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iBIZ
2008
Perspectivas globais em
negócios, internet e ética
Frederick Bird
Universidade de Waterloo, Canadá
RESUMO
Este ensaio considera as responsabilidades éticas das empresas que
atuam em um mundo que se tornou globalizado, mas continua
desequilibrado e enfrenta vários riscos profundos. Em tal mundo de
recursos limitados, as empresas devem operar de modo sustentável.
Devem respeitar a diversidade cultural e moral, proteger e nutrir a
comunidade e promover o desenvolvimento econômico, especialmente em relação aos dois bilhões de seres humanos que vivem na
pobreza. Em sua estratégia, as empresas devem optar pelo desenvolvimento de recursos ao invés da minimização de custos ou
maximização de lucros. Este ensaio considera os vários modos práticos de se operar com o fim de cumprir com tais objetivos, com
relação a áreas tão diversas quanto a definição de condições de
trabalho, questões de segurança, transferência de custos, relações
com clientes, infraestrutura necessária e relações com o governo.
Palavras-chave: Responsabilidades éticas – Mundo globalizado –
Diversidade cultural e moral.
RESUMEN
Este ensayo considera las responsabilidades éticas de las empresas
que actúan en un mundo que se ha tornado globalizado, pero
continúa desequilibrado y enfrenta varios riesgos profundos. En tal
mundo de recursos limitados, las empresas tienen que operar de un
modo sostenible. Ellas tienen que respectar la diversidad cultural y
moral, proteger y nutrir la comunidad y promover el desarrollo
económico, especialmente en relación a los dos mil millones de seres
humanos que viven en la pobreza. En su estrategia, las empresas
deben optar por el desarrollo de activos en vez de la minimización
de costos o maximización de lucros. Este ensayo considera los diversos modos prácticos de operarse con el fin de cumplir con tales
objetivos, con relación a áreas tan diversas como la definición de
condiciones de trabajo, cuestiones de seguranza, transferencia de
costos, relaciones con clientes, infraestructura necesaria y relaciones
con el gobierno.
Palabras clave: Responsabilidades éticas – Mundo globalizado –
Diversidad cultural y moral.
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Introdução
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Várias questões éticas têm sido levantadas com respeito aos usos e
abusos das crescentes possibilidades de se aproveitar o desenvolvimento global da internet. Tais questões incluem tópicos relacionados a direitos de propriedade intelectual, invasão de privacidade, censura,
danos morais e a simples falta de acesso. Outros tópicos a serem considerados incluem assuntos relacionados à credibilidade da informação
na internet, roubo de identidade, segurança da internet, hábitos no seu
uso, plágio e fraudes financeiras. Abordarei estes e outros assuntos na
parte final deste ensaio. Nesse meio-tempo, a fim de ganhar uma melhor compreensão sobre como pensar – e atuar responsavelmente – em
relação a tais questões, começarei por adotar uma perspectiva global e
então considerarei como um modelo de agregação de valor na ética das
empresas internacionais poderia trazer mais clareza a esses tópicos.1
Vivendo em um mundo globalizado, desequilibrado
e arriscado
Nós vivemos em
um mundo
globalizado,
desequilibrado e
arriscado
Nós vivemos em um mundo globalizado, desequilibrado e arriscado. À medida que tentamos considerar as questões éticas relacionadas à internet, é importante que reflitamos sobre o contexto global
mais amplo dentro do qual nos encontramos. Ao percebermos esse
quadro maior, também obteremos uma ideia melhor sobre como definir e dar prioridade aos vários temas éticos associados aos usos e
possibilidades da internet.
Quando dizemos que nosso mundo é hoje globalizado, pretendemos comunicar várias ideias diferentes, mas relacionadas. Falamos de
globalização a fim de indicar, em primeiro lugar, o quanto os seres
humanos tornaram-se mais interconectados. Essa conexão é um subproduto de vários desenvolvimentos diferentes. Algumas dessas forças de
globalização, como o desenvolvimento do comércio intercontinental e
a expansão missionária do islã, cristianismo e budismo, aumentaram
consideravelmente durante o último milênio. Outras, como a expansão
e melhoria dos transportes de longa distância e a migração moderna
dos povos, têm se desenvolvido continuamente nos últimos séculos.
Houve um aumento no ritmo e no alcance da globalização em virtude
dos níveis crescentes de comércio internacional. Embora houvesse uma
explosão do comércio mundial durante os cinquenta anos anteriores à
1
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Em 29 de fevereiro de 2008, apresentei uma conferência na Universidade de St. Jerome
em Waterloo, Ontário, Canadá, com o título “Rethinking the bottom line: international
business and poverty” [Repensando os resultados: negócios internacionais e pobreza].
Utilizei parte do material apresentado nessa conferência ao escrever a segunda seção
deste artigo e partes da seção final.
Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008
Primeira Guerra Mundial, o comércio global expandiu-se especialmente
na segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial.
Quando se pensa em forças globalizantes, é importante não negligenciar
o papel das forças imperiais mais agressivas. Uma grande diversidade
de povos foi colocada em inter-relação mais íntima como resultado da
expansão política e econômica das esferas de influência dos impérios
turco, russo/soviético, espanhol, francês, britânico, e americano.2 Essas
forças estiveram em jogo durante vários séculos. Durante os últimos
150 anos, as interconexões entre povos distantes foram facilitadas por
vários desenvolvimentos recentes em tecnologias de comunicação,
como o telégrafo, os sistemas postais internacionais, o telefone, as ligações a cabo, a televisão, as comunicações via satélite e, agora, a internet.
Várias dessas forças de globalização – o aumento do alcance e da
interconexão do comércio moderno, dos sistemas de transporte, da
mídia e da comunicação – estão intimamente entrelaçadas com outro
fenômeno relacionado integralmente a elas: o desenvolvimento da indústria e dos negócios na modernidade. O comércio moderno, o transporte, a mídia e a comunicação são, em parte, subprodutos da indústria
moderna. Eles também contribuem para a extensão das possibilidades
e a influência da indústria moderna. Assim, embora a indústria e os
negócios modernos não sejam uma força globalizante por si sós, eles
moldaram e afetaram o caráter dessas forças globalizantes. A indústria
e os negócios modernos encontraram meios para promover um uso
mais produtivo dos recursos humanos e naturais. Nesse processo, ajudaram a elevar o padrão de vida de bilhões de seres humanos. O mundo moderno é claramente um mundo de estados-nação porque as jurisdições políticas dominantes e prevalecentes são as nações, e não aldeias,
cidades, tribos, terras arrendadas ou impérios (como frequentemente se
viu no passado). No entanto, cinquenta das maiores economias do
mundo pertencem a empresas, enquanto outras cinquenta pertencem a
estados-nação.
Como resultado da influência dessas várias forças globalizantes – as
religiões missionárias, a migração dos povos, a expansão dos impérios
coloniais europeus, o desenvolvimento do comércio, transporte e comunicação modernos – o mundo globalizado contemporâneo exibe várias
características particulares. Mencionarei algumas que me parecem importantes quando começarmos a refletir sobre a ética na internet. Por
exemplo, em primeiro lugar, surgiram vários idiomas globais usados
em muitos países e ambientes diferentes daqueles onde foram originalmente usados. Tais idiomas incluem o árabe, o francês, o espanhol, o
português, o han (chinês), o russo e o inglês. Segundo, houve um gran2
Poderíamos acrescentar também as esferas de influência dos dinamarqueses, portugueses, italianos, alemães, holandeses, japoneses e iranianos.
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Uma grande diversidade de povos foi
colocada em interrelação mais íntima
como resultado da
expansão política e
econômica das esferas
de influência dos
impérios
O comércio moderno, o
transporte, a mídia e a
comunicação são, em
parte, subprodutos da
indústria moderna
O reconhecimento da
diversidade cultural
e, por extensão, da
ética permanece um
desafio que ainda
precisa ser apreciado
e tratado de modo
mais completo
de aumento na quantidade de informação que tem sido criada, reunida
e que pode ser facilmente acessada. Assim, a informação – inclusive os
modos como ela é armazenada, organizada, comunicada e utilizada –
tem um papel cada vez mais influente e decisivo em diversas áreas da
vida moderna, inclusive na política, na indústria, no desenvolvimento
de energia e nas práticas da medicina. Terceiro, as forças da globalização tornaram os seres humanos cada vez mais conscientes da diversidade das culturas humanas. Quando as pessoas nos países do Atlântico Norte se conscientizaram dessa diversidade cultural nos séculos
XIX e XX, tentaram dar um sentido a essa diversidade, às vezes de
modo bastante problemático, como o fez Hegel ao considerar outras
culturas menos avançadas. O reconhecimento da diversidade cultural
e, por extensão, da ética permanece um desafio que ainda precisa ser
apreciado e tratado de modo mais completo.
Quarto, neste último século, a globalização também assumiu uma
expressão civil e semipolítica, a qual emerge com a criação de várias
associações e organizações do governo e conexões mundiais. Tenho em
mente, aqui, o estabelecimento e o papel de organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (relativo aos prisioneiros de guerra e à Convenção de Genebra), a Organização Mundial de Saúde, a
Associação Internacional de Energia Atômica, a Associação Mundial de
Vida Selvagem, o Tribunal Mundial, o Fundo Monetário Internacional
e a Organização Mundial de Comércio. Essa variedade de associações
estabelece normas globais e ativas, mobilizando pessoas dos mais diversos países a agir em nome de objetivos comuns. Todas essas organizações estabelecem políticas e normas com as quais se espera que os
governos nacionais venham a concordar. Isso vale tanto para as organizações internacionais citadas como também para grupos como as Nações Unidas, a Alta Comissão de Refugiados, o Banco Mundial e a
Organização Mundial do Trabalho. Pessoas dos mais diversos países
também estão bem interconectadas por meio de associações religiosas
e de sociedades civis – grupos como o Unicef, a Anistia Internacional,
o Fórum Econômico Mundial, a Igreja Católica Romana, o Conselho
Mundial de Igrejas –, bem como de comércio internacional e associações industriais – como o Acordo de Kimberly entre empresas envolvidas com a exploração e venda de diamantes, o Global Compact entre
empresas e o Comitê Olímpico Internacional. Poderíamos continuar a
citar muitas outras associações, ajuntamentos e conselhos que exercem
alguma forma de autoridade pública global. Tais associações compartilham as seguintes características em comum: são formadas por pessoas de muitos países diferentes; buscam nutrir a cooperação entre as
pessoas ao redor do mundo; e estabelecem e buscam garantir a aplicação de normas por meio de políticas internacionais particulares. O
número dessas organizações aumentou muito nas últimas gerações.
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Utilizamos as palavras “global” e “globalização” para recorrer a uma
variedade de forças e organizações que funcionam com o fim de aumentar o número e a intensidade das conexões sociais que unem as pessoas
de culturas e nações diferentes. Além disso, utilizamos essas palavras
para descrever certo modo de ser e de pensar o mundo. Adotar uma
forma de ser global significa olhar o mundo como um todo, ver assuntos
e preocupações particulares em termos de sua relação com o todo. Pensar
globalmente é pensar de modo abrangente e procurar reconhecer esses
tipos mais amplos de inter-relação. O oposto de pensar globalmente é
pensar em condições exclusivas e paroquiais. Pensar e agir globalmente
também requer que se vejam as questões particulares em termos de sua
inter-relação e impactos no planeta como um todo, incluindo os sistemas
orgânicos e inorgânicos que são parte da terra. Alguns observadores
definiram essa perspectiva maior como biosfera ou comunidade de vida.
Porém, a terra abarca mais do que esses termos parecem referir, pois
inclui as bases minerais e as dimensões atmosféricas. Em todo caso,
adotar uma perspectiva global envolve assumir a responsabilidade de
cuidar ou ajudar a cuidar deste todo planetário. Significa reconhecer que,
na condição de humanos, somos parte e interagimos com uma realidade
terrestre maior, da qual somos dependentes e que afeta o modo como
vivemos. Da mesma maneira, usamos o termo “globalização” para nos
referirmos ao grau a que vários grupos e comunidades passaram, com o
tempo, a adotar esse modo de ser e, assim, alterar e ampliar seus horizontes e pontos de referência a fim de abraçar uma perspectiva verdadeiramente global, fundada nas necessidades do planeta. Como resultado,
muitos grupos e comunidades passaram a se preocupar mais com as
questões ambientais e as práticas sustentáveis nos negócios e em seus
modos de vida pessoais. Conclui-se, então, que as forças de globalização
não somente recorrem a desenvolvimentos que levam à conexão de pessoas diversas e de múltiplas formas, mas também a desenvolvimentos
que motivam as pessoas a pensar mais globalmente em suas próprias
vidas e programas de trabalho.
No transcorrer da geração passada, o mundo no qual moramos tornou-se mais globalizado e mais desequilibrado. Apesar dos recentes
desenvolvimentos em comunicação eletrônica, comércio mundial e colaborações intergovernamentais, o mundo está longe de ser equilibrado e
de ser plano Hoje, aproximadamente 2,3 bilhões de seres humanos têm
rendas inferiores a 2 dólares por dia. Isso significa que uma em cada três
pessoas vive em situação de pobreza. De modo geral, essas pessoas têm
vidas mais curtas: mais de dezessete anos a menos, em média, do que as
pessoas com rendas médias. Elas têm maior probabilidade de ter uma
saúde mais frágil, sofrer taxas mais altas de mortalidade infantil, viver
em meio à violência e receber menos educação. Têm probabilidade menor de reduzir riscos por meios de seguros ou de ter acesso a crédito.
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Adotar uma forma de
ser global significa olhar
o mundo como um todo,
ver assuntos e preocupações particulares em
termos de sua relação
com o todo
Muitos grupos e
comunidades passaram a
se preocupar mais com
as questões ambientais e
as práticas sustentáveis
nos negócios e em seus
modos de vida pessoais
Porque o número de
seres humanos tem
crescido continuamente, a quantidade
de pessoas afetadas
pela pobreza não
mudou
Têm maior probabilidade de sentirem-se impotentes. Mais da metade
dessas pessoas mora nos 60 países menos desenvolvidos. Estes países, a
maioria deles situada na África e na Ásia Central, mas também incluindo
o Haiti, não estão funcionando bem. Parecem ser vítimas de ciclos de
violência, péssimos governos e de sua própria pobreza.3 A outra metade
dessas pessoas empobrecidas vive em áreas rurais de países como China,
Índia, México e Brasil, nas favelas que crescem ao redor e dentro das
grandes cidades dos países em desenvolvimento ou em industrialização,
e em comunidades indígenas empobrecidas.
Na realidade, como resultado do desenvolvimento econômico e da
industrialização, as taxas de pobreza recuaram durante o último século.
Vale notar que esse declínio significa que milhões de pessoas estão vivendo muito mais tempo, obtendo mais educação, desfrutando de melhores
dietas e residindo em circunstâncias saudáveis. Mas, porque o número de
seres humanos tem crescido continuamente, a quantidade de pessoas
afetadas pela pobreza não mudou muito. É verdade que hoje há 400
milhões de pessoas a menos sofrendo de pobreza absoluta, com rendas
inferiores a 1 dólar por dia, do que duas décadas atrás. Grande parte
desse ganho aconteceu em consequência do crescimento econômico na
China e na Índia. Porém, durante essas décadas, em várias partes da
América Latina, Europa Oriental, Pacífico e África subsaariana a situação
tornou-se pior ou permaneceu idêntica. Ao mesmo tempo, a condição
relativa do pobre foi agravada pela crescente desigualdade, tanto dentro
dos países como entre eles. Na medida em que os possuidores de riqueza
ficaram mais ricos, os níveis de renda dos mais pobres foram caindo.4
Em um mundo com tanta riqueza quanto há hoje, por que tantas
pessoas estão vivendo na pobreza? Embora sejam vários os fatores, as
pessoas estão cada vez mais pobres porque vivem em economias
empobrecidas. Elas moram em favelas, distritos rurais, nações e regiões
cujas economias não produzem oportunidades suficientes de trabalho
ou empregos com salários suficientes. Como resultado, as famílias que
vivem nessas áreas não podem satisfazer adequadamente suas necessidades básicas de alimentação, abrigo, educação e moradia decente.
Essas economias estão geograficamente situadas em ambientes difíceis,
com acesso inadequado a recursos naturais básicos. Em muitos casos,
essas economias sofreram desastres naturais ou crises econômicas temporárias. Em praticamente todos os casos, ao serem comparadas com
3
4
COLLIER, Paul. The bottom billion: why the poorest countries are failing and what can
be done about it. Oxford University Press, 2007.
Além da situação econômica recentemente melhorada em países como China, Índia e
Malásia, o crescimento econômico nos países em desenvolvimento no período entre
1950 e 1975 foi maior do que nos últimos 25 anos. Ver MILANOVIC, Branko. Worlds
apart: measuring international and global inequality. Princeton and Oxford: Princeton
University Press, 2005.
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economias que se expandiram em consequência do crescimento do
comércio e da indústria, essas economias empobrecidas permanecem
em um baixo nível de produtividade. Na realidade, durante muitos
séculos, vários seres humanos viveram em economias como essas: tiveram vidas mais curtas e existências mais escassas. É importante sublinhar esse ponto: a maioria das pessoas é pobre porque vive em economias empobrecidas. Há uma tendência a se fazer um discurso moral
sobre a pobreza – culpar o pobre ou seus líderes, negligenciando-se
frequentemente esse fator econômico básico. Assim, se quisermos reduzir a pobreza, teremos que encontrar meios de fazer com que essas
economias empobrecidas possam funcionar melhor.5
Nosso mundo contemporâneo enfrenta vários perigos que não podem ser ignorados. Porque os seres humanos estão cada vez mais
conectados, hoje estamos mais vulneráveis à expansão de doenças infecciosas. Globalmente, os seres humanos enfrentam maiores riscos relacionados à mudança climática e à degradação ambiental. Embora algumas
populações enfrentem maior risco que outras, a insegurança da população global como um todo é afetada pelo desmatamento e desertificação
de grandes áreas, a redução na extensão de terras cultiváveis e a diminuição dos lençóis de água e a redução de fontes aquíferas. Com o aquecimento global da terra, enfrentamos o risco tanto de aumentar os níveis
do mar como de haver mudanças dramáticas em correntes do oceano,
sendo que ambas as alterações afetariam de modo adverso as chances de
vida de milhões de seres humanos. Além desses riscos ambientais, enfrentamos uma gama de riscos políticos, especialmente associados ao
aumento do recurso à violência por dissidentes militares, grupos sociais
em situação de desvantagem, grupos semiorganizados e estados nacionais que se sentem ameaçados de várias maneiras por grupos rebeldes
locais. Observam-se constantes conflitos civis violentos em vários países
contemporâneos, algumas vezes sentidos abertamente e outras vezes
experimentados sob a forma de ameaças que se concretizam, periodicamente, em ataques. Em muitos casos, os civis tornaram-se alvos desses
ataques. Para muitas pessoas, a sensação de ameaça é agravada pelo fato
5
Em vários contextos há, certamente, pessoas empobrecidas. E seus líderes ocasionam
ou agravam sua situação de pobreza. Porém, a maioria das pessoas é pobre porque suas
economias não funcionam bem. A pobreza é ocasionada principalmente por economias
pobres. Tanto no mundo em desenvolvimento como nas nações industrializadas, ela é
causada pela distribuição injusta de empregos, renda, oportunidades, educação, acesso
aos recursos naturais e acesso a crédito. Visto sob a perspectiva das pessoas na pobreza,
a maioria delas sofre por sua impossibilidade ou dificuldade de gerar renda suficiente
por meio de seu trabalho, previdência social, crédito ou terra, já que essas fontes lhes
são bloqueadas, frustradas ou limitadas, se comparadas a outras pessoas que participam da mesma economia. Quando trato do papel dos negócios internacionais, também
menciono como as empresas afetam essas áreas. Veja BIRD, Frederick. Perspectives on
global poverty. In: BIRD, Frederick; VELASQUEZ, Manuel. (Eds). Just business practices
in a diverse and developing world. Houndsmills, U.K.: Palgrave-Macmillan, 2006, cap. 8.
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Durante muitos
séculos, vários seres
humanos viveram
em economias como
essas: tiveram vidas
mais curtas e
existências mais
escassas
Porque os seres
humanos estão cada vez
mais conectados, hoje
estamos mais vulneráveis à expansão de
doenças infecciosas
Os processos de
industrialização
trazem consigo não
só o aumento dos
padrões de vida, mas
também vários outros
riscos econômicos
Por causa do
aumento da conexão,
estamos vivendo em
um mundo cada vez
mais sem fronteiras
de que hoje muitos países possuem ou parecem ser capazes de desenvolver armas extraordinariamente letais, incluindo bombas nucleares, além
de substâncias químicas e armas biológicas. Além dessas ameaças
ambientais e políticas bastante sérias e consideráveis, os processos de
industrialização trazem consigo não só o aumento dos padrões de vida,
mas também vários outros riscos econômicos. Estes incluem a ameaça de
depressões econômicas periódicas e turnos de inflação, que podem ser
administrados de modo a reduzir ou agravar a angústia das famílias
adversamente afetadas, e outras ameaças, como perda de renda, desemprego, velhice e acidentes que são administrados por programas de previdência social em muitos países desenvolvidos, enquanto países em desenvolvimento não dispõem dessa estrutura.
Sob muitas formas o mundo contemporâneo tornou-se mais globalizado, mas permanece um mundo desequilibrado e arriscado. Também
continua a ser um mundo de distintas comunidades, países, culturas,
religiões e economias. Embora esses grupos possam interagir de modos
diversos, bem como afetar e serem afetados uns pelos outros de várias
maneiras, tais agrupamentos permanecem distintos e servem como
referência básica para a identidade pessoal, além de serem objetos que
motivam considerável lealdade. Por causa do aumento da conexão,
especialmente aquela ocasionada pela comunicação moderna e o comércio, alguns observadores têm afirmado que estamos vivendo em um
mundo cada vez mais sem fronteiras. Considerando-se a condição em
que a maioria das pessoas vive dentro de comunidades distintas (como
também nações, culturas, religiões, e economias), e levando-se em conta
a extensão a que tais agrupamentos estabeleceram formas autoritárias
e autônomas de administrar a vida em grupo, parece impróprio dizer
que o mundo não tem fronteiras. Talvez fosse mais preciso descrever
nosso mundo como um espaço no qual algumas formas de cruzar as
fronteiras podem ser administradas hoje com maior facilidade.
Ao tentarmos identificar os problemas e contornos de uma ética
empresarial responsável na internet, seria sensato começarmos a pensar
globalmente e a considerar o contexto maior no qual surgem novas
formas de fazer negócios, e de comunicação, como também os novos
problemas éticos que elas ocasionam. O contexto maior é de um mundo
globalizado que continua a ser constituído por muitas comunidades
diversas, um mundo que permanece desequilibrado de maneiras específicas e enfrenta uma gama variada de riscos identificáveis.
Práticas responsáveis de negócios. Como podemos pensar
melhor as responsabilidades éticas das empresas?
Uma resposta passa pela convicção de que as empresas deveriam
ser socialmente responsáveis. As empresas deveriam aumentar suas
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Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008
doações filantrópicas e seus investimentos sociais. Deveriam ajudar a
aliviar problemas sociais como a pobreza, a fome e a crise da epidemia
de Aids. Deveriam, também, tornar-se mais verdes, além de terem diretrizes mais claras quanto a certas práticas questionáveis no uso da
força de trabalho. Em resumo: as empresas deveriam tornar-se organizações moralmente boas. As pessoas que defendem essa visão afirmam,
frequentemente, que as empresas deveriam concentrar-se menos em
seus lucros e condições mínimas. Ou, em outras palavras, deveriam
permitir que preocupações com questões sociais e ambientais modificassem seus interesses estritamente empresariais. Esta posição é muito
recomendável.6 Muitos grupos a têm defendido.7
Não obstante, essa visão de responsabilidade empresarial esteve
sujeita a várias críticas pesadas. Afinal de contas, as empresas não são
agências de previdência social. Além do mais, não têm nenhum conhecimento especial sobre problemas sociais. Em todo caso, as empresas
têm uma responsabilidade fiduciária básica com relação a seus clientes,
empregados, credores e acionistas. Esses grupos esperam que os negócios das empresas sejam bons para seus próprios interesses, de forma
que venham a se beneficiar adequadamente dos investimentos que fizeram nelas. Frequentemente, em seus esforços por serem ou parecerem
socialmente responsáveis, muitas empresas empreendem iniciativas que
submetem seus acionistas a riscos excessivos.8 Por exemplo, no meio da
década de 1990, a Levi Strauss recusou-se a trabalhar com fornecedores
na China por causa das violações de direitos humanos naquele país.
Depois, ao reconhecer o enorme mercado do qual estava se excluindo,
a empresa teve de inverter sua posição. Essa era uma oportunidade boa
demais para ser perdida. Em todo caso, sob a perspectiva do mundo em
desenvolvimento, o que essas comunidades mais necessitam são iniciativas que venham a ajudar as economias empobrecidas a crescer. Projetos sociais agregam menos valor global do que operações empresariais
que estimulam o desenvolvimento econômico.
6
7
8
SMUCKER, Joseph. Pursuing corporate social responsibility in changing institutional
fields. In: BIRD, Frederick; VELASQUEZ, Manuel. (Eds). Just business practices in a
diverse and developing world. Houndsmills, U.K.: Palgrave-Macmillan, 2006, cap. 3.
Embora muitos tenham defendido e argumentado que empresas socialmente responsáveis têm melhores desempenhos financeiros, não há demonstração empírica que
comprove a veracidade desta tese. (Ver ZADEK, Simon. The path to corporate
responsibility. In: Harvard Business Review. Dez, 2004, Reed. 80412.; MARGOLIS, D.;
WALSH, J. Misery loves companies: re-thinking social responsibility by business. In:
Administrative Science Quarterly, v. 49 p. 268-305.) Conforme argumentei em outra parte,
essa afirmação descaracteriza o que está aqui em questão (BIRD e VELASQUEZ. Introdução à segunda parte).
CROOK, C. The good company: a survey of corporate social responsibility. In: The
economist. 22 Jan. 2006, p. 1-22.
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Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008
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As empresas
deveriam tornarse organizações
moralmente boas
Até certo ponto, a
abordagem puramente
economicista em um
mundo em desenvolvimento pode ser
bastante arriscada
Muitos dos que criticam a visão de que as empresas deveriam ser
socialmente responsáveis fundamentam sua conclusão em uma posição
exatamente oposta: ou seja, como disse Milton Friedman: “A responsabilidade social da empresa é aumentar seu lucro”. Na prática, em áreas
em desenvolvimento, essa abordagem tem levado as empresas internacionais, frequentemente, a procurarem minimizar seus custos – trabalhistas, operacionais, fiscais e materiais. Quer essas empresas estivessem
extraindo, colhendo, fabricando ou montando seus produtos, em geral
muitas delas buscavam defender seus interesses globais por meio da
redução de suas despesas. Essa visão empresarial tem sido muito difundida. Certamente faz sentido manter a dimensão das despesas como
uma preocupação importante entre várias outras. Porém, a preocupação
com a minimização dos custos, especialmente quando se concentra em
resultados no curto prazo, com frequência leva a pegar atalhos. Consequentemente, há muitos relatos no mundo em desenvolvimento sobre
trabalhadores mal pagos e com trabalho excessivo, empregados forçados a trabalhar em condições inseguras e insalubres, ambientes degredados e empresas utilizando sistemas inteligentes, mas com práticas
duvidosas de contabilidade para evitar o pagamento de impostos locais.9 Todas essas práticas são o resultado de esforços tacanhos de reduzir custos e maximizar os lucros no curto prazo.
Na realidade, se essa abordagem dos negócios também for seguida
rigorosamente, as empresas ficarão expostas a vários perigos. Estes incluem o risco óbvio de gerar trabalhadores insatisfeitos e que, portanto,
produzem menos – com altas taxas de demissões. As estratégias de
minimização de custos também elevam o risco de dar origem a consumidores insatisfeitos, que optam por não comprar os produtos feitos por
empresas consideradas moralmente corruptas.10 Também há o risco de
serem pegas desrespeitando leis ou princípios de contabilidade. As
empresas consideradas exploradoras também enfrentam maior risco de
segurança, já que é mais provável que se tornem alvos de atos de vandalismo e sabotagem. Em muitos casos, as empresas enfrentam o risco
adicional de investidores irritados venderem suas ações quando as empresas são expostas como cúmplices em situações de abuso dos direitos
humanos. Portanto, até certo ponto, a abordagem puramente economicista em um mundo em desenvolvimento pode ser bastante arriscada.
9
10
KLEIN, Naomi. No logo. London: Flamingo, 2000; BAKER, Raymond. Capitalism’s
Achilles heel: dirty money and how to renew the free market system. Hoboken, N.J.:
John Wiley and Sons, 2005.
A fim de melhor administrar esse risco, muitas das grandes marcas e distribuidoras
hoje trabalham com auditores sociais a fim de garantir que seus fornecedores no Terceiro Mundo operem com base em alguns códigos mínimos. Ver BABARIK, Sylvie.
Monitoring labour conditions of textile manufacturing: the work of Coverco in
Guatemala. In: BIRD, Frederick; VELASQUEZ, Manuel. (Eds). Just business practices in
a diverse and developing world. Houndsmills, U.K.: Palgrave-Macmillan, 2006, cap.7.
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Proponho aqui um terceiro modo de se pensar a responsabilidade
ética nos negócios, uma posição que denomino “abordagem de valor
agregado”. Para explicar o que quero dizer por “visão de valor agregado” dos interesses empresariais, é útil começar por se considerar como
as empresas são vistas enquanto organizações sociais. Resumidamente,
as empresas são organizações que utilizam os recursos humanos e naturais a fim de produzir e comercializar bens e serviços. Além disso,
enquanto se mantiverem no negócio, podemos acrescentar que são organizações geradoras de riquezas. Empresas geram valor econômico sob
a forma de lucros, salários, juros, investimentos, bem como artigos de
uso geral e serviços. Para agregar valor econômico, as empresas põem
em movimento uma série de interações contínuas, geradoras de riqueza, com seus acionistas. Quando se fala em acionistas, deve-se incluir
empregados, credores, clientes, provedores, sócios e comunidades afetadas. Diz-se frequentemente que as empresas têm acionistas. Mas essa
forma de tratá-los não é, na realidade, precisa, porque dá a impressão
de que as empresas podem existir sem deles. Mas isso é impossível. As
empresas não têm acionistas, em sentido estrito. Ao contrário, elas são
constituídas pelas interações com seus acionistas. Elas não podem funcionar sem essas contínuas interações.11
Uma abordagem dos resultados a partir do valor agregado busca
proteger e aumentar o valor econômico global das empresas do modo
como está embutido nos diversos jogos de interação. Esses recursos
podem ter formas diferentes. Para fins de análise, podemos distinguir
entre cinco tipos diferentes de recursos. Estes incluem, em primeiro
lugar, os recursos financeiros, que são renda e ações; segundo, os recursos produtivos, que são operações físicas e estruturas organizacionais;
terceiro, os recursos humanos, que se baseiam nas habilidades e disposições dos trabalhadores; quarto, os recursos sociais, que se referem à
confiança social e redes; e, quinto, os recursos naturais.12 Em geral, uma
empresa gera riqueza genuinamente se, ao utilizar e modificar esses
vários recursos, ela agregar valor ao invés de diminuí-lo. Certamente,
as empresas utilizam-se ou acrescentam alguns tipos de recursos mais
que outros. Uma empresa pode perder o equilíbrio dependendo da
forma como utilizar, gastar, conservar e acrescentar recursos particulares. Uma perspectiva de valor agregado requer que empresas mantenham uma visão do estado global dos recursos com os quais estão tra11
12
ANDERSON, Dan R. Corporate survival: the critical importance of sustainability risk
management. New York: iUniverse, Inc., 2005.
FREEMAN, R. E. Strategic management: a stakeholder approach. Boston: Pitman, 1984;
FREEMAN, R.E. The stakeholder approach revisited. In: Zeitzschrift fur Wirtsschaft- und
Unternehmensethik. 2004, v. 5 (3), p. 228-41; BIRD, Frederick. Good governance: a
philosophical discussion of the responsibilities and practices of organizational
governors. In: Canadian Journal of Administrative Studies. 2001, v. 18(4), p. 298-312.
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Uma empresa gera
riqueza genuinamente se, ao utilizar
e modificar esses
vários recursos, ela
agregar valor ao
invés de diminuí-lo
Quando os empregados sentem que seus
interesses não são
bem respeitados, eles
agem de modo
diferente, desvantajoso para seus
empregadores
balhando. Essa perspectiva exige que as empresas avaliem quão bem
estão protegendo, conservando ou perdendo esses recursos. As empresas dos setores extrativistas enfrentam um desafio especial porque, pela
própria natureza de sua atividade, elas gastam certos recursos naturais.
O caso seguinte poderia ser exemplificado com relação às empresas dos
setores extrativistas: estas podem agregar valor econômico mesmo que
no geral elas esgotem recursos naturais (como nas reservas subterrâneas
de combustível fóssil), se agregarem valor correspondente nos âmbitos
financeiro, humano, produtivo e social, ao mesmo tempo em que não
esgotam outros recursos naturais.
À medida que descrevo essa perspectiva de valor agregado, apresento uma suposição crucial. Estou assumindo que as empresas, ao
interagirem com seus vários acionistas, realizam intercâmbios justos.
Ou seja, em ambos os lados, estou assumindo que as trocas e intercâmbios atendam aos seguintes critérios mínimos: são voluntárias, baseiamse em informações adequadas e seguras e beneficiam cada participante,
de forma aproximadamente proporcional às suas contribuições, esforços
e riscos. Estes são os ingredientes mínimos do que se convencionou
chamar de “justiça comutativa”. Quando as empresas interagem com
seus acionistas com base em trocas justas, à medida que seus recursos
crescem, elas correspondentemente acrescentam valor econômico à
sociedade maior, já que seus acionistas imediatos se beneficiam dessas
transações. Além disso, faz sentido que esses negócios se ocupem de
transações justas com acionistas não somente por razões morais, mas
até mesmo por seu interesse próprio. Porque as interações justas com
acionistas são mutuamente benéficas, é provável que eles ajam de
maneira a agregar mais valor.13 Posso ilustrar esse ponto com respeito
a empregados. Por exemplo, quando os empregados sentem que seus
interesses não são bem respeitados, eles agem de modo diferente, desvantajoso para seus empregadores. Aumentam a rotatividade, as ausências e os atrasos; há maior probabilidade de que os empregados trabalhem mecanicamente e façam um trabalho malfeito e descuidado. A
produtividade cai notadamente. Além disso, quando as empresas intro13
Ver BIRD, Frederick. Ethical reflections. In: BIRD, Frederick; HERMAN, Stewart. (Eds).
International businesses and the challenges of poverty in the developing world. Houndmills,
U.K.: Palgrave-Macmillan, 2004, cap. 1. A seguir ofereço uma melhor apresentação
desses vários tipos de recursos: a) recursos financeiros – que incluem investimentos,
crédito, apólices de seguro, lucro, renda, salários e o interesse de consumidores em
comprar seus produtos. b) recursos produtivos – que incluem tecnologia, arranjos
organizacionais, recursos energéticos e infraestrutura física. c) recursos humanos – que
incluem habilidades e interesse em trabalhar efetivamente como produtores ou executivos. d) recursos sociais – que incluem redes, confiança e ordem pública (ou segurança), tanto dentro das firmas como nas sociedades nas quais elas operam. e) recursos
naturais – que incluem matérias-primas que podem ser processadas, assim como ar e
água, que nem sempre são levados em consideração.
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duzem organização e vigilância para evitar esses problemas, os trabalhadores normalmente reagem de maneiras que intensificam esses padrões e características negativos.14
É importante observar que a empresa pode até produzir lucros ao
mesmo tempo em que perde seus recursos produtivos – permitindo que
suas máquinas e operações organizacionais se deteriorem. Também pode
produzir lucros ao mesmo tempo em que perde seus recursos naturais e
humanos por meio de práticas de trabalho abusivas. Não importa quão
altas sejam as margens de lucro ou os nichos de mercado, as empresas
não vão acrescentar valor econômico se seu valor econômico global diminuir em virtude de declínios apreciáveis no valor dos recursos produtivos, humanos, sociais e naturais com os quais trabalham.
Essa perspectiva de valor agregado aplicada a práticas empresariais
responsáveis tem relevância especial em regiões e países em desenvolvimento. As empresas nessas regiões não podem nem devem pensar em
seus interesses empresariais em termos de minimização de custos, mas
em termos de proteção e desenvolvimento de seus recursos, deste modo
agregando valor econômico. Além disso, elas deveriam pensar em seus
recursos de modo amplo, em termos da interação com acionistas, os
quais agregam ou perdem valor de forma variada em termos de recursos financeiros, produtivos, humanos, sociais e naturais. Quando empresas internacionais operam dessa forma, elas agregam um valor econômico correspondente também às áreas em desenvolvimento nas quais
estão inseridas. Desse modo, promovem empregos e renda, chances
para se aprender novas habilidades, geram impostos e estímulos para
outras empresas, além de outros bens e serviços. Na medida em que as
economias dessas regiões crescem, as taxas de pobreza diminuem.
Essa perspectiva de valor agregado aplicado à ética empresarial
oferece um ponto de referência útil para se começar a pensar sobre os
temas e preocupações que poderiam caracterizar o campo da ética
empresarial na internet. Em termos gerais, espera-se que as empresas
eticamente responsáveis venham a somar e agregar, e não diminuir
valor econômico, além de se esperar que elas interajam com seus acionistas de forma aberta, recíproca e justa. De modo similar, espera-se
que tais empresas obedeçam ao direito nacional e internacional, além
de atuar segundo padrões aceitáveis de contabilidade.
Questões éticas relacionadas ao uso da internet
Antes de listar e discutir uma série de questões éticas surgidas com
relação ao uso da internet, eu gostaria de chamar a atenção para três
14
BIRD, Frederick. Just business practices. In: BIRD, Frederick; VELASQUEZ, Manuel.
(Eds). Just business practices in a diverse and developing world. Houndsmills, U.K.:
Palgrave-Macmillan, 2006, cap.2.
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Espera-se que as
empresas eticamente
responsáveis venham
a somar e agregar, e
não diminuir valor
econômico
O aumento do
acesso à internet em
áreas empobrecidas
poderia facilitar a
expansão econômica
nessas regiões
formas bastante diferentes que as questões éticas geralmente assumem:
primeira, como divergência de comportamentos com relação a padrões
obrigatórios; segunda, como carência de padrões de aspiração ou de
excelência; e, terceira, como dilemas genuínos com relação a alternativas moralmente bem defendidas. Dependendo da forma como essas
questões surgem, são necessárias respostas muito diferentes. Embora
regras rígidas, proibições e castigos funcionem bastante bem com questões que assumem a forma de desvios de padrões obrigatórios, elas não
funcionam bem em situações de carência de padrões ou dilemas. A falta
de padrões em geral é mais bem tratada por meio de apoio, encorajamento e oportunidades de aprendizagem e novas tentativas. Por sua
vez, os dilemas normalmente são mais bem enfrentados por meio de
debates, discussões, mais pesquisas, explorações de alternativas ainda
não implantadas, negociações e compromissos. Pelo fato de as pessoas
normalmente não apreciarem a forma – ou a combinação de formas –
que as questões éticas assumem, suas respostas em geral acabam complicando ainda mais o que está em questão.
Uma série de temas éticos diferentes surgiu com relação à internet.
Na próxima seção farei uma lista e discutirei vários temas, observando,
no processo, as formas que tais questões normalmente assumem.
1. TEMAS
Em algumas regiões, o
acesso pleno à
internet é bloqueado
pela censura seletiva
ÉTICOS RELATIVOS AO ACESSO À INTERNET
Muitas pessoas não têm acesso ou têm muito pouco acesso à internet.
Há muitas razões para isso: faltam equipamentos necessários; não há
fontes de eletricidade ou estas são irregulares; falta assistência técnica
facilitada para o uso ou manutenção de seus equipamentos. Essa falta de
acesso é uma questão básica de justiça que reforça as desigualdades em
um mundo desequilibrado. Nesse contexto, o acesso justo representa um
objeto de valor que se assemelha mais a um objetivo a aspirar e a uma
condição social mínima que deve estar disponível para todos. Por muitas
razões, não se pode refletir adequada ou apropriadamente sobre esse
tema sem que se considerem as questões associadas aos problemas relativos à pobreza que afeta pelo menos um em cada três indivíduos. Comparada a outros temas, que também abordarei, essa questão é especialmente urgente em virtude de marginalizar cada vez mais os pobres. De
forma circular, o aumento do acesso à internet em áreas empobrecidas
poderia facilitar a expansão econômica nessas regiões, da mesma forma
que o desenvolvimento econômico de base, por sua vez, está claramente
associado ao aumento do acesso à internet. É melhor considerar essa
questão ética particular de forma direta, por meio de projetos especiais
direcionados à extensão do acesso e, de forma indireta, por meio de iniciativas que promovam o crescimento econômico geral.
Em algumas regiões, o acesso pleno à internet é bloqueado pela
censura seletiva. Em particular, muitos têm criticado o modo como os
108
Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008
servidores de internet – como Yahoo, Google e Microsoft – aceitaram as
políticas do governo chinês, que exigiu a remoção de referências a certos termos como “igualdade”, “Tiananmen” e “direitos humanos” dos
sites localizados na China.
2. QUESTÕES
ÉTICAS RELACIONADAS AO USO HEDIONDO DA INTERNET
Uso o termo “hediondo” para me referir a uma série de práticas
que violam as leis nacionais e internacionais básicas e/ou princípios
morais fundamentais. Na medida do possível, esses usos devem ser
eliminados ou significativamente reduzidos. Algumas práticas abusivas
causam mais danos do que outras. Na maioria dos casos, não há como
eliminar esses abusos. Em outros, é mais fácil desenvolver respostas de
proteção – como software antivírus – do que detectar e eliminar tais
práticas. Todos os exemplos a seguir representam usos hediondos: o
uso da internet, muitas vezes pelos governos, para obter informações
privadas; roubo de identidade pela internet; atos maléficos de sabotagem para interferir ou causar danos a sistemas de informação que pertencem a outros. Embora algumas pessoas considerem essas práticas
incorretas, há menos consenso em relação a várias outras práticas, como
o problema da evasão de capital. O mundo em desenvolvimento perde
bilhões de dólares todos os anos em virtude dos custos abusivos de
transferências, esquemas de alteração de preços, ofertas de propinas e
apropriação de fundos públicos ou corporativos.15 Muitos desses fundos
são eletronicamente transferidos para centros de bancos estrangeiros.
Na perspectiva do mundo em desenvolvimento, esses fundos representam um enorme custo para as economias. A prática da transferência
eletrônica de fundos representa, de muitas formas, dar uso hediondo a
um meio legítimo e bom. Parece importante chamar a atenção para
esses problemas, embora a resposta adequada talvez tenha mais a ver
com uma mudança nas leis fiscais dos países industrializados do que
com alterações nos estatutos ou regras de uso da internet.
3. QUESTÕES
ÉTICAS RELACIONADAS AO QUE PODERIA SER DESCRITO COMO
PRÁTICAS QUESTIONÁVEIS
Esses usos questionáveis da internet não são tão potencialmente
danosos como as práticas hediondas. Em muitos casos, essas práticas
questionáveis representam atividades muito difundidas antes da
internet, mas esta parece ter estendido e multiplicado seu uso. Na
maioria dos casos, ações legais diretas não alteram significativamente
as práticas. Com respeito a essas práticas questionáveis, em particula15
Ver CHANG, Ha-Joon. Bad samaritans: rich nations, poor policies, and the threat to the
developing world. London: Random House Business Books, 2007; BAKER, Raymond.
Capitalism’s Achilles heel, 2005.
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A prática da
transferência
eletrônica de fundos
representa, de
muitas formas, dar
uso hediondo à
internet
Muitas das práticas
questionáveis têm a
ver com a maneira
como as pessoas
enviam mensagens
pela internet
res, é importante que usemos nossa imaginação e colaboremos com
outros para chegar a respostas construtivas para essas questões. Muitas
das práticas questionáveis têm a ver com a maneira como as pessoas
enviam mensagens pela internet. Em particular, tenho em mente o uso
da internet para envergonhar pessoas, passar boatos maliciosos, distribuir pornografia, buscar vítimas em trapaças financeiras (scams), disseminar evidências não bem estabelecidas, mas provocativas, e enviar
rumores como sendo fatos. A internet permite que essas mensagens
moralmente questionáveis sejam enviadas a mais pessoas em menos
tempo do que a comunicação tradicional. Mais importante ainda, a
internet permite que as pessoas espalhem informações não confirmadas,
refletidas ou revisadas por uma terceira parte mais bem posicionada
para refletir sobre a inteligibilidade dessas mensagens e como elas
podem ser recebidas. Em um mundo globalizado, com uma abundância
de informações, essas terceiras instâncias podem ter um papel importante no sentido de ajudar a distinguir entre o material trivial e o importante, além de ajudar os transmissores dessas mensagens a articulálas de modo claro e compreensível. Por outro lado, essas terceiras
instâncias às vezes podem ter uma mão excessivamente pesada, eliminando mensagens aparentemente estranhas que podem ser de grande
importância e condescendendo demais no que hoje é considerado apropriado e significativo. A internet serve como um veículo libertador,
disponibilizando informações que antes não teriam recebido muita
atenção. De qualquer forma, essa liberdade também facilita as práticas
questionáveis de envergonhar, espalhar boatos e passar informações
irreais como se fossem fatos confirmados.
Outras práticas questionáveis têm a ver com a maneira como as
pessoas utilizam a internet para obter informações. Algumas delas
complementam as práticas associadas ao envio de mensagens. Nesse
caso, refiro-me à disseminação de boatos e ao tratamento de rumores
como fatos. Outras práticas questionáveis incluem o downloading de
músicas, vídeos, fotografias ou informações de formas claramente ilegais ou pelo menos duvidosas. Muitas pessoas utilizam a internet para
copiar informações e tratá-las como se lhes pertencessem. Isso às vezes
resulta em formas óbvias de plágio. Em outros casos, representam instâncias de descuido na forma de copiar ou identificar as fontes de informação. Esses problemas foram agravados com o aumento do uso da
internet. Todas essas práticas questionáveis são moralmente preocupantes. O que é especialmente desafiador com respeito a essas práticas questionáveis é como tomar medidas efetivas para limitá-las. Não
foram particularmente eficazes as tentativas de se definir esses problemas e punir severamente os atores, na esperança de assim deter esse
tipo de iniciativa. Os indivíduos punidos normalmente representavam
apenas uma pequena porcentagem dos envolvidos. Está claro que, para
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Revista de Educação do Cogeime • Ano 17 – n. 32/33 – junho/dezembro 2008
atacar essas práticas com medidas eficazes, é necessário explorar de
forma imaginativa uma variada gama de iniciativas.
4. QUESTÕES
ÉTICAS RELACIONADAS A POSSIBILIDADES PROMISSORAS, MAS
AMBÍGUAS
A internet criou e criará muitas possibilidades promissoras, cujo
valor moral não pode ser facilmente determinado no início. Por meio
da internet, grupos e indivíduos específicos criaram muitos mercados
on-line, desenvolveram portos acessíveis de conhecimento enciclopédico, construíram espaços onde pessoas anônimas podem se encontrar e
conversar, inventaram fóruns de discussão para interessados, mobilizaram milhares de pessoas a participar de demonstrações públicas. Todas
essas ações representam possibilidades promissoras.16 Mas esses usos
também fazem emergir uma série de questões éticas que precisam ser
respondidas, tais como: Pelo que sabemos e temos visto até agora, quais
outras iniciativas devem ser promovidas? Como podemos aplicar ou
expandir certas práticas de forma a abordar algumas das desconcertantes questões que estão conectadas ao nosso mundo diverso e
globalizado, desequilibrado e em risco? De que maneiras as iniciativas
existentes podem ter consequências imprevistas e preocupantes?
Perspectivas globais sobre as empresas, a internet e a ética
Como a discussão anterior indica claramente, as questões éticas
associadas à internet assumem diversas formas. A resposta a essas
questões é desafiadora sob vários pontos de vista. Em alguns casos,
entendemos apenas parcialmente a dimensão total dos temas em questão. Em geral, à medida que tentamos responder a tais questões, precisamos encontrar meios de determinar quais temas são mais fundamentais e importantes, quais requerem respostas urgentes e em relação a
quais temas estamos mais bem posicionados para agir de modo eficaz.
As respostas a essas perguntas provavelmente serão diferentes de acordo com o local em que estamos e os recursos de que dispomos para
responder. O desafio mais decisivo é desenvolver respostas imaginativas e eficazes. Muitas vezes é mais fácil identificar os problemas éticos
do que desenvolver formas de agir que tenham impacto significativo.
16
Para uma visão útil sobre essas possibilidades, ver TAPSCOTT, Don; WILLIAMS,
Anthony D. Wikinomics: how mass collaboration changes everything. New York:
Penguin Group, 2006.
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Muitas vezes é mais
fácil identificar os
problemas éticos do
que desenvolver
formas de agir que
tenham impacto
significativo
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