ID: 59709477
14-06-2015
Tiragem: 33425
Pág: 22
País: Portugal
Cores: Cor
Period.: Diária
Área: 25,70 x 30,82 cm²
Âmbito: Informação Geral
Corte: 1 de 2
A burqa do Algarve chamava-se
“bioco” e dava liberdade à mulher
No século XIX, um antigo governador
civil que não gostava de ver as mulheres
todas tapadas decretou a abolição do
uso do trajo tradicional de todas as ruas
e templos. Agora, foi recriado um bioco
moderno, mas a cabeça fica destapada
Tradição
Idálio Revez
A mulher algarvia, há pouco mais
de um século, também usou burqa,
mas sem conotações religiosas. À capa negra que se estendia da cabeça
aos pés e só permitia ver os olhos,
foi dado o nome de bioco ou rebuço. Um antigo governador civil, em
nome da nova civilização, decretou
que este traje tradicional fosse banido das ruas e templos. Agora, o bioco está de volta em versão moderna,
com outras histórias para contar.
O antigo governador civil de Faro, Júlio Lourenço Pinto, nascido
no Porto, viu nesta peça de vestuário “vestígios da dominação muçulmana” que entendia não terem
razão de existir no final do século
XIX. Vai daí, extinguiu o bioco. No
seu livro de crónicas O Algarve, publicado em 1894, justifica: trata-se
de uma “máscara” que poderia dar
azo a certas libertinagens. Uma das
razões invocadas prende-se com a
fidelidade conjugal. Imagine-se uma
“frágil pecadora” que, vestida de
forma a não ser reconhecida, poderia atirar-se “sem perigo a aventura
amorosa-romanesca ou a façanha
de infidelidade conjugal”, afirma.
Por isso, servindo-se dos poderes
que lhe estavam conferidos, decretou, como reza o artigo 32, do Regulamento Policial do distrito, publicado a 6 de Setembro de 1892:
“É proibido nas ruas e templos de
todas as povoações deste distrito o
uso dos chamados ‘rebuços’ ou ‘biocos’ de que as mulheres se servem
escondendo o rosto.”
Lurdes Silva, natural do Porto,
“apaixonou-se” pelo bioco quando
visitou o Museu do Trajo, em São
Brás de Alportel — local onde se
podem encontrar cópias de alguns
exemplares. O amor à primeira vista
por uma peça de vestuário, confessa, não é coisa rara. Mas, neste caso,
houve mais do que isso. Esta professora da Universidade do Algarve,
na área nas ciências económicas e
empresariais, sentiu necessidade de
mergulhar na cultura da região. “Levei dois anos a investigar a história
desta peça.” Por fim, decidiu partilhar os conhecimentos e começou a
produzir biocos colocando, no forro
da peça, a história deste vestuário
contada em português e inglês. Em
1922 no livro Os Pescadores, Raul
Brandão dizia que se tratava de “um
traje misterioso e atraente”, que alimentava especulações. Numa passagem da obra, referindo-se às mulheres de Olhão, escreve: “Quando
saem, de negro envoltas nos biocos,
parecem fantasmas. Passam, olhamnos e não as vemos.”
Mas qual é relação da burqa com
o bioco? A burqa, diz Lurdes Silva,
é uma “imposição masculina, aqui
passa-se o contrário: o homem não
quer que ela use, mas ela usa para
ter mais liberdade”. Por conseguinte,
os três modelos que concebeu, com
design de Maria Caroço, puxam pelo
lado estético da peça, sublinhando as
histórias amorosas e o sentido da liberdade. Por isso, cada um tem a sua
designação: mistério, tradição e paixão. O preço dos modelos recriados
varia entre os 139 e os 159 euros.
Assim, a novidade deste Verão é
um bioco, de um tecido leve, com
graffiti assinados por Sen Silva — um
artista com várias obras públicas em
Olhão e com vários trabalhos expostos numa galeria em Almancil.
“Tanto pode ser usado numa cerimónia, como numa festa sunset”, diz
Lurdes Silva, referindo-se ao “bioco
mistério”, uma peça sugerida pela
cantora Viviane, a artista que integra o projecto Rua da Saudade, em
homenagem ao poeta Ary dos Santos, e canta Do Chiado até ao Cais,
e que se rendeu à recriação deste
traje regional. As cores predominantes são o verde-figueira, o azul
lusco-fusco do pôr do sol algarvio
e o tijolo dos mercados de Olhão.
Uma colecção destas peças vai estar
patente ao público, na FIL, em Lisboa, entre 27 de Junho a 5 de Julho,
numa mostra dedicada à inovação.
Para já, no Centro de Investigação
e Informação do Património de Cacela está patente, até 12 de Julho, na
O bioco algarvio foi agora reinventado e está à venda por um preço que varia entre os 139 e os 159 euros
“Quando saem, de
negro envoltas nos
biocos, parecem
fantasmas.
Passam, olham-nos
e não as vemos”,
escreveu Raul
Brandão no livro
Os Pescadores
parte da tarde, uma exposição de
biocos da autoria da artista plástica
Joana Bandeira.
Um mito bem guardado
Mas nos finais do século XIX, a visão
de Júlio Lourenço Pinto estava longe
deste recente entusiasmo pelo bioco já que considerava que este não
passava de um vestígio da cultura
islâmica “sem elegância nem beleza”, feito de um tecido “negro sepulcral”, que não se coadunava com
evolução civilizacional. Com alguma
semelhança a este traje encontra-se
o capelo, da ilha Terceira — que ainda faz parte do folclore açoriano e
se tornou símbolo dessa região. No
Algarve, a extinção oficial deu-se em
1892. Porém, continuou a ser usado
em Olhão até meados dos anos 30
do século XX. O director do Museu
do Trajo em São Brás de Alportel,
Emanuel Sancho, diz que não passa de “um mito” a relação que se
estabeleceu entre esta peça e o véu
islâmico. “Há um século tapava-se a
cabeça em toda a Europa — desde a
Holanda, onde não havia biocos, até
à Inglaterra e à França”, observa.
Maria Veleda, dirigente feminista
(1871-1955), defendeu que o uso desta capa — que tanto desagradava ao
representante do poder central na
região como a alguns intelectuais da
época — conferia liberdade à mulher,
porque esta podia de sair de casa a
qualquer momento e em qualquer
ID: 59709477
14-06-2015
Tiragem: 33425
Pág: 23
País: Portugal
Cores: Cor
Period.: Diária
Área: 16,43 x 26,29 cm²
Âmbito: Informação Geral
Corte: 2 de 2
VASCO CÉLIO
A história não se
apaga por decreto
A
proibição do uso
do bioco em 1892
não levou ao seu
desaparecimento
imediato. O investigador
Emanuel Sancho justifica:
“O uso estava muito
enraizado na população.” A
tendência que se verificou,
diz, foi procurar contornar
a lei, para evitar multas
e castigos que poderiam
chegar à detenção. Em
vez da tradicional capa
que chegava até aos pés,
enfatiza, “por fim, já era só
um xaile preto pelas costas e
um lenço atado por baixo do
pescoço”.
Júlio Lourenço Pinto, que
o baniu, reconheceu que o
traje das “peregrinas belezas
das terras do Alcorão” não
desapareceu por imposição
legal e repressão policial.
“Foi sacrilegamente banido
dos costumes algarvios mais
por influência da opinião
pública sensata e ilustrada
do que pela acção policial.”
A verdade é que, pelo
menos em Olhão, continuou
a usar-se durante mais três
ou quatro décadas, depois
de ter sido declarado
abolido. No presente, Lurdes
Silva procura redesenhar
a história do Algarve
através de uma peça de
vestuário desdenhada
pelos defensores dos bons
costumes do século XIX.
circunstância sem ser reconhecida.
À noite, acrescenta Emanuel Sancho,
as mulheres só poderiam sair se fossem acompanhadas com os maridos.
Por seu lado, Júlio Lourenço Pinto — cronista e romancista, a par da
carreira política — destaca no 33.º
artigo do Regulamento Policial que
a interdição também se aplica aos
homens: “Será sempre aplicável a
qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias de outro
sexo e com este cobrindo o rosto.”
Emanuel Sancho explica o motivo
da abrangência do diploma: “Há relatos de homens que se vestiam com
trajes de mulher para não serem reconhecidos quando cometiam cri-
mes.” Mas, por outro lado, também
há registos de outras liberdades não
condicionadas: “Os homens usariam
o bioco para irem, de forma disfarçada, ter com as amantes.”
Sobre esta matéria Lurdes Silva
lembra a inquietação que se desencadeava na cabeça dos homens à
passagem de um vulto de mulher,
de negro vestida. “Os homens não
sabiam quem era a mulher que lhes
despertava o interesse — poderia
ser, de forma oculta, a sua própria
companheira.” A ideia vem expressa
no relato de Raul Brandão, quando
escreve sobre Olhão: “De quem são
aqueles olhos que ferem lume?”,
pergunta o escritor no livro Os Pescadores, relatando a passagem de um
vulto feminino no lajedo da rua, deixando no ar o som do cloque-cloque
do calçado. Ao longe, retrata, “já o
fantasma [mulher] se esvaiu, deixando-nos a impressão de mistério e sonho”. E levanta a dúvida, ou a suspeição: “É uma mulher esplêndida
que vai para uma aventura amorosa?” Assim, por entre relatos mais ou
menos fiéis (e de infiéis) construiu-se
o mito da mulher embiocada. Júlio
Lourenço Pinto publicou no extinto
jornal O Distrito de Faro crónicas em
que relaciona alguns destes relatos
com os romances de As Mil e Uma
Noites, para chegar à conclusão, em
tom crítico, que o uso do bioco só
serve para “estontear as cabeças
dos modernos paxás algarvios”.
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A burqado Algarve chamava-se “bioco” e dava liberdade à mulher