VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL
Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X
A REORGANIZAÇÃO FAMILIAR EM FUNÇÃO DA DEFICIÊNCIA ADQUIRIDA
POR POLICIAL MILITAR: A VISÃO DO CÔNJUGE
ELIZA MAURA DE CASTILHO LOPES, Unesp – Campus de Bauru1
LUCIA PEREIRA LEITE, Unesp – Campus de Bauru2
Agência Financiadora: Fapesp
INTRODUÇÃO
A teoria Histórico-Cultural, que tem como uma de suas principais referências o russo L. S.
Vigotski, apresenta uma concepção de homem como ser originado essencialmente nas
relações sociais. Fundamentada no materialismo histórico dialético, delineado nas
contribuições de Marx e Engels, propõe que o psiquismo humano seja entendido como uma
estrutura orgânica e, simultaneamente, um reflexo psíquico da realidade, resultante de uma
relação entre homem e a natureza (MARTINS, 2007).
A atividade vital humana consiste no trabalho, e é por meio dela que o homem modifica sua
existência. Observa-se também que o próprio desenvolvimento humano se dá nas relações
sociais. Nessa direção Mennocchi e Leite (2010, p. 57), amparadas nos pressupostos de
Leontiev relatam [...] “sua constituição se dá pela sua progressiva participação na trama da
complexa rede de relações sociais em que desde o nascimento é envolvido".
No decorrer desse processo, na consciência humana são estabelecidas relações entre os
sentidos e os significados atribuídos a atividade. Como propõe Martins (2007), os significados
são o resultado das apropriações feitas pelo homem de um sistema objetivado historicamente.
Originalmente supra-individuais, estes serão convertidos em reflexo psíquico, adquirindo,
portanto um sentido subjetivo e pessoal. Na relação entre apropriação e objetivação, incluindo
os significados resultantes desta e seu papel fundamental na formação do psiquismo humano,
evidencia-se a importância do trabalho.
Destaca-se a linguagem neste processo, pois nas palavras de Vigotski (2001, p. 84), "a criação
e o uso de signos é a atividade mais geral e fundamental do ser humano, a que diferencia em
primeiro lugar o homem dos animais". A linguagem sistematiza signos, possibilitando a
comunicação, a significação da realidade e a própria subjetivação. Para Smolka (2004), o
signo, tendo sido produzido nas relações interpessoais, age nos sujeitos e ao mesmo tempo
nas próprias relações. Nelas, a palavra se destaca como signo por excelência, expressando a
relação social, e ao mesmo tempo, a vida interior. Por meio da linguagem, ocorre a passagem
da representação para a significação. Em outras palavras, tudo o que se produziu nas relações
sociais foi convencionalizado e acordado entre os indivíduos, deixando marcas na sociedade.
Para Leme (2010), são as significações que voltam o indivíduo para o coletivo, sendo nelas
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Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem da Faculdade
de Ciências, UNESP, Bauru. Av. Eng. Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01, Vargem Limpa – Bauru – CEP
17.033-36. E-mail: [email protected]
Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem da Faculdade de
Ciências, UNESP, Bauru. Av. Eng. Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01, Vargem Limpa – Bauru – CEP
17.033-36. E-mail: [email protected]
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que se fundamenta a consciência. No mesmo sentido, Smolka (2004, p. 45) afirma a
significação enquanto "uma chave para se pensar a conversão das relações sociais em funções
mentais". A autora ressalta a necessidade de analisar essas relações sociais enquanto uma
trama de experiências, imagens e histórias, com outros indivíduos de distintas posições
sociais. Nesta trama é a que está impressa o processo de significação, e a consequencial
interpretação do sujeito e de sua realidade social.
Sujeito desta pesquisa, o policial militar, seja pelas características rígidas de sua profissão ou
pela alta exposição à situações de risco, vêm se tornando alvo frequente de pesquisas na área
da psicologia e das ciências sociais nos últimos anos. Tais estudos envolvem diversos aspectos
da profissão e da subjetividade dos policiais, como a pesquisa de Silva (2011), a respeito da
identidade militar, Oliveira (2010), que aborda questões como a masculinidade, e Spode
(2004), a respeito da saúde mental do policial. No entanto, observa-se no país uma escassez
de estudos como sujeitos policiais militares com deficiência. No contraponto, supõe-se grande
o número de policiais em condição de deficiência atualmente, principalmente no que tange à
deficiência física. Em pesquisa realizada com policiais do Rio de Janeiro, Minayo, Assis e
Oliveira (2011) constataram que as situações de confronto constantemente vividas por tais
trabalhadores oferecem altos riscos à saúde dos mesmos, resultando muitas vezes em lesões e
traumas. Foram ainda relatados casos de incapacidade temporária ou permanente, incluindo
deformidades ou rigidez total nos membros inferiores ou superiores, paralisias, amputações,
incapacidade para retenção de excreções, além da perda de órgãos internos como rim ou
pulmão. A maior parte desses danos ocorre em função de ferimentos por arma de fogo ou
fraturas (MINAYO, ASSIS E OLIVEIRA, 2011).
O conceito de policial ideal socialmente difundido está bastante distante da visão existente em
relação à deficiência. Como aponta Sousa (2009), o perfil policial está associado com a
imagem do herói, ou seja, aquele que se distingue por feitos extraordinários, ou ainda que tem
excelente desempenho em combates. Já o deficiente é distinto exatamente pela desvantagem
que carrega aos olhos do grupo que o cerca. É possível dizer então que a personalidade do
policial, formada em sua atividade, é díspar ao conceito de deficiência, uma vez que é
representada simbolicamente na ideia de integridade física supervalorizada, ancorada numa
suposta perfeição corporal.
Considerando o a forte influência das características da Corporação Policial sobre a vida de
seus membros, aliada a importância da atividade para a formação psíquica do indivíduo,
julga-se possível que as significações relacionadas à deficiência possam estar permeadas de
atributos da própria corporação e, consequentemente, ao papel de policial. Considera-se ainda
que a aquisição de uma deficiência representará uma transformação importante na trajetória
de vida de tais profissionais. Essa transformação pode trazer consigo um forte impacto para o
psiquismo dos mesmos, advindo do abandono do trabalho e somado à possível estigmatização
de suas condições atuais.
Considerando o exposto, tem-se este estudo, que faz parte de uma pesquisa maior de pósgraduação, que procurou identificar o conjunto de significações da deficiência enquanto
objeto corporificado, para os policiais afastados em função de deficiência adquirida em
serviço e identificar o conjunto de significações da deficiência, enquanto objeto presumido,
para os policiais da ativa, que, embora não se encontrem nesta condição, estão expostos à
mesma em seu cotidiano laboral. Assim este texto procura retratar, pela análise do cônjuge,
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como a deficiência adquirida em função alterou fortemente o transcurso da vida pessoal e
familiar de um policial militar que se encontrava na ativa.
MÉTODO
A participante da pesquisa, a ser identificada como Júlia, nome fictício, foi indicada por uma
organização filantrópica, a Associação de Policiais Militares Portadores de Deficiência do
Estado de São Paulo – APMDFESP, por seu esposo apresentar prejuízos intelectuais,
comunicacionais e motores, em função de uma lesão cerebral provocada por bala. Tal
associação cuida dos interesses dos policiais deficientes, oferecendo assistência jurídica,
social, médica e psicológica, e possui membros por todo o Estado. Seu marido, Maurício,
nome também fictício, é um desses associados. Este tem 35 anos, e é um soldado reformado
em 2009 em função de uma lesão cerebral.
O procedimento de coleta de dados utilizado foi a entrevista com a adoção do relato da
história de vida. Esse método, amplamente utilizado em pesquisas na perspectiva HistóricoCultural, busca acessar por meio da narrativa as memórias do indivíduo, seguindo sua
construção desse relato. Considerando os objetivos de desvelar as significações da deficiência
para os policiais militares, considera-se pertinente acessar as memórias por intermédio do
relato do próprio sujeito. Como já antes mencionado, a participante da pesquisa era a esposa
do policial com deficiência, este sim, o personagem do qual se buscou apreender a história de
vida. Considerou-se a óbvia distinção entre o relato a ser elaborado por Júlia em relação a
uma possível narrativa de Maurício. No entanto, conforme afirmam Oliveira, Rego e Aquino
(2006), as memórias relatadas nas narrativas autobiográficas são construções individuais, mas
também coletivas e sociais. Mediante esta coletividade da construção de cada história de vida,
justificou-se o uso deste mesmo instrumento, ainda que o narrador contasse a respeito da
história de vida de outro indivíduo. Na escolha do instrumento, também se observou que, ao
relatar acontecimentos da vida do marido, Júlia estaria também contando a sua própria
história de vida, a partir de acontecimentos a serem escolhidos. A memória, enquanto função
psicológica, é mediada por signos, produtos das relações históricas e sociais. Remete-se a algo
que foi externo, e, como exposto por Vigotski (2000), o que é externo foi social, ou seja, fruto
de uma relação entre pessoas. Sendo assim, pela identificação das impressões próprias do
sujeito a respeito da realidade vivida, é possível apreender o reflexo psíquico desta e os
significados a ela atribuídos, compreendendo o processo de significação.
A entrevista realizada com Júlia ocorreu em data pré-agendada com a participante, em uma
sala de reuniões privativa oferecida pela APMDFESP. A pesquisadora esclareceu os direitos
da participante, que assinou um termo de consentimento livre e esclarecido. Sanadas as
possíveis dúvidas a respeito da pesquisa, teve início a entrevista, que foi gravada em áudio
para análise posterior. Informa-se ainda que este estudo tem parecer favorável do Comitê de
Ética da Universidade em que é realizado.
Após responder um questionário de identificação, Júlia foi solicitada a contar a história de seu
esposo, Maurício, da maneira como preferisse, mencionando os acontecimentos mais
importantes em sua opinião.
A análise dos dados foi feita com base nos pressupostos de Vigotski (1995), para o qual a
compreensão do ser humano deve sempre visar a análise da relação complexa estabelecida
entre sujeito e sociedade, sendo que a observação de processos psicológicos simples
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fundamentais para a compreensão de processos complexos. Nas palavras de Zanella at al
(2007, p. 28), esta tarefa consiste em mostrar “como a realidade social é recombinada e
objetivada em cada pessoa que se apresenta, assim, como expressão e ao mesmo tempo
fundamento dessa mesma realidade”. Isso implica que toda análise deve buscar as relações
entre as partes que compõem o todo.
Para Vigotski (1995), alguns princípios metodológicos condizem com os pressupostos
teóricos da Psicologia Histórico-cultural. O primeiro consiste na importância da análise do
processo, e não apenas de objetos. O segundo princípio seria a busca pela gênese do
fenômeno em sua dimensão histórica e social, evitando apenas sua descrição. Por fim, há de
se considerar a importância do caráter explicativo da análise. Zanella at al (2007) reconhece
na obra de Vigotski (1991) um quarto princípio fundamental para a análise metodológica, que
consiste na análise de unidades, ao invés da análise de elementos. As unidades são os produtos
da análise, e constituem componentes primários em relação às suas características e
propriedades concretas.
Para Aguiar e Ozella (2006), os significados representam estas unidades de análise, passíveis
de expor as propriedades do todo, em sua gênese e determinação. Para os autores, os
significados refletem e objetivam a consciência dos indivíduos em suas falas. Nas narrativas,
estes podem ser identificados em núcleos, descritos como temas centrais ligados a ações e
afetos que envolvem em sua construção, determinantes sociais e características subjetivas.
Aguiar e Ozella (2006) afirmam que a identificação de tais núcleos no texto pode
compreender algumas etapas para a análise dos dados: a) leitura flutuante e organização do
material: após transcrição de todos os materiais gravados, essa etapa envolverá a leitura
repetida dos mesmos, da qual surgirão os pré-indicadores. Estes consistem nos primeiros
temas centrais na fala do participante, tendo evidente relação com o tema da pesquisa; b)
aglutinação dos pré-indicadores: numa nova leitura do material, os pré-indicadores
encontrados serão reunidos por semelhança ou contraposição, em temas mais amplos que os
envolvam. Estes temas serão os indicadores, que orientarão a busca pelos núcleos de
significação; c) construção e análise dos núcleos de significação: após uma releitura do
material, a organização e análise dos indicadores possibilitarão a articulação dos temas, em
busca de semelhanças e diferenças, além das transformações e contradições ocorrentes no
processo de formação dos significados e dos sentidos. De cunho interpretativo, essa etapa
possibilitará encontrar os núcleos de significação.; d) análise dos Núcleos: essa etapa
consistirá na articulação entre os núcleos de significação, o que permitirá compreender o
discurso do participante num nível totalitário e intimamente relacionado com sua formação
psíquica e histórica, à luz do contexto sociohistórico, face aos pressupostos teóricos.
Dessa maneira, subsidiado nos princípios da análise da Psicologia Histórico-Cultural,
identificou-se núcleos de significação no discurso dos participantes, em especial os
relacionados à deficiência e ao trabalho.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A entrevista teve duração de aproximadamente 45 minutos, nos quais a participante relatou a
história de vida de seu marido. Conforme o previsto, esta história mesclou-se com a trajetória
de seu próprio casamento e da vida de Júlia, antes e depois do acidente. Júlia iniciou a
entrevista descrevendo o início da carreira militar de Maurício. Segundo a participante, o
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casal ainda namorava, quando ela descobriu que estava grávida. Maurício, que não trabalhava,
foi instruído pela mãe a prestar um concurso público para ingressar na Polícia Militar,
garantindo o sustento da nova família que se formava. A participante ressalta que após o
ingresso, o marido permaneceu na Corporação de 1997 a 2009, quando aconteceu o acidente.
Júlia relata que poucos meses antes do acidente ocorrer, o casal e os dois filhos pretendiam
mudar-se para uma cidade do interior, onde Maurício buscaria outra profissão. Essa busca
estava sendo motivada pela insatisfação de Júlia com o trabalho arriscado do marido, e
também do mesmo, que reclamava do estresse causado pelas atividades profissionais. No
entanto, antes que os planos fossem concretizados, o acidente ocorreu. Em uma perseguição
policial de bandidos que fugiam de carro, ocorreu a troca de tiros, durante a qual Maurício foi
baleado. O soldado, que dirigia a viatura, foi atingido por uma bala de fuzil que se alojou em
seu crânio. A lesão resultou em danos nos lobos occipital, parietal e frontal, e teve como
consequências extensos danos neurológicos. Após três anos do acidente, Maurício ainda
apresenta sequelas cognitivas como a perda da capacidade de atenção e concentração,
memória e fala, além de severos comprometimentos motores.
A participante ressalta em seu relato os meses passados no hospital, acompanhando as
internações do marido. Foram dois meses na Unidade de Terapia Intensiva - UTI, seguidos de
meses entre dois hospitais: um hospital privado, onde Maurício foi atendido inicialmente e
que ofereceu gratuitamente o atendimento de emergência e de terapia intensiva, e o Hospital
da Polícia Militar, onde ocorreu o prosseguimento da internação. Quanto ao período de
internação neste último hospital, Júlia manifestou-se bastante insatisfeita com o serviço
oferecido. Após um ano do acidente, Maurício foi novamente operado para que o projétil
fosse retirado de seu cérebro. A cirurgia foi oferecida pelo mesmo hospital privado no qual o
policial havia sido atendido inicialmente.
Júlia enfatiza em seu relato as transformações ocorridas na vida familiar em função do
acidente ocorrido. Foi necessária a mudança de casa, já que na residência onde viviam havia
escadas que Maurício já não poderia subir. O esposo requer atenção constante, em função de
suas dificuldades de locomoção e da perda de memória. Além disso, cuidados como o banho e
a troca de fraldas se fazem necessários. Júlia afirma que o papel que o marido exercia em sua
família permanece o mesmo: ele continuaria exercendo a figura de pai de seus filhos, e
também de seu esposo. No entanto, a participante evidencia que suas responsabilidades foram
aumentadas após o acidente, e que já não pode contar com o apoio de Maurício.
Em vários momentos da entrevista, observa-se que o relato da história da vida de Maurício se
confunde com o relato da história da própria Júlia, e do impacto que o acidente provocou em
sua trajetória. É possível afirmar que, embora o foco tenha sido o marido, o relato de Júlia
permite identificar os significados que a mesma atribui a aquisição da deficiência e para a
própria polícia militar.
Para a identificação dos núcleos de análise, a entrevista foi transcritas as entrevistas e cada
relato era lido repetidamente, a fim de definir os pré-indicadores. Para tanto, buscava-se nos
relatos os temas centrais, identificados pela recorrência na fala; o destaque, dado pela
entonação diferenciada; a subsequência de acontecimentos; os desvios na fala, ou seja, a
interrupção ou a mudança abrupta de assunto durante o relato. Além desses critérios, dois
temas centrais preestabelecidos que orientavam a busca pelos demais, considerando os
objetivos da pesquisa: a Polícia Militar e a Deficiência. Assim, os pré-indicadores deveriam
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estar relacionados direta ou indiretamente a esses temas. Após a identificação dos préindicadores, estes foram agrupados em indicadores, pela semelhança ou pela proximidade dos
temas. No relato de Júlia, foram identificados sete indicadores: 1) características negativas da
PM para Júlia; 2) características negativas da PM para Maurício, atribuídas por Júlia; 3)
novos papéis familiares; 4) percepção de Maurício acerca do acidente, na opinião de Júlia; 5)
continuar a ser policial militar; 6) a luta contra a PM; 7) características positivas da PM para
Júlia.
O primeiro indicador, características negativas da PM para Júlia, permeou todo o relato da
participante. Aparentemente, a profissão do marido era uma razão de preocupações para ela,
principalmente em períodos nos quais se noticiaram atentados contra policiais militares. Júlia
relata: “foi de 2005 pra 2006, teve aqueles atentados, né, eu entrei em depressão. Ele não
ficava em casa, ele saía pra trabalhar, ele fazia bico. Eu entrei em parafuso. (…) Assim, eu
não dormia, não dormia, uma loucura”. Pela fala da participante, percebe-se que os riscos que
Maurício corria já haviam sido anunciados pelo marido:
“Passou uma vez na televisão sobre uns policiais que tinham sido mortos, e tal, e ele
falou assim 'quando a Polícia Militar ligar, alguém da Polícia bater na porta é que
aconteceu alguma coisa comigo'. E aquilo ficou na minha cabeça. (…) Aí tocou na
minha casa. Aí eu atendi, ela perguntou 'é a Júlia?', eu falei 'é'. Aí a soldado falou
assim, 'ah, é a soldado V'.. A hora que falou 'soldado V.' eu pensei 'ah, é o
Maurício'”.
Em direta relação com o primeiro indicador, foram identificados temas na fala de Júlia que
tinham relação com a suposta insatisfação do marido com sua profissão. Surge um novo
indicador, características negativas da PM para Maurício, atribuídas por Júlia. Segundo a
participante, o esposo ingressou na PM por motivos financeiros, e não de interesse
profissional, “ele, assim, ele acabou entrando na Polícia Militar não porque ele queria, foi por
necessidade”. Embora tenha continuado na profissão, por vezes o relato da participante indica
descontentamento por parte do marido: “Ele (Maurício) não transparecia em nada, nada, nada,
nunca. (...) e quando parecia que tava tudo tranquilo, ele chegava super cansado, ele falava
assim 'chegar lá, cada dia uma coisa'. Ele começou a reclamar, né?”. Articulados, os dois
primeiros indicadores apontam para uma insatisfação do casal em relação a profissão de
Maurício, atribuindo um significado negativo à PM. Foi justamente este caráter negativo que
motiva o início de um processo de mudança residencial, da capital do estado para o interior, e
também profissional, interrompido pelo acidente.
O terceiro indicador diz respeito aos novos papéis familiares de Júlia. Desde o ocorrer do
acidente, a participante relata que a transformações de papéis lhe foi anunciada:
“Tanto que os médicos só me prepararam pra isso. 'Olha, você vai ter que ser firme,
se você for ficar com ele, o seu marido vai ficar com sequelas, sequelas severas. Ele
não vai poder trabalhar, ele não pode ficar sozinho. Vai ter que ter uma pessoa com
ele, ou você mesma 24 horas”'.
Estas mudanças foram se concretizando com o decorrer dos anos desde a saída de Maurício
do hospital. Júlia conta:
“E eu sou pai e sou mãe, dona de casa, e tudo. (…) Que nem, eu preciso fazer
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tratamento, ainda não consegui parar pra me cuidar, pra fazer tratamento, porque ele
depende muito de mim. Ele mesmo fala que nem a mãe dele cuidaria tão bem dele
como eu cuido. Mas é uma coisa assim, como sabem que eu sempre vou estar
fazendo, só tem eu. Ninguém nem se habilita pra perguntar se precisa”.
Embora com pequena recorrência, os temas envolvidos no quarto indicador - percepção de
Maurício acerca do acidente, na opinião de Júlia, foram enfatizados pela participante.
Segundo a mesma, os lapsos de memória de Maurício o impossibilitam de tomar consciência
da dimensão das sequelas do acidente. Em vários momentos, é ela quem o lembra do tiro
levado, contando novamente todo o ocorrido. Para a mesma, são raras as ocasiões nas quais o
marido percebe sua própria condição de maneira clara.
“A última vez foi na Copa que ele se emocionou, de chorar, ele colocava a mão na
cabeça, que não queria ficar daquele jeito, sabe? E eu falei 'ai, Maurício, por que
você tá desse jeito?'. Aí ele mandou eu ir embora. Aí eu fiquei brava 'Ai, Maurício,
você tá mandando eu ir embora?'. Fiquei pê da vida. 'Por que você tá mandando eu
embora?'. E ele 'Ah, porque eu sou um inútil...'. Eu falei 'Ai, Maurício, até um
pecado você falar isso'. Aí passou e ele nem lembra disso”.
O quinto indicador, continuar a ser policial militar, reúne temas ligados às falas do marido da
participante com relação a ainda ser policial ou ao desejo de tornar a exercer a profissão. Nas
palavras de Júlia, “ele fala 'ah, eles podiam arrumar um cantinho lá pra mim, eu não ia mexer
com ninguém, ficava só lá no administrativo, tal'. Porque é como dizem, tá no sangue, né?
Polícia...”. Nesse momento, é possível observar uma contradição com relação ao segundo
indicador, em cujo os trechos a participante evidencia insatisfação do marido com relação a
PM.
No sexto indicador, a luta contra a PM, reúnem-se temas que tiveram alta recorrência na fala
de Júlia. Em diversos momentos de seu relato, ela menciona atitudes tomadas contrárias a
Corporação, em favor de seu marido. Estas atitudes tem início na relação estabelecida entre a
família e o Hospital da Polícia Militar. Em suas palavras, “acredito mais na falta da
compreensão e profissionalismo do Hospital, que é um quartel. Porque é um quartel. O
sistema com o paciente, o paciente morre (...)”. Segundo a mesma, “Eu fiz uma revolução lá
no HPM, 'ah, ele tem que fazer, então vai fazer. Ah, não tem cama, então arruma cama, não
tem fisio, arruma fisio'”. Essa insatisfação prossegue sendo direcionada à PM com relação a
aposentadoria de Maurício. Quando foi oficialmente publicada sua reforma, ele
automaticamente deveria ter sido promovido a cabo, o posto seguinte ao de soldado na ordem
hierárquica. No entanto, essa promoção não ocorreu, e Júlia pretende abrir um processo
judicial para que a Polícia finalmente lhe conceda a promoção e o aumento salarial. Para ela,
“Só que se bandido derruba comando, um policial militar deficiente que tem a sua família,
que deu a sua vida, também. Eu falo por ele, então é mais do que justo, né?”.
O último dos indicadores, embora envolva temas de menor recorrência, também requer
atenção, em função de sua disparidade com relação aos demais: características positivas da
PM para Júlia. Em alguns momentos da entrevista, a participante chama a atenção para união
dos policiais militares, distinguindo-os, no entanto do que ela chama de “comando”: “ outra,
eles são bem unidos. Os policiais, quem tá na linha de frente, eu vejo muito isso”.
Após a realização de novas leituras da entrevista e dos trechos referentes a cada indicador, os
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indicadores relacionados anteriormente foram articulados entre si, para a formulação do que
seriam os núcleos de significado, unidades de análise para o presente trabalho. Estas unidades
foram então analisadas, numa busca pela formação histórica e social dos significados
relacionados à Polícia Militar e a própria deficiência. Foram identificados três núcleos de
significação: transformações da trajetória familiar; a profissão como causa da deficiência; a
dependência como consequência da deficiência.
No núcleo transformações da trajetória familiar, podem ser analisados os significados
relacionados à história familiar, permeada pelas peculiaridades do trabalho de Maurício. Pela
construção do relato de Júlia, é possível notar que o risco era um dos significados atribuídos à
profissão de policial. Este mesmo risco é um dos fatores que determinam o anseio pela nova
trajetória familiar, na qual, tanto a figura de policial militar como do ambiente de trabalho
supostamente sairiam de cena, dando lugar a tranquilidade atribuída ao interior. Esta etapa é
enfatizada por Júlia, que parece ressaltar as possibilidades que foram cerceadas pela nova
condição de Maurício.
No segundo núcleo, a profissão como causa da deficiência, que está intimamente relacionado
ao primeiro, observando-se uma reafirmação do caráter negativo dado à Polícia Militar. Para
a participante, a profissão, com suas características negativas, levaria, desde o princípio a
fatalidade – o que se pode inferir de suas falas: “ele acabou entrando na Polícia Militar não
porque ele queria, foi por necessidade”, e “quando a Polícia Militar ligar, alguém da Polícia
ligar, é que aconteceu alguma coisa comigo”. Apesar do caráter negativo da profissão, é
possível observar que Maurício ainda se vê como policial, ou ainda deseja o ser, na opinião de
Júlia. Com esta afirmação, a participante se contradiz com relação a suposta insatisfação de
Maurício. Essa contradição no relato pode retratar uma contradição real da profissão do
policial militar. Apesar de todos os perigos que a profissão pode trazer, ela ainda
aparentemente é uma fonte de prazer, recursos e também de identificação para muitos
militares.
Ainda com relação ao segundo núcleo, observa-se um significado de poder e autoridade à
figura do policial militar. Essa autoridade ainda parece ser percebida por Maurício como algo
inerente a sua profissão, e consequentemente, a si mesmo: “Outro dia eu falei pra ele 'não,
Maurício, não pode (ele queria dirigir o carro). Nós estamos atrasados, você tem terapia, a sua
habilitação tá vencida'. E ele falou 'Ah, eu sou polícia!'”. Na sequência deste acontecimento,
no entanto, a fala de Júlia parece indicar que para ela essa autoridade é questionável: “Aí eu
falei 'Ah, e daí que você é polícia?' (risos). Aquela autoridade, né, errada, aí a gente dá
risada”. Esse questionamento se repete em sua fala sobre o atendimento no Hospital da Policia
Militar: “Eu tive que dar tipo uma revoluçãozinha lá, e não só em benefício dele. Só que as
pessoas têm medo. 'Ah, falar com polícia'. Mas é um direito dele. Enfim... E eu sou pai e sou
mãe, dona de casa, e tudo”.
Na fala de Júlia, a polícia militar é associada a significados como a profissão que “está no
sangue”, como ela afirma, ou como uma profissão de autoridade. No entanto, as contradições
em sua fala parecem apontar para a desconstrução desses significados.
No terceiro núcleo de significação, a dependência como consequência da deficiência, está
envolvida as mudanças de papéis dos familiares após o acidente de Maurício. É a partir
destas mudanças que a deficiência vai tendo seus significados finalmente delineados no relato
de Júlia. Aparentemente, o que consequencia a aquisição da deficiência são transformações
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negativas, já mencionadas nos outros núcleos, somadas a forte dependência que seu marido
agora tem de si. Antes, havia um marido que era participativo e atuante na família, e agora o
relato da participante parece apontar para mais um dependente, equiparando-o aos filhos. Em
momentos da entrevista Júlia se contradiz, apontando para um marido ainda atuante. No
entanto, é inegável sua manifestação de cansaço e sobrecarga com a nova condição de
Maurício.
Observa-se então que a deficiência tem seus significados fortemente associados com a
consequência negativa. Ou seja, ela é resultado de uma profissão arriscada, e tem como
consequências a dependência e a sobrecarga.
Apesar do caráter de sobrecarga que a deficiência implica para Júlia, é possível perceber que a
participante a vê como uma característica a ser compreendida, procurando buscar
características positivas na condição de Maurício. Nas palavras da participante, “eu tô
cansada, mas eu não sei o que seria de mim sem o R”.
CONCLUSÕES
De maneira geral, percebeu-se, pela análise dos núcleos de significação, que os significados
atribuídos à Polícia Militar e à deficiência para Júlia ficaram evidentes na história de vida por
ela relatada. a participante associa um forte caráter negativo e de culpabilização à Polícia
Militar, pela condição atual do marido. Ao mesmo tempo, no entanto, seu relato deixa
transparecer que a profissão possui muita importância na vida de Maurício, chegando a
afirmar que ele não estaria aposentado, se fosse possível.
Com relação à deficiência, identificam-se no relato significados de conotação negativa,
apontando para a dependência da pessoa com deficiência, e incapacidade. Estes significados
estão diretamente associados a condição restritiva de Maurício. No entanto, não determinam o
afastamento de Júlia. Pelo contrário, essa condição é vista como mais uma característica do
marido, e não como seu único fator constituinte.
Observa-se que os significados identificados sofrem influência da história de vida da
participante e de seu marido, permeadas pelas relações sociais estabelecidas com o trabalho, e
entre si mesmos, dando novos contornos a esfera familiar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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a reorganização familiar em função da deficiência adquirida