Universidade Federal de Rondônia
Escola Nacional de Saúde Pública
Centro de Estudos em Saúde do Índio de Rondônia
Departamento de Endemias S. Pessoa
Infecções Intestinais em Populações Indígenas de Rondônia (Distrito
Sanitário Especial Indígena Porto Velho)
Documento de Trabalho no. 8
Moacir Haverroth
Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro
Ana Lucia Escobar
Centro de Estudos em Saúde do Índio de Rondônia,
Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho
Carlos E.A. Coimbra Jr.
Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro
Porto Velho, março de 2003
2
As atividades de pesquisa, ensino e extensão do Centro de Estudos em Saúde do Índio de
Rondônia (CESIR) são financiadas pela Fundação Ford.
Endereço para contato:
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3
Infecções Intestinais em Populações Indígenas de Rondônia (Distrito
Sanitário Especial Indígena Porto Velho)
Segundo a UNICEF, anualmente 2,2 milhões de mortes de crianças são devidas à
desidratação causada por diarréia, comumente agravada pela desnutrição (UNICEF,
1998; Mabilia, 2000). Doenças diarréicas continuam sendo uma das maiores causas de
morbi-mortalidade nos países em desenvolvimento e possuem relação estreita com a
desnutrição infantil. Se, do ponto de vista terapêutico, dispõe-se da terapia de reidratação
oral (TRO) como medida eficaz, em relação à prevenção da diarréia não há recurso
tecnológico de similar impacto. Nesse contexto, há a necessidade de estudos
epidemiológicos sobre as doenças diarréicas na infância a fim de prover mais
informações para melhorar sua prevenção e manejo (Mølbak, 2000).
A diarréia caracteriza-se como uma síndrome que pode ser causada por uma
grande variedade de agentes etiológicos, muitos dos quais encontram um ambiente
adequado para a proliferação nas aldeias indígenas e em outras comunidades rurais
amazônicas, que em geral carecem de saneamento básico. Apesar da importância das
diarréias nas populações indígenas, poucas investigações epidemiológicas têm sido
conduzidas. Um estudo realizado numa comunidade da periferia de Manaus verificou a
ocorrência de 0,2 a 4,8 episódios de diarréia por pessoa por ano, sendo as crianças de 0 a
35 meses as mais afetadas (Giugliano et al., 1986). Entre os Karitiána de Rondônia,
Coimbra Jr. et al. (1985) observaram a ocorrência de 3,9 episódios por pessoa ao ano. Os
principais agentes etiológicos identificados foram bactérias (Escherichia coli
enterotoxigênica e Shigella sp.) e protozoários (Giardia lamblia e Entamoeba
histolytica).
Os rotavírus figuram dentre as principais agentes que ocasionam diarréias entre os
indígenas (vide Linhares, 1992, 1997, 2000). Dentre os casos melhor documentados,
podem ser mencionadas as investigações epidemiológicas realizadas entre os Tiriyó no
norte do Pará (Linhares et al., 1981), entre os Suruí e Karitiána de Rondônia (Santos et
al., 1991) e de diversas outras comunidades amazônicas (Linhares, 1992).
4
Como reportam vários autores, as precárias condições de saneamento nas
comunidades indígenas favorecem a alta incidência de infecções gastrointestinais. A
concentração de domicílios, o sedentarismo, a convivência direta com animais
domésticos, aliados à falta de infraestrutura adequada de abastecimento de água potável e
coleta de dejetos, criam um ambiente propício à propagação de enteropatógenos de
veiculação hídrica e alimentar (Linhares, 1992; Coimbra Jr. & Mello, 1981; Santos et al.,
1991; Escobar & Coimbra Jr., 1998; Coimbra Jr. & Santos, 2001).
Este trabalho apresenta uma análise preliminar sobre a epidemiologia das
gastrenterites nas populações indígenas de Rondônia, enfocando dados relativos às
populações cobertas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Porto Velho no
período 1993 a 2001.
População e Métodos
Área investigada e grupos étnicos
O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Porto Velho foi implantado no
final de 1999 como parte da nova estrutura nacional dos serviços de atenção à saúde
indígena, cuja responsabilidade passou a ser da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA).
O DSEI abrange dez municípios, nove dos quais em Rondônia e um no sul do Amazonas
(Humaitá). Cinco pólos-base (PB) estão ligados ao DSEI Porto Velho: PB de Humaitá
(PB-HMT, 11 aldeias), PB de Porto Velho (PB-PVH, 3 aldeias), PB de Guajará-Mirim
(PB-GMI, 21 aldeias), PB de Ji-Paraná (PB-JPA, 26 aldeias) e PB de Alta Floresta (PBAFLO, 15 aldeias). A população indígena do DSEI é de 5.773 pessoas, com 47,5% do
sexo feminino e 52,5% do masculino (FUNASA, 2002). Aproximadamente 15% da
população encontra-se na faixa etária de 0 a 5 anos, a mais vulnerável para as doenças
diarréicas.
O PB-GMI atende cerca de 2.900 pessoas (FUNASA, 2002) e contempla
principalmente a população Wari’ (Pakaanóva), além de outras etnias ( Jabuti,
Tuparí, Kanoê, Ajurú, Aruá, Kujubim e
Masaká).
Makuráp,
O contingente indígena corresponde a
aproximadamente 7,5% da população total do município de Guajará-Mirim, que é de
38.045 pessoas (IBGE, 2002). Os Wari’, grupo da família lingüística Txapakura
(Rodrigues, 1986), representam a maior população indígena do PB-GMI, totalizando
5
mais de 2.000 pessoas. O crescimento da população da região que compreende o PBGMI foi de cerca de 30% no período de 1993 até 2001. Segundo dados da FUNASA
(2002), aproximadamente 15 % da população do PB-GMI encontra-se na faixa etária de
0 a 5 anos de idade. O PB-GMI abrange as Terras Indígenas (TI) Lage, Ribeirão, Pacaas
Novos, Rio Negro Ocaia, Guaporé, Sagarana e Posto Indígena São Luis (TI Uru-EuWau-Wau). A TI Pacaas Novos possui quatro postos (Pacaás Novos ou Tanajura, Santo
André, Deolinda e Sotério). As outras terras indígenas possuem um posto cada.
Coleta dos dados
A pesquisa foi realizada em janeiro de 2002 e envolveu a coleta de dados
secundários de atendimento a pacientes indígenas nas cidades de Porto Velho e GuajaráMirim. O estudo teve como unidade de referência o DSEI Porto Velho, com ênfase no
pólo-base de Guajará-Mirim.
Para a construção do banco de dados sobre diarréia, foram consultados os
registros de atendimento das seguintes instituições: DSEI Porto Velho, Coordenação da
União das Nações e Povos Indígenas de Rondônia (CUNPIR) e Casa de Saúde do Índio
de Porto Velho (CASAI-PV). Foram ainda coletados dados na sede do Pólo-Base de
Guajará-Mirim e na Casa de Saúde do Índio de Guajará-Mirim (CASAI-GMI).
Um dos maiores problemas na obtenção de dados sobre morbidade em indígenas
diz respeito à falta de sistematização na coleta e no armazenamento dos registros,
dificultando análises epidemiológicas. A dificuldade começa na própria definição do
diagnóstico. Várias categorias de sinais e sintomas relacionados a distúrbios
gastrointestinais aparecem nos registros. Na maioria dos casos, os diagnósticos não são
confirmados com base em exames laboratoriais que permitam a confirmação etiológica.
Os diagnósticos constantes dos registros podem ter sido feitos tanto por profissionais de
saúde com nível superior (médico ou enfermeiro) como por agentes indígenas de saúde
na aldeia. Para fins deste trabalho, optamos por considerar registros do tipo “dor
abdominal”, “desidratação”, “infecção intestinal”, “disenteria”, dentre muitos outros,
como indicativos de doença diarréica lato sensu.
Os dados obtidos na sede do DSEI referem-se aos relatórios consolidados
enviados pelos cinco Pólos-Base (Humaitá, Porto Velho, Guajará-Mirim, Ji-Paraná e Alta
6
Floresta d´Oeste). Infelizmente, não há consistência em relação à disponibilização desses
dados, segundo os períodos estudados. A depender do pólo-base, os dados estão
disponíveis a partir de abril ou maio de 2000. No caso do PB-PVH, não houve
preenchimento ao longo de 2000. Por ocasião da coleta de dados, os três últimos meses
de 2001 também ainda não haviam sido sistematizados. Embora a transição da
responsabilidade pelo atendimento da saúde indígena para o convênio entre o DSEI Porto
Velho/FUNASA e CUNPIR tenha ocorrido em dezembro de 1999, a implantação do
Sistema de Informações de Saúde Indígena (SIASI) não foi imediata e diferentes
formulários de coleta de informações foram utilizados nesses dois anos. Verificaram-se
ainda problemas no preenchimento dos formulários, resultantes de falta de padronização.
No PB-GMI e, mais especificamente, na CASAI-GMI, foram obtidos dados
referentes ao período de 1993 a 2001 (não havia registros para novembro-dezembro de
1993, dezembro de 1999 e janeiro-abril de 2000). Os dados de 1993 a 1999 referem-se a
registros de atendimentos realizados pela Administração Regional da FUNAI em
Guajará-Mirim, período quando o serviço de saúde era de responsabilidade desse órgão.
O problema da não padronização dos dados ao longo do período dificulta a
comparabilidade. A FUNAI utilizava como referência os postos indígenas mantidos por
esse órgão em pontos estratégicos nas terras indígenas. A FUNASA, através dos DSEI,
passou a utilizar como referência as aldeias, que são unidades populacionais específicas,
porém mais sujeitas a flutuações populacionais devido, principalmente, às constantes
migrações internas. As faixas etárias utilizadas variam de acordo com o formulário
utilizado. Por exemplo, as faixas utilizadas para o registro de casos de doenças não são as
mesmas dos formulários de levantamento populacional e variam também segundo o
período analisado. Além disso, não há registro de dados por etnia.
A CASAI-PVH recebe pacientes encaminhados pelos diversos pólos-base do
DSEI. Os casos não solucionados na própria CASAI são encaminhados para a rede de
hospitais de Porto Velho e, se necessário, para unidades de tratamento mais
especializadas fora do estado.
Foi possível realizar uma análise mais detalhada dos dados oriundos do PB-GMI,
já que envolviam um período mais longo. Para tanto, foram feitos alguns ajustes entre
dados de origem da FUNAI (período de 1993 a 1999) e da FUNASA (anos de 2000 e
7
2001). Por exemplo, dados por aldeia registrados pela FUNASA foram agrupados
segundo posto indígena correspondente, de maneira que se mantém a unidade de análise
‘Posto Indígena’.
Resultados
DSEI Porto Velho (2000-2001)
Para a região de abrangência do DSEI-PVH, composto por cinco pólos-base, os
dados de morbidade aparecem somente a partir de março, abril ou maio de cada ano,
dependendo do pólo, e vão até setembro de 2001 (Tabela 1). Nessa tabela são
apresentados os números de casos de doenças diarréicas comparados com a totalidade
das outras patologias registradas pelo serviço de saúde. No ano de 2000, as doenças
diarréicas somaram 1995 casos, correspondendo a 27,8% do total de casos registrados.
Em 2001, as diarréias totalizaram 908 registros (13,4%).
A maior freqüência de casos de diarréia concentra-se na faixa etária de 0 a 5 anos
(Tabela 2). Em 2000, as crianças entre 0-1 ano apresentaram 380 casos (19,8%) e aquelas
entre 1-5 anos 750 casos (39,2%). Portanto, mais da metade dos casos de diarréia estão
concentrados nas crianças <5 anos. Chama atenção o elevado número de casos cuja faixa
etária é ignorada (11,3% do total de casos em 2000). Em 2001, quando foi possível
determinar as idades na totalidade dos registros, a proporção de casos de diarréia nos
menores de 5 anos mostrou-se ainda mais elevada. Naqueles entre 0-1 ano de idade,
ocorreram 181 casos (23,5%) e, entre 1-5 anos de idade, foram registrados 378 casos
(49,0%).
Pólo-Base de Guajará-Mirim (PB-GMI) (1993-2001)
Na Tabela 3 apresentamos as informações para o PB-GMI, região onde
predomina a população Wari’. Não há uniformidade ao longo dos anos, de maneira que a
comparabilidade fica prejudicada, principalmente quando consideramos o quadro de
morbidade como um todo. Por exemplo, para 1995 os dados referem-se somente à
diarréia e à malária; para 1997 referem-se à diarréia e às infecções respiratórias agudas
(IRA); para 1999, além de diarréia, aparecem apenas malária e IRA (Tabela 3). Mesmo
com essas deficiências, percebe-se a importância das doenças diarréicas no quadro geral
8
de morbidade da população indígena do PB-GMI, com cifras sempre superiores a 20%,
em geral situando-se na faixa de 30-40% do total da morbidade.
Os dados sobre doenças diarréicas por faixa etária restringem-se aos anos de
1998-2001, percebendo-se número considerável de casos com idade ignorada (12,9%)
(Tabela 4). A faixa etária mais prevalente foi 1-5 anos (35,8%) que, somada à faixa etária
0-1 ano (16,9%), constitui praticamente a metade dos casos. No ano de 1998, 57,6% dos
casos concentraram-se nas crianças de até 5 anos de idade. Essa concentração é visível
nos diversos anos e contrasta com a percentagem das faixas etárias de 0 a 5 anos na
população geral do PB-GMI. Os dados indicam uma participação de 15% (2001) a 25%
(1998 e 1999) de pessoas de 0 a 5 anos de idade no contingente populacional total.
Há uma série de falhas nos processos de notificação dos casos ao longo dos anos
e, particularmente, para alguns postos indígenas (Tabela 5). Para 2001, por exemplo, 291
registros não indicam o PI do paciente (resultados não mostrados). Os dados da Terra
Indígena Sagarana são os mais irregulares, provavelmente devido ao fato de que essa TI
esteve sob a administração da Diocese de Guajará-Mirim, o que pode ter criado
dificuldades de comunicação com a FUNAI. Essa deficiência de informação reflete-se
nos baixos valores apresentados para essa TI. Já o PI São Luis apresenta dados somente a
partir de 2000, quando implantaram-se o DSEI-PVH e seu respectivo PB-GMI. Em 2000
e 2001, os formulários da FUNASA destinados ao preenchimento das informações do
serviço de saúde nos PB não discriminavam aldeias, posto ou etnia. Em 1995 e 1999, não
são informados os casos atendidos na CASAI-GMI. Boa parte dos casos ali atendidos
referem-se a pacientes oriundos das TI Lage e Ribeirão, que estão situadas mais
próximas e por acesso terrestre de Guajará-Mirim.
Considerando-se apenas o ano de 2001 e tomando-se os dados populacionais
disponíveis (Tabela 5), o PI onde as doenças diarréicas mostraram-se mais prevalentes
foi o PI Sotério, com 136 casos numa população de 300 pessoas. O que apresentou menor
prevalência de diarréia (desconsiderando-se Sagarana devido aos problemas apontados)
foi o PI Pacaás Novos, com 41 casos numa população de 346 pessoas .
9
Discussão
O perfil epidemiológico dos povos indígenas no Brasil é pouco conhecido, o que
se deve à exigüidade de investigações, à ausência de censos e de outros inquéritos
regulares e à precariedade dos sistemas de registro de informações sobre morbidade,
mortalidade e cobertura vacinal, entre outros fatores (Coimbra Jr. & Santos, 2000).
Tal como se observa no restante do país, os dados sobre morbi-mortalidade dos
povos indígenas em Rondônia são precários, em geral não havendo desagregação por
sexo, idade ou etnia, além da ocorrência de descontinuidade e subnotificação dos
registros (Coimbra Jr. & Santos, 2000; Coimbra Jr. et al., 2000; Escobar, 2001; Escobar
& Coimbra Jr., 1998; Escobar et al., 2001). Em larga medida, esse quadro dificulta
análises mais elaboradas. Por exemplo, por ocasião da coleta de dados que resultou neste
estudo, detectamos que os diferentes formulários reportavam dados segundo diferentes
faixas etárias.
Diversos estudos têm demonstrado uma relação estreita entre amamentação e
introdução de novos alimentos, acarretando variações nos graus de proteção e exposição
a patógenos intestinais e, conseqüentemente, na incidência de doenças diarréicas em
crianças (Mølbak, 2000; Mabilia, 2000; Linhares, 1997; Ryder et al., 1985). Nos
primeiros meses de vida, crianças indígenas geralmente são mantidas exclusivamente
com amamentação, o que lhes confere maior proteção. Ao iniciar o processo de desmame
e a introdução de novos alimentos, o grau de exposição a patógenos intestinais aumenta
consideravelmente (Coimbra Jr. et al. 2002; Coimbra Jr. & Santos, 1991).
Apesar das deficiências dos dados, fica evidente a importância das doenças
gastrointestinais no quadro geral de saúde dos povos indígenas atendidas pelo DSEI
Porto Velho, bem como a grande concentração de casos em crianças de 0-5 anos, que
alcança por vezes 50% dos casos reportados. Para o DSEI Porto Velho, em 2000 as
doenças diarréicas representaram 27,8% dos registros de morbidade analisados; em 2001,
13,4%. A menor percentagem observada em 2001 deve-se, provavelmente, a um maior
registro de outras doenças nos formulários da FUNASA, possivelmente decorrente de
melhorias na estruturação do DSEI. Os registros de morbidade passaram a ser mais
precisos e, com o treinamento das equipes de saúde, houve possivelmente um aumento
no número de registros de doenças anteriormente pouco reportadas ou “valorizadas”. A
10
magnitude das doenças diarréicas, bem como a concentração em crianças, foi também
verificada nas análises apresentadas para o pólo-base de Guajará-Mirim.
Para a população de Rondônia como um todo, as diarréias constituem importante
problema de saúde pública. Informações fornecidas pela SESAU-RO indicam que houve
um aumento no número de casos notificados de doenças diarréicas entre os anos de 19962000. Foram notificados, respectivamente, 7.022, 12.701, 16.571, 17.010 e 32.439 de
diarréia na população do Estado. Não foi possível identificar as causas desse abrupto
aumento verificado no último ano. Em parte, pode estar associado a melhorias no sistema
de informação em saúde de Rondônia.
Concomitante à implantação dos distritos sanitários, a FUNASA propôs-se a
estruturar o Sistema de Informações de Saúde Indígena (SIASI) com o objetivo de coletar
e disponibilizar informações demográficas, epidemiológicas e de serviços, de modo a
fornecer subsídios para a construção de indicadores que avaliem as condições de saúde e
que, indiretamente, avaliem a atenção à saúde (FUNASA, 2000). Um problema a ser
superado na implantação do sistema de informação diz respeito à qualidade dos dados.
Os problemas de saúde ocorrem na base, nas aldeias, e é justamente lá que estão as
maiores necessidades de treinamento de pessoal para que haja diagnósticos e registros
corretos, melhorando, assim, a confiabilidade dos dados de morbi-mortalidade das
populações indígenas. Há, portanto, a necessidade de preparação constante e progressiva
dos agentes indígenas de saúde que atuam nas aldeias e das equipes profissionais de
saúde que atuam nos DSEI (Athias & Machado, 2001).
Os resultados dessa análise demonstram que as doenças diarréicas constituem
importante problema de saúde em populações indígenas de Rondônia, perfazendo
porcentagem expressiva da morbidade, principalmente em crianças. É importante que
haja um aprimoramento do sistema de informação em saúde para que se disponha de
melhores bases para planejar e atuar no controle dessa endemia.
Agradecimentos
À Daniella Sá, colega da ENSP, aos estagiários do CESIR (Aline Rodrigues, Cristiano
Alves e Jesem Orellana) e à enfermeira Isabel Araújo, pelo apoio durante a pesquisa. À
SESAU-RO, à coordenação do DSEI Porto Velho, e aos profissionais do Pólo-Base
11
Guajará-Mirim e das Casas de Saúde do Índio de Porto Velho e de Guajará-Mirim pelo
acesso às várias fontes de dados. Ao CIMI-RO e a CUNPIR pelo apoio recebido. Ao
CNPq, pela bolsa de doutorado (processo nº 141243/00-7), e à Fundação Ford, pelo apoio
financeiro à pesquisa.
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14
Tabela 1: Casos registrados de doenças diarréicas e outras patologias no Distrito
Sanitário Especial Indígena Porto Velho (DSEI-PVH) no ano de 2000 (março a
dezembro) e 2001 (janeiro a setembro), segundo mês.
Doença/
jan
fev
mar
abr maio
jun
jul
ago
set
out
nov
dez Total
...
...
40
37
72
235
259
636
171
169
184
192 1995
Outras
...
...
201
168
349
128
515 1572
514
432
343
968 5190
Total
...
...
241
205
421
363
774 2208
685
601
527 1160 7185
76
126
35
57
125
109
137
162
81
…
…
…
Outras
781
483
479
658
871
768
568
692
543
…
…
… 5843
Total
857
609
514
715
996
877
705
854
624
…
…
… 6751
Mês
Diarréia
2000
908
Diarréia
2001
15
Tabela 2: Casos notificados de diarréia em 2000 e 2001 no Distrito Sanitário Especial
Indígena Porto Velho (DSEI-PVH) por faixa etária e por Pólo-Base (PB).
Pólos-base
Número de casos (% em relação ao total do PB) por faixa etária
< 1 ano
1-5 anos
5-15 anos > 15 anos
Ignorada
Total (%
geral)
Guajará-
298 (20,9) 490 (34,4) 286 (20,1) 145 (10,2)
206 (14,5)
Mirim
1425
(74,4)
Ji-Paraná
51 (15,0) 196 (57,7)
72 (21,2)
11 (3,2)
Alta
18 (78,3)
10 (2,9) 340 (17,8)
5 (21,7)
-
-
...
23 (1,2)
...
...
...
...
...
...
13 (10,2)
59 (46,5)
22 (17,3)
33 (26,0)
-
127 (6,6)
380 (19,8) 750 (39,2) 380 (19,8)
189 (9,9)
216 (11,3)
1915
Floresta
Porto Velho
Humaitá
Total 2000
(100,0)
Guajará-
121 (25,3) 236 (49,3)
63 (13,2)
59 (12,3)
- 479 (62,1)
Mirim
Ji-Paraná
Alta
7 (8,9)
60 (76,0)
6 (7,6)
6 (7,6)
- 79 (10,2)
31 (35,6)
41 (47,1)
4 (4,6)
11 (12,6)
- 87 (11,3)
7 (16,3)
13 (30,2)
13 (30,2)
10 (23,3)
-
15 (18,1)
28 (33,7)
29 (34,9)
11 (13,3)
- 83 (10,8)
181 (23,5) 378 (49,0) 115 (14,9)
97 (12,6)
- 771 (100,0)
Floresta
Porto Velho
Humaitá
Total 2001
43 (5,6)
2000: Guajará-Mirim: dados disponíveis para maio a dezembro; Ji-Paraná e Humaitá: abril a
dezembro; Alta Floresta: somente mês de abril com informação; Porto Velho: sem informação.
2001: janeiro a setembro para todos os Pólos-Base.
16
Tabela 3: Casos de doenças diarréicas e de outros agravos registrados no Pólo-Base de
Guajará-Mirim (PB-GMI) de 1993 a 2001 (% em relação ao total de registros do ano).
Ano de registro
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
1392
2499
2582
2212
1199
1236
1077
1425
1124
(20,8)
(36,0)
(65,2)
(43,5)
(44,3)
(39,3)
(40,6)
(26,5)
(17,1)
Outros
5301
4442
1376
2875
1509
1911
1574
3947
5441
agravos
(79,2)
(64,0)
(34,8)
(56,5)
(55,7)
(60,7)
(59,4)
(73,5)
(82,9)
6693
6941
3958
5087
2708
3147
2651
5372
6565
Diarréias
Total
1993: meses de novembro e dezembro sem informação; 1995: outros agravos incluem somente
malária; 1997: outros agravos incluem somente IRA; 1999: sem dados para dezembro e outros
agravos incluem somente malária e IRA; 2000: em maio e junho, dados oriundos somente da
Casa de Saúde do Índio de Guajará-Mirim (CASAI-GMI).
17
Tabela 4: Casos de doenças diarréicas registrados no Pólo-Base de Guajará-Mirim (PBGMI) de 1998 a 2001 por faixa etária (% em relação ao total de registros do ano).
Ano
Faixa etária
(anos)
1998
1999
2000
2001
Total
0–1
1–5
5 –10
> 10
Ignorada
Total
181
531
248
144
132
1236
(14,6)
(43,0)
(20,1)
(11,7)
(10,7)
142
357
280
298
-
(13,2)
(33,1)
(26,0)
(27,7)
-
298
490
222
211
204
(20,9)
(34,4)
(15,6)
(14,8)
(14,3)
201
362
131
139
291
(17,9)
(32,2)
(11,7)
(12,4)
(25,9)
822
1740
881
792
627
(16,9)
(35,8)
(18,1)
(16,3)
(12,9)
1077
1425
1124
4862
18
Tabela 5: Casos de doenças diarréicas registrados no Pólo-Base de Guajará-Mirim (PBGMI) de 1993 a 2001, segundo Posto Indígena (PI) e na Casa de Saúde de GuajaráMirim (CASAI-GMI), com indicação da porcentagem relativa de casos entre os PI em
2001 e população de 2001 por PI.
Localidade (no. de
Ano de registro
aldeias)
1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
2001 (%)*
pop. 2001
(%)
CASAI-GMI
84 112
-
71
69 107
- 324
92 (11,0)
-
Ribeirão (1)
188 215 152 146 149 176 115
36
40 ( 4,8)
204 (7,2)
Lage (3)
197 866
98
114 (13,7)
316 (11,2)
Pacaás Novos
122 137 473 160
95
41 (4,9)
346 (12,3)
Santo André (2)
144 159 192 453 175 113 156 101
89 (10,7)
321 (11,4)
Rio Negro Ocaia
312 532 259 324 223 213 209
94
87 (10,4)
483 (17,1)
20
16 (1,9)
84 (3,0)
93 119 155 152
136 (16,3)
300 (10,6)
27
16 (1,9)
210 (7,4)
210 144 354 252 150 154 195 243
181 (21,7)
497 (17,6)
21 (2,5)
60 (2,1)
1392 2499 2582 2212 1199 1236 1077 1221 833 (100,0)
2821
92 226 152 170 111
81 101
81
(6)
(1)
Deolinda (1)
Sotério (1)
Sagarana (1)
Guaporé (3)
São Luis (2)
Total
33
70 510 266 107
102 264 222 314
-
...
- 328
...
...
-
...
-
...
36
47
...
24
31
...
31
(100,0)
* Em 2000 e 2001 foram registrados, respectivamente, 204 e 291 casos de diarréia em indivíduos
cuja aldeia ou posto indígena de origem não foram registrados.
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Documento de Trabalho no. 8