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“Ter Saúde é estar em seu máximo potencial”: Medicina Antienvelhecimento e
a Saúde Ótima
“Healthy means being in one's highest potential”: Anti-Aging Medicine and
Enhanced Health
ANTÔNIO NOGUEIRA LEITÃO - BACHAREL EM PSICOLOGIA (UFRJ)
MESTRANDO DO PROGRAMA EICOS - PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOSSOCIOLOGIA DE
COMUNIDADES E ECOLOGIA SOCIAL (UFRJ)
E-MAIL: [email protected]
ROSA PEDRO – DOUTORA EM COMUNICAÇÃO E CULTURA (ECO-UFRJ)
PROFESSORA ASSOCIADA DO PROGRAMA EICOS
PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOSSOCIOLOGIA DE COMUNIDADES E ECOLOGIA SOCIAL (UFRJ)
E-MAIL: [email protected]
Agradecemos o apoio dado pela Capes para a realização deste trabalho.
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Resumo
O objetivo deste trabalho é apresentar um recorte das informações colhidas após um ano de
pesquisa sobre as práticas da Medicina Antienvelhecimento, procurando situá-las na discussão
sobre a busca da longevidade. Sempre potencialmente conflituoso por questionar formas canônicas
de definição do ser humano, o debate sobre a extensão da vida suscita temores quanto à
transgressão de limites éticos. Atualmente, em particular, certas técnicas têm acirrado as tensões, já
que insinuam ganhos inimagináveis de anos de vida. Este é o caso da Medicina
Antienvelhecimento, que com uma teoria própria sobre o fenômeno biológico do envelhecimento,
põe em cena conceitos que dão novos contornos para a racionalidade médica. Um dos exemplos
disso é a ideia de saúde ótima. Inspirando-nos nos Estudos CTS – por exemplo, ao enfocar nas
controvérsias como fio condutor da reflexão – procuramos discutir tanto essa noção de otimização
quanto as críticas que a ela se impõem. O que percebemos ao observar a tensão entre o avanço em
direção a novas formas do humano agenciadas pelas técnicas, e as diferentes tentativas de contê-lo,
é que estas tentativas sempre recaem em propostas que ignoram que a hibridação sociedade x
técnica é um dado incontornável. Disso resulta que tais proposições estão sempre a reboque das
inovações, contribuindo pouco, de fato, para a obrigatória reflexão sobre os rumos dos
acontecimentos que nos concernem como coletivo. Nossa conclusão, portanto, vai no sentido de
acenar com a necessidade de pensar, alternativamente às existentes, uma ética que se faz com as
técnicas.
PALAVRAS-CHAVE: Longevidade; Controvérsias; Medicina Antienvelhecimento; Ética; Saúde
Ótima.
Abstract
The aim of this work is to make an account of part of the information collected after one year
researching Anti-Aging Medicine's practices, while trying to locate them in the discussion about the
quest for longevity. Always prone to get into conflicts once it interrogates established definitions of
the human being, the debate on life extension rises fears regarding the transgression of ethical
limits. Nowadays, particularly, certain techniques have strenghtened the tensions because they are
supposed to add an uncanny number of years to life. This is the case of Anti-Aging Medicine,
whose theory of the biological ageing phenomenon sets concepts that shape new boundaries to the
medical rationale. For instance the idea of enhanced health. Inspired on Science and Technology
Studies – for example when focusing on controversies as a main tool whereby carrying out the
reflections – we pretend to discuss both this notion of enhancement and the critics steered to it.
When observing the tension existing between the upturn in the direction of new forms of the human
made in connection to techniques and the varied attempts to avoid their development, what we
notice is that these attempts always end up in proposals that ignore that the hybridization society x
technique is unretrievable. Those proposals are always one step behind of the innovations thus, and
therefore they fail in helping with the mandatory reflection on the course of action that concern us
as a collective. Our conclusion heads, then, the necessity of thinking, alternatively to the existing
ethical patterns, an ethics made in connection to the techniques.
KEY-WORDS: Longevity; Controversies; Anti-Aging Medicine; Ethics; Enhanced Health.
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Introdução
“Senhoras e senhores, apertem os cintos, pois a revolução está apenas começando. Nossas
vidas nunca mais serão as mesmas!” (RACHID, 200-a). Em tempos como os atuais, de acelerada
transformação tecnológica, a euforia de uma frase como esta pode soar sem sentido. Não é raro tais
“revoluções” tornarem-se obsoletas na mesma velocidade com que aparecem, sendo rapidamente
ultrapassadas pela “revolução” seguinte. Por isso, é preciso ter em mente uma inovação bastante
decisiva para que, em meio às inovações que vêm e ficam – pensemos em como é impossível nos
concebermos, hoje, sem a Internet ou os serviços do Google – tais palavras tenham força e
durabilidade, como o autor, Italo Rachid, parece lhes querer imprimir. Conhecendo o resultado a
que almeja a revolução mencionada por Rachid, veremos que a ambição não é pequena: trata-se de
estender a longevidade humana. Outra afirmação deste médico, um dos difusores das terapias
antienvelhecimento no Brasil, esclarece melhor em que nossas vidas serão mudadas: “A expectativa
de vida por volta de 2030 terá ultrapassado os 100 anos e, por volta do final do século XXI, projetase que os seres humanos estejam atingindo 200 anos de estimativa de vida!” (Idem).
Atualmente, uma série de pesquisadores e cientistas se dedica ao estudo de meios de
aumentar a longevidade humana. Restrição calórica, manipulações genéticas, prevenção de danos
oxidativos, tratamentos hormonais e intervenções sobre os telômeros são os melhores exemplos
disso (THE PRESIDENT'S COUNCIL ON BIOETHICS, 2003). Contudo, conquanto estas frentes
de pesquisa tenham apresentado avanços, quando se trata de determinar quantos anos a mais tais
técnicas, se bem sucedidas, poderiam acrescentar à vida, surgem divergências. Enquanto alguns,
como Rachid, apontam para dados otimistas, também se encontram fontes mais descrentes.
Estatísticas mostram que, fossem eliminadas todas as formas de câncer, de doenças
cardiovasculares e a diabetes, a esperança de vida ao nascer nos Estados Unidos subiria para cerca
de 90 anos. Frente aos atuais 78 anos, é um ganho moderado, sobretudo se comparado ao que se
experimentou naquele país ao longo do século XX: de 48 anos em 1900 para 78 anos em 1999
(Idem).
As razões para a existência de divergências a propósito do aumento da longevidade têm
origens localizadas mais além do fato de que nenhuma das pesquisas ofereceu, por enquanto,
evidências concretas e insuspeitas de sucesso, ao ponto de se tornarem caixas-pretas
(VINCK,1995). Deve-se notar que os hipotéticos 12 anos acrescidos à expectativa média de vida
dos norte-americanos se dariam em função da cura de doenças que constam entre as que mais
matam, em países de alta renda (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2011?). Logo, é
presumível que previsões de ganho de anos como os apresentados por Italo Rachid partam de outros
pressupostos, que não apenas os da cura de doenças; senão, como seria possível haver números tão
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significativamente discrepantes? Deixemos a explicação sobre em que consistem estas diferenças
de pressupostos a cargo de Rachid, novamente:
Anti-Aging Medicine ou Age Management Medicine que do inglês significa:
Medicina Antienvelhecimento e Gestão da Idade, respectivamente, nasceu há cerca
de 21 anos nos Estados Unidos (…) um movimento que reuniu, de início, apenas
12 médicos, que pela primeira vez pensaram em conceituar e promover a saúde de
forma diferente. Ao invés de aguardar passivamente pelo dano ou pelas doenças,
aqueles médicos imaginaram que seria possível conceber uma estratégia diferente,
aonde se passaria a atuar na vida das pessoas de forma preventiva e preditiva,
muito antes que as patologias se manifestassem. (RACHID, 200-b)
Com esta passagem, fica claro o elo que une uma vida mais longeva à Medicina
Antienvelhecimento: a prevenção de doenças. Neste artigo, pretendemos mostrar como esta
modalidade médica, a partir da elaboração de uma estratégia de intervenção preventivista e
amparada em uma teoria própria sobre as causalidades do envelhecimento humano, articula de
forma peculiar a noção-chave de saúde – não só como ausência de doenças ou como integralidade
que inclui o bem-estar mental e social, mas em uma apreensão dessas concepções interpretadas à
luz de uma condição clínica otimizada – sobre a qual temos a capacidade e até a necessidade de
interferir, a fim de produzir a longevidade. Procuraremos conduzir esta discussão articulando-a com
algumas das controvérsias nas quais se envolve a Medicina Antienvelhecimento, dando relevo às
questões éticas e políticas que surgem destas discussões.
Longevidade: um tema fértil em gerar controvérsias
A imprecisão na definição do número de anos que o homem pode viver é capaz de gerar as
expectativas mais díspares. Os 200 anos previstos por Italo Rachid parecem absolutamente céticos,
perto do que é suposto pelo geneticista britânico Aubrey de Grey: “Eu creio que a primeira pessoa
que viverá 1000 anos está hoje com 60 anos.” (2004, tradução nossa). De uma ponta à outra, o que
há de comum entre Rachid e de Grey é a expectativa de que o corpo possa ter aberta diante de si
outra perspectiva de existência, acessorado pelos avanços médicos-tecnológicos vindouros.
Todavia, nem sempre a realização de uma corporeidade e de uma saúde mais resistentes é vista com
tãos bons olhos, especialmente quando esteiada em tais pilares. O que parecia a busca legítima de
um bem indiscutível passa a ser interpretado como antiético. Assim é que pode ser compreendida a
crítica feita por Clóvis de Barros Filho, professor de Ética da Escola de Comunicação e Artes da
Universidade de São Paulo: “Essa pretensão de vida eterna é um erro existencial, uma arrogância do
homem em querer inventar uma vida que não é sua. Pois a finitude é um atributo da nossa, e é o que
a faz ser boa.” (SANTOS, 2011, p. 43).
Depoimentos como este são comuns em tempos de seguidas revoluções tecnológicas. Não
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restam dúvidas de que a proposta de extensão da vida, seja pelas terapias antienvelhecimento de
Rachid, seja pelas biotecnologias de rejuvenescimento [rejuvenation biotechnologies] (SENS
FOUNDATION, 2011) de Aubrey de Grey, criam dilemas éticos. A sensação compartilhada pelos
que se opõem a projetos desta estirpe é a de que áreas distintas se invadem: o humano foi
maquinizado; o corpo natural foi descaracterizado; o social foi tecnificado; e assim por diante. A
questão é o que fazer diante deste cenário, pois esta interpretação frequentemente leva o
desenvolvimento técnico a um impasse: deveríamos freá-lo e resignarmo-nos à finitude, já que esta
é uma característica da nossa vida, como diz Clóvis de Barros Filho? A fim de defender sua
posição, nem sempre é útil clamar pelo que é natural, ou pelo bom, como faz este professor; a arma
pode se voltar contra quem a usou. Aubrey de Grey diz: “Algumas pessoas se sentem tão
amendrontadas [pela perspectiva de eliminar o envelhecimento] que elas pensam que deveríamos
aceitar o envelhecimento como ele é. Eu acho que isso é diabólico – é pregar que deveríamos negar
às pessoas o direito à vida.” (DE GREY, op. cit., tradução nossa).
As premissas da Medicina Antienvelhecimento encontram-se intimamente ligadas às
controvérsias descritas acima. A tese fundamental desta prática médica consiste em postular que o
envelhecimento humano é causado pela queda na produção hormonal (RACHID, informação
verbal)1. A argumentação é a seguinte: tão logo atingimos o ápice da maturidade sexual – em torno
dos 20 anos – o corpo atinge o máximo de sua expectativa de vida. Se há, pois, um limite que se
possa chamar natural para a vida humana, esse limite coincide com a fase em que somos
plenamente capazes de nos reproduzir. Pois após a passagem de alguns anos gozando desse cume de
aptidão fisiológica (que dura até os 30 anos, mais ou menos), um declínio gradual e necessário na
produção hormonal se dá, uma vez que os hormônios são “os moduladores da renovação celular”
(Idem). Daí as diversas pausas (declínio da produção) hormonais, que com o avanço nas pesquisas
tendem a ser relativas e específicas a um número cada vez maior de hormônios2.
Estas pausas são indicações que a finalidade biológica em tese já se completou. Em outras
palavras, não há mais função para aquele organismo, na natureza. Neste sentido, “envelhecer não
faz parte da biologia”, diz Italo Rachid (informação verbal, op. cit.). A teoria antienvelhecimento
não é unânime – “Esta visão puramente hormonal do envelhecimento é muito simplista.”, diz o
geriatra D. (informação verbal)3 – e não é a questão de sua validade cientíifica que nos interessa
aqui discutir. Interessa-nos, sobretudo, seus efeitos. Mesmo porque, como diz Bruno Latour, “o
destino final de fatos [científicos] e máquinas está nas mãos dos consumidores finais; suas
qualidades, portanto, são consequência, e não causa, de uma ação coletiva.” (2000, p. 423). E o que
1 Entrevista concedida à jornalista Marília Gabriela. Disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=fTA_HvzPWU4 Acesso em 07 de junho de 2011.
2 Contando apenas as principais (RACHID, 200-c), são sete: adrenopausa (hormônio DHEA), andropausa (hormônio
testosterona), eletropausa (hormônio pregnenolona), menopausa (hormônio estrogênio), tireopausa (hormônios
tireoidianos), melatopausa (hormônio melatonina) e somatopausa (hormônio do crescimento).
3 Entrevista concedida a mim no dia 22 de dezembro de 2010.
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se vê é que as terapias antienvelhecimento têm encontrado ampla aceitação entre o público,
mesmo com todas as controvérsias (sobre as controvérsias, ver OLSHANKY, 2004), o que é
compreensível: quem não quer viver mais tempo e com saúde? O problema é que a questão não
para aí. Ao explicar o envelhecimento em si mesmo, a Medicina Antienvelhecimento chama-nos a
intervir sobre ele. Vemo-nos excitadamente engajados com a possibilidade de viver mais, mas não
se trata apenas de querer, mas de, em determinado momento, ter que cuidar dos nossos corpos até o
ponto de viver mais. Afinal, se agora se conhece a causa intrínseca do envelhecimento – situação
profundamente distinta de ter explicações multifatoriais, onde se pode apenas parcialmente creditar
às variáveis a responsabilidade pelo fenômeno – e há meios corretos e seguros para sobre ela se
agir, poderemos optar por não agir?
Assim como na discussão sobre ser ou não “correto” o homem prolongar sua vida,
pontuada por comentários de Barros Filho e de de Grey, a pergunta sobre poder ou não deixar de
agir sobre o envelhecimento uma vez que se tem o conhecimento de sua causa, remete ao campo
ético-político. E assim como para aquela, para esta as respostas também tendem a ser polarizadas
em prós e contras que se limitam mutuamente. De um lado, então, estão os divulgadores das
terapias antienvelhecimento, que querem fazer parecer que tudo se trata de uma simples escolha:
“Atingir o máximo de saúde e bem estar está agora ao simples alcance das suas mãos.” (RACHID,
200-d). E de outro, há aqueles que, sempre entendendo que tais explicações e soluções técnicas
assumiriam uma preponderância indevida sobre a ordem política e social, anteveem uma espécie de
totalitarismo emergindo do alastramento de saberes como a Medicina Antienvelhecimento (LE
BRETON, 1999). Presume-se, neste caso, que aqueles que não optassem pelos tratamentos
poderiam ser individualmente responsabilizados e, no limite, discriminados.
Para não reproduzir estes juízos, é preciso adentrar a controvérsia de outra forma. Não
queremos nem uma adesão irrefletida às novas técnicas, que sataniza quem as questiona, nem a
preocupação de quem pensa o social como um domínio exclusivamente humano. Como fazer isto,
no entanto? “O falado determinismo biológico diz respeito muito mais às fantasias de controle
absoluto que se constroem em torno dessas ciências que à sua prática cotidiana e apropriação pelos
indivíduos.” (FERREIRA, 2009). A ressalva feita por esta afirmação é importante para nós, pois
nos dá uma pista, qual seja: abordar as controvérsias desde as práticas em questão e desde o uso que
delas fazem os sujeitos. Em vez de pensar em uma imposição das técnicas vindas do lá-fora frio e
imutável da natureza ao quente e turbulento mundo dos homens-entre-eles (LATOUR, 1994), para
os estudos sociotécnicos, tecnologia é sociedade (BENAKOUCHE, 1999). Isto implica em dizer,
mais uma vez que, do lugar de onde falamos, não está em questão uma visão que toma as inovações
técnicas como deturpações de uma ordem social original e verdadeira. Tampouco de nada nos vale
simplificar o problema, dizendo que optar pela técnica é uma simples escolha ao alcance de nossas
mãos, posição que ignora as minúcias das traduções e mediações que se dão nos coletivos
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heterogêneos (LATOUR, 2005).
Medicina Antienvelhecimento e a saúde ótima
A Medicina Antienvelhecimento ordena seu proceder, então, pela ideia de um corpo cujo
processo de envelhecimento é plenamente cognoscível:
É sabido que a genética só interfere em 20% da longevidade e que os níveis de
estresse e sedentarismo, podem suprimir até 30 anos de vida do indivíduo. Diante
de tais evidências e da evolução da medicina preventiva, resta ao homem moderno
decidir qual postura (idade biológica) quer assumir diante da vida. (RACHID,
200-e)
A afirmação “é sabido que a genética só interfere em 20% da longevidade” marca uma
perda de relevância para esta variável, e se torna curiosa, se pensarmos em todo o enlevo criado em
torno das ciências genômicas, que supunha que o avanço das descobertas nessas áreas traria
enormes mudanças na forma de se fazer medicina. Ao mesmo tempo, diz-se que 65% da
determinação da longevidade estão ligados a estilo de vida e manutenção preventiva (RACHID,
informação verbal, op. cit.). Esses números, apresentados de maneira dissociada de outras
informações que os esclareçam mais precisamente (podemos nos perguntar: como os 65% se
conjugam com os 20% da genética?; ou: a que atribuir os 15% restantes?), fazem do estilo de vida,
e principalmente da manutenção preventiva, a “grande variável da equação” da longevidade
saudável. Estes 65% são virtuais, estão em aberto: terão seu peso real efetivado ou abrandado, se
atualizarão em 30 anos a mais ou a menos de vida.
Vamos imaginar um exemplo. Um indivíduo, chamado João, nasceu em 1961. Logo, ele
tem hoje, em 2011, 50 anos. Isso é o que qualquer um diria. Já a Medicina Antienvelhecimento dirá:
ele tem 50 anos cronológicos; mas isso diz pouco sobre o quão velho João de fato é. A questão é
que, baseados na teoria hormonal do envelhecimento, os praticantes desta modalidade médica
alegam ser possível quantificar e mensurar especificamente a velocidade e a intensidade com que
cada um envelhece; mais do que isso, é possível saber exatamente em que estágio de velhice cada
indivíduo se encontra. Daí o conceito de idade biológica, “ou seja, a sua idade funcional ou a idade
do seu metabolismo” (RACHID, 200-f). Com ele, vários são os cenários possíveis. Suponhamos
que João tenha uma boa genética e tenha sempre mantido um estilo de vida adequado, mas jamais
tenha ouvido falar em Medicina Antienvelhecimento. Seus 50 anos biológicos coincidem com seus
50 anos cronológicos. Suponhamos agora que João tenha péssimos hábitos alimentares, goste de
exagerar no álcool e seja tabagista. A idade biológica provavelmente está bem mais avançada que a
cronológica: o metabolismo de João tem 80 anos. Do lado oposto, está o João esportista, regrado e
visitando o consultório de seu médico antienvelhecimento regularmente: fisiologicamente, ele é
como um rapaz de 25 anos. E, claro, entre os três “Joãos” aqui imaginados, há inúmeros outros,
com idades biológicas diferentes. Para entender a força deste conceito, vejamos o seguinte
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depoimento recolhido por uma antropóloga norte-americana, que ilustra o momento em que uma
médica decide aderir, ela mesma, aos tratamentos antienvelhecimento.
Eu tinha 32 anos e meu irmão tivera um derrame cerebral aos 30. Então eu me
testei. Eu fiquei estupefata. Eu era uma mulher ativa, eu tinha muito gás para
trabalhar, eu não tinha rugas, eu não tinha cabelos brancos, eu ainda era jovem,
mas minha idade biológica era 70 anos. Eu chamei o Dr. B – ele é o dono [do
laboratório que testou o sangue]. Eu disse: 'Dr. B., você pode revisar meu teste?
Ele está péssimo!' Ele então olhou: 'Este é o seu teste pessoal?' Eu disse: 'Sim, o
que eu faço, eu estou com 70 anos?!' E ele disse: 'Você tem que fazer alguma coisa
rápido. Você está tomando aminoácidos?' Eu disse: 'Estou tomando, mas talvez não
o suficiente.' 'Não está funcionando; há quanto tempo você está tomando?' 'Talvez
há seis meses.' 'Você precisa mudar. Talvez você devesse tomar hormônio do
crescimento.' E eu disse: 'Eu tenho medo.' E ele: 'Então tente peptídeos.' Eu não
conhecia nada daquilo, mas eu lia bastante. Então eu comecei. Comprei isso,
comprei aquilo, daqui, dali, comecei a fazer em mim mesma, a refazer meu sangue.
Você sabe o quê? Foi como um milagre! Era o que eu estava procurando,
aparentemente. Esse tipo de coisa mística que eu não conhecia antes, que eu nunca
aprendi na faculdade... Em dois anos eu sabia que rejuvenescera... Mas o que eu
acho que eu fiz foi normalizar meu processo de envelhecimento, porque eu estava
envelhecendo muito rápido, biologicamente. (MYKYTYN, 2006, tradução
nossa, grifo nosso.)
É interessante, então, notar como as noções de idade e envelhecimento biológicos
articulam ideias centrais sobre saúde e corpo. Ao arrepio de todas as evidências que indicavam uma
boa saúde, a médica subitamente tomou conhecimento de uma informação que desmentiu todas as
suas fontes de julgamento clínico e empírico. Contrariamente a seu aspecto físico (“eu não tinha
rugas”; “eu não tinha cabelos brancos”), a seu bem-estar subjetivo (“eu era uma mulher ativa”; “eu
tinha muito gás para trabalhar”) e a sua idade (“eu ainda era jovem”), seu organismo encontravase em estado de decrepitude avançada. A julgar pela diferença entre seus 32 anos cronológicos e
seus 70 anos biológicos, sua saúde estava muito pior do que parecia. Por isso, o sentimento
experimentado diante de tamanha incompatibilidade é de desespero. Contudo, ela felizmente pôde
reverter esse quadro. A pergunta é: qual foi a idade fisiológica resultante após o tratamento? Se ela
mudou parcialmente seu estilo de vida e aderiu com recalcitrância às recomendações do Dr. B, ela
talvez tenha equiparado idade cronológica e idade biológica. Neste caso, dentro de dois anos, como
se diz no texto, ambas as idades contavam 34 anos, e ela passou a gozar de uma boa saúde.
Todavia, pelo que relata, sua mudança foi radical, e é possível que, com isso, tenha chegado aos 34
anos cronológicos com apenas 28 anos biológicos. Aos 32 anos (cronológicos), sua saúde, então,
não estava apenas muito pior do que parecia, mas muito pior do que podia. Ela fruía, agora, de uma
ótima saúde.
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O conceito de saúde merece uma contextualização muito mais profunda e
universal do que simplesmente ausência de doenças. Saúde é um estado ótimo onde
suas capacidades, sentidos e metabolismo se encontram em um nível máximo de
atividade, independente da idade que você tenha. O corpo e a mente devem estar
harmonizados em seu máximo potencial. (BARROS, 200-, grifo nosso)
Oferecer a saúde máxima ou ótima: esta é a meta da Medicina Antienvelhecimento. Mas
onde se encontra este “lugar”? Este máximo está referido a que parâmetros? Relembremos a teoria
do envelhecimento desta modalidade médica: o auge fisiológico do corpo humano coincide com a
plenitude do processo de maturação sexual. Após esta fase, a derrocada é inexorável. “A ciência
moderna é detentora de sólidos conhecimentos que nos permitem afirmar com total segurança e
clareza que os hormônios não caem porque nós envelhecemos, e sim, nós envelhecemos porque os
nossos hormônios caem.” (Idem). Logo, o que caracteriza o auge fisiológico, e por decorrência, a
saúde ótima, são as taxas máximas de produção hormonal experimentadas entre os 20 e os 25 anos.
Todas as técnicas de que a Medicina Antienvelhecimento dispõe (modulação hormonal, a dieta em
zona de equilíbrio hormonal, suplementação alimentar customizada), somadas às que são do
repertório médico geral (prática de exercícios regulares), visam a conduzir o organismo,
independente de quantos anos cronológicos ele tenha, ao funcionamento metabólico que tinha nesta
fase áurea da vida. E como vimos pela citação da Dra. Gisele Barros, tais adaptações não objetivam
apenas uma excelente performance do corpo, mas também da mente (“O corpo e a mente devem
estar harmonizados em seu máximo potencial.”). Ambas estas instâncias estão sujeitas a terem seu
grau de envelhecimento identificado e, com isso, sua condição clínica tornada melhor do que boa.
Conclusão
“Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a
ausência de doenças ou enfermidades.” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1946). Esta é
a clássica definição do conceito de saúde, dada pela OMS. Mas como fica ela em vista da saúde
ótima, pretendida pela Medicina Antienvelhecimento? Talvez seja uma ousadia, mas que fique
apenas como uma provocação: a otimização da saúde representa a primeira mudança significativa
nesta formulação, até então mantida inalterada desde a sua criação. Se, à época, a incorporação das
esferas mental e social representou uma inovação que formalizava que o entendimento de saúde não
podia se restringir à ausência de doenças, agora elas já são tidas como dadas. Com a proposta
antienvelhecimento, a sua presença, bem como a da ideia de bem-estar físico, só tem sentido se tais
“bem-estares” estiverem amplificados em seu máximo, permanentemente.
As implicações decorrentes desta nova concepção de saúde não são completamente
conhecidas, mas podemos supor que não serão pequenas. Voltando à grande revolução prometida
por Italo Rachid, com a qual abrimos este texto: uma vida mais longeva talvez seja a primeira
consequência importante. Se chegaremos a 150, como quer Rachid, ou a 1000 anos, como sugere
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Aubrey de Grey, ainda não se sabe. Também não se pode desconsiderar a hipótese de nem um
nem outro estarem certos. É provável, contudo, que a simples circulação da ideia de uma vida mais
longeva e saudável tenha o poder de engajar pessoas em projetos de vida cujas metas se aproximam
deste desejo por uma saúde que sempre pode ser melhorada.
No sentido de gerar tal engajamento, não acreditamos que isto se limite às intervenções
antienvelhecimento. Afinal, a Medicina como um todo ambiciona produzir uma vida mais saudável
e longeva. Ainda que o termo Anti-Aging cause arrepios em muitos médicos ortodoxos, a busca pela
longevidade apoia-se em bases que, estejam ou não cingidas com o título de antienvelhecimento,
são comuns, como a intervenção sobre o estilo de vida. O fato de haver a possibilidade de avaliação
precisa da idade biológica na prática antienvelhecimento apenas acentua o grau de
responsabilização individual esperado de cada um para com sua saúde.
Ciente da incompatibilidade entre seus 32 anos cronológicos e seus 70 anos fisiológicos,
poderia a médica norte-americana cujo depoimento transcrevemos não ter agido? Em que isso
implicaria? Estaria ela procedendo de maneira negligente se não tomasse alguma atitude frente a um
quadro tão dramático? Essas são perguntas ainda sem resposta, mas que aproveitamos para retomar
a discussão levantada ao longo do trabalho sobre o caráter ético-político da busca pela longevidade.
Tudo indica que técnicas como as terapias antienvelhecimento se agenciam com uma maior
participação do indivíduo na manutenção de sua qualidade de vida. Sempre alertas para não
estabelecermos julgamentos catastrofistas ou simplórios sobre isto, nos cabe ver o que está sendo
proposto com estas novas formas agenciadas. Se a breve história destes fatos nos permite alguma
conclusão, podemos dizer, com Paul Rabinow, que há a emergência de biossociabilidades, ou seja,
formas de lidar com a vida centralizadas em torno da saúde, e cuja principal formulação está
descrita abaixo, em um texto onde o autor discute os desdobramentos dos avanços na genética:
No futuro, a nova genética deixará de ser uma metáfora biológica para a sociedade
moderna e se tornará uma rede de circulação de termos de identidade e lugares de
restrição, em torno da qual através da qual surgirá um tipo verdadeiramente novo
de autoprodução. (1999: 143, grifo nosso.)
Outra constatação é que, com a Medicina Antienvelhecimento, a saúde em seu novo
parâmetro de normalidade – ótimo – só se torna alcançável com a participação de técnicas. Nada
que o mais disciplinado dos sujeitos faça sem as técnicas lhe porá, após ter passado dos 30 anos,
nesta faixa. Ter saúde, e com isso poder viver muitos anos, significa, obrigatoriamente, modular
seus hormônios. Adicionalmente a isso, sim, cabe toda uma rotina de exercícios e dietas, mas que
não têm o mesmo efeito quando feitos isoladamente. O futurólogo norte-americano Ray Kurzweil
define bem o estatuto da Medicina nesta nova ordem: “[A Medicina] será como a tecnologia.”
(GUANDALINI e OPPERMANN, 2011). Aqui, mais uma vez, antes de assumir que disso virá a
tecnificação da humanidade, podemos considerar que novas oportunidades estão sendo abertas para
uma vida de fato mais satisfatória. Outros efeitos, igualmente inesperados e talvez menos
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desejáveis, também podem advir. A verdade é que, relativamente às consequências destes fatos,
sejam elas positivas ou negativas, nada se sabe, ainda.
Disto resulta a pergunta a partir da qual gostaríamos de encetar a discussão final deste
artigo, e que, de certa forma, retoma tudo o que foi trazido em termos de questionamentos e
controvérsias em torno da busca pela longevidade: como nos posicionarmos frente aos avanços da
biomedicina? Se, por um lado, nos parece fundamental pensarmos sobre o andamento de pesquisas
na área, por outro não nos parece mais possível um questionamento excludente, que se pergunta
pela rejeição ou pela adesão a tais avanços. A proliferação destes híbridos causada pela ciência é
fato consumado (LATOUR, 1994). Diante da produção de novas lógicas de gregarismo, como
expresso no conceito de biossociabilidade, mencionado acima, assim como diante do surgimento
desta tecnomedicina, ressaltamos aquilo que nos parece uma impotência de certas tentativas em
estipular previamente uma ética que rege as pesquisas, sejam elas dirigidas à extensão da
longevidade ou a outro fim. A velocidade com que se dá essa marcha frequentemente acaba fazendo
do campo da Bioética um domínio tão rapidamente obsoleto quanto as novidades que não cessam
de chegar. A solução, nos parece, é pensar uma ética que, qualquer que seja ela, se fabrica com a
técnica. Como diz Rose:
“Eu não acredito que, hoje, as inovações éticas mais completas no que tange às
nossas relação com nós mesmos estão sendo feitas nas deliberações de bioeticistas
e filósofos morais – elas estão sendo feitas dentro das reflexões médicas e
biomédicas e da própria técnica.” (2001:20, tradução nossa).
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Referências Bibliográficas
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