Nº:
Nome:
Est. Literários
3º ano
Rev. Gabarito – Inter. Poema I
Wilton
Turma:
Out/10
O que você deve saber sobre
INTERPRETAÇÃO DE TEXTO (POEMA) I
“Confidência de Itabirano” é um dos muitos poemas em que aparecem as marcas de origem de
Carlos Drummond de Andrade, característica recorrente na produção poética do modernista. Itabira é a
“província onde nasceu o homem e se criou o poeta” e é de lá que Drummond recolhe fragmentos de sua
história pessoal, de sua família e transforma tudo isso em matéria poética.
Confidência do Itabirano O poema está estruturado em quatro estrofes de tamanhos variados.
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira. Já na primeira estrofe, especificamente nesses dois primeiros
versos, o eu lírico informa ao leitor que não só nasceu em Itabira, como, “principalmente”, nasceu nessa
cidade. Essa distinção é importante. O advérbio “principalmente” denota a importância que o eu lírico
atribui ao fato de ter nascido em Itabira e não em outro local qualquer. Itabira do Mato Dentro está
presente em grande parte da obra drummoniana. Esse “modo mineiro de ver a vida” confere à poesia do
modernista uma singularidade tal que o poeta chegou a reconhecer no conjunto de sua obra uma “marca”
de seu estado natal, ou como ele próprio gostava de afirmar, um “selo de Minas”.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. A produção de fortes imagens metafóricas, tão comum em
Drummond, aparece neste terceiro verso, quando o eu lírico se autodenomina “de ferro”. Essa metáfora é
explorada de maneira peculiar, recorrendo aos minérios que enriqueciam a Itabira do artista. O eu lírico
atribui seu jeito de ser e sua cosmovisão a uma base material, concreta. O sujeito poético julga-se “de
ferro”, duro e inflexível, devido ao fato de ter nascido em Itabira. Essa cidade ficou conhecida em sua
época áurea pelo potencial aurífero e, posteriormente, pelo potencial ferrífero, motivos de orgulho para
seus habitantes.
Noventa por cento de ferro nas calçadas. O poeta se refere ao próprio solo de Itabira, rico em ferro.
Oitenta por cento de ferro nas almas. Grande parte da “alma” do eu lírico é composta pelo “ferro” de
Itabira, ou seja, pela marca dessa cidade na personalidade dele. A principal atividade econômica da cidade
mineira era o ferro, por isso seus habitantes estavam “contaminados” pela “dureza” e “tenacidade” desse
minério. Observação: mesmo quando Drummond se muda definitivamente para o Rio de Janeiro a fim de
assumir o cargo de chefe de gabinete, convidado pelo então Ministro da Educação e Saúde Pública
1
Gustavo Capanema, o poeta não perde contato com suas origens. No Rio de Janeiro, Drummond
intensifica sua carreira intelectual (sem deixar de lado sua carreira como funcionário público).
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. Esse “alheamento” citado no verso
marca o tempo presente do eu lírico. O passado representa uma fuga. O presente é o tempo do
individualismo – característica das grandes metrópoles modernas – e de um ritmo de vida que leva o eu
lírico ao isolamento. A poesia recupera um tempo de sensibilidade. É marca freqüente em Drummond a
oposição entre o tempo passado e o presente. Se o passado se identifica com o prazer, o presente é a
expectativa do vazio que leva o eu lírico a temer o futuro incerto.
Segunda estrofe
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, Essa segunda estrofe é aberta com um verso que
sugere ausência de amor. O eu lírico tem vontade de amar, mas não há concretização desse sentimento.
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. O poeta mescla ao seu olhar
nostálgico uma dose de ironia e amargura, mostrando Itabira como uma cidade “de noites brancas” onde
nada de muito inovador ocorre e onde não há horizontes. Aqui, se presentifica uma dupla imagem:
literalmente, uma Itabira sem horizontes, sem montanhas, aspecto geográfico bastante característico de
Minas Gerais, e a ausência total de perspectivas dessa pequena cidade do interior.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana. Nesses versos, os verbos “sofrer” e “diverte” estabelecem uma antítese.
Embora a saudade da cidade natal faça o eu lírico sofrer, é também motivo de diversão.
Terceira estrofe
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: Nessa terceira estrofe, o eu lírico instaura um
interlocutor, marcado pelo pronome “te”. Dessa forma, parece demonstrar uma necessidade de
compartilhar suas lembranças. Esse interlocutor poderia funcionar como uma testemunha capaz de
reconhecer, por meio de objetos (“prendas”), os bons momentos vividos em Itabira.
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil; Metonímia do orgulho itabirano de possuir minas de ouro e
ferro.
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; referência à religiosidade itabirana e à figura do
santeiro Alfredo Duval, muito presente no universo infantil de Drummond.
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; Tal apego às lembranças materiais denota
uma necessidade de reter na memória os bons momentos de outrora.
2
este orgulho, esta cabeça baixa... Esse último verso da terceira estrofe apresenta duas prendas pouco
convencionais: o “orgulho” e a “cabeça baixa”, o travo amargo da vida de Drummond. As reticências
sugerem que outras heranças, como a solidão, poderiam compor esse verso.
Quarta estrofe
Tive ouro, tive gado, tive fazendas. A quarta e última estrofe é iniciada por uma curiosa gradação
que denota um poder econômico conquistado paulatinamente.
Hoje sou funcionário público. Esse verso estabelece uma oposição em relação ao anterior. Ser
“funcionário público” adquire um sentido de decadência econômica do eu lírico.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói! A progressão iniciada com o primeiro verso desta estrofe alcança seu ápice nesses
versos finais nos quais uma realidade é manifestada de forma explícita. A adversativa “mas” sugere que
Itabira é muito mais do que “apenas uma fotografia na parede” porque ainda suscita dor no eu lírico,
sentimento intensificado pela exclamação. Trata-se, em outras palavras, do retorno do “enterrado vivo” de
que nos fala Drummond em outro poema seu: “É sempre no passado aquele orgasmo,/é sempre no presente
aquele duplo,/é sempre no futuro aquele pânico./(...) E sempre no meu sempre a mesma ausência.” (“O
enterrado vivo” In Fazendeiro do ar)
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética, Record, Rio de Janeiro, 1993)
3
Interpretação de texto (poema) no
VESTIBULAR
Muitos concursos vestibulares trabalham com questões elaboradas a partir de textos estruturados em versos
e estrofes. Além da produção poética brasileira, os elaboradores das questões dos concursos vestibulares
utilizam como base canções do rico repertório musical brasileiro.
Neste tópico, exploramos o poema “Confidência do Ibatirano”. Antes de iniciar o estudo dos versos que
compõem esse poema, retome alguns aspectos da produção drummondiana. Procure situar o poeta no
contexto do Modernismo brasileiro (segunda fase).
A questão a seguir, proposta pela UFBA, parte da canção “Trilhos urbanos”, de Caetano Veloso. Além de
analisar as afirmativas sobre o texto, presentes na questão 1, estabeleça uma relação entre a canção de
Caetano e as temáticas semelhantes que aparecem nas produções de Manuel Bandeira e de Drummond
quando ambos abordam, respectivamente, Recife e Itabira em seus versos.
1) UFBA – 2009
INSTRUÇÃO: Assinale as proposições verdadeiras e some os números a elas associados.
TRILHOS URBANOS
O melhor o tempo esconde, longe, muito longe
Mas bem dentro aqui, quando o bonde dava a volta ali
No cais de Araújo Pinho, tamarindeirinho
Nunca me esqueci onde o imperador fez xixi
Cana doce Santo Amaro, gosto muito raro
Trago em mim por ti, e uma estrela sempre a luzir
Bonde da Trilhos Urbanos vão passando os anos
E eu não te perdi, meu trabalho é te traduzir
Rua da Matriz ao Conde no trole ou no bonde
Tudo é bom de vê, seu Popó do Maculelê
Mas aquela curva aberta, aquela coisa certa
Não dá prá entender o Apolo e o rio Subaé
Pena de Pavão de Krishna, maravilha, vixe Maria
Mãe de Deus, será que esses olhos são meus?
Cinema transcendental, Trilhos Urbanos
Gal cantando o Balancê
Como eu sei lembrar de você
VELOSO, C. Trilhos urbanos. 1989. Disponível em: <http://letras.com.br/caetano-veloso/44784>. Acesso em: 5 jul. 2008.
1) Constituem afirmações verdadeiras sobre o texto:
(01) Em “Trilhos Urbanos”, Caetano Veloso manifesta-se sobre o passado, a partir de modelos que o presente lhe oferece.
(02) Na primeira estrofe, as noções de tempo e lugar se confundem na evocação do poeta.
(04) No verso 3, o “tamarindeirinho” — diminutivo afetivo — aparece no cenário como testemunha de fatos ocorridos no
passado.
(08) No verso 12, ao referir-se a “Apolo” e ao “rio Subaé”, o poeta relaciona um monumento da cultura clássica a um
patrimônio natural.
4
(16) Nesse poema-canção, as palavras do poeta demonstram a indissociabilidade do tripé sujeito, história e lugar.
(32) No texto em estudo, os valores da terra são desqualificados pelo enunciador.
(64) Nos versos de Caetano, a pluralidade de sentidos sugerida pela expressão “Trilhos Urbanos” permite ao leitor articular a
idéia objetiva de uma empresa de transporte com representações
poéticas dos caminhos de uma cidade determinada.
Resposta: 02+04+08+16+64
94
Analise com atenção a questão sobre a canção “As vitrines”, de Chico Buarque. Mostre aos alunos que, na
canção, a cidade é mostrada pelo eu lírico como um “lugar de perigo” e que o poeta trabalha com a
“coisificação” humana.
2) UFBA – 2009
AS VITRINES
Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
— Dá tua mão
— Olha pra mim
— Não faz assim
— Não vai lá não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir
Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão
BUARQUE, C. As vitrines, 1981. Disponível em: <http://www,chicobuarque.com.br/letras/asvitrin_81.htm>. Acesso em: 5 jul.
2008.
A leitura do poema-canção “As Vitrines” permite afirmar:
(01) A cidade é mostrada como lugar de perigo.
(02) O enunciador, na primeira pessoa, dirige-se à mulher amada, colocando-se como seu protetor.
(04) A idéia associada a “vitrines” acentua o aspecto da mercantilização de seres e objetos na cidade.
(08) O temor do sujeito apaixonado diante da possibilidade de coisificação da mulher amada é percebido no texto.
(16) A relação entre os termos “letreiros” (v. 7), “colorir” (v. 7) e “Embaraçam” (v. 8) expressa o deslumbramento do poeta com
o mundo citadino.
(32) Chico Buarque, ao dizer “Passas sem ver teu vigia” (v. 19), se apresenta como um poeta encantado por sua musa, que o
ignora.
(64) A repetida referência a “vitrines” reflete o fascínio que elas exercem sobre o poeta.
Resposta: 01+02+04+08+32
47
5
O poema a seguir foi retirado do livro Cadernos Negros - Os Melhores Poemas, compilação que reúne
textos selecionados de volumes de uma série de dezenove obras. Os poemas presentes na coletânea
trabalham com a reflexão sobre a cultura dos afro-brasileiros. Temas como a fome, a violência urbana, a
luta da mulher, a exclusão aparecem nos muitos poemas do livro.
O poema a seguir, denominado “Zumbi”, também faz parte dessa coletânea: As palavras estão como
cercas/em nossos braços/Precisamos delas./Não de ouro,/mas da Noite/do silêncio no grito/em mão feito
lança/na voz feito barco/no barco feito nós/no nós feito eu./No feto/Sim,/20 de novembro/é uma
canção/guerreira. (http://bayo.sites.uol.com.br/poemas_abelardorodrigues.htm. consultado no dia 24 de
maio de 2009, às 11h01). O poeta que escreveu “Zumbi” se chama Abelardo Rodrigues e é co-fundador do
Quilombhoje.
3) UFBA – 2009
LINHAGEM
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Me envia mensagens de orum
Meus dentes brilham na noite escura
Afiados como o agadá de Ogum
Eu sou descendente de Zumbi
Sou bravo valente sou nobre
Os gritos aflitos do negro
Os gritos aflitos do pobre
Os gritos aflitos de todos
Os povos sofridos do mundo
No meu peito desabrocham
Em força em revolta
Me empurram pra luta me comovem
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Eu trago quilombos e vozes bravias
[dentro de mim
Eu trago os duros punhos cerrados
Cerrados como rochas
Floridos como jardins
ASSUMPÇÃO, C. de. Linhagem. In: QUILOMBHOJE (Org.). Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo:
Quilombhoje, 1998. p. 31.
Sobre o sujeito poético, nesse poema, é correto afirmar:
(01) Situa-se na esfera de um ser envolvido com uma religiosidade tradicional africana.
(02) Aparece como uma figura multifacetada, que tende a acentuar tanto a igualdade quanto a diferença entre ele e Zumbi.
(04) É fruto de um nascimento predestinado, que tem como objetivo de vida a preservação de sua individualidade.
(08) Herda uma condição adversa, mas tem consciência de que nasceu para alterar a ordem encontrada.
(16) Revela-se um ser ambivalente, que não permanece ligado ao tempo e ao espaço que lhe deram origem.
(32) Assume uma posição coletiva com ideal de pacificação social e imposição de uma crença mítica.
(64) Confessa que as suas características advêm de sua origem e dela resulta uma espécie de missão que ele tem de cumprir.
Resposta: 01+08+64
73
A produção de Cazuza situa-se no contexto do rock dos anos 1980 e 1990.
No site oficial do artista (www.cazuza.com.br) há um texto em que Cazuza aborda sua produção e cita a
canção “Ideologia”. Se houver tempo, leia-o:
“A minha música faz parte de uma história que começou quando o meu avô, dono de um engenho em
Pernambuco, resolveu morar em cima do areal do Leblon (Rio de Janeiro), como terceiro morador da
região. Ali nasceu meu pai, João Araújo, que se casou com uma moça linda, Lucinha, que cantava como
um passarinho. Uma mulher que se tornou importante no cenário musical e que teve, numa das primeiras
novelas da televisão, sua gravação da música "Peito vazio" (de Cartola) incluída na trilha sonora. Gostava
de vê-la cantando e penso que isso influiu muito no meu futuro.
6
Meu pai também pesou muito. Ele sempre transou disco e, quando eu era menino, tinha a casa cheia de
artistas. Eram cantores que chegavam e saíam o tempo todo. Conheci Elis Regina, os Novos Baianos, Jair
Rodrigues, que gostava de brincar de me jogar para o alto, e outros cantores. Na nossa casa, se respirava
música o tempo todo.
Naquele tempo, queria ser um grande arquiteto e só me interessava em ficar fazendo mapinhas da cidade,
traçando ruas e desenhando edifícios. Essa mania acabou quando resolvi fazer vestibular e percebi que não
dava pra matemática. Como fazia mapas, fazia poesia às escondidas de meus pais, porque era um
romântico, um cara cheio de dores-de-cotovelo.
(...)
Aos 17 anos, comecei a descobrir que minhas poesias podiam ser letras de músicas, mas só assumi isso aos
23 anos, quando entrei no Barão Vermelho. Antes disso, procurei conhecer tudo sobre teatro, pois sabia
que era um bom veículo pra me tornar cantor. Fui falar com o Perfeito Fortuna, do Circo Voador, para
entrar no seu curso de teatro. Comecei, então, a ensaiar a peça do curso, "Pára-quedas do coração".
Cheguei a me empolgar no dia da estréia, quando o Léo Jaime, que também estava na peça, me falou que
conhecia um grupo musical que estava se formando e procurando um vocalista. Era um tal de Barão
Vermelho. Fui, no dia seguinte, ao encontro deles e minha história começou.
Dei de cara com quatro garotos fazendo um som que era um esporro: Roberto Frejat (guitarra), Maurício
Barros (teclados), Dé (baixo) e Guto Goffi (bateria). O Dé tinha 16 anos e os mais velhos eram o Frejat e o
Guto, que tinham 18. Eles não sabiam que eu era filho do presidente da Som Livre. Eram apenas um bando
de garotos que não se tocavam para quem fosse o filho desse ou daquele pai importante. Queriam apenas
fazer som, sucesso e despertar a atenção do público. Começamos em showzinhos por aí, em noitadas
underground.
(...)
Mas aconteceu que o Caetano Veloso estreou no Canecão o show "Uns", incluindo no repertório "Todo
amor que houver nessa vida", música de Frejat com letra minha. Logo depois, estouramos "Pro dia nascer
feliz", do nosso segundo disco, e, em seguida, veio "Bete Balanço", tema do filme de Lael Rodrigues.
Nosso terceiro LP, "Maior abandonado", nos deu um disco de ouro. Aí, a batalha estava ganha.
(...)
Estávamos prestes a entrar em estúdio para gravar o quarto LP quando resolvi cair fora. Foi ótimo para os
dois lados. A dor acabou, continuei superamigo deles, minha parceria com o Frejat ficou melhor ainda e
"it’s only rock’n’roll and we like it"!
(...)
Pra compor, não planejo absolutamente nada. Acho que sou a pessoa mais desorganizada que você pode
imaginar. Tudo me acontece de supetão, porque nunca sei como a coisa vai sair. Agora, quando a
inspiração vem, sou caxias mesmo, muito sistemático. Quando sento à mesinha para trabalhar, faço
mesmo. Se a idéia não pinta, puxo por ela até acontecer. Só sou disciplinado para trabalhar. Pode ser até as
quatros horas da manhã. Mas se começo uma letra, ela tem que sair. Depois fico semanas melhorando as
imagens, as rimas.
Desde o primeiro disco com o Barão, o Zeca me chama a atenção para o meu lado transgressivo. Em
minhas letras sempre me desnudei. Ele dizia:"Vá com calma, estamos em 82, a barra está heavy. Diga tudo
que passar pela tua cabeça, mas quer você queira, ou não queira, vou mandar para a censura letras
diferentes, bem inofensivas. Eles liberam, depois você canta e grava o que quiser cantar." Quase sempre
deu certo. Isto porque, no caso de "Só as mães são felizes", eu bobeei e mandei a letra certa. Vetaram, é
lógico. Não entenderam que era uma coisa moralista, pós-Nelson Rodrigues. (...).
(...)
Minhas influências literárias são completamente loucas. Nunca tive método de ler isso ou aquilo. Lia tudo
de uma vez misturando Kerouac com Nelson Rodrigues, William Blake com Augusto dos Anjos, Ginsberg
com Cassandra Rios, Rimbaud com Fernando Pessoa. Adorava seguir Carlos Drummond de Andrade em
seus passeios por Copacabana. Me sentia importante acompanhando os passos daquele Poeta Maior pelas
7
ruas à tarde. Mas meu livro de cabeceira foi sempre "A descoberta do mundo", de Clarice Lispector. Adoro
acordar e abri-lo em qualquer página. Para mim, sempre funciona mais que o I Ching. As minhas letras
têm muito desses ‘bruxos’ todos.
(...)
A minha ideologia é a da mudança. Nada de partido político. É a coisa de mudar o Brasil, em
qualquer dimensão. Eu não tenho partido, sério. Mas estou com as pessoas que podem mudar
alguma coisa, dou a maior força. Sou socialista por vocação, por natureza, por amor mesmo. Porque
acho que o socialismo está no meio, está entre o comunismo ditatorial e o capitalismo selvagem, num
ponto onde a iniciativa privada pode dar alguma coisa também.
Quando fiz "Ideologia", nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no dicionário. Lá estava escrito
que indica correntes de pensamentos iguais e tal… A música, por sua vez, é muito pessimista,
porque, na verdade, é a história da minha geração, a de 30 anos, que viveu o vazio todo. É meio
amarga porque a gente achava que ia mudar o mundo mesmo e o Brasil está igual; bateu uma
enorme frustação. Nos conceitos sobre sexo, comportamento, virou alguma coisa, mas deixamos
muito pelo caminho. A gente batalhou tanto e agora? Onde chegamos? Nossa geração ficou em que
pé?
(...) os problemas do Brasil parecem ser os mesmos desde o descobrimento. A renda concentrada, a
maioria da população sem acesso a nada. A classe média paga o ônus de morar num país miserável. Coisas
que, parece, vão continuar sempre. Nós teríamos saída, pois nossa estrutura industrial até permitiria isso. O
problema do Brasil é a classe dominante, mais nada. Os políticos são desonestos. A mentalidade do
brasileiro é muito individualista: adora levar vantagem em tudo.
Educação é a única coisa que poderia mudar este quadro. Brasileiro é grosso e mal-educado, porque não
pensa na comunidade, joga lixo na rua, cospe, não está nem aí. Este espírito comunitário viria com a
cultura. Acho que o socialismo talvez possa trazer este acesso maior à cultura de massa. Fazer como o Mao
Tsé-tung fez com a China. Educar todo mundo à força. Temos que estudar, ler, ter acessos a livros.”
(http://www.cazuza.com.br/sec_textos_list.php?language=pt_BR. Consultado em 24 de maio de 2009, às
11h17)
UERJ – 2009
COM BASE NO TEXTO ABAIXO, RESPONDA ÀS QUESTÕES DE NÚMEROS 04 A 8.
Ideologia
Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Freqüenta agora as festas do “Grand Monde”
Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Agora assiste a tudo em cima do muro
Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver
8
Eu quero uma pra viver
CAZUZA e ROBERTO FREJAT - 1988
www.cazuza.com.br
Questão 4
Nos dois primeiros versos, a palavra partido é empregada com significados diferentes.
Esta repetição produz, no texto, o seguinte sentido:
(A) revela o nível de alienação do sujeito poético
(B) reafirma a influência coletiva na esfera pessoal
(C) acrescenta elementos pessoais a um tema social
(D) projeta um sentimento de desencanto sobre a política
Resposta: D
Questão 5
Em duas estrofes, a expressão mudar o mundo é utilizada em um verso e repetida no verso seguinte entre
parênteses.
A repetição e o uso dos parênteses, no contexto, sugerem que o eu poético, com o passar do tempo, foi
levado a:
(A) um desvio de personalidade
(B) uma postura de acomodação
(C) uma afirmação da identidade
(D) uma busca de autoconhecimento
Resposta: B
Questão 6
A palavra “ideologia” é dicionarizada ora como “conjunto de idéias, pensamentos, doutrinas e visões de
mundo de um indivíduo ou de um grupo”, ora como “conjunto de idéias que visa à manipulação e à
alienação das pessoas”.
Os versos que melhor se relacionam à primeira e à segunda acepções, respectivamente, são:
(A) “Os meus sonhos foram todos vendidos” / “Eu vou pagar a conta do analista” (v. 4 e 19)
(B) “Meus heróis morreram de overdose” / “É um coração partido” (v. 10 e 2)
(C) “Eu quero uma pra viver” / “Freqüenta agora as festas do ‘Grand Monde’” (v. 13 e 9)
(D) “Meu sex and drugs não tem nenhum rock’n’roll” / “(Mudar o mundo)” (v. 18 e 22)
Resposta: C
Questão 7
O texto apresenta uma visão melancólica em relação à realidade.
Esse tom melancólico, no conjunto do texto, constrói-se principalmente com apoio no seguinte elemento:
(A) a menção à morte dos heróis
(B) a crítica às estruturas da sociedade
(C) o desejo da crença em uma ideologia
(D) a contraposição entre passado e presente
Resposta: D
Questão 8
E as ilusões estão todas perdidas (v. 3)
Este verso pode ser lido como uma alusão a um livro intitulado Ilusões perdidas, de Honoré de Balzac.
Tal procedimento constitui o que se chama de:
(A) metáfora
(B) pertinência
9
(C) pressuposição
(D) intertextualidade
Resposta: D
As questões a seguir estão relacionadas ao poema que estudamos neste tópico.
Aproveite os testes para verificar como você se sai.
UFJF – 2009
Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade, abaixo, para responder às questões de 9 a 12.
Confidência do Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas!
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes...
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
ANDRADE, Carlos Drummond. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Questão 9
Ao reelaborar, poeticamente, sua cidade de origem em “Confidência do Itabirano”, Carlos Drummond de
Andrade expressa sua identidade com Itabira. Em qual palavra pode-se melhor visualizar essa
identificação?
a) porosidade
b) trabalho
c) fotografia
d) ferro
e) herança
Resposta: D
Questão 10
O poema, como o próprio título diz, evidencia uma confidência, ou seja, a revelação de um segredo, de
algo íntimo. Pode-se ler que a confidência do poeta é o fato de ele ainda carregar Itabira consigo, ainda
“pertencer”. Qual verso melhor expressa essa confidência?
a) “Principalmente nasci em Itabira”.
b) “De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:”
c) “Tive ouro, tive gado, tive fazendas.”
d) “Mas como dói!”
e) “Itabira é apenas uma fotografia na parede.”
Resposta: D
10
Questão 11
No verso “Itabira é apenas uma fotografia na parede”, o termo APENAS permite:
a) ressaltar o quanto o poeta está fisicamente distante de Itabira, uma vez que ele saiu de lá há muito
tempo, sem nunca mais voltar.
b) enfatizar o fato de Itabira ser uma cidade pequena, de interior, portanto, não merecedora de maior
destaque em sua vida atual.
c) destacar o não desejo do poeta de retornar a Itabira, mantendo-a, por isso, somente como registro
fotográfico em sua parede.
d) acentuar que, como o poeta viveu muitos anos em Itabira, os valores ali adquiridos permanecem com
ele.
e) salientar a contradição entre a vida que o poeta teve em Itabira no passado, com ouro, gado e fazendas,
e a atua,l de funcionário público.
Resposta: A
Questão 12
Na poesia de Drummond, é comum observar a emergência de um sentimento que pode expressar uma
tentativa de ruptura com suas origens, mas sempre marcado pela não realização total desse movimento.
Em linguagem poética, isso se revela quase sempre pelo uso de antíteses ou paradoxos. Essa afirmativa
pode ser constatada em qual das opções abaixo?
a) “Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro”
b) “A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,”
c) “Este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;”
d) “Oitenta por cento de ferro nas almas.”
e) “E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,”
Resposta: E
A canção a seguir apresenta um grau de sofisticação bastante elevando. Leia-a e retome
as noções de paralelismo sintático, elipse e paradoxo.
UERJ – 2008
COM BASE NO TEXTO ABAIXO, RESPONDA ÀS QUESTÕES DE NÚMEROS 13 a 16.
Qualquer canção
Qualquer canção de amor
É uma canção de amor
Não faz brotar amor
E amantes
Porém, se essa canção
Nos toca o coração
O amor brota melhor
E antes
Qualquer canção de dor
Não basta a um sofredor
Nem cerze um coração
Rasgado
Porém, inda é melhor
Sofrer em dó menor1
Do que você sofrer
Calado
Qualquer canção de bem
Algum mistério tem
É o grão, é o germe, é o gen2
Da chama
E essa canção também
11
Corrói como convém
O coração de quem
Não ama
CHICO BUARQUE
In: CHEDIAK, Almir. Chico Buarque song book 3.
Rio de Janeiro: Lumiar.
Vocabulário:
1dó menor – um dos tons musicais
2gen – relativo a origem, nascimento
Questão 13
A coerência é determinada, entre outros fatores, por elementos que contribuam para a progressão do
texto.
Na letra da canção de Chico Buarque, a coerência do texto decorre da utilização dos seguintes recursos:
(A) marcação rítmica, repetição vocabular, paralelismo sintático
(B) marcação rítmica, repetição vocabular, multiplicidade temática
(C) repetição vocabular, paralelismo sintático, multiplicidade temática
(D) marcação rítmica, paralelismo sintático, multiplicidade temática
Resposta: A
Questão 14
A pluralidade de sentidos, característica da linguagem poética, pode ser obtida por meio de vários
mecanismos, como, por exemplo, a elipse de termos.
Esse mecanismo está presente, de modo mais marcante, no seguinte verso:
(A) “E amantes” (v. 4)
(B) “E antes” (v. 8)
(C) “Rasgado” (v. 12)
(D) “Calado” (v. 16)
Resposta: B
Questão 15
Diferentes relações lógicas são estabelecidas entre as orações que compõem as estrofes do texto.
Na segunda estrofe, essas relações expressam as idéias de:
(A) adição, contraposição e comparação
(B) negação, anterioridade e adversidade
(C) finalidade, contrariedade e consecução
(D) proporcionalidade, intensidade e conclusão
Resposta: A
Questão 16
Na última estrofe do texto, o mistério a que se refere o eu lírico indica uma construção paradoxal.
Os elementos que compõem esse paradoxo são:
(A) início e fim
(B) alegria e dor
(C) música e silêncio
(D) criação e destruição
Resposta: D
12
Download

I “Confidência de Itabirano” é um dos muitos poemas em qu