINAL
Em todas as artes, a tempo acumula regras técnicas que
constituem a sua gramática e permitem evitar as mais
frequentes incorreções de expressão; qualquer pessoa de
inteligência mediano pode aprendê-las e aplicá-las, sem
contudo, adquirir a capacidade de exprimir seu pensamento
de maneira adequada. A ninguém dão estilo as estéticas,
nem as retóricas que regulamentam a expressão, tornando-a
tanto mais impessoal quanto mais perfeita for.
Os modelos, os cânones só ensinam a exprimir-se
corretamente, sem que a correção seja estilo. As academias
são sementes de mediocridade diversas e opõem fortes
obstáculos ao florescer dos temperamentos inovadores. A
aquisição do estilo pessoal só e começar quando se violam
cânone convencionais do pensamento e da expressão.
Em cada arte ou gênero existem normas de correção,
porém não há arquétipos se estilo, pois qualquer novo
pensar requer nova expressão; as normas que o tempo
consagrou as de épocas, foram, em sua origem, rebeldias
contra as de épocas precedentes. Falar de estilo, em si, é
abstrair, de todos os estilos individuais seu caráter comum
de criação, omitindo as diferenças que caracterizam a cada
um e sem as quais nenhum existiria.
O estilo é o individual, o que não se aprender de
outros, ou o que permite reconhecer o autor na obra, sem
necessidade de a ter firmado. Por isso, tanto há estilo na
expressão de um artista, como caráter em sua personalidade;
e sendo a síntese de toda a sua mente que vibra na expressão
inteira, não pode ser forma sem ser, antes, pensamento.
A técnica perfeita é uma qualidade que aformoseia a
obra como a ornamentação o monumento, sem que, por isso,
tenha valor próprio fora da mesma obra. A correção é
anônima, não eleva, embora impeça de descer; raramente
requer verdadeiro talento. Um exercício suficiente permite
escrever, delinear ou construir com perfeição; é um
adestramento físico, e, para isso, não se requer maior
engenho do que o de atingir o centro dez vezes seguidas
atirando ao alvo.
Muitos professores exímios conhecem as intimidades
da preceptiva e possuem a técnica corretas de sua arte; sem
embargo são banais prosadores, pintores ou músicos, sem
personalidade e sem estilo, por falta de ideia e de
sentimentos originais. Ao contrário sem correção técnica,
costumam resultar admiráveis as formas de dizer de um
Dante ou de um Pascal, porque o seu estilo exprime uma
nova orientação de ideias ou de sentimentos, impossível de
arremedar com mosaicos de palavras.
Capítulo 4
MODELOS
Elementos para uma Ficha de Leitura
Interpretação
Cenário (ambiente, local)
Personagens (retrato físico e psicológico)
Enredo (resumo geral - resumo por capítulos)
Final (desfecho)
Tempo (real e/ou psicológico)
Sentimentos envolvidos
Ideias principais
Vocabulário
Estudo do significado das palavras novas (dicionário)
Análise das expressões significativas usadas pelo autor.
A Obra
Autor
Época
Período
Características do período literário
Características do período literário presentes nas obra
Referências e Comentários sobre a obra
Roteiro para Leitura de Textos Curtos
Primeira leitura
Compreensão do conjunto
Segunda leitura
Divisão em partes
Retirada dos termos acessórios
Copiar o texto, excluindo os termos supérfluos,
deixando
apenas aqueles essenciais à compreensão
Terceira leitura
Resumo das ideias principais
Resumo das ideias secundárias
Estrutura utilizada
Gênero, forma, aspectos gramaticais e outros
Enredo
Forma de apresentação e desenvolvimento do enredo
Encaminhamento do desfecho ou da conclusão
Aspectos relevantes
Conclusão pessoal
Roteiro de Leitura
Leitura atenta do texto
Releitura e levantamento
Dados da obra
Gênero literário
Vocabulário (denotativo e/ou conotativo)
Assunto ou enredo
Resumo (o que o autor diz e como sentimos o texto e o
recriamos)
Divisão do texto em partes e resumo de cada uma delas
Desenvolvimento
Como o autor desenvolve o texto
Tema
Ideia básica
Ideias secundárias
Aspectos relevantes
Ressaltar aspectos sociais, políticos, religiosos e
econômicos e outros que auxiliem no entendimento do tema
sob o ponto de vista do autor
Mensagem do Autor
Problemas apresentados e suas soluções
Atividades
Assinalar o que considerar importante
Roteiro para Leitura e Análise de um Texto
Narrativo
Cenário
Personagens
Descrição física e psicológica
Tempo
Enredo (intriga)
Desfecho
Vocabulário
Denotativo e conotativo
Resumo
Geral e por partes
Ideia principal
Desenvolvimento das ideias
Ideia secundárias
Aspectos sociais, políticos, econômicos e outros
Mensagens
Crítica
Conteúdo e forma
Estilo
Opinião pessoal
Expressões e imagens significativas
Conclusão
Roteiro para Análise de uma Obra Literária
Autor
Obra
Personagens
Principais e secundárias
Enredo
Resumo geral e por capítulos
Caracterização das personagens
Ação
Diálogo
Descrição direta do autor
Descrição por uma das personagens
Confissões pessoais das personagens
Apresentação simbólica
Temas
Principal e secundários
Tempo
Tempo cronológico
Tempo psicológico
Tempo imaginário
Estilo
Estrutura - conto, novela ou romance
Técnicas da narração:
ação
diálogo entre o autor e o leitor
discurso direto, indireto ou livre
ponto de vista narrativo
Linguagem Empregada
aspectos normativos a ressaltar
vocabulário denotativo e conotativo
linguagem figurada e figuras de estilo
tom da obra (triste, trágico ou outro)
simbolismo presente na obra
Características do Período Literário
gerais
presentes na obra
Crítica Pessoal
Conclusões
Roteiro para Análise de uma Obra Poética
Informações Gerais
Autor e Obra
Gênero
Prefaciador e Tradutor (se for o caso)
Edição, editora e data
Estrutura
Síntese ou Resumo (geral e por partes)
Tema ou ideia central
Desenvolvimento do tema
Ideias paralelas
Desenvolvimento das ideias paralelas
Psicologia do autor
Aspectos políticos, sociais, religiosos etc., presentes na
obra
Mensagem do autor
Forma
Som, ritmo, rima e métrica
Figuras de estilo
Estudo das estrofes ou divisões
Forma e intenção
Expressão
Vocabulário
Palavras e expressões significativas
Simbolismo das palavras e expressões
Conotação e denotação
Linguagem figurada
Recursos expressivos
Tom
Período Literário
Características gerais
Características presentes na obra
Identificação do período literário através do texto
Opinião Crítica
Sobre a obra e sobre o autor
Opinião Pessoal
Conclusão
Capítulo 5
TEMAS PARA REDAÇÃO
Utilize essas sugestões para facilitar seu aprendizado e
seu treinamento. Lembre-se que é bom estar preparado para
qualquer tipo de tema. Na fase de preparação para o
vestibular ou para um concurso, procure abordar todos os
temas aqui propostos, até e principalmente aqueles com os
quais não tiver afinidade alguma.
Escolha o tema e, se nada souber a respeito dele,
pesquise, leia e observe para incorporar preciosas
informações ao seu conhecimento. Pode ser que sejam
aquelas que farão toda a diferença, quando você precisar de
sua memória.
2011: Ano Internacional das florestas
A atualidade de Dumas: Um por todos, todos por um
A Bíblia tinha razão?
A Comissão da Verdade no vestibular
A conquista do espaço
A construção da Usina de Belo Monte
A contemporaneidade do Panis et Cirsenses
A criança de rua e a qualidade do ensino
A ditadura no Brasil. Por que os crimes ainda não
foram punidos?
A escola como educadora e formadora de caráter
A escola moderna
A expansão da cultura da individualidade
A favela que eu conheço
A flor que mais aprecio
A fragmentação do homem pós-moderno
A ilusão perversa
A incivilidade dos gentílicos sem utopia
A indústria cultural e a massificação dos gostos
A justiça social, a solidariedade e o cristianismo
A língua portuguesa na atualidade
A liquidez contemporânea
A manipulação nos meios de comunicação
A natureza nos fez altruístas
A necessidade do altruísmo
A pedofilia e o poder
A pedofilia e os meios de comunicação
A pedofilia na Igreja
A pedofilia na sociedade atual
A pessoa mais importante em minha vida
A pracinha da cidade
A saída para o futuro
A sociedade primordial contemporânea
A solidariedade do mundo efêmero
A Teologia da Prosperidade
A vida social na idade da pedra
A violência na sociedade brasileira: como mudar as
regras desse jogo
A violência urbana.
Abnegação solapada
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: quais as
mudanças?
Acredite se quiser... ou se puder
Ajude-me a viver
Além da superfície: a essência das relações humanas
Altruísmo e pensamento a longo prazo como obrigação
Altruísmo individual
Altruísmo na essência humana
Altruísmo nos tempos de cólera
América Latina: uma vocação para a ditadura
América Latina: caminhos do MERCOSUL
Amizades virtuais
Amizades, por que cultivá-las?
Analfabetismo, você acredita nele?
Antigamente tudo era mais fácil
Aquela foi a coisa mais bonita que já vi
Arco-íris
As aventuras de um ladrão moderno
As catástrofes do mundo atual
As drogas e a infância perdida
As maravilhas do mundo moderno
As perspectivas para o próximo milênio
As superbactérias e a infecção hospitalar
As superbactérias em questões do vestibular
As Torcidas Organizadas e a violência.
As tragédias naturais.
Ascensão da mulher na sociedade
Autodestruição
Autorretrato
Barack Obama no poder: o que mudou na política
internacional?
Bioética
Brasil da copa e Brasil na copa do mundo.
Bulling: um ato de violência e preconceito
Bulling: um sinal de fraqueza ou um pedido de ajuda
Chove no jardim
Cidadania e participação social
Cidadania: eleições municipais
Código Florestal Brasileiro
Coisas que não sei explicar
Comissão da Verdade
Como garantir a liberdade de informação e evitar
abusos?
Como preservar a floresta Amazônica
Conferência das Nações Unidas realizada no Rio de
Janeiro
Confesso minha incapacidade
Consequências da crise econômica mundial
Contemporaneidade:
Fragmentação
social,
individualismo e reconhecimento do outro
Controle de natalidade e religião
Coragem além do dever
Crack no Brasil
Crack, droga cinco vezes mais potente que a cocaína: o
vilão que assola a juventude brasileira
Crise econômica mundial
Cultivar para crescer
Da fluidez da solidariedade
Desemprego e entreguismo
Desemprego
Desenvolvimento e justiça social
Desenvolvimento e preservação ambiental: como
conciliar os interesses em conflito?
Desmatamento na Amazônia
Destinos compartilhados
Diálogo de mendigos
Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar
esse desafio nacional
Direitos humanos: criminoso x vítima
Ditadura militar no Brasil: Onde está a verdade?
Ditadura pessoal
Diversidade e igualdade
E quando acabarem-se os cemitérios?
É uma vergonha!
Educação: a base para a justiça social
Educação: em que mundo vivemos?
Educação: princípio para a igualdade social
Ela
Ele
Em que mundo você quer viver?
Energia Nuclear e Vulcões
Energia: acidente nuclear no Japão
Eram os deuses astronautas?
Erotismo e comércio, qual é a novidade?
Estatização de empresas de petróleo
Eu tenho a solução para...
Falar línguas estranhas, fato científico ou mistificação?
Fatos e boatos, como lidar com eles?
Ficha limpa
Filho, um dia isso tudo será seu
Finalmente, é tempo de praia
Foi quando eu me senti importante
Fome, miséria e doença
Fontes limpas de energia. Como?
Frágil, superficial e efêmero
Futuro do planeta
Geopolítica: 30 anos da Guerra das Malvinas
Geopolítica: papel do Brasil no cenário internacional
Gostaria de ser um bicho
Gostaria de ter vivido em outra época
Grampos, telefones, sigilo e política
Há coisas realmente difíceis na vida
Há uma outra pessoa dentro de mim
Haverá uma imprensa livre no Brasil
Homofobia e os direitos humanos
Homofobia: violência contra os direitos humanos.
Igreja e comércio, onde se separam?
Igualdade de gênero
Imagem: o mundo por imagens (Ter x Ser)
Imprensa x democracia.
Inclusão digital: um direito de todo brasileiro
Inclusão social
Individualismo predominante
Individualismo x solidariedade
Indivíduo e imediato: imperativos do status quo
Instabilidade econômica
Internet e solidão
Jamais esqueço...
Juventude e responsabilidade social: é assim que se faz
um Brasil para todos
Juventude: tempo de mudanças e tempo de mudar
Legalização da maconha: este é o caminho?
Liquefação social
Livros eletrônicos: uma revolução digital e tecnológica
Maquiavel, Bauman e Machado
Maravilhas da ciência
Marte, por que ir até lá?
Meio ambiente: catástrofes naturais
Meio ambiente: Código Florestal, derramamento de
petróleo e Rio+20
Meios de comunicação e compromisso com a verdade
Meninos trabalhadores
Meu ídolo
Meu primeiro amigo
Milagres ao vivo na TV
Minha cidade é especial
Minha sogra é um anjo
Minhas pequenas coisas
Movimento sem terra
Naquela noite, os sinos não bateram
Necessidade de mudança
Noites de lua cheia
Nós
Novas necessidades: altruísmo e visão coletiva
O assunto do momento
O caminho da caixa maldita
O coletivo em detrimento do individualismo
O desafio de se conviver com as diferenças
O despejo
O dia em que tremi de verdade
O direito de votar
O Evangelho na era eletrônica
O fabuloso destino
O fim das relações humanas
O futebol e a desigualdade salarial
O homem não é uma ilha
O impossível às vezes acontece
O indivíduo frente à ética nacional
O jovem e a democracia
O mundo lá do alto
O novo altruísmo
O paradoxo entre a imagem externa do Brasil e os
problemas sociais enfrentados em nível interno
O poder de transformação da leitura
O que foi, afinal, o Mensalão?
O recém-nascido e a floresta
O respeito ao ser humano
O ser político e ser político
O sonho impossível
O trabalho escravo no Brasil: uma realidade intrigante
O trabalho infantil na sociedade brasileira
O trabalho na construção da dignidade humana
O troféu
O vaso de cristal e a flor murcha
O voto: exercício de cidadania
Obstáculos que terei se superar
Olimpíadas e Copa do Mundo no Brasil
Oriente Médio: o princípio de uma nova era
Oriente Médio: origens do desentendimento
Oriente Médio: qual a saída?
Os benefícios da prática esportiva para o indivíduo e
para a sociedade
Os desastres naturais no Brasil: acidentes ou resposta
da natureza?
Os filhos esquecidos
Os heróis anônimos
Palmeira ou Narciso?
Papel do Brasil (diversas áreas)
Para depois, por que fazer agora?
Para que exista o amanhã, é preciso que o nós triunfe
Parece que foi ontem
Participação Política: um ato de cidadania
Passatempos e manias
Pensar no amanhã: prática de hoje
Pequeno catador de papel
Perspectivas
Perspectivas da nossa economia
Plantar e não colher
Poderia ter sido fácil e agradável...
Política e responsabilidade social
Por que cantar no chuveiro?
Por que me atiram pedras?
Por um império fênix
Porque acredito no Coelhinho da Páscoa
Porque não acredito em Papai Noel
Precisamos encarar isso de uma vez por todas
Preocupação e organização
Pré-sal x sustentabilidade.
Preservação ambiental
Problemas na camada de ozônio
Problemas que atrapalham o homem
Professores e qualidade de ensino
Profissionais em ação
Prostituição infantil e subnutrição
Protesto dos estudantes no México
Quais as perspectivas políticas e sociais da juventude
nacional?
Quando eu era inocente
Quando olho pela janela...
Que coisa mais esquisita!
Que esperar da vida?
Que pena!
Que sorte!
Quero viver
Recontando a nossa História
Redes sociais Bulling: um ato de violência e
preconceito
Redescobrindo a premente arte de ver com o coração
Religião e futebol
Renascimento tardio
Respeito à diversidade: fim da homofobia
Reunião de mentirosos
RIO + 20: qual o legado, afinal?
Rodovias e ferrovias no Brasil
Se eu fosse presidente
Segredos devem ser guardados
Sexo por computador
Sobre equívocos, Narcisos e imediatismos
Sobre percorrer o caminho inverso
Sobrevivendo as crises
Sociedade fragilizada pelos efeitos da crise
Sonhos de uma noite de verão
Sustentabilidade conjunta
Tecnologia: internet x livros eletrônicos
Tenho um vizinho intragável
Trabalho escravo
Trabalho infantil
Transição econômica
Travessuras de criança
Tudo começou naquele dia
Um casal de...
Um dia em minha vida
Um dia interminável
Um fato lamentável
Um presente de grego
Uma caçada impossível
Uma fábula do meu tempo
Uma história bem maluca
Uma história de arrepiar
Uma lenda local
Uma paisagem inesquecível
Uma parábola atual
Uma perspectiva positiva para o ECA
Vantagem a longo prazo
Viagem ao país da impunidade
Viagem ao país da justiça
Viagem ao redor de um sonho
Viver e aprender
Viver em rede no século 21: os limites entre o público
e o privado
Você acredita em orações?
Voto adolescente: exercício de cidadania ou exploração
política?
Vulcões e caos aéreo
PARTE 2
REDAÇÃO
INTRODUÇÃO
Depois de ter sido professor de língua portuguesa,
língua inglesa, literatura brasileira, portuguesa, inglesa,
norte-americana e de teoria da literatura, após ter escrito
mais de 900 livros de bolso, ao longo de 35 anos de carreira,
fui desafiado a provar que era possível ensinar alguém a
escrever.
Pois bem. A grande dificuldade de se ensinar alguma
coisa para alguém é saber se essa pessoa quer aprender. Se
ela quiser, tudo se torna mais fácil.
Há pessoas, porém, que não querem e não gostam, mas
precisam aprender. O grande desafio é ensinar também a
essas pessoas e esse pode ser o seu caso. Você não gosta de
ler, não gosta de escrever, mas precisa aprender a fazer uma
redação para garantir o mínimo necessário para o vestibular
ou para um concurso público.
Se você quer aprender o mínimo, isso é possível.
Escrever uma composição é como fazer uma construção.
Você precisa de alicerce, de cimento, de tijolos e de
cobertura. Você pode não contar com recursos ilimitados
para garantir um bom acabamento, mas é possível se fazer
uma boa construção, apresentável, com tijolos à vista e
pouco material de acabamento. Tudo depende do habilidade
do construtor.
Quando você faz uma redação, o processo é o mesmo.
Os substantivos são os tijolos da construção. Os verbos são
argamassa que os une. Os complementos são o acabamento
e a cobertura. O conhecimento do vocabulário e da
gramática são os alicerces.
Em minhas palestras, quando ensino que é possível
para qualquer um escrever bem, usando 10% de inspiração e
90% de transpiração, as pessoas pedem alguma coisa mais
fácil, mais imediata, mais milagrosa. Eu recomendo, então,
meu chá especial, uma fórmula mágica que desenvolvi para
conseguir escrever aproximadamente 70.000 páginas ao
longo de minha carreira.
Obviamente, todos querem a receita desse poderoso
chá, capaz de transformá-los em escritores da noite para o
dia. Por isso afirmo que você pode ser um escritor da noite
para o noite e, com um pouco de treinamento, tornar-se um
bom escritor, desde que use criteriosamente essa minha
receita.
Quer conhecer a fórmula? É simples e leva apenas 3
ingredientes.
C - c de conhecimento, necessário para alicerçar seu
trabalho.
H - h de habilidade, que você desenvolve praticando.
A - a de atitude, sem o que você nada fará.
O conhecimento você adquire com seu esforço pessoal.
Se está no segundo grau, com certeza tem conhecimentos
suficientes de gramática e de vocabulário para fazer uma
boa redação. Se não costuma escrever, sua habilidade está
atrofiada e quanto mais você treiná-la, mais hábil ficará. O
importante é saber que conhecimento você adquire,
habilidade você desenvolve, mas se não tiver a atitude de se
empenhar e usar seus recursos, isso de nada lhe adiantará.
Você pode aprender nos livros e com os professores. Mas
somente vai conseguir fazer uma boa redação, quando
quiser realmente fazê-la.
Este livro vai tornar as coisas mais fáceis para você.
Não estamos preocupados em apresentar grandes lances de
gramática nem altos exemplos literários. Queremos apenas
fornecer-lhe o necessário para você entender o processo,
situar-se nele e caminhar com certa naturalidade no assunto.
A partir daí, desenvolver seu talento será uma decisão
pessoal.
Não pense que escrever é um dom. Escrever é um
trabalho que exige horas e horas de dedicação diante do
papel, preenchendo-o, polindo o texto, criticando o
resultado e buscando sempre melhorar. Por maior que seja o
dom, se é que ele existe, você pode ficar sentado diante de
uma folha de papel, de uma máquina de escrever ou de um
computador, mas se seus dedos não se moverem e você não
se concentrar no que faz, nada fará com que o texto seja
criado.
O trabalho pode ser mais fácil para uns do que para
outros, cujas habilidades estejam mais desenvolvidas ou
cujos conhecimentos sejam maiores. O trabalho, porém, é o
mesmo. Qualquer um dos dois que tenha de escrever uma
redação de 30 linhas, terá que escrever as 30 linhas por si
mesmo. Nada fará surgir no papel um trabalho pronto.
Frequentemente perguntam-me como eu consigo
escrever um livro de 100 páginas em alguns dias. Após
tantos anos de prática, desenvolvi minhas habilidades ao
máximo. Tendo sido professor, assimilei os conhecimentos
gramaticais necessários. Como sempre li muito, tenho um
vocabulário razoável. Minha imaginação trabalha solta,
aprendi a fazer isso com o tempo. Não preciso de inspiração
e, sim, da transpiração. Finalmente, quando escrevo um
livro, faço porque quero fazê-lo ou porque preciso fazê-lo.
Em qualquer das duas hipóteses tenho a motivação
necessária. Quando querem saber por onde eu começo,
sempre respondo: "pela primeira letra da primeira palavra da
primeira oração do primeiro período do primeiro parágrafo
da primeira folha."
Eu afirmo que você pode escrever, que é capaz de
produzir uma redação para o vestibular que, mesmo não
sendo brilhante, em nada vai comprometer seu desempenho
e seguramente contribuirá com o resultado final. Para isso,
só preciso que você queira fazer isso. Vou tornar todo o
processo o mais suave e acessível possível. Se acredita
nisso, prossiga. Caso contrário, feche este livro e vá fazer o
que mais gosta.
Informações úteis
Se você está se preparando para o vestibular,
preocupado com sua redação, é interessante que tenha
algumas informações iniciais, para começar a interiorizá-las
a partir de agora. Uma delas, da máxima importância, é
saber o que ocorre com sua redação, a partir do momento
em que ela é entregue, após sua conclusão.
Dependendo do curso a que esteja concorrendo, sua
redação terá peso ou nota diferente, mas certamente em
todas as hipóteses, acrescentará pontos importantes para sua
aprovação.
Após a realização da prova, seu trabalho é
encaminhado a um professor que corrigirá sua redação,
baseando-se em três princípios básicos: conteúdo, forma e
correção. Vejamos cada um desses itens isoladamente.
O conteúdo
Pesarão neste aspecto o seu enfoque pessoal ou a
maneira como abordou o assunto, a lógica e a coerência das
ideias apresentadas, sua relação com o tema, sua atualidade
e sua argumentação. Para se sair bem nessa etapa, você
precisa refletir sobre o tema, relacionar e encadear
informações atuais sobre ele, desenvolver a composição
coerentemente, sem se afastar de seu propósito inicial. Para
isso você precisará de um esquema de trabalho e esta é uma
das coisas que aprenderá fazer no decorrer da leitura.
Lembra-se das notícias do início?
A forma
Você deve desenvolver seu trabalho com concisão e
clareza, tendo em mente que concisão é a exposição das
ideias em poucas palavras e clareza é a qualidade do que é
claro ou inteligível. O domínio das formas da língua e a
fluência na construção das frases, orações e períodos são
decisivos, assim como um bom domínio e riqueza de
vocabulário. Finalmente, um toque de criatividade para
temperar tudo isso, não se esquecendo jamais de que o
professor que fará a leitura e pontuará seu trabalho
certamente gostará de entender tudo facilmente, razão pela
qual, ao passar a limpo seu trabalho, faça-o com caligrafia
legível e caprichada, sob pena de pôr em risco todo o
resultado.
A correção
Seu trabalho deve ser o mais correto possível. Isso
significa que deverá estar isento de erros gramaticais e
ortográficos, corrigido com atenção, elegante e adequado ao
seu propósito. Os aspectos que mais saltam à vista, nesse
momento, são a acentuação gráfica, a ortografia, pontuação,
concordâncias verbal e nominal, regência e colocação
pronominal.
Quanto mais harmoniosas forem essas etapas de sua
redação, mais chance de sucesso, e de boa nota, você terá.
Para chegar a isso, não se esqueça de que terá de fazer uso
de muito CHA. A questão, agora, é perguntar: você está
disposto(a) a seguir em frente? Está disposto(a) a adquirir
conhecimentos e desenvolver suas habilidades? Se a
resposta for positiva, você está pronto(a) para continuar.
Capítulo 1
ENTENDENDO OS CONCEITOS
Sempre insisti que o ato de escrever é uma atividade
que exige ação, um processo que deve ser estruturado e
obedecer a um método. A partir do momento em que você
pratica, você vai internalizando paradigmas ou modelos que
serão utilizados automaticamente em seus trabalhos.
Saber como isso ocorre é importante, pois pode
permitir que você assuma o controle de algo que, por falsas
informações ou conceitos errados, julgue ser um ato
instintivo, inato, um "dom" que privilegia poucos e penaliza
muitos.
Se tiver um pouco de paciência, garanto-lhe que tudo o
que conhecer e aprender quanto aos aspectos teóricos da
redação tornarão sua tarefa mais fácil e mais produtiva.
Aceitando essa premissa, tenha em mente que escrever
é argumentar e para fazer isso, alguns requisitos básicos são
necessários. Vejamos quais são!
Pensamentos
A justeza do espírito é uma qualidade indispensável em
qualquer pessoa que pretenda fazer uma argumentação. Da
mesma forma, pode-se afirmar que não existe obra literária
sem sentimento. Por mais impessoal que tente ser,
fatalmente essas qualidades ou a ausência delas vão se
refletir em seu trabalho. Assim, é importante que você
entenda isso, uma vez que pode afetar diretamente o seu
estilo e sua obra.
Pensamento é toda concepção do espírito. Deve ser
verdadeiro, isto é, conforme com a realidade, já que um
pensamento falso pode fazê-lo enveredar por uma
argumentação totalmente equivocada.
Exige-se que seja claro para ser compreendido sem
esforço. Por isso, todos os bons manuais de redação
recomendam que se busque a simplicidade na comunicação,
fugindo a tudo que possa comprometer sua clareza. Devem
ser ainda naturais, espontâneos, ajustados ao assunto e ao
caráter das pessoas que os expressam.
Numa redação objetiva, como a do vestibular e a de um
concurso público, recomenda-se evitar os pensamentos por
demais profundos, que não podem ser concebidos senão por
espíritos superiores e cuja exatidão só será medida por séria
e profunda reflexão.
Os professores que corrigirão seu trabalho podem não
dispor de tempo para tais mergulhos. Da mesma forma,
deve-se evitar todos que vulgares e triviais, evocando coisas
ou aspectos grosseiros ou comum demais.
Sentimento
O sentimento pode ser religioso, quando tem Deus ou
as coisas santas por objeto, natural, se nasce da
contemplação do mundo exterior e sentimento propriamente
dito, como amor, ódio, amizade, gratidão, alegria, tristeza,
admiração, ternura, compaixão, esperança, inveja.
A primeira qualidade do sentimento é a naturalidade,
devendo estar adequado ao assunto e corresponder aos
estados de alma dos autores ou das personagens envolvidas.
À naturalidade opõe-se a exageração, quando o autor
se deixa seduzir pela sonoridade das palavras e pela ousadia
das expressões que substituem a justeza e a sinceridade do
sentimento.
Os sentimentos são também nobres e sublimes, quando
próprios a realçar as melhores tendências da alma, as suas
heroicas resoluções e elevadas aspirações para a verdade, o
bem e o belo.
Ao redigir uma redação, deixe aflorar aqueles
sentimentos que possam contribuir para o seu sucesso,
evitando a todo custo deixar-se contagiar pela ira, pela
ironia, pela revolta, que seguramente o levarão a
pensamentos obscuros, falsos, confusos ou totalmente
desviados da realidade.
Linguagem Oral e Linguagem Escrita
A linguagem escrita tem identidade própria e seu
caráter formal distancia-se da linguagem oral. Ao redigir,
usa-se o significado das palavras para transmitir conteúdos.
Assim, a redação é a expressão de ideias, por escrito. Para
atingir seus objetivos, precisa ser feita de forma clara,
organizada e coerente.
Simplificadamente,
redigir
bem
é
utilizar
conhecimentos de gramática e de vocabulário para discorrer
sobre um tema. Para se discorrer sobre um tema, é preciso
entendê-lo, refletir sobre ele, associar ideias, usar a memória
e a imaginação. Em seguida, ainda que mentalmente, é
preciso estabelecer um roteiro para essa redação,
obedecendo aos seguintes passos:
1 - Seleção da forma a ser utilizada (dissertação,
descrição, narração ou correspondência comercial).
2 - Reflexão sobre o tema, organizando e associando
ideias.
3 - Escolha de palavras significativas e atreladas ao
tema para expor as ideias de forma concatenada, conforme
as regras do idioma e seguindo seu próprio estilo.
Num vestibular ou num concurso público, a seleção da
forma será automática, como exigência da prova. Refletir
sobre o tema, no segundo passo, implica em usar a memória,
lembrando-se de leituras ou de informações recebidas de
outras fontes. Ao fazer isso, faça uma análise cuidadosa o
assunto a ser tratado, sob todos os aspectos, sejam eles
concretos, emocionais ou filosóficos. Após isso, faça o
rascunho inicial, ponto de partida para seu trabalho.
Um dos aspectos mais importantes, tendo em vista que
a originalidade é um dos pontos cruciais de toda redação, é
o de criar e desenvolver um estilo próprio. A capacidade de
observar, analisar, compilar e apresentar dados de forma
própria e individual determinará seu grau de criatividade.
Para isso, não há como fugir da leitura de jornais, revistas e,
principalmente, dos grandes nomes da língua portuguesa em
todos os tempos. Lembre-se que quanto maior for o seu
vocabulário, mais fácil será a tarefa.
Nesse aspecto, algumas regras são básicas: evitar
arcaísmos e neologismos, dando preferência a um
vocabulário atualizado, fugindo das cacofonias, do uso
repetitivo de palavras e expressões. Afinal, uma frase
gramaticalmente incorreta, sintaticamente mal estruturada e
grafada com erros não atinge o seu objetivo.
Para desenvolver sua habilidade, crie o hábito de
escrever diariamente, revisando e corrigindo o texto em
seguida é passo imprescindível para automatizar o processo
e desenvolver a habilidade, pois essa familiaridade com o
ato de escrever torna fácil a capacidade de expressar-se de
forma clara, coerente e correta.
Para que sua redação consiga atingir o objetivo
proposto, que é o de discorrer eficazmente sobre o tema, é
preciso que você esteja atento ao fato de que ela será lida
por alguém com características específicas, conforme pode
ver no capítulo inicial, quando falamos das notícias e
apresentamos as opiniões de professores que trabalham na
correção de redações de vestibular. Lembra-se? Tenha em
mente que são pessoas altamente cultas e, por isso, você
deve empregar um vocabulário à altura, respeitando o limite
de linhas exigidos, com um bom nível de complexidade nas
informações, uso correto da língua e de suas estruturas.
Uma boa forma de treinar é automatizar os paradigmas
da língua, através da elaboração de paráfrases. Para isso,
comece copiando uma trecho de um livro e depois o
reproduza, mudando o sentido, sem mudar as estruturas das
frases, como no exemplo a seguir:
"O corpo se agitou no colchão de palha: ruído de
ventania arrastando folhas." (L P Baçan, Sassarico)
Paráfrase:
"O carro se agitou no lamaçal: barulho de animal
brincando na água."
Comece com frases simples e vá aumentando, até
conseguir trabalhar textos entre 20 e 30 linhas. Use tudo que
tiver a sua disposição, desde trechos de escritores famosos
até reportagens de revistas ou de jornais. Verá que, com o
tempo, torna-se mais fácil fazer isso. Quando eu disse que
para aprender a escrever usava-se 10% de inspiração e 90%
de transpiração, estava me referindo a isso: trabalho
constante, sistemático e organizado.
É importante que você jamais se esqueça de que uma
redação é um texto objetivo, um instrumento para você
transmitir informações, devendo fazê-lo da forma mais clara
possível. Como é um texto com um número limitado de
linhas, um esforço extra poderá ser exigido para concentrar
essas informações no corpo da redação, evitando alongar-se
desnecessariamente, o que implicaria em riscos de cometer
mais erros, desviar-se do assunto ou perder-se nele. Por isso
recomenda-se um pequeno roteiro da redação, que pode ser
feito no rascunho. O esquema mais simples é:
1 - Início (relacione palavras-chaves para introduzir o
assunto)
2 - Meio ou desenvolvimento (relacione ideias a serem
desenvolvidas, lembrando-se sempre de analisar a questão
por prismas diferentes, buscando enfoques originais).
3 - Conclusão (fuja à tentação de transformar sua
conclusão numa lição de moral ou em apresentar
simplesmente a "moral da história". À luz dos argumentos,
escolha sua opção).
Tudo isso, porém, deve ser parte de um processo
natural. Se você está lendo este livro é porque não tem
familiaridade com o assunto e precisa aprender tudo desde o
princípio. Assim, nada como procurar criar dentro de si um
método de trabalho.
Analisando o Tema
De fato, a primeira regra para uma boa redação é a
análise do tema. Para isso, são necessárias algumas etapas
que devem ser automatizadas e praticadas com frequência,
buscando o desenvolvimento e aprimoramento dessa
habilidade.
Pode, aparentemente, parecer uma coisa difícil de ser
feita, mas, na verdade, não envolve nenhum grande segredo.
Antes de tudo, é importante manter a calma. Muitos
estudantes acabam ficando nervosos e perdendo a
concentração ao se deparar com um tema inesperado e isso
compromete todo o seu desempenho posterior.
Fique calmo. Leia o tema como algo impessoal, como
um degrau a ser vencido ou um obstáculo a mais a ser
superado. Siga os seguintes passos, respondendo às
seguintes perguntas:
1) Qual é o tema, o que é, qual é a sua definição, o que
visa ou busca, onde quer chegar e qual é a sua abrangência?
Faça a si mesmo perguntas desse tipo e vá ordenando as
respostas. Pode fazer um pequeno rascunho com essas
respostas, apenas para orientar-se. Se aprender a fazer isso
logo no início, com o tempo fará todas essas questões e
associará todas as respostas mentalmente, usando suas
habilidades.
2) De que se compõe, pode ser enumerado, há pontos
de vista divergentes ou convergentes?
3) Quais seus aspectos principais, como descrevê-lo,
quais são as suas palavras-chaves?
4) Quem? O quê? Onde? Como? Por quê? De que
forma? Quando?
5) Quais são as suas causas e efeitos.
6) Que fatos, notícias, relatos ou informações tenho na
memória a respeito?
7) Que exemplos, modelos, bibliografia ou
informações complementares posso usar?
8) Que compara comparações posso fazer?
9) Há teses, antíteses e alusões possíveis?
10) Que hipóteses podem ser formuladas sobre o tema?
Ao fazer isso, respondendo a essa série de questões,
possivelmente você terá entendido o tema, seu objetivo, seu
conteúdo e esboçado a forma como vai abordá-lo,
desenvolvê-lo e concluí-lo.
Quer testar? Peça a alguém próximo de você que lhe dê
um tema, por mais imprevisível que possa ser e percorra
todos os passos recomendados acima.
A Memória
A memória é um de seus maios preciosos aliados
quando se trata de redigir. Ela pode guiá-lo na seleção das
informações, lembrando-se instintivamente tudo que se
referir tema. A reflexão fará o resto. Não espere que sua
memória encontre sozinha as informações de que necessita.
Você precisa municiá-la com a leitura de bons autores, boas
fontes, atualidades, novidades e tudo que puder ser
explorado ou necessário no futuro. Isto porque se você
souber aplicar bem um pensamento alheio, terá quase tanto
talento como o autor dele.
Apesar disso, apenas faça citações se as souber desde
que sejam exatas. Evite expressões como "se não me falha a
memória", "li algures", "no dizer de célebre critico, de
conhecido historiador, do filósofo, do famoso poeta", que
muitas vezes podem ser expedientes para tentar reforçar
afirmações de sua própria autoria. Lembre-se de que quem
corrigirá seu texto possui um certo grau de cultura e
conhecimento, dificilmente engolindo esse tipo de artifício.
Na descrição de uma paisagem, recorra à memória para
adaptar a essa paisagem as particularidades pitorescas de
outra semelhante, da natureza real. Para dar vida a um
dialogo, recorda-se de palestras espirituosas e de réplicas
inteligentes que possa ter ouvido recentemente.
A Disposição
Dá-se o nome disposição, na composição literária, à
distribuição ordenada de seu conteúdo. Pode ser interior e
exterior. A primeira resulta da ligação real das ideias e tem
como partes principais o principio ou introdução, o meio ou
desenvolvimento e o fim ou conclusão. A segunda consiste
nas divisões visuais feitas para tornar a leitura possível,
como partes, seções, livros, capítulos, artigos, parágrafos e
pontuação.
Isso porque não basta expor à inteligência muitas
ideias, mas também é preciso apresentá-las com ordem, uma
das exigências básicas de um trabalho bem feito.
A primeira qualidade que se observa numa redação e
sua unidade, isto é, se é coerente com o tema proposto,
mantendo-se ligada a ele pela pertinência. Um pensamento
mal colocado é uma tolice, mas pode ser, noutro lugar, um
pensamento elevado e original.
A disposição ou plano varia segundo o gênero de
composição, o fim desejado, o autor e a condição das
pessoas a quem ele se destina, mas existem regras básicas
aplicáveis a todos os gêneros.
Inicialmente, o plano deve nascer do tema e ligar-se a
ele, evitando a inclusão de ideias estranhas.
Suponhamos que você esteja dissertando sobre os
meios de comunicação e introduza uma brilhante mais
inoportuna apreciação sobre a competição entre as empresas
de ônibus e as de aviação.
Após refletir sobre o tema, reunindo informações,
escolha as ideias principais e de cada uma delas faça o
centro em torno do qual se agrupam uma série de ideias
menos essenciais e mais particulares, esmiuçando seu
entendimento.
Faça divisões entre essas ideias, de modo a formar
parágrafos, esgotando cada uma delas neles e evitando que
uma ideia se misture ou se confunda com outra. Numa
segunda etapa, veja quais dessas ideias são realmente
importantes e interessam ao tema proposto, excluindo
aquelas que não se prestarem a isso.
Não inclua nada que não conheça satisfatoriamente,
que não possa desenvolver ou provar.
Altere a ordem das ideias apresentadas, de forma que
sua disposição resulte num todo coerente, progressivo e
elucidativo. Jamais peça crédito ao corretor da redação,
incluindo afirmações semelhantes a "como pretendo provar"
ou "como já esclareci anteriormente".
A lei essencial de toda argumentação é o movimento
progressivo, que pode ser ascendente ou descendente.
Indivíduo, família, pátria, humanidade estão colocados
numa gradação ascendente. Descendente seria o inverso.
Não se veja nessa gradação, porém, graus de importância. É
apenas uma forma de apresentar suas ideias, indo do menor
para o maior, do particular para o geral ou vice-versa.
O resultado final de um trabalho assim planejado será a
manutenção da unidade na variedade, o equilíbrio dos
elementos da composição e a originalidade e clareza do
conjunto.
Tipos de planos
Podemos diferenciar os seguintes tipos de planos de
composição: o simétrico, o cronológico e geográfico, o
retrospectivo e o artístico ou orgânico.
O plano simétrico estabelece um equilíbrio entre as
partes da composição, criando entre elas uma
correspondência. Pode ser subdividido em plano simétrico
por antítese, por paralelo e por progressão ascendente ou
descendente.
O plano por antítese, ou ideias contrárias, produz, em
geral, um bom efeito. No plano por paralelo procura-se
analisar as semelhanças e as diferenças entre duas
personagens, duas épocas ou dois aspectos relevantes de um
tema. Pode compor-se a paralelo em quadros separados que
se correspondem, como dois medalhões.
O plano cronológico reúne os fatos conforme sua
sucessão no tempo e na ordem em que se realizaram. O
plano geográfico descreve o tema de acordo com sua
posição ou situação em diversos países ou na superfície do
globo.
Já o plano retrospectivo opõe-se ao cronológico e
consiste em lançar o leitor no meio de acontecimentos ou no
centro de uma argumentação, explicando, depois, os fatos
anteriores.
O plano artístico ou orgânico torna mais intima a
unidade da composição, movendo-a em volta de certos
sentimentos, de um pensamento ou de um concerto de
pensamentos que lhe unem todas as partes e é conveniente
ao teatro e ao romance.
Cada um desses planos exige o desenvolvimento de
habilidades específicas e o uso de conhecimentos
direcionados. Você pode treiná-los, criando modelos que
poderão ser utilizados posteriormente, depois de passados
por todas as fases do polimento.
Ao elaborar um plano, é como se você montasse o
esqueleto de sua redação e isso vai se mostrar extremamente
útil no futuro, pois um mesmo esqueleto pode servir de
modelo para qualquer tema.
Capítulo 2
TIPOS DE REDAÇÃO
A DESCRIÇÃO
Descrever é representar um objeto (cena, animal,
pessoa, lugar, coisa, etc.) por meio de palavras, procurando
explorar os cinco sentidos humanos — visão, audição, tato,
olfato e paladar —, através dos quais mantemos contato
com o mundo. Assim como em qualquer redação, é
importante elaborar um roteiro a ser seguido e a melhor
maneira de fazer isso é selecionando perguntas específicas e
pertinentes sobre o tema. Apesar de raramente ser exigida
num vestibular, sugiro que você a pratique para estar
preparado para qualquer eventualidade.
Um bom elenco de perguntas a ser utilizado é o
seguinte:
1 - O que a sua visão assimila do tema proposto?
2 - O que o sua audição recolhe desse tema?
3 - O que o seu tato sente desse tema?
4 - O que o seu olfato capta desse tema?
5 - O que o seu paladar percebe desse tema?
Como a originalidade é um aspecto importante de toda
reação, principalmente daquelas utilizadas como avaliação,
seja no vestibular ou num concurso público, experimente
fazer o seguinte exercício, após ter feito o rascunho inicial
de sua redação.
1 - Anote os adjetivos e expressões que usou ao
descrever cada um dos sentidos. Quais foram os utilizados
para a visão, para a audição e assim por diante.
2 - Veja o que pode ser excluído, por estar implícito no
sentido abordado. Exemplo: Vi com os olhos.
3 - O que foi repetido e pode ser trocado por um
sinônimo.
Ao fazer esse trabalho, você estará polindo seu texto,
disciplinando-se quanto ao uso excessivo de adjetivos e de
expressões repetidas e desnecessárias. Se gostou desta
sugestão, haverá muitas ainda, todas muito úteis para você
se tornar um bom escritor.
Quer um exemplo prático? Imagine um homem caído
num poço, à noite. Coloque-se no lugar dele. Pense no frio,
na água, na noite, na sufocação, cansaço, nas horas, no som
da voz, no eco, no tempo, no silêncio, na vista lá de baixo,
nos gritos de desespero, no abandono das forças, na
extenuação lenta, nos movimentos inúteis do homem, que se
conserva à tona da água e que mergulha, quando se agita, no
medo da morte e outras sensações. Vá anotando as
sensações e percepções possíveis.
Uma certa ordem pode ser imposta à descrição, como
parte do plano, como forma de facilitar ou antes sistematizar
sua tarefa. Se você for descrever uma paisagem, terra, mar e
céu poderão estabelecer três divisões. Se a sua paisagem não
tiver mar, você pode dividir em próximo, afastado e
distante, ou planície, montanhas e céu. Pode utilizar o
mesmo critério dos pintores, dividindo em primeiro plano,
segundo plano e fundo. Essa divisão permitirá que você dê
ao seu trabalho uma certa progressão.
Uma boa descrição é viva, animada, realista, sem aterse aos aspectos negativos ou ao vulgar. Os detalhes devem
ser empolgantes e escolhidos, dispensando-se de comentar o
óbvio. Ninguém dirá, na discrição de um cavalo, que se trata
de um animal com quatro patas, uma cabeça e um rabo, a
menos que isso seja absolutamente necessário no contexto
da descrição.
Para descrever de forma natural e realista, você usa a
observação direta e a indireta. A primeira, anotando tudo o
que vê e sente, as coisas, as cores, os sons e os movimentos,
impressão provocada por tudo isso, suas reações, dando a
isso uma certa ordem, a partir de um plano definido de
trabalho. Na observação direta você usa a sua memória ou
as informações obtidas através de outros meios, como a
leitura, por exemplo.
Para simplificar e facilitar seu trabalho, memorize os
modelos abaixo para usá-los quando preciso ou adapte-os ao
seu estilo. Muito embora o esquema recomende dois
parágrafos para o desenvolvimento, nada impede que, sendo
necessário, você use mais um ou dois.
Descrição de Pessoas
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Dê suas primeira impressão ou aborde algum aspecto
de ordem geral.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Dê suas características físicas, como altura, peso, cor
da pele, idade, cabelos, traços do rosto, voz e roupas, depois
trace seu perfil psicológico, abordando personalidade,
temperamento, caráter, preferências, inclinações, postura e
objetivos.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Finalize ressaltando uma dessas características ou
algum aspecto de ordem geral que a torna única.
Descrição de objetos
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Comente a procedência ou a localização do objeto a ser
descrito.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Detalhe o formato, comparando-o com figuras
geométricas e com objetos semelhantes. Cite suas
dimensões, tais como largura, comprimento e altura.
Descreva o material de que é feito, peso, cor, brilho, textura
e impressões que provoca à visão e ao tato.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Faça observações quanto à utilidade ou sobre o objeto
como um todo.
Descrição de ambientes
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Comentário de caráter geral.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Dê todos os detalhes da estrutura do ambiente,
destacando paredes, janelas, portas, chão, teto,
luminosidade, cheiros e outras impressões. Relacione os
objetos ali existentes, como móveis, aparelhos elétricos,
decoração e outros aspectos relevantes.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Teça considerações sobre a atmosfera que paira no
ambiente ou as sensações que ele provoca.
Descrição de paisagens
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Faça comentário sobre a localização ou qualquer outra
referência de caráter geral a respeito da paisagem.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Divida a paisagem e explique o que vê do mais perto
para o mais longe ou vice-versa. Se preferir, pode fazê-lo
movendo o foco de observação da direita para a esquerda ou
ao contrário.
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Conclua comentando a impressão que a paisagem
causou em você ou causará em quem a contemplar.
A DISSERTAÇÃO
A dissertação é uma exposição de ideias a respeito de
um tema, com base em raciocínios e argumentações,
discutindo um tema e defendendo uma posição a respeito
dele, o que exige coerência entre as ideias e a clareza na
forma de expressão. Pode ser dividida em:
1 - Introdução, quando se apresenta o tema.
2 - Desenvolvimento, quando se expõem os
argumentos e ideias sobre o assunto, fundamentando-se com
fatos, exemplos, testemunhos e provas o que se quer
demonstrar.
3 - Conclusão, que é o desfecho.
Vamos ver isso detalhadamente.
O Princípio
O principio é a introdução ao tema, quando você
procura dispor favoravelmente o leitor, atraindo sua
simpatia, conciliando-lhe a atenção e preparando-o para que
compreenda o assunto.
Todo principio deve ser breve e simples, fugindo a
ricochetes, que se apegam a uma ideia estranha ao tema,
rumando para ele através de um mirabolante jogo de
palavras ou de ideias. Deve-se evitar também as chamadas
cascatas, que se iniciam numa ideia muito geral e vai se
afunilando, até chegar, finalmente, ao tema. Deve-se evitar,
também, iniciar o trabalho com longas histórias ou anedotas
O título ou enunciado do trabalho não deve fazer parte
do assunto nem considerar-se como uma primeira . Procure
ser modesto e, por isso, nada de fazer apologia ao tema nem
anunciar suas pretensas maravilhas. Para terminar, o
princípio jamais deve deixar transparecer a conclusão,
antecipando-a.
O Desenvolvimento
O desenvolvimento é o corpo da redação, em que se
manifesta plenamente a ideia geral ou o fato principal,
estando sujeito a três leis: unidade, movimento e progressão,
interesse.
Unidade é o vinculo que torna afins e enlaça as várias
partes, para formarem um todo completo, já que a qualidade
de uma redação não deve estar somente na excelência em
cada um dos pensamentos, como também no estreito nexo
que os liga e torna coerentes em torno do tema proposto.
Jamais pense numa redação como um amontoado de
linhas ou uma sequencia de parágrafos, sem ligações
internas nem compromissos e coerência entre elas.
Movimento e progressão
Tudo que for incluído numa redação deve ser
pertinente, importante e acrescentar movimento a ela, num
processo natural de evolução das ideias para um arremate
que sintetize os argumentos apresentados. É importante que
o leitor, a cada instante, sinta que as ideias caminham para a
conclusão. Sem esse andamento, facilmente se percebe o
famoso e problemático "enchimento da linguiça", que a
nada conduz e jamais chega a um ponto final.
Dois excessos devem ser evitados: o movimento
rapidíssimo e o movimento arrastado. Para evitar o
primeiro, acrescente ligeiras mas pertinentes observações,
relatos, fatos ou informações. Para escapar do segundo, fuja
das reflexões profundas, das adições inúteis e das digressões
que, ainda que brilhantes, enveredam por trilhas longas e
traiçoeiras.
O ritmo correto implica em fazer da sua composição
uma ideia em marcha, de forma que, à medida que for
ganhando terreno, venham unir-se novas ideias relacionadas
intimamente com ela.
Lei do interesse
O interesse consiste em manter o espírito do leitor em
constante expectativa, evitando a monotonia ou tornando o
desenvolvimento ou a conclusão facilmente presumíveis.
O interesse pode ser natural e artificial. Natural quando
nasce da importância ou pertinência dos fatos. Artificial
quando intimamente ligado ao talento do escritor que sabe
explorar engenhosamente o assunto, por meio de diversos
recursos.
O interesse deve ser sempre crescente e estar
habilmente distribuído em toda a composição.
A conclusão
A conclusão é o final da composição, em que se
recapitula a essência do que se desenvolveu e produz-se
uma derradeira impressão favorável no espírito do leitor.
A conclusão deve ser breve, ainda que se faça a
recapitulação das principais ideias. Escolha, para finalizar,
dentre os pensamentos e sentimentos que o tema inspirou,
os mais apropriados para persuadir e convencer.
Necessidade das correções
Tenha sempre em mente que aprender é exercitar-se e
que isso implica em 90% de transpiração e 10% de
inspiração. Sem trabalho constante não se alcança o pleno
desenvolvimento das habilidades. Tudo isso para lembrar a
necessidade das correções, condição básica para o sucesso
de todo trabalho escrito.
Fialho de Almeida revela um importante segredo.
"O meu primeiro trabalho é o de tornar a prosa
elegante de maneira que não tropece em quês, evitar que as
palavras se repitam ou que haja palavras rimadas. Então
emendo muito, chego a desesperar. Depois, passo a outro
papel e tantas vezes quantas eu entender que fica bem e me
der por satisfeito. Então leio em voz alta e retoco até que o
artigo está de pronto para a tipografia" (Serões).
Isso passa a ser, também, parte de um trabalho
planejado de desenvolvimento das habilidades, que
enfrentará algumas etapas. São elas:
Primeira versão
Pegue seu dicionário, escolha um tema no capítulo
Sugestões de Temas e Atividades e comece escrevendo com
cautela, a partir do plano elaborado. Você pode ir
escrevendo, lendo e corrigindo ou escrevendo tudo e depois
corrigindo. Tente as duas opções e veja em qual você se
sente mais à vontade, adotando-a como método de trabalho.
O importante é que, uma vez terminada a primeira versão,
você faça a primeira correção. Para isso, use o Roteiro para
Correção, nos capítulos finais.
Terminada essa primeira etapa, passe a limpo e guarde
a redação e só volte a ela após ter escrito duas ou três outras.
Isso é importante para que você se desvincule de ideias,
modos e construções utilizadas, tendo uma visão mais
imparcial do que escreveu
Segunda versão
Retome a redação, juntamente com seu dicionário, e
analise-a, observando aspectos mais sutis. Inicialmente,
revise cada período, cada frase e até cada palavra, retocando
e substituindo onde julgar apropriado.
Observe os períodos muito extensos, dividindo-os,
depois junte aqueles muito curtos.
Busque novas associações para fortalecer o
pensamento. Amenize sentimentos muito fortes, arrisque
combinações novas, com palavras mais expressivas.
Examine os verbos que utilizou. Veja se são
expressivos o bastante ou se há alternativas de substituição,
que deem força aos argumentos e beleza ao texto.
Veja se as expressões e palavras empregadas são claras
e se fácil e rápido entendimento, não deixando margem a
duplas interpretações. Evite a linguagem conotativa.
Após isso, passe novamente a limpo e guarde.
Terceira versão
Duas ou três redações após esta, retome-a e, desta vez,
sempre com seu dicionário à mão, submeta-a ao Roteiro
para Correção, depois novamente aos conselhos da segunda
versão. Concentre seus esforços no sentido de dar
naturalidade, leveza, fluência e harmonia ao conjunto. Leia
e releia e resultado, depois passe a limpo.
Feito isso, peça a alguém capacitado para lê-la,
apontando imperfeições e fazendo comentários. Ouça com
atenção tudo que lhe for dito, procurando entender o
objetivo de cada conselho dado. Isso não significa que deva
correr e mudar toda a sua redação, conforme a opinião
recebida, mas experimente fazê-lo para ver se o resultado é
melhor. Se for, incorpore esses conselhos. Se não for,
ignore-os.
Terminando esse trabalho, passe a limpo sua redação e
guarde-a para reler no futuro. Não queira buscar, com ela,
uma perfeição inatingível. O que você precisa é desenvolver
ao máximo suas habilidades para enfrentar um vestibular ou
um concurso e isso só será atingido com o constante
trabalho de redigir e corrigir, até que esses procedimentos
sejam incorporados e você passe a utilizá-los
automaticamente, como quem anda de bicicleta ou aprende
a nadar. O processo é mais ou menos o mesmo.
Este processo se presta a qualquer tipo de composição,
seja uma dissertação, uma descrição ou uma narração.
Quer um modelo simplificado para a dissertação? Que
tal este?
1º Parágrafo - INTRODUÇÃO
Comente o tema e apresente dois ou três argumentos
significativos em relação a ele.
2º e 3º Parágrafos - DESENVOLVIMENTO
Desenvolva os argumentos apresentados na introdução.
Se for conveniente, pode usar mais um ou dois parágrafos.
No vestibular ou numa prova de concurso, tenha sempre em
mente que "quanto mais se faz, mais se erra".
4º Parágrafo - CONCLUSÃO
Síntese das argumentações e observação conclusão
final.
A NARRAÇÃO
Narrar é relatar um fato, real ou imaginário, seguindo
um tempo cronológico ou um tempo psicológico.
O narrador, ou ponto de vista, pode ser o protagonista
da história, um observador neutro, alguém que participou do
acontecimento de forma secundária ou ainda um espectador
onisciente, que aparentemente esteve presente em todos os
lugares, conhece todos os personagens, suas ideias e
sentimentos.
A apresentação dos personagens pode ser feita
diretamente, descrevendo-os, ou de forma indireta, por suas
ações e comportamentos deste, quando é dita indireta.
Os diálogos ou as falas podem ser apresentadas de três
formas:
1 - Discurso direto — o narrador transcreve de forma
exata a fala do personagem.
2 - Discurso indireto — o narrador conta o que o
personagem disse, usando verbos chamados dicendi ou de
elocução, que indicam quem está com a palavra. Exemplo:
"disse", "perguntou" e "afirmou", "retrucou".
3 - Discurso indireto livre — o narrador usa os dois
tipos anteriores.
O conjunto dos acontecimentos chama-se enredo e
pode ser linear, seguindo a sucessão cronológica dos fatos,
ou não linear, com cortes na sequencia dos acontecimentos.
Normalmente pode ser dividido em exposição, complicação,
clímax e desfecho.
Tendo em vista que uma das melhores maneiras de
desenvolver seu estilo é lendo de forma ordenada e
metódica, tomando notas e analisando o que está sendo lido,
é importante que você conheça todos os detalhes a respeito
da narração. Esse conhecimento será de suma importância
quando você fizer suas leituras suas anotações.
Conhecendo e familiarizando-se com os elementos
principais da narrativa, você compreenderá melhor o texto e
estará atento a detalhes que até então não eram percebidos.
Inicialmente, é preciso entender que a condição
essencial de toda narração é a unidade. Ao narrar um fato,
faça-o sem incluir nisso digressões ou longas ou pouco
interessantes ou estranhas à ação, não se alongando em
descrições nem em reflexões. Deixe apenas o que for
absolutamente necessárias ao desenvolvimento do assunto,
fazendo-as fluir de modo natural.
Elementos da Narração
Para traçar o plano de uma narração, não pense em
termos de introdução, desenvolvimento e conclusão, mas de
exposição, enredo e desfecho, pondo isso num cenário com
algumas personagens.
Segundo Olavo Bilac, "a exposição dá a conhecer o
local e o momento da ação, apresenta as personagens e
fornece todos os antecedentes que prepararam o enredo e
podem influir sobre o desfecho".
A exposição deve ser curta e rápida, indo
preferivelmente direto ao assunto e pode ser iniciada por
uma ação já em andamento. De preferência não deverá dar a
entender qual será o desfecho, a menos que isso seja parte
do plano da obra, pois há aquelas que se iniciam com o
desfecho dos acontecimentos e em seguida narram todos os
acontecimentos que o antecederam.
Ainda segundo Bilac, "o enredo é a própria ação, o seu
desenvolvimento. Começa no momento em que as
personagens entram em cena e se encontram, em que tudo se
põe em movimento e em que o interesse aumenta e se
complica".
Pode ser simples ou complicado, conforme a
quantidade de cenas, mas deverá ser cheio de movimento.
Cada parte evoluirá dentro de uma progressão ordenada,
rumo ao desfecho, que é a última parte da narrativa, quando
se resolve enredo da ação. Deve ser breve e surpreender. Se
for deduzido antecipadamente pelo leitor, tirará deste o
interesse pela leitura.
Se você acha interessante, aqui vai um esquema muito
simples e fácil de ser memorizado para usar se tiver que
fazer uma narração.
1º Parágrafo - EXPOSIÇÃO
Comente o que vai ser narrado e determine tempo e
cenário. Explique a causa dos fatos e apresente as
personagens.
2º e 3º Parágrafos - ENREDO
Detalhe como tudo aconteceu.
4º Parágrafo - DESFECHO
Relate como tudo terminou ou quais foram as suas
consequências.
O cenário
A ação contida em uma narração deverá estar
localizada em algum ponto geográfico real ou imaginário.
Se for uma narração baseada na história, será importante
que guarde estreita relação com os fatos históricos, sem
distorcê-los ou mudá-los, a menos que isso seja intencional
e parte do plano da obra. É importante conhecer os usos e
costumes das personagens, conforme o país ou o local onde
se passa a ação, para dar-lhes cor local. Falar sobre ciganos
sem conhecer seus usos e costumes seguramente será uma
temeridade e soará falso e forçado.
Personagens
Podem ser introduzidas da história diretamente, através
de uma descrição completa de suas características ou de
uma forma indireta, quando essas características ficarão
evidenciadas através de suas ações e atitudes. Na forma
direta usa-se traçar p retrato físico, indicando roupas e
outros detalhes pessoais. Na indireta, realça-se o seu caráter,
seu valor moral e suas ações mais significativas, deixando
para o leitor o trabalho de imaginar essa personagem
conforme suas próprias referências.
Espécies de Narrações
Ao escrever uma narração, você poderá optar entre as
diversas espécies existentes, escolhendo aquela que melhor
atinge os objetivos pretendidos. Você poderá usar:
Narração Histórica: exposição de fatos tal como
aconteceram, verdadeiros e passíveis de comprovação. Ao
fazê-lo, procure ser imparcial e evitar comentários críticos,
pois essa crítica caberá ao leitor, após a leitura.
Conto: trata-se de uma pequena narrativa fictícia, cuja
característica mais acentuada será a da verossimilhança, ou
fidelidade ao real. Você não escreverá um conto em que os
navios da esquadra de Cabral eram aparelhados com
metralhadoras, entre outros absurdos.
Romance: uma obra de imaginação em prosa, baseada
ou não em fatos reais, contendo aventuras fantásticas ou
acontecimentos capazes de interessar o leitor. Nele podem
estar reunidos gêneros diferentes, como a poesia, o conto, a
critica, a filosofia, a história e a ciência social.
Ao escrevê-lo, deve o autor relatar acontecimentos
pouco comuns, mas verossímeis, introduzindo situações
particulares, movimentos, ação e emoções.
A ação preferivelmente deverá fluir com rapidez,
revelando um vivo, variado e animado.
Fábula: é uma curta narrativa, contendo uma lição
moral sob o véu da ficção, diferindo do conto, pois seu
objetivo é o ensinamento moral e não apenas o desfecho.
Suas personagens são, via de regra, animais, vegetais ou
seres alegóricos, em que cada um é representado por suas
características mais marcantes: o leão poderá simbolizar a
coragem e a força. A raposa será a encarnação da astúcia. O
cão representará a fidelidade e assim por diante.
Novela: é uma narração mais extensa que o conto e
menor que o romance e não deve ser confundida com as
novelas de televisão, que é coisa completamente diferente.
Deve ser trágica, inspirando emoções fortes, podendo
utilizar a inverosimilhança para atingir seus objetivos, desde
que coerente com o contexto.
Correspondência Comercial
A linguagem usada em redação comercial é específica,
existindo modelos para os mais diferentes momentos das
relações comerciais. Nesse aspecto, criatividade e
originalidade ficam prejudicadas em função da objetividade
e da brevidade desse tipo de redação. Ofícios,
requerimentos, pedidos, referências, memorandos e muitos
outros exigem de seu redator conhecimento do modelo
específico e das fórmulas comumente empregadas em seu
conteúdo.
Para simplificar seu aprendizado, há neste livro um
capítulo específico sobre Correspondência Comercial, com
modelos para serem parafraseados como forma de exercitarse, principalmente se o seu objetivo é prestar um concurso
público ou candidatar-se a um emprego.
Em resumo, esse tipo de redação caracteriza-se pela
objetividade, coerência e clareza, com predominância da
linguagem denotativa.
Finalizando
Como pôde ver, o objetivo deste trabalho é ser prático,
fornecendo-lhe elementos para uma rápida assimilação dos
princípios básicos de uma boa redação, capacitando-o a
superar bloqueios e a preparar-se adequadamente para
enfrentar os desafios de um vestibular ou de um concurso
público.
É importante salientar que, quanto mais cedo você
começar e quanto mais você transpirar, melhores serão os
resultados. Não fique esperando pela "inspiração" nem pelo
"dom". Comece fazendo paráfrases, que independem de
qualquer estímulo sobrenatural. Automatize estruturas, leia
bastante, ouça os noticiários, principalmente aqueles em que
as notícias são comentadas, troque ideias, mostre suas
redações para os amigos e professores, peça avaliações e
sugestões.
Se tiver mais dúvidas, não hesite em pedir ajuda online, através do meu endereço eletrônico.
Boa sorte e sucesso em todos os seus projetos!
PARTE 3
ROTEIRO PARA CORREÇÃO
Após ter escrito sua redação, passe a correção.
Verifique se os aspectos de introdução, desenvolvimento e
conclusão foram observados. Se as ideias estão coerentes, se
o texto flui com naturalidade e se há harmonia no conjunto.
Passe, depois, a observar os seguintes aspectos, obedecendo
aos conselhos fornecidos:
Ambiguidade
Esta é uma das maiores inimigas de um bom texto,
presente nas expressões ou construções com duplo sentido,
resultando numa ideia imprecisa. Exemplo:
"O policial apanhou o bandido com o produto do roubo
que ele havia cometido".
Nessa construção, pergunta-se: quem cometeu o roubo,
o policial ou o bandido? Ou, ainda:
"Ouvi um latido. Era a cachorrinha da minha
namorada."
Antecipação
Você pode, no primeiro período do parágrafo, adiantar
o que dirá a seguir. Isso ajuda a não perder de vista o tema
proposto na redação ou estabelecido no seu esquema de
trabalho. Exemplo:
"Aquela seria uma noite de pesadelos e sustos para
todos os moradores da fazenda. Tudo começou quando o sol
começou a se esconder atrás das montanhas assombradas..."
Cenas estáticas
Para descrever uma cena estática ou um conjunto de
cenas, empregue adjuntos adverbiais de lugar. Exemplo:
"À direita viam-se os bandos de sacis, perseguindo os
animais em fuga, montando cavalos com as crinas eriçadas
de pavor. À direita, na direção do pomar, os cachorros eram
acuados por quatro ou cinco lobisomens, que rosnavam
ameaçadoramente. Ao longe, ouvia-se o tropel das mulassem-cabeça. Nas bandas do rio, Iara, a mãe d'água, cantava
sua canção predileta de encantamento e fatalidade..."
Começo, meio e fim
Essa sequencia recomendada para todos os textos pode
parecer simples, mas encerra dificuldades intransponíveis
para quem não está preparado para desenvolver suas ideias
ou não tenha percebido a simplicidade do esquema.
Comece indo direto ao assunto, dentro do que planejou
escrever. Rodeios e floreios apenas retardam o verdadeiro
trabalho, aborrecem e irritam quem o lê ou terá que ler para
avaliar.
Para desenvolver um assunto, é necessário que você
tenha refletido sobre ele e usado os recursos que aprendeu
ao longo deste livro. Se estiver devidamente preparado, vai
encontrar as ideias exatas e usá-las com acerto e correção.
Um dos maiores problemas no desenvolvimento de qualquer
composição é a falta de assunto, que leva ao excesso de
rodeios e artifícios.
Ao encerrar, procure algo original, de impacto, que
resuma todo o conteúdo e seja expressivo. Não saber
terminar uma redação e tão ruim quanto não saber começála.
Uma boa maneira de trabalhar é esquematizando as
etapas a serem percorridas até o produção final. Tente
memorizar o seguinte roteiro, que se inicia no momento em
que você toma conhecimento do tema da redação.
Procure entender tema, lendo com calma a proposta da
redação. Mantenha-se alerta, pois há temas tendenciosos,
que encerram armadilhas.
Quando o tema é objetivo, faça uma rápida tempestade
cerebral, buscando lembrar-se de ideias e informações a
respeito, antes de iniciar. Se o tema for subjetivo, faça
relações e associações com assuntos de seu conhecimento e
domínio.
Assim que reunir o material que usará para trabalhar a
sua redação, faça um esboço inicial do seu texto, depois dê o
polimento, observando detalhes como estes, enumerados ao
longo deste capítulo.
Como na prova de redação do vestibular conta muito a
concatenação de ideias, tenha em mente que a melhor
maneira de alcançar um bom resultado está em selecionar os
aspectos ou detalhes a serem enfocados na sua composição.
Estruture a redação por parágrafos, sem perder de vista
a coerência e mantendo o conteúdo estreitamente ligado ao
tema proposto. Tudo o que não for importante ou nada
acrescentar ao desenvolvimento do tema deve ser polido ou
retirado. Uma boa técnica é contrapor ideias no texto,
buscando relacionar aspectos favoráveis e desfavoráveis,
argumentando sobre eles. Isso se você tem conhecimento e
segurança a respeito do assunto abordado. Caso contrário,
fique no terreno que lhe é conhecido e favorável.
Finalmente, nada como uma leitura crítica, enquanto
faz uma revisão gramatical apurada. Habitue-se a fazer isso,
observando se todos os elementos ali presentes contribuem
no desenvolvimento do tema. Corte todo que julgar inútil.
Passe a limpo com uma caligrafia legível e, antes de
entregar, faça uma última leitura do trabalho terminado.
Comentários
Quando quiser um comentário à parte dentro de um
texto, empregue parênteses ou travessão, realçando a citação
fora do contexto. Exemplo:
"Uivavam na noite as assombrações — e como isso é
assustador— atrás dos incautos."
Ou:
"Nas casas (eu também faria o mesmo), todos
mantinham as cabeças cobertas e tremiam."
Comparações
Empregue, sem abusar e quando for conveniente,
comparações que facilitem a compreensão do texto e fixem
uma impressão, tornando-o mais claro e sugestivo. Para
isso, use "como", "qual", "feito", "que nem". Exemplo.
"As assombrações chegavam feito o tropel de mil
cavalos." "Eram que nem pedras rolando pelas encostas,
onde os pés de café secavam após a geada."
Você pode também empregar metáforas, comparações
e linguagem figurada para embelezar seu texto e dar-lhe um
colorido especial. Exemplos:
"A noite era um manto negro e trêmulo. A fazenda
parecia um caldeirão fervente, prestes a explodir em preces
desesperadas."
Descrição de um cenário
Ao descrever um cenário, alterne cenas estáticas com
cenas dinâmicas, usando traços breves, mas precisos, sem
adjetivação ou advérbios ou alongar-se em considerações
desnecessárias. Exemplo:
"Animais imóveis no pasto, sombras por entre as
árvores do pomar, um cheiro de medo no ar. Uma criança
chora numa das casas, as folhas farfalham lá fora, o
pesadelo vai começar. A noite das assombrações havia
chegado."
Destacar um momento
Se quiser dar destaque e um determinado momento de
sua descrição, experimente pormenorizar a cena. Exemplo:
"No alto da árvore, a brisa sopra e um frágil caule
estala. A pequena folha seca oscila de um lado para outro,
resvala nos galhos, toca outras folhas e, leve como uma
pluma, desliza mansamente no ar até pousar na grama
orvalhada para ser esmagada repentinamente pelos cascos
de fogo da mula-sem-cabeça."
Dissonâncias, cacofonias
Muitas vezes, ao construir-se uma oração, o resultado
pode ser perfeito no papel, mas desastroso quando lido ou
pronunciado. Pequenos cuidados podem afastar esse tipo de
problema de suas redações, tornando-as elegantes e fáceis
de serem lidas e pronunciadas. Não se descartam, porém, o
seu uso consciente, quando o contexto assim o exigir.
Palavras com a mesma terminação. Exemplo: "O pão
escorregou de minha mão e caiu no chão, junto ao balcão."
Repetição de vogais. Exemplo: "Vai sair a aia da aula."
Repetição de consoantes. Exemplo: "O pai pediu pão
ao padeiro."
Duas ou mais palavras formando uma terceira de
sentido ou som desagradável. Exemplo: "Alguém poderia
fechar a boca dela?" Ou: "O custo de uma mão é alto demais
para ser avaliado."
Frases nominais
Para descrever de forma elegante, experimente usar
frases nominais, sem um verbo que indica ação. Exemplo:
"A noite, um tempo assustador. A floresta, um mundo
de ruídos impressionantes. O rio, um marulhar constante e
perturbador."
Harmonia
Na construção de um período é importante observar a
ordem natural dos pensamentos e as regras gramáticas.
Seguramente você jamais irá escrever "assustavam os
fantasmas com suas presenças constantes, nossas noites",
pondo o complemento tão distante do verbo. Melhor seria
"os fantasmas assustavam nossas noites com suas presenças
constantes". A isso chamamos harmonia e sua presença
força, naturalidade e expressividade e um texto. Uma boa
maneira de verificar se o texto é harmônio é lendo-o em voz
alta.
Humorismo
Um estilo leve e com uma pitada de humorismo pode
ser de grande efeito, desde que se evite a imoralidade e as
expressões pesadas ou chulas e se possa apresentar algo que
seja inédito. Incluir num texto uma piada "batida" ou muito
conhecida vai comprometê-lo.
Inversões
"Aos vencedores, pelos organizadores do evento
grandes recompensas prometidas foram."
Esta afirmação está construída usando o recurso da
ordem indireta, que é a inversão violenta ou forçada dos
termos da oração. Trata-se de um recurso arriscado e de
gosto duvidoso, nem sempre surtindo o resultado esperado.
Ao invés disso, é preferível a boa e tradicional ordem direta,
que, no exemplo acima, resultaria numa afirmação menos
pomposa, porém mais elegante.
"Grandes recompensas foram prometidas aos
vencedores pelos organizadores do evento."
Lugar comum
O lugar comum é o tempero do recheio da linguiça, a
expressão já pronta, acessível, fácil de ser usada e, por isso,
tentadora. Seu uso tira toda a elegância e a originalidade de
um texto, comprometendo o resultado. Nosso vocabulário é
rico e existem alternativas para fugir ao lugar comum,
bastando estar atento e fugir à tentação de usá-los.
Para verificar isso, releia suas redações anteriores,
procurando frases feitas e expressões estereotipadas, como
"políticos inescrupulosos", "grandiosa festividade",
"perseguidor implacável". Procure também situações como
"exalar o último suspiro", "encontra-se engalanado", "abriu
o coração", "tomar a resolução", "envolto num ar de puro
romantismo", "tradicional festa de fim de ano" e coisas
semelhante.
Se você padece desse mal, corrija-o fazendo duas
coisas: retire dessas expressões todos os adjetivos e
expressões adjetivas e terá um texto mais leve, elegante,
sem prejuízo algum do entendimento e da ideia inicial;
substitua expressões por um verbo. Ao invés de "abriu o
coração", por exemplo, confessou. Em lugar de "exalar o
último suspiro", use "morrer", "falecer" ou "finar".
Para completar o aprendizado deste item, fale com seus
amigos e iniciem uma disputa para ver quem consegue
anotar o maior número possível de lugares comuns. Feito
isso, apliquem as duas regras acima e transformem tudo isso
em pura originalidade.
Quer mais alguns exemplos?
inflação galopante
vitória esmagadora
esmagadora maioria
caixinha de surpresas
caloroso abraço
silêncio sepulcral
nos píncaros da glória
Opinião pessoal
Fuja à tentação de rechear seus textos com opiniões
pessoais, procurando expor suas ideias sem fazer
comentários, limitando-se a registrar os fatos. Se o texto
exigir uma opinião, faça-a fundamentada e jamais baseada
na emoção ou no "ouvi dizer". No vestibular, você será
avaliado pela capacidade de usar a língua e expor suas
ideias, jamais pelo brilhantismo de suas opiniões pessoais.
Verifique em suas últimas redações se não escreveu
algo parecido com "os políticos são todos desonestos" ou "o
governo não se importa com o povo", que refletem emoção,
mas carecem de uma fundamentação sólida para ser
validada. Nesse mesmo tema, evite generalizações. No
exemplo acima, afirmar que "todos os políticos são
desonestos" é, no mínimo, falso, pois certamente haverá
pelo menos um que é honesto.
Opiniões contrárias
Se pretende apresentar opiniões ou ideias contrárias,
trate-as em parágrafos separados. Comente a primeira,
depois inicie o segundo parágrafo usando uma conjunção
adversativa. Exemplo:
"Lá fora, tudo era liberdade e as assombrações corriam
soltas pelos pastos, por entre os cafezais ressequidos e no
velho pomar. Mas, dentro das casas, tudo era silêncio e
opressão..."
Ordem inversa
A ordem natural dos termos da oração é sujeito, verbo,
complemento e adjuntos adverbiais. Observar isso é
produzir um texto elegante sem comprometê-lo. Em
determinadas ocasiões, porém, pode ser necessário valorizar
um elemento e, nesses casos, uma das formas de fazê-lo e
tirando-o da ordem natural e colocando-o no início da
oração. Veja como isso funciona, nos exemplos a seguir:
"A mãe calou-o com um severo movimento da mão
que segurava o chinelo."
Comparado a:
"Com um severo movimento da mão que segurava o
chinelo, a mãe calou-o."
Palavras certas
Muita gente acaba se confundindo ao escrever, pois
tenta utilizar um vocabulário que desconhece, recheando sua
composição com palavras difíceis, tornando-a ininteligível.
Um segredo simples para evitar isso é jamais utilizar num
texto uma palavra que não tenha coragem de usar numa
conversa informal. Além disso, jamais hesite em consultar o
dicionário, onde estão as respostas definitivas para todas as
suas dúvidas.
Ao confundir "tráfego" com "tráfico", "conserto" com
"concerto" ou "acento" com "assento" você pode prejudicar
toda o entendimento de uma ideia. Evite sempre
demonstrações de erudição, arcaísmos ou o uso de
expressões e nomes científicos, a menos que sejam
absolutamente necessários. Já frases ou expressões em
língua estrangeira, neologismos e citações em latim,
somente com autorização do bispo.
Se estiver falando do "sol", diga "sol" mesmo, "estrela"
ou qualquer outro termo adequado, fugindo à tentação de
usar apelidos, como "astro-rei".
Períodos longos
É bem possível que você já tenha deixado de ler um
livro simplesmente porque ele lhe parecia muito
complicado. Há livros que, em verdade, parecem exigir uma
"tradução" para serem entendidos. Isso acaba afastando o
leitor e desestimulando a leitura. Se você se lembra de
alguns livros assim, com certeza eles têm uma característica
em comum: os períodos muito longos, tornando o
entendimento difícil e provocando confusão. Fuja desse erro
comum. A elegância e a simplicidade dos períodos curtos
facilitam seu trabalho, pois são fáceis de serem compostos,
escritos, pontuados e entendidos.
Confirme isso pesquisando e comparando, numa
biblioteca, livros diferentes, observando este detalhe com
atenção, tirando suas próprias conclusões.
Quando escrever, fique atento para fugir à tentação de
usar advérbios e conjunções. Revise seus textos, retirando
todos os "ora, logo, entretanto, contudo, efetivamente, por
outro lado, de fato, certamente, assim, pois" e outros
semelhantes.
Personificação
Ao descrever a natureza, procure dar vida às coisas,
personificando-as. Isso acrescenta vigor e vivacidade a sua
descrição. Exemplo:
"A noite chorava o lamento dos desesperados. A terra
se encolhia de medo e as árvores emudeciam no pomar."
Pessoas falando ao mesmo tempo
Para dar a impressão de várias pessoas falando ao
mesmo tempo, empregue uma sequencia de frases
acumuladas. Exemplo:
"Quando tudo começou, ninguém mais se entendia e
todos falavam ao mesmo tempo: Alguém ponha um fim
nisso. É o fim do mundo. Quem poderá nos ajudar? Onde
estão as velas bentas? Onde está meu rosário? Alguém viu a
minha bíblia?"
Pleonasmos
Este é um problema muito sério, porque decorre de um
vício de linguagem muito comum. Seu uso, além de tirar
toda a beleza de um texto, prejudica a concisão e tem sua
origem num vocabulário pobre e pouco exercitado. O
melhor remédio para curar-se deles é a leitura e a revisão
atenta e constante de tudo que escrever, automatizando o
sentido das palavras. Eliminar adjetivos e advérbios
desnecessários é também uma boa medida.
Os exemplos são muitos. Quer alguns: "subir para
cima, descer para baixo, entrar para dentro, sair para fora,
deferimento favorável, ver com os olhos, comer com a boca,
dividir em duas metades, um duo de dois, um par de dois, a
mim me parece, a ele nada lhe direi" e muitos outros.
Quer se divertir? Reúna-se com seus amigos de
vestibular e organizem uma lista de pleonasmos. Depois,
para encerrar, criem alternativas para corrigi-los.
Pontuação
Este é um ingrediente importante em qualquer
composição, pois seu mau uso pode comprometer o sentido.
Há muitos exemplos disso, mas este é um dos mais
eloquentes. No período a seguir, a posição da vírgula pode
determinar o destino do prisioneiro:
"Matem o prisioneiro, não tenham piedade" significa a
morte.
"Matem o prisioneiro não, tenham piedade" significa a
vida.
Numa redação, principalmente no vestibular, tenha em
mente que, para ser elegante, conciso, claro e objetivo você
só precisa conhecer mais profundamente a utilização da
vírgula. Ponto final, pontos de exclamação e de
interrogação, reticências, travessão e outros são de uso
automático.
Alguns deles podem e devem mesmo ser evitados, pois
nada acrescentam ao desenvolvimento da composição, como
o ponto de exclamação e as reticências.
Este é um assunto que você pode estudar mais
detalhadamente e consultar sempre que necessário para tirar
suas dúvidas no Apêndice deste livro, à página 192.
Apenas para adiantar, podemos dizer o seguinte a
respeito dos principais sinais de pontuação:
Vírgula — sinal de pontuação que marca uma pausa
de curta duração ou separa termos de uma oração ou orações
de um período. A ordem normal dos termos numa frase é
sujeito, verbo, complementos. Essa ordem é chamada ordem
natural ou ordem direta. Quando a frase é escrita em ordem
direta, não separamos seus termos imediatos e por isso pode
haver vírgula entre o sujeito e o verbo, nem entre o verbo e
complemento. Esta só é usada quando usamos a ordem
indireta, o que ocorre basicamente em dois casos: ao
intercalarmos uma palavra ou expressão entre os termos
imediatos, quebrando a sequencia natural da frase ou
quando algum termo, principalmente o complemento, surgir
deslocado de seu lugar natural na frase.
Ponto-e-Vírgula — marca uma pausa maior que a
vírgula, sendo utilizado para separar orações coordenadas
que já apresentem vírgula em seu interior ou que tenham
certa extensão. Nunca pode ser usado dentro de uma oração,
pois serve justamente para separar uma oração de outra.
Dois-Pontos — usa-se quando se vai iniciar uma
sequencia que explica, identifica, discrimina ou desenvolve
uma ideia anterior ou quando se quer dar início a uma fala
ou citação.
Aspas — utilizadas para isolar citação textual colhida
de outrem, palavras ou expressões que não pertençam à
língua culta, como gírias, estrangeirismos e neologismos.
Travessão — serve principalmente para indicar que
alguém fala de viva voz, no discurso direto e é usado em
textos narrativos em que os personagens dialogam. Pode ser
usado para substituir a vírgula dupla quando se quer dar
ênfase ao termo intercalado.
Reticências — marcam uma interrupção da sequencia
lógica do enunciado, deixando ao leitor a responsabilidade
de complementar o pensamento suspenso. Não devem ser
usadas nas dissertações objetivas, que exige clareza e
objetividade na exposição.
Pormenores
A representação de um texto que considero das
melhores ainda é o de uma construção. Você tem que ter um
alicerce sólido, boa argamassa unido os tijolos e uma
cobertura condizente, para que o conjunto seja perfeito e
útil. Num texto, tudo o que não for importante e
indispensável deve ser evitado. O detalhamento de uma
situação ou de uma descrição apenas servirá para alongar a
composição e pouco reflexo terá no resultado final.
Para exemplificar isso, nada melhor que fazer um
exercício de memória agora e lembrar-se daquele amigo ou
daquela amiga que, quando conta alguma coisa, retorna no
tempo, no princípio de tudo e vai narrando todos os
detalhes, até chegar ao fato em si.
Além disso, você deve conhecer alguém que seja tido
como um "desmancha-rodinhas", pois quando entra na
conversa, todos se afastam, porque sabem que sua paciência
será testada ao limite.
Preocupação com a forma
Uma das maiores fontes de bloqueio para quem escreve
é, sem dúvida, a preocupação com a forma que, muitas
vezes, acaba comprometendo todo o resultado do trabalho,
pois limita o pensamento e prejudica o desenvolvimento das
ideias. Ao escrever, concentre-se inicialmente em expor seu
pensamento da forma mais clara, simples, concisa e
elegante. Depois de pronto o texto, dê o acabamento,
atendo-se aos aspectos formais, como pontuação, ortografia,
regência, concordância e outros, indo ao dicionário e à
gramática tantas vezes quantas forem necessárias. Com a
prática, verá que os aspectos formais são automaticamente
incorporados e a cada vez você precisa consultar menos a
sua gramática e o seu dicionário.
Projeto de Redação
Faça um projeto de redação, criando uma sequencia,
como no seguinte exemplo de uma descrição, em que cada
uma das partes sugeridas ocupará um parágrafo.
Descrição da natureza
Introdução de uma personagem
Relação da personagem com a natureza
Descrição da personagem
Conclusão
Que
Esta palavrinha pequena e muito útil, quando
corretamente utilizada, pode vir a ser um transtorno,
comprometendo sua redação. Cuide-se, procurando
substituir seu emprego por alternativas mais elegantes e
significativas. Vejamos alguns exemplos disso:
Orações adjetivas. Ao invés de "uma roupa que estava
cheia de buracos", use "uma roupa cheia de buracos."
Repetições. Em lugar de "a mulher que chegou e que
trouxe a novidade", use "a mulher que chegou e trouxe a
novidade."
Verbos. Use "gritou ser urgente" em lugar de "gritou
que era urgente."
Rapidez
Para dar rapidez a uma descrição, utilize verbos sem
repetir o sujeito e em sequencia. Exemplo:
"E a hora das assombrações. Vêm, correm, atravessam
o rio, batem as porteiras, assobiam nos telhados, estalam a
madeira seca das paredes e arrancam orações apressadas de
cabeças cobertas na escuridão."
Esta mesma técnica pode ser usada para transmitir a
ideia de variedade de ações ou multiplicidade. Exemplo:
"Ouvia-se todo tipo de barulho, o tropel dos cascos que
arrancavam fagulhas das pedras, os urros longos dos
lobisomens, o coro de gritos dos sacis, o ranger das paredes,
o assobiar das frestas..."
Sequência de fatos
A repetição de conjunções, em frases curtas e
coordenadas, pode ser usada para transmitir uma noção de
uma sequencia de fatos rápidos. Exemplo:
"E gritam, e uivam, e arrastam correntes, e quebram
galhos, e pisam folhas secas..."
Você pode usar também os pronomes "um", "outro",
"algum", "nenhum" para estabelecer uma ordem ou uma
sequência. Exemplo:
"Um rezava o Pai Nosso, outro puxava uma ladainha e
alguns até desencavavam velhas orações contra encosto.
Nenhum, porém, deixava de se apegar ao seu santo como
última e única proteção."
Síndrome geográfico-atmosférica
Há textos em que as condições climáticas e geográficas
recebem um grande destaque, um destaque tão grande que
ocupam todo o espaço, não deixando muito para o
desenvolvimento do assunto. É mais um componente do
"enchimento de linguiça" que deve ser evitado.
"Era manhã. O orvalho primaveril ainda umedecia as
graciosas pétalas das flores, rebrilhando aos primeiros raios
do som nascente. Pássaros cantavam nas árvores frondosas
e, ao longe, nas colinas pontiagudas, graciosas nuvens
bailavam, saudando a chegada de um novo dia."
Tudo isso poderia ser resumido em algo mais ou menos
parecido com "Amanhecia", que é o que realmente
interessa.
Sinonímia
Com certeza vai acontecer de, num determinado
momento de sua composição, você necessitar repetir uma
palavra. Faça-o com naturalidade, sem tentar buscar
sinônimos e sem violentar o pensamento que tenta
transmitir. Se um sinônimo for adequado, use-o sem receio,
mas não faça disso uma preocupação.
Transições
Transições são passagens de ligação — frases ou
locuções, — que guiam o espírito do leitor de um
pensamento ou de um desenvolvimento a outro, dando nexo
à composição. Quando os pensamentos têm uma ligação
necessária, são fáceis as transições, porque os primeiros são
fontes dos segundos e este o desenvolvimento daqueles.
Mas, numa longa composição, são mais difíceis, porquanto
as relações entre as ideias são mais longínquas e abrem-se
intervalos na ordem dos pensamentos. Isto, por si só, é uma
recomendação para que se evite redações longas. Quando
estas relações se tornam de tal modo remotas que há nelas
incoerência e disparate, nada poderá ligar tais ideias.
Quaisquer transições, são, neste caso, esquisitas e ridículas.
Por isso, algumas regras devem ser seguidas:
1- Não substituir as transições, no encadeamento dos
parágrafos, por divisões ou subdivisões como 1, 2, 3, A, B,
C ou a), b), c).
2 - Não iniciar os parágrafos e os períodos pela mesma
palavra, expressão, locução ou conjunção, a menos que isso
tenha um bem planejado objetivo.
3 - Não antecipar, na transição, o que vai ser dito à
frente ou o que se pretende fazer ou aonde se quer chegar.
4 - Evitar marcar a transição ou o novo parágrafo com
expressões ou palavras sem necessidade, como: Ainda
mais... Não só... Mas também... Mas... Com efeito...
Entretanto... Na verdade... Falemos agora... Continuai a
ouvir-me... e outras.
À medida que se acompanha a evolução das ideias
numa composição, é importante que esse progresso seja
marcado visualmente e este é o objetivo do uso dos
parágrafos ou das alíneas. Aliás, a palavra alínea é derivada
do latim a + línea, que significa passe a outra linha. Cada
alínea ou parágrafo encerra um pensamento que pode ser
expresso por uma oração, por um período ou por muitas
orações e por vários períodos.
Emprega, portanto, o parágrafo cada vez que se passa
de uma ideia importante para outra. Isso ocorre notadamente
no corpo ou no desenvolvimento da redação, uma vez que a
introdução e a conclusão, por não encerrarem ideias muito
distantes e por serem de pequena extensão, não exigem
nenhuma alínea.
10 Regras Simples Para Uma Boa Redação
O trabalho a seguir foi elaborado por D. Roberts, um
escritor americano e é muito útil para compararmos quais
são as preocupações de um americano ao escrever, em
relação às nossas e fazem parte de seu seminário "10
REGRAS PARA UMA BOA REDAÇÃO". Segundo ele,
uma boa redação depende de um entendimento sólido de
gramáticas e das regras para composição que são as
seguintes.
1. Prefira a descrição simples à elegante:
— Ela era bochechuda, com mãos pequenas e pálidas.
— Ela era como um anjo barroco, com mãos diminutas
e incolores.
2. Prefira a palavra familiar ao exótico:
— Ele segurou o frasco de vinho negligentemente.
— Ele segurou a ampola negligentemente.
3. Prefira um estilo de escrita direto ao estilo
romântico:
— O beijo dele era terno.
— Os lábios dele, fazendo beicinho, roçaram com
suavidade a boca da jovem.
Observação: A menos que você esteja escrevendo um
romance, use descrições curtas.
4. Prefira substantivos e verbos a adjetivos e
advérbios:
— Ao pendurar o quadro acima da escrivaninha, ela
pensa em Walter.
— Enquanto pendura a pintura pitoresca no alto, acima
da escrivaninha vermelha envernizada, ela sente seu coração
transbordar apaixonado, pensando em Walter.
5. Use substantivos sem adjetivação e verbos de
ação:
— Era um dia de verão, mas debaixo do guarda-chuva
Jonathan Adams podia se resguardar do calor.
— Aquele agosto estava particularmente quente, mas
debaixo do guarda-chuva listado de azul e branco que cobria
Jonathan Adams, o calor se tornou menos intolerável.
6. Nunca use uma palavra longa quando um
pequeno fará como bem:
— "Era uma missiva para mim, Watson".
— "Era uma carta para mim, Watson".
7. Busque a originalidade na metáfora simples:
— Ele era duro como um ano na prisão.
— O fim era liso como madeira flutuante.
8. Prefira o período simples ao período composto:
— A produção de comida do mundo pode ser
aumentada com o uso de substâncias químicas comuns.
— A forma de aumentar a produção de comida do
mundo, nas mesmas áreas medida em acres utilizadas
atualmente, é com a aplicação de substâncias químicas
relativamente baratas, mas que podem ser maciçamente
produzidas nas fábricas.
9. Divida um período em orações menores.
— O Presidente chamou o conselheiro dele. Discutiram
as opções para a crise estrangeira. Eram todas difíceis e
arriscadas.
— O Presidente chamou o conselheiro dele para
discutir as opções que tinham para solucionar a crise
estrangeira, mas todas elas eram muito difíceis e arriscadas.
10. Use a voz ativa.
— O Congresso fixou os limites orçamentários.
— Os limites orçamentários foram fixados pelo
Congresso.
Como complemento, leia no Apêndice, à página 294,
sobre Vícios de Linguagem.
APÊNDICE
ERROS MAIS COMUNS
Erros gramaticais e ortográficos devem, por princípio,
ser evitados. Alguns, no entanto, como ocorrem com maior
frequência, merecem atenção redobrada. Veja os mais
comuns e use esta relação como um roteiro para fugir deles.
"Aluga-se" casas. O verbo concorda com o sujeito:
Alugam-se casas. / Fazem-se consertos. / É assim que se
evitam acidentes. / Compram-se terrenos. / Procuram-se
empregados.
"Ao meu ver". Não existe artigo nessas expressões: A
meu ver, a seu ver, a nosso ver.
"Causou-me" estranheza as palavras. Use o certo:
Causaram-me estranheza as palavras. Cuidado, pois é
comum o erro de concordância quando o verbo está antes do
sujeito. Veja outro exemplo: Foram iniciadas esta noite as
obras (e não "foi iniciado" esta noite as obras).
"Cerca de 18" pessoas o saudaram. Cerca de indica
arredondamento e não pode aparecer com números exatos:
Cerca de 20 pessoas o saudaram.
"Dado" os índices das pesquisas... A concordância é
normal: Dados os índices das pesquisas... / Dado o
resultado... / Dadas as suas ideias...
"Entrar dentro". O certo: entrar em. Veja outras
redundâncias: Sair fora ou para fora, elo de ligação,
monopólio exclusivo, já não há mais, ganhar grátis, viúva
do falecido.
"Existe" muitas esperanças. Existir, bastar, faltar,
restar e sobrar admitem normalmente o plural: Existem
muitas esperanças. / Bastariam dois dias. / Faltavam poucas
peças. / Restaram alguns objetos. / Sobravam ideias.
"Fazem" cinco anos. Fazer, quando exprime tempo, é
impessoal: Faz cinco anos. / Fazia dois séculos. / Fez 15
dias.
"Fica" você comigo. Fica é imperativo do pronome tu.
Para a 3.ª pessoa, o certo é fique: Fique você comigo. /
Venha pra Caixa você também. / Chegue aqui.
"Há" dez anos "atrás". Há e atrás indicam passado
na frase. Use apenas há dez anos ou dez anos atrás.
"Haja visto" seu empenho... A expressão é haja vista
e não varia: Haja vista seu empenho. / Haja vista seus
esforços. / Haja vista suas críticas.
"Houveram" muitos acidentes. Haver, como existir,
também é invariável: Houve muitos acidentes. / Havia
muitas pessoas. / Deve haver muitos casos iguais.
"Inflingiu" o regulamento. Infringir é que significa
transgredir: Infringiu o regulamento. Infligir (e não
"inflingir") significa impor: Infligiu séria punição ao réu.
"Mal cheiro", "mau-humorado". Mal se opõe a bem
e mau, a bom. Assim: mau cheiro (bom cheiro), malhumorado (bem-humorado). Igualmente: mau humor, malintencionado, mau jeito, mal-estar.
"Obrigado", disse a moça. Obrigado concorda com a
pessoa: "Obrigada", disse a moça. / Obrigado pela atenção. /
Muito obrigados por tudo.
"Porisso". Duas palavras, por isso, como de repente e
a partir de.
"Porque" você foi? Sempre que estiver clara ou
implícita a palavra razão, use por que separado: Por que
(razão) você foi? / Não sei por que (razão) ele faltou. /
Explique por que razão você se atrasou. Porque é usado nas
respostas: Ele se atrasou porque o trânsito estava
congestionado.
"Todos" amigos o elogiavam. No plural, todos exige
os: Todos os amigos o elogiavam. / Era difícil apontar todas
as contradições do texto.
"Tratam-se" de. O verbo seguido de preposição não
varia nesses casos: Trata-se dos melhores profissionais. /
Precisa-se de empregados. / Apela-se para todos. / Conta-se
com os amigos.
"Venda à prazo". Não existe crase antes de palavra
masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda:
Salto à (moda de) Luís XV. Nos demais casos: A salvo, a
bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.
A artista "deu à luz a" gêmeos. A expressão é dar à
luz, apenas: A artista deu à luz quíntuplos. Também é errado
dizer: Deu "a luz a" gêmeos.
A corrida custa 5 "real". A moeda tem plural, e
regular: A corrida custa 5 reais.
A feira "inicia" amanhã. Alguma coisa se inicia, se
inaugura: A feira inicia-se (inaugura-se) amanhã.
A festa começa às 8 "hrs." As abreviaturas do sistema
métrico decimal não têm plural nem ponto. Assim: 8 h, 2
km (e não "kms."), 5 m, 10 kg.
À medida "em" que a epidemia se espalhava... O
certo é: À medida que a epidemia se espalhava... Existe
ainda na medida em que (tendo em vista que): É preciso
cumprir as leis, na medida em que elas existem.
A moça "que ele gosta". Como se gosta de, o certo é:
A moça de que ele gosta. Igualmente: O dinheiro de que
dispõe, o filme a que assistiu (e não que assistiu), a prova de
que participou, o amigo a que se referiu, etc.
A moça estava ali "há" muito tempo. Haver
concorda com estava. Portanto: A moça estava ali havia
(fazia) muito tempo. / Ele doara sangue ao filho havia
(fazia) poucos meses. / Estava sem dormir havia (fazia) três
meses. (O havia se impõe quando o verbo está no imperfeito
e no mais-que-perfeito do indicativo.)
A modelo "pousou" o dia todo. Modelo posa (de
pose). Quem pousa é ave, avião, viajante, etc. Não confunda
também iminente (prestes a acontecer) com eminente
(ilustre). Nem tráfico (contrabando) com tráfego (trânsito).
A promoção veio "de encontro aos" seus desejos.
Ao encontro de é que expressa uma situação favorável: A
promoção veio ao encontro dos seus desejos. De encontro a
significa condição contrária: A queda do nível dos salários
foi de encontro às (foi contra) expectativas da categoria.
A questão não tem nada "haver" com você. A
questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da
mesma forma: Tem tudo a ver com você.
A realidade das pessoas "podem" mudar. Cuidado:
palavra próxima ao verbo não deve influir na concordância.
Por isso: A realidade das pessoas pode mudar. / A troca de
agressões entre os funcionários foi punida (e não "foram
punidas").
A temperatura chegou a 0 "graus". Zero indica
singular sempre: Zero grau, zero quilômetro, zero hora.
A tese "onde"... Onde só pode ser usado para lugar: A
casa onde ele mora. / Veja o jardim onde as crianças
brincam. Nos demais casos, use em que: A tese em que ele
defende essa ideia. / O livro em que... / A faixa em que ele
canta... / Na entrevista em que...
A última "seção" de cinema. Seção significa divisão,
repartição, e sessão equivale a tempo de uma reunião,
função: Seção Eleitoral, Seção de Esportes, seção de
brinquedos; sessão de cinema, sessão de pancadas, sessão
do Congresso.
Acordos "políticos-partidários". Nos adjetivos
compostos, só o último elemento varia: acordos político-
partidários. Outros exemplos: Bandeiras verde-amarelas,
medidas econômico-financeiras, partidos social-democratas.
Andou por "todo" país. Todo o (ou a) é que significa
inteiro: Andou por todo o país (pelo país inteiro). / Toda a
tripulação (a tripulação inteira) foi demitida. Sem o, todo
quer dizer cada, qualquer: Todo homem (cada homem) é
mortal. / Toda nação (qualquer nação) tem inimigos.
As pessoas "esperavam-o". Quando o verbo termina
em m, ão ou õe, os pronomes o, a, os e as tomam a forma
no, na, nos e nas: As pessoas esperavam-no. / Dão-nos,
convidam-na, põe-nos, impõem-nos.
Atraso implicará "em" punição. Implicar é direto no
sentido de acarretar, pressupor: Atraso implicará punição. /
Promoção implica responsabilidade.
Blusa "em" seda. Usa-se de, e não em, para definir o
material de que alguma coisa é feita: Blusa de seda, casa de
alvenaria, medalha de prata, estátua de madeira.
Chamei-o e "o mesmo" não atendeu. Não se pode
empregar o mesmo no lugar de pronome ou substantivo:
Chamei-o e ele não atendeu. / Os funcionários públicos
reuniram-se hoje: amanhã o país conhecerá a decisão dos
servidores (e não "dos mesmos").
Chegou "a" duas horas e partirá daqui "há" cinco
minutos. Há indica passado e equivale a faz, enquanto a
exprime distância ou tempo futuro (não pode ser substituído
por faz): Chegou há (faz) duas horas e partirá daqui a
(tempo futuro) cinco minutos. / O atirador estava a
(distância) pouco menos de 12 metros. / Ele partiu há (faz)
pouco menos de dez dias.
Chegou "em" São Paulo. Verbos de movimento
exigem a, e não em: Chegou a São Paulo. / Vai amanhã ao
cinema. / Levou os filhos ao circo.
Comeu frango "ao invés de" peixe. Em vez de indica
substituição: Comeu frango em vez de peixe. Ao invés de
significa apenas ao contrário: Ao invés de entrar, saiu.
Comprei "ele" para você. Eu, tu, ele, nós, vós e eles
não podem ser objeto direto. Assim: Comprei-o para você.
Também: Deixe-os sair, mandou-nos entrar, viu-a, mandoume.
Comprou uma TV "a cores". Veja o correto:
Comprou uma TV em cores (não se diz TV "a" preto e
branco). Da mesma forma: Transmissão em cores, desenho
em cores.
Disse o que "quiz". Não existe z, mas apenas s, nas
pessoas de querer e pôr: Quis, quisesse, quiseram,
quiséssemos; pôs, pus, pusesse, puseram, puséssemos.
É hora "dele" chegar. Não se deve fazer a contração
da preposição com artigo ou pronome, nos casos seguidos
de infinitivo: É hora de ele chegar. / Apesar de o amigo tê-lo
convidado... / Depois de esses fatos terem ocorrido...
Ela "mesmo" arrumou a sala. Mesmo, quanto
equivale a próprio, é variável: Ela mesma (própria) arrumou
a sala. / As vítimas mesmas recorreram à polícia.
Ela era "meia" louca. Meio, advérbio, não varia:
meio louca, meio esperta, meio amiga.
Ele "intermedia" a negociação. Mediar e intermediar
conjugam-se como odiar: Ele intermedeia (ou medeia) a
negociação. Remediar, ansiar e incendiar também seguem
essa norma: Remedeiam, que eles anseiem, incendeio.
Ele foi um dos que "chegou" antes. Um dos que faz a
concordância no plural: Ele foi um dos que chegaram antes
(dos que chegaram antes, ele foi um). / Era um dos que
sempre vibravam com a vitória.
Eles "tem" razão. No plural, têm é assim, com acento.
Tem é a forma do singular. O mesmo ocorre com vem e
vêm e põe e põem: Ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm; ele
põe, eles põem.
Entre "eu" e você. Depois de preposição, usa-se mim
ou ti: Entre mim e você. / Entre eles e ti.
Espero que "viagem" hoje. Viagem, com g, é o
substantivo: Minha viagem. A forma verbal é viajem (de
viajar): Espero que viajem hoje. Evite também
"comprimentar" alguém: de cumprimento (saudação), só
pode resultar cumprimentar. Comprimento é extensão.
Igualmente: Comprido (extenso) e cumprido (concretizado).
Estávamos "em" quatro à mesa. O em não existe:
Estávamos quatro à mesa. / Éramos seis. / Ficamos cinco na
sala.
Evite que a bomba "expluda". Explodir só tem as
pessoas em que depois do d vêm e e i: Explode, explodiram,
etc. Portanto, não escreva nem fale "exploda" ou "expluda",
substituindo essas formas por rebente, por exemplo.
Precaver-se também não se conjuga em todas as pessoas.
Assim, não existem as formas "precavejo", "precavês",
"precavém", "precavenho", "precavenha", "precaveja", etc.
Favoreceu "ao" time da casa. Favorecer, nesse
sentido, rejeita a: Favoreceu o time da casa. / A decisão
favoreceu os jogadores.
Ficou "sobre" a mira do assaltante. Sob é que
significa debaixo de: Ficou sob a mira do assaltante. /
Escondeu-se sob a cama. Sobre equivale a em cima de ou a
respeito de: Estava sobre o telhado. / Falou sobre a inflação.
E lembre-se: O animal ou o piano têm cauda e o doce, calda.
Da mesma forma, alguém traz alguma coisa e alguém vai
para trás.
Ficou contente "por causa que" ninguém se feriu.
Embora popular, a locução não existe. Use porque: Ficou
contente porque ninguém se feriu.
Foi "taxado" de ladrão. Tachar é que significa
acusar: Foi tachado de ladrão. / Foi tachado de leviano.
Governo "reavê" confiança. Equivalente: Governo
recupera confiança. Reaver segue haver, mas apenas nos
casos em que este tem a letra v: Reavemos, reouve, reaverá,
reouvesse. Por isso, não existem "reavejo", "reavê", etc.
Já "é" 8 horas. Horas e as demais palavras que
definem tempo variam: Já são 8 horas. / Já é (e não "são") 1
hora, já é meio-dia, já é meia-noite.
Já "foi comunicado" da decisão. Uma decisão é
comunicada, mas ninguém "é comunicado" de alguma coisa.
Assim: Já foi informado (cientificado, avisado) da decisão.
Outra forma errada: A diretoria "comunicou" os empregados
da decisão. Opções corretas: A diretoria comunicou a
decisão aos empregados. / A decisão foi comunicada aos
empregados.
Lute pelo "meio-ambiente". Meio ambiente não tem
hífen, nem hora extra, ponto de vista, mala direta, pronta
entrega, etc. O sinal aparece, porém, em mão-de-obra,
matéria-prima, infra-estrutura, primeira-dama, vale-refeição,
meio-de-campo, etc.
Ministro nega que "é" negligente. Negar que
introduz subjuntivo, assim como embora e talvez: Ministro
nega que seja negligente. / O jogador negou que tivesse
cometido a falta. / Ele talvez o convide para a festa. /
Embora tente negar, vai deixar a empresa.
Não "se o" diz. É errado juntar o se com os pronomes
o, a, os e as. Assim, nunca use: Fazendo-se-os, não se o diz
(não se diz isso), vê-se-a, etc.
Não há regra sem "excessão". O certo é exceção.
Veja outras grafias erradas e, entre parênteses, a forma
correta: "paralizar" (paralisar), "beneficiente" (beneficente),
"xuxu" (chuchu), "previlégio" (privilégio), "vultuoso"
(vultoso), "cincoenta" (cinqüenta), "zuar" (zoar), "frustado"
(frustrado), "calcáreo" (calcário), "advinhar" (adivinhar),
"benvindo" (bem-vindo), "ascenção" (ascensão), "pixar"
(pichar), "impecilho" (empecilho), "envólucro" (invólucro).
Não queria que "receiassem" a sua companhia. O i
não existe: Não queria que receassem a sua companhia. Da
mesma forma: passeemos, enfearam, ceaste, receeis (só
existe i quando o acento cai no e que precede a terminação
ear: receiem, passeias, enfeiam).
Não sabiam "aonde" ele estava. O certo: Não sabiam
onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento,
apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?
Não viu "qualquer" risco. É nenhum, e não
"qualquer", que se emprega depois de negativas: Não viu
nenhum risco. / Ninguém lhe fez nenhum reparo. / Nunca
promoveu nenhuma confusão.
Ninguém se "adequa". Não existem as formas
"adequa", "adeque", etc., mas apenas aquelas em que o
acento cai no a ou o: adequaram, adequou, adequasse, etc.
Nunca "lhe" vi. Lhe substitui a ele, a eles, a você e a
vocês e por isso não pode ser usado com objeto direto:
Nunca o vi. / Não o convidei. / A mulher o deixou. / Ela o
ama.
O fato passou "desapercebido". Na verdade, o fato
passou despercebido, não foi notado. Desapercebido
significa desprevenido.
O governo "interviu". Intervir conjuga-se como vir.
Assim: O governo interveio. Da mesma forma: intervinha,
intervim, interviemos, intervieram. Outros verbos derivados:
entretinha, mantivesse, reteve, pressupusesse, predisse,
conviesse, perfizera, entrevimos, condisser, etc.
O homem "possue" muitos bens. O certo: O homem
possui muitos bens. Verbos em uir só têm a terminação ui:
Inclui, atribui, polui. Verbos em uar é que admitem ue:
Continue, recue, atue, atenue.
O ingresso é "gratuíto". A pronúncia correta é
gratúito, assim como circúito, intúito e fortúito (o acento
não existe e só indica a letra tônica). Da mesma forma:
flúido, condôr, recórde, aváro, ibéro, pólipo.
O pai "sequer" foi avisado. Sequer deve ser usado
com negativa: O pai nem sequer foi avisado. / Não disse
sequer o que pretendia. / Partiu sem sequer nos avisar.
O peixe tem muito "espinho". Peixe tem espinha.
Veja outras confusões desse tipo: O "fuzil" (fusível)
queimou. / Casa "germinada" (geminada), "ciclo" (círculo)
vicioso, "cabeçario" (cabeçalho).
O processo deu entrada "junto ao" STF. Processo
dá entrada no STF. Igualmente: O jogador foi contratado do
(e não "junto ao") Guarani. / Cresceu muito o prestígio do
jornal entre os (e não "junto aos") leitores. / Era grande a
sua dívida com o (e não "junto ao") banco. / A reclamação
foi apresentada ao (e não "junto ao") PROCON.
O resultado do jogo, não o abateu. Não se separa
com vírgula o sujeito do predicado. Assim: O resultado do
jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas
denúncias. Não existe o sinal entre o predicado e o
complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.
O time empatou "em" 2 a 2. A preposição é por: O
time empatou por 2 a 2. Repare que ele ganha por e perde
por. Da mesma forma: empate por.
Para "mim" fazer. Mim não faz, porque não pode ser
sujeito. Assim: Para eu fazer, para eu dizer, para eu trazer.
Preferia ir "do que" ficar. Prefere-se sempre uma
coisa a outra: Preferia ir a ficar. É preferível segue a mesma
norma: É preferível lutar a morrer sem glória.
Quebrou "o" óculos. Concordância no plural: os
óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns,
meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.
Queria namorar "com" a colega. O com não existe:
Queria namorar a colega.
Se eu "ver" você por aí... O certo é: Se eu vir, revir,
previr. Da mesma forma: Se eu vier (de vir), convier; se eu
tiver (de ter), mantiver; se ele puser (de pôr), impuser; se ele
fizer (de fazer), desfizer; se nós dissermos (de dizer),
predissermos.
Sentou "na" mesa para comer. Sentar-se (ou sentar)
em é sentar-se em cima de. Veja o certo: Sentou-se à mesa
para comer. / Sentou ao piano, à máquina, ao computador.
Soube que os homens "feriram-se". O que atrai o
pronome: Soube que os homens se feriram. / A festa que se
realizou... O mesmo ocorre com as negativas, as conjunções
subordinativas e os advérbios: Não lhe diga nada. / Nenhum
dos presentes se pronunciou. / Quando se falava no
assunto... / Como as pessoas lhe haviam dito... / Aqui se faz,
aqui se paga. / Depois o procuro.
Tinha "chego" atrasado. "Chego" não existe. O
certo: Tinha chegado atrasado.
Todos somos "cidadões". O plural de cidadão é
cidadãos. Veja outros: caracteres (de caráter), juniores,
seniores, escrivães, tabeliães, gângsteres.
Tons "pastéis" predominam. Nome de cor, quando
expresso por substantivo, não varia: Tons pastel, blusas
rosa, gravatas cinza, camisas creme. No caso de adjetivo, o
plural é o normal: Ternos azuis, canetas pretas, fitas
amarelas.
Vai assistir "o" jogo hoje. Assistir como presenciar
exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros
verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à
população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. /
Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. /
Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos
estudantes.
Vendeu "uma" grama de ouro. Grama, peso, é
palavra masculina: um grama de ouro, vitamina C de dois
gramas. Femininas, por exemplo, são a agravante, a
atenuante, a alface, a cal, etc.
Venha "por" a roupa. Pôr, verbo, tem acento
diferencial: Venha pôr a roupa. O mesmo ocorre com pôde
(passado): Não pôde vir.
Vive "às custas" do pai. O certo: Vive à custa do pai.
Use também em via de, e não "em vias de": Espécie em via
de extinção. / Trabalho em via de conclusão.
Vocês "fariam-lhe" um favor? Não se usa pronome
átono (me, te, se, lhe, nos, vos, lhes) depois de futuro do
presente, futuro do pretérito (antigo condicional) ou
particípio. Assim: Vocês lhe fariam (ou far-lhe-iam) um
favor? / Ele se imporá pelos conhecimentos (e nunca
"imporá-se"). / Os amigos nos darão (e não "darão-nos") um
presente. / Tendo-me formado (e nunca tendo "formadome").
Vou "consigo". Consigo só tem valor reflexivo
(pensou consigo mesmo) e não pode substituir com você,
com o senhor. Portanto: Vou com você, vou com o senhor.
Igualmente: Isto é para o senhor (e não "para si").
Vou "emprestar" dele. Emprestar é ceder, e não
tomar por empréstimo: Vou pegar o livro emprestado. Ou:
Vou emprestar o livro (ceder) ao meu irmão. Repare nesta
concordância: Pediu emprestadas duas malas.
Vou sair "essa" noite. É este que designa o tempo no
qual se está ou objeto próximo: Esta noite, esta semana (a
semana em que se está), este dia, este jornal (o jornal que
estou lendo), este século (o século 21).
Observação: Material disponível na Internet, sem
indicação do autor.
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Lisboa, 14, 15 e 16 de dezembro de 1990
Considerando que o projeto de texto de ortografia
unificada de língua portuguesa aprovado em Lisboa, em 12
de outubro de 1990, pela Academia das Ciências de Lisboa,
Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola,
Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e
Príncipe, com a adesão da delegação de observadores da
Galiza, constitui um passo importante para a defesa da
unidade essencial da língua portuguesa e para o seu
prestígio internacional,
Considerando que o texto do acordo que ora se aprova
resulta de um aprofundado debate nos Países Signatários,
a República Popular de Angola,
a República Federativa do Brasil,
a República de Cabo Verde,
a República da Guiné-Bissau,
a República de Moçambique,
a República Portuguesa
e a República Democrática de São Tomé e Príncipe,
Acordam no seguinte:
Artigo 1º – É aprovado o Acordo Ortográfico da
Língua Portuguesa, que consta como anexo I ao presente
instrumento de aprovação, sob a designação de Acordo
Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) e vai
acompanhado da respectiva nota explicativa, que consta
como anexo II ao mesmo instrumento de aprovação, sob a
designação de Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da
Língua Portuguesa (1990).
Artigo 2º – Os Estados signatários tomarão, através das
instituições e órgãos competentes, as providências
necessárias com vista à elaboração, até 1º de janeiro de
1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua
portuguesa, tão completo quanto desejável e tão
normalizador quanto possível, no que se refere às
terminologias científicas e técnicas.
Artigo 3º – O Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa entrará em vigor em 1º de Janeiro de 1994,
depois de depositados os instrumentos de ratificação de
todos os Estados junto do Governo da República
Portuguesa.
Artigo 4º – Os Estados signatários adotarão as medidas
que entenderem adequadas ao efetivo respeito da data da
entrada em vigor estabelecida no artigo 3º.
Em fé do que, os abaixo assinados, devidamente
credenciados para o efeito, aprovam o presente acordo,
redigido em língua portuguesa, em sete exemplares, todos
igualmente autênticos.
Assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990.
PELA REPÚBLICA POPULAR DE ANGOLA,
José Mateus de Adelino Peixoto, Secretário de Estado
da Cultura.
PELA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL,
Carlos Alberto Gomes Chiarelli, Ministro da Educação.
PELA REPÚBLICA DE CABO VERDE,
David Hopffer Almada, Ministro da Informação,
Cultura e Desportos.
PELA REPÚBLICA DA GUINÉ-BISSAU,
Alexandre Brito Ribeiro Furtado, Secretário de Estado
da Cultura.
PELA REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE,
Luís Bernardo Honwana, Ministro da Cultura.
PELA REPÚBLICA PORTUGUESA,
Pedro Miguel de Santana Lopes, Secretário de Estado
da Cultura.
PELA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE SÃO
TOMÉ E PRÍNCIPE,
Lígia Silva Graça do Espírito Santo Costa, Ministra da
Educação e Cultura.
Anexo I
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)
Base I
Do alfabeto e dos nomes próprios estrangeiros e
seus derivados
1º) O alfabeto da língua portuguesa é formado por
vinte e seis letras, cada uma delas com uma forma
minúscula e outra maiúscula:
a A (á) j J (jota) s S (esse)
b B (bê) k K (capa ou cá) t T (tê)
c C (cê) l L (ele) u U (u)
d D (dê) m M (eme) v V (vê)
e E (é) n N (ene) w W (dáblio)
f F (efe) o O (ó) x X (xis)
g G (gê ou guê) p P (pê) y Y (ípsilon)
h H (agá) q Q (quê) z Z (zê)
i I (i) r R (erre)
Obs.: 1. Além destas letras, usam-se o ç (cê cedilhado)
e os seguintes dígrafos: rr (erre duplo), ss (esse duplo), ch
(cê-agá), lh (ele-agá), nh (ene-agá), gu (guê-u) e qu (quê-u).
2. Os nomes das letras acima sugeridos não excluem
outras formas de as designar.
2º) As letras k, w e y usam-se nos seguintes casos
especiais:
a) Em antropônimos/antropônimos originários de
outras línguas e seus derivados: Franklin, frankliniano;
Kant, kantismo; Darwin, darwinismo; Wagner, wagneriano;
Byron, byroniano; Taylor, taylorista;
b) Em topônimos/topônimos originários de outras
línguas e seus derivados: Kwanza, Kuwait, kuwaitiano;
Malawi, malawiano;
c) Em siglas, símbolos e mesmo em palavras adotadas
como unidades de medida de curso internacional: TWA,
KLM; K- potássio (de kalium), W- oeste (West); kgquilograma, km- quilometro, kW- kilowatt, yd- jarda (yard);
Watt.
3º) Em congruência com o número anterior, mantêm-se
nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios
estrangeiros quaisquer combinações gráficas ou sinais
diacríticos não peculiares à nossa escrita que figurem nesses
nomes: comtista, de Comte; garrettiano, de Garrett;
jeffersonia/jeffersonia, de Jefferson; mülleriano, de Müller;
shakesperiano, de Shakespeare.
Os vocábulos autorizados registrarão grafias
alternativas admissíveis, em casos de divulgação de certas
palavras de tal tipo de origem (a exemplo de fúcsia/fúchsia e
derivados, bungavília/ bunganvílea/ bougainvíllea).
4º) Os dígrafos finais de origem hebraica ch, ph e th
podem conservar-se em formas onomásticas da tradição
bíblica, como Baruch, Loth, Moloch, Ziph, ou então
simplificar-se: Baruc, Lot, Moloc, Zif. Se qualquer um
destes dígrafos, em formas do mesmo tipo, é
invariavelmente mudo, elimina-se: José, Nazaré, em vez de
Joseph, Nazareth; e se algum deles, por força do uso,
permite adaptação, substitui-se, recebendo uma adição
vocálica: Judite, em vez de Judith.
5º) As consoantes finais grafadas b, c, d, g e t mantêmse, quer sejam mudas, quer proferidas, nas formas
onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente
antropônimos/antropônimos e topônimos/topônimos da
tradição bíblica; Jacob, Job, Moab, Isaac; David, Gad; Gog,
Magog; Bensabat, Josafat. Integram-se também nesta
forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e
Valhadolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e
Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas
condições.
Nada
impede,
entretanto,
que
dos
antropônimos/antropônimos em apreço sejam usados sem a
consoante final Jó, Davi e Jacó.
6º) Recomenda-se que os topônimos/topônimos de
línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível,
por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda
vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no
uso corrente. Exemplo: Anvers, substituído por Antuérpia;
Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Genève,
por Genebra; Jutland, por Jutlândia; Milano, por Milão;
München, por Muniche; Torino, por Turim; Zürich, por
Zurique, etc.
Base II
Do h inicial e final
1º) O h inicial emprega-se:
a) Por força da etimologia: haver, hélice, hera, hoje,
hora, homem, humor.
b) Em virtude da adoção convencional: hã?, hem?,
hum!.
2º) O h inicial suprime-se:
a) Quando, apesar da etimologia, a sua supressão está
inteiramente consagrada pelo uso: erva, em vez de herva; e,
portanto, ervaçal, ervanário, ervoso (em contraste com
herbáceo, herbanário, herboso, formas de origem erudita);
b) Quando, por via de composição, passa a interior e o
elemento em que figura se aglutina ao precedente:
biebdomadário, desarmonia, desumano, exaurir, inábil,
lobisomem, reabilitar, reaver.
3º) O h inicial mantém-se, no entanto, quando, numa
palavra composta, pertence a um elemento que está ligado
ao anterior por meio de hífen: anti-higiênico, contra-haste,
pré-história, sobre-humano.
4º) O h final emprega-se em interjeições: ah! oh!.
Base III
Da homofonia de certos grafemas consonânticos
Dada a homofonia existente entre certos grafemas
consonânticos, torna-se necessário diferençar os seus
empregos, que fundamentalmente se regulam pela história
das palavras. É certo que a variedade das condições em que
se fixam na escrita os grafemas consonânticos homófonos
nem sempre permite fácil diferenciação dos casos em que se
deve empregar uma letra e daqueles em que, diversamente,
se deve empregar outra, ou outras, a representar o mesmo
som.
Nesta conformidade, importa notar, principalmente, os
seguintes casos:
1º) Distinção gráfica entre ch e x: achar, archote,
bucha, capacho, capucho, chamar, chave, Chico, chiste,
chorar, colchão, colchete, endecha, estrebucha, facho,
ficha, flecha, frincha, gancho, inchar, macho, mancha,
murchar, nicho, pachorra, pecha, pechincha, penacho,
rachar, sachar, tacho; ameixa, anexim, baixel, baixo,
bexiga, bruxa, coaxar, coxia, debuxo, deixar, eixo, elixir,
enxofre, faixa, feixe, madeixa, mexer, oxalá, praxe, puxar,
rouxinol, vexar, xadrez, xarope, xenofobia, xerife, xícara.
2º) Distinção gráfica entre g, com valor de fricativa
palatal, e j: adágio, alfageme, Álgebra, algema, algeroz,
Algés, algibebe, algibeira, álgido, almarge, Alvorge, Argel,
estrangeiro, falange, ferrugem, frigir, gelosia, gengiva,
gergelim, geringonça. Gibraltar, ginete, ginja, girafa, gíria,
herege, relógio, sege, Tânger, virgem; adjetivo, ajeitar,
ajeru (nome de planta indiana e de uma espécie de
papagaio), canjerê, canjica, enjeitar, granjear, hoje,
intrujice, jecoral, jejum, jeira, jeito, Jeová, jenipapo,
jequiri, jequitibá, Jeremias, Jericó, jerimum, Jerónimo,
Jesus, jibóia, jiquipanga, jiquiró, jiquitaia, jirau, jiriti,
jitirana, laranjeira, lojista, majestade, majestoso,
manjerico, manjerona, mucujê, pajé, pegajento, rejeitar,
sujeito, trejeito.
3º) Distinção gráfica entre as letras s, ss, c, ç e x, que
representam sibilantes surdas: ânsia, ascensão, aspersão,
cansar, conversão, esconso, farsa, ganso, imenso, mansão,
mansarda, manso, pretensão, remanso, seara, seda, Seia,
Sertã, Sernancelhe, serralheiro, Singapura, Sintra, sisa,
tarso, terso, valsa; abadessa, acossar, amassar, arremessar,
Asseiceira, asseio, atravessar, benesse, Cassilda, codesso
(identicamente Codessal ou Codassal, Codesseda,
Codessoso, etc.), crasso, devassar, dossel, egresso,
endossar, escasso, fosso, gesso, molosso, mossa, obsessão,
pêssego, possesso, remessa, sossegar, acém, acervo,
alicerce, cebola, cereal, Cernache, cetim, Cinfães, Escócia,
Macedo, obcecar, percevejo; açafate, açorda, açúcar,
almaço, atenção, berço, Buçaco, caçanje, caçula, caraça,
dançar, Eça, enguiço, Gonçalves, inserção, linguiça,
maçada,
Mação,
maçar,
Moçambique,
Monção,
muçulmano, murça, negaça, pança, peça, quiçaba, quiçaça,
quiçama, quiçamba, Seiça (grafia que pretere as
erróneas/errôneas Ceiça e Ceissa), Seiçal, Suíça, terço;
auxílio, Maximiliano, Maximino, máximo, próximo, sintaxe.
4º) Distinção gráfica entre s de fim de sílaba (inicial ou
interior) e x e z com idêntico valor fónico/fônico:
adestrar, Calisto, escusar, esdrúxulo, esgotar,
esplanada, esplêndido, espontâneo, espremer, esquisito,
estender, Estremadura, Estremoz, inesgotável; extensão,
explicar, extraordinário, inextricável, inexperto, sextante,
têxtil; capazmente, infelizmente, velozmente. De acordo com
esta distinção convém notar dois casos:
a) Em final de sílaba que não seja final de palavra, o x
= s muda para s sempre que está precedido de i ou u:
justapor, justalinear, misto, sistino (cf. Capela Sistina),
Sisto, em vez de juxtapor, juxtalinear, mixto, sixtina, Sixto.
b) Só nos advérbios em -mente se admite z, com valor
idêntico ao de s, em final de sílaba seguida de outra
consoante (cf. capazmente, etc.); de contrário, o s toma
sempre o lugar do z: Biscaia, e não Bizcaia.
5º) Distinção gráfica entre s final de palavra e x e z
com idêntico valor fónico/fônico: aguarrás, aliás, anis,
após, atrás, através, Avis, Brás, Dinis, Garcês, gás, Gerês,
Inês, íris, Jesus, jus, lápis, Luís, país, português, Queirós,
quis, retrós, revés, Tomás, Valdês; cálix, Félix, Fênix, flux;
assaz, arroz, avestruz, dez, diz, fez (substantivo e forma do
verbo fazer), fi z, Forjaz, Galaaz, giz, jaez, matiz, petiz,
Queluz, Romariz, [Arcos de] Valdevez, Vaz. A propósito,
deve observar-se que é inadmissível z final equivalente a s
em palavra não oxítona: Cádis, e não Cádiz.
6º) Distinção gráfica entre as letras interiores s, x e z,
que representam sibilantes sonoras: aceso, analisar,
anestesia, artesão, asa, asilo, Baltasar, besouro, besuntar,
blusa, brasa, brasão, Brasil, brisa, [Marco de] Canaveses,
coliseu, defesa, duquesa, Elisa, empresa, Ermesinde,
Esposende, frenesi ou frenesim, frisar, guisa, improviso,
jusante, liso, lousa, Lousã, Luso (nome de lugar,
homónimo/homônimo de Luso, nome mitológico),
Matosinhos, Meneses, narciso, Nisa, obséquio, ousar,
pesquisa, portuguesa, presa, raso, represa, Resende,
sacerdotisa, Sesimbra, Sousa, surpresa, tisana, transe,
trânsito, vaso; exalar, exemplo, exibir, exorbitar,
exuberante, inexato, inexorável; abalizado, alfazema,
Arcozelo, autorizar, azar, azedo, azo, azorrague, baliza,
bazar, beleza, buzina, búzio, comezinho, deslizar, deslize,
Ezequiel, fuzileiro, Galiza, guizo, helenizar, lambuzar,
lezíria, Mouzinho, proeza, sazão, urze, vazar, Veneza,
Vizela, Vouzela.
Base IV
Das sequências consonânticas
1º) O c, com valor de oclusiva velar, das sequências
interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o
p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç
e pt, ora se conservam, ora se eliminam.
Assim:
a) Conservam-se nos casos em que são invariavelmente
proferidos nas pronúncias cultas da língua: compacto,
convicção, convicto, ficção, friccionar, pacto, pictural;
adepto, apto, díptico, erupção, eucalipto, inepto, núpcias,
rapto.
b) Eliminam-se nos casos em que são invariavelmente
mudos nas pronúncias cultas da língua: ação, acionar,
afetivo, aflição, aflito, ato, coleção, coletivo, direção,
diretor, exato, objeção; adoção, adotar, batizar, Egito,
ótimo.
c) Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente,
quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer
restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o
emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e
carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro
e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto,
recepção e receção.
d) Quando, nas sequências interiores mpc, mpç e mpt
se eliminar o p de acordo com o determinado nos parágrafos
precedentes, o m passa a n, escrevendo-se, respetivamente,
nc, nç e nt: assumpcionista e assuncionista; assumpção e
assunção; assumptível e assuntível; peremptório e
perentório, sumptuoso e suntuoso, sumptuosidade e
suntuosidade.
2º) Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente,
quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer
restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o
emudecimento: o b da sequência bd, em súbdito; o b da
sequência bt, em subtil e seus derivados; o g da sequência
gd, em amígdala, amigdalácea, amigdalar, amigdalato,
amigdalite, amigdalóide, amigdalopatia, amigdalotomia; o
m da sequência mn, em amnistia, amnistiar, indemne,
indemnidade, indemnizar, omnímodo, omnipotente,
omnisciente, etc.; o t da sequência tm, em aritmética e
aritmético.
Base V
Das vogais átonas
1º) O emprego do e e do i, assim como o do o e do u,
em sílaba átona, regula-se fundamentalmente pela
etimologia e por particularidades da história das palavras.
Assim, se estabelecem variadíssimas grafias:
a) Com e e i: ameaça, amealhar, antecipar, arrepiar,
balnear, boreal, campeão, cardeal (prelado, ave, planta;
diferente de cardial = “relativo à cárdia”), Ceará, côdea,
enseada, enteado, Floreal, janeanes, lêndea, Leonardo,
Leonel, Leonor, Leopoldo, Leote, linear, meão, melhor,
nomear, peanha, quase (em vez de quási), real, semear,
semelhante, várzea; ameixial, Ameixieira, amial, amieiro,
arrieiro, artilharia, capitânia, cordial (adjetivo e
substantivo), corriola, crânio, criar, diante, diminuir, Dinis,
ferregial, Filinto, Filipe (e identicamente Filipa, Filipinas,
etc.), freixial, giesta, Idanha, igual, imiscuir-se, inigualável,
lampião, limiar, Lumiar, lumieiro, pátio, pior, tigela, tijolo,
Vimieiro, Vimioso.
b) Com o e u: abolir, Alpendorada, assolar, borboleta,
cobiça, consoada, consoar costume, díscolo, êmbolo,
engolir, epístola, esbafonir-se, esboroar, farândola,
femoral, Freixoeira, girândola, goela, jocoso, mágoa,
névoa, nódoa, óbolo, Páscoa, Pascoal, Pascoela, polir,
Rodolfo, távoa, tavoada, távola, tômbola, veio (substantivo
e forma do verbo vir); açular, água, aluvião, arcuense,
assumir, bulir, camândulas, curtir, curtume, embutir,
entupir, fémur/fêmur, fistula, glândula, ínsua, jucundo,
légua, Luanda, lucubração, lugar, mangual, Manuel,
míngua, Nicarágua, pontual, régua, tábua, tabuada,
tabuleta, trégua, vitualha.
2º) Sendo muito variadas as condições etimológicas e
histórico-fonéticas em que se fixam graficamente e e i ou o
e u em sílaba átona, é evidente que só a consulta dos
vocabulários ou dicionários pode indicar, muitas vezes, se
deve empregar-se e ou i, se o ou u. Há, todavia, alguns casos
em que o uso dessas vogais pode ser facilmente
sistematizado. Convém fixar os seguintes:
a) Escrevem-se com e, e não com i, antes da sílaba
tónica/tônica, os substantivos e adjetivos que procedem de
substantivos terminados em -eio e -eia, ou com eles estão
em relação direta. Assim se regulam: aldeão, aldeola,
aldeota por aldeia; areal, areeiro, areento, Areosa por
areia; aveal por aveia; baleal por baleia; cadeado por
cadeia; candeeiro por candeia; centeeira e centeeiro por
centeio; colmeal e colmeeiro por colmeia; correada e
correame por correia.
b) Escrevem-se igualmente com e, antes de vogal ou
ditongo da sílaba tónica/tônica, os derivados de palavras que
terminam em e acentuado (o qual pode representar um
antigo hiato: ea, ee): galeão, galeota, galeote, de galé;
coreano, de Coreia; daomeano, de Daomé; guineense, de
Guiné; poleame e poleeiro, de polé.
c) Escrevem-se com i, e não com e, antes da sílaba
tónica/tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que
entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos-
ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em
palavras onde-ano e -ense estão precedidos de i pertencente
ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.):
açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo
a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano,
torniano, torniense (de Torre(s)).
d) Uniformizam-se com as terminações -io e -ia
(átonas), em vez de -eo e -ea, os substantivos que
constituem variações, obtidas por ampliação, de outros
substantivos terminados em vogal; cúmio (popular), de
cume; hástia, de haste; réstia, do antigo reste, véstia, de
veste.
e) Os verbos em -ear podem distinguir-se
praticamente, grande número de vezes, dos verbos em -iar,
quer pela formação, quer pela conjugação e formação ao
mesmo tempo. Estão no primeiro caso todos os verbos que
se prendem a substantivos em -eio ou -eia (sejam formados
em português ou venham já do latim); assim se regulam:
aldear, por aldeia; alhear, por alheio; cear por ceia;
encadear por cadeia; pear, por peia; etc. Estão no segundo
caso todos os verbos que têm normalmente flexões
rizotónicas/rizotônicas em -eio, -eias, etc.: clarear, delinear,
devanear, falsear, granjear, guerrear, hastear, nomear,
semear, etc. Existem, no entanto, verbos em -iar, ligados a
substantivos com as terminações átonas -ia ou -io, que
admitem variantes na conjugação: negoceio ou negocio (cf.
negócio); premeio ou premio (cf. prémio/prêmio); etc.
f) Não é lícito o emprego do u final átono em palavras
de origem latina. Escreve-se, por isso: moto, em vez de mótu
(por exemplo, na expressão de moto próprio); tribo, em vez
de tríbu.
g) Os verbos em -oar distinguem-se praticamente dos
verbos em -uar pela sua conjugação nas formas
rizotónicas/rizotônicas, que têm sempre o na sílaba
acentuada: abençoar com o, como abençoo, abençoas, etc.;
destoar, com o, como destoo, destoas, etc.; mas acentuar,
com u, como acentuo, acentuas, etc.
Base VI
Das vogais nasais
Na representação das vogais nasais devem observar-se
os seguintes preceitos:
1º) Quando uma vogal nasal ocorre em fi m de palavra,
ou em fi m de elemento seguido de hífen, representa-se a
nasalidade pelo til, se essa vogal é de timbre a; por m, se
possui qualquer outro timbre e termina a palavra; e por n, se
é de timbre diverso de a e está seguida de s: afã, grã, GrãBretanha, lã, órfã, sã-braseiro (forma dialetal; o mesmo
que são-brasense = de S. Brás de Alportel); clarim, tom,
vacum, flautins, semitons, zunzuns.
2º) Os vocábulos terminados em -ã transmitem esta
representação do a nasal aos advérbios em -mente que deles
se formem, assim como a derivados em que entrem sufixos
iniciados por z: cristãmente, irmãmente, sãmente; lãzudo,
maçãzita, manhãzinha, romãzeira.
Base VII
Dos ditongos
1º) Os ditongos orais, que tanto podem ser
tónicos/tônicos como átonos, distribuem-se por dois grupos
gráficos principais, conforme o segundo elemento do
ditongo é representado por i ou u: ai, ei, éi, ui; au, eu, éu, iu,
ou: braçais, caixote, deveis, eirado, farnéis (mas
farneizinhos), goivo, goivar, lençóis (mas lençoizinhos),
tafuis, uivar, cacau, cacaueiro, deu, endeusar, ilhéu (mas
ilheuzito), mediu, passou, regougar.
Obs.: Admitem-se, todavia, excecionalmente, à parte
destes dois grupos, os ditongos grafados ae (= âi ou ai) e ao
(âu
ou
au):
o
primeiro,
representado
nos
antropônimos/antropônimos Caetano e Caetana, assim
como nos respetivos derivados e compostos (caetaninha,
são-caetano, etc.); o segundo, representado nas
combinações da preposição a com as formas masculinas do
artigo ou pronome demonstrativo o, ou seja, ao e aos.
2º) Cumpre fixar, a propósito dos ditongos orais, os
seguintes preceitos particulares:
a) É o ditongo grafado ui, e não a sequência vocálica
grafada ue, que se emprega nas formas de 2a e 3a pessoas do
singular do presente do indicativo e igualmente na da 2a
pessoa do singular do imperativo dos verbos em -uir:
constituis, influi, retribui. Harmonizam-se, portanto, essas
formas com todos os casos de ditongo grafado ui de sílaba
final ou fi m de palavra (azuis, fui, Guardafui, Rui, etc.); e
ficam assim em paralelo gráfico-fonético com as formas de
2a e 3a pessoas do singular do presente do indicativo e de 2 a
pessoa do singular do imperativo dos verbos em -air e em oer: atrais, cai, sai; móis, remói, sói.
b) É o ditongo grafado ui que representa sempre, em
palavras de origem latina, a união de um u a um i átono
seguinte. Não divergem, portanto, formas como fluido de
formas como gratuito. E isso não impede que nos derivados
de formas daquele tipo as vogais grafadas u e i se separem:
fluídico, fluidez (u-i).
c) Além dos ditongos orais propriamente ditos, os
quais são todos decrescentes, admite-se, como é sabido, a
existência de ditongos crescentes. Podem considerar-se no
número deles as sequências vocálicas pós-tónicas/póstônicas, tais as que se representam graficamente por ea, eo,
ia, ie, io, oa, ua, ue, uo: áurea, áureo, calúnia, espécie,
exímio, mágoa, míngua, tênue, tríduo.
3º) Os ditongos nasais, que na sua maioria tanto podem
ser tónicos/tônicos como átonos, pertencem graficamente a
dois tipos fundamentais: ditongos representados por vogal
com til e semivogal; ditongos representados por uma vogal
seguida da consoante nasal m. Eis a indicação de uns e
outros:
a) Os ditongos representados por vogal com til e
semivogal são quatro, considerando-se apenas a língua
padrão contemporânea: ãe (usado em vocábulos oxítonos e
derivados), ãi (usado em vocábulos anoxítonos e derivados),
ão e õe. Exemplos: cães, Guimarães, mãe, mãezinha;
cãibas, cãibeiro, cãibra, zãibo; mão, mãozinha, não, quão,
sótão, sotãozinho, tão; Camões, orações, oraçõezinhas, põe,
repões. Ao lado de tais ditongos pode, por exemplo,
colocar-se o ditongo ˜ui; mas este, embora se exemplifique
numa forma popular como r˜ui = ruim, representa-se sem o
til nas formas muito e mui, por obediência à tradição.
b) Os ditongos representados por uma vogal seguida da
consoante nasal m são dois: am e em. Divergem, porém, nos
seus empregos:
i) am (sempre átono) só se emprega em flexões
verbais: amam, deviam, escreveram, puseram;
ii) em (tónico/tônico ou átono) emprega-se em palavras
de categorias morfológicas diversas, incluindo flexões
verbais, e pode apresentar variantes gráficas determinadas
pela posição, pela acentuação ou, simultaneamente, pela
posição e pela acentuação: bem, Bembom, Bemposta, cem,
devem, nem, quem, sem, tem, virgem; Bencanta, Benfeito,
Benfica, benquisto, bens, enfim, enquanto, homenzarrão,
homenzinho, nuvenzinha, tens, virgens, amém (variação do
ámen), armazém, convém, mantém, ninguém, porém,
Santarém, também; convêm, mantêm, têm (3as. pessoas do
plural); armazéns, desdéns, convéns, reténs; Belenzada,
vintenzinho.
Base VIII
Da acentuação gráfica das palavras oxítonas
1º) Acentuam-se com acento agudo:
a) As palavras oxítonas terminadas nas vogais
tónicas/tônicas abertas grafadas -a,-e ou -o, seguidas ou não
de-s: está, estás, já, olá; até, é, és, olé, pontapé(s); avó(s),
dominó(s), paletó(s), só(s).
Obs.: Em algumas (poucas) palavras oxítonas
terminadas em -e tónico/tônico, geralmente provenientes do
francês, esta vogal, por ser articulada nas pronúncias cultas
ora como aberta ora como fechada, admite tanto o acento
agudo como o acento circunflexo: bebé ou bebê, bidé ou
bidê, canapé ou canapê, caraté ou caratê, croché ou crochê,
guichê ou guichê, matiné ou matinê, nené ou nenê, ponjé ou
ponjê, puré ou purê, rapé ou rapê. O mesmo se verifica com
formas como cocó e cocô, ró (letra do alfabeto grego) e rô.
São igualmente admitidas formas como judô, a par de judo,
e metrô, a par de metro.
b) As formas verbais oxítonas, quando, conjugadas
com os pronomes clíticos lo(s) ou la(s), ficam a terminar na
vogal tónica/tônica aberta grafada-a, após a assimilação e
perda das consoantes finais grafadas-r,-s ou-z: adorá-lo(s)
(de adorar-lo(s)), dá-la(s) (de dar-la(s) ou dá(s)-la(s)), fálo(s) (de faz-lo(s)), fá-lo(s)-às (de far-lo(s)- -ás), habitála(s)-iam (de habitar-la(s)-iam), trá-la(s)-á (de trar-la(s)á).
c) As palavras oxítonas com mais de uma sílaba
terminadas no ditongo nasal grafado -em (exceto as formas
da 3a pessoa do plural do presente do indicativo dos
compostos de ter e vir: retêm, sustêm; advêm, provêm, etc.)
ou -ens: acém, detém, deténs, entretém, entreténs, harém,
haréns, porém, provém, provéns, também.
d) As palavras oxítonas com os ditongos abertos
grafados -éi, éu ou ói, podendo estes dois últimos ser
seguidos ou não de-s: anéis, batéis, fiéis, papéis; céu(s),
chapéu(s), ilhéu(s), véu(s); corrói (de corroer), herói(s),
remói (de remoer), sóis.
2º) Acentuam-se com acento circunflexo:
a) As palavras oxítonas terminadas nas vogais
tónicas/tônicas fechadas que se grafam -e ou -o, seguidas ou
não de-s: cortês, dê, dês (de dar), lê, lês (de ler), português,
você(s); avô(s), pôs (de pôr), robô(s);
b) As formas verbais oxítonas, quando conjugadas com
os pronomes clíticos -lo(s) ou -la(s), ficam a terminar nas
vogais tónicas/tônicas fechadas que se grafam -e ou -o, após
a assimilação e perda das consoantes finais grafadas-r,-s ouz: detê-lo(s) (de deter-lo-(s)), fazê-la(s) (de fazer-la(s)), fêlo(s) (de fez-lo(s)), vê-la(s) (de ver-la(s)), compô-la(s) (de
compor-la(s)), repô-la(s) (de repor-la(s)), pô-la(s) (de porla(s) ou pôs-la(s)).
3º) Prescinde-se de acento gráfico para distinguir
palavras
oxítonas
homógrafas,
mas
heterofónicas/heterofônicas,
do tipo de cor (ô), substantivo, e cor (ó), elemento da
locução de cor; colher (ê), verbo, e colher (é), substantivo.
Excetua-se a forma verbal pôr, para a distinguir da
preposição por.
Base IX
Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas
1º) As palavras paroxítonas não são em geral
acentuadas graficamente: enjoo, grave, homem, mesa, Tejo,
vejo, velho, voo; avanço, floresta; abençoo, angolano,
brasileiro; descobrimento, graficamente, moçambicano.
2º) Recebem, no entanto, acento agudo:
a) As palavras paroxítonas que apresentam, na sílaba
tónica/tônica, as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i ou
u e que terminam em-l,-n,-r,-x e -ps, assim como, salvo
raras exceções, as respectivas formas do plural, algumas das
quais passam a proparoxítonas: amável (pl. amáveis),
Aníbal, dócil (pl. dóceis), dúctil (pl. dúcteis), fóssil (pl.
fósseis), réptil (pl. répteis; var. reptil, pl. reptis); cármen (pl.
cármenes ou carmens; var. carme, pl. carmes); dólmen (pl.
dólmenes ou dolmens), éden (pl. édenes ou edens), líquen
(pl. líquenes), lúmen (pl. lúmenes ou lumens); açúcar (pl.
açúcares), almíscar (pl. almíscares), cadáver (pl.
cadáveres), caráter ou carácter (mas pl. carateres ou
caracteres), ímpar (pl. ímpares); Ájax, córtex (pl. córtex;
var. córtice, pl. córtices, índex (pl. índex; var. índice, pl.
índices), tórax (pl. tórax ou tóraxes; var. torace, pl.
toraces); bíceps (pl. bíceps; var. bicípite, pl. bicípites),
fórceps (pl. fórceps; var. fórcipe, pl. fórcipes).
Obs.: Muito poucas palavras deste tipo, com as vogais
tónicas/tônicas grafadas e e o em fi m de sílaba, seguidas
das consoantes nasais grafadas m e n, apresentam oscilação
de timbre nas pronúncias cultas da língua e, por
conseguinte, também de acento gráfico (agudo ou
circunflexo): sémen e sêmen, xénon e xênon; fêmur e fémur,
vómer e vômer; Fénix e Fênix, ónix e ônix.
b) As palavras paroxítonas que apresentam, na sílaba
tónica/tônica, as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i ou
u e que terminam em -ã(s),-ão(s),-ei(s),-i(s),-um,-uns ou -us:
órfã (pl. órfãs), acórdão (pl. acórdãos), órfão (pl. órfãos),
órgão (pl. órgãos), sótão (pl. sótãos); hóquei, jóquei (pl.
jóqueis), amáveis (pl. de amável), fáceis (pl. de fácil),
fósseis (pl. de fóssil), amáreis (de amar), amáveis (id.),
cantaríeis (de cantar), fizéreis (de fazer), fizésseis (id.);
beribéri (pl. beribéris), bílis (sg. e pl.), íris (sg. e pl.), júri
(pl. júris), oásis (sg. e pl.); álbum (pl. álbuns), fórum (pl.
fóruns); húmus (sg. e pl.), vírus (sg. e pl.).
Obs.: Muito poucas paroxítonas deste tipo, com as
vogais tónicas/tônicas grafadas e e o em fi m de sílaba,
seguidas das consoantes nasais grafadas m e n, apresentam
oscilação de timbre nas pronúncias cultas da língua, o qual é
assinalado com acento agudo, se aberto, ou circunflexo, se
fechado: pónei e pônei; gónis e gônis, pénis e pênis, ténis e
tênis; bónus e bônus, ónus e ônus, tónus e tônus, Vénus e
Vênus.
3º) Não se acentuam graficamente os ditongos
representados por ei e oi da sílaba tónica/tônica das palavras
paroxítonas, dado que existe oscilação em muitos casos
entre o fechamento e a abertura na sua articulação:
assembleia, boleia, ideia, tal como aldeia, baleia, cadeia,
cheia, meia; coreico, epopeico, onomatopeico, proteico;
alcaloide, apoio (do verbo apoiar), tal como apoio (subst.),
Azoia, boia, boina, comboio (subst.), tal como comboio,
comboias, etc. (do verbo comboiar), dezoito, estroina,
heroico, introito, jiboia, moina, paranoico, zoina.
4º) É facultativo assinalar com acento agudo as formas
verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos,
louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do
presente do indicativo (amamos, louvamos), já que o timbre
da vogal tónica/tônica é aberto naquele caso em certas
variantes do português.
5º) Recebem acento circunflexo:
a) As palavras paroxítonas que contêm, na sílaba
tónica/tônica, as vogais fechadas com a grafia a, e, o e que
terminam em-l,-n,-r, ou-x, assim como as respetivas formas
do plural, algumas das quais se tornam proparoxítonas:
cônsul (pl. cônsules), pênsil (pl. pênseis), têxtil (pl. têxteis);
cânon, var. cânone (pl. cânones), plâncton (pl. plânctons);
Almodôvar, aljôfar (pl. aljôfares), âmbar (pl. âmbares),
Câncer, Tânger; bômbax (sg. e pl.), bômbix, var. bômbice
(pl. bômbices).
b) As palavras paroxítonas que contêm, na sílaba
tónica/tônica, as vogais fechadas com a grafia a, e, o e que
terminam em -ão(s),-eis,-i(s) ou -us: bênção(s), côvão(s),
Estêvão, zângão(s); devêreis (de dever), escrevêsseis (de
escrever), fôreis (de ser e ir), fôsseis (id.), pênseis (pl. de
pênsil), têxteis (pl. de têxtil); dândi(s), Mênfi s; ânus.
c) As formas verbais têm e vêm, 3as pessoas do plural
do presente do indicativo de ter e vir, que são foneticamente
paroxítonas (respetivamente /tãjãj/, /vãjãj/ ou /têêj/, /vêêj/
ou ainda /têjêj/, /vêjêj/); cf. as antigas grafias preteridas,
têem, vêem, a fi m de se distinguirem de tem e vem, 3as
pessoas do singular do presente do indicativo ou 2as pessoas
do singular do imperativo; e também as correspondentes
formas compostas, tais como: abstêm (cf. abstém), advêm
(cf. advém), contêm (cf. contém), convêm (cf. convém),
desconvêm (cf. desconvém), detêm (cf. detem), entretêm (cf.
entretém), intervêm (cf. intervém), mantêm (cf. mantém),
obtêm (cf. obtém), provêm (cf. provém), sobrevêm (cf.
sobrevém).
Obs.: Também neste caso são preteridas as antigas
grafias detêem, intervêem, mantêem, provêem, etc.
6º) Assinalam-se com acento circunflexo:
a) Obrigatoriamente, pôde (3a pessoa do singular do
pretérito perfeito do indicativo), que se distingue da
correspondente forma do presente do indicativo (pode).
b) Facultativamente, dêmos (1a pessoa do plural do
presente do conjuntivo), para se distinguir da
correspondente forma do pretérito perfeito do indicativo
(demos); fôrma (substantivo), distinta de forma
(substantivo; 3a pessoa do singular do presente do indicativo
ou 2a pessoa do singular do imperativo do verbo formar).
7º) Prescinde-se de acento circunflexo nas formas
verbais paroxítonas que contêm um e tónico/tônico oral
fechado em hiato com a terminação -em da 3a pessoa do
plural do presente do indicativo ou do conjuntivo, conforme
os casos: creem, deem (conj.), descreem, desdeem (conj.),
leem, preveem, redeem (conj.), releem, reveem, tresleem,
veem.
8º) Prescinde-se igualmente do acento circunflexo para
assinalar a vogal tónica/tônica fechada com a grafia o em
palavras paroxítonas como enjoo, substantivo e flexão de
enjoar, povoo, flexão de povoar, voo, substantivo e flexão
de voar, etc.
9º) Prescinde-se, quer do acento agudo, quer do
circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo
respectivamente vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são
homógrafas de palavras proclíticas. Assim, deixam de se
distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de parar, e
para, preposição; pela(s) (é), substantivo e flexão de pelar,
e pela(s), combinação de per e la(s); pelo (é), flexão de
pelar, pelo(s) (ê), substantivo ou combinação de per e lo(s);
polo(s) (ó), substantivo, e polo(s), combinação antiga e
popular de por e lo(s); etc.
10º) Prescinde-se igualmente de acento gráfico para
distinguir
paroxítonas
homógrafas
heterofónicas/heterofônicas do tipo de acerto (ê),
substantivo, e acerto (é), flexão de acertar; acordo (ô),
substantivo, e acordo (ó), flexão de acordar; cerca (ê),
substantivo, advérbio e elemento da locução prepositiva
cerca de, e cerca (é), flexão de cercar; coro (ô),
substantivo, e coro (ó), flexão de corar; deste (ê), contração
da preposição de com o demonstrativo este, e deste (é),
flexão de dar; fora (ô), flexão de ser e ir, e fora (ó),
advérbio, interjeição e substantivo; piloto (ô), substantivo, e
piloto (ó), flexão de pilotar, etc.
Base X
Da acentuação das vogais tónicas/tônicas grafadas i
e u das palavras oxítonas e paroxítonas
1º) As vogais tónicas/tônicas grafadas i e u das
palavras oxítonas e paroxítonas levam acento agudo quando
antecedidas de uma vogal com que não formam ditongo e
desde que não constituam sílaba com a eventual consoante
seguinte, excetuando o caso de s: adaís (pl. de adail), aí,
atraí (de atrair), baú, caís (de cair), Esaú, jacuí, Luís, país,
etc.; alaúde, amiúde, Araújo, Ataíde, atraíam (de atrair),
atraísse (id.), baía, balaústre, cafeína, ciúme, egoísmo,
faísca, faúlha, graúdo, influíste (de influir), juízes, Luísa,
miúdo, paraíso, raízes, recaída, ruína, saída, sanduíche,
etc.
2º) As vogais tónicas/tônicas grafadas i e u das
palavras oxítonas e paroxítonas não levam acento agudo
quando, antecedidas de vogal com que não formam ditongo,
constituem sílaba com a consoante seguinte, como é o caso
de nh, l, m, n, r e z: bainha, moinho, rainha; adail, paul,
Raul; Aboim, Coimbra, ruim; ainda, constituinte, oriundo,
ruins, triunfo; atrair, demiurgo, influir, influirmos; juiz,
raiz, etc.
3º) Em conformidade com as regras anteriores leva
acento agudo a vogal tónica/tônica grafada i das formas
oxítonas terminadas em r dos verbos em -air e -uir, quando
estas se combinam com as formas pronominais clíticas lo(s),-la(s), que levam à assimilação e perda daquele-r:
atraí-lo(s) (de atrair-lo(s)); atraí-lo(s) –ia (de atrair-lo(s)ia); possuí-la(s) (de possuir-la(s)); possuí-la(s)-ia (de
possuir-la(s)-ia).
4º) Prescinde-se do acento agudo nas vogais
tónicas/tônicas grafadas i e u das palavras paroxítonas,
quando elas estão precedidas de ditongo: baiuca, boiuno,
cauila (var. cauira), cheiinho (de cheio), saiinha (de saia).
5º) Levam, porém, acento agudo as vogais
tónicas/tônicas grafadas i e u quando, precedidas de ditongo,
pertencem a palavras oxítonas e estão em posição final ou
seguidas de s: Piauí, teiú, teiús, tuiuiú, tuiuiús.
Obs.: Se, neste caso, a consoante final for diferente de
s, tais vogais dispensam o acento agudo: cauim.
6º) Prescinde-se do acento agudo nos ditongos
tónicos/tônicos grafados iu e ui, quando precedidos de
vogal: distraiu, instruiu, pauis (pl. de paul).
7º) Os verbos arguir e redarguir prescindem do acento
agudo na vogal tónica/tônica grafada u nas formas
rizotónicas/rizotônicas: arguo, arguis, argui, arguem;
argua, arguas, argua, arguam. Os verbos do tipo de aguar,
apaniguar, apaziguar, apropinquar, averiguar, desaguar,
enxaguar, obliquar, delinquir e afins, por oferecerem dois
paradigmas, ou têm as formas rizotónicas/rizotônicas
igualmente acentuadas no u mas sem marca gráfica (a
exemplo de averiguo, averiguas, averigua, averiguam;
averigue, averigues, averigue, averiguem; enxaguo,
enxaguas, enxagua, enxaguam; enxague, enxagues,
enxague, enxaguem, etc.; delinquo, delinquis, delinqui,
delinquem; mas delinquimos, delinquís) ou têm as formas
rizotónicas/rizotônicas
acentuadas
fónica/fônica
e
graficamente nas vogais a ou i radicais (a exemplo de
averíguo, averíguas, averígua, averíguam; averígue,
averígues, averígue, averíguem; enxáguo, enxáguas,
enxágua, enxáguam; enxágue, enxágues, enxágue,
enxáguem; delínquo, delínques, delínque, delínquem;
delínqua, delínquas, delínqua, delínquam).
Obs.: Em conexão com os casos acima referidos,
registre-se que os verbos em -ingir (atingir, cingir,
constringir, infringir, tingir, etc.) e os verbos em -inguir
sem prolação do u (distinguir, extinguir, etc.) têm grafias
absolutamente regulares (atinjo, atinja, atinge, atingimos,
etc.; distingo, distinga, distingue, distinguimos, etc.).
Base XI
Da acentuação gráfica das palavras proparoxítonas
1º) Levam acento agudo:
a) As palavras proparoxítonas que apresentam na sílaba
tónica/tônica as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i, u
ou ditongo oral começado por vogal aberta: árabe, cáustico,
Cleópatra, esquálido, exército, hidráulico, líquido, míope,
músico, plástico, prosélito, público, rústico, tétrico, último;
b) As chamadas proparoxítonas aparentes, isto é, que
apresentam na sílaba tónica/tônica as vogais abertas
grafadas a, e, o e ainda i, u ou ditongo oral começado por
vogal aberta, e que terminam por sequências vocálicas póstônicas praticamente consideradas como ditongos crescentes
(-ea,-eo,-ia,-ie,-io,-oa,-ua,-uo, etc.): álea, náusea; etéreo,
níveo; enciclopédia, glória; barbárie, série; lírio, prélio;
mágoa, nódoa; exígua, língua; exíguo, vácuo.
2º) Levam acento circunflexo:
a) As palavras proparoxítonas que apresentam na sílaba
tónica/tônica vogal fechada ou ditongo com a vogal básica
fechada: anacreôntico, brêtema, cânfora, cômputo,
devêramos (de dever), dinâmico, êmbolo, excêntrico,
fôssemos (de ser e ir), Grândola, hermenêutica, lâmpada,
lôstrego, lôbrego, nêspera, plêiade, sôfrego, sonâmbulo,
trôpego;
b) As chamadas proparoxítonas aparentes, isto é, que
apresentam vogais fechadas na sílaba tónica/tônica, e
terminam por sequências vocálicas pós-tónicas/pós-tônicas
praticamente consideradas como ditongos crescentes:
amêndoa, argênteo, côdea, Islândia, Mântua, serôdio.
3º) Levam acento agudo ou acento circunflexo as
palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais
tônicas/tônicas grafadas e ou o estão em final de sílaba e são
seguidas das consoantes nasais grafadas m ou n, conforme o
seu timbre é, respetivamente, aberto ou fechado nas
pronúncias cultas da língua: académico/acadêmico,
anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo,
fenómeno/fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo;
Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blasfêmia,
fémea/fêmea, gémeo/gêmeo, génio/gênio, ténue/tênue.
Base XII
Do emprego do acento grave
1º) Emprega-se o acento grave:
a) Na contração da preposição a com as formas
femininas do artigo ou pronome demonstrativo o: à (de
a+a), às (de a+as); b) Na contração da preposição a com os
demonstrativos aquele, aquela, aqueles, aquelas e aquilo ou
ainda da mesma preposição com os compostos aqueloutro e
suas flexões: àquele(s), àquela(s), àquilo; àqueloutro(s),
àqueloutra(s).
Base XIII
Da supressão dos acentos em palavras derivadas
1º) Nos advérbios em -mente, derivados de adjetivos
com acento agudo ou circunflexo, estes são suprimidos:
avidamente (de ávido), debilmente (de débil), facilmente (de
fácil), habilmente (de hábil), ingenuamente (de ingênuo),
lucidamente (de lúcido), mamente (de má), somente (de só),
unicamente (de único), etc.; candidamente (de cândido),
cortesmente (de cortês), dinamicamente (de dinâmico),
espontaneamente (de espontâneo), portuguesmente (de
português), romanticamente (de romântico).
2º) Nas palavras derivadas que contêm sufixos
iniciados por z e cujas formas de base apresentam vogal
tónica/tônica com acento agudo ou circunflexo, estes são
suprimidos: aneizinhos (de anéis), avozinha (de avó),
bebezito (de bebé), cafezada (de café), chapeuzinho (de
chapéu), chazeiro (de chá), heroizito (de herói), ilheuzito
(de ilhéu), mazinha (de má), orfãozinho (de órfão),
vintenzito (de vintém), etc.; avozinho (de avô), bençãozinha
(de bênção), lampadazita (de lâmpada), pessegozito (de
pêssego).
Base XIV
Do trema
O trema, sinal de diérese, é inteiramente suprimido em
palavras portuguesas ou aportuguesadas. Nem sequer se
emprega na poesia, mesmo que haja separação de duas
vogais que normalmente formam ditongo: saudade, e não
saüdade, ainda que tetrassílabo; saudar, e não saüdar, ainda
que trissílabo; etc.
Em virtude desta supressão, abstrai-se de sinal
especial, quer para distinguir, em sílaba átona, um i ou um u
de uma vogal da sílaba anterior, quer para distinguir,
também em sílaba átona, um i ou um u de um ditongo
precedente, quer para distinguir, em sílaba tónica/tônica ou
átona, o u de gu ou de qu de um e ou i seguintes: arruinar,
constituiria, depoimento, esmiuçar, faiscar, faulhar,
oleicultura, paraibano, reunião; abaiucado, auiqui, caiuá,
cauixi, piauiense; aguentar, anguiforme, arguir, bilíngue
(ou bilingue), lingueta, linguista, linguístico; cinquenta,
equestre, frequentar, tranquilo, ubiquidade.
Obs.: Conserva-se, no entanto, o trema, de acordo com
a Base I, 3º, em palavras derivadas de nomes próprios
estrangeiros: hübneriano, de Hübner, mülleriano, de Müller,
etc.
Base XV
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos
vocabulares
1º) Emprega-se o hífen nas palavras compostas por
justaposição que não contêm formas de ligação e cujos
elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou
verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e
mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o
primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arcebispo-bispo,
arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainhacláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaidemor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norteamericano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático,
afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-
ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira;
conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.
Obs.: Certos compostos, em relação aos quais se
perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se
aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva,
pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.
2º) Emprega-se o hífen nos topónimos/topônimos
compostos iniciados pelos adjetivos grã, grão ou por forma
verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo: GrãBretanha, Grão-Pará; Abre-Campo; Passa-Quatro,
Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros, TrincaFortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos,
Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes.
Obs.: Os outros topónimos/topônimos compostos
escrevem-se com os elementos separados, sem hífen:
América do Sul, Belo Horizonte, Cabo Verde, Castelo
Branco, Freixo de Espada à Cinta, etc. O
topónimo/topônimo Guiné-Bissau é, contudo, uma exceção
consagrada pelo uso.
3º) Emprega-se o hífen nas palavras compostas que
designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não
ligadas por preposição ou qualquer outro elemento:
abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde;
benção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-desanto-inácio, bem-me-quer (nome de planta que também se
dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobracapelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d’água,
lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro).
4º) Emprega-se o hífen nos compostos com os
advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento
que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e
tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio
bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com
palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das
várias situações: bem-aventurado, bem-estar, bemhumorado; mal-afortunado, mal-estar, mal- -humorado;
bem-criado (cf. malcriado), bem-ditoso (cf. malditoso),
bem-falante
(cf.
malfalante),
bem-mandado
(cf.
malmandado), bem-nascido (cf. malnascido), bem-soante
(cf. malsoante), bem-visto (cf. malvisto).
Obs.: Em muitos compostos, o advérbio bem aparece
aglutinado com o segundo elemento, quer este tenha ou não
vida à parte: benfazejo, benfeito, benfeitor, benquerença,
etc.
5º) Emprega-se o hífen nos compostos com os
elementos além, aquém, recém e sem: além-Atlântico, alémmar, além-fronteiras; aquém-mar, aquém-Pirenéus; recémcasado, recém-nascido; sem-cerimónia, sem-número, sem- vergonha.
6º) Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas
substantivas,
adjetivas,
pronominais,
adverbiais,
prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o
hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso
(como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-derosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à
queima-roupa).
Sirvam, pois, de exemplo de emprego sem hífen as
seguintes locuções:
a) Substantivas: cão de guarda, fi m de semana, sala de
jantar;
b) Adjetivas: cor de açafrão, cor de café com leite, cor
de vinho;
c) Pronominais: cada um, ele próprio, nós mesmos,
quem quer que seja;
d) Adverbiais: à parte (note-se o substantivo aparte), à
vontade, de mais (locução que se contrapõe a de menos;
note-se demais, advérbio, conjunção, etc.), depois de
amanhã, em cima, por isso;
e) Prepositivas: abaixo de, acerca de, acima de, a fi m
de, a par de, à parte de, apesar de, aquando de, debaixo de,
enquanto a, por baixo de, por cima de, quanto a;
f) Conjuncionais: a fi m de que, ao passo que, contanto
que, logo que, por conseguinte, visto que.
7º) Emprega-se o hífen para ligar duas ou mais
palavras que ocasionalmente se combinam, formando, não
propriamente vocábulos, mas encadeamentos vocabulares
(tipo: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade, a ponte
Rio-Niterói, o percurso Lisboa-Coimbra-Porto, a ligação
Angola-Moçambique, e bem assim nas combinações
históricas ou ocasionais de topónimos/topônimos (tipo:
Áustria-Hungria, Alsácia-Lorena, Angola-Brasil, TóquioRio de Janeiro, etc.).
Base XVI
Do hífen nas formações por prefixação,
recomposição e sufixação
1º) Nas formações com prefixos (como, por exemplo:
ante-, anti-, circum-, co-, contra-, entre-, extra-, hiper-,
infra-, intra-, pós-, pré-, pró-, sobre-, sub-, super-, supra-,
ultra-, etc.) e em formações por recomposição, isto é, com
elementos não autónomos ou falsos prefixos, de origem
grega e latina (tais como: aero-, agro-, arqui-, auto-, bio-,
eletro-, geo-, hidro-, inter-, macro-, maxi-, micro-, mini-,
multi-, neo-, pan-, pluri-, proto-, pseudo-, retro-, semi-, tele, etc.), só se emprega o hífen nos seguintes casos:
a) Nas formações em que o segundo elemento começa
por h: anti-higiênico, circum-hospitalar, co-herdeiro,
contra-harmônico, extra-humano, pré-história, subhepático, super-homem, ultra-hiperbólico; arqui-hipérbole,
eletro-higrômetro, geo-história, neo-helênico, panhelenismo, semi-hospitalar.
Obs.: Não se usa, no entanto, o hífen em formações
que contêm em geral os prefixos des- e in- e nas quais o
segundo elemento perdeu o h inicial: desumano,
desumidificar, inábil, inumano, etc.
b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo
termina na mesma vogal com que se inicia o segundo
elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar,
supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletroótica, micro-onda, semi-interno.
Obs.: Nas formações com o prefixo co-, este aglutinase em geral com o segundo elemento mesmo quando
iniciado por o: coobrigação, coocupante, coordenar,
cooperação, cooperar, etc.
c) Nas formações com os prefixos circum- e pan-,
quando o segundo elemento começa por vogal, m ou n [além
de h, caso já considerado atrás na alínea a]: circum-escolar,
circum-murado, circum-navegação; pan-africano, panmágico, pan-negritude;
d) Nas formações com os prefixos hiper-, inter- e
super-, quando combinados com elementos iniciados por r:
hiper-requintado, inter-resistente, super-revista.
e) Nas formações com os prefixos ex- (com o sentido
de estado anterior ou cessamento), sota-, soto-, vice- e vizo-:
ex-almirante, ex-diretor, ex-hospedeira, ex-presidente, exprimeiro-ministro, ex-rei; sota-piloto, soto-mestre, vicepresidente, vice-reitor, vizo-rei;
f) Nas formações com os prefixos tónicos/tônicos
acentuados graficamente pós-, pré- e pró-, quando o
segundo elemento tem vida à parte (ao contrário do que
acontece com as correspondentes formas átonas que se
aglutinam com o elemento seguinte): pós-graduação, póstónico/pós-tônicos (mas pospor); pré-escolar, pré-natal
(mas prever); pró-africano, pró-europeu (mas promover).
2º) Não se emprega, pois, o hífen:
a) Nas formações em que o prefixo ou falso prefixo
termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s,
devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já
generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos
domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso,
antissemita,
contrarregra,
contrassenha,
cosseno,
extrarregular, infrassom, minissaia, tal como biorritmo,
biossatélite,
eletrossiderurgia,
microssistema,
microrradiografia;
b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo
termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal
diferente, prática esta em geral já adotada também para os
termos técnicos e científicos. Assim: antiaéreo, coeducaçao,
extraescolar, aeroespacial, autoestrada, autoaprendizagem,
agroindustrial, hidroelétrico, plurianual.
3º) Nas formações por sufixação apenas se emprega o
hífen nos vocábulos terminados por sufixos de origem tupiguarani que representam formas adjetivas, como açu, guaçu
e mirim, quando o primeiro elemento acaba em vogal
acentuada graficamente ou quando a pronúncia exige a
distinção gráfica dos dois elementos: amoré-guaçu, anajámirim, andá-açu, capim-açu, Ceará-Mirim.
Base XVII
Do hífen na ênclise, na tmese e com o verbo haver
1º) Emprega-se o hífen na ênclise e na tmese: amá-lo,
dá-se, deixa-o, partir-lhe; amá-lo-ei, enviar-lhe-emos.
2º) Não se emprega o hífen nas ligações da preposição
de às formas monossilábicas do presente do indicativo do
verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc.
Obs.: 1. Embora estejam consagradas pelo uso as
formas verbais quer e requer, dos verbos querer e requerer,
em vez de quere e requere, estas últimas formas conservamse, no entanto, nos casos de ênclise: quere-o(s), requereo(s). Nestes contextos, as formas (legítimas, aliás) qué-lo e
requé-lo são pouco usadas.
2. Usa-se também o hífen nas ligações de formas
pronominais enclíticas ao advérbio eis (eis-me, ei-lo) e ainda
nas combinações de formas pronominais do tipo no-lo, volas, quando em próclise (por ex.: esperamos que no-lo
comprem).
Base XVIII
Do apóstrofo
1º) São os seguintes os casos de emprego do apóstrofo:
a) Faz-se uso do apóstrofo para cindir graficamente
uma contração ou aglutinação vocabular, quando um
elemento ou fração respetiva pertence propriamente a um
conjunto vocabular distinto: d’Os Lusíadas, d’Os Sertões;
n’Os Lusíadas, n’Os Sertões; pel’Os Lusíadas, pel’Os
Sertões. Nada obsta, contudo, a que estas escritas sejam
substituídas por empregos de preposições íntegras, se o
exigir razão especial de clareza, expressividade ou ênfase:
de Os Lusíadas, em Os Lusíadas, por Os Lusíadas, etc.
As cisões indicadas são análogas às dissoluções
gráficas que se fazem, embora sem emprego do apóstrofo,
em combinações da preposição a com palavras pertencentes
a conjuntos vocabulares imediatos: a A Relíquia, a Os
Lusíadas (exemplos: importância atribuída a A Relíquia;
recorro a Os Lusíadas). Em tais casos, como é óbvio,
entende-se que a dissolução gráfica nunca impede na leitura
a combinação fonética: a A=à, a Os = aos, etc.
b) Pode cindir-se por meio do apóstrofo uma contração
ou aglutinação vocabular, quando um elemento ou fração
respetiva é forma pronominal e se lhe quer dar realce com o
uso de maiúscula: d’Ele, n’Ele, d’Aquele, n’Aquele, d’O,
n’O, pel’O, m’O, t’O, lh’O, casos em que a segunda parte,
forma masculina, é aplicável a Deus, a Jesus, etc.; d’Ela,
n’Ela, d’Aquela, n’Aquela, d’A, n’A, pel’A, m’A, t’A, lh’A,
casos em que a segunda parte, forma feminina, é aplicável à
mãe de Jesus, à Providência, etc. Exemplos frásicos:
confiamos n’O que nos salvou; esse milagre revelou-m’O;
está n’Ela a nossa esperança; pugnemos pel’A que é nossa
padroeira.
À semelhança das cisões indicadas, pode dissolver-se
graficamente, posto que sem uso do apóstrofo, uma
combinação da preposição a com uma forma pronominal
realçada pela maiúscula: a O, a Aquele, a Aquela
(entendendo-se que a dissolução gráfica nunca impede na
leitura a combinação fonética: a O = ao, a Aquela = àquela,
etc.). Exemplos frásicos: a O que tudo pode, a Aquela que
nos protege.
c) Emprega-se o apóstrofo nas ligações das formas
santo e santa a nomes do hagiológio, quando importa
representar a elisão das vogais finais o e a: Sant’Ana,
Sant’Iago, etc. É, pois, correto escrever: Calçada de
Sant’Ana, Rua de Sant’Ana; culto de Sant’Iago, Ordem de
Sant’Iago. Mas, se as ligações deste gênero, como é o caso
destas mesmas Sant’Ana e Sant’Iago, se tornam perfeitas
unidades mórficas, aglutinam-se os dois elementos: Fulano
de Santana, ilhéu de Santana, Santana de Parnaíba; Fulano
de Santiago, ilha de Santiago, Santiago do Cacém.
Em paralelo com a grafia
Sant’Ana
e
congéneres/congêneres, emprega-se também o apóstrofo nas
ligações de duas formas antroponímicas, quando é
necessário indicar que na primeira se elide um o final:
Nun’Álvares, Pedr’Eanes.
Note-se que nos casos referidos as escritas com
apóstrofo, indicativas de elisão, não impedem, de modo
algum, as escritas sem apóstrofo: Santa Ana, Nuno Álvares,
Pedro Álvares, etc.
d) Emprega-se o apóstrofo para assinalar, no interior de
certos compostos, a elisão do e da preposição de, em
combinação com substantivos: borda-d’água, cobrad’água, copo-d’água, estrela-d’alva, galinha-d’água, mãed’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo.
2º) São os seguintes os casos em que não se usa o
apóstrofo:
Não é admissível o uso do apóstrofo nas combinações
das preposições de e em com as formas do artigo definido,
com formas pronominais diversas e com formas adverbiais
(excetuado o que se estabelece nas alíneas 1º a e 1º b). Tais
combinações são representadas: a) Por uma só forma
vocabular, se constituem, de modo fixo, uniões perfeitas:
i) do, da, dos, das; dele, dela, deles, delas; deste, desta,
destes, destas, disto; desse, dessa, desses, dessas, disso;
daquele, daquela, daqueles, daquelas, daquilo; destoutro,
destoutra, destoutros, destoutras; dessoutro, dessoutra,
dessoutros,
dessoutras;
daqueloutro,
daqueloutra,
daqueloutros, daqueloutras; daqui; daí; dali; dacolá; donde;
dantes (= antigamente);
ii) no, na, nos, nas; nele, nela, neles, nelas; neste,
nesta, nestes, nestas, nisto; nesse, nessa, nesses, nessas,
nisso; naquele, naquela, naqueles, naquelas, naquilo;
nestoutro, nestoutra, nestoutros, nestoutras; nessoutro,
nessoutra,
nessoutros,
nessoutras;
naqueloutro,
naqueloutra, naqueloutros, naqueloutras; num, numa, nuns,
numas; noutro, noutra, noutros, noutras, noutrem; nalgum,
nalguma, nalguns, nalgumas, nalguém.
b) Por uma ou duas formas vocabulares, se não
constituem, de modo fixo, uniões perfeitas (apesar de serem
correntes com esta feição em algumas pronúncias): de um,
de uma, de uns, de umas, ou dum, duma, duns, dumas; de
algum, de alguma, de alguns, de algumas, de alguém, de
algo, de algures, de alhures, ou dalgum, dalguma, dalguns,
dalgumas, dalguém, dalgo, dalgures, dalhures; de outro, de
outra, de outros, de outras, de outrem, de outrora, ou
doutro, doutra, doutros, doutras, doutrem, doutrora; de
aquém ou daquém; de além ou dalém; de entre ou dentre.
De acordo com os exemplos deste último tipo, tanto se
admite o uso da locução adverbial de ora avante como do
advérbio que representa a contração dos seus três elementos:
doravante.
Obs.: Quando a preposição de se combina com as
formas articulares ou pronominais o, a, os, as, ou com
quaisquer pronomes ou advérbios começados por vogal,
mas acontece estarem essas palavras integradas em
construções de infinitivo, não se emprega o apóstrofo, nem
se funde a preposição com a forma imediata, escrevendo-se
estas duas separadamente: a fi m de ele compreender;
apesar de o não ter visto; em virtude de os nossos pais
serem bondosos; o facto de o conhecer; por causa de aqui
estares.
Base XIX
Das minúsculas e maiúsculas
1º) A letra minúscula inicial é usada:
a) Ordinariamente, em todos os vocábulos da língua
nos usos correntes.
b) Nos nomes dos dias, meses, estações do ano:
segunda-feira; outubro; primavera.
c) Nos bibliónimos/bibliônimos (após o primeiro
elemento, que é com maiúscula, os demais vocábulos,
podem ser escritos com minúscula, salvo nos nomes
próprios nele contidos, tudo em grifo): O Senhor do paço de
Ninães ou O senhor do paço de Ninães, Menino de engenho
ou Menino de Engenho, Árvore e Tambor ou Árvore e
tambor.
d) Nos usos de fulano, sicrano, beltrano.
e) Nos pontos cardeais (mas não nas suas abreviaturas):
norte, sul (mas: SW sudoeste).
f) Nos axiónimos/axiônimos e hagiónimos/hagiônimos
(opcionalmente, neste caso, também com maiúscula):
senhor doutor Joaquim da Silva, bacharel Mário Abrantes,
o cardeal Bembo; santa Filomena (ou Santa Filomena).
g) Nos nomes que designam domínios do saber, cursos
e disciplinas (opcionalmente, também com maiúscula):
português (ou Português), matemática (ou Matemática);
línguas e literaturas modernas (ou Línguas e Literaturas
Modernas).
2º) A letra maiúscula inicial é usada:
a) Nos antropónimos/antropônimos, reais ou fictícios:
Pedro Marques; Branca de Neve, D. Quixote.
b) Nos topónimos/topônimos, reais ou fictícios:
Lisboa, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Atlântida,
Hespéria.
c) Nos nomes de seres antropomorfizados ou
mitológicos: Adamastor; Neptuno/Netuno.
d) Nos nomes que designam instituições: Instituto de
Pensões e Aposentadorias da Previdência Social.
e) Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa,
Ramadão, Todos os Santos.
f) Nos títulos de periódicos, que retêm o itálico: O
Primeiro de Janeiro, O Estado de São Paulo (ou S. Paulo).
g) Nos pontos cardeais ou equivalentes, quando
empregados absolutamente: Nordeste, por nordeste do
Brasil, Norte, por norte de Portugal, Meio-Dia, pelo sul da
França ou de outros países, Ocidente, por ocidente europeu,
Oriente, por oriente asiático.
h) Em siglas, símbolos ou abreviaturas internacionais
ou nacionalmente reguladas com maiúsculas, iniciais ou
mediais ou finais ou o todo em maiúsculas: FAO, NATO,
ONU; H2º, Sr., V. Ex.ª.
i)
Opcionalmente,
em
palavras
usadas
reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente, em
início de versos, em categorizações de logradouros públicos:
(rua ou Rua da Liberdade, largo ou Largo dos Leões), de
templos (igreja ou Igreja do Bonfim, templo ou Templo do
Apostolado Positivista), de edifícios (palácio ou Palácio da
Cultura, edifício ou Edifício Azevedo Cunha).
Obs.: As disposições sobre os usos das minúsculas e
maiúsculas não obstam a que obras especializadas observem
regras próprias, provindas de códigos ou normalizações
específicas (terminologias antropológica, geológica,
bibliológica, botânica, zoológica, etc.), promanadas de
entidades científicas ou normalizadoras, reconhecidas
internacionalmente.
Base XX
Da divisão silábica
A divisão silábica, que em regra se faz pela soletração
(a-ba-de, bru-ma, ca-cho, lha-no, ma-lha, ma-nha, má-ximo, ó-xi-do, ro-xo, te-me-se), e na qual, por isso, se não tem
de atender aos elementos constitutivos dos vocábulos
segundo a etimologia (a-ba-li-e-nar, bi-sa-vó, de-sa-pa-recer, di-sú-ri-co, e-xâ-ni-me, hi-pe-ra-cús-ti-co, i-ná-bil, obo-val, su-bo-cu-lar, su-pe-rá-ci-do), obedece a vários
preceitos particulares, que rigorosamente cumpre seguir,
quando se tem de fazer em fi m de linha, mediante o
emprego do hífen, a partição de uma palavra:
1º) São indivisíveis no interior de palavra, tal como
inicialmente, e formam, portanto, sílaba para a frente as
sucessões de duas consoantes que constituem perfeitos
grupos, ou sejam (com exceção apenas de vários compostos
cujos prefixos terminam em b ou d: ab-legação, ad-ligar,
sub-lunar, etc., em vez de a-blegação,
a-dligar, su-blunar, etc.) aquelas sucessões em que a
primeira consoante é uma labial, uma velar, uma dental ou
uma labiodental e a segunda um l ou um r: a-blução, celebrar, du-plicação, re-primir; a-clamar, de-creto, deglutição, re-grado; a-tlético, cáte-dra, períme-tro; a-fluir, africano, ne-vrose.
2º) São divisíveis no interior da palavra as sucessões de
duas consoantes que não constituem propriamente grupos e
igualmente as sucessões de m ou n, com valor de nasalidade,
e uma consoante: ab-dicar, Ed-gardo, op-tar, sub-por, absoluto, ad-jetivo, af-ta, bet-samita, íp-silon, ob-viar; descer, dis-ciplina, fl ores-cer, nas-cer, res-cisão; ac-ne, ad-
mirável, Daf-ne, diafrag-ma, drac-ma, ét-nico, rit-mo, submeter, am-nésico, interam-nense; bir-reme, cor-roer, prorrogar; as-segurar, bis-secular, sos-segar; bissex-to, contexto, ex-citar, atroz-mente, capaz-mente, infeliz-mente; ambição, desen-ganar, en-xame, man-chu, Mân-lio, etc.
3º) As sucessões de mais de duas consoantes ou de m
ou n, com o valor de nasalidade, e duas ou mais consoantes
são divisíveis por um de dois meios: se nelas entra um dos
grupos que são indivisíveis (de acordo com o preceito 1º),
esse grupo forma sílaba para diante, ficando a consoante ou
consoantes que o precedem ligadas à sílaba anterior; se
nelas não entra nenhum desses grupos, a divisão dá-se
sempre antes da última consoante. Exemplos dos dois casos:
cam-braia, ec-lipse, em-blema, ex-plicar, in-cluir, inscrição, subs-crever, trans-gredir; abs-tenção, disp-neia,
inters-telar, lamb-dacismo, sols-ticial, Terp-sícore, tungsténio.
4º) As vogais consecutivas que não pertencem a
ditongos decrescentes (as que pertencem a ditongos deste
tipo nunca se separam: ai-roso, cadei-ra, insti-tui, ora-ção,
sacris-tães, traves-sões) podem, se a primeira delas não é u
precedido de g ou q, e mesmo que sejam iguais, separar-se
na escrita: ala-úde, áre-as, ca-apeba, co-ordenar, do-er, fluidez, perdo-as, vo-os. O mesmo se aplica aos casos de
contiguidade de ditongos, iguais ou diferentes, ou de
ditongos e vogais: cai-ais, cai-eis, ensai-os, flu-iu.
5º) Os digramas gu e qu, em que o u se não pronuncia,
nunca se separam da vogal ou ditongo imediato (ne-gue, ne-
guei; pe-que, pe-quei), do mesmo modo que as combinações
gu e qu em que o u se pronuncia: á-gua, ambí-guo, averigueis; longín-quos, lo-quaz, quais-quer.
6º) Na translineação de uma palavra composta ou de
uma combinação de palavras em que há um hífen, ou mais,
se a partição coincide com o final de um dos elementos ou
membros, deve, por clareza gráfica, repetir –se o hífen no
início da linha imediata: ex- -alferes, serená- -los- -emos ou
serená- -los- -emos, vice- -almirante.
Base XXI
Das assinaturas e firmas
Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a
escrita que, por costume ou registro legal, adote na
assinatura do seu nome.
Com o mesmo fim, pode manter-se a grafia original de
quaisquer firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e
títulos que estejam inscritos em registro público.
Fonte: Academia Brasileira de Letras
A PONTUAÇÃO
Na linguagem escrita, o sinal de pontuação é cada um
dos sinais utilizados para reconstituir os recursos rítmicos e
melódicos da língua falada. Pode ser entendido também
como o conjunto dos sinais gráficos ou notações que
buscam discriminar os diversos elementos sintáticos da
frase, visando a clareza, as pausas e as modulações próprias
na leitura. Na língua portuguesa, podemos distinguir,
fundamentalmente, três grupos deles.
a) aqueles destinados a marcar as pausas, chamados de
Notações Objetivas, (a vírgula [,], o ponto [.] e o ponto-evírgula [;]);
b) os chamados de Notações Subjetivas, destinados a
marcar a melodia, a entoação (os dois-pontos [:], o ponto de
interrogação [?], o ponto de exclamação ou ponto de
admiração [!] e as reticências [...]);
c) outros sinais, as notações distintivas, com fins
diversos, como as aspas ["], os parênteses [()]. os colchetes
[.], o travessão [—], a chave[{] e o parágrafo.
É preciso que se diga que não há uniformidade entre os
escritores, no que se refere à teoria da pontuação é vária.
Uns exibem um pontuação mais forte e abundante, outros
não. Salvo alguns poucos casos, não há regras absolutas.
Júlio Ribeiro assim definiu a pontuação: "arte de
dividir, por meio de sinais gráficos, as partes do discurso
que não têm entre si ligação íntima, e de mostrar do modo
mais claro as relações que existem entre essas partes".
Para entender bem esse conceito, lembre-se que têm
ligação íntima entre si os termos da oração: o sujeito com o
verbo e o verbo com o seu complemento. Entre o sujeito e o
verbo, assim como entre o verbo e o complemento, não
pode haver vírgula.
Exemplo:
Errado: O rio, descia a serra. (vírgula entre o sujeito e
o verbo)
Correto: O rio descia a serra.
Errado: O fogo devorava, as casas. (entre o verbo e seu
complemento)
Correto: O fogo devorava as casas.
A PONTUAÇÃO EXAGERADA
Uma pontuação exagerada, embora correta, deve ser
evitada, pois acaba por travar a leitura, que não flui
agradavelmente, mas é interrompida de fragmento a
fragmento. Talvez nesse aspecto, o melhor crítico seja o
ouvido. Embora possa não afetar o estilo, vale lembrar a
velha máxima de que todo exagero é prejudicial. As
vírgulas, principalmente, não devem separar com rigor os
complementos circunstanciais, sem escapar um só. Basta
que separem os complementos de maior tamanho, que
possam provocar confusão ou obscurecer o sentido da frase.
Exemplos:
"Não sei quem era, se gente daqui ou não, a pessoa
que, naquela noite, sozinha, atreveu-se, arriscando a
vida, a atravessar, sem medo, as águas do rio."
"A menina veio, como uma avezinha assustada, de
cabeça erguida, no entanto, pelas mãos da mãe, para a
frente da casa; ali recebeu, com estremecimento, o beijo
que, inesperadamente, o pai depositou em sua fronte."
De acordo com as regras gramaticais estes dois
exemplos estão rigorosamente bem pontuados. Quem os ler,
porém, detendo-se a cada vírgula, sentirá que a pontuação
exagerada trunca a leitura, tornando a expressão difícil e
entrecortada. Os dois trechos não perderiam nada se fossem
pontuados desta forma:
"Não sei quem era, se gente daqui ou não, a pessoa
que naquela noite sozinha atreveu-se, arriscando a vida,
a atravessar sem medo as águas do rio."
"A menina veio como uma avezinha assustada, de
cabeça erguida no entanto, pelas mãos da mãe para a
frente da casa; ali recebeu com estremecimento o beijo
que inesperadamente o pai depositou em sua fronte."
Como todo exagero é prejudicial, a pontuação escassa,
com economia de vírgulas e dos demais recursos gráficos
pode ser um defeito, principalmente nos períodos longos.
Neles, a pontuação deficiente traz sonolência, obscuridade e
exigem fôlego para sua leitura. Isso ocorre com frequência
com os oradores. Acostumados a manter o sopro por muito
tempo, disfarçam com a eloquência seus defeitos de estilo.
Ao pontuar suas redações, tenha em mente que elas
serão lidas e que a distribuição dos sinais gráficos deve
privilegiar os seguintes aspectos:
— Assinalar as pausas e as inflexões da voz (a
entonação) na leitura;
— Separar palavras, expressões e orações que devem
ser destacadas;
—
Esclarecer o sentido da frase, afastando
qualquer ambiguidade.
—
A IMPORTÂNCIA
O uso inadequado dos sinais de pontuação podem levar
a uma inversão total no sentido desejado para um
pensamento ou expressão. No anedotário popular há
diversos exemplos disso. Veja alguns deles:
1) Verão uma andorinha só não faz verão.
2) Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do
fazendeiro era também o pai do bezerro.
3) Enforquem o réu não tenham piedade.
4) Deixo os meus bens à minha irmã não a meu
sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos
pobres.
Antes de conhecer as respostas, tente encontrar a
pontuação correta para cada um dos exemplos. Depois que
fizer isso, vamos às respostas:
1) Verão: uma andorinha só não faz verão.
2) Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe; do
fazendeiro era também o pai do bezerro.
3) Neste exemplo, a mudança na pontuação
determina o sentido. "Enforquem o réu; não tenham
piedade" vai condená-lo. "Enforquem o réu não; tenham
piedade" vai salvá-lo.
4) Neste exemplo, a mudança na pontuação altera
radicalmente o sentido, beneficiando cada um dos
citados:
Versão do sobrinho: "Deixo os meus bens à minha
irmã, não; a meu sobrinho; jamais será paga a conta do
alfaiate; nada aos pobres".
Versão da irmã: "Deixo os meus bens à minha irmã,
não a meu sobrinho; jamais será paga a conta do
alfaiate; nada aos pobres".
Versão do alfaiate: "Deixo os meus bens à minha
irmã, não; a meu sobrinho jamais; será paga a conta do
alfaiate; nada aos pobres".
Versão dos pobres: "Deixo os meus bens à minha
irmã, não; a meu sobrinho, jamais; será paga a conta do
alfaiate nada; aos pobres".
N0RMAS GERAIS
A leitura constante e a observação atenta permitiram
que se definissem normas gerais no uso da pontuação.
Vejamos as mais importantes e comuns:
ETC
Abreviatura da expressão latina et cetera (ou caetera),
que significa "e outras coisas". A expressão evoluiu do
sentido original, referindo-se a coisas, passando também a
ser usada para designar pessoas. Assim, não é correto
escrever ou dizer "e etc." Antes da abreviatura, deve haver
sempre um sinal de pontuação, podendo ser o mesmo usado
para separar conjuntos da enumeração ou um outro,
dependendo do contexto. Exemplos:
Trouxe a espada, a lança, o bacamarte, as adagas,
etc. (precedido de vírgula.)
Acordar cedo. Vestir a roupa. Lavar o rosto. Tomar
café. Etc. (precedido de ponto final.)
Lembre-se que a abreviatura etc, isoladamente, não é
acompanhada de ponto (etc.), comum a outras abreviaturas.
Isso tem levado muita gente ao erro de pontuar assim uma
frase onde ela apareça:
Tinha comida, bebida, música, alegria, etc..
Isso ocorre porque em fim de frase declarativa, não se
usam lado a lado o ponto abreviativo e o ponto-final. A
tradição consagrou a simplicidade e o ponto acumula as
duas funções.
DIÁLOGOS
Inexistem regras oficiais, mas Othon M. Garcia, em
seu livro Comunicação em Prosa Moderna, assim resumiu a
pontuação dos diálogos:
"Nas obras mais recentes, ou em muitas reedições
atualizadas de antigas, se vêm firmando as seguintes
normas, segundo pudemos observar em inúmeros
autores:
a) travessão inicial em vez de aspas;
b) oração do verbo dicendi [Ex.: — Vamos — disse
ela] precedida por travessão;
c) aspas só para fala isolada dentro de parágrafo em
discurso indireto, quando não seguida de réplica;
d) o travessão torna prescindível qualquer outro
sinal de pontuação, salvo os pontos de interrogação, de
exclamação e as reticências;
e) novo período de fala no mesmo parágrafo, após a
oração do verbo dicendi; deve vir precedido por
travessão, para que não se confundam palavras do autor
com as da personagem;
f) a oração do verbo dicendi, quando intercalada na
fala, pode vir também cercada por vírgula, em vez de
travessões, desde que o fragmento da fala que a preceda
não exija ponto de interrogação ou de exclamação ou
reticências;
g) Quando a oração do verbo dicendi precede toda a
fala, deve vir obrigatoriamente seguida de dois-pontos."
(Othon M. Garcia. Comunicação em Prosa
Moderna. Rio de Janeiro, Fund. Getúlio Vargas, 1967. p.
137-8.)
Trata-se de uma verdadeira aula sobre o uso da
pontuação nos diálogos e merece que nos detenhamos um
pouco mais para entender todo esse conteúdo. Inicialmente,
vamos relembrar o que são os verbos dicendi:
"Cada um dos verbos como, p. ex., dizer, afirmar,
exclamar, perguntar, responder, redarguir, que
antecedem, mediata ou imediatamente, uma declaração,
pergunta, etc. O processo mais simples para isso [para o
narrador dar a conhecer ao leitor palavras ou
pensamentos de outrem] é apresentar-nos o indivíduo e
deixá-lo expressar-se, acrescentando-se um verbo
dicendi (disse, perguntou, respondeu) para anunciar a
entrada do novo falante." (J. Matoso Câmara Jr., Ensaios
Machadianos, p. 25.)
Vejamos, agora, uma a uma essas regras:
a) travessão inicial em vez de aspas. Isso significa que
os diálogos devem ser marcados com um travessão e não
com aspas, como nos seguintes exemplos:
Errado: "Serão os vagalumes?" indagou a menina.
"Não, são os olhos do boitatá" respondeu o velho.
Correto: — Serão os vagalumes? — indagou a menina.
— Não, são os olhos do boitatá — respondeu o velho.
b) oração do verbo dicendi (Ex.: — Vamos — disse
ela.) precedida por travessão. Nos exemplos corretos
acima, observe que antes dos verbos dicendi "indagou" e
"respondeu", é usado o travessão. Na verdade, os dois
travessões, o inicial e o que precede o verbo dicendi, isolam
o registro da fala das personagens.
c) aspas só para fala isolada dentro de parágrafo em
discurso indireto, quando não seguida de réplica. Vamos
relembrar o que é discurso direto e discurso indireto.
Discurso direto é reprodução das palavras de alguém nos
termos exatos em que foram ditas, como nos exemplos
corretos já citados. Discurso indireto é a reprodução das
palavras de alguém na terceira pessoa, quer atribuindo-as
claramente a outra pessoa em orações subordinadas a um
verbo dicendi, quer dizendo-as por sua própria conta em
orações independentes. Por exemplo: Ela disse que não iria
viajar, mas ele garantiu que ela iria. Na regra definida por
Othon M Garcia, aspas seriam utilizadas para marcar uma
fala em exemplos como este:
Quando perguntada se iria viajar, ela disse
categoricamente "eu vou." Já o marido dela foi
igualmente firme ao dizer "ela não vai."
d) o travessão torna prescindível qualquer outro sinal
de pontuação, salvo os pontos de interrogação, de
exclamação e as reticências.
Esta é uma regra fácil de entender, uma vez que seria
exagero colocar dois sinais de pontuação juntos.
Não usar: — Eu digo que será menina, — falou a mãe.
O correto: — Eu digo que será, menina — falou a mãe.
Se a frase comportar Notações Subjetivas (pontos de
interrogação, exclamação ou reticências), estas deverão ser
registradas antes do travessão. Exemplos:
— Venha para dentro, menina! — ordenou a mãe.
— Quem será esse sujeito? — indagou o professor.
— Talvez eu vá... — murmurou ela, com um sorriso.
e) novo período de fala no mesmo parágrafo, após a
oração do verbo dicendi; deve vir precedido por travessão,
para que não se confundam palavras do autor com as da
personagem. Fica fácil de entender essa regra com o
seguinte exemplo.
— Às vezes eu me pergunto onde vamos parar —
começou ele, cofiando a barba. — A cada dia as coisas
ficam piores.
Após o registro da fala inicial, segue-se um travessão e
o verbo dicendi (... começou ele...). Em seguida, a
personagem continua falando. Isso é marcado com o uso de
um novo travessão.
f) a oração do verbo dicendi, quando intercalada na
fala, pode vir também cercada por vírgula, em vez de
travessões, desde que o fragmento da fala que a preceda
não exija ponto de interrogação ou de exclamação ou
reticências. Veja nos exemplos a seguir as duas opções
possíveis.
— Nunca quis isso — disse ele — pois nunca me
pareceu correto.
— Nunca quis isso, disse ele, pois nunca me
pareceu correto.
Isso não será possível que o trecho inicial da fala
terminar com uma notação subjetiva, como nos exemplos a
seguir.
— Nunca quis isso? — indagou ele. — Pois nunca
me pareceu correto.
— Nunca quis isso! — exclamou ele. — Nunca me
pareceu correto.
— Nunca quis isso... — murmurou ele. — Nunca me
pareceu correto.
g) Quando a oração do verbo dicendi precede toda a
fala, deve vir obrigatoriamente seguida de dois-pontos.
Veja nos exemplos:
Ela disse energicamente:
— Você precisa plantar logo!
Após observar todo o horizonte com os olhos
semicerrados, ele se voltou para ela e comentou
tristemente:
— Mais um dia de seca... Mais um dia sem chuva!
Plantar como?
ASPAS
As aspas, também chamadas vírgulas dobradas ou
comas, usam-se:
1) No princípio e no fim de uma citação textual
(palavra, expressão, frase ou trecho), para distingui-la da
parte restante do discurso, como neste exemplo:
Conforme o dicionário, canjica é "papa de
consistência cremosa, feita com milho verde ralado, a
que se acrescenta açúcar, leite de vaca ou de coco, e
polvilha com canela. "
2) Põem-se entre aspas palavras e expressões
estranhas ao nosso vocabulário, estrangeiras ou termos
da gíria, títulos de obras literárias ou artísticas, jornais ou
revistas ou qualquer expressão que deseje destacar:
Nos anos sessenta, ser "hippie" estava na moda.
Erasmo
Carlos
era
conhecido
como
"Tremendão".
"Lusíadas" canta a alma portuguesa.
"Veja" é uma das revistas mais lidas do país.
O "Estadão" trouxe a notícia na sua edição de
hoje.
Parece que o tema na ordem do dia é "a miséria
do país".
3) Para chamar a atenção do leitor a certas palavras
que pretendemos fazer sobressair:
"Para bens" não é a mesma coisa que
"parabéns".
Não confunda "conhaque de alcatrão" com
"catraca de canhão".
4) Para caracterizar nomes e apelidos:
O "Almirante Tamandaré" ganhou o mar.
Viajamos pela "Panair".
Era tão corajoso que recebeu o apelido de "João
Bravo".
5) Marca expressões, vocábulos, palavras, letras
(substantivadas
pelo
contexto)
citadas
ou
exemplificadas:
Para mim, aquilo soou como um "até nunca
mais"
Palavras escritas com "x" e com "ç" provocam
muitas confusões.
Vamos estudar hoje as funções do "que".
6) Segundo o Pequeno Vocabulário Ortográfico da
Língua Portuguesa, "quando a pausa coincide com o
final da expressão ou sentença que se acha entre aspas,
coloca-se o competente sinal de pontuação depois delas,
se encerram apenas uma parte da proposição." Exemplo:
Aquele olhar tinha o significado de um "eu te
pego depois".
Note que primeiro fecham-se as aspas, depois
acrescenta-se o ponto final. O mesmo ocorreria se, ao
invés do ponto final, tivéssemos um ponto de
interrogação, dois pontos, ponto de exclamação,
reticências ou qualquer outro sinal de pontuação.
"Quando, porém, as aspas abrangem todo o período,
sentença, frase ou expressão, a respectiva notação fica
abrangida por elas."
Diz o ditado popular: "quem tudo quer, tudo
perde."
Ou:
Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!
"Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
(Machado de Assis.)
7) Antenor Nascente, em seu livro "O Idioma
Nacional", recomenda:
"Se o trecho contiver diversos parágrafos, as aspas
de abertura deverão estar antes da primeira palavra de
cada parágrafo e as de fechamento depois da última
palavra do derradeiro parágrafo:"
"Disse D. Antônio de Macedo Costa:
"Restaurar moral e religiosamente o Brasil!
"Esta é a obra das obras; a obra essencial, a
obra fundamental sobre que repousa a estabilidade
do trono e o futuro da nossa sociedade. "
"Se o trecho contiver por sua vez alguma citação,
deverá esta trazer aspas de abertura no começo de cada
linha e aspas de fechamento unicamente no fim da
derradeira palavra da última linha.
"Disse D. Antônio de Macedo Costa:
"Um grande escritor protestante, cujo nome não
preciso declinar, porque todos o conheceis, confessa
em uma de suas obras esta verdade: "Lavra na
sociedade "moderna, diz ele, um grave mal que é o
desrespeito à autoridade. A Igreja Católica "é a
maior e mais santa escola de respeito que há sobre a
terra".
"A França precisa de catolicismo".
Se for preciso recorrer a aspas dentro de um trecho
já aspado, usa-se aspas simples: "Quando ele dizia
'agora’ queria dizer 'agora’ mesmo e não admitia
demoras." (Memórias Jamais Escritas.)
8) Frequentemente sublinha-se, na escrita, as
citações e os dizeres para os quais se quer chamar a
atenção, dispensando as aspas. As palavras sublinhadas,
ou grifadas, correspondem, nas obras impressas, ao tipo
diferente, sendo mais frequentes o uso do negrito ou
normando (letras de corpo mais cheio) e do itálico
(letras inclinadas).
DOIS PONTOS
O sinal chamado "dois pontos" (:) indica, na leitura,
uma pausa maior que o ponto e vírgula. É empregado nos
seguintes casos:
a) Anunciar uma citação. Exemplo:
Disse Jesus: amai-vos uns aos outros.
b) Indicar uma enunciação ou uma enumeração.
Nesses casos, os objetos enumerados ou o enunciado
pode vir depois do verbo da oração. Exemplo:
Há duas formas de se chegar ao amor: a
dedicação e a renúncia.
O prefeito finalizou, dizendo: o progresso nos
espera.
Há casos, porém, em que o enunciado ou a
enumeração vêm antes do verbo.
Trabalho e economia: eis o caminho para a
recuperação econômica.
E haverá casos em que o verbo poderá estar
elíptico ou nem existir:
Primeiro passo para a boa saúde: levantar
com o sol e dormir com as galinhas.
c) Evidenciar uma reflexão ou uma explanação.
Exemplos:
Fique calmo: a cólera sempre foi uma
funesta conselheira.
O amor é perigo e prazer: perigoso como o
espinho de uma rosa, prazeroso como o perfume
dessa mesma rosa.
d) Separar, na redação de leis, decretos,
portarias, alvarás, sentenças, acórdãos e diplomas
sociais, o preâmbulo do corpo do documento, após
uma série de considerandos. Exemplo:
O Presidente da República,
Considerando a atual estado dos municípios
brasileiros;
Considerando a disponibilidade de caixa:
Considerando as necessidades da educação;
Decreta:
Fica criado o Fundo Nacional para a
Educação...
O Prefeito Municipal, no uso de suas
atribuições legais, faz saber que a Câmara
Municipal aprovou e ele sanciona a seguinte lei:
Art. 1o. Fica criado o Conselho Municipal de
Educação...
e) Anunciar a fala dos personagens nas histórias
de ficção. Exemplos:
Disse o menino:
— Se Papai Noel existe, porque nunca passou
por aqui?
Após examinar todos os presentes, o homem
começou:
— A todos os que vieram, a minha gratidão;
àqueles que se ausentaram, o meu mais profundo
rancor.
f) Introduzir aposto e orações apositivas. A
oração apositiva funciona como um aposto. Para
entender isso, é preciso saber o que é aposto. Aposto:
"Nome, ou expressão equivalente, que exerce a
mesma função sintática de outro elemento a que se
refere. Ex.: Joana, irmã de Pedro, sofreu um acidente.
Seu objetivo é, via de regra, esclarecer ou ampliar o
sentido de um termo ou expressão já citado. Exemplo:
Sócrates, o jogador de futebol, pendurou as
chuteiras.
A expressão "jogador de futebol" é um aposto
que amplia o sentido da palavra anterior "Sócrates".
Como exemplo do uso de dois pontos para
indicar oração apositiva, temos:
A causa final da violência é esta: a miséria
desumaniza o homem.
Tenho uma condição: você será o primeiro.
É doloroso esta verdade: o amor um dia
acaba.
Como exemplos de aposto, temos:
Fez por merecer tudo aquilo: a dor e a
solidão.
É difícil encarar isso: o fim da felicidade.
g) Indicar esclarecimento, um resultado ou
resumo do que foi dito. Exemplos:
Tenho tudo que quero: esposa, filhos, uma
boa casa e um carro confortável.
Fez tudo por merecer: a riqueza, a felicidade
e o amor.
Resultado: depois de todo aquele trabalho,
veio a chuva e lavou todo o terreno.
Em resumo: perdemos tudo.
h) Substituir o Ponto e Vírgula no período
composto e complexo, evitando a sua repetição em
excesso. Exemplo:
As crianças corriam pelos corredores,
desfazendo as filas formadas no pátio, embrenhandose nas salas pelas portas escancaradas, esbarrandose e tropeçando uns nos outros; avançam para as
carteiras, cada qual procurando escolher o melhor
lugar; vinham afoitos e quase em desespero: diante
do quadro-negro, com ar impassível, o professor
apenas observava aquela avalanche de rostos alheios
a sua presença.
HÍFEN
No Apêndice, Novo Acordo Ortográfico, especifica-se
o uso do hífen. Lembrando que o tema é complexo, é bom
lembrar casos em que não se deve usar o hífen.
1 — Nas locuções, isto é, sequencias unitárias em que
as palavras empregadas mantêm a autonomia própria.
Exemplos:
Locuções substantivas: anjo da guarda, arma de fogo,
cão de guarda, comes e bebes, estrada de ferro, via férrea,
juiz de direito, navio a vapor, sala de estar, sala de visitas,
etc.
Locuções adjetivas: cor de café, cor de vinho, de
pimenta, etc.
Locuções numerais: ambos os dois, vinte e um,
vigésimo primeiro, etc.
Locuções pronominais: cada um, ele mesmo ou ele
próprio, nem um nem outro, nós outros, o qual, quem quer
que (seja), seja quem for, um e outro, etc.
Locuções verbais: há de vir, havia saído, tenho de
viajar, etc.
Locuções adverbiais: afinal de contas, a miúdo
(amiúde), assim mesmo, a propósito (= a-propósito, s. m.), à
toa (= à-toa, adj.), à vontade (= à-vontade, s.m.), de novo, de
repente, entre lusco e fusco (= lusco-fusco, s.m.), etc.
Locuções prepositivas: a fim de, à exceção de, apesar
de, de envolta com, de par com, por mor de, etc.
Locuções conjuntivas: a fim de que, a menos que, dês
que (desde que), para que (= para-quê, s.m.), por isso que,
etc.
Locuções interjetivas: ai de mim, com a breca, ora
essa, qual o quê, quem me dera, etc.
Mas atenção:
Há composições hifenizadas semelhantes a locuções,
como agora-agora, assim-assim, logo-logo, mal-(e-)mal,
sem-número, sem-par, tão-só, tão-somente; etc.
Há casos de hífen prévio em um elementos da locução:
a (seu) bel-prazer, à beira-mar, ao deus-dará, ao luscofusco, à queima-roupa, voltar à vaca-fria, cheio de novehoras, de mão-cheia, de meia-tigela, etc.
Certos elementos de locução acabam aglutinados
progressivamente: abaixo de, acerca de, ademais, debalde
ou embalde, decerto, defronte, depressa, devagar, destarte,
deveras, embaixo, entretanto, malgrado, outrossim,
porventura, qualquer, sobremaneira, sobretudo, tampouco.
Nos casos em que já não há consciência da
composição, por perda de tonicidade própria ou falta de
autonomia mórfica: aguardente, aguarrás, alçapão (ou
mão-cheia), mandachuva (mas guarda-chuva), passatempo,
pontapé, quefazer, rodapé, sanguessuga, sobremesa,
vaivém, viravolta, etc.
Nas prefixações que não estejam no estrito
condicionamento regulado pelas normas oficiais: aeroporto,
agroindustrial, agropecuário, audiovisual, bicampeão,
tricentinario, tetracampeonato, eletroímã, macrorregião,
microrregião, radiouvinte, sobreloja, subsolo, subabitação,
subumano, telerrepórter, etc.
Alguns prefixos e elementos prefixados nunca
seguidos de hífen, segundo o vocabulário oficial
acro endo iso
aer(o) filo justa
anfi fisio labio
apico gastr(o) linguo
auri ge(o) macro
auro hemi maxi
bi(s) hepta medio
bio hetero mega
cata hexa meso
cerebr(o) hidr(o) meta
cervico hip(o) micr(o)
cis homo mini
de(s) idio mono
di(s) ido moto
ego in multi
ele(c)tro intro nefro
neutro quadri tetra
novi quarti trans
oct(o) quilo traque(o)
oni quinq tras
orto radi(o) tres
oto re tri
para retro turb(o)
penta rino uni
per sacro uretr(o)
peri sesqui vas(o)
poli socio vesic(o)
pos subter xanto
pre sulf(o) xilo
pro tele zinco
preter termo zoo
psic(o) ter
Sempre que haja vogal de ligação: alviazul,
agropastoril, geociências, natimorto, sociolinguística,
setissílabo...
Nas elipses de elementos hifenizados que se repetiam
numa coordenação: além e aquém-mar; ama-seca ou deleite; bem e mal-educado; laranja-do-céu e da-baía; um
ponta-direita ou esquerda; segunda, terça ou quarta-feira.
HÍFEN ESTILÍSTICO
Para transmitir certos matizes semânticos, com o
intuito de tornar uma o texto mais expressivo, escritores
empregam o hífen de modo não previsto nas normas oficiais
e, não raro, até contrário a ela. Exemplos:
Fernando Pessoa — Álvaro de Campos:
"o grande cobertor não-cobrindo-nada das
aparências."
Carlos Drummond de Andrade:
"como a um não-morrer-morrido."
Gustavo Corção, Liçòes de Abismos:
"um homem-que-sabe-que-vai-morrer"
Na poesia, a divisão silábica tem sido usada
expressivamente:
"E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado."
(Mario Quintana.)
"[...] donzelas opulentas
que ao piano abemolavam
‘bus-co a cam-pi-na-se-re-na
pa-ra-li-vre-sus-pi-rar’"
(Carlos Drummond de Andrade.)
PARÁGRAFO
Parágrafo ou alínea é a "seção de discurso ou de
capítulo que forma sentido completo, e que usualmente se
inicia com a mudança de linha e entrada." (Parágrafo, do
grego: para=perto, grafo=escrevo; alínea, latino: a=de
(afastamento), linea=linha.) São as seções de um livro,
capítulo ou discurso, podendo conter um ou mais períodos.
Normalmente encerra um pensamento ou grupo de
pensamentos e indica uma pausa mais forte. Seu conteúdo
guarda certa relação entre o parágrafo antecedente e o
subsequente. Literariamente, as regras para uso do parágrafo
não são arbitrárias, dependendo do critério e do estilo do
autor. Por exemplo:
"Mas o sino o atraía, naquela manhã cinzenta.
Voltou a olhá-lo. Ouvia seu repicar, sentado à porta de
seu rancho, lá na Fazenda.
A Fazenda...
Cafezal do bom!
A geada...
Que tristeza!"
(Sassarico, L. P. Baçan.)
Isso não ocorre, porém, em decretos, leis e outros
documentos formais, em que os parágrafos são
determinados pelo assunto exposto. Nesses casos, é costume
assinalar o parágrafo com o símbolo formado por dois ss
entrelaçados, inicias das palavras latinas signum sectionis =
sinal de secção, de corte. Quando, porém, houver a
necessidade de se assinalar a existência de um único
parágrafo, o sinal não é utilizado e o parágrafo é assinalado
por escrito. Exemplo:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada
pela União indissolúvel dos Estados e Municípios e do
Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de
Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa;
V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo,
que o exerce por meio de representantes eleitos ou
diretamente, nos termos desta Constituição.
(Constituição da República Federativa do Brasil.)
Caso sejam relacionados mais de um parágrafo,
obrigatoriamente eles serão numerados, como no exemplo
abaixo:
Art. 13. A língua portuguesa é o idioma oficial da
República Federativa do Brasil.
§ 1º São símbolos da República Federativa do
Brasil a bandeira, o hino, as armas e o selo nacionais.
§ 2º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios
poderão ter símbolos próprios.
(Constituição da República Federativa do Brasil.)
PARÊNTESES
São sinais "()" usados para isolar palavras ou frases
intercaladas num período. Segundo o dicionário, são sinais
de pontuação que encerram (isolam) frases intercaladas num
período ou períodos intercalados num texto, formando
sentido à parte. Exemplo:
Todos aguardavam o começo da história (ele tomou
um gole de café e acendeu o pito lentamente), cumprindo
um ritual conhecido de todos.
Podem ser utilizados também, juntamente com as
reticências, para indicar a supressão de uma frase ou de um
trecho de uma transcrição. Exemplo:
Lê-se claramente no livro: "A cidade (...) é o berço
e o túmulo do homem."
Os parênteses também podem ser utilizados em sua
forma angular "[]", sendo chamados de colchetes ou
parênteses quadrados.
Observe, no exemplo acima, que a vírgula foi colocada
após o segundo parêntese e não antes desse, pois a
intercalação coincidiu com esse ponto do período. Sem a
intercalação, teríamos:
Todos aguardavam o começo da história,
cumprindo um ritual conhecido de todos.
Obviamente, se a intercalação fosse num outro ponto
do período, não haveria necessidade de colocação da
vírgula, uma vez que o período continua tendo sua
pontuação normal e uso dos parênteses não exige tratamento
especial nesse sentido.
Veja como ficaria o exemplo, com a intercalação em
outro ponto do período:
Todos aguardavam (ele tomou um gole de café e
acendeu o pito lentamente) o começo da história,
cumprindo um ritual conhecido de todos.
Ou:
Todos aguardavam (ele tomou um gole de café) o
começo da história, cumprindo um ritual (acendeu o pito
lentamente) conhecido de todos.
Quando uma frase inteira ou uma unidade autônoma se
acha isolada pelos parênteses, deve ser pontuada
normalmente. Exemplos:
Ela me disse (finalmente!) que me amava.
Voltou a gritar o lema (Viva a França!) que o
levaria à morte.
Isso é muito frequente quando, ao final de uma citação,
menciona-se o nome do livro, do autor ou ambos.
Exemplos:
(Memórias Póstumas de Brás Cubas.)
(Gonçalves Dias, "Canção do Exílio".)
(Fernando Pessoa, Mensagem.)
(Mario Quintana.)
Quando
isso
acontece,
não
pode
haver
simultaneamente pontos finais antes e depois dos
parênteses. Se houver um ponto final antes, o próximo
ponto final antes do segundo parênteses. Exemplo:
Começou a tecer os pontos. Trabalho mecânico.
Automático. Podia fazê-lo de olhos fechados, entregue
aos pensamentos. (Sassarico, L. P. Baçan.)
Ou:
Começou a tecer os pontos. Trabalho mecânico.
Automático. Podia fazê-lo de olhos fechados, entregue
aos pensamentos (Sassarico, L. P. Baçan).
Jamais:
Começou a tecer os pontos. Trabalho mecânico.
Automático. Podia fazê-lo de olhos fechados, entregue
aos pensamentos. (Sassarico, L. P. Baçan).
Ou:
Começou a tecer os pontos. Trabalho mecânico.
Automático. Podia fazê-lo de olhos fechados, entregue
aos pensamentos (Sassarico, L. P. Baçan.).
A oração intercalada, quando for completa, encerrando
uma consideração ou um pensamento independente será
iniciada por letra maiúscula. Exemplo:
Quando o lobo mau sentiu o calor do fogo em suas
calças (Ele imitou o desespero da personagem.) e ouviu
os latidos dos cachorros, tratou de fugir logo.
Estilisticamente, parênteses muito longos podem
prejudicar a clareza de um período. Recomenda-se critério
no seu uso, principalmente nas dissertações. Quando a frase
intercalada for curta, pode ser mais conveniente substituir os
parênteses por vírgulas ou travessão. Exemplos:
Ela me disse, finalmente!, que me amava.
Eu não sabia — quem sabe, afinal de contas,
depois de ter amado tanto? — o significado do amor.
Parênteses também são utilizados com frequência para
incluir um número (1) de referência ou de ordem num texto,
uma data (8 de janeiro de 1950), uma letra (a) de referência
ou de ordem, um asterisco (*) ou qualquer outro sinal fora
do contexto.
Na indicação dos diversos itens de um texto, é comum
iniciar o período usando apenas o segundo semicírculo: a)
— b) — c).
O asterisco entre parênteses serve para chamar a
atenção do leitor para as observações ou notas no final do
texto ou da página.
Preste atenção a este detalhe: parênteses, plural, indica
os dois semicírculos; parênteses, singular, indica o conjunto
dos dois semicírculos e de seu conteúdo, parêntese, singular,
cada um dos sinais gráficos. Exemplos
Entre os parênteses, intercale a oração exclamativa.
Abrimos um parênteses para explicar o significado
da palavra.
Após o último parêntese, coloque a vírgula.
Se você estiver lendo um texto em voz alta ou fazendo
um discurso onde surja uma oração intercalada por
parênteses, lembre-se de que esse trecho deve ser lido ou
proferido num tom um pouco mais baixo do que o do
contexto.
PONTO DE EXCLAMAÇÃO
O Ponto de Exclamação ou de Admiração marca as
palavras, frases, orações ou expressões que exprimem
admiração, espanto ou surpresa. Para melhor entender,
vejamos qual é o conceito de exclamação, segundo o
dicionário: "Ato de exclamar; voz, grito ou brado de prazer,
alegria, raiva, tristeza, dor." Exemplos:
Viva, ganhei meu presente!
Isto é muito bom!
Aquilo me deu um ódio!
Deus, como eu sinto a falta do meu amor!
O Ponto de Exclamação é empregado também depois
das interjeições. Vamos ver o que é uma interjeição: palavra
invariável que exprime as manifestações vivas e súbitas da
alma, como a dor, a alegria, o medo, o espanto, etc. É uma
palavra invariável porque não flexiona em gênero
(masculino e feminino), número (singular e plural) ou grau
(aumentativo e diminutivo).
Podem ser classificadas conforme os sentimentos que
exprimem. Por exemplo:
a) de alegria: ah! oh! eh!
b) de animação: eia! sus! coragem!
c) de apelo: ó! olá! psit! psiu! alô!
d) de aplauso: bom! Muito bem! bravo! Apoiado!
e) de aversão: ih! chi! irra! apre!
f) de desejo: oxalá! oh! tomara!
g) de dor: ai! ui!
h) de silêncio: chitão! caluda! psiu! tá!
Há também interjeições imitativas ou onomatopaicas.
E você sabe o que é uma onomatopeia? É: "Palavra cuja
pronúncia imita o som natural da coisa significada
(murmúrio, sussurro, cicio, chiado, mugir, pum, reco-reco,
tique-taque.)
Exemplo de interjeições onomatopaicas:
zás! bam! vupt!
Além disso, as interjeições podem ser Simples — ai,
oh! — e Compostas ou Locuções interjetivas — aqui-praele! coitado de mim!
Estilisticamente, o ponto de exclamação pode vir junto
do ponto de interrogação para indicar, ao mesmo tempo,
uma indagação e uma admiração ou vice-versa. Exemplos:
Se o amor está no coração, por que ter um
coração?!
Dizem que estamos aprendendo inglês para
navegar na Internet!?
Quando você escrever, fique atento à diferença entre ó
e oh!
Ó: "Usado para chamar alguém, para conciliar-lhe
atenção, para invocar, e, ainda, para exprimir vários afetos e
impressões da alma: "Deus! ó Deus!" É usado junto a um
vocativo. (Para recapitular o que é "Vocativo", veja em
"Vírgula".)
Oh!: "Exprime espanto, surpresa, alegria, tristeza,
admiração, lástima, repugnância e outras impressões vivas
ou súbitas: Oh! você por aqui?; "Oh! que saudades que
tenho."
É usado obrigatoriamente no encerramento de uma
oração com verbo no imperativo. (Imperativo – modo
verbal: forma assumida pelo exprimir uma ordem,
imposição, ditame, dever, etc. Exemplos:
Ouça-me agora mesmo!
Devo esquecê-la!
Faça isso!
Siga seu coração!
PONTO DE INTERROGAÇÃO
O sinal chamado Ponto de Interrogação (?) é usado no
fim de uma palavra, oração ou frase, indicando uma
pergunta direta. Na leitura, deve ser marcada com uma
entonação ascendente. Exemplos:
Quem foi o culpado?
Quer alguma coisa aqui?
Observe que o ponto de interrogação não é usado,
quando se tratar de uma pergunta indireta. Exemplos:
Quero que me digas tudo agora!
Vou esperar você me dizer tudo.
Nem sempre esse ponto encerra o. Nos diálogos, por
exemplo, indica a pergunta, sempre que o período tiver
sequencia e a letra que vem depois dele deve ser minúscula,
a menos que seja um nome próprio. Nas palavras, frases ou
orações intercaladas ocorre o mesmo. Exemplos:
— Quem fez isso? — indagou o professor.
— Ficamos sem resposta, e quem saberia
responder?, diante daquele enigma.
A Lei (quem pode desmentir?) é a único
instrumento de justiça a ser preservado.
Pode surgir combinado com o ponto de exclamação ou
com as reticências. Exemplos:
— Eu?! Quem me dera!
Poderia ser a mesma pessoa que...? Não, jamais!
PONTO E VÍRGULA
A melhor maneira de entender o uso do Ponto e
Vírgula (;) é comparando-o ao ponto (.) e à virgula (,)
isoladamente. Inicialmente, em termos de leitura, situa-se
num ponto intermediário entre os outros dois.
Funcionalmente, a vírgula separa conceitos, ideias e frases;
o ponto e vírgula separa juízos e orações; o ponto final
indica o término do raciocínio ou do período.
É usado nos seguintes casos:
a) Para separar orações absolutas de certa extensão,
sobretudo se possuem partes já separadas por vírgula.
Lembra-se o que é uma oração absoluta?
Oração absoluta é a que forma, por si, sentido
completo ou independente. Exemplo:
A vida é uma caminhada na direção da morte.
Vim, vi, venci.
Podemos ter duas orações com sentido completo,
unidas por uma conjunção coordenativa. Exemplo:
O estudo abre a mente e os livros desvendam o
mundo.
Vim, vi e venci.
Exemplos do emprego de ponto e vírgula nesses casos:
O estudo abre a mente; os livros desvendam o
mundo.
De tudo que há no mundo, nada pode ser mais
perigoso que uma palavra mal empregada; nada mais
terrível, nada mais abominável.
Todos descendemos do pecado original; pecadores
já no nascimento.
b) Para separar as partes principais de uma frase cujas
partes complementares estão separadas por vírgulas.
Exemplo:
A falta era grave, todos sabiam, embora não
mencionassem; talvez isso fosse mais grave que a
própria falta.
Os mais velhos traziam seus rosários, seus livros,
suas riquezas; os mais novos, apenas a esperança.
c) Para separar considerados no preâmbulo de um
decreto, portaria, sentença, acórdão ou documento
semelhante. Exemplo:
Considerando o que faculta a lei 1234, de 01/02/34;
Considerando as necessidades da Escola:
Considerando as últimas resoluções aprovadas pelo
Grêmio Estudantil:
Ficam os alunos da escola liberados do uso de
uniformes no período noturno...
Note que, após o último considerando, a pontuação
correta é com Dois Pontos.
PONTO FINAL
Acreditamos que, em relação aos sinais de pontuação,
este é um dos mais fáceis de ser entendido. O ponto final é
empregado para fechar ou finalizar um período gramatical.
Exemplos:
O navio fez-se ao mar e uma grande apreensão
invadiu os habitantes da aldeia.
Vim. Vi. Venci.
É usado, também, nas abreviaturas. Exemplos:
Sr. (senhor), a.C. (antes de Cristo), pág. (página),
P.S. (Post scriptum), etc.
Quando o período, oração ou frase termina por uma
abreviatura, não se coloca o ponto final adiante do ponto
abreviativo, que tem, nesses casos, dupla serventia.
Exemplos:
A erupção do vulcão deu-se em 65 a.C.
Os alunos traziam, como sempre, canetas,
cadernos, livros, pastas, etc.
Eduardo Carlos Pereira, em sua Gramática Expositiva,
ministra uma breve e significativa aula a respeito do uso do
ponto final na divisão dos período. Vale a pena transcrevêla:
Mais comumente os períodos se relacionam entre si
para constituírem o discurso. Neste caso devem eles
conter um pensamento completo e gramaticalmente
independente da série dos pensamentos parciais, cuja
totalidade forma o discurso. Não há, nem pode haver,
regras fixas para a divisão dos períodos assinalados
pelos ponto final. Em nosso clássicos havia a tendência
de amplificar o pensamento em longos períodos,
recheados de multiplicadas circunstâncias, dificultando
a inteligência da frase.
A tendência moderna é resolver essas
circunstâncias em novos períodos, encurtando-os e
multiplicando-os, e tornando, destarte, a expressão do
pensamento geral mais analítica e mais clara. Do
critério e traquejo literário do escritor depende a boa
divisão dos períodos no desenvolvimento de qualquer
assunto."
Não menos significativa e complementar é a opinião de
Napoleão Mendes de Almeida, em sua Gramática Metódica
da Língua Portuguesa:
"Indica o ponto final a conclusão do período
gramatical. São desnecessários, para o caso, exemplos;
uma observação, no entanto, devo fazer; tome o aluno
um trabalho literário de clássicos nossos, e veja o
período: longo, "recheado de múltiplas circunstâncias,
de compreensão árdua". Modernamente, o período se
resolve, multiplica-se em períodos mais curtos, de
acordo com as circunstâncias, tornando-se mais claro,
rápido e incisivo. Regra, porém, não há, nem pode
haver, para a divisão dos períodos gramaticais. É
assunto que depende em grande parte do autor,
pertencendo-lhe ao estilo. "Do critério e traquejo
literário do escritor depende a boa divisão dos períodos
no desenvolvimento de qualquer assunto".
Não devemos levar ao exagero a multiplicação dos
períodos. Se os longos períodos dos clássicos produzem
cansaço, os períodos demasiadamente curtos de certos
modernistas causam fastio. Se coisa bela existe em
literatura é saber o escritor concatenar subordinadas e
coordenadas, dando ao período um todo harmonioso,
fluente, natural.
Quando, terminado um período, podemos começar
o outro na mesma linha, e quando começá-lo na linha
seguinte? A sequencia do pensamento é que deve servir
de critério. Havendo separação, havendo corte no
pensamento, começa-se o período seguinte na outra
linha; se o pensamento continua constituindo o período
seguinte consequência ou continuação do período
anterior, o novo período se inicia na mesma linha."
RETICÊNCIAS
As reticências (...) indicam uma interrupção no
pensamento, a desnecessidade de exprimi-lo ou uma
hesitação. São usadas, principalmente para indicar:
a) suspensão, interrupção do pensamento ou corte da
frase de um personagem pelo interlocutor, nos diálogos.
Exemplos:
— Por muito tempo eu pensei que ele fosse o
culpado... mas estava enganado.
Mão me diga que...
A saudade dói...
b) hesitação ou breve interrupção do pensamento no
meio do período.:
— Não sei... tudo isso aconteceu de repente.
c) sugerir o prolongamento da ideia no fim de um
período gramaticamente completo. Exemplos:
Estes sonhos todos, juro, não serão em vão...
Silêncio... A cidade dorme... A lua derrama-se
sobre as ruas vazias... A brisa sopra suavemente... Mal
balança os galhos da roseira...
d) sugerir movimento ou a continuação de um fato.
Exemplos:
E os dias se sucedem sempre iguais...
As folhas caiam... caiam... caiam... Anunciava-se o
inverno.
e) substituir o ponto de interrogação para indicar
chamamento ou interpelação. Exemplos:
— José... — chamou ela.
— Maria... Onde estará você?
f) assinalar a supressão de palavra(s) numa frase
transcrita ou num excerto. Pode vir ou não entre parênteses.
Exemplos
A vida... foi feita para ser vivida.
Ali constava a declaração: "Declaro (...) que sou
culpado.
É bom lembrar que, nesses casos, as reticências são
meramente gráficas e não interferem na entonação, durante
a leitura.
Além disso, como recurso estilístico, as reticências,
tanto quanto o ponto de exclamação, são sinais gráficos que
podem ser sugestiva e criativamente explorados, pelos seus
matizes, na linguagem afetiva e poética, de modo arbitrário
e subordinado ao estado emotivo do autor.
Por outro lado, numa dissertação, seu uso pode
comprometer o sentido, tornando-o vago e frouxo. O bom
senso deve ditar sempre sua utilização, adequando-o ao
contexto.
TRAVESSÃO
Travessão (—) é um traço maior do que o hífen, usado
para:
a) indicar o início da fala de um personagem ou a
mudança de interlocutor num diálogo. Exemplos:
— Quem vem lá?
— Um solitário que deseja companhia.
b) separar expressões ou frases explicativas ou
apositivas. Exemplos:
Ali estava o símbolo de uma nova vida — a
América.
Mostrou a casa — sinistra mansão — onde morava.
O travessão substitui o parênteses, as vírgulas e os dois
pontos num recurso estilístico muito expressivo, isolando
palavras ou orações, enfatizando o pensamento ou
chamando a atenção do leitor. Exemplos:
1) Chegaram, afinal, ao porto seguro: Rio de
Janeiro.
Chegaram, afinal, ao porto seguro — Rio de
Janeiro.
2) Era um homem severo (muito) aquele porteiro.
Era um homem severo — muito — aquele porteiro.
3) — Não sei, disse ele, quem é o responsável.
— Não sei — disse ele — quem é o responsável.
c) ligar palavras que formam um encadeamento,
indicando um itinerário. Exemplos:
A fronteira Brasil — Paraguai.
Voo São Paulo — Lisboa — São Paulo todo mês.
d) evitar a repetição de um termo já mencionado.
Exemplos:
Xavier (José Joaquim da Silva —).
Ser (Sintaxe do verbo —).
VÍRGULA
Este é, com certeza, o sinal de pontuação que mais
dores de cabeça provoca em quem escreve. Há uma história
de um escritor que, ao ser indagado por um amigo sobre o
que estivera fazendo durante toda uma manhã, respondeu:
— Colocando uma vírgula num poema.
— E o que fizeste a tarde toda? — indagou o outro
— Tirando-a.
Exageros à parte, já vimos, no início deste livro, a
importância da pontuação no sentido e isso nunca é demais
repetir.
A vírgula apresenta dificuldades em seu uso? Sim e
não. Tudo isso vai depender de seu grau de familiaridade
com a língua. Quando mais ler e observar a pontuação
empregada pelos mestres, mais natural lhe será o uso dela. É
possível sistematizar o estudo da colocação da vírgula? Sim,
claro. Para isso, vamos estudá-la segundo sua colocação no
interior de uma oração, separando seus termos, ou no
período, separando orações.
Antes disso, porém, vejamos o que disse Napoleão
Mendes de Almeida, na Gramática Metódica da Língua
Portuguesa, a respeito da vírgula:
"É comum vermos esta doutrina: "A vírgula indica
pequena pausa". — De fato, essa indicação tem a vírgula,
mas não devemos aceitar como certa a recíproca:
"Havendo pausa, há vírgula". Essa recíproca induz a erros;
pausas existem que na leitura se fazem meramente por
ênfase; vezes há — e isso facilmente poderá comprovar o
aluno — que separamos, na leitura ou em um discurso, o
sujeito do verbo; outras, em que separamos o verbo do seu
complemento, mas erro cometeremos se graficamente
representarmos tais pausas por vírgula, por que não se
pode pôr vírgula entre sujeito e o verbo nem entre o verbo
e o seu complemento, ou seja, não se concebe que se
separem termos que mantém entre si relação sintática.
Em grande número de casos, as vírgulas exercem
papel de parênteses; aberto o parêntese, claro é que o
devemos depois fechar: "Pedro (de acordo com as ordens
recebidas) partiu". — Se por vírgulas substituirmos os
parênteses que entram nesse período, teremos: "Pedro, de
acordo com as ordens recebidas, partiu".
A supressão de uma das vírgulas constituirá erro, pois
virá quebrar a concatenação da oração, por separar o
sujeito Pedro do verbo partiu: OU AMBAS AS VÍRGULAS
SE COLOCAM, OU AS DUAS SE TIRAM.
Essa simples norma engloba várias regrinhas
comumente oferecidas em gramáticas.
Sem que a pessoa saiba o que venha a ser oração
interferente, subordinada adjetiva explicativa, aposto,
vocativo, saberá colocar com precisão as vírgulas.
Exemplos ofereço em que, para mostrar a sequencia do
período, os parênteses aparecem em lugar das vírgulas:
"Damão (condenado à morte) impetrou ir primeiro à sua
casa" — "Vem ( tu que dúvidas da honra) observar o
proceder deste pobre" — Francisco (com dinheiro ganho no
negócio) comprou uma linda chácara" — "Diógenes
(filósofo cínico) morava dentro de uma cuba"— "Os reinos
e as terras (segundo a sentença do Eclesiástico) passam de
umas a outras gentes"— "Nem mesmo agora (disse deles o
chefe) devemos retroceder" — "O homem (que é mortal) é
apenas forasteiro na terra".
Uma vez, em todos esses exemplos, excluídas a locução
que ficou entre parênteses, aparecerão ligados os termos
essenciais da oração ou os que tenham entre si íntima
relação sintática:
"Damão impetrou ir..." — "Francisco comprou..."
"Vem observar... " — "Diógenes morava..."etc."
Sem dúvida, para os casos citados, a orientação do
Prof. Napoleão pode ajudar muito no caso de uma dúvida.
Mas, para que não reste a menor dúvida, vamos analisar o
emprego da vírgula segundo a proposta inicial: sua
colocação.
A Vírgula é usada no interior da oração para:
a) separar os elementos de uma enumeração.
Exemplos:
A família estava completa: pai, mãe, filhos e o
cachorrinho.
Quero três balões: um azul, um verde e um vermelho.
b) Nos casos de polissíndeto ("Espécie de pleonasmo
que consiste em repetir uma conjunção maior número de
vezes do que o exige a ordem gramatical. Ex.: "E zumbia, e
voava, e voava, e zumbia." (Machado de Assis, Poesias
Completas, p. 314); "Contra a destruição se aferra à vida, e
luta, / e treme, e cresce, e brilha, e afia o ouvido, e escuta /
A voz, que na solidão só ele escuta, - só" (Olavo Bilac,
Poesias, p. 269.)" Outro exemplo:
Ou ele, ou eu, ou alguém, afinal, fará o trabalho.
E chove, e troveja, e caem raios, assustando a todos.
Observe que, nos exemplos, a presença da conjunção
"e" não impediu o uso da vírgula. Nesses casos, a
construção é um recurso estilístico empregado pelo autor
para enfatizar os acontecimentos.
c) Isolar o vocativo. Para isso, é importante que você
saiba exatamente o que é o vocativo. Trata-se de um termo
independente, usado para chamar por alguém, interpelar ou
invocar um ouvinte real ou imaginário. Representa um apelo
ou um chamado. Veja o exemplo:
Crianças, deixem de bagunça!
A palavra "crianças" indica um apelo, um chamado,
por isso é um vocativo, que pode vir no começo, no meio ou
no fim de uma oração, sem prejuízo do sentido. Exemplos:
Crianças, deixem de bagunça!
Deixem, crianças, de bagunça!
Deixem de bagunça, crianças!
O que nos interesse, particularmente, no estudo do
vocativo aqui é observar que ele vem sempre acompanhado
de vírgula. Além disso, pode também aparecer sozinho ou
acompanhado da interjeição "ó":
Crianças, deixem de bagunça!
Ó crianças, deixem de bagunça!
Preste atenção, nesses casos, para a interjeição usada.
Não confunda "ó", que aparece nos vocativos, com "oh!",
usada nas orações exclamativas. Este indica admiração, não
tem acendo e é seguido de "h" e ponto de exclamação.
Pode, também, vir acompanhado de um adjunto.
Exemplos:
Crianças travessas, deixem de bagunça!
Crianças da primeira série, deixem de bagunça!
Ou pode ser constituído de duas ou mais pessoas,
separadas por vírgulas ou pela conjunção aditiva. Exemplos:
José, Manuel, façam o trabalho agora!
José e Manuel, façam o trabalho agora!
d) Isolar o aposto. Aqui também é necessário um
parênteses para que o conceito de aposto fique
perfeitamente entendido. Aposto é um tipo de adjunto
adnominal e pode ser definido como uma palavra ou grupo
de palavras que explica um ou vários termos expressos
numa oração. Ou , ainda, "é o termo que explica,
desenvolve, identifica ou resume um outro termo da oração,
independente da função sintática que este exerça", na
definição do professor Dilson Catarino. Exemplos:
Victor Hugo, escritor, era francês.
Curitiba, capital ecológica e turística do Paraná, é
muito visitada.
No primeiro exemplo, o aposto "escritor" explica quem
era a pessoa citada. No segundo, ele acrescenta explicações
ao sentido da palavra "Curitiba". Observe, também, que nos
dois exemplos, o aposto, vindo após o fundamental, a
palavra explicada ou modificada (Victor Hugo e Curitiba), é
colocado entre vírgulas.
Pode constituído de títulos profissionais ou
hierárquicos e, como na regra anterior, sempre que vier
depois do fundamental, será separado por vírgulas.
Exemplos:
Caixa, o duque, foi um grande pacificador.
Fernando Henrique, o presidente, estabilizou a moeda.
Francisco, o tenente, era o líder da tropa.
O aposto pode também ser formado por uma Oração
Subordinada Adjetiva Explicativa. Exemplos:
Iracema, que é um livro de José de Alencar, conta a
história de Ceci e Peri.
Todo homem, que é corajoso, também é um pouco de
louco em si.
e) Isolar palavras e expressões explicativas,
resumitivas, continuativas, conclusivas, retificativas,
enfáticas e as conjunções intercaladas de um modo geral.
Exemplos:
Era, sem exagero de minha parte, a coisa mais feia do
mundo.
A mim, com certeza, ninguém desafiaria.
Todos, quero dizer, quase todos são culpados.
f) Separar o adjunto adverbial antecipado. Se você não
conhece bem o assunto, este é o momento de recapitular.
Advérbio é uma palavra invariável cuja função é modificar
o adjetivo, o verbo e o próprio advérbio, acrescentando-lhe
alguma circunstância. Por exemplo:
Bom (adjetivo) Muito bom (advérbio + adjetivo)
Sintaticamente, os advérbios podem ser simples (aqui,
hoje, talvez, não, etc.) ou conjuntivo, que acumulam a
função de conjunção (onde, quando, como, enquanto,
entretanto, etc.)
Quanto ao sentido, classificam-se em tantas classes
quantas as circunstâncias que indicam. Exemplos:
1) de lugar: aqui, ali, acolá, aquém, longe, perto,
adiante, dentro, fora, onde, algures, nenhures, alhures,
abaixo, acima.
2) de tempo: hoje, ontem, amanhã, cedo, tarde, nunca,
sempre, ora, agora, então, antes, depois, ainda,
entrementes, presentemente, atualmente.
3) de modo: bem, mal, assim, apenas, acinte, adrede,
rente, cerca, ainda, também. Os terminados em "mente" são
formados geralmente de adjetivos: normalmente,
bondosamente.
4) de qualidade: muito, pouco, bastante, assaz, mais
menos, tão, quão, tanto, quanto, que, algo, quase, meio,
metade, todo.
5)
de
ordem:
primeiro,
primeiramente,
secundariamente, antes, depois.
6) de afirmação: sim, deveras, certamente.
7) de dúvida: talvez, quiçá, caso, acaso, porventura.
8) de negação: não, nunca, jamais, nada.
9) de designação: eis, eis-que, eis-aqui, eis-aí, eis-ali.
Quanto à forma, classificam-se em Advérbios
propriamente ditos e Locuções Adverbiais. Advérbios
propriamente ditos são palavras simples ou compostas,
como as vistas acima. Locuções adverbiais são duas ou mais
palavras que exprimem uma das circunstâncias próprias dos
advérbios. Exemplos:
Às claras, às cegas, às tontas, às pressas, ao longe, a
granel, a súbita, a cavalo, à bala, a esmo, a fio, à sorrelfa, à
socapa, a prumo, a olho, ao vivo, a tiro, de primeiro, de
força, de longe, de golpe, de roldão, de chofre, de vagar, de
indústria, de seguro, de gatinhos, de rojo, de improviso, em
barda, sem dúvida, com certeza, pouco a pouco, a pouco e
pouco, de mais, nunca jamais, a seu tempo, a tempo, de
tempos, de tempos a tempos, de juro, de ato, pelo contrário,
ao contrário, em breve, dentro em pouco.
Como palavra que altera o sentido de uma outra, o
normal é que venha logo após a palavra alterada. Quando o
advérbio ou o adjunto adverbial está deslocado de sua
posição natural, deve ser isolado por vírgulas. Exemplo:
O aluno morava longe (longe altera o sentido de
"morava" e sua posição normal é após o verbo).
Longe, morava o aluno (a vírgula assinala o
deslocamento.
A vírgula pode ser dispensada se o adjunto adverbial
tiver pouca extensão, constituído de uma só palavra, por
exemplo. Mantê-la, nesses casos, só se justifica se for para
dar ênfase ao adjunto. Exemplo:
Trabalha-se aqui ( ordem normal).
Aqui, trabalha-se (adjunto deslocado e isolado por
vírgula).
Aqui trabalha-se (adjunto deslocado sem vírgula).
Depois de "sim" ou "não", colocados no principio da
sentença, ;é obrigatório o uso da vírgula. Exemplos:
— Sim, é nossa obrigação.
— "Não, isso é obrigação do governo.
Da mesma forma, depois de "assim", "então", "demais"
e de outros advérbios e locuções adverbiais, empregados em
princípios de sentenças, com sentido de conjunção.
Exemplos:
Então, o que vai fazer?
Assim, confiamos em você.
Afinal, ninguém pediu aquilo.
g) Separar termos repetidos. Exemplos:
Tudo, tudo justificava uma ação rápida.
Ninguém, ninguém mesmo tinha o direito de fazer isso.
Tudo se resume a nada, nada, nada.
h) Indicar facultativamente a omissão de um termo da
oração, subentendido ou citado anteriormente. Essa figura é
chamada de zeugma. Exemplo:
O carro de Mário era azul e o de Lourenço, vermelho
(a vírgula substitui o verbo "era", evitando a repetição).
i) Separar nomes de lugares nas datas. Exemplo:
Londrina, 1 de outubro de 1999/
Para finalizar o uso da vírgula no interior da oração, é
importante lembrar que ela jamais deve ser usada para
separar:
1.
o sujeito do predicado. Exemplos:
Correto: Mário gosta de estudar.
Errado: Mário, gosta de estudar.
Correto: As alunas e as professoras da escola
correram assustadas.
Errado: As alunas e as professoras da escola,
correram assustadas.
2) o verbo de seu complemento, seja objeto
direto, indireto ou um predicativo. Exemplos.
Correto: Visitamos a casa grande da colina.
Errado: Visitamos, a casa grande da colina.
Correto: Todos nós precisamos de dinheiro.
Errado: Todos nós precisamos, de dinheiro.
Correto: Maria é uma jovem encantadora.
Errado: Maria é, uma jovem encantadora.
A Vírgula é usada entre orações para:
a) Separar Orações Coordenadas
Assindéticas, isto é, orações que não são separadas
por conjunção. Vamos aproveitar o ensejo para
recapitular o assunto?
Período é uma ou mais orações com sentido completo.
Divide-se em período simples, quando constituído de apenas
uma oração, e composto, quando formado por duas ou mais
orações. Os períodos compostos, por seu turno, podem ser
por coordenação ou por subordinação. Por coordenação:
"Modalidade de construção de períodos na qual as orações
têm sentido independente e são separadas por vírgula ou
ponto e vírgula, ou são relacionadas entre si por conjunções
coordenativas. Ex.: Entrou na sala, olhou apressadamente ao
redor e saiu." Por subordinação: "Modalidade de construção
de períodos na qual uma ou mais orações, ditas
subordinadas, dependem de outra(s) ou da principal: Sei que
ele sairá; Sei que ele é meu amigo e que não me trairá."
Neste último, sem a oração subordinada o período fica
incompleto, sem sentido.
As orações classificam-se em absolutas, principais,
coordenadas e subordinadas. Oração absoluta é a que tem
sentido completo ou independente. Exemplos:
Todos chegaram à mesma hora.
As meninas foram embora cedo e os meninos ficaram.
As crianças ficaram na casa, mas os adultos tiveram
de enfrentar o sol.
Observe que as orações do segundo e do terceiro
períodos, muito embora unidas por conjunções, têm seu
sentido completo se escritas isoladamente (As meninas
foram embora cedo. Os meninos ficaram. As crianças
ficaram na casa. Os adultos tiveram de enfrentar o sol.)
Oração principal tem o sentido principal no período e
embora não dependa de outra oração, é completada por
outra ou outras orações, a ela subordinadas. Por exemplo:
Convém que você venha.
A oração principal "Convém" pode existir por si, mas
seu sentido se amplia e fica mais específico, quando
acompanhada de uma oração subordinada (que você venha).
Oração coordenada é a que se liga a uma outra de igual
função por uma conjunção coordenativa. Em determinados
casos, pode exercer o duplo papel de oração coordenada e
subordinada. Quando separada da anterior por vírgula,
temos uma oração coordenada assindética. Quando unida
por conjunção coordenativa, temos uma oração coordenada
sindética. Exemplos:
Todos chegaram e realizaram suas tarefas.
Quero que me ouças e que voltes cedo hoje.
No primeiro exemplo, "e realizaram suas tarefas" é
uma oração coordenada sindética, porque separada pela
conjunção aditiva "e". No segundo exemplo, "Quero" é a
oração principal; "que me ouças" e "que voltes cedo" são
orações a ela subordinadas. Além disso, "que voltes cedo" é
uma oração coordenada sindética em relação à anterior,
"que me ouças".
As orações coordenadas sindéticas podem ser aditivas,
adversativas, alternativas, conclusivas e explicativas,
conforme sua função no período.
Oração subordinada completa o sentido da
principal, de que depende e a qual é ligada por
conjunções subordinativas ou pelas formas
nominais do verbo. Dividem-se em Substantivas,
Adjetivas e Adverbiais, conforme a função.
b) separar Orações Subordinadas
Adverbiais, especialmente quando antepostas à
principal. Exemplos:
Porque fiz minhas tarefas, fui dispensado da aula.
Ainda que eu fale a língua dos anjos, jamais seria
entendido.
Caso todos compareçam, aprovaremos o projeto.
Se eu pudesse, teria ido imediatamente.
Ao embarcar, sua expressão era de tristeza.
Calando-se a multidão, ele começou seu discurso.
Entendida a lição, o professor passou os exercícios.
c) separar Orações Substantivas, quando antepostas à
principal. Exemplos:
Quanto pede, todos sabemos que é demais.
Aos que começam, apresentamos nossas saudações.
Àqueles que chegam com coragem, saudamos.
d) Isolar orações intercaladas de qualquer natureza.
Exemplos:
Admitir o erro, convenhamos, é a melhor coisa a fazer.
Ele sorriu, todos sorriem sempre, quando a garota
protestou.
e) isolar Orações Subordinadas Adjetivas Explicativas.
As orações subordinadas adjetivas são classificadas em
Explicativa e Restritiva. A Oração Subordinada Explicativa
indica uma qualidade inerente ao substantivo a que se
referem, sendo uma simples explicação, realçando um
detalhe do termo que o precede. São dispensáveis ao sentido
da frase: "O homem, que é mortal, acredita na
imortalidade." A Oração Subordinada Restritiva, por seu
turno, delimita o sentido do termo que a precede,
particularizando-o. Se eliminada, causa prejuízo ao sentido
da oração principal. Liga-se em sem pausa a um substantivo
ou a um pronome)antecedente, não sendo separado por
vírgula: "O homem que é justo não se afasta dos princípios
da lei e da religião." No primeiro exemplo, "que é mortal", o
sentido é amplo, pois todos os homens são mortais. No
segundo, esse sentido é restringido, pois nem todos os
homens são justos. Exemplos de orações subordinadas
adjetivas explicativas:
f) Separar os membros paralelos de um provérbio ou
ditado. Exemplos:
Mão fria, coração quente.
Banho e cama, doença chama.
Chuva e sol, casamento de espanhol.
Sol e chuva, casamento de viúva.
Casos especiais de uso da Vírgula:
a) Usa-se a vírgula antes da conjunção "e" quando:
1) a conjunção dá início a uma outra oração no período
e o sujeito dessa oração é diferente do sujeito da oração
anterior. Exemplos:
Fomos até lá, e a casa estava fechada.
José havia encontrado um trabalho, e seu patrão pediu
que iniciasse imediatamente.
2) o "e" tem sentido de conjunção adversativa,
equivalendo a "mas". Exemplos:
Tivemos o tesouro nas mãos, e o deixamos escapar.
Vive prometendo, e não cumpre nada.
3) a conjunção separa complementos de verbos
diferentes. Exemplos:
Fez muitas obras, e mais obras teria feito se tivesse
tempo.
Li aqueles livros, e outros livros iria ler ainda em
minhas férias.
4) como recurso estilístico, deseja-se enfatizar ou
realçar a oração iniciada pela conjunção aditiva. Exemplos:
Providências precisam ser tomadas, e tomadas já.
Vamos fazer o que for preciso, e fazer logo.
5) a conjunção é precedida por uma frase ou expressão
intercalada. Exemplos:
O comandante dos exércitos brasileiros, Duque de
Caxias, e seus comandados, combateram heroicamente.
A escola, sempre agitada, e a lanchonete eram pontos
de encontro dos jovens da cidade.
6) precede a expressão "vice-versa". Exemplos:
Ao pai cabe amar os filhos, e vice-versa.
Devemos confiar em nossos dirigentes, e vice-versa.
b) Usa-se a vírgula depois da conjunção "e" quando
houver uma intercalação após ela. Exemplo:
Chegamos juntos e, ao chegarmos, fomos recebidos
pelos donos da casa.
Iniciou a apresentação e, um tanto nervoso, trocou os
pés pelas mãos.
Se houver uma intercalação antes da conjunção, esta
ficará isolada por vírgulas. Exemplos:
Chegamos juntos, muito casados, e, ao chegarmos,
fomos recebidos pelos donos da casa.
Iniciou a apresentação, muito breve, e, um tanto
nervoso, trocou os pés pelas mãos.
c) não se usa a vírgula antes de "etc.", já que esta é
uma abreviatura de "et cetera", que significa "e as demais
coisas".
EXERCÍCIOS DE PONTUAÇÃO
Para testar seus conhecimentos e, ao mesmo tempo,
desenvolver seu aprendizado e automatizar o uso das regras
de pontuação, tornando-as fluentes e naturais, nada melhor
que exercitar-se com o auxílio de grandes mestres da
literatura brasileira e portuguesa.
Nas páginas que se seguem há textos de autores
famosos, sem pontuação. Exercite-se, pontuando-os, depois
compare seu trabalho com o deles, na segunda parte deste
capítulo.
Sempre que tiver alguma dúvida, não deixe de recorrer
às regras apresentadas no livro ou de consultar sua
gramática.
Não tente fazer tudo de uma vez só. Vá aos poucos.
Meia página por dia; uma página por semana, que seja, mas
mantenha uma certa regularidade. Esse contato constante
com os textos será sempre benéfico.
O CIÚME
Bocage
Entre as tartareas forjas sempre acesas
Jaz aos pés do tremendo estígio nume
O carrancudo o rábido Ciúme
Ensanguentadas as corruptas presas
Traçando o plano de cruéis empresas
Fervendo em ondas de sulfúreo lume
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males de hórridas tristezas
Pelas terríveis Fúrias instigado
Lá sai do Inferno e para mim se avança
O negro monstro de áspides toucado
Olhos em brasa de revés me lança
Oh dor Oh raiva Oh morte Ei lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea trança
AMOR
Camões
Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade
Mas como pode causar seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrario a si é o mesmo Amor
CÍRCULO VICIOSO
Machado de Assis
Bailando no ar gemia inquieto vaga lume
Quem me dera que eu fosse aquela loira
estrela
Que arde no eterno azul como uma eterna
vela
Mas a estrela fitando a lua com ciúme
Pudesse eu copiar te o transparente lume
Que da grega coluna à gótica janela
Contemplou suspirosa a fronte amada e
bela
Mas a lua fitando o sol com azedume
Mísera Tivesse eu aquela enorme aquela
Claridade imortal que toda a luz resume
Mas o sol inclinando a rútila capela
Pesa me esta brilhante auréola de nume
Enfara me esta luz e desmedida umbela
Por que não nasci eu um simples vaga
lume
UM APÓLOGO
Machado de Assis
Era uma vez uma agulha que disse a um novelo de
linha
Por que está você com esse ar toda cheia de si toda
enrolada para fingir que vale alguma cousa neste mundo
Deixe me senhora
Que a deixe Que a deixe por quê Porque lhe digo que
está com um ar insuportável Repito que sim e falarei sempre
que me der na cabeça
Que cabeça senhora A senhora não é alfinete é agulha
Agulha não tem cabeça Que lhe importa o meu ar Cada qual
tem o ar que Deus lhe deu Importe se com a sua vida e deixe
a dos outros
Mas você é orgulhosa
Decerto que sou
Mas por quê
É boa Porque coso Então os vestidos e enfeites de
nossa ama quem é que os cose senão eu
Você Esta agora é melhor Você é que os cose Você
ignora que quem os cose sou eu e muito eu
Você fura o pano nada mais eu é que coso prendo um
pedaço ao outro dou feição aos babados
Sim mas que vale isso Eu é que furo o pano vou
adiante puxando por você que vem atrás obedecendo ao que
eu faço e mando
Também os batedores vão adiante do imperador
Você imperador
Não digo isso Mas a verdade é que você faz um papel
subalterno indo adiante vai só mostrando o caminho vai
fazendo o trabalho obscuro e ínfimo Eu é que prendo ligo
ajunto
Estavam nisto quando a costureira chegou a casa da
baronesa Não sei se disse que isto se passava em casa de
uma baronesa que tinha a modista ao pé de si para não andar
atrás dela Chegou a costureira pegou do pano pegou da
agulha pegou da linha enfiou a linha na agulha e entrou a
coser Uma e outra iam andando orgulhosas pelo pano
adiante que era a melhor das sedas entre os dedos da
costureira ágeis como os galgos de Diana para dar a isto
uma cor poética E dizia a agulha
Então senhora linha ainda teima no que dizia há pouco
Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo
eu é que vou entre os dedos dela unidinha a eles furando
abaixo e acima
A linha não respondia nada ia andando Buraco aberto
pela agulha era logo enchido por ela silenciosa e ativa como
quem sabe o que faz e não está para ouvir palavras loucas A
agulha vendo que ela não lhe dava resposta calou se também
e foi andando E era tudo silêncio na saleta de costura não se
ouvia mais que o plic plic plic plic da agulha no pano
Caindo o sol a costureira dobrou a costura para o dia
seguinte continuou ainda nesse e no outro até que no quarto
acabou a obra e ficou esperando o baile
Veio a noite do baile e a baronesa vestiu se A
costureira que a ajudou a vestir se levava a agulha espetada
no corpinho para dar algum ponto necessário E enquanto
compunha o vestido da bela dama e puxava a um lado ou
outro arregaçava daqui ou dali alisando abotoando
acolchetando a linha para mofar da agulha perguntou lhe
Ora agora diga me quem é que vai ao baile no corpo da
baronesa fazendo parte do vestido e da elegância Quem é
que vai dançar com ministros e diplomatas enquanto você
volta para a caixinha da costureira antes de ir para o balaio
das mucamas Vamos diga lá
Parece que a agulha não disse nada mas um alfinete de
cabeça grande e não menor experiência murmurou à pobre
agulha
Anda aprende tola Cansas te em abrir caminho para ela
e ela é que vai gozar a vida enquanto aí ficas na caixinha de
costura Faze como eu que não abro caminho para ninguém
Onde me espetam fico
Contei esta história a um professor de melancolia que
me disse abanando a cabeça
Também eu tenho servido de agulha a muita linha
ordinária
MISSA DO GALO
Machado de Assis
Nunca pude entender a conversação que tive com uma
senhora há muitos anos Contava eu dezessete ela trinta Era
noite de Natal Havendo ajustado com um vizinho irmos à
missa do galo preferi não dormir combinei que eu iria
acordá lo à meia noite
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão
Meneses que fora casado em primeiras núpcias com uma de
minhas primas A segunda mulher Conceição e a mãe desta
acolheram me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio
de Janeiro meses antes a estudar preparatórios Vivia
tranquilo naquela casa assobradada da Rua do Senado com
os meus livros poucas relações alguns passeios A família era
pequena o escrivão a mulher a sogra e duas escravas
Costumes velhos Às dez horas da noite toda a gente estava
nos quartos às dez e meia a casa dormia Nunca tinha ido ao
teatro e mais de uma vez ouvindo dizer ao Meneses que ia
ao teatro pedi lhe que me levasse consigo Nessas ocasiões a
sogra fazia uma careta e as escravas riam à socapa ele não
respondia vestia se saía e só tornava na manhã seguinte
Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo
em ação Meneses trazia amores com uma senhora separada
do marido e dormia fora de casa uma vez por semana
Conceição padecera a princípio com a existência da
comborça mas afinal resignara se acostumara se e acabou
achando que era muito direito
Boa Conceição Chamavam lhe a santa e fazia jus ao
título tão facilmente suportava os esquecimentos do marido
Em verdade era um temperamento moderado sem extremos
nem grandes lágrimas nem grandes risos No capítulo de que
trato dava para maometana aceitaria um harém com as
aparências salvas Deus me perdoe se a julgo mal Tudo nela
era atenuado e passivo O próprio rosto era mediano nem
bonito nem feio Era o que chamamos uma pessoa simpática
Não dizia mal de ninguém perdoava tudo Não sabia odiar
pode ser até que não soubesse amar
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro Era
pelos anos de 1861 ou 1862 Eu já devia estar em
Mangaratiba em férias mas fiquei até o Natal para ver a
missa do galo na Corte A família recolheu se à hora do
costume eu meti me na sala da frente vestido e pronto Dali
passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar
ninguém Tinha três chaves a porta uma estava com o
escrivão eu levaria outra a terceira ficava em casa
Mas Sr Nogueira que fará você todo esse tempo
perguntou me a mãe de Conceição
Leio D Inácia
Tinha comigo um romance Os Três Mosqueteiros
velha tradução creio do Jornal do Comércio Sentei me à
mesa que havia no centro da sala e à luz de um candeeiro de
querosene enquanto a casa dormia trepei ainda uma vez ao
cavalo magro de D Artagnan e fui me às aventuras Dentro
em pouco estava completamente ébrio de Dumas Os
minutos voavam ao contrário do que costumam fazer
quando são de espera ouvi bater onze horas mas quase sem
dar por elas Entretanto um pequeno rumor que ouvi dentro
veio acordar me da leitura Eram uns passos no corredor que
ia da sala de visitas à de jantar levantei a cabeça logo depois
vi assomar à porta da sala o vulto de D Conceição
Ainda não foi perguntou ela
Não fui parece que ainda não é meia noite
Que paciência
Conceição entrou na sala arrastando as chinelinhas da
alcova Vestia um roupão branco mal apanhado na cintura
Sendo magra tinha um ar de visão romântica não
disparatada com o meu livro de aventuras Fechei o livro ela
foi sentar se na cadeira que ficava defronte de mim perto do
canapé Como eu lhe perguntasse se a havia acordado sem
querer fazendo barulho respondeu com presteza
Não Qual Acordei por acordar
Fitei a um pouco e duvidei da afirmativa Os olhos não
eram de pessoa que acabasse de dormir pareciam não ter
ainda pegado no sono Essa observação porém que valeria
alguma cousa em outro espírito depressa a botei fora sem
advertir que talvez não dormisse justamente por minha
causa e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse
que ela era boa muito boa
Mas a hora já há de estar próxima disse eu
Que paciência a sua de esperar acordado enquanto o
vizinho dorme E esperar sozinho Não tem medo de almas
do outro mundo Eu cuidei que se assustasse quando me viu
Quando ouvi os passos estranhei mas a senhora
apareceu logo
Que é que estava lendo Não diga já sei é o romance dos
Mosqueteiros
Justamente é muito bonito
Gosta de romances
Gosto
Já leu A Moreninha
Do Dr Macedo Tenho lá em Mangaratiba
Eu gosto muito de romances mas leio pouco por falta
de tempo Que romances é que você tem lido
Comecei a dizer lhe os nomes de alguns Conceição
ouvia me com a cabeça reclinada no espaldar enfiando os
olhos por entre as pálpebras meio cerradas sem os tirar de
mim De vez em quando passava a língua pelos beiços para
umedecê los Quando acabei de falar não me disse nada
ficamos assim alguns segundos Em seguida vi a endireitar a
cabeça cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo tendo
os cotovelos nos braços da cadeira tudo sem desviar de mim
os grandes olhos espertos
Talvez esteja aborrecida pensei eu
E logo alto
D Conceição creio que vão sendo horas e eu
Não não ainda é cedo Vi agora mesmo o relógio são
onze e meia Tem tempo Você perdendo a noite é capaz de
não dormir de dia
Já tenho feito isso
Eu não perdendo uma noite no outro dia estou que não
posso e meia hora que seja hei de passar pelo sono Mas
também estou ficando velha
Que velha o que D Conceição
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir De
costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas
agora porém ergueu se rapidamente passou para o outro lado
da sala e deu alguns passos entre a janela da rua e a porta do
gabinete do marido Assim com o desalinho honesto que
trazia dava me uma impressão singular Magra embora tinha
não sei que balanço no andar como quem lhe custa levar o
corpo essa feição nunca me pareceu tão distinta como
naquela noite Parava algumas vezes examinando um trecho
de cortina ou concertando a posição de algum objeto no
aparador afinal deteve se ante mim com a mesa de permeio
Estreito era o círculo das suas ideias tornou ao espanto de
me ver espertar acordado eu repeti lhe o que ela sabia isto é
que nunca ouvira missa do galo na Corte e não queria perdê
la
É a mesma missa da roça todas as missas se parecem
Acredito mas aqui há de haver mais luxo e mais gente
também Olhe a semana santa na Corte é mais bonita que na
roça S João não digo nem Santo Antônio
Pouco a pouco tinha se reclinado fincara os cotovelos
no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos
espalmadas Não estando abotoadas as mangas caíram
naturalmente e eu vi lhe metade dos braços muito claros e
menos magros do que se poderia supor A vista não era nova
para mim posto também não fosse comum naquele
momento porém a impressão que tive foi grande As veias
eram tão azuis que apesar da pouca claridade podia contá las
do meu lugar A presença de Conceição espertara me ainda
mais que o livro Continuei a dizer o que pensava das festas
da roça e da cidade e de outras cousas que me iam vindo à
boca Falava emendando os assuntos sem saber por que
variando deles ou tornando aos primeiros e rindo para fazê
la sorrir e ver lhe os dentes que luziam de brancos todos
iguaizinhos Os olhos dela não eram bem negros mas escuros
o nariz seco e longo um tantinho curvo dava lhe ao rosto um
ar interrogativo Quando eu alteava um pouco a voz ele
reprimia me
Mais baixo Mamãe pode acordar
E não saía daquela posição que me enchia de gosto tão
perto ficavam as nossas caras Realmente não era preciso
falar alto para ser ouvido cochichávamos os dous eu mais
que ela porque falava mais ela às vezes ficava séria muito
séria com a testa um pouco franzida Afinal cansou trocou de
atitude e de lugar Deu volta à mesa e veio sentar se do meu
lado no canapé Voltei me e pude ver a furto o bico das
chinelas mas foi só o tempo que ela gastou em sentar se o
roupão era comprido e cobriu as logo Recordo me que eram
pretas Conceição disse baixinho
Mamãe está longe mas tem o sono muito leve se
acordasse agora coitada tão cedo não pegava no sono
Eu também sou assim
O quê perguntou ela inclinando o corpo para ouvir
melhor
Fui sentar me na cadeira que ficava ao lado do canapé
e repeti lhe a palavra Riu se da coincidência também ela
tinha o sono leve éramos três sonos leves
Há ocasiões em que sou como mamãe acordando custa
me dormir outra vez rolo na cama à toa levanto me acendo
vela passeio torno a deitar me e nada
Foi o que lhe aconteceu hoje
Não não atalhou ela
Não entendi a negativa ela pode ser que também não a
entendesse Pegou das pontas do cinto e bateu com elas
sobre os joelhos isto é o joelho direito porque acabava de
cruzar as pernas Depois referiu uma história de sonhos e
afirmou me que só tivera um pesadelo em criança Quis
saber se eu os tinha A conversa reatou se assim lentamente
longamente sem que eu desse pela hora nem pela missa
Quando eu acabava uma narração ou uma explicação ela
inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava
novamente na palavra De quando em quando reprimia me
Mais baixo mais baixo
Havia também umas pausas Duas outras vezes pareceu
me que a vi dormir mas os olhos cerrados por um instante
abriam se logo sem sono nem fadiga como se ela os
houvesse fechado para ver melhor Uma dessas vezes creio
que deu por mim embebido na sua pessoa e lembra me que
os tornou a fechar não sei se apressada ou vagarosamente
Há impressões dessa noite que me parecem truncadas ou
confusas Contradigo me atrapalho me Uma das que ainda
tenho frescas é que em certa ocasião ela que era apenas
simpática ficou linda ficou lindíssima Estava de pé os
braços cruzados eu em respeito a ela quis levantar me não
consentiu pôs uma das mãos no meu ombro e obrigou me a
estar sentado Cuidei que ia dizer alguma cousa mas
estremeceu como se tivesse um arrepio de frio voltou as
costas e foi sentar se na cadeira onde me achara lendo Dali
relanceou a vista pelo espelho que ficava por cima do
canapé falou de duas gravuras que pendiam da parede
Estes quadros estão ficando velhos Já pedi a Chiquinho
para comprar outros
Chiquinho era o marido Os quadros falavam do
principal negócio deste homem Um representava Cleópatra
não me recordo o assunto do outro mas eram mulheres
Vulgares ambos naquele tempo não me pareciam feios
São bonitos disse eu
Bonitos são mas estão manchados E depois
francamente eu preferia duas imagens duas santas Estas são
mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro
De barbeiro A senhora nunca foi a casa de barbeiro
Mas imagino que os fregueses enquanto esperam falam
de moças e namoros e naturalmente o dono da casa alegra a
vista deles com figuras bonitas Em casa de família é que não
acho próprio É o que eu penso mas eu penso muita cousa
assim esquisita Seja o que for não gosto dos quadros Eu
tenho uma Nossa Senhora da Conceição minha madrinha
muito bonita mas é de escultura não se pode pôr na parede
nem eu quero Está no meu oratório
A ideia do oratório trouxe me a da missa lembrou me
que podia ser tarde e quis dizê lo Penso que cheguei a abrir
a boca mas logo a fechei para ouvir o que ela contava com
doçura com graça com tal moleza que trazia preguiça à
minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja Falava de
suas devoções de menina e moça Em seguida referia umas
anedotas de baile uns casos de passeio reminiscências de
Paquetá tudo de mistura quase sem interrupção Quando
cansou do passado falou do presente dos negócios da casa
das canseiras de família que lhe diziam ser muitas antes de
casar mas não eram nada Não me contou mas eu sabia que
casara aos vinte e sete anos
Já agora não trocava de lugar como a princípio e quase
não saíra da mesma atitude Não tinha os grandes olhos
compridos e entrou a olhar à toa para as paredes
Precisamos mudar o papel da sala disse daí a pouco
como se falasse consigo
Concordei para dizer alguma cousa para sair da espécie
de sono magnético ou o que quer que era que me tolhia a
língua e os sentidos Queria e não queria acabar a
conversação fazia esforço para arredar os olhos dela e
arredava os por um sentimento de respeito mas a ideia de
parecer que era aborrecimento quando não era levava me os
olhos outra vez para Conceição A conversa ia morrendo Na
rua o silêncio era completo
Chegamos a ficar por algum tempo não posso dizer
quanto inteiramente calados O rumor único e escasso era um
roer de camundongo no gabinete que me acordou daquela
espécie de sonolência quis falar dele mas não achei modo
Conceição parecia estar devaneando Subitamente ouvi uma
pancada na janela do lado de fora e uma voz que bradava
Missa do galo Missa do galo
Aí está o companheiro disse ela levantando se Tem
graça você ficou de ir acordá lo ele é que vem acordar você
Vá que hão de ser horas adeus
Já serão horas perguntei
Naturalmente
Missa do galo repetiram de fora batendo
Vá vá não se faça esperar A culpa foi minha Adeus até
amanhã
E com o mesmo balanço do corpo Conceição enfiou
pelo corredor dentro pisando mansinho Saí à rua e achei o
vizinho que esperava Guiamos dali para a igreja Durante a
missa a figura de Conceição interpôs se mais de uma vez
entre mim e o padre fique isto à conta dos meus dezessete
anos Na manhã seguinte ao almoço falei da missa do galo e
da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de
Conceição Durante o dia achei a como sempre natural
benigna sem nada que fizesse lembrar a conversação da
véspera Pelo Ano Bom fui para Mangaratiba Quando tornei
ao Rio de Janeiro em março o escrivão tinha morrido de
apoplexia Conceição morava no Engenho Novo mas nem a
visitei nem a encontrei Ouvi mais tarde que casara com o
escrevente juramentado do marido
TEXTOS PONTUADOS
O CIÚME
Bocage
Entre as tartareas forjas, sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,
O carrancudo, o rábido Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.
Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.
Pelas terríveis Fúrias instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides toucado.
Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!... Ei-lo a
meu lado
Ferrando as garras na vipérea trança.
AMOR
Camões
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como pode causar seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrario a si é o mesmo Amor?
CÍRCULO VICIOSO
Machado de Assis
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira
estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna
vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e
bela"
Mas a lua, fitando o sol com azedume:
"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"
UM APÓLOGO
Machado de Assis
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de
linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda
enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo
que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei
sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é
agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar?
Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua
vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de
nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose?
Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo
um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou
adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao
que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você, imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um
papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho,
vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo,
ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou a casa da
baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de
uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não
andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou
da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou
a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano
adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da
costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto
uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há
pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa
comigo; eu é que vou entre os dedos dela, unidinha a eles,
furando abaixo e acima...
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto
pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa,
como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras
loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta,
calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na
saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic
da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a
costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no
outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o
baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A
costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada
no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto
compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou
outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando,
acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe?
— Ora, agora, diga-me quem é que vai ao baile, no
corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância?
Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas,
enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de
ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete,
de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à
pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho
para ela, e ela é que vai gozar a vida, enquanto aí ficas na
caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho
para ninguém. Onde me espetam fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que
me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha
ordinária!
MISSA DO GALO
Machado de Assis
Nunca pude entender a conversação que tive com uma
senhora, há muitos anos. Contava eu dezessete, ela trinta.
Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos
à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria
acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão
Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma
de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe
desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para
o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia
tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com
os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família
era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.
Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava
nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao
teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia
ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões,
a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele
não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã
seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um
eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma
senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez
por semana. Conceição padecera, a princípio, com a
existência da comborça; mas, afinal, resignara-se,
acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus
ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do
marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem
extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No
capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um
harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo
mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era
mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma
pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo.
Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era
pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em
Mangaratiba, em férias, mas fiquei até o Natal para ver "a
missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do
costume, eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali
passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar
ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o
escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo?
perguntou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros,
velha tradução, creio, do Jornal do Comércio. Sentei-me à
mesa que havia no centro da sala, e, à luz de um candeeiro
de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez
ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras.
Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os
minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer,
quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem
dar por elas. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro
veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que
ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo
depois vi assomar à porta da sala o vulto de D. Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da
alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura.
Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não
disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro;
ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim,
perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia
acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com
presteza:
— Não! Qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não
eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter
ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria
alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem
advertir que talvez não dormisse justamente por minha
causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse
que ela era boa, muito boa.
— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto
o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de
almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando
me viu.
— Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora
apareceu logo.
— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o
romance dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu A Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por
falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição
ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os
olhos por entre as pálpebras meio cerradas, sem os tirar de
mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para
umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada;
ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar
a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo,
tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar
de mim os grandes olhos espertos.
"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.
E logo alto:
— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio;
são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é
capaz de não dormir de dia?
— Já tenho feito isso.
— Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que
não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono.
Mas também estou ficando velha.
— Que velha o que, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De
costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas;
agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro
lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a
porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho
honesto que trazia, dava-me uma impressão singular.
Magra, embora, tinha não sei que balanço no andar, como
quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu
tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes,
examinando um trecho de cortina ou concertando a posição
de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim,
com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas
ideias; tornou ao espanto de me ver espertar acordado; eu
repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do
galo na Corte, e não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se
parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais
gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita
que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos
no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos
espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram
naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e
menos magros do que se poderia supor. A vista não era nova
para mim, posto também não fosse comum; naquele
momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias
eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contálas do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me
ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das
festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam
vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por
que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para
fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos,
todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas
escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe
ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a
voz, ele reprimia-me:
— Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto,
tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era
preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dous,
eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava
séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal,
cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio
sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a
furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou
em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo.
Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se
acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
— Eu também sou assim.
— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir
melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé
e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela
tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
— Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando,
custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me,
acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.
— Foi o que lhe aconteceu hoje.
— Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a
entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas
sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de
cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e
afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis
saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente,
longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa.
Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela
inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava
novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
— Mais baixo, mais baixo...
Havia, também, umas pausas. Duas outras vezes,
pareceu-me que a vi dormir; mas os olhos, cerrados por um
instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela
os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes
creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembrame que os tornou a fechar, não sei se apressada ou
vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me parecem
truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma
das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que
era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava
de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis
levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu
ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer
alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio
de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me
achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava
por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da
parede.
— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a
Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do
principal negócio deste homem. Um representava
"Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram
mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam
feios.
— São bonitos, disse eu.
— Bonitos são; mas estão manchados. E depois
francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas
são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de
barbeiro.
— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam,
falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa
alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família
é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso
muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos
quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha
madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr
na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A ideia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me
que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir
a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com
doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à
minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava de
suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas
anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de
Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando
cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa,
das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de
casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que
casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e
quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes
olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a
pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da
espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me
tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a
conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e
arredava-os por um sentimento de respeito; mas a ideia de
parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me
os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo.
Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer
quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso,
era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou
daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não
achei modo. Conceição parecia estar devaneando.
Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e
uma voz que bradava: "Missa do galo! Missa do galo"!
— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se.
Tem graça; você ficou de ir acordá-lo, ele é que vem
acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
— Já serão horas?, perguntei.
— Naturalmente.
— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.
— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha.
Adeus, até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou
pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o
vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a
missa, a figura de Conceição interpôs-se, mais de uma vez,
entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete
anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo
e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de
Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural,
benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da
véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando
tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha
morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo,
mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que
casara com o escrevente juramentado do marido.
FIGURAS E VÍCIOS DE LINGUAGEM
O uso consciente das figuras de linguagem pode tornar
sua redação mais expressiva, reforçando uma argumentação
e demonstrando domínio da língua, aspectos importantes em
uma avaliação. O uso indiscriminado e de forma
inadequada, no entanto, pode resultar em Vícios de
Linguagem que resultarão em uma péssima avaliação do seu
trabalho. As figuras de linguagem utilizam as palavras em
seu sentido conotativo ou figurado, em oposição ao sentido
Figuras
Aliteração: repetição ordenada de mesmos sons
consonantais. Exemplo: Esperando, parada, pregada na
pedra do porto.
Anacoluto - interrupção na sequência lógica da oração
deixando um termo solto, sem função sintática. Exemplo:
Mães, como não louvá-las?
Anáfora - repetição de palavras. Exemplo: O João é o
bom, o João é o honesto, o João é o abençoado, o João é
tudo.
Antítese – uso concomitante de ideias, palavras ou
expressões de sentidos opostos. Exemplo: Nobre e plebeus
conviviam na corte. A doença e a saúde compartilhavam os
mesmos corredores.
Antonomásia ou perífrase - substituição do nome
próprio por qualidade ou característica que o distinga. É o
mesmo que apelido, alcunha ou cognome. Exemplo: Todos
aplaudiram o Fenômeno. O Baixinho marcou novamente.
Apóstrofe ou invocação - invocação ou interpelação
de ouvinte ou leitor, seres reais ou imaginários, presentes ou
ausentes. Exemplo: Oh, mar, por que não apagas, com a
esponja de tuas vagas do teu manto esse borrão?
Assíndeto - ausência da conjunção aditiva entre
palavras da frase ou orações de um período, justapostas ou
separadas por vírgulas. Exemplo: Vim, vi, venci. Era uma
confusão de sapatos, meias, camisetas, calças, roupas sujas,
bagunça geral.
Assonância - repetição ordenada de sons vocálicos
idênticos. Exemplo: Sou um mulato nato no sentido lato.
Catacrese - metáfora usada pela inexistência de
palavras mais apropriadas, surgida pela semelhança da
forma ou da função de seres, fatos ou coisas. Exemplo: Céu
da boca; bico do bule, cabeça de prego; asa da xícara; dente
de alho, pingo de gente. Devido ao uso contínuo, não mais
se percebe o sentido figurado.
Colisão e hiato – representa um efeito sonoro
desagradável produzido pela repetição de fonemas
consonantais idênticos. Exemplo: Cansamos de salientar
sobre isso na semana passada.
Comparação ou símile - aproximação de dois
elementos pela sua semelhança, usando-se comparativos:
como, feito, tal qual, que nem. Exemplo: Doce que nem
mel. Brava como uma abelha.
Elipse - omissão de palavras ou orações que ficam
subentendidas. Exemplo: Ele ganha tudo e eu, nada. Ele
viveu como quis, ela, como deu.
Eufemismo - amenização de um fato ou expressão
triste, chocante ou desagradável. Exemplo: Ele foi morar no
céu.
Gradação ou clímax - é a apresentação de ideias em
progressão
ascendente
(clímax)
ou
descendente
(anticlímax). Exemplo: “Um coração chagado de desejos.
Latejando, batendo, restrugindo.
Hipérbole - exagero proposital com objetivo
expressivo. Exemplo: Estou morto de fome. Sempre foi um
monstro dentro de campo.
Inversão - consiste na mudança da ordem natural dos
termos na frase. Exemplo: De tudo ficou um pouco./Do meu
medo. Do teu asco.
Ironia – ideia contrária com um objetivo irônico é
sarcástico ou depreciativo. Exemplo: Que bonito a senhora
chegar só agora.
Metáfora - comparação sem o uso de um conectivo,
em que o segundo termo valoriza o primeiro. Exemplo:
Aquele carro é (como) um verdadeiro avião.
Metonímia - uso de uma palavra no lugar de sentido
aproximado. Ocorre quando se usa:
a - o autor pela obra. Exemplo: Estou lendo Dalton
Trevisan.
b - o continente pelo conteúdo. Exemplo: Comeu o
prato inteiro.
c - a causa pelo efeito e vice-versa. Exemplo: Come o
pão com o suor do seu rosto (trabalho que provoca o suor).
d - o lugar pelo produto feito no lugar. Exemplo: O
MacDonald é o melhor em minha opinião.
e - a parte pelo todo. Exemplo: Foi quando vi aquela
cabecinha loura surgir diante de mim.
f - a matéria pelo objeto. Exemplo: Passaram os
prisioneiros a ferro.
g - a marca pelo produto. Exemplo: Veja-me uma Skol
gelada.
h - concreto pelo abstrato e vice-versa. Exemplo: Ele
sempre teve uma boa cabeça para isso. (cabeça por
memória)
Onomatopeia – uso de palavras imitando sons ou
ruídos. Exemplo: O tique-taque daquele relógio enlouquecia
qualquer um.
Paradoxo ou oxímoro – uso de palavras ou ideias de
sentido oposto em apenas uma figura. Exemplo: “’Amor é
fogo que arde sem se ver;/ É ferida que dói e não se sente;/
É um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem
doer; (Camões)
Paronomásia: proximidade de palavras de sons
parecidos, mas de significados distintos. Exemplo: Eu que
passo, penso e peço.
Personificação, prosopopeia ou animismo –
atribuição de características humanas a seres inanimados,
imaginários ou irracionais. Exemplo: O mundo me ensinou
a viver.
Pleonasmo ou redundância - repetição proposital de
uma mesma ideia, podendo ser positiva ou negativa.
Exemplo: Vi com meus próprios olhos as maravilhas
operadas por Ele.
Polissíndeto - repetição de conjunções (síndetos).
Exemplo: Ele trabalha muito e corre atrás de uma coisa e se
preocupa com outra e, no fim, não faz nada.
Silepse - concordância não com o que vem expresso,
mas com o que se subentende, com o que está implícito. A
silepse pode ser:
De gênero. Exemplo: Vossa Excelência está
preocupado.
De número. Exemplo: Os Lusíadas glorificou nossa
literatura.
De pessoa. Exemplo: O que me parece inexplicável é
que os brasileiros persistamos em comer essa coisinha verde
e mole que se derrete na boca.
Sinestesia - mistura das sensações em uma única
expressão. Exemplo: Ficou-me na boca um gosto amargo e
triste.
Zeugma: consiste na elipse de um termo que já
apareceu antes. Exemplo: Ele prefere cinema; eu, teatro.
(omissão de prefiro).
Vícios
Barbarismo: grafia ou pronúncia de uma palavra em
desacordo com a norma culta. Exemplo: bandeija, em vez de
bandeja/ gratuíto, em vez de gratuito/ cidadões, em vez de
cidadãos/ tráfico de veículos, em vez de tráfego.
Solecismo: desvio da norma culta na construção
sintática, infringindo as normas de regência, colocação e
concordância.
De regência – Assistimos o espetáculo, em vez de
assistimos ao espetáculo.
De concordância – Haviam muitos alunos na sala, em
vez de havia, dada a impessoalidade do verbo.
De colocação – Falarei-te aos ouvidos, em vez de falarte-ei aos ouvidos.
Ambiguidade ou anfibologia: construção da frase de
um modo tal que ela apresente mais de um sentido.
Exemplo: Maria pediu ao amigo para levar seu mochila.
Não fica claramente identificada a propriedade do livro nem
que vai levá-lo. Reformulando: Maria pediu ao amigo para
levar o livro dela (ou dele, se for o caso).
Cacofonia – encontro ou repetição de fonemas que
resultam em um desagradável efeito sonoro.
Amo a boca dela. Vou-me já, pois já é tarde.
Pleonasmo vicioso: repetição desnecessária de uma
ideia. Exemplo: descer para baixo, subir para cima, entrar
para dentro.
Eco – sequência de palavras constituídas pela mesma
terminação resultando em um som desagradável.
Fiquei como um bobão quando dei o pai ao cão e ele
disse não.
Estrangeirismo – emprego de palavras de outras
línguas. De acordo com a origem recebem a denominação
de galicismo, anglicismo, italianismo, germanismo e outros.
Por exemplo: pedigree, em vez de raça/ delatar o arquivo/
tuitar/ happy hour, em vez de final de tarde/ démodé, em vez
de fora de moda/ site, em vez de sítio/ socialite.
Prolixidade – representa um acúmulo de palavras
desnecessárias, ou melhor, utilizando uma expressão
coloquial bem conhecida, enchendo linguiça sem nada dizer.
Por exemplo: Os jovens, pela sua juventude, são mais novos
e inexperientes que os mais velhos, estes, sim, mais vividos,
porque nasceram há mais tempo, viveram mais e
acumularam mais experiências. Isso não quer dizer que o
jovem, por ter nascido depois, não tenha também, além da
sua juventude natural, alguma experiência, não extensa
como a dos mais velhos e mais antigos, mas, mesmo assim,
alguma experiência.
Outra forma de prolixidade é o abuso de chavões:
inflação galopante/ vitória esmagadora/ esmagadora
maioria/ caixinha de surpresas/ caloroso abraço/ silêncio
sepulcral/ nos píncaros da glória.
Plebeísmo – é o uso de gírias, chavões cristalizados
pela convivência em sociedade. Por exemplo: tipo assim/
ninguém merece/ a nível de/ ou mesmo palavras de baixo
calão.
ERROS GRAVES E DICAS
A colocação deste item no final do livro foi proposital.
Aqui encontrará saídas de emergência quando julgar que
pode fracassar. Tenha sempre em mente, no entanto, que se
seguiu as etapas propostas em seu plano de trabalho para
sua aprendizagem, não há como falhar. Você tem as armas e
a disposição de que necessita para triunfar.
Erro: Fugir do tema
Dica: Leia com calma e atenção o tema proposto. Grife
o que for importante e significativo e que sirva de ponto de
partida para desenvolver sua tese. Mas, de repente, deu
aquele branco. O assunto nada tem a ver com qualquer coisa
que tenha estudado. Esta pode ser a sua impressão no
momento, por isso calma, respire fundo e relaxe. Você está
preparado para qualquer situação e tem como sair disso.
Releia o tema. Busque relação com qualquer coisa que seja
do seu conhecimento ou de seu domínio. Não tente forçar a
relação. Apenas busque ligações. Lembre-se que, ao
desenvolver uma tese, precisa defini-la e depois trabalhar na
argumentação. O assunto é desconhecido de todo?
Impossível. Alguma coisa nele vem de encontro a seus
conhecimentos. Só precisa definir o que é. Grifou algumas
palavras? Analise-as. Veja a direção em que apontam. Veja
a argumentação que pode desenvolver com elas. Tenho
certeza que vai encontrar um elo para iniciar sua cadeia de
argumentos. Ainda está difícil? Busque nas sequências da
Bíblia, na História, na Geografia, na Literatura, na
atualidade, em suas experiências pessoais, em seus
conhecimentos gerais.
Se nada lhe ocorrer, comece assim mesmo. É um velho
truque que eu uso quando inicio um livro. Muitas vezes nem
sei sobre o que vou escrever, mas começo. Crio um cenário,
invento personagens, coloco-os em um situação onde
aparentemente não há saída e inicio. Em pouco tempo a
história vai se delineando por si só. Sabe por que consigo
isso? Porque já fiz isso antes.
Você poderá fazer o mesmo. Leia os temas de redação
propostos neste livro. Algum lhe parecerá impossível de
desenvolver. Tente com esses. Ou peça a alguém que lhe
proponha um tema, o mais disparatado possível. E vá
praticando. Mais e mais.
Algum tema, depois disso, lhe será difícil: Jamais.
Você estará preparado para qualquer um que surgir.
Erro: usar o gênero de texto inadequado
Dica: analise atentamente o que é solicitado.
Normalmente não será uma poesia, uma descrição ou uma
narração, mas uma dissertação. Nada de diálogos. Use
parágrafos. A dissertação exige argumentos na defesa de sua
tese.
Erro: usar o estilo inapropriado
Dica: A dissertação não admite coloquialismo nem
bate papo com o examinador. Evite o uso de pronomes
pessoais (eu, você). Seja objetivo. Releia o que fez. Retire
ou refaça adjetivações desnecessárias ao argumento. Se
pretende dizer, por exemplo, que anoiteceu e que este é o
fato importante, não escreva: “O sol descera no horizonte. O
céu perdia suas cores e a escuridão se aproximava célere,
vindo do oriente distante. Os ruídos do dia iam cessando e a
natureza se aquietava...” Se você não está escrevendo um
romance, mas desenvolvendo uma tese, o importante é
dizer: “Anoiteceu.” Pronto e acabou. Todo o resto é
secundário.
Erro: argumentação fraca e uso de chavões
Dica: para uma boa dissertação, exige-se conhecimento
sobre o assunto, por isso a leitura é principal ferramenta a
ser usada, de forma a garantir argumentos e explicação
sólidas e originais, sem banalizações ou generalizações.
Todo político é ladrão, toda loura é burra, todo marido é
beberrão, todo pai é severo e outras tiradas semelhantes
devem ser evitadas.
Erro: falha na coesão e na coerência:
Dica: Um bom rascunho é essencial para ser lido e
relido, observando o encadeamento das ideias, de forma que
não pareçam só um amontoado jogado no texto. Evite
elementos contraditórios. Assuma uma tese e argumente em
sua defesa gradativa e progressivamente, interligando com
sentido uma frase à outra. Estude e pratique o uso de
conjunções, responsáveis por conectar orações, impedindo
que o texto se torne apenas uma sequência de frases soltas.
Digamos que o tema seja sobre a Preservação Ambiental.
Você tem uma opinião sobre isso. Expresse-a e argumente
sobre ela, provando seu ponto de vista, sem floreios, sem
devaneios e sem desvios. Simples e objetivamente.
Erro: grafia ou concordância das palavras
incorretas
Dica: Se tiver dúvida na grafia de uma palavra, evite-a.
Se uma construção lhe parecer falha ou incorreta, substituaa por outra, buscando sempre a originalidade. Lembre-se
sempre de usar as letras maiúsculas quando necessárias.
Evite inserir parênteses, chaves ou traços. Cuidado com a
repetição da mesma palavra: “que”, por exemplo. Apenas
use citações se forem absolutamente necessárias ao
desenvolvimento de sua tese. Nesse aspecto, se lê com
frequência, seguramente não encontrará dificuldade.
Principalmente se, ao ler, tiver a seu lado um dicionário para
eventualmente esclarecer algumas dúvidas. José de Alencar,
o famoso escritor, deseja conhecer os clássicos da época e a
maioria era de autores franceses. O grande autor lia com um
dicionário ao lado. Em francês. No original. Você não
precisa chegar a tanto.
Erro: transferência da responsabilidade
Dica: a dissertação exige reflexão e argumentos que
não podem nem devem ser transferidas ao
leitor/examinador. Reflita e argumente sem transferir essa
responsabilidade. O uso de perguntas seguidas de respostas
torna o texto prolixo e apenas “enche linguiça”. Lembre-se
de que dispõe de 20 a 30 linhas para desenvolver seu
trabalho e finalizá-lo dentro de uma estrutura adequada.
Erro: uso de diversas pessoas gramaticais
Dica: Se começar um texto de forma impessoal,
termine-o assim. Não alterne as pessoas presentes no testo,
alternando eu, nós, você, eles e assim por diante. Cuidado
para não misturar “tu” com “você” se isso couber o seu
texto.
Erro: coloquialismo, gírias ou clichês
Dica: Seu teste deverá seguir a norma culta, por isso
não há lugar para termos coloquiais, gírias ou clichês, nem
mesmo entre aspas.
Erro: letra ilegível
Dica: escreva com calma e devagar, sem pressa,
caprichando na letra. Lembre-se que se não for entendido,
não será avaliado. A rascunho é importante por isso. Se,
enfim, errar uma palavra ou uma frase, risque-a e corrija
adiante. Riscar, porém, não significa borrar. Faça de forma
que fique claro que aquela palavra ou trecho não faz parte
de seu texto, apenas isso.
Erro: uso de abreviaturas
Dica: evite usá-las, até mesmo o “etc.”.
BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Napoleão Mendes de — Gramática metódica
da língua portuguesa, São Paulo, Saraiva, 1962.
ANDERSON, Jean — O estilo a seu alcance. Rio de
Janeiro, Aurora.
BAÇAN, Lourivaldo Perez — Alchimia. Londrina, Cotação
da Construção, 1999.
————. Sassarico. Londrina, Midiograf, 1996.
————. Redação passo a passo. Londrina, Midiograf,
1999.
BUENO, Silveira — A arte de escrever. São Paulo,
Saraiva, 1968.
CEGALLA, Domingos Paschoal — Novíssima gramática
da língua portuguesa. São Paulo, Cia Editora
Nacional, 1985.
CRUZ, José Marques da — Português prático –
gramática. São Paulo, Melhoramentos, 1954.
CRUZ, Pe. Antônio da — Arte da composição e do estilo.
Petrópolis, Vozes, 1959.
CUNHA, Maria Antonieta Antunes — Ler e redigir. Belo
Horizonte, Discubra.
FARACO, Carlos Emílio e MOURA, Francisco Marto —
Gramática. São Paulo, Ática, 1990.
GANDELSMAN, Míriam S. — 115 modelos de cartas
comerciais. Rio de Janeiro, Ediouro, 1989.
LIMA, Rocha e BARBADINHO NETO, Raimundo —
Manual de Redação. Rio de Janeiro, FENAME, 1989.
LUFT, Celso Pedro — Novo manual de português. São
Paulo, Globo, 1986.
MARTINS, Eduardo — Manual de redação e estilo. São
Paulo, Estadão, Internet, 1999.
MIRANDA, José Fernando — Arquitetura da redação.
Porto Alegre, Centro de Estudos da Língua Portuguesa
da PUCRS, 1983.
NICOLA, José de e INFANTE, Ulisses — Português
palavras e ideias – 8a série. São Paulo, Scipione,
1991.
PEREIRA, Eduardo Carlos — Gramática expositiva. São
Paulo, Cia Editora Nacional, 1955.
TERRA, Ernani — Curso prático de gramática. São
Paulo, Scipione, 1991.
TÔRRES, Artur de Almeida — Moderna gramática
expositiva da língua portuguesa. Rio de Janeiro,
Fundo de Cultura, 1959.
WALKER, Daniel — Como preparar trabalhos escolares.
Internet, 1997.
Download

redação para o enem, vestibular e concursos